Notas iniciais
Bem, bem. Tentem me perdoar pela demora. Sábado passado foi aniversário de 80 aninhos da minha vovó fofucha, então não tive tempo pra nada. E esse capítulo foi um pouco difícil de sair. Primeiro, nós voltamos um pouquinho no passado. Eu sei que no último capítulo o Jon já apareceu, mas achei que colocar o mínimo de coisas que ele passou por lembranças ficaria muito vago e chato. Então voltamos quando ele ainda estava preso. Segundo, ele estava com 7. 155 palavras quando eu terminei. Achei muito grande e cansativo e resolvi excluir coisas. Fiquei irritada por ter excluído coisas que demorei pra escrever e parei algumas vezes. Ainda estou achando muito grande (então me perdoem), mas espero que gostem. :) Boa leitura! (Música: Broken Crown - Mumford & Sons)

Ele acordou como todos os dias antes desse. A luz do sol rasgando a escuridão úmida de sua cela, entrando pela janela alta e comprida, e lhe ferindo os olhos como agulhas invisíveis. Não era de forma alguma agradável, mas ele preferia ter o privilégio de saber quando mais um dia nascia do que estar na perpétua ignorância do sempre noite. Exatos cinco minutos depois do surgimento do primeiro feixe de luz que agitava a imundice em nuvens brilhantes, seu carcereiro batia três vezes na porta grossa e empurrava um mingau pastoso por uma pequena portinhola próxima ao chão. Dez minutos mais tarde, Therry, o imenso carcereiro careca taciturno que vestia o mesmo justilho de couro engordurado todos os dias, voltava para buscar o prato.

Nos dias ruins, Jon não conseguia obrigar seu corpo a si arrastar até o mingau para colocar qualquer coisa na barriga, mas hoje era um dos dias bons, e ele lambeu até o último grão seco de aveia no fundo do prato. Therry chutou a porta em uma pancada que reverberou através dos pesados ferrolhos.

— Ande logo com isso, Lorde Lobo. – Resmungou mal-humorado, mas isso não era de se estranhar, Therry sempre parecia ter um olhar ameaçador no rosto e uma tempestade prestes a desabar na garganta. Mas repentinamente um ar de riso adoçou sua voz estrondosa. – Ou melhor, arraste-se logo. – E riu consigo mesmo, em uma gargalhada alta que devia ter chacoalhado as dobras de seu pescoço.

Jon empurrou o prato vazio pela portinhola, sem achar nenhuma graça na piada infame. Ouviu o homem corpulento pegar o objeto e seguir seu caminho com passos pesados, deixando-o só novamente nos calabouços de Harrenhal. Ao menos aquela informação ele conseguira surrupiar das inúmeras conversas que seus guardas tinham, a madeira da porta era grossa demais e ele tinha sorte quando conseguia captar duas palavras que fizessem sentido. Depois de ter descoberto onde estava, ele gastava a maior parte de suas horas se perguntando como os Dustins, a Casa que detinha a fortaleza, não tinham conhecimento de sua presença. Mas ele escutara, nas histórias de menino, que as celas mais escuras de Harrenhal ficavam à pés da superfície, então ele tentava acreditar que apenas estava longe o bastante para que ninguém o percebesse.

Ou apenas podem estar junto a meus captores. Seus ossos doeram quando ele tentou se acomodar no chão de tábuas deformadas e cheias de farpas, preparando-se para esperar as três horas que antecediam a visita diária mais importante.

Nos primeiros dias ele percebera que contar o tempo e marcar os minutos da mórbida rotina melhorava sua lucidez, e não deixava que ele entrasse em um torpor mórbido. Mas isso também tinha suas desvantagens, assim ele sabia, com um conhecimento fatídico, o que esperar. E talvez isso piorasse tudo.

Jon recostou a cabeça na pedra fria e cheia de deformidades pontiagudas, fechando os olhos. As tábuas do chão rangeram para se acomodar ao seu peso. Ao longe, gotas pingavam em um barulho irritantemente contínuo, mas não deu muita atenção a isso, suas costelas trincadas podiam estar melhores do que ontem, ou mesmo que antes de ontem, mas ainda doíam como o inferno, e a cada respiração profunda demais, a dor fazia sua cabeça girar. Ele experimentou tocá-las, os dedos sujos de seu próprio sangue seco traçaram vagarosamente o caminho de um osso a outro. Sabia que perceberia os danos de uma maneira mais precisa se, com algum esforço, desamarrasse o gibão puído nas mangas e tocasse a si mesmo em pele. Mas tudo o que ele menos queria era uma doença pelos ares úmidos e com cheiro de lodo, então deixou do jeito que estava. Quando chegou à sétima costela do lado esquerdo, sentiu a irregularidade e um gemido involuntário escapou de seus lábios rachados.

Por experiência de acampamentos de guerra ele sabia que se elas cicatrizassem erroneamente, podia nunca mais lutar ou fazer algum esforço como antes, já que do jeito que estavam, elas apertariam seus pulmões e não deixariam que ele exigisse demais deles. Assim ele trincou os dentes e olhou para cima, com a parte macia da mão sobre o osso, o teto baixo de pedras escuras da cela agigantava-se diante dele e pareceu desaparecer em uma nuvem de dor quando ele pressionou a deformação do osso. Ele abraçou o corpo e fechou os olhos, arfando, e, assim que sua cabeça parou de lhe pregar peças, encostou-se novamente na parede que lhe perfurava as costas. Passou os dedos trêmulos pela parte que apertara e sentiu um mínimo alívio quando percebeu que o osso estava alinhado no lugar certo.

