Verzweiflung

4 Capítulo 4: Yggdrasill


Notas iniciais
Depois de um longo marasmo voltei a escrever parcas linhas. Mais uma vez peço desculpas por erros históricos e anacronismos.

Hans, Franz, Otto, Josephine, Wilhelmina, Herta, Erich e Kurt Miller estavam sentados na sala ao redor de vovó Magdalene e mamãe Marie. Hans e os menores estavam no chão, enquanto Kurt sentava-se em um sofá antigo e almofadado, como um homem adulto, seguro de si e superior aos garotos, que não tinham ainda importância suficiente para sentarem-se no sofá.

Todos estavam compenetrados, ouvindo reverentemente a explanação de vovó Magdalene, que discorria sobre antigas histórias folclóricas.

- Yggdrasill é uma árvore colossal que está no centro do universo. É o eixo do mundo.

- O que é um eixo, vovó? – Perguntou Wilhelmina.

- É aquilo que permite ficar de pé, que impede de cair. – Respondeu a avó paciente.

- Essa árvore está aqui perto, vovó? – Perguntou Herta.

- Nós estamos na árvore, querida. – Respondeu a avó complacente.

- Se nós estamos na árvore, ela está plantada aonde? – Quis saber Erich.

- Escutem, Yggdrasill é uma ideia, eideias podem ser plantadas em qualquer lugar. – Apartou mamãe Marie.

- Marie, assim eles não irão entender, além do mais sou eu quem está contando a história. – Vovó Magdalene corrigiu mamãe Marie com doçura. Então se virou para os meninos e falou solenemente, como quem conta um segredo. – As raízes de Yggdrasill estão situadas em Niflheim. Vocês sabem que lugar é esse, crianças? É um mundo sombrio, onde há várias árvores assombradas, e o solo não produz nada. Só há escuridão, gigantes malvados e terríveis monstros.

- Ai, vovó, eu tou com medo. – Franz levantou-se do chão e correu para o regaço da avó, que o recepcionou com dois beijos estalados nas bochechas rosadas.

- Por que existe um lugar tão ruim assim, vovó? – Otto perguntou.

- Não é essa a pergunta certa, bobo. O certo é perguntar: como posso destruí-los? – Apartou Hans.

- Espere aí, Hans... Se Niflheim tem as raízes de Yggdrasill... se você destruí-la, Yggdrasill também será destruída... não é, vovó? – Josephineperguntou confusa e virou-se para a avó, esperando uma resposta.

- Niflheim não pode ser destruída, por outro lado não precisamos viver lá. Os homens vivem em Midgard, um dos nove mundos da grande árvore da vida. Midgard está no tronco de Yggdrasill. – Vovó Magdalene explicou.

- Ainda acho que poderíamos ir a Niflheim, de espadas em punho, digo baionetas, e atingir os pés dos gigantes, para vê-los caírem derrotados. – Hans falou com ímpeto, pulando do sofá, com uma arma imaginária nas mãos. Todos o olharam surpresos e depois riram dele, por seu entusiasmo desmedido.

- Vó, queria lhe perguntar algo.

- Diga, Kurt.

- A suástica é uma runa? Nunca vi esse símbolo nas minhas pedrinhas de runa. Ela parece Naudhiz e Eihwaz, até mesmo Sowilo, mas não é.

- De fato não é um símbolo rúnico. Na verdade parece ser de outra religião, como o Buda ou as pirâmides do Egito. Dizem que traz boa sorte. Desculpe me intrometer na sua resposta, mamãe Magdalene. – Interveio mamãe Marie.

Um barulho na porta da frente fez todos se levantarem assustados. Papai Miller havia chegado em casa. Ele estava sujo de lama, e sua aparência, cansada. Dirigiu-se à cozinha e lavou as mãos vagarosamente.

Magdalene e Marie trataram de ir para a cozinha providenciar a refeição. As crianças continuaram na sala, sentadas sem fazer barulho. Sabiam que era um pecado mortal incomodar papai Miller, passível de surras homéricas e outros castigos enérgicos.

Hans antigamente comparava a presença do pai na casa a do gigante do pé de feijão. Quando seu pai chegava, ele quase podia ouvir: Fi-Fai-Fu. Hans devia rir da situação, mas apenas sentia medo.

As crianças foram chamadas depois que os adultos foram servidos. Durante todo o tempo se fez o maior silêncio, no qual ninguém olhou para o pai, em sinal de respeito. Este ficou sisudo e olhando para o próprio prato, o tempo todo.

