Notas iniciais
Demorei? Demorei. Por quê? Sei não. Mentira, sei sim. Esse capítulo pode não ser tããoo importante, mas é, do jeito dele. Desculpem pela demora, e espero que possam me perdoar já que ele é grandinho. Boa leitura! (Música do capítulo: Quelqu'un m'a dit - Carla Bruni) ~Francês e bem fofinha, escutem~

Ela procurou a mão dele em meio às cobertas. Mergulhando e perdendo-se por um instante desesperador por entre as dobras suaves dos fios refinados de algodão, até finalmente respirar aliviada ao achar seus dedos febris. Deslizou sua mão perceptivelmente menor por baixo da palma grossa e entrelaçou as extremidades. Só então abriu os olhos para o dossel forrado da cama, percebendo que a pouca luz que vazava das cortinas em migalhas iluminava apenas os detalhes mais ricos e brilhantes do tecido. Havia se tornado um ritual ou talvez uma medida de segurança que ela repetia todos os dias. Primeiro certificava-se que ele estava ali, com ela e bem, na medida do possível; para só depois permitir-se levantar as pálpebras sonolentas com um suspiro.

Daenerys soltou a mão do esposo e esticou-se, letárgica, tomando cuidado para não tocá-lo bruscamente e acordá-lo sem querer. Todas as manhãs, ainda na penumbra das primeiras luzes frias, ela reservava um bom tempo para observá-lo dormindo, quase profissionalmente, verificando a como andavam as cicatrizações sem que ele teimasse em dizer que estava bem, quando todos sabiam que não. Assim, depois de molhar o rosto com a água gelada de uma bacia de cerâmica, que ficava em uma mesinha baixa perto da cama, e abrir parcialmente as cortinas, ela sentou-se sobre as pernas dobradas e começou sua análise.

Quando não estavam juntos, Jon costumava dormir de bruços, com uma das mãos por baixo do travesseiro onde seus dedos permaneciam tocando o metal frio do cabo do punhal que ele mantinha sempre perto de si. Havia descoberto isso quando o vira deslizar a lâmina reluzente por debaixo do encosto. Mas por conta de tudo o que lhe fora infligido, as recomendações explícitas eram de um sono tranquilo com o peito para cima. Ele não reclamara muito, da maneira que seu corpo estava não havia muitas posições confortáveis para escolher. Dany agradecera a um dos meistres por isso, assim ela podia verificá-lo quase por inteiro.

A mão esquerda havia chegado com fraturas nas falanges e o tendão do dedo médio cruelmente distendido, e como ainda estava enfaixada com uma tala firme de suporte – deixando-a segura dos usos antes da hora de seu rei cabeça-dura – ela não podia acompanhar o avanço. Mas se ele não podia mexê-la, devia estar caminhando bem.

Com a direita as coisas haviam sido diferentes. Inúmeros cortes finos marcavam desde a ponta dos dedos até a parte macia de dentro do antebraço, formando um conjunto assustador de rasgos na pele por toda a extensão. A princípio ela se alegrara com isso, e os meistres também, cortes pequenos e rasos não eram difíceis de curar e alguns já apresentavam uma boa cicatrização. Até que um tempo depois eles notaram manchas escuras por debaixo da pele naqueles parcialmente curados e os da mão teimosamente vertendo sangue todas as vezes que ele se mexia de alguma forma em seu sono perturbado. Um meistre mais experiente afastara todos com um empurrão rude e, brandindo uma pinça intimidante, reabrira os ferimentos. Mesmo agora, ao sentir com os dedos as cicatrizes escuras e do sangue coagulado, ela sentia-se nauseada com a espantosa quantidade de pequenas navalhas que o velho havia retirado daquele braço, precisamente posicionadas para causar dor a cada movimento, sem acertar nenhum vaso ou artéria particularmente importante. Uma daquelas pequenas lâminas afiadas havia estado tão entranhada nos músculos, quase como se as fibras estivessem enraizando-a, que a ela retirara-se da sala para colocar seu jantar para fora.

A rainha correu as pontas dos dedos para o ombro do homem mansamente adormecido até a clavícula, passando por um X alongado e uma fina marca avermelhada. Ela pensara que se tratava de mais um talho profundo, revelando as partes mais escuras e rígidas do músculo, mas os meistres sabiam reconhecer um ferimento por ferro incandescente quando viam um, e ela engoliu em seco ao lembrar-se do som que a brasa fazia ao encostar-se à pele; esfriando-se brutalmente e carbonizando tecidos. Desceu mais a mão, contornando o peitoral e arrepiando os pelos raros da região para chegar à primeira faixa das ataduras de linho, duramente apertadas para manter no lugar as costelas fraturadas.

Todos os dias eles trocavam aquelas faixas, não pelos ossos, que provavelmente já deviam estar quase curados, mas pelos vergões da carne dilacerada que eram suas costas. Agora estava melhor, ele já não se encolhia tanto quando descolavam as linhas de tecido que grudavam no sangue seco e quando passavam o emplastro doce com cheiro de lírio, mas aquelas marcas, longas e sequenciadas como só um relho de açoite pode deixar, iram permanecer em sua pele até o fim de seus dias. E sempre, ao vê-las ela se lembraria com ódio de quem as infligira; o homem que, se dependesse apenas de sua vontade, iria apodrecer nas celas abandonadas, mas que teria um julgamento daqui à alguns poucos dias.

