Wonder4land
5 Carta 5. Oito Meses
Notas iniciais
Caro leitor,
As luzes da cidade brilhavam feito estrelas no horizonte, e eu nunca me senti tão livre como me senti hoje. Eu estava dirigindo pela BR, ouvindo aquela linda música no rádio enquanto meus amigos riam e conversavam espremidos no banco de trás. Éramos os únicos na estrada, a cidade estava longe e bela com todas aquelas milhares de luzes brilhantes, e eu finalmente pude respirar, caro leitor.
Os vidros estavam abaixados, e eu conseguir respirar fundo o ar frio da madrugada preencher meus pulmões, e o senti beijar o meu rosto, enquanto acariciava meus cachos. O frio envolve meu corpo e me arrepia toda, mesmo eu estando com aquele moletom grosso. As estrelas brilham no céu, assim como as luzes da cidade se aproximavam cada vez mais. Eu não estava com pressa, caro leitor. Eu só estava dirigindo, sendo guiada por aquelas luzes, enquanto sentia leve.
Eu estava livre das pesadas correntes que me impediam de correr para o que a vida tinha me reservado. Eu tinha me desprendido de toda culpa, de todo remorso e de toda dor. De tudo. E eu pude respirar, sentindo minha alma mais leve. Ah caro leitor, parecia que eu podia voar por aquela BR. Eu me senti infinita por estar pertencendo à mim mesma, sem estar amarrada à ele, ou ao Fernando, ou ao Felipe, ou à qualquer outro cara que eu tinha me entregado sinceramente.
Fazia séculos que eu não me sentia assim, caro leitor. Parecia que fazia séculos que eu não conseguia simplesmente respirar. Fazia séculos que eu sentia em cada célula do meu ser esse sentimento gostoso de estar livre. Essa foi a primeira vez que eu senti meu coração bater amor próprio, e que consegui sentir paz.
Eu sei que o processo foi lento. Foi dolorido, e eu tive que me reconstruir mil vezes e ainda assim, me vi quebrada novamente por mais outras mil vezes também. Eu mesma me quebrava por deixar entrar as pessoas erradas no meu coração, tentando desesperadamente sentir novamente amor. Eu amei estranhos perfeitos que não me mereciam e não dei amor à quem realmente merecia. Isso é uma das coisas que mais me arrependo, caro leitor. Ter permitido me usarem na esperança de achar que aquilo era amor.
Perdi as contas de quantas madrugadas me perdi por essas ruas, por quantas vezes saí dirigindo sem rumo com o rádio ligado no máximo, e não faço ideia de quantas vezes eu bebi para tentar sentir algo. Quantas vezes eu só dancei, por quantas vezes eu só dirigi, e por quantas vezes eu só transei para tentar ficar bem. Só para arrancá-lo das minhas entranhas, e apaga-lo do canto mais escuro da minha mente. E ele ainda estava lá.
Meu canteiro de rosas tinha morrido, e nascia somente ervas daninhas. Não havia luz dentro de mim, somente poeira. A antiga cacheada, a melhor versão de mim, havia morrido naquela quinta feira, meses atrás, quando o primeiro amor disse “eu não te amo”. Se eu soubesse que amar uma pessoa fosse me tornar tudo o que me tornei, fosse dar em tudo o que deu, eu não teria levantado da cama naquele dia.
E foi foda, caro leitor. Foram meses errando, tentando estupidamente superar, esquecer e afogar todas as memórias e sentimentos que rugiam dentro de mim. E o pior de tudo, era que ele me deixou quebrada, e não se deu o luxo de olhar para trás e ver meus pedaços estilhaçados no chão.
Eu tive um puta processo de recuperação. Eu tive sim que me remontar e jogar fora os pedaços que não cabiam mais em mim e tive que jogar os pedaços e memórias dele para longe de mim, pois cada vez que eu me apegava mais à eles, mais eu me torturava. E tive que fazer essa faxina sozinha nas inúmeras noites de insônia, e eu percebi que cada vez que eu mesma ia retirando ele do meu organismo, perdoando e deixando ir cada memória, cada toque, cada beijo, cada promessa, e cada segundo nosso, eu percebi que pelas fissuras dos meus quebrados, nasciam pequenas flores à cada momento que eu respirava e me decidia a deixar ir. Cada vez que eu pensava e me doía, eu perdoava, e respirava, não fugindo da dor, mas também não deixando ela fazer morada aonde eu queria sentir vida, amor, e calor. Não. Eu perdoei ele, e no momento que eu perdoei a mim mesma por tudo o que aconteceu, por tudo o que ele fez comigo, e por tudo o que eu fiz depois para tentar ficar bem, aí sim caro leitor, foi aí que eu pude realmente seguir em frente.
Eu aprendi que quem ama, pode ir, mas nunca realmente parte. Eu aprendi que crescer significa muito mais que amadurecer. Significa aprender a perdoar, significa desejar o bem da pessoa mesmo ela não estando com você, e estar feliz por ela estar feliz com quem ela realmente ama. Mesmo apesar de tudo, e mesmo apesar de todo esse tempo.
Tudo bem que você se machucou por amar. Tudo bem que você ficou amargo em vez de ser doce, e que você cometeu mais erros do que acertou. Tudo bem mesmo. Tudo bem que você sentiu raiva, tudo bem que você chorou. Tudo bem que você quebrou por inteiro e tudo bem que você fez o que fez.
Eu tenho mil histórias para contar sobre cada aventura que eu tive por estar com meu coração quebrado, e não me orgulho de metade delas. Mas elas formaram a cacheada que hoje escreve essa carta, e que não possui mais machucados, somente cicatrizes das fissuras que agora saem lindas flores.
Eu posso respirar agora. Eu posso caminhar e sentir cada passo ser mais leve que o outro. Meu passado não está mais rasgando minha alma. Eu floresci. Meu jardim estava crescendo e estava forte, e eu sabia bem no fundo da minha alma, que agora quem realmente deveria estar comigo, vai entender que eu tenho um passado, mas que a cacheada de agora pertence principalmente à ela mesma, e que algo dentro dela nunca mais vai permitir ela amar outra pessoa mais do que ela deve amar a si mesma.
Não havia mais cordas me prendendo com todas as forças ao meu passado quando eu dirigi por aquela BR. Não, caro leitor. Não tinha nada mais me segurando para trás. Não havia culpa, havia vento beijando meu rosto. Não havia mais lágrimas, eu sorria por trás do volante com as luzes da avenida iluminando as enormes palmeiras que balançavam com o vento. Não estava mais machucada, pois crescia dentro de mim amor próprio, e eu cultivava meu próprio jardim, eu cultivava minha própria beleza. Não havia mais dor, pois eu estava livre de tudo o que me machucava.
E tudo porque eu decidi me perdoar.
Eu espero do fundo do meu coração, caro leitor, que você consiga passar por esse puta processo de amor a si mesmo, e de conseguir perdoar a si mesmo.
Com carinho,
cacheada.
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