Deixou a mão cair, exausto. Quis entrar na inconsciência, onde não sentia e podia escapar dali, mas não conseguiu. A dor era forte, mas não o suficiente para dar-lhe este alívio, então, como em todos os dias que ele tinha controle de suas faculdades mentais, a lembrança do dia da emboscada lhe veio, mais dolorosa e dilacerante do que qualquer coisa que ele já houvesse passado.

No começo, não havia desconfiado de nada. Vira ao longe a carroça que dera problema e nove dos seus homens ao redor, todos usando mantos grossos e escudos circulares nas costas, de pé na neve suja. Ao se aproximar, Edwen surgira, levantando-se de perto de uma das rodas quebradas. Seu semblante estava tão carregado quanto o céu naquele momento, e se Jon houvesse prestado atenção nisso, poderia ter tido algum tipo de alarme antes.

— São duas, meu senhor. Essa parte da estrada é mais esburacada que as meias do Leoho. Quebrou as duas traseiras de uma vez, e bem nos aros. – Leoho estirara o dedo médio para o capitão de sua guarda, no tempo que todos gargalharam.

Jon não pudera impedir um sorriso e desmontara do palafrém com um giro do corpo. Seus pés e capa haviam espalhado lama e ele se encaminhara para a carroça. Quando fizera menção de se abaixar para ver o estrago, um calafrio percorrera sua espinha e seus instintos haviam feito ele se virar, dando vários passos para trás, com a mão no cabo da espada.

Com espanto ele vira um de seus homens com um punhal erguido na mão. Ouvira o ruidoso som das lâminas saindo se suas bainhas e tudo o que pudera fazer fora olhar para Edwen, sentindo a cicatriz que a traição que a Patrulha causara abrir-se e arder como fogo. O homem, que ele ainda se lembrava como um garoto órfão da guerra tremendo na neve e pedindo-lhe abrigo com a voz fraca, tinha os olhos turvos e uma espada em punho.

Jon se afastara dele, retirando Garralonga da bainha. Tentara banir de sua mente qualquer sentimento que desviasse seu foco e girou devagar, olhando para as lâminas reluzentes de cada um dos dez homens. Eles não são mais pessoas, não são mais os homens que beberam e riram com você. Ele pensou aspirando o ar pesado. Não eram mais homens, eram aço que ele iria quebrar.

O primeiro que matara havia sido Leoho, com um corte rápido na garganta, depois empurrara o corpo para baixo com um safanão. Não podia ater-se a lutas demoradas, eles ainda eram nove. Girara a espada em um arco, errando por pouco o pescoço desprotegido de Teodor, mas acertando Maven, que vinha por trás, no tronco. O homem que acertara gritou ao mesmo tempo que suas vísceras caíam pelo talho que o aço abrira e Payk hesitou ao passar por cima do companheiro agonizante. Jon viu, por entre as lambidas das lâminas que se atritavam, o garoto dividido entre abaixar-se e continuar o ataque. Ele ergueu Garralonga para aparar um golpe e Payk decidiu-se por colocar um joelho no chão. Seus pés se moveram ao som da música do metal e ele aproximara-se do menino, segurara sua espada e chutara seu queixo com o peito do pé. O estalo do maxilar fez-se mais alto que os beijos dos aços aos seus ouvidos e ele dera uma volta em torno de si, as duas espadas esticadas, mantendo a distância entre os sete que ainda estavam de pé. O peso das lâminas em suas mãos era diferente, além da nova ser mais curta e que ele nunca gostara de lutar com duas espadas. Mas quando vira os olhos de Edwen moverem-se de um lado para o outro, ele erguera o braço e suportara toda a força de Dougal em suas costas com a espada nova. Apoiara-se na perna esquerda e em um giro perfurara o corpo do homem com Garralonga. O corpo de Dougal pendera para frente e por um instante ele tivera dificuldade em retirar a lâmina da carne do homem.

Nesse pequeno momento ele sentira uma pancada nas pernas e não registrara outra dor ao desabar inconsciente no chão. Ali havia sido a primeira vez que pensara estar morto.

O barulho das chaves sendo colocadas no trinco da porta tirou-lhe de seus devaneios. Ele ficou ereto o melhor que pode, achando que estavam vindo muito mais cedo do que o normal, e olhou para a porta de carvalho e ferro, esperando que ela fosse aberta. Pensou nos quatro conjuntos de pesados grilhões de ferro que pendiam do teto e rezou aos deuses para que hoje eles não fossem usados. Edwen entrou primeiro, abrindo espaço para o outro homem passar. Outros dois soldados pararam na entrada, rostos cobertos por capuzes cinzentos e cordas grossas amarradas à cintura.

— Como está hoje, meu Lorde? – Beltoar se inclinou para ele, apertando vagarosamente suas costelas. Jon trincou os dentes para não gemer de dor quando seus dedos nodosos passaram pelas partes sensíveis. – Vejo que a colocou no lugar. O que sente quando eu as toco?

