Verzweiflung

5 Capítulo 5: Incidente com a Juventude Hitlerista


Notas iniciais
Hans sofre por ser pequeno e fraco. Inicialmente pensei em chamar este capítulo de "O carpinteiro de Dachau", mas percebi que o incidente atraía mais a atenção do que atividades no campo de concentração.

Fritz Miller andava muito atarefado naquela manhã. Tivera que erguer os pilares de uma nova construção, e agora trabalhava nos caibros. Tudo deveria ficar pronto para receber o telhado, na manhã seguinte. Ele tinha ajuda, é certo, mas aqueles novos ajudantes eram uns completos inúteis. Também pudera, a maioria trabalhara em outras áreas até recentemente. O homem gordo com as mãos manicuradas, que acabara de lhe passar o martelo de cabeça chata, passara a vida toda em banco de escolas ou arrancando dentes. O ancião alto e magro, que ficava de pé olhando para cima, com o bolso do avental cheio de pregos e ruelas, sempre fora temido e respeitado na cidade, por ser o gerente do banco de crédito e empréstimos. Até mesmo aquela mulherzinha com as roupas esfarrapadas, e a cara amarrada de quem teme o mundo inteiro, que agora a pouco trouxera água fresca para mitigar a sede dos trabalhadores, antigamente vestia-se elegantemente, e andava com o nariz empinado, nas horas em que não dava aulas na escola de seu filho.

- Herr, eu preciso que suba aqui, para me ajudar com isso. – Fritz Miller falou para o dentista.

- Herr Miller, eu não sei se consigo. Sou muito gordo para... – O dentista tentou se justificar, mas um oficial da SS, a polícia nazista, o atingiu com um bastão nas costas, fazendo o pobre homem desabar no chão, com um grito animal.

- Levante-se suíno. Suba imediatamente se não quiser levar uma surra. – O oficial da SS falou entredentes.

Fritz Miller ficou mortificado, mas o medo de cair em desgraça com a SS o fez agir mais rápido. Ele ajudou o dentista gordo a subir e lhe deu o martelo para golpear os pregos da construção. Enquanto isso ajeitava os outros caibros na posição para serem pregados. Com sorte iria pra casa logo após o anoitecer, como carpinteiro contratado pela SS, para trabalhar em Dachau. Já, aqueles pobres coitados que estavam lá como prisioneiros, estes enfrentariam mais castigos e humilhações, pela noite adentro.

Ele sabia porque Fraulein Rosenheim estava lá, por se indispor com a política dos governantes, que não gostavam de judeus. Ele achava que a professorinha fora muito burra ao expor publicamente seus pontos de vista. Não custava nada mentir um pouquinho e dizer que cuspia nos judeus. Pensando melhor no assunto, Fraulein Rosenheim não seria uma excelente professora de seus meninos, se fosse mentirosa e bajuladora. Era uma mulher de fibra. Pena que agora tenham lhe dobrado a espinha, à custa de muito sofrimento físico.

O Dentista, pelo que lhe contaram mais tarde, não era judeu, era antes um austríaco que se naturalizara alemão, havia anos. Era, portanto um legítimo ariano, isto é, homem louro, descendente dos nórdicos vikings da Alemanha de seus antepassados. Os não arianos, ou seja, o resto do mundo, eram mal vistos, indesejáveis e maltratados. Então por que o dentista era tão castigado? Fora denunciado pelos vizinhos, suspeito de atender pacientes judeus. Uma devassa em sua contabilidade revelou negócios escusos, com remessa não autorizada de dinheiro para fora do país. Está certo, esse era um crime sério, mas será que nem um ariano legítimo poderia ser mais bem tratado pela SS?

O banqueiro, pelo que ouvira dizer, era realmente judeu, e fora flagrado realizando negócios desonestos com sociedades judaicas estrangeiras. Fora prontamente denunciado pelos sócios, banqueiros arianos, que lhe desapropriaram a casa e os bens, como forma de indenização do prejuízo sofrido. Expulsaram sua família e o trancafiaram em Dachau, para realizar trabalhos forçados. Até mesmo Fritz Miller podia dizer que aquela história cheirava mal. Um bom advogado teria libertado o banqueiro, mas sendo ele judeu, quem quer que se envolva nesse caso, seria mal visto pelas autoridades.

Fritz Miller gostaria de conversar com seus “ajudantes”, dizer que entendia seus problemas, que gostaria de ajudar, mas ele tinha família, filhos pra criar, não seria justo para eles, que seu pai fosse detido pela SS por ser simpatizante dos prisioneiros. Portanto ele ficou impassível diante de espancamentos, injustiças e execuções.

