Wonder4land
4 Carta 4. Vermelho e Roxo
Caro leitor,
As mãos dele passam dos meus braços para a minha cintura, e para dentro do meu short, e eu me obriguei a pensar em mais nada. Eu sinto o corpo dele prensar contra o meu e eu dou um gemido baixo quando ele me aperta contra a parede. Eu sinto o corpo dele, em cada centímetro, eu sinto a boca carnuda dele contra a minha, junto do gosto de limão e tequila, e parece que o mundo está rodando.
Ele me coloca em cima da bancada e eu puxo seu corpo contra o meu, com minhas pernas na sua cintura. Eu me sinto quente, eu me sinto leve, eu me sinto um pouco bêbada, e ele sabe disso, porque ele também está. A noite não estava mais fria, ela estava quente e excitante. A música se tornou um mero sussurro, e eu só queria sentir algo amais. Eu não estava mais sozinha, o loiro estava ali, puxando minha blusa pra cima enquanto sua boca devorava a minha. Eu não estava mais triste, pois meu sangue corria pelas minhas veias como fogo, e meu coração estava batendo com vontade. Eu sentia falta disso. Eu sentia falta de sentir.
Quando percebo, ele estava me levando para as escadas enquanto me beijava e meus pés tropeçam contra os deles. Sua risada gostosa quebra nosso beijo e eu tento ver seu sorriso, mas ele não passa de um borrão na minha mente. Ele não passa de um borrão loiro, com gosto de tequila e um perfume viciante. E assim que pisco, eu estava deitada na cama, com ele tirando minha roupa. Suas mãos tiram rapidamente meu sutiã preto, e sua boca vai diretamente para meu peito, e eu gemi enquanto segurava os cabelos da nuca dele. Sua outra mão vai para dentro do meu short, e brincam com minha boceta molhada por cima da calcinha, e eu só sei abrir mais as minhas pernas.
Ele morde a minha barriga e eu arquejo minha coluna, sentindo suas mãos arrastarem meu short pelas minhas pernas e sua boca indo cada vez mais perto de onde eu piscava feito luzes de Natal, mas deixa a calcinha. Sua boca quente lambe, beija e morde levemente por cima do tecido, e eu gosto dessa tortura. O loiro retira a calcinha lentamente, enquanto morde e chupa o interior das minhas coxas, e eu seguro forte no lençol. Quando ele finamente me dá o que quero, seguro nos seus cabelos e gemo alto. Suas mãos pegam meus pulsos e os prendem com força ao lado de meu corpo, e sua língua passa lentamente por cima do meu clitóris.
E depois, quando eu estava sentindo queimar de prazer e quase gozando, ele para e me vira pra ficar deitada na cama. Eu estava ardente, arfante, e só queria parar sentir essa agonia no meu peito. Quando ele se encaixou em mim, prensando o corpo contra o meu, eu gemi, e senti suas mãos fortes segurarem em meu corpo.
A noite foi longa e quente caro leitor, mas a manhã chegou fria e rápida, acompanhada pela maior ressacada da minha vida, e com lágrimas em meus olhos. Eu acordei, e meu peito estava pesado de culpa. Eu estava triste, e o loiro ao meu lado somente se virou para o outro lado da cama e continuou dormindo. Eu me senti mal, e mais lágrimas vieram dos meus olhos. Lágrimas quentes e grossas. Eu me senti pior quando olhei para o meu reflexo, e não reconheci a garota que o espelho refletia.
Seu corpo inteiro estava marcado em uma pintura dolorida de vermelho e roxo, e ela parecia pequena, frágil, quebrada. Seus olhos estavam machados de preto da maquiagem, e sua boca inchada e vermelha. Ela toca suas cores e mais lágrimas caem de seus olhos. Ela percebe o que ela mesma se tornou, e chora por isso.
Ela chora porque percebeu o quão frágil ela se tornou depois que foi quebrada em milhões de pedaços pelo cara que ela confiou e amou. Ela chora porque toca agora aonde queria que ele tivesse tocado, e não o loiro. Ela chora porque em seu corpo está a pintura de outro artista, e não daquele que ela queria que a tocasse, esculpisse, pintasse e dedicasse seu tempo e amor. Ela chora porque se vê pequena, e não se vê mais aquela mulherão da porra que tinha o sorriso mais lindo, o olhar cheio de vida, e um coração amoroso e gentil. Ela chora porque acordou ao lado de quem ela usou para substituir o vazio dentro dela.
Ela chora porque você permitiu que isso acontecesse. Você permitiu que ela se apaixonasse e se entregasse. Ela chora porque você a deixou vazia, você tirou a vida e o amor de dentro dela, e ela só quer isso de volta. Ela quer o coração que você só brincou, e quer curá-lo, mas não percebe que o processo é lento, dolorido, e exige renascer, cuidar de seu próprio jardim, e ser a artista de sua própria arte agora.
Ela chora porque sente saudade, não só do calor, do sexo, e das mensagens, mas sente falta do amor, da risada e de estar ao seu lado. Ela sente falta da vida que teve do seu lado, e sente falta de você, e de você fazendo-a sua. O loiro, e todos os outros que vieram depois de você, foram usados como tampa buracos dela, e ela se culpa disso. Ela se culpa por querer desesperadamente sentir qualquer outra coisa do que a dor que você deixou. Ela se culpa por usar de todos eles para tentar tirar você de dentro dela.