Jon afastou as mãos do homem bruscamente. Já era muito que ele tivesse que suportar a presença dos dois traidores sem poder fazer nada. Deixar que o meistre o tocasse era demais para ele. Beltoar sorriu condescendentemente, os lábios finos se esticando como duas fitas pálidas. – O senhor quer que eu mande Edwen segurá-lo? – Ele não esperou a resposta e passou a examinar suas pernas, apalpando seus músculos e ossos danificados com uma lentidão nauseante.

No primeiro dia que estivera consciente da dor, seu primeiro pensamento horrorizado era de que haviam arrancado suas pernas. A dor havia sido insuportável e pouco antes de perder o controle de si por conta disso ele vira o sangue em sua parte inferior pelo ângulo errado e caíra na escuridão pensando que nunca mais andaria. Ele acordara, aparentemente dias depois, e percebera que o sangue vinha de sua nuca e as pernas estavam apenas quebradas e não fora do lugar. O alívio havia sido curto e ele logo descobrira que aquilo era para incapacita-lo, não para uma perda permanente, pois o osso continuava no lugar certo, mesmo que ao tocar com insegurança ele pudesse sentir onde estava partido. Mas ainda doía de uma forma que a qualquer movimento, sua visão mergulhava em um breu desesperador e em seguida ele via manchas amareladas dançarem.

Naquele mesmo dia recebera sua primeira visita. Meistre Beltoar aparecera à noite, de lanterna na mão e um sorriso quase envergonhado no rosto. Por um instante fugaz Jon pensara que ele viera para ajudá-lo, que de alguma forma conseguira entrar onde quer que ele estivesse sendo mantido e iria tirá-lo dali. Mas o homem não tinha nenhum sinal de pressa ou de surdina, limitara-se a sentar em um banco de três pernas e a fazer perguntas.

— Como está se sentindo? – Ele falara placidamente, como se todo o sangue que ensopava a roupa do rei caído ao chão fosse invisível. Jon tentara se levantar e sua cabeça parecera perder todas as direções com o pequeno esforço. – Imagino que esteja com fome, não? Providenciarei algo.

Jon não percebera o quão faminto estava até aquele momento, sentia a garganta seca e um vazio estranho no estômago. – Beltoar... O que está acontecendo? – Ele tentar falar, mas imaginou que o homem não conseguiria escutar seu sussurro destituído de forças.

— O senhor sabe porque está aqui. – Ele dissera pousando a lanterna no chão. As chamas fizeram os elos de sua enorme corrente reluzirem e a luz deixava o rosto esquelético do homem assustadoramente sombreado. – Eu tentei avisá-lo, meu senhor. Nós não queríamos que se casasse com a rainha dragão. Tentei avisá-lo de que seria um erro. – A mente confusa e cheia de dores do rei não deixou que ele entendesse o sentido daquelas palavras. Me avisou... Sua mão moveu-se para a nuca, sentindo o sangue morno na base do pescoço. Beltoar... Não conseguia dizer e o meistre continuou. – Nós não queremos que fique aqui ou que morra. O senhor nos foi muito importante e seremos eternamente gratos. Mas já cumpriu seu papel, meu lorde, deve descansar, onde pertence. O Norte é sua casa, não Porto Real. Deve voltar para lá e cortar laços com Vossa Graça. Então tudo voltará a ser como antes.

Ele sentia a consciência escapando-lhe cada vez mais por entre os dedos como água corrente, mas tentou se firmar. – Você... – Suas cordas vocais falharam miseravelmente e sua respiração saíra como um sopro de um morto, gelada e fraca.

— Quando quiser sair daqui, basta jurar que vai abdicar do trono e da rainha. – O homem se levantara com a lanterna nas mãos. Abrira a porta e um encapuzado entrara silenciosamente, indo até ele. Jon erguera os olhos para o homem. Quisera se levantar e fazer algo para impedi-lo de se abaixar para perto dele. O encapuzado segurara sua gola bruscamente e ele agarrou o braço do homem como alguém se agarraria a uma corda se estivesse prestes a despencar para a morte. – O Norte, meu lorde, o senhor pertence ao Norte, não a Porto Real. – Ele vira o meistre sair pouco antes de sentir o impacto contra seu plexo solar. O ar escapou de seus pulmões e por mais que tentasse não conseguia trazê-lo de volta. O segundo e terceiro soco haviam sido em sua boca e os choques percorreram seu maxilar até a base do crânio, enchendo sua boca do gosto ferroso do sangue. Seus dentes bateram juntos e ele pensou que quebrara alguns. Quando conseguira arfar desesperadamente, mais um soco atingira seu peito e ele sentira, muito mais do que ouvira, as costelas trincarem. Sua cabeça colidira contra a parede irregular, e as pedras haviam lhe enviado para um mundo escuro. Essa fora a segunda vez que pensara estar morto.

Agora ele piscou para afastar a lembrança do espancamento. Beltoar continuava a sentir seus ossos. – Parece que estão bem cicatrizadas. Ainda doem?

Ele limitara-se a encarar a parede à sua frente. Aprendera cedo que tentar argumentar com o meistre apenas lhe rendia mais dores para seu corpo maltratado. Beltoar não queria que ele falasse ou perguntasse o porque das coisas, queria que ele desistisse de tudo e voltasse para Winterfell como se nada houvesse acontecido. Queria principalmente que ele desistisse da rainha. E por mais que a ideia lhe parecesse perigosamente tentadora nos momentos que sentia desconhecidos rasgando sua pele e triturando seus músculos sem piedade, ele não se prendia a ela. A rainha...

