Wonder4land
3 Carta 3. Os Hábitos do Meu Coração
Notas iniciais
Caro leitor,
Algumas coisas aconteceram durante essas últimas semanas, e, sentada nessa cama fria, eu realmente não sei como colocar em palavras o que eu estou sentindo. Para ser sincera com você, caro leitor, eu não sei o que está acontecendo comigo. Eu estou perdida.
O primeiro de tudo, caro leitor, é que eu tenho um coração vagabundo. O que minha mente decide, meu coração é completamente contra. E isso, caro leitor, está me matando lentamente. Eu sinto isso em praticamente todos os momentos: quando eu estou caminhando, indo para casa; no shopping; nas festas; e até mesmo na rodinha com meus amigos. É uma coisa que vai lentamente domando minha cabeça, e meu corpo, caro leitor. E tudo isso é por causa dos hábitos do meu coração.
Eu tinha desistido de encontrar amor e eu continuo firme à essa promessa. Desde o Moreno, eu realmente não tenho deixado ninguém entrar no meu coração. Eu não me fechei totalmente, não. Eu só não permiti que ficadas de uma noite e estranhos perfeitos tivessem um lugar no meu coração. A noite era longa, e eu só virava a plaquinha de "Procura-se amor" para a placa de "Fechado para manutenção".
Não foi fácil, caro leitor. Não foi fácil dizer não para meu coração teimoso e esperançoso por amor, e não foi fácil dizer a ele que aquele cara não era o cara certo. Não foi fácil o coração trazer velhas memórias à tona, e definitivamente não foi fácil sentir a dor de querer ser amado e não ser.
Meu coração desacostumou a não ter mais mensagens de bom dia no celular. Desacostumou a não ter mais alguém correndo atrás, e ele realmente desacostumou a ficar sozinho. Meu coração foi sempre acostumado a ser amado, sempre foi acostumado a ter alguém, sempre foi acostumado ao calor.
E é por isso que ele ficou tão desesperado quando se viu sozinho e quebrado no meio da multidão.
Ele tentou se apegar à estranhos perfeitos. Ele tentou se apegar a sorrisos, e tentou se apegar à pessoas e à momentos. E caro leitor, uma das coisas mais tristes da vida é ter um coração carente. E uma das piores sensações é sentir seu coração quebrado.
Eu passei muito tempo tentando me reencontrar, caro leitor. Foram muitas noites de insonia, muitas noites sentada na sacada olhando para as luzes da cidade ficarem embaçadas enquanto as lágrimas caiam, e foram muitas noites em que tudo o que eu queria fazer era deitar e desejar que a dor fosse embora. Houve muitas manhãs que eu não queria sair da cama, e houve muitas tardes chuvosas em que eu só queria ficar assistindo meus seriados, sem me preocupar com o mundo.
Eu sabia que eu precisava sentir a dor, caro leitor, mas eu não sabia que ela seria tão forte assim. Eu nunca soube que querer amar seria um fardo, eu nunca soube que o peso de querer amar poderia ser tão pesado. Eu me apeguei à estranhos perfeitos. Eu me apeguei à momentos, e definitivamente tentei me apegar à algo que não era planejado para mim.
Eu li livros de romance, vi filmes de esperança sobre finais felizes, me aproximei mais das pessoas, fui em festas, bebi, chorei, dancei, sorri, e tentei viver um pouquinho mais, caro leitor. Tentei aquietar meu coração, mas nada era o suficiente. Era passageiro, e definitivamente momentâneo todo e qualquer sentimento que a vida lhe oferecia. Nada era quase o suficiente, quase bom o suficiente. Meu coração queria outro, para acompanhar o ritmo dos batimentos. Meu coração queria outro, para sentir o calor. Meu coração queria outro, para poder sentir o amor. E definitivamente, meu coração queria outro para não ser mais sozinho.
A cola que eu tinha usado para colar os pedaços quebrados está finalmente secando, mas ainda falta pedaços, caro leitor. Pedaços que eu perdi, pedaços que algumas pessoas pegaram, pedaços que não se encaixam mais, pedaços que eu joguei fora.
Havia coisas que eu tinha dito adeus, e coisas que eu havia de fato jogado fora. Coisas que não me serviam mais, assim como aquele tênis velho, ou como aquela escova de dente que só acaba machucando os seus dentes em vez de cuidá-los. Eu me desfiz em um milhão de pedaços quando fui quebrada, e ainda assim não consigo me encontrar, mesmo tentando me reconstruir. E no meio do meu caos, eu não consigo dizer não aos hábitos do meu coração.
Eu tenho um coração machucado, um coração carente, um coração que pede por amor, um coração que quer amar, um coração que é cheio de vida, mas que está lentamente morrendo e cada vez mais acreditando menos — na sua função — e naquilo que lhe deveria fazer bem. Eu tenho um coração que bate e que luta, mas que sabe quando está para perder. Um coração que bombeia não só sangue, mas vida para todo o meu corpo. Eu tenho um coração que sofre. Eu tenho um coração sonhador, um coração iludido.
Eu não consigo dizer não aos estranhos perfeitos, e não consigo dizer não ao desejo de querer ser amada. Ser amada por uma noite, por algumas horas, por alguns instantes, segundos, que seja, mas que seja amada... Eu não consigo dizer não ao hábito do meu coração de querer, mesmo negando, aquele porto seguro, aquele cara, aquilo que me foi reservado.
Eu não consigo dizer não aos hábitos do meu coração, e isso está me partindo ao meio.
E por isso eu virei a placa, caro leitor. E por isso que eu disse sim. E por isso que eu fechei meus olhos e deixei as mãos correrem pelo meu corpo, e deixei ser marcada pelo beijo e deixei o perfume na minha blusa. Por isso acordei na manhã seguinte e tentei não sentir o arrependimento, e tentei não me apaixonar pelo momento, pelo toque, pela risada, ou simplesmente por ter tido alguém.
Porque se ele chegasse perto demais, seria difícil de deixá-lo ir, tudo porque eu não consigo dizer não para os hábitos do meu coração.
E tudo porque talvez, eu tente desesperadamente me sentir segura dentro de um abraço. E tudo porque talvez eu tente me sentir amada, e tente me sentir bem. E tudo porque talvez, eu tente inutilmente te procurar no meio da multidão. E tudo talvez, porque eu tente encontrar aquilo que me foi reservado.
E caro leitor, eu não fazia ideia do que a vida tinha reservado para mim.
Com carinho,
cacheada.
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