Notas iniciais
Hey! Eu estou em dia, dormi três horas de ontem para hoje mas consegui terminar o capítulo a tempo. Eu sou muito mal programada, tenho uma semana inteira para escrever e sempre - sempre - deixo para os últimos dias. Mas o que importa é que eu terminei. Esse capítulo não existia, mas eu resolvi, digamos, desenvolver mais a relação de nosso casal favorito, por isso que ele está aqui. Boa leitura! (Música: The Cave - Mumford & Sons)

Os grilhões do teto já haviam arranhado seus pulsos até que finas gotas de sangue pingassem para as tábuas do chão, cortando a carne que cedia ao ter que suportar o peso de um corpo quase inerte. Com a cabeça caída de cansaço, a bochecha direita apoiada em seu ombro, ele via turvamente a pequena poça vermelha aumentar e escorrer por entre as junções da madeira. E mesmo que fosse impossível, imaginava escutar o som que cada uma fazia ao voltar para suas irmãs, espaçadamente e com uma ordem, espalhando sangue em seu mergulho mórbido.

Ele fechou os olhos, flutuando entre o desmaio e a consciência dura, sentindo como se fosse a outro corpo que as pontas de chumbo das tiras do relho rasgavam a pele e dilaceravam os músculos. Seu corpo sacudia-se a cada impacto e ele não tinha mais força para trincar os dentes para não gritar, então eles chocavam-se uns contra os outros sempre que uma pancada vinha mais forte que as outras e fora de ritmo. Porque o homem parecia seguir uma música dedicada, golpeando continuamente uma, duas, três vezes antes de parar por três segundos e mudar de lado. Ele arfava agora, e o intervalo entre cada sequência aumentava à medida que mais tempo se passava, parecendo tão exausto quanto o infeliz preso.

Jon abriu os olhos outra vez e forçou-se a olhar para trás, percebendo com um terror além da dor que não havia mais carne em certos pontos, as extremidades duras do chicote indo de encontro às costelas brancas e secas que apareciam irrealmente. Então ele soube que iria morrer, o homem já devia ter parado há muito tempo, – 50 chicotadas – o meistre havia dito antes de deixá-lo acorrentado. Mas o encapuzado não iria parar, não até que toda a carne que o encobria houvesse sido arrancada e não até que ele não passasse de um conjunto de ossos pendendo do teto de um calabouço abandonado. Sabia que ia morrer, o açoite o acertou contra os ossos e ele gritou, não sabendo como, gritou. Não fazia mal gritar, ele ia morrer, morrer sem ter dito nada a ela... Morrer antes de...

Lutou para se afastar de quem o segurava, mas os braços finos foram insistentes, envolvendo-o protetoramente e puxando-o para perto. Abriu os olhos agitados, com a dor da última chicotada recente em sua memória e parecendo pulsar nas cicatrizes, mas ele não estava mais em Harrenhall, seu corpo quase desmoronou de alívio ao perceber, e era Daenerys quem comprimia sua cabeça contra o peito.

— Shh... – Ela, com uma força surpreendente, segurou suas mãos rígidas e trouxe-o para si, mais junto à seu corpo. – Você está bem. Não está mais lá. Está aqui, comigo, entendeu? – A voz serena da mulher preencheu seus ouvidos enquanto ela se balançava cadenciadamente, embalando-o como uma criança pequena, e expurgando aos poucos os sons do chicote e as marcantes gotas de sangue que pingavam. Ele respirou fundo, deixando que ela o consolasse com seus suaves carinhos em seu rosto e cabelo, mas acalmando-se de verdade com o aroma que exalava do corpo dela.

Jon relaxou minutos depois, ouvindo as batidas contínuas do coração da rainha e observando a réstia prateada da lua nadar solitária na escuridão do quarto. Sua respiração não estava mais acelerada e seu rosto esquentou ao pensar no que poderia ter feito durante o pesadelo. Eu gritei? Afastou-se delicadamente dela, para que a mulher não interpretasse o gesto como rejeição, e deitou novamente, sentindo as penas de seu travesseiro em um incômodo macio.