Conteve um suspiro e cravou as unhas nas palmas já machucadas, sentindo cortes antigos se abrirem. Não podia pensar nela, não se quisesse continuar lúcido. Porque uma cela úmida, escura e solitária tinha a bela capacidade de empurrar um homem para a insanidade se ele apenas gastasse suas horas com lamúrias e arrependimentos. Por isso ele mantinha os pensamentos em lembranças recentes e tentava arquitetar, mesmo que com falhas absurdas, planos de como escapar daquele martírio.

Beltoar o fez olhá-lo, segurando seu queixo firmemente. – Edwen, amarre-o. Acho que as pernas dele já estão boas demais e ele não quer colaborar hoje.

Jon agarrou os ombros do homem magro, sentindo que se fosse outros tempos ele poderia estilhaçar aqueles ossos frágeis com as próprias mãos, e bateu sua testa contra o nariz comprido e enrugado antes que o traidor pudesse fazer qualquer movimento para impedi-lo. Beltoar soltou um berro de dor, extremamente parecido com um porco no abate, e afastou-se acuado com a mão sobre o nariz quebrado. O sangue vivo jorrava por entre os dedos do meistre e o rei quase sorriu ao vê-lo tentando estancar o sangramento com suas mangas sujas. Mas o homem atingido sorriu, os dentes amarelos e tortos sendo embebidos pelo vermelho corrente.

— Tantos dias conosco e ainda não aprendeu. – Ele enrolou a túnica na não e colocou por cima do ferimento. Edwen apressou-se para segurar os braços do rei para trás, puxando-os com mais força do que seria necessária para parar um homem naquele estado. Seu peito esticou-se com o movimento e suas costelas reclamaram de dor. Beltoar aproximou-se dele e mais uma vez segurou seu queixo, as unhas enormes e curvas perfurando-lhe a face sob a barba por fazer e os dedos duros como aço. Seus olhos negros brilharam ao pequeno e estreito faixo de luz do sol, como contas de enfeites, ou olhos de ratos. Jon mexeu-se para se soltar mas Edwen era forte, e ele não estava nem de longe com capacidade de se soltar do aperto, tudo o que conseguiu foi piorar a situação de suas costelas. – Você pertence ao Norte, meu senhor. – Jon parara de se perguntar porque a todo momento o velho repetia isso, mas naquele instante um pensamento alarmante surgiu em sua mente. Eu já sei disso. Antes que pudesse dissecar porque pensara daquele jeito, ou que pudesse perceber o que iria acontecer, Beltoar puxou seu rosto para frente e o beijou. Os lábios finos e frios como sanguessugas pressionaram-se contra os seus, sujando-o de sangue alheio e enchendo-o de repulsa. Tentou virar o rosto para o lado, mas a mão em seu queixo era firme. O meistre afastou-se sorrindo. – Ao Norte, sua casa é o Norte.

Ele saiu da cela ainda apertando o nariz, mas parecendo vitorioso, deixando-o sozinho com Edwen que ainda o segurava. O traidor moveu-se para frente e começou a amarrar seu tronco e braços com uma corda de inúmeros nós. A cada aperto suas costelas se espremiam contra os músculos e a dor irradiava-se em seu peito como um torniquete, sempre torcendo-o mais até que ele achasse que não iria aguentar respirar. Deixou que ele trabalhasse naquilo, sem oferecer resistência e mantendo-se em silêncio, ouvindo apenas os estalos das cordas atrás de si quando mais um nó era apertado. Sabia que sua melhor chance de sair dali era Edwen. Ao longo dos dias ele vira o desagrado no olhar do rapaz, franzindo o rosto e desviando o olhar todas as vezes que um encapuzado aparecia para aplicar-lhe uma punição. Mas tentar barganhar ou convencê-lo a ajudá-lo era uma ideia repugnante. Jon engoliu com dificuldade o gosto amargo da traição e perguntou o que lhe atormentava.

— Por quê? – Sua voz rouca e mal-acostumada ao desuso soou baixa o suficiente para não ecoar nos corredores e câmaras vazias. Por orgulho sem sentido ele nunca se permitira perguntar nada a Edwen. Tudo o que precisava saber sobre um traidor era o que vira, e já lhe era mais do que suficiente, mas deu a si mesmo aquele luxo. Uma pequena parte sua ainda guardava a esperança de que tudo aquilo tivesse uma explicação plausível e aceitável, e ela recusava-se a morrer.

Ele sentiu Edwen hesitar nos nós, mas não lhe deu mais do que o silêncio como resposta. Continuou concentrado em seu trabalho e quando moveu-se para ajustar as cordas na lateral do corpo preso, Jon puxou-lhe o couro de sua roupa. – Você realmente acredita no que ele lhe fala? – Com o braço torcido de forma dolorosa ele o fez se aproximar, seus rostos juntos o suficiente para que o rei visse as pupilas contraídas nos olhos castanhos. Jon sussurrou mais ferozmente. – Você acha que alguns meistres podem controlar as vidas de todos os Sete Reinos?

— Eles irão deixa-lo ir se o senhor abdicar. – Edwen murmurou nervosamente, seus olhos moveram-se para longe. – É só isso que querem. Se o senhor prometer que...

