Verzweiflung

3 Capítulo 3: Antisemitismo


Notas iniciais
Voltei a essa história. Desculpem os erros históricos e o anacronismo.


Hans se encontrava de pé, contrariado, tendo de entregar o cupom de racionamento de comida da sua família, para o comerciante judeu, Herr Perl, o mesmo cuja vitrine ele ajudou a destruir, durante o tumulto da manhã.


- Como se chama menino? — O comerciante perguntou enquanto tirava oclinhos de metal do bolso do seu colete, e os punha no rosto para escrever em sua agenda.


- Hans Miller, Senhor. Aqui está o cupom de racionamento da mamãe. — Respondeu tentando controlar a própria voz, que teimava em falsear, fazendo-o soar como uma garotinha.


- Diga a sua mãe que tudo está certo, agora. E quanto a você... Não quero que fique bisbilhotando minha vitrine novamente. — O comerciante falou cruzando os braços, um pouco triste, já que sua vitrine não existia mais. Hans quis dizer isso na cara dele, vangloriar-se de que tinha levado vassouradas por causa da vitrine, e que ela agora era um monte de cacos e lascas de madeira; mas por alguma razão subconsciente, toda aquela história o fazia sentir-se mal. Talvez ele tenha sido o responsável pelo apedrejamento da loja do comerciante.


- Desculpe! — Hans ouviu a si mesmo, sem perceber que falara aquelas palavras. Olhou timidamente para o judeu alto e magro a sua frente, talvez esperando levar novas vassouradas.


Herr Perl nada respondeu. Estava abatido. Passou pelo menino em direção à porta. Abriu-a e ficou esperando que o menino saísse sem olhá-lo novamente ou despedir-se.


A volta para casa foi mais dolorosa. Sentia-se mais arrasado do que se tivesse sido espancado pelo proprietário da loja. Se ao menos aquele homem fosse cordato... Hans poderia ajudá-lo a limpar tudo, trabalharia para ele de graça, e ainda arrumaria a vitrine, até deixá-la fabulosa como antes; mas não, aquele comerciante era diferente. Não aceitava ajuda dos outros, e nem ajudou Hans a diminuir sua culpa. Também, o homem era judeu, e todos pensavam que judeus eram esquisitos, não eram como as pessoas comuns.


Ao aproximar-se de sua casa, Hans viu um casal agarrado, escondido atrás de uma árvore do quintal. Teve o cuidado de se agachar enquanto se aproximava, para flagrar o casal de namorados. Reconheceu-os como seu irmão mais velho Kurt e sua namoradinha Sophie. A mocinha abriu um olho e ao ver Hans deu um grito de surpresa. Antes que Kurt pudesse impedi-la, saiu correndo em direção a sua casa.


- Sophie! Volte Sophie! — Kurt ficou chamando-a, tentando não gritar para não atrair a atenção das pessoas. Então ele viu Hans e avançou para ele, já tentando lhe puxar a orelha.


- Nã-nã-não! Se me tocar eu conto pra mamãe que você e Sophie Lukas já estão se agarrando. — Hans o preveniu, enquanto tentava escapar das mãos de Kurt.


- Tá bem! Não vou lhe dar os cascudos que merece. Trato feito! Agora me ajude com isso aqui. — Kurt falou enquanto tirava uma faquinha do bolso de trás da calça. Hans ainda o olhou meio intrigado, meio assustado, e viu Kurt começar a entalhar a casca da árvore onde tinha se encontrado com Sophie Lukas.


- O que é isso, Kurt?


- Um marco. Isso é pra me lembrar no futuro, que eu tive uma namoradinha chamada Sophie. Veja! — Kurt começou a entalhar ágil e caprichosamente, um coração flechado. Dentro dele começou a escrever letras.


- O que você vai escrever aí?


- "Kurt ama Sophie". Pega! Escreve! — Kurt falou entregando-lhe a faquinha. Hans passou então a entalhar sua primeira declaração de amor, e achou isso muito idiota.


No dia seguinte Hans foi à aula. Decidira agüentar a severidade e rigidez dos professores, do que procurar confusão nas ruas. Havia um novo professor, Herr Dietrich. Este se apresentou para a turma e escreveu o nome do chanceler na lousa. Passou o resto do dia falando maravilhas sobre aquele homem, sua história de vida, suas glórias, suas conquistas, suas qualidades e virtudes. Se Hans já não houvesse escutado essas histórias antes, poderia até achar tudo interessante, mas no fim era muito maçante. Ele tinha quase certeza de que o novo chanceler não era essa maravilha toda que falavam, mas ele sabia que não deveria expressar sua opinião em voz alta. Era como um grande pecado, falar alguma coisa depreciativa sobre o homem mais poderoso da Alemanha, naqueles dias.


