Lume Rubro

1 Capítulo 1 - 1676, Lion, A Família


Notas iniciais
Olá pessoas!! Faz muito tempo que não posto nada. Espero que gostem da fic, é uma história que tenho me dedicado muito!! Obrigada por lerem!

Era o ano de 1676, aniversário de Catarina, a mais velha dos Bossuelt. Dia 12 de fevereiro para ser mais específico, próximo ao porto de Lion, bem atrás do último farol do cais.

A garota estava na cozinha, a preparar o ensopado da família para o jantar. O cheiro de mar transpassava pela janela rústica e mal acabada que o irmão do meio, Joan, havia tentado incrementar com fechos para que, nos dias frios, quando o mar gritava e o vendo uivava ao longe, eles pudessem se aquecer melhor no cômodo em que comiam todos os dias. Como sempre, qualquer coisa que ele fazia parecia não funcionar bem, mas ele garantia que corrigiria o erro. E ela não podia negar que era um moleque esforçado.

Uma tosse seca e irritada atravessou o batente da porta até os ouvidos da garota que mexia a tal sopa. — Garota. Mas quando é que isso vai ficar pronto? — A menina, nem um pouco descontente virou-se para o pai encurvado, contudo, ainda jovem.

— Logo, papai. Espere até Joan e Daiana retornarem que servirei o jantar. — Ela pediu.

O senhor, que com certeza não tinha mais que cinquenta anos, concordou. — Estou querendo voltar a velejar. É possível que leve o pequeno Filipe junto. O que acha?

A garota não gostava nada da ideia, nos últimos meses ouvira muito dos marinheiros do porto reclamarem das reviravoltas do mar, mas acima de tudo, dos piratas ingleses. Aqueles malditos... Ela suspirou em resposta ao pai sem dar sinal de seu conhecimento. — Acho que não cabe a mim decidir. — Ela forçou outro sorriso, largando a colher com que mexia a sopa que, agora, já borbulhava. — Pergunte à mãe. — Ela propôs, agora cheirando ao caldo que começava a encorpar com o cheiro do coelho recém morto e escalpelado que tinha ido quase inteiro para a panela. Pelo menos, ia ajudar a alimentar a todos apesar da falta de carne.

— Está certa. — O pai se deu por contente com a resposta da filha. Ele tinha certeza que tudo que lhe tinha ajudado a fazer, tal qual aprender a ler, o latim, o francês e o inglês, além das aulas caríssimas de piano, etiqueta e até esgrima não seriam para nada. Um dia ela se casaria. E traria respeito de volta para a família. Um dia.

A jovem mais uma vez sozinha, continuou a mexer a sopa, momentaneamente mudando para ajeitar o fogo que ela mesma tivera que produzir. Antes que percebesse, a noite se estendeu, o pôr-do-sol mais uma vez estava em seu último tom avermelhado quando Catarina olhou pela janela, preocupada com seus irmãos do meio. Onde eles teriam se metido?

Antes que pudesse tomar qualquer atitude sobre o assunto, a mulher, que ela menos queria ver na hora surgiu na divisória da pequena sala-de-estar e da cozinha. E antes que pudesse se defender, berros esganiçados começaram:

— Mas, menina! — Gritava a jovem gorda e baixinha a sua frente. — Não disse ao seu pai sobre Sr. Trimente?! — A mulher parecia prestes a um ataque. As grandes bochechas sardentas estavam mais vermelhas que o normal e seu cabelo ruivo parecia mais desarrumado do que o de costume.

Não olhando para a dona da voz, acabou respondendo. — Não, mamãe. — A garota disse com calma.

— Pois então apresse-se e lhe conte! Você não vai ficar mais jovem, sabia?! — A mãe parecia realmente atacada, como um ganso correndo atrás dos tornozelos de dois amantes do parque.

— Eu não vou me casar.

— Como assim? — A mãe correu para frente da menina com pequenos passinhos bem compassados. — Acha que tem a audácia de resolver isso por si mesma? Acha que vai conseguir coisa melhor?! — Agora era certo de que a mulher estava sofrendo de uma taquicardia, porque começou a se abanar com as mãos.

— Não acho nada. Só não vou me casar. — Pelo menos, não com ele... Ela queria completar, mas não teve coragem devido a já reclamação que fazia à mãe.

Além do mais, não era como se realmente estivesse morrendo, já senil e sem nenhuma forma de sedução. Ela ainda tinha alguma idade, especificamente 22, ela não era tão velha, era?! Tudo bem, talvez, realmente, estivesse ficando bem velha... Mas, de toda forma, não queria que esse pensamento ganhasse no meio da discussão, então preferiu excomungá-lo. Como sua mãe era insensível. Como ela queria que ela se casasse assim, com qualquer um?!

— Garota! — A mãe lhe puxou a orelha. O que a fez, finalmente, olhar a mãe nos olhos. — Saiba que tem que se assentar! Daqui a pouco sua irmã já se casa! — Ela apertava e puxava a orelha da filha.

A menina queria gritar de dor, com os olhos lacrimejando, mas o que ela deveria fazer?! Casar com alguém que nem conhecia e achava um completo energúmeno não era uma opção.

— Olá! Estamos em casa! — A voz dos dois pequenos soava alta.