Ela levantou delicadamente a coberta para revelar a coxa esquerda do esposo. Onde a curva inferior de seu ventre começava, tiras brancas circundavam o músculo torneado e, ela franziu o cenho criticamente, uma mancha vermelha maculava a cor pura. Fazendo uma anotação mental de que teriam que trocar o curativo, lembrou-se de como doloroso fora assistir aquela parte. Com a memória fresca das navalhas escondidas, os meistres haviam definido uma profunda inspeção em qualquer talho ou rasgão que fosse achado, antes da sutura. E naquele, de aparência feia e inchada, com vermelhidão contornando-o, eles haviam retirado – além de uma quantidade considerável de pus amarelado – um prego envergado, afundando no fêmur. Mesmo desmaiado e delirante em sua febre, Jon contorcera-se na extração do metal pontiagudo, tão encravado nas durezas do osso que eles haviam demorado horas para retirá-lo sem que nenhum pedaço se quebrasse e continuasse lá dentro.

Mais para baixo, logo depois do joelho esfolado, Dany via a madeira clara que alinhava o osso quebrado em duas partes. Na outra perna a mesma cena se repetia e ela não sabia dizer como aquilo estava por debaixo das ataduras, por isso recolocou o lençol no lugar.

Voltou-se para o rosto. Seus olhos moviam-se nervosamente sob as pálpebras e ela temeu que ele estivesse perdido novamente em um de seus frequentes pesadelos. A boca, relaxada agora, mas que crispava-se em certos momentos quando ele era contrariado, era um tentador convite a um toque de lábios, mas ela evitava fazer isso. Em parte pela linha profunda que acompanhava o contorno da mandíbula, onde a pele havia sido descolada e agora se unia bem, deixando apenas um corte com a costura quase imperceptível. Mas a outra parte de seu refreio... Nas mínimas vezes que ela o beijara e avançara um pouco mais do que os meistres teriam recomendado, um desejo avassalador subira-lhe pelo corpo, incendiando-a de uma forma que ela jamais experimentara e a mulher não podia saciar-se com o marido, não ainda e não por um bom intervalo de tempo considerando o jeito que seu rei estava. Dany não queria machuca-lo ainda mais em sua urgência, então mantinha certa restrição, jeito de agir que certas vezes o deixava irritado. Mas vendo seus lábios se entreabrirem em um suspiro incomodado ela não pode se impedir de inclinar-se sobre ele.

O sono relativamente pesado de Jon Stark tinha um limite e ele abriu os olhos quando a sentiu contra sua boca. Dany afastou-se dele, para ver a maneira adorável que seus olhos embaçados pestanejaram para manter um foco e como o reconhecimento brilhou em suas íris cinzentas quando ele a viu como real e não sonho. Ela beijou-o mais uma vez, sendo correspondia lentamente.

— Como está se sentindo? – Perguntou apoiando-se em um cotovelo no colchão macio e com a mão livre colocando um cacho escuro atrás de sua orelha. Jon uniu as sobrancelhas, mas respirou fundo, acordando os músculos.

— Melhor do que ontem. – Ele lhe respondeu com um mínimo estremecer quando moveu-se de forma errada. Sua voz soava rouca e recém-acordada como devia ser. Dany o mandou ter mais cuidado e sorriu ao vê-lo piscar olhando para o outro lado e enrugando o canto da boca, como sempre fazia quando ela o apetecia com algo que ele julgava desnecessário. A rainha beijou-lhe os lábios em um impulso e levantou-se, rápido demais para sua condição.

Por um breve instante, sua visão esmoreceu e ela teve que se segurar na madeira firme do encosto da cama para não cair. Mas logo tudo voltou à normalidade e ela rezou para que ele estivesse distraído demais para ter notado alguma coisa. Mas quando o olhou, ele a fitava atentamente, com as íris claras brilhando aos fracos raios. Jon ergueu as sobrancelhas para ela.

— Não foi nada. – Garantiu tolamente, soando mentirosa até para seus ouvidos. Ele continuou com a mesma expressão e ela suspirou. Era terrivelmente irritante que ele a fizesse dizer tudo com a apenas um olhar languido. Ela não queria falar sobre aquilo agora, mas aquela indagação silenciosa parecia indicar que ela não tinha muita escolha.

Soubera que era verdade à poucos dias, e o que antes apenas assombrava-a como uma ideia impossível, tornara-se um fato inquestionável. Ela sentira os seios rígidos e doloridos ao toque, e a barriga começando a pronunciar-se estranhamente em contraste ao seu corpo magro, mas arranjara desculpas bobas para esses sinais. Podia estar doente afinal, alguma enfermidade com os exatos sintomas de uma gravidez devia existir. Mas mesmo que ela não quisesse, uma centelha de esperança brilhara dentro de si, e secretamente ela torcia todos os dias para perceber que sua barriga estava realmente crescendo. Apenas quando Missandei oferecera-se para tocá-la, para sentir as paredes do útero, foi quando tivera a aterrorizante certeza.