Enquanto isso, Hans aproveitava o dia ensolarado para perambular pelas ruas. Havia aglomerações de pessoas em algumas esquinas, em fila para falarem com funcionários do governo, que haviam colocado mesas ao ar livre para realizarem seu serviço, algo como recenseamento de judeus, ou coisa assim, pelo que contaram a Hans. Ele não imaginava que ainda havia muitos judeus em sua cidade, não após o novo presidente declarar publicamente que não gostava deles. Hans não entendia isso, mas ele era só um garoto, quem sabia como pensavam os adultos? Ele continuou seu caminho, a procura de Kurt.

Ele soubera que Kurt iria participar de uma manifestação pública, em nome do partido nazista. Kurt estava muito bem apessoado em sua farda caqui, com boina militar, e até havia treinado com baioneta e espingarda. Não pudera trazer essas armas para as ruas, todavia, somente um bastão. Ele estava junto de seus camaradas da juventude hitlerista, e até se parecia com os oficiais da guarda nacional. Hans o observava de longe, e sentia muito orgulho dele, por estar se tornando um adulto respeitável. Ele pensou em se aproximar do irmão, mas o trânsito na rua estava intenso, e ele ficou esperando que os carros parassem de trafegar, para atravessar pro outro lado.

Então, como se houvessem saído de um reino encantado, surgiram alguns homens com longas barbas, e costeletas cacheadas. Na verdade eram idosos, bem vestidos e com chapéus altos. Hans ficou tão impressionado com suas indumentárias, que ele não percebeu quando Kurt e seus amigos cercaram aqueles homens, fazendo um círculo e isolando-os no centro. Ao longe, Hans ouviu suas palavras, mas elas pareciam tão fora do normal, que ele demorou em entender seu significado.

- Para onde vão vovôs? – O jovem ariano perguntou.

- Estamos indo para a sinagoga, não queremos problemas. – Um dos idosos respondeu.

- Mas quem lhes disse que podem ir para sinagoga? – Outro jovem ariano os interpelou.

- Não queremos problemas. Desculpem-nos alguma inconveniência. Apenas queremos rezar. – Respondeu o mais alto dos anciãos.

- Acaso pensam que estão na Palestina? – Kurt os inquiriu. – Pois não estão. Esta aqui é a Alemanha. Terra dos arianos. Terra de gente trabalhadora e honesta. Gente que não enriquece a custa da desgraça dos outros. Vocês judeus são indignos de viver aqui.

- Por favor, apenas deixem-nos passar. – O ancião mais alto implorou.

- Você quer passar, vovô? Pois tem que professar nossa religião. Quer morar aqui? Tem que se vestir como os outros. – Vociferou um jovem ariano.

Das palavras à ação, foi um segundo. Logo estavam com as mãos sobre os velhos, puxando-os pelas barbas e cachos. Despindo-os de suas roupas suntuosas e arrastando-os pelas ruas. Não demorou e passaram a usar os bastões.

Hans olhava tudo do outro lado da rua, aturdido, sem entender por que estavam fazendo aquilo com os anciãos. E principalmente, por que Kurt estava agindo como um homem mal.

- Kurt! Não faz isso, senão vou contar pra mamãe. Para com isso, Kurt! – Hans passou a berrar do outro lado da rua. – Vocês aí, valentões! Que covardia bater em velhos! Por que não vão pra guerra combater homens de verdade? Covardes!

Se estes fossem apenas meninos bagunceiros bulindo com a menina judia, Hans poderia sair correndo, mas não, este era seu irmão mais velho, com quem almoçava diariamente. Por isso, ele não fugiu, quando Kurt atravessou a rua correndo, em sua direção, e passou a espancá-lo.

Isso atraiu a atenção da juventude hitlerista, que largou os anciãos e veio ajudar Kurt a dar uma lição no menino mal criado, que os criticava publicamente. Um dos jovens arianos agarrou Hans pelo pescoço e o levantou, até ficar na altura de seus olhos. Em seguida o arremessou com toda força ao chão.

- Parem com isso! Larguem esse menino! – Uma voz feminina estridente chamou a atenção deles.

Todos se viraram para a mulher, já pensando em espancá-la também. Todavia, se acalmaram e deram um passo atrás, ao ver que a mulher estava acompanhada por dois oficiais da SS.

- Fraulein, este menino merece uma lição. – O jovem ariano protestou.

- Cale-se! Saiam já daqui, antes que eu os denuncie a Himmler em pessoa, seus pirralhos imprestáveis. Quem lhes disse que o fuhrer quer este tipo de demonstração em via pública? Vocês são a vergonha da raça ariana. Saiam! Passem fora, para seu quartel de meia-tigela. Agora! – A mulher ariana gritou com eles como se fossem alunos do primeiro ano escolar.

Kurt e a juventude hitlerista se afastaram rapidamente daquele local. Os anciãos aproveitaram a distração de seus algozes para fugirem para suas casas. Somente Hans ficou estatelado no chão, incapaz de se mexer.

- Peguem este menino e levem-no para o carro. Vamos levá-lo ao hospital. – A mulher ariana ordenou.

