Verzweiflung

2 Capítulo 2: O Comerciante


— Eu quero 5 kg de açúcar, 10 kg de farinha, 5 kg de ervilhas, uma garrafa de azeite, 1 kg de sal, 100 g de bicarbonato, 100 g de pimenta, quatro repolhos médios, 1 kg de pimentões, 100 g de folhas de louro, 1 kg de cebolas, 500 g de gengibre. Anotou tudo Herr Perl? — Marie Miller, a mãe de Hans, conferiu sua lista de compras na mercearia.

— Ulrich já providenciará seus mantimentos, Frau Miller. — O comerciante solícito abaixou a cabeça para se dirigir à freguesa. Ele era um homem alto e magro, embora meio corcunda pela má postura através dos anos.

— Tudo bem, eu espero que seu empregado arrume tudo. Esse nome \"Ulrich\" não me parece judeu. Pensei que vocês somente empregassem os próprios parentes. — Marie inquiriu o comerciante.

— Realmente, é nosso costume manter os negócios em família. Este aí é da parte desgarrada do oeste. O pai dele não segue nossas tradições ao pé da letra. Que posso fazer? — O comerciante desculpou-se pela família.

— Isso infelizmente é muito freqüente hoje em dia. Os hábitos e costumes de minha infância se perderam. Isso aconteceu devido à guerra. Parece que a cabeça de todos ficou desajustada. — Marie filosofou enquanto seguia com os olhos o movimento na mercearia.

— E vosso marido Frau Miller, como tem passado?

— Muito bem obrigada, tanto é que podemos fazer compras. — Marie sorriu comedidamente. Ela não gostava de indiscrições sobre sua família, mas o comerciante era antigo morador do bairro, e todos o conheciam.

— Muito me alegro em ouvir estas boas notícias. Pode me entregar agora o cupom de racionamento? — O comerciante estendeu a mão, esperando pelo documento imposto pela política do governo.

— Oh, desculpe-me, esqueci do cupom em casa. Foi a pressa em fazer as obrigações, mas não se preocupe, logo mandarei meu menino trazer-lhe o cupom. Pode confiar. — Marie sorriu tranquilamente.

Ela realmente esquecera o cupom. Não estava acostumada a depender de autorização do governo para fazer suas compras de mantimentos.

— Frau Miller... Tudo bem, eu aguardo vosso filho me trazer o cupom, mas isso é perigoso. Esse novo Chanceler que aí está é muito rígido e severo. Se eles souberem que vendi sem cupom, podem me prender. — O comerciante falou com um olhar arregalado e a voz grave.

— Herr Perl está exagerando. Eu sei que depois da guerra e da recessão as coisas ficaram muito difíceis, mas agora é tempo de fartura e progresso. Tenho certeza que o racionamento de alimentos irá terminar. — A boa mulher sorriu.

Marie Miller pegou suas compras e saiu da mercearia de bom humor. Sua vida estava mudando para melhor. Seu marido fora empregado e estava dando duro, mas pelo menos o salário era bom e garantido. Em toda cidade se viam obras de construção de prédios; havia mais policiamento nas ruas, e as pessoas de um modo geral estavam otimistas quanto ao futuro. Todos sentiam a maré de bonança se aproximar, para suplantar os tristes dias de recessão econômica do pós-guerra. Tempos difíceis de desemprego em massa e inflação galopante.

Naqueles longos anos de miséria e sofrimento, eles tiveram que vender seus bens mais valiosos, e por assim dizer tiveram que se alimentar de todos os animais que criavam para lhes fornecer ovos, leite e carne.

Ao sair do estabelecimento comercial, Marie Miller notou que agora havia a inscrição \"judeu\" na vidraça da mercearia. Estranhou que se precisasse discriminar as pessoas por sua raça naqueles dias. Antigamente, todos sabiam que alguns vizinhos eram diferentes, mas se eles se comportassem bem e não ofendessem ninguém, então eram livres para professarem suas crenças e sua cultura.

Havia muitos imigrantes sujos e desagradáveis, era verdade, mas estes eram convidados a se retirar do meio deles, mais cedo ou mais tarde. Ela imaginou que talvez o novo chanceler não tivesse muita simpatia pelos judeus de modo geral. A primeira coisa que ela faria ao chegar a casa seria mandar entregar imediatamente o cupom de racionamento a Herr Perl. Ela não gostaria de ser responsável pela prisão dele.

Hans cabulou aula naquele dia. Sua velha professora, Frau Rosenheim, havia tido problemas com a polícia. Alguns chegaram a dizer que ela havia sido presa por algum crime desconhecido, outros que fora denunciada pelo modo rígido e severo com que tratava os alunos, por isso deveria ser substituída por uma professora novinha, ou um professor estrangeiro. Seja lá qual fosse a verdade, ele não estava a fim de dar boas vindas a um completo estranho, querendo subjugar os antigos alunos. Por isso decidira caminhar pelo centro da cidade à toa, correndo atrás de automóveis, imitando os trejeitos dos policiais, assobiando para jovens bonitas, fazendo caretas para homens importantes às escondidas, mas principalmente, admirando vitrines.