— Está duro como couro curtido, Vossa Graça. – A escriba sorrira parecendo radiante. – A senhora está grávida, não há dúvidas. E eu diria que de 3 a 4 voltas de lua.

3 meses. Ela pensara, agradecendo aos deuses por estar deitada naquela hora. Estou esperando uma criança à 3 meses. Perguntara debilmente como a mulher sabia daquelas coisas e Missandei entrara em lembranças sobre seu passado que ela escutara sem realmente prestar atenção. Pusera a mão sobre a barriga levemente inchada, os dedos tremendo e os pensamentos absolutamente desordenados.

Se ela fosse pensar logicamente fazia sentido, há quase quatro meses ela dormira com seu esposo pela primeira vez e, na cabeça de todos, não seria nenhuma surpresa que ela já estivesse fecundada; considerando a compleição saudável dos dois noivos. Mas ela não era saudável, não poderia ter filhos até que o sol se pusesse no leste e nascesse no oeste, então não havia motivos para pensar com lógica. Só de lembrar-se das outras vezes que dormira com outros homens sem nenhuma consequência... Aquilo devia bastar como prova irrefutável de que era estéril, mas – ela apertara firmemente o que devia ser seu filho –, parecia que de alguma forma não.

Os dias seguintes à sua descoberta haviam sido corridos e cheios, os lordes da corte todos ansiosos em apresentar suas palavras de conforto para o rei que não podia nem respirar sem sentir dor, muito menos assentir em agradecimento. Então ela guardara o segredo para si, uma notícia que aos poucos foi ganhando espaço em seu coração como alegria, e atendera aos súditos com paciência e compreensão. Todas as manhãs, no primeiro banho, ela olhava para baixo e sorria sozinha ao constatar um minúsculo aumento, e acariciava mansamente a barriga; como se fosse a pele de seu bebê e não a sua.

Jon pousou a mão livre de ataduras e cheia de cortes secos em sua coxa, aquecendo sua pele. Ela ergueu-se de suas divagações e tocou a curva de seu pescoço. – Está com febre ainda. – Ele impediu que ela se levantar-se para molhar um pano na água fria e assim melhorar sua temperatura, com um firme pressionar de dedos. Seu rei contorcera o rosto em genuína preocupação, gesto que fez seu coração palpitar; ela só o vira fazer aquela expressão para Arya.

— Você está doente? – Perguntou e ela quase riu da conclusão que ele chegara ao ver seus constantes enjoos e alguns desmaios.

Ela pôs a mão sobre a dele e apertou suavemente, balançando a cabeça. – Não. Temo que seja um pouco mais sério que isso.

Jon assentiu devagar e ergueu o tronco com dificuldade para se sentar. Dany ajeitou os travesseiros em suas costas, perguntando-se a possibilidade de existir um manual na biblioteca da Cidadela intitulado: Como Dizer Ao Esposo Que Está Grávida Depois de Tê-lo Feito Acreditar Que Não Poderia Ter Filhos. Mas duvidava que alguém soubesse a forma certa de dizer isso ou que existisse um livro com um nome tão grande. Ela aproximou-se dele, rindo com a ideia de ela mesma escrever o livreto e receber louros de todas as mulheres que certamente necessitavam disso um dia, para ganhar um olhar indagador do homem; sentou-se ao seu lado, de forma que seus ombros se tocavam e tomou-lhe a mão naturalmente. Gostava de sentir a pulsação rítmica de seu sangue correndo nas veias, e sabia que sempre era mais fácil conversar se houvesse algum contato entre eles. Percebera isso quando ele precisara contar o que passara em Harrenhal, mesmo que escondendo as partes mais desagradáveis, imaginava ela.

Dany inspirou e expirou, completamente perdida por onde devia começar. Preferiu não olhá-lo diretamente, aqueles olhos tempestuosos eram capazes de extrair todos os seus segredos muito rapidamente e aquele assunto devia ser abordado com calma, contornando as beiradas para que ele entendesse. Como ela mesma não entendia o que se passara, não sabia como fazer. Brincou com seus dedos, distraindo-se com a cor quase dourada que os raios deixavam em sua pele, e sentindo as veias mais proeminentes. Girou delicadamente a mão para cima e fez o caminho das linhas da palma, desviando-se com cuidado dos ferimentos. Jon esperou pacientemente até que ela iniciasse.

— Um pouco antes de você chegar, isso começou. Eu sentia a visão escurecer e em algum ponto comecei a não manter muita comida na barriga, me sentia enjoada por quase todo o tempo. – Ela umedeceu os lábios, estranhamente secos. – Pensei que estivesse doente, porque estava fraca ou porque havia comido algo não muito bom. Enquanto Missandei... – Dany franziu a testa diante as palavras que travavam em sua garganta. Fale logo. Num fôlego só ela soltou: – Bem, ela achava que eu estava grávida. Mas nós sabemos que eu não poderia estar, certo? – Riu nervosamente, ainda sem olhar para ele. – Eu não podia estar. E continuei acreditando que era uma doença qualquer. Até... – Engoliu em seco, tentando lubrificar as cordas vocais que pareciam tão rígidas quanto os fios esticados de uma arpa de Qarth. – Até que ela tocou-me, sentiu-me no útero e disse que sim, eu estava grávida e não havia dúvidas. – A alegria daquela notícia ter finalmente sido dita a ele atingiu-a pesadamente. Ali, apenas por segurar seus dedos maltratados entre os seus e ter falado o que era para ser um segredo deles... Encheu-a de felicidade. Uma criança nossa, Jon. Um filho meu e seu. Um sorriso tímido iluminou seu rosto e ela levantou os olhos para ele.