A risada de Jon Stark foi tão amarga quanto vinho azedo. – É nisso que acredita? Que eles vão me deixar em paz depois disso? Ou mesmo que vão me deixar viver? – Ele soltou o traidor com um empurrão. – Se é isso que realmente acredita, então não está prestando atenção. – Respirou fundo, até onde as cordas permitiam, tentando expurgar aquele pensamento. Não podia morrer ali, não com tudo o que estava descobrindo... Mas não iria implorar a ajuda dele, até que o último resquício de coragem que lhe restasse para ir embora ainda vivesse, ele não iria implorar a um traidor. Mas você precisa de ajuda. Ele ergueu os olhos para o homem, enxergando por um momento risadas e companheirismo perto de uma lareira, imagens frias como adagas. – Eu só quero entender porquê.

Edwen não pareceu propenso a responder qualquer coisa e antes que Jon pudesse falar novamente a porta foi aberta, deixando um dos encapuzados entrar. Eram sempre figuras altas, corpulentas e que não vestiam mais nada além de túnicas cinzas e longas cordas na cintura, com capuzes largos ocultando os rostos, e este não era diferente. Edwen colocou duas tiras de couro entre seus dentes e ele mordeu fechando os olhos, ignorando o gosto salgado do tecido curtido. Por mais que tentasse se preparar para o que viria nunca parecia ser suficiente, seu coração acelerou-se quando o desconhecido abaixou-se perto de suas pernas estiradas e revelou um martelo rombudo de dentro das mangas. O terror preencheu seus sentidos quando o viu subir e descer. O osso partiu-se novamente com um estalo agonizante e a dor subiu quase imediatamente por seu corpo, atravessando suas ligações nervosas como se tivesse vida própria e o propósito de destruir. Ele mordeu o couro, com toda a força que lhe restara e um pouco mais, e depois se perguntaria como seus dentes não haviam virado farelo. Seus olhos escureceram, mas ele não teve a sorte de cair na inconsciência. Seu tornozelo pulsava, fazendo-o ver os grilhões do teto se deformar, e a dor alucinante quase o fez implorar para que cortassem fora aquela parte de uma vez por todas. Puxou o ar para os pulmões apertados e as costelas mostraram que ainda estavam presentes. Agora não! Quis gritar para elas. Queria gritar qualquer coisa para qualquer um, mas o homem já erguera novamente o martelo e ele sabia que sem a faixa de couro entre os dentes podia decepar a própria língua com uma mordida.

Sem qualquer gota de piedade correndo em suas veias, o encapuzado desceu o martelo, como um carrasco ao cortar uma cabeça, e por um breve momento Jon viu apenas o reluzir do metal contra luz, a ação paralisada e a dor adiada. Meio segundo antes, ele perceberia que o objeto de ferro pesado como uma bigorna descia para a mesma perna atingida anteriormente, mas o osso foi partido novamente e seus olhos giraram nas órbitas, carregando-o para uma escuridão atribulada, mas bem-vinda.

Quando abriu os olhos ele sabia que ainda era ele, mas não precisou de muito tempo para perceber que não estava mais em seu corpo. Os dias se tornavam mais suportáveis por conta das noites, onde sua consciência deslizava atrevidamente para a pele de Fantasma e ele abandonava momentaneamente seu corpo torturado em Harrenhal.

Aprendera a gostar daqueles sonhos de lobo, com as cores vibrantes como ondas nos tons de vermelho, os cheiros se misturando com o que via e os sons mais altos e claros do que qualquer coisa que ele já houvesse experimentado como homem. Sabia passar para o animal mesmo estando acordado, mas costumava deixar o lobo em paz, mesmo que Fantasma não se importasse e o acolhesse tão confortavelmente como se Jon vestisse uma calça com anos de uso. Havia momentos que mesmo consciente ele tinha pequenas amostras daquele mundo, principalmente quando um dos dois estava ansioso para encontrar o outro.

O lobo branco o achara uma semana de cativeiro depois. Soubera disso no instante que Fantasma pisara no solo sagrado ao castelo de Harrenhal, onde suas mentes haviam se tocado e vibrado com a proximidade. Mas, por mais que Jon quisesse ver o lobo e se regozija-se com sua presença, afastou-o. Foi como se atirasse pedras nele e, por sua ligação, sentiu o animal insistir. Não. Ele sussurrava em sua mente. Eles irão matá-lo, rapaz.

Depois de muito relutar, o lobo aceitara e correra para longe, contrariado. Ele deixou-o fugir, e só tentou contato dias depois, quando pensou que ele estava afastado o suficiente para sua própria segurança. Percebera pela visão que o animal tinha do alto de um pequeno monte, as torres deformadas de Harrenhal. E quisera reclamar com o lobo para voltar para casa. Vá para Winterfell! Mas não gritara isso. Ficara feliz por ter aquela âncora que o fazia sentir que não estava só.

Fantasma estava farejando um cervo naquele momento. Pelo peso das pegadas que Jon via ao chão, apostava que era um filhote desgarrado, e não culpou o lobo por recorrer a um pequeno espécime. Ele precisava comer e não era tempo para escolhas gananciosas. Ele abaixou-se nas patas, os músculos fortes e flexíveis se dobrando até que ele ficasse do mesmo nível que um arbusto suficientemente grande para escondê-lo. Agora podia vê-lo, a bela criatura, com cascos delicados e pouca carne cobrindo os ossos, mas ainda sim era suficiente. Pastava com cautela, mordiscando a casca de um carvalho velho e observando os lados com olhos assustados. Mas quando o lobo se moveu, as patas não sussurrando nenhum aviso prévio para a pobre presa, ele não percebeu o perigo. Sentiu-se seguro o suficiente para morder a árvore três vezes seguidas, mas não chegou a quarta. Seus dentes mortalmente afiados rasgaram a garganta do pequeno animal, atravessando os pelos e tecidos até que ele parasse de se debater e aceitasse a morte inevitável. O sangue saboroso e quente preencheu seus sentidos e ele comeu para saciar sua fome, arrancando as fibras musculosas e a pouca gordura.