Adolf Hitler era o salvador da Alemanha, o herói dos trabalhadores, destruidor de comunistas, inimigo mortal de judeus, a pior raça que existia no mundo. O povo ariano era o povo escolhido por Deus, para governar sobre os outros povos. Eram perfeitos, fortes e capazes. A Alemanha estava destinada para a glória, e blá, blá, blá. Hans não via a hora de entrar para a juventude hitlerista. Sabia que ouviria essa mesma cantilena todos os dias, mas ao menos faria atividades físicas e treinaria tiro ao alvo. Kurt já fazia parte e ele se saía muito bem com as armas, mesmo que voltasse para casa coberto de hematomas, por apanhar dos colegas mais velhos. Surras também faziam parte do treinamento, pois somente os mais fortes resistiam.


A outra parte da aula foi dedicada a mostrar quem eram os judeus. Povo indecente e vicioso, que gostava de sugar todo o dinheiro dos outros. O professor Dietrich mostrou caricaturas de judeus e os alunos riram a gosto. Hans também riu, mas lá no seu íntimo, ele sabia que Herr Perl não era assim, nem Feiga Shem, sua coleguinha dos primeiros anos de escola, que agora não podia mais entrar nos mesmos ambientes que ele, por ser judia. Hans sabia que eram boas pessoas, mas com certeza deveriam ser a exceção daquela raça. "É, vai ver que é isso mesmo", Hans tentou convencer a si mesmo.


Após mais ladainhas sobre a glória e o destino fabuloso da Alemanha sob o Partido do Nacional socialismo, eles foram liberados para ir para casa. Hans amarrou seus livros surrados no cinto de couro, e guardou seu tinteiro no bolso do calção. Já estava no caminho de casa, quando viu uma menina na rua sendo xingada por outros meninos. Aproximou-se o suficiente para ouvi-los.


- Judia suja e imunda! — Dizia um menino com cabelo escovinha. Alto e robusto, quase o dobro do tamanho da menina morena, de longos cabelos cacheados e grande laço de fita amarela na cabeça. Ela só chorava e apertava com força os livros no peito.


- Devolve o dinheiro que seu pai roubou da gente, sua judia fedida. — Outro menino gritava com a boca quase encostada na cara da menina. Este menino era magro e comprido, um pouco menor do que o primeiro, e tinha um cabelo grande e espetado, que lhe dava a aparência de espanador.


Hans lembrou-se da aula de Herr Dietrich. Os meninos estavam apenas repetindo o que escutaram da boca do professor. Hans teve pena daquela menina chorosa e desprotegida. Resolveu intervir antes que começassem a bater nela.


- Será que vocês não se enganaram? Como podem saber que é judia? Ela parece ariana. Ninguém tem escrito na testa que é judeu. — Hans falou.


O menino magrelo olhou para o robusto, indeciso, como se esperasse ordens. Se eles estivessem molestando uma menina ariana, seriam punidos sem dó nem piedade. Sentiu medo. O menino robusto pareceu vacilar por um momento, mas ao olhar a menina morena mais uma vez, foi como se tivesse certeza.


- Ela é filha do farmacêutico. Eu já a vi por lá com a família. Judeus imundos! — O menino robusto cuspiu próximo da menina, para enfatizar seu nojo e desprezo.


- É isso mesmo! O pai dela ficou rico à custa da gente. Ele nos deve uma desforra, e ela é quem vai pagar. — O menino magrelo praguejou, mostrando o punho fechado para a menina, que agora tremia da cabeça aos pés.


- Sua menina judia! Corra para sua mãe, menina judia. Vamos corra! Corra menina judia! — Hans gritou para ela, porém a mesma não saiu do lugar, paralisada pelo terror, obrigando Hans a puxá-la pela mão e sair correndo com ela.


Os outros meninos perceberam a intenção de Hans e correram atrás deles. A correria pelo parque e ruas da cidade, não atraiu maiores atenções, porquê eram crianças. Achavam que estavam brincando de pique, e não que uma menina judia estava correndo por sua vida. Se soubessem com certeza não a teriam ajudado, por causa de sua raça, mas talvez ainda existissem pessoas de bom coração, que pudessem achar indecente, que molestassem uma menina por causa de sua etnia. Quando já iam ser apanhados, Hans parou de correr e atirou-se sobre os outros meninos. Para sua sorte, a menina judia não parou de correr e já devia estar chegando a sua casa. Para seu azar, ele levou uma surra daquelas, além de xingarem-no de amigo de judeus.



Notas finais
Tenho lido alguma coisa sobre o período, mas nunca é o suficiente. Antes que alguém tire conclusões erradas, informo que não sou nazista ou neonazista, nem admiro Hitler.