O rei mostrava-se despido até a cintura, com as faixas de linho branco circundando-o como cordas. A luz cada vez mais crescente do sol iluminava seu rosto, e os fios desgarrados do cabelo brilhavam mais claros ao serem perpassados pela luz, como uma aureola. Dany podia ver os batimentos acelerados em seu peito, e senti-los sob sua mão. Uma sombra encobria parcialmente seu rosto, mas ela olhou-o como se o estivesse vendo pela primeira vez. – Eu estou esperando uma criança, minha e sua. – Sua voz em um sussurro foi o único som do quarto quando os dois prenderam a respiração.

Jon Stark não esboçou reação. A boca alinhada em um traço duro e os olhos abertos quase desfocados fez sua momentânea alegria vacilar. Não se afastou dela, ou fez menção de puxar a mão que ela segurava como uma âncora. Mas também não a tomou nos braços, apertando-a com felicidade como ela sonhara muitas vezes antes de adormecer. Permaneceu parado, tão imóvel quanto uma rocha, e ela só acreditou que ele estava vivo quando viu o ar esvair-se de seus pulmões. Dany sentiu-se desamparada e teve que apertar sua mão para dar a si mesma algum suporte.

— Você não gostou? – Um fiapo fraco de voz, que gaguejou levemente ao sair de sua boca. Por quê? Ela viu o homem buscar ar profundamente, e encolher-se um pouco ao forçar os ossos do peito.

Jon balançou a cabeça e fechou os olhos, aparentando estar tão atormentado quanto ela. – Não é isso. Não é... – Ele exalou, a respiração pesada tocando-lhe a face em uma nuvem quente e reconfortante. O rei olhou para o lado, como se procurasse ajuda na mobília do quarto. Ela pouco lhe foi útil. – Eu não sei. – Parecendo exausto, abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu e ele remexeu-se no lugar parecendo não sentir ou não prestar atenção aos incômodos das costas. Encostou a cabeça na madeira lisa e disse, tomando cuidado em cada palavra, mas dirigindo-se às flores bordadas do forro do dossel: – Eu não sei se isso é uma boa notícia.

A rainha soltou-se dele, sentindo intimamente que aquilo era um erro, mas não podendo impedir-se de fazê-lo. Com as costas eretas e a voz eriçada ela disse: – Por quê? Por que saber que estou esperando um filho seu depois de ter pensado que nunca mais poderia não é uma boa notícia?

Ele olhou-a de relance, o rosto contorcendo-se em dor quando apertou a mão direita em punho. Praguejou baixinho, voltando sua atenção para a palma da mão, onde gotículas rubras haviam escapado dos cortes quando estes foram forçados. Ela sentiu a raiva esfriar sem sua permissão ao vê-lo limpar a mão com dificuldade, deliberadamente adiando sua resposta, mas lutou para manter-se firme e não inclinar-se para cuidar dele.

Depois de muito mais tempo que qualquer pessoa levaria para enxugar algumas gotas, ele limpou a garganta. – Não me condene por isso. Tente me entender primeiro, sim? – Pediu com as sobrancelhas unidas e os olhos, liquefeitos como aço derretido, virados para ela; deixando-a sem ação e fôlego. Enquanto assentia atordoada, sem saber muito bem o que estava fazendo, uma parte mais lúcida sua observou que seria um desastre se aquela criança que carregava em seu ventre herdasse aqueles olhos cinzentos do Norte. Ela não seria capaz de negar nenhum pedido feito daquela forma e seu filhote cresceria mimado e dono do mundo.

— Você sabe que eu cresci como um bastardo. – Ele arrancou-a de suas divagações, fazendo-a prestar atenção com aquela frase. Jon repuxou os fios soltos da atadura da mão esquerda, como se falar fosse difícil e ele precisasse se ocupar com outra coisa. – Senti o que é ser uma criança sem o nome de seu pai, apesar de que minha vida foi muito melhor do que outras crianças que não eram bastardas do Lorde de Winterfell. – Seu sorriso era autodepreciativo e vagamente triste. – Mas eu jurei a mim mesmo que não condenaria uma criança àquela vida, e nunca mais pensei sobre isso. É uma escolha fácil de si fazer quando se é um garoto cheio de auto piedade, rancor e nenhuma ambição além de ser Primeiro Patrulheiro como o tio. Então eu entrei para a Patrulha e realmente não tive que me preocupar com isso, nós tínhamos nossos votos. – Ele arrancou um fiapo relativamente grande que enrolou-se em si mesmo assim que livre dos outros fios. Dany quis bater em seus dedos para que ele parasse de estragar o curativo. – Houve Y... – Interrompeu-se com um franzir de lábios. – Bem, eu só pensei sobre isso dias antes de nosso casamento e você logo disse que não poderia ter filhos. Foi quase um alívio, eu não teria que analisar o que faria, ou como me sentiria nessa situação.