No momento em que a porta começou a se abrir a mãe largou a filha mais velha, que rapidamente secou as lágrimas que quase rolavam por suas bochechas. — Sejam bem-vindos. — As duas disseram em uníssono. Aparando um sorriso cálido nos lábios.

— Vocês estão bem? — Perguntou Daiana para as duas que se encontravam um tanto atônitas. Apertando as sobrancelhas no centro da testa

A mãe gesticulou para que parasse, ou ficaria com rugas.

— Sim... — Elas disseram ainda mais atônitas que antes, Catarina sentia que ia ter uma úlcera.

— Tá... — Daiana continuou, fingindo acreditar nas duas matriarcas, jogou alguns dos vegetais que acabara de pegar na venda próximo do cais. — Vou cumprimentar o pai.

— Eu vou com ela. — A senhora de cabelos e rosto vermelhos saiu da sala, seca e ainda com raiva da filha mais velha. A coitada, por outro lado, só pensava em como a mãe conseguia ser banal com todo aquele assunto.

Apesar de incorreto, sabia que se quisesse não casar, isso também seria uma opção, que poderia cuidar dos pais até que morressem e, depois, ficar na casa. Afinal, ninguém se importava com eles de toda forma, para que casar e ter que se preocupar com ainda mais gente além da família. Não era como se eles tivessem qualquer status social para começo de conversa...

— Hum... — A garota concordou, ignorando tudo que corria em seus pensamentos.

O irmão mais velho, ainda assim, mais novo que Catarina a observou.

— Que que é? — Perguntou, com um sorriso debochado.

— O quê?! — A irmã estava irritada, mas não queria demonstrar.

— Desembucha. — O irmão acabou de se apoiar contra um dos bancos de madeira que seu pai usava para descansar a perna mal cuidada e putrefata, causadora do seu mancar.

— Não é nada! Para! — Mandou, retirando a panela de barro do fogo.

O garoto riu. — Claro... — Reclamou. — Vou fingir que não sei de nada. Mas ainda assim, posso te contar umas coisas, né? — Ele reclamou.

— Desembucha. — Ela o imitou.

— Primeiro, toma aqui. — O irmão, que era mais alto que Catarina lhe entregou dois coelhos que ainda pingavam de sangue.

Ela franziu todo rosto, com nítido nojo da situação. — Quantas vezes tenho que pedir para não fazer isso. Dá mais trabalho para cozinhar depois. A carne fica dura! — Ela reclamou, retirando os animais de perto da comida, teria que limpá-los mais tarde.

O irmão revirou os olhos, se ela achava que caçar era tão fácil assim, porque não ia ela mesma?! — Tá, tá! Vou tentar ter mais cuidado. — Concluiu sem querer discutir muito. — Agora, escute! — O irmão chegou perto para poder cochichar. Ele parecia precisar falar o que sabia para alguém. — Os marinheiros estão inquietos. — Ele começou. — Estão falando que há um navio que não deságua há mais de três semanas.

A ouvinte deu de ombros. — Mas, e daí? — A garota loira reclamou. — Existem vários cargueiros esperando pelas ostras de março e que só vão zarpar no fim do mês... — Começou a garota, já sabendo de cor a rotina do porto.

— É esse o problema. Não há velas de sinalização, não tem país!... — O irmão terminou.

Agora o assunto ficava muito mais sério do que antes. — Quer dizer que... — Ela parou para pensar, virando-se para a janela, ainda aberta, de onde se escutava o som das ondas batendo ao longe e sino do farol chamando pelos últimos marinheiros que não eram pesqueiros. A garota de prontidão fechou-a, sentindo um calafrio. Logo em seguida, sem que quisesse, percebeu seu rosto estremecer.

— Eu acho que sim...

A garota parecia mais uma vez pensativa. — Avise o papai. Jantaremos nos quartos. Eu vou cuidar de Daiana e de Filipe, você fica com mamãe e papai! — Mandou a garota mais velha.

— Tem certeza? — Ele confirmou.

— Sim. É o mais seguro. — A garota mordeu o lábio. Não queria admitir o que martelava em sua cabeça todos os dias. No fundo, era tudo muito mais simples do que queria admitir, eles tinham que sair dalí. — Acho que vou ter que casar.

O irmão pareceu inquieto após a frase da irmã, mas, também sabia que essa decisão era o mais razoável e, talvez, o essencial. Eles tinham que dar um jeito de ir para a capital. Ela tinha razão nisso, e era a que daria a última palavra. Eles tinham mesmo que sair do Porto de Lion, as condições atuais estavam muito difíceis. Os dois se entreolharam, ouvindo o grito do Sr. Guinner:

— Últimos marinheiros ao cais! Marinheiros ao cais!

Eles se entreolharam mais uma vez, ouvindo o assovio do farol, agora com a comida em mãos, cada um com uma vela apagando as outras.

— Odeio os ingleses. — Começou o irmão.

— Eu também. — A irmã concluiu, tentando transformar a casa em apenas mais uma das miragens que a névoa da noite poderia apresentar.

O apito alto do farol foi a última coisa que eles ouviram antes de se tornarem completamente invisíveis.

Notas finais
Por favor, deixem um review, uma mensagem, um suspiro de alegria ou ódio!! Obrigada mais uma vez. Espero que gostem da história e que acompanhem. Kissus!