Havia tantas lojas, empórios, alfaiatarias, barbearias, livrarias, armarinhos, confeitarias, etc. Algumas vitrines eram tão maravilhosas, que Hans literalmente esfregava o nariz no vidro, a fim de poder enxergar melhor. Ele também espalmava as duas mãos, e só não mergulhava de cabeça na vitrine, porque o vidro era muito duro. Ele gostaria de poder tocar naqueles objetos, senti-los em suas mãos, observá-los nos mínimos detalhes e descobrir para que serviam.

Infelizmente não poderia comprá-los, pois era só uma criança. Sua mãe sempre lhe dizia: \"crianças não devem andar com dinheiro, pois não sabem quanto custa ganhá-lo, a não ser que trabalhem\". Hans via na possibilidade de crescer e empregar-se como a chave para um reino maravilhoso, chamado \"compras nas lojas\".

Um homem alto e magro, meio corcunda, saiu do interior da loja com uma vassoura na mão. Antes que Hans se desse conta do que aconteceria, levou uma vassourada nas costas.

— Saia da minha vitrine, seu moleque. Pare de sujar minha vitrine com suas mãos imundas, seu encapetado. — O homem berrou.

— Ai! Não precisa bater eu mim, seu... seu judeu. Eu tenho pai e mãe, não pode... — Antes que Hans pudesse concluir a frase, levou outra vassourada, agora na cabeça.

Ele não teve outro jeito a não ser sair correndo, e se esconder atrás de uma casa na esquina. O dono do estabelecimento comercial ainda ensaiou uma carreira até onde Hans estava, mas fizera-o apenas para amedrontá-lo. Logo encarou todos que estavam na rua observando a querela. Então deu as costas e entrou em sua loja.

Os curiosos, que pararam seus afazeres para admirar a confusão, voltaram lentamente para seu caminho, mas sabe-se lá de onde ou como, um moleque de rua — chamado assim porque trabalhava nas ruas, mas ele tinha casa e família — aproximou-se correndo até a frente da loja e atirou uma pedra na vitrine. Hans ao ver o que o outro garoto fizera, tomou coragem e também apanhou qualquer coisa no chão, atirando-a no que restava da outrora bela vitrine.

O dono da loja veio possesso do interior, mas ao ver a chuva de pedras que atingia sua loja, resolveu entrar e fechá-la. Nada fora planejado, ou motivado por emoção forte, mas de repente uma turba apedrejou a loja do pobre comerciante, saqueando os atrativos objetos da vitrine.

Hans bem que tentou apropriar-se de alguns objetos fabulosos, mas os outros foram mais rápidos e ágeis em se apoderarem da mercadoria alheia. Logo um apito soou intermitente, anunciando a chegada da polícia. Todos trataram de debandar, e Hans resolveu também escapulir. Procurou um local seguro de onde pudesse observar a movimentação da polícia, pois para ele, aquilo tudo era eletrizante e fascinante, mais empolgante do que os livros de aventuras que às vezes lia na biblioteca, por imposição da professora Rosenheim.

Ao voltar para casa, não contou a ninguém sobre o ocorrido. Na última vez em que contara aos irmãos suas estripulias, eles correram e contaram tudo a seus pais, o que lhe garantiu uma surra bem dada, segundo sua mãe; mas que segundo ele fora cruel e desmedida, pois ele não cometera nenhum crime horrível, apenas acertara com o estilingue ao filho da vizinha, que se meteu no meio de sua mira, quando tentara matar um passarinho.

Afinal todos os meninos de sua rua eram grandes estilingueiros, e gabavam-se de acertar até passarinhos voando. Mas a Hans isso não era permitido. Premiavam-no com surras quando se igualava em feitos aos meninos durões e habilidosos.

— Hans, vá à mercearia de Herr Perl e lhe entregue este cupom de racionamento. Ele está esperando. Vai menino! — Sua mãe lhe ordenou.

— O que? Mãe... eu acho que Herr Perl não vai gostar de me ver por lá. Mande o Kurt, eu estou muito ocupado... tenho que ajudar a vovó. — Hans ainda tentou se proteger.

— Vá você mesmo Hans. E não me volte aqui sem ter entregado o cupom de racionamento. — Sua mãe encerrou o assunto de cara amarrada.

O pobre menino não teve alternativa, a não ser caminhar a passos lentos até a loja de Herr Perl. Ao chegar lá, entre abatido e temeroso, teve que se desviar dos diversos cacos de vidro, pedaços de paus, e objetos quebrados, que agora enfeitavam a vitrine do comerciante. Ele bateu na porta, agora trancada, e ficou esperando que o homem corcunda aparecesse.

— Você aqui de novo? É mesmo muito atrevido. — Herr Perl disparou.

— Eu só trouxe o cupom de racionamento que minha mãe mandou. — Hans falou com a cara de poucos amigos e os punhos fechados, mas sua voz em falsete o traiu. Estava morrendo de medo.

O comerciante judeu pegou o cupom e observou o nome da família Miller. É, dessa vez Hans estava frito.