— Mas agora... – Ela o incentivou, buscando sua mão mais uma vez para acalentá-lo. Sua voz soava ferida e indecisa em continuar, como se falar tudo aquilo houvesse sido um erro e ele de repente se dera conta disso. E além de tudo, Daenerys precisava do contato.

— Agora... – Jon balançou a cabeça e a encarou, o cinza em seus olhos mais escuro do que ela jamais vira e seu rosto perturbado por uma agonia antiga. – Como posso ficar feliz em saber que por minha culpa mais uma criança virá a esse mundo? Onde ela pode ser capturada por alguns insanos que se acharem donos da verdade e ser torturado? Apenas por uma escolha errada ou mesmo para me atingir?

Daenerys parou de respirar, a intensidade de suas palavras roubando-lhe o fôlego. Ouvindo o que o preocupava... Pôs a mão sobre o ventre arredondado. Como realmente eles podiam colocar um bebê frágil naquela situação? Uma criança indefesa que mesmo sem conhecê-la já o amava profundamente? Sentiu-se egoísta. Estava apenas pensando em si mesma e na alegria que era estar grávida, assim precisou morder a parte interna da bochecha para voltar à realidade. Não, ela não podia pensar daquela forma. Westeros não era o lugar mais seguro para uma criança, principalmente a odiosa Porto Real, mas aquele bebê não estaria só. Ela o protegeria com todas as forças até que a última gota de seu sangue se esvaísse. E, ao enxergar aquele tormento nos olhos do esposo, soube que ele agiria da mesma maneira.

Dany sorriu, espantando o homem, mas antes que ele exigisse alguma explicação, envolveu-o em um abraço longo sem se importar com o que ele pensaria. Jon hesitou por instantes, confuso com o que se seguia, mas depois passou os braços ao redor do corpo da mulher, encolhendo-se às incômodas dores que deviam latejar aos movimentos. Ela beijou a base de seu pescoço, sentindo o familiar cheiro de pinho e sabão enuviar suas percepções. – Obrigada. – Sussurrou.

Seu rei não a soltou, mas retesou o corpo. – Obrigada?

A rainha afastou-se, colocando a mão carinhosamente na lateral de seu rosto. – Por ser esse tipo de homem. – E eles não precisaram mais de palavras. Ela beijou-o, dando aos dois uma breve fagulha do que estava adormecido em ambos. Jon explorou sua boca urgentemente e puxou seu pescoço para mais perto com uma mão, e a chama dentro dela cresceu, alimentada pela paixão com que ele a tocava. Daenerys aproximou-se mais, colando seus corpos aquecidos, favoravelmente cobertos apenas pelas finas roupas de dormir. Até ele gemer de dor contra sua boca.

Sem perceber de verdade, apertara sua coxa ferida e agora se afastava, pedindo desculpas. Jon a segurou ainda perto, com os olhos brilhantes de desejo.

— Não podemos. – Ela disse, retirando relutantemente as mãos de seus ombros. – Você ainda não pode. – O rei franziu os lábios, parecendo emburrado como uma criança. Ela riu. – Vamos ter tempo para isso. Espere até estar curado. – Ele suspirou, deixando-se afundar nos travesseiros atrás de si. – Quanto mesmo se mover, mais rápido será.

Ele estreitou os olhos para ela e a rainha riu mais uma vez. Inesperadamente, o homem circundou-a com os braços e puxou-a para si. Sem muita escolha ela debruçou-se sobre ele, não colocando realmente peso sobre seu corpo. – Mas enquanto isso... – Sua voz estava rouca e ela sentiu sua mão descer, contornando as curvas de seu corpo, e invadindo as dobras de sua fina cambraia até a parte sensível entre suas pernas.

Dany suspirou quando seus dedos moveram-se agilmente, e colocou as mãos em seu rosto, acariciando a barba rala. – Enquanto isso há outras coisas. – E inclinou-se sobre seu rosto.

*

Daenerys estapeou ruidosamente a mão do rei. Jon ergueu os olhos claros, para um leigo parecendo completamente inocente. Ele fechou o rosto e recostou-se na pequena montanha de travesseiros que o apoiavam, finalmente deixando-a continuar com o curativo. Conseguiu dar três voltas no linho antes que ele movesse a mão novamente e flexionasse os dedos. A rainha encarou-o duramente.

— Você pode ficar quieto um instante? – Ela exigiu sentindo uma vontade quase irresistível de bater em seus dedos mais uma vez. Resmungando ele olhou para outro lado e esperou os agonizantes três minutos para que ela terminasse. Dobrou o restante das tiras e pôs em cima da mesa, junto com a tesoura de lâminas curtas. Analisou o trabalho e assim que ficou satisfeita soltou sua mão. Estava se tornando muito boa com esses pequenos feitos ao cuidar do esposo e se descobrira extremamente exigente com a perfeição dos espaçamentos das ataduras. – Pronto, morreu por isso? Não responda. – Deu uma leve tapa em sua perna enquanto se levantava. – Agora pode ir.