Você ainda está no canto mais escuro e afastado da mente dela. Você ainda está dançando nos sonhos dela, e sendo lembrado quando ela menos espera e deseja. Ela ainda sente seu toque, mesmo com você há quilômetros de distância. Ela ainda escuta sua voz mesmo sem você falar uma palavra, e ainda te espera como te esperava chegar em casa no sábado pro almoço.
Você foi egoísta, e não ficou para ver o desastre que deixou para trás. Não teve a coragem de ver o quão quebrada e danificada ela ficou, e não teve coragem de ver como ela está agora tentando inutilmente se recompor de novo.
Você a quebrou de uma maneira que ela nunca mais vai conseguir se recompor. Você a quebrou de uma forma que os pedaços se estilhaçaram aos milhares, e não há cola nesse mundo forte o suficiente para junta-los novamente. Você matou o jardim que florecia dentro dela, e agora, nem ervas daninhas crescem.
Ela transa com outros caras, ela escutas músicas de rock, e saí todo sábado à noite com os amigos para beber e ouvir músicas boas para tentar se ocupar com qualquer coisa que não lembre você. Ela coloca aquela porra de sorriso na boca carnuda dela, e coloca maquiagem para esconder as olheiras das noites de insônia. Ela sabe esconder muito bem os quebrados, e sabe como se aproveitar daqueles estranhos perfeitos que olham pro seu corpo e o cabelo ruivo, e ela sabe fingir o sorriso que conquista, e sabe fingir estar bem para tentar sentir algo.
Ela segura o choro toda vez que perguntam se ela sente sua falta, e já se acostumou a mentir que estava melhor sem você. Ela tenta demonstrar essas mentiras, mas dentro dela, ah, caro leitor, ela não consegue mentir para si mesma. Ela sente dor toda vez que vê os snaps dele nos celulares dos amigos em comum, e morre um pouquinho mais toda vez que escuta o nome dele.
Ele é o fantasma que a atormenta quando menos espera, ele é a dor que permanece à cada batida. Ele é a memória que não quer ser esquecida, e será para sempre o primeiro amor.
E eu não consigo deixá-lo ir.
Eu coloco a camisa cinza grande que estava em cima da pia e prendo meu cabelo em um coque. Lavo meu rosto, e com o pouco de dignidade que me resta, eu volto para o quarto. Pego uma folha qualquer e anoto com o lápis em cima da escrivaninha que estava indo para casa e que estava bem. Quando fui deixar o papel no travesseiro, o loiro se vira, sonolento, com o cabelo bagunçado e a cara amassada. Eu não falei, e ele também não. E não foi preciso palavras. Ele sabia.
Ele pega levemente minha mão e me puxa para a cama. Ele me ajeita contra seu corpo e me prensa por alguns instantes em um abraço quente e confortável. Ele beija o topo da minha cabeça e eu me ajeito mais ainda contra seu corpo, sendo envolvida pelos braços fortes e pelo perfume dele.
Não foi um momento romântico, caro leitor, pois o Cassi não é desse tipo. E eu sei disso. Ele só entende como eu me sinto, e sou grata por ele não me julgar ou me machucar mais ainda por isso. Ele me acolheu naquele abraço pois sabe como é acordar no outro dia e se decepcionar por não ver a pessoa que queria ao seu lado. Ele me beijou ontem à noite porque sabia que eu queria sentir qualquer coisa menos aquela dor. E ele sabia que eu ia deixar, porque ele me amaria honestamente. E eu preferi ser amada por ele naquela noite do que por qualquer outro estranho perfeito, porque sei que ele é tão danificado como eu.
Eu ainda sinto a dor, e ainda sinto agonia dentro de mim. Eu ainda amo, caro leitor, e eu sofro por isso. Apesar de cometer mil erros e de me machucar cada vez mais, eu estou tentando me consertar. Eu preciso aprender a caminha de novo, e preciso respirar. Preciso colar meus pedaços e preciso aprender a sorrir sinceramente de novo. Eu preciso, e sei que não é fácil esse processo... Mas será necessário. Eu só preciso de forças para fazer isso.
Eu percebi naquela manha fria e triste que estava tudo bem em eu amar intensamente. Tudo bem eu me preocupar e me doar sempre por inteira. Eu aprendi desde pequena à fazer pequenas coisas com grande amor. Tudo bem.
Tudo bem eu amar quem não me ama, e tudo bem eu estar vazia assim. A vida tem dessas, caro leitor. Eu só preciso aprender a amar os outros novamente também, da mesma intensidade que eu amava antes de ser quebrada. E eu preciso encontrar uma forma de me preencher da maneira correta.
Mas antes de tudo caro leitor, eu preciso a amar novamente a mim mesma. E eu preciso descobrir como cuidar do meu próprio jardim em vez de esperar alguém me trazer flores.
Com carinho,
cacheada.
(Sinto muito, caro leitor. Quem sabe um dia eu te conte quem me quebrou e o que aconteceu. Mas agora eu não tenho forças para contar. E acho que nunca encontrarei forças para falar disso.)
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