Sentiu alguém sacudi-lo e foi tirado daquele corpo para o seu próprio bruscamente, como se de repente um corda o puxasse das profundezas de águas calmas. Quis continuar no lobo, não queria voltar para as limitações do seu corpo, mas quem o acordava estava decidido e ele não teve escolha.

— Acorde, meu senhor! Nós não temos muito tempo! – O sussurro era baixo e urgente, acompanhado com balanços persistentes. Jon arfou quando tomou sentido das dores e do mundo ao seu redor. A luz contra seu rosto era forte para seus olhos sonolentos, mas ele sabia que ainda era noite. Quando conseguiu focalizar os olhos de Edwen os viu arregalados e ansiosos sob a iluminação de uma lanterna. – Vou tirá-lo daqui. Acha que consegue andar?

O homem passou os braços embaixo de seus ombros e o levantou, colocando-o sob suas pernas. Quando sentiu o peso de seu corpo nos membros inferiores sua cabeça girou e o fez sentir o gosto da bile. Jon agarrou-se no braço do homem, pensando que iria desmaiar. Edwen o segurou com firmeza. – Não, acho que não pode. Mas vai ter que fazer um esforço, pelo menos até chegarmos aos cavalos.

— Esforço? – Jon murmurou apoiando-se na perna parcialmente boa, enquanto o homem apertava suas costelas para segurá-lo. Ele apertou o maxilar para não reclamar do que incomodava terrivelmente. Por que está fazendo isso? Quis perguntar, ao ver Edwen arrastá-lo com dificuldade pelos corredores vazios. Sua mente estava turva e ele pouco registrou o caminho que fizeram até emergir sob a lua fina como uma faca. O ar estava quente e pegajoso e ele teve mais problemas em mover uma perna na lama seca sem apoio realmente útil.

De uma forma que ele jamais entenderia, Edwen o levou até dois cavalos no meio da proteção escura de árvores e o colocou no lombo de um dos animais. Naquele momento ele, prestes a perder a consciência de vez pelo tanto que exigira de seu corpo exaurido, segurou o braço dele antes que o homem se afastasse.

— Por quê? Por que está fazendo isso? – A garra da inconsciência puxou-o com força para baixo e ele não escutou o que quer que ele houvesse respondido.

*

A febre o atingiu como uma flecha atravessando um alvo de palha. Rasgando-o de fora para dentro, estraçalhando seus sentidos e permanecendo fincada em seu corpo, agarrada à sua essência, como se presa na madeira atrás do alvo. Até em seus ossos ele sentia os espasmos das convulsões e tudo do que ele se lembrava eram sons e visões turvas, que ele não conseguia identificar como verdade ou delírio.

Em certos momentos ele via-se em meio a uma floresta cheia de árvores baixas e curvas, com sombras que assomavam-se diante dele como monstros que não existiam. Em outros ele sentia Fantasma perto de si, com seu corpo quente protegendo-o do frio cortante da noite. Mas ás vezes ele via pássaros com olhos vermelhos e chifres brilhantes. Aquelas alucinações perseguiam-no dentro de sua própria cabeça e ele não tinha para onde fugir.

Não sabia por onde o levavam ou o que o faziam, e quando abria os olhos ele via rostos difusos e desconhecidos para sua mente doente. Por vezes conseguia identificar vozes, mas sempre que tentava emergir uma força maior que ele arrastava-o de volta e ele voltava a se perder em sonhos agitados.

Em um dia melhor do que os outros ele sentira alguém apertar sua mão e fizera um esforço sobre-humano para obrigar suas pálpebras a erguerem-se e, na penumbra de um quarto, com travesseiros macios atrás de sua cabeça, ele vira íris violetas extremamente preocupadas. Daenerys apertara seus dedos, mas ele quase não sentira o toque. Apenas via os olhos que sonhara tantas vezes dentro da cela.

— Jon. – Um sorriso fraco iluminara seu rosto. Ele olhara ao redor, seu desespero buscando os grilhões no teto. Seria possível que ela estivesse presa também? Empurrou sua mão para longe. Corra! Eles vão acha-la! Quis gritar. – Calma, calma. Está tudo bem, você está bem. – Daenerys agarrou seus dedos, apertando com força. – Está em casa agora.

Em seu delírio febril ele murmurou sem voz: – Não, esta não é minha casa. – E fora fisgado pelas quenturas do corpo.

Dias depois, ele não tinha noção nenhuma de quantos, ouviu um amassado de tecidos e madeira correndo contra madeira. Abrira os olhos com dificuldade, mas logo erguera a mão para proteger-se contra claridade que preenchia todo o ambiente. Mesmo que apertasse as pálpebras com força e tentasse encobrir o sol ele ainda sentia uma dor aguda no fundo dos olhos e um gemido escapou involuntariamente. Sons apressados se seguiram e ele escutou, como se o barulho estivesse ao pé de seu ouvido, alguém abrir uma porta e sair correndo. Ele mal teve tempo de se acostumar com a luz matinal quando vozes retumbaram em seus ouvidos. Franzira a testa para os ruídos estrondosos, sem notar detalhes de onde estava. Mas logo erguera as sobrancelhas com surpresa quando Arya apareceu ofegante na soleira da porta aberta.