Jon meneou a cabeça, quase ironicamente, e girou o corpo para se levantar. Ela estendeu-lhe seu apoio e o rei olhou com asco para a bengala, sem fazer qualquer movimento para pegá-la. Na opinião de Dany, um belíssimo exemplar de 90 centímetros de puro sabugueiro. A ponta rombuda que tocava o chão, revestida em aço, fazia um contraste frio com a parte superior, uma cabeça de dragão em ouro escuro, com olhos de rubis sangrentos e dentes tão afiados quanto facas. Ela gostava principalmente dos arabescos entalhados na madeira escura, desenhando todo o comprimento com curvas e espirais complicadas. Sem que ela não entendesse, seu esposo não compartilhava da mesma opinião sobre a peça.

— Bem, ou você a usa, ou não anda para lugar nenhum. – Ela balançou a bengala lentamente no campo de sua visão, até que ele agarrasse-a rudemente. Fincou-a no chão com certa raiva e levantou-se da cama, apoiando a maior parte de seu peso nela. Assim que pôs-se de pé, experimentou dar um passo e depois outro. Afastou-se uns bons pés, sentindo como era, antes voltar para ela e beijar-lhe suavemente a testa.

— Você não tem que ir. – Ela segurou no colarinho de seu gibão, impedindo-o de mover-se. Jon olhou-a profundamente, suas íris cinzentas parecendo cansadas de ter que repetir aquela conversa. – Você não precisa falar com ele. O homem já sabe o que fez e o salvou para compensar isto. Não tem que confrontá-lo antes do julgamento.

— Não estou indo para confrontá-lo. – Ele afastou-a de perto de si. – Mas tenho que falar com ele.

Sem mais outra explicação ou palavra, o rei deixou-a no quarto, mancando para fora do aposento de forma pouco elegante ou graciosa. Daenerys sentou-se na cama desarrumada, pousando a mão sobre as cobertas ainda quentes onde ele estivera deitado. A conversa que tinham tido, sobre o tempo dele em Harrenhal, havia flutuado sobre informações difusas e vagas, e ela pouco sabia sobre o que ele realmente havia passado além do que conseguira deduzir das marcas em seu corpo. Ou mesmo de quem fizera isso com ele.

Mas havia Edwen Arron, o traidor que acompanhara tudo de perto e sabia o que acontecera. Quando pusera as mãos no homem e soubera o que ele havia feito ordenara que o atirassem nos calabouços congelados para esperar a morte pelo fogo de Drogon. Tyrion a impedira de matá-lo, argumentando com a necessidade de um julgamento e que provavelmente o rei gostaria de estar presente. Ela, com a mente tão ocupada com a recuperação de seu esposo, não pensara muito em contrariá-lo e no fim o homenzinho provara-se certo.

Agora Jon estava indo falar com ele, e Dany controlava-se para não segui-lo. Dentro de si corroía-se o desejo de ir ver o que aconteceria naquelas celas, mas refreou-se balançando a cabeça para si mesma. – Não. Quando ele sentir que é a hora de contar quem foi, ele lhe contará. – Achou necessário falar em voz alta, para impedir-se mais firmemente de sair. Agarrou as cobertas, apertando os punhos no lençol macio.

Mas quem o sequestrou? Eu preciso saber, para puni-los. Para protegê-lo. Uma luz pareceu brilhar em sua cabeça. É, para protegê-lo. Sua mão escorregou para o ventre notavelmente proeminente agora sob os tecidos finos de seu vestido. Protegê-los.

Com essa desculpa reconfortante, ela levantou-se e começou a segui-lo.

Não demorou muito para achá-lo, nada que fosse digno de ovação já que aquele passo marcado pelos ruidosos tocs da bengala não eram muito rápidos ou discretos. Dany sentiu-se um pouco culpada ao se esconder atrás de uma pilastra redonda, vendo-o desaparecer por entre uma curva fechada seguido por dois pacientes homens da guarda real. Mas outra parte de si estava regozijando-se com a emoção que borbulhava em seu peito com a pequena perseguição. Quando ouviu os ecos se afastarem ela respirou fundo e saiu de seu esconderijo e apressou o passo para onde ele se afastara. Colou as costas contra a parede fria e preparou-se para espiar o corredor. Mas assim que colocou o rosto para fora de sua proteção, deparou-se com dois olhos cinzentos brilhando em divertimento.

— Indo a algum lugar? – Jon apoiou-se na parede, encostando um ombro nos tijolos claros. A rainha sentiu o rosto ruborizar furiosamente, abriu a boca para respondê-lo, mas tudo o que saiu foram sons incoerentes e gaguejantes. O Stark uniu seus lábios aos dela rapidamente. – Volte para o quarto, já esta tarde. – Dany pensou em retrucar, mas um olhar mais demorado a fez suspirar e dar meia volta sem mais protestos. Ela não devia se intrometer naquilo, se ele queria falar com o homem a sós, que falasse. Quando ou se achasse que devia, ele a contaria. Arrastando os pés e correndo os dedos pelas paredes frias da noite ela voltou para seu quarto, e imaginou com pesar a brilhante carreira perdida como infiltrada.