Ao término da refeição, as mulheres começaram a retirar a louça, enquanto Kurt se encarregou de levar as crianças dali. Hans já ia saindo quieto e cabisbaixo, quando foi chamado.

- Hans, venha aqui. – Seu pai o chamou.

- Sim, papai!

- Como se chama sua professora?

- Ah... Fraulein Rosenheim, senhor. Ah... ela não é mais minha professora. Foi substituída por Herr Dietrich. – Hans falou o mais corretamente possível, como se aquilo fosse uma prova oral de dicção da língua-mãe.

- Eu a vi hoje, sua professora, em Dachau. – O pai falou sério.

- Ah... ela mora lá, agora?

- Sim, nos campos de trabalhos forçados de Dachau, uma prisão.

Hans ficou calado, sem saber o que falar.

- Você sabe por que ela foi presa, filho? – O pai perguntou num tom grave.

- Não, senhor.

- Ela era amiga de judeus. Sabe quantas surras ela leva por dia, meu filho?

- Fritz, pare! – Marie gritou.

O senhor Miller olhou a mulher com irritação, mas ficou calado diante da expressão aterrorizada do filho a sua frente.

- Hans, vá para o quarto das crianças. – Mamãe Marie ordenou.

Hans saiu cambaleando. Mal sentia os pés, teve que se segurar no corrimão da escada para não cair. Foi por causa disso que ele ouviu o que os adultos diziam na cozinha, e não porque fosse bisbilhoteiro. A notícia de que a doce Fraulein Rosenheim era espancada diariamente lhe enrolava o estômago, quase empurrando a refeição que fizera a pouco, para fora.

Ele ouviu quando o pai contou para as mulheres “O presidente Hindemburg morreu” e “adivinhem quem será o novo presidente?”. Hans podia jurar que ouvira o choro das mulheres.

Nos próximos dias não houve aulas nas escolas, e muita gente resolveu sair de férias, ou assim pareceu a Hans, devido à quantidade de carros de mudança, carroças com móveis velhos e até mesmo famílias inteiras, com malas nas mãos, andando nas ruas. Hans podia jurar que vira a menina judia, filha do farmacêutico, entre a multidão carregando os pertences, deixando a cidade.

Alguns dias depois houve comemorações em todo o país. O chanceler Adolf Hitler assumira o cargo de presidente da Alemanha. Bandeiras vermelhas com a suástica apareceram em todos os prédios públicos. Todos tinham que praticar marchas dia e noite, para poderem recepcionar com pompa, o novo presidente, quando ele viesse à cidade.

A polícia local agora se vestia diferente, de negro, imponentes, cheios de poder e glória. Hans passou a temer os policiais, assim como temia seu pai.

Quando o novo presidente visitou sua cidade, Hans e seus colegas tiveram que marchar por horas, entoar cânticos alemães e outros novos, nazistas. Aprenderam a saudar o novo líder do país, e tinham que fazer isso horas e horas. Sua mãe colocara queijo e salsicha no seu bolso, para que aguentasse a exaustão. No fim do dia, ele apenas tinha forças para beber água, e pensava para seu consolo, que ao menos não tinha que usar fantasias ridículas, e bailar com flores nas mãos, como as meninas.

Kurt agora passava a maior parte do tempo na sede da juventude hitlerista. Falava que tinha um grande futuro pela frente e que em breve entraria no exército. Papai Miller nunca mais comentou sobre Fraulein Rosenheim, e como que sua aparência destruída convertera-se numa máscara insensível, como se fosse um boneco ou um autômato. Herr Perl? Este sumira da noite para o dia. Hans perguntou sobre ele a sua mãe, e recebeu uma bofetada em resposta, com a ordem: “Nunca mais fale nenhum nome judeu nesta casa, entendeu?”.

As coisas estavam confusas, brilhantes, festivas, doloridas. Hans recebera todas essas mudanças no próprio corpo. Não sabia se gostava delas, mas tinha que reconhecer que eram grandiosas e fantásticas, como a árvore de Yggdrasill, e a grande fogueira que a polícia acendeu no pátio da escola, para queimar os livros indecentes e imorais, que não serviam mais para a nova Alemanha.

Notas finais
Capítulo curtinho, e reconheço que economizei no assunto. Sinto muito. Repito novamente que não sou nazista, apenas ficcionista.