Ela sorriu largamente ao ver o irmão espantado e correu até ele.

— Você finalmente acordou! – Ela abraçou-o com uma força desconhecida para ele e sua exclamação foi tão dolorosa quanto o aperto. – Eu estava tão preocupada. Bem, não tanto, já que agora eu podia vê-lo, mas... – Ela afastou-se por um segundo para verificar que seus olhos ainda estavam abertos e abraçou-o novamente, arrancando uma lufada de ar de seus pulmões. – O meistre disse que a febre não era um bom sinal. Então eu estou feliz que acordou. – Sua voz carregava um sorriso a cada palavra.

Jon retribuiu o abraço, não achando nada de incomum em vê-la, perto de si onde quer que ele estivesse. Pensou em lembrá-la que em algum momento precisava respirar quando se tocou do que a irmã havia falado. Os meistres... Então sua mente pareceu estalar. Edwen.

— Arya. – Ele afastou a garota com certa dificuldade, e sua voz rouca falhou ao pronunciar o r. – Edwen, onde ele está?

A irmã franziu o rosto, parecendo repentinamente irritada. – Nas celas da Fortaleza Vermelha. Ele confessou o que fez. Daenerys vai executá-lo amanhã.

— Executá-lo? – Ele ergueu o tronco, mas a garota empurrou-o de volta.

— Não se mova, acabou de acordar. – Ela sentiu sua temperatura ao colocar as costas da mão na sua testa. – E ainda está muito quente.

Quis protestar, Edwen o salvara, tinha uma dívida com o homem. Uma parte estúpida dentro de si não aceitava que ele fosse executado sem que ele resolvesse toda a questão. Mas antes que pudesse abrir a boca para alguma coisa, a rainha entrou em seu campo de visão. Seus olhos brilharam quando ela o viu e as maçãs do rosto, coradas devido a algum esforço, ergueram-se quando ela sorriu.

Os passos foram apressados quando ela foi até ele. Mas parou a uma curta distância, parecendo incerta do que fazer. Arya finalmente o largou por completo, parecendo embaraçada por estar atrapalhando alguma coisa. Com o rosto tingido de vermelho, a pequena loba levantou-se de onde estava.

— Eu... – Ela olhou para os lados, mesmo que Jon não conseguisse prestar atenção a ela, e que a rainha não tirasse os olhos do esposo. – Eu vou dizer ao Gendry que você acordou. E escrever uma carta para a Sansa. É, vou escrever para ela. – Extremamente satisfeita com a desculpa que conseguira, ela foi embora quase correndo como chegara.

Daenerys o olhou, parecia esperar alguma coisa e ao mesmo tempo nada, como se contemplá-lo acordado já fosse suficiente. Jon umedeceu os lábios secos, sentindo a nova camada de pele que se formara sobre as rachaduras antigas. Água. Os segundos se arrastaram e ela nada fez.

O rei limpou a garganta. – Você poderia pegar um pouco d’água para mim? Eu mesmo pegaria, mas... – Ela não esperou que ele completasse. Foi até o baixo móvel perto da cabeceira da cama e despejou água de uma jarra em um copo de vidro. Jon ergueu a mão para segurar o copo, mas ela ignorou o gesto e pôs delicadamente o objeto entre seus lábios. Bebeu com avidez, mesmo achando desconfortável que ela o servisse daquela forma. Quando terminou, Daenerys afastou-se mais uma vez, criando assim uma pequena irritação no homem.

— Se está esperando que eu vá abraçá-la. – Ele olhou para as cobertas, experimentando mover minimamente uma das pernas e se arrependendo logo em seguida. – Acho que vai demo...

Sua frase foi interrompida quando ela eliminou a distância entre eles e apertou-o contra si. A rainha enterrou o rosto em seu ombro, respirando profundamente. Parecia não se importar que estivesse em uma posição desconfortável para abraçá-lo e ele tentou se esquecer das pontadas de dor nas costelas machucadas.

— Seu tolo. – Ele não esperava aquelas palavras, mas sorriu mesmo assim, inebriando-se com o perfume afrodisíaco da mulher, sem dúvida um cheiro mais agradável do que o mofo de seu cativeiro. Os cabelos dela formavam uma cortina prateada no seu campo de visão, e ele a puxou para mais perto de si. Daenerys continuou, sem afastar-se nenhuma polegada. – Nunca mais. – Murmurou balançando a cabeça. – Nunca mais você irá a qualquer lugar sem alguém de confiança para protegê-lo. Está me ouvindo? – Ela não lhe deu espaço para contrariá-la. – Se algum dia inventar de fazer outra estupidez como essa... Eu mesma vou prendê-lo em um quarto, até que aprenda a nunca mais ser tão idiota.

Jon abusou da sorte rindo da ameaça. – Você vai me prender?

— Vou. – Ela afirmou categoricamente, ainda entregue à seus braços. – E não poderá ver ninguém sem minha permissão. Nem mesmo seu lobo estúpido poderá entrar.

— Fantasma é estúpido, agora?