A penumbra encobria o cômodo, os raios pálidos e prateados da lua gorda lutando por espaço na escuridão, quando ele voltou. Ao lado de sua cama, em um castiçal de apenas uma haste solitária de metal, existia uma vela de cera, grossa e marcada com tiras pretas que contavam as horas. Duas das marcações já haviam sido consumidas, derretendo-se em poças quentes onde as luzes se expandiam, quando ouviu a porta se abrir lentamente. Ele tentou ser silencioso, mas a bengala não quis colaborar, trombando na porta e fazendo um estardalhaço ao cair no chão. Uma palavra mais dura saiu dos lábios do rei quando ele esforçou-se para se abaixar e recuperar o objeto.

Daenerys virou-se nas penas, para a porta, a tempo de vê-lo mancar até deixar-se cair sobre o colchão, logo abaixo de seus pés. Ele olhou para a bengala, com um brilho nos olhos que sugeria que ele estava prestes a atirá-la para a outra extremidade do quarto ou mesmo defenestrá-la pela janela aberta. – Ah, me dê isto aqui. – Ela tomou-a de suas mãos antes que qualquer um de seus desejos se tornasse realidade e colocou a pobre ajudante no chão, rolando-a para a segurança de debaixo da cama. Levantou-se de seus lençóis e ajoelhou-se no chão para descalçar suas botas. Retirou-as com cuidado, principalmente na perna que ainda não estava totalmente recuperada, mesmo depois de semanas imobilizada.

Jon permitiu que ela terminasse, apenas porque – ela suspeitava – ele mesmo não conseguia ainda fazer aquilo só. Depois segurou suas mãos e puxou-a para cima. Dany sentou-se em seu colo, sobre a curada perna esquerda, e envolveu seu pescoço com os braços. Afundou o rosto no cheiro quente dele e sorriu sob o calor de seu ombro. – Como foi? – Ela enrolou os dedos nos fios mais cacheados da base de sua nuca.

Seu rei passou os braços entorno de seu corpo, evitando cuidadosamente o toque na pequena barriga entre eles. – Como eu esperava. – Ele abaixou o rosto e tomou-lhe os lábios para si. Ela até quis insistir no assunto, uma pequena parte, que ainda não mergulhara nas sensações e cheiro inebriante dele, quis perguntar mais sobre a conversa. Mas, com uma habilidade invejável, ele distraiu-a. Com beijos, toques e as chamas que queimavam dentro deles. Que arderam por uma noite inteira.

Tyrion colocou as botas sujas sobre a mesa, os saltos enlameados maculando o verniz brilhante. Mas ela não se importou com a posição relaxada, nem com o estado físico do móvel, estava mais preocupada com a notícia que o homenzinho trazia.

— Eu avisei que isso iria acontecer. – Ele avaliou as unhas curtas com interesse, com toda a calma do mundo como se estivesse lhe dizendo que choveria à noite. – Avisei que não poderia governar o oeste sem perder o leste.

— E o que você queria que eu fizesse? Nunca chegasse a por os pés em Westeros? Eu tinha que vir. – Respondeu apertando as mãos para aplacar o nervosismo, mas incapaz de sentar. – O que os Mestres querem?

— O que acha? A volta da escravidão em Meereen. Seus atos na Baía dos Escravos foram louváveis, mas eles perderam com isso. Querem ganhar dinheiro como antes. E terem tomado Meereen de seu poder é a chave para isso. – Tyrion abaixou as pernas, estrondando no chão ao pousá-las. – O que resta saber é o que a rainha fará. Continuará no país do pôr-do-sol, sua casa e que precisa de real atenção, ou voltará para as pirâmides nascentes, onde é uma estrangeira?

Daenerys respirou fundo, o ar puro do Norte clareando sua mente. Ela sabia que precisava ficar. Acabara de ser coroada como legítima rainha dos Sete Reinos e não podia deixar Westeros serem consumidos por mortos de gelo. Em outro momento mais oportuno talvez ela voltasse para Essos, e restaurasse sua soberania. Mas por hora... a Targaryen suspirou, seu reinado havia se posto no leste.

*

O homem calvo entrou na tenda com neve sob a cabeça, em uma cobertura penugenta que se assemelhava muito a cabelos ralos. Enrolou-se em seu manto escuro e suspirou aliviado ao ser circundado pelo ar morno que a lareira propiciava. Com um gesto rápido ele limpou a neve que se acumulara e pigarreou para atrair a atenção dos presentes no local. Jon Snow virou-se para ele quase com esperança em seu olhar, mas Dany sabia que o informante não trazia boas novas.

O homem que a rainha não se lembrava o nome, ofegou as palavras. – Secos. Os rios estão todos congelados, e a camada de gelo vai tão fundo que um de seus dragões poderia andar por cima, Vossa Graça. – Ele tomou fôlego, com um olhar de desculpas, dirigido apenas ao Snow. – Sinto muito, meu rei, mas quase podemos dizer que não há mais água neles.

Daenerys viu o nortenho ao seu lado respirar fundo, de pé com os olhos novamente voltados para mesa de mapas agora, os ombros se erguendo e as costas esticando as costuras do couro de sua roupa. Ela não reclamou com o homem por ter se referido ao Snow como rei, sabia que eles sempre veriam nele um governante, muito mais do que ela. Só esperava que a lealdade do filho de Rhaegar nela fosse suficiente para manter os reinos unidos. Dispensou o mensageiro com um aceno sucinto e olhou para o homem de cabelos escuros.