Hans foi levado então para um hospital militar, e ficou em uma ampla enfermaria, sem outros pacientes. Ele não reclamou de nada, nem fez perguntas. A dor em suas costas era tamanha, que ele não poderia respirar e falar ao mesmo tempo. Sendo assim, ele se concentrou em apenas respirar. Os médicos e as enfermeiras eram frios, mas eles o fizeram melhorar de suas dores.

Logo mais, sua mãe e seu pai vieram vê-lo. Estavam abatidos e temerosos, olhando para o chão, com as mãos agarradas na saia ou segurando o velho chapéu amassado. Hans entendeu que eles também tinham sido muito criticados pelas autoridades, e agora sentiam muito medo e vergonha. Tanto, que se esqueceram de ficar bravos com ele. Hans sentiu um pouco de remorso por isso, por tirar um pouco a aura de infalibilidade e invencibilidade de seus pais.

Quando Hans voltou pra casa, ficou de cama mais algumas semanas, sendo cuidado pela avó, no quarto dela. Sua mãe e seu pai mal falavam com ele, como se ele fosse o responsável por alguma desgraça familiar. Kurt veio visitá-lo, por mais incrível que isso pareça. Kurt exibia algumas marcas no rosto, que Hans suspeitou tenham sido consequência de uma surra de seu pai. Ele foi afável, não demonstrando raiva nem rancor. Também pudera, o mais machucado tinha sido Hans, que inclusive passou alguns dias no hospital, com as costelas fraturadas.

- Hans, quero que saiba que o que fez foi muito corajoso. E estúpido também. Você poderia ter morrido. Quero que me prometa, que nunca mais confrontará a juventude hitlerista ou outros oficiais militares. – Vovó Magdalene falou mansamente, uma tarde.

Ela estava usando sua blusa de linho azul, com a gola e os punhos bordados. Seu quartinho já estava entulhado de coisas de seu uso pessoal, ainda ficou mais atravancado com as roupas de Hans e os remédios que ele tinha que tomar. Mesmo assim, a pequena janela acortinada, deixando passar a fresca brisa da manhã, sempre que sua avó abria a janela diariamente, lhe dava uma sensação de conforto e paz, misturada com o suave perfume das roupas de vovó. Isso era o mais próximo do céu, na cabeça de Hans.

- Eles agrediram velhinhos, vovó. Poderia ter sido o vovô ou a senhora. Eu não podia só ficar lá, olhando. Além disso, o Kurt estava no meio deles. Eu não poderia deixa-lo lá, no meio dos homens maus, aprendendo a fazer maldades. – Hans respondeu.

- Apenas, me prometa, meu neto. – Vovó Magdalene falou com a voz um tom mais alto, enquanto abria o grande vidro de xarope que o doutor receitara, para as costas de Hans.

Hans concordou com a cabeça e ficou calado, enquanto sorvia a colherada de xarope de cor verde-petróleo e sabor amargo. Aprendera desde cedo que não devia discutir com adultos, mas lá no fundo ele sabia que tinha razão. O remédio esquentou seu peito e o fez ficar sonolento. Passaria as próximas horas dormindo, ao menos não daria trabalho a sua avó.

Vovó Magdalene saiu do quarto enxugando uma lágrima furtiva. No seu íntimo tinha orgulho do neto, e também temia por sua vida, num futuro não muito distante. Ela sabia que heróis não duravam muito. Principalmente nos tempos atuais, em que os “maus”, como dizia Hans, estavam no comando do país.

Fritz Miller voltou a Dachau para mais um dia de trabalho como carpinteiro no campo de trabalhos forçados. Os alojamentos dos prisioneiros estavam agora lotados. Havia todo tipo de gente misturada, não apenas judeus, mas também arianos ricos e intelectuais, médicos, advogados, professores, clérigos, ciganos, comunistas, democratas e outros, que não se enquadravam nos grupos humanos habituais.

Ofereceram-lhe novos ajudantes, de feições latinas e vestes exóticas. Ele imaginava de onde viera aquele povo, pois nunca os tinha visto antes na cidade. Foi quando chegou à conclusão lógica, de que traziam prisioneiros de toda a Alemanha, para porem naquele campo de trabalhos forçados. Calculou que em breve o campo de Dachau ficaria superlotado.

Uma visão chamou sua atenção. De onde estava, pôde ver uma mulher com trajes rotos, curvada sobre si mesma, caminhar na direção da saída do campo. E o sentinela do portão não a impediu quando ela foi embora.

- Fraulein Rosenheim foi libertada. – Fritz Miller falou para si mesmo, e isso foi como uma boa nova em se coração, como se alguém da família tivesse sido libertado. Como se houvesse esperança para a humanidade.

Notas finais
Pensei em nomear a mulher nazista como Eva Braun, mas lendo um resumo de sua biografia, percebi que as personalidades não combinavam, então... mais pesquisa me aguarda.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.