— Os dois. E todos os Stark. Estúpidos e acéfalos. – Daenerys afastou-se dele, parecendo relutante, mas achando necessária uma reprimenda face a face. Suas sobrancelhas estavam unidas e os lábios franzidos. – Onde já se viu um rei ir ver se uma carroça estava com problema? Tente fazer algo parecido com isso outra vez e não verá outro raiar de dia! – Usou o dedo em riste para enfatizar sua ordem.

Ele lutou bravamente para controlar o riso. A mulher estava séria o suficiente para assustá-lo, mas tudo o que pensava em fazer era rir. Assentiu militarmente, levando a cena à solenidade. – Claro. Nada de verificar carroças daqui em diante.

Daenerys estreitou os olhos. – Você pensa que eu estou brincando?

— Eu não sou louco em duvidar verbalmente, Vossa Graça.

Ela analisou-o por um momento e pareceu convencer-se de sua honestidade. Hesitante, quase com timidez, ela tocou-lhe a face, deixando a mão sobre sua bochecha. E, devagar, ela aproximou o rosto e uniu-os com os lábios. Apenas um toque, um pressionar de bocas tão macio quanto as penas de um rouxinol, mas que encheu seu peito com um calor morno e agradável. Daenerys afastou-se de com a testa enrugada. – Você ainda está muito quente.

Ele apenas olhou para ela, indagando em silêncio se ela realmente achava que isso tinha alguma importância naquele momento. A rainha sorriu antes de beijá-lo mais uma vez. Tocando-o no interior de sua boca com suavidade, parecendo ter medo que ele quebrasse ao contato. Jon quase irritou-se com aquilo, mas não reclamou. Senti-la já era bom o suficiente.

— Eu senti sua falta. – Ela sussurrou contra seus lábios, fazendo sentir o jeito que ela desenhava as palavras na boca. Ele manteve-a perto quando ela tentou se afastar.

— Eu sei. – Os olhos da rainha desviaram-se para baixo quando ele pronunciou aquelas palavras estúpidas. Jon umedeceu os lábios mais uma vez. – O que eu quero dizer é... Eu realmente sei. Porque... – Quis se impedir de dizer aquilo, mas não pode. – Porque eu vi.

Ela voltou a olhá-lo agora. – Você viu?

O rei respirou fundo, até onde os ossos danificados permitiram, e quase arrependeu-se de ter iniciado o assunto. Ela merece saber.— Lembra-se quando Fantasma veio ao seu quarto em uma noite? E você pediu para ele ficar?

Ele notou o nó da garganta feminina subir e descer. – Como sabe disso?

— Sei porque... Era eu nele. – Ela franziu o rosto, parecendo não ter entendido uma palavra. Jon suspirou, cansado demais para explicar uma coisa que nem mesmo ele entendia completamente. – Eu, de alguma forma, posso estar na mente de Fantasma. Sentir o que ele sente, e viver o que ele vive. No Norte, pessoas que conseguem fazer isso com lobos são chamados de – a palavra engasgou em sua garganta –, wargs.— A rainha continuou com a mesma expressão e ele balançou a cabeça. – Outra hora eu explicarei melhor. Bem, eu tentarei. – Ela assentiu lentamente, com os olhos desfocados. Jon apertou sua mão. – Apenas saiba que, sempre que ele estiver por perto, e eu longe... Pode confiar nele. – Sussurrou, completamente arrependido de ter tocado naquele assunto do jeito que estava.

Com delicadeza e parecendo confusa, ela segurou sua mão direita, e correu os dedos pelas ataduras de linho cru. Inclinou a cabeça, parecendo absorta em devaneios.

— Sim, vai explicar isso melhor. – Ela respirou, e balançou a cabeça, como que para tirar o assunto da mente. Em um tom baixo a rainha falou. – Me alegra saber que você está bem. Tive medo que eles pudessem ter danificado sua... mente. – Suas íris emitiram um brilho tímido, quando ela o espiou, com uma pergunta silenciosa. – Já ouvi muitas histórias do que um cativeiro pode fazer com um homem. – Jon balançou a cabeça.

— Eu estou bem. – Um lampejo de lembrança escureceu seus olhos, mas ele piscou para aliviar aquela sensação. – Não se preocupe com isso.

Ela sorriu, parecendo não ter percebido aquela breve rachadura, e apertou sua mão. – Não quero falar disso agora. Temos muito a conversar, você tem muito a me contar. – Ela pousou a cabeça suavemente em seu peito, quase sem colocar peso algum. – Mas por hora eu só quero aproveitar que você está bem.

Jon envolveu os ombros da mulher com um braço, seus dedos roçando a seda prata que eram seus fios. Ele também não queria falar sobre aquilo, não queria escavar o que empurrara com dificuldade para dentro de sua mente. Temia que se pensasse demais em tudo, não conseguiria ser ele mesmo novamente. Assim, aspirou o cheiro de seus cabelos e fechou os olhos, pensando em como não contaria a ela o que havia passado nas celas escuras de Harrenhal.

Notas finais
Então? Como foi? O que vocês acham que nosso bebê passou e está escondendo? HE HE (Ás vezes eu sou tão má.) Uma coisinha. Apontem um erro no capítulo (pra me ajudar a melhorar docinhos!) e eu escrevo uma mini cena entre quem vocês quiserem e como quiserem para cada um no review. ^^ (Não sejam cruéis e peçam coisas tipo... Dany e Jorah, eu não consigo shippar esses dois... Bléh)