— O que faremos agora?

**

O primeiro estrondo deixou-a surda por cinco apavorantes segundos. Reverberando de seus tímpanos em um assobio agudo até que sua cabeça começasse a latejar, como se martelos estivessem sendo batidos contra seu crânio. Mas ela logo recuperou a audição e descobriu que preferia não ter tido essa benção naquele momento. As gigantescas rachaduras continuaram subindo a Muralha, como escaladoras experientes que conheciam todos os melhores caminhos e seguiam vencendo-a sem dificuldade. Cada avanço desprendia pedras de gelo e soava como trovões na terra, reinando no silêncio absoluto de bocas escancaradas que nunca esperariam ver a segura e protetora Muralha rachar.

Quando as enormes feridas foram chegando ao topo, era como se o gelo estivesse se libertando do longo período que estivera preso e subisse pelos ares em erupções de ar e pedras congeladas. Antes que tudo acontecesse, ela viu o que se seguiria. Agarrou a mão de Missandei e procurou urgentemente Tyrion na multidão estupefata. Aquela pequena e distinta criatura devia ser fácil de achar, mas não viu sinal. Por outro lado seus olhos encontraram Jon Snow movendo-se por entre as pessoas, tentando gritar mais alto que os estrondos do gelo e empurrando-as para se afastarem. Ficou aliviada ao ver que ele também se dera conta do desastre que iria acontecer e começou a imitá-lo.

— Corra daqui! – Apertou o braço da sua pequena escriba e sacudiu-a para chamar sua atenção. – A Muralha vai quebrar e o gelo vai soterrar a todos nós! Corra e tente levar o maior número de pessoas!

— Mas e Vossa Graça? – Missandei gaguejou, exibindo medo em seus olhos e Dany teve que se esforçar para ler seus lábios já que não escutara uma palavra.

— Vá! – Empurrou a mulher e passou para o próximo. Gritando em seus ouvidos como vira o Snow fazer, tentando afastá-los da morte que viria em forma de pedras gigantescas de gelo quando toda ela desabasse. Muitos a escutavam, e saiam correndo arrastando seus companheiros, mulheres e crianças. Mas outros pareciam embasbacados demais para seguir qualquer ordem, e continuavam olhando, com um fascínio amedrontado a Muralha rachar cada vez mais fundo.

Aos poucos a maior parte multidão começou a entender e a empurrar uns aos outros para correr para seus pertences e agarrar o que mais precisavam antes de sair correndo para longe. Daenerys esforçou-se para não ser levada na corrente, e quase foi derrubada inúmeras vezes. Ela ouvia apenas os trovões de gelo, tão estrondosamente altos que acabavam deixando tudo em um silêncio confuso. Viu uma criança perdida, olhando para os lados em desespero e toda enrolada em peles maiores que ela. Correu ao seu encontro, mas um homem apressado esbarrou contra seu corpo e derrubou-a com violência no chão. O terror tomou-a. Sabia que não podia ficar no chão ou seria pisoteada, mas por mais que tentasse se levantar, um par de pernas sempre aparecia para impedir sua subida e jogá-la na neve novamente. Sentiu o salto de uma bota esmagar seus dedos e outro pé afundar em seu peito. Buscou o ar, sabia que não adiantaria gritar, mas precisava tentar qualquer coisa. Não podia acabar daquele jeito, não podia...

Uma mão forte agarrou seu braço estendido. Puxou-a com firmeza para cima e envolveu seu corpo trêmulo em um abraço protetor. Dany não viu a face de seu salvador, apenas sentiu um cheiro incomum de pinho emanando do homem, definitivamente um homem. Ele arrastou-a consigo, segurando-a perto de si e movendo-se com agilidade entre as pessoas atemorizadas. Não viu para onde corriam, sua visão estava desfocada e ela só conseguia olhar para a Muralha quando ela gritou mais uma vez.

Pareceu ser definitivo, o último alento da gigante de gelo que estava prestes a desmoronar. E, percebendo isso ou não, Jon Snow empurrou-a para atrás de uma pedra, tão grande quanto um elefante adulto de Volantis e a fez ficar abaixada, segurando em seus ombros com força e os olhos fixos nela, tentando lhe passar uma mensagem.

Não falaram nada quando aconteceu, apenas ouviram o despedaçar e apertaram-se junto da pedra e um ao outro. Dany se lembraria mais tarde que ele passara os braços entorno dela e que ela mesma escondera o rosto em seu ombro, esperando o fim do mundo. Mas o que vira naquela hora, antes de cerrar as pálpebras firmemente, assustaria seu sono até muito tempo depois; os enormes blocos de gelo órfãos da parede que caia, tão grandes e pesados quanto montanhas para ela, pequena e encolhida à Jon Snow, e tão leves quanto folhas para a força monstruosa do vento que os levava para longe.

***

Notas finais
Pelo amor de todos os deuses de todas as mitologias e religiões, me digam que vocês entenderam os flashbacks. Por favor, digam que entenderam!! E eu realmente tenho que dizer que sobrevivo de reviews? Pensei que já sabiam disso, humpf. (Qualquer dúvida, qualquer uma mesmo - até qual a hora do jornal - me perguntem. Vai ser um prazer responder.)