— O que você sonhou? – Ela perguntou cortando o silêncio desconfortável que havia se instalado. Jon não via as formas de seu rosto ou corpo na escuridão, mas podia apostar que seu cenho estaria franzido e os olhos brilhariam com a preocupação crua. Ele achou por bem trazê-la para si, passando o braço direito em sua cintura, fazendo com que ela deitasse sobre seu peito. O corpo quente e suave de uma mulher era bom ao contato, principalmente o de sua mulher, e ele a queria por perto. Percebeu sem surpresa que ela estava nua, as pernas femininas entrelaçaram-se às suas, coxa contra coxa, e os seios apertaram-se na lateral de seu corpo quando Daenerys se aconchegou a ele, suspirando baixo ao sentir-se satisfeita com a posição. O calor que os corpos emanavam parecia ser suficiente para aquecê-los, mas logo ele a viu se arrepiar, então desenterrou dentre suas pernas o lençol e cobriu-a até os ombros. – Não estou com frio, foi você. – Ela reclamou, mas não afastou a seda que a encobria.

Jon parou de acariciar a base de suas costas. – Desculpe. – Murmurou sem prestar atenção, o sono apregoava-se em seu corpo, mas ele não queria voltar a dormir.

A rainha fez um estalido irritadiço com a língua. – Não se desculpe por algo que eu gosto. – Ela ficou em silêncio por um tempo, afagando sua barriga e provocando uma sensação desconfortável.

— Pare com isso. – Repreendeu. – Faz cócegas.

— Mas o que você sonhou?

Jon prendeu a mão da mulher, mantendo-a quieta contra sua barriga, e ponderou suas opções. Poderia contar a ela, e então eles iriam afogar-se em suas lembranças sombrias que os deixariam incomodados e se juntariam àquelas que ele já contara a ela e às vezes também assombravam seu sono. Ou ele poderia beijá-la, acariciar sua mulher até que ela gemesse seu nome e marcar seu corpo como dele mais uma vez. Sem pensar duas vezes, ele escolheu o segundo plano de ação.

Tomou-lhe os lábios, beijando-a tão lentamente que podia ser uma tortura para ambos, mas como sabia que ela gostava, usando a língua para provar-lhe o gosto e redescobrir sua boca; e, não podendo impedir-se de fazê-lo, apertou sua cintura mais forte do que deveria. Devagar girou o corpo, posicionando-se por cima dela, mas sem colocar todo seu peso contra a mulher. Descendo a ainda enfaixada mão esquerda pelo corpo curvilíneo da rainha, e apertando firmemente por onde percorria, ele ouviu-a gemer contra sua boca e prender os dedos em seus cabelos.

— Você está me distraindo. – Ela arfou quando ele afastou-se meio segundo para que tomassem fôlego, o peito claro subindo e descendo tentadoramente ao exibir os seios entumecidos pelo frio que o vento trazia ao conseguir ultrapassar e agitar as cortinas cerradas.

Jon sorriu como um gato que havia comido creme antes do jantar. – Eu sei. – Abaixou a cabeça para seu desejo, e escorregou a boca lentamente da curva dos ossos do pescoço até o seio direito. Movendo a língua com experiência, arrancou um suspiro sofrido da mulher quando acariciou auréola mais escura. Sugou para entre os dentes e arranhou com queria, fazendo-a sofrer e contorcer-se embaixo de si, indecisa em afastar-se dele ou aproximar-se mais, e com os dedos ágeis pressionou ritmicamente a carne sensível entre suas pernas. O rei pretendia continuar com sua idolatria, quando inesperadamente sentiu o joelho da rainha forçar a lateral de seu quadril, e em um rápido movimento ela o fez girar o corpo e acabar com as costas na cama. Daenerys sorriu dominadora ao sentar-se sobre ele.

Levantando-se e inclinando o corpo para frente, ela os encaixou com perfeição deslizando-o para seu interior quente, e fazendo-o soltar o ar que nem se dera conta de estar prendendo. Como uma dançarina com anos de experiência ela moveu-se sobre ele, movimentando os quadris na dança primitiva que os amantes não medem as consequências para se entregarem e assim, alimentando o sentimento que crescia dentro deles. Os olhos do rei pareciam duas pedras de vidro, fixos no balanço contínuo que o corpo da mulher exibia ao friccionar-se contra o seu. Embriagado pela sensação que esticava-se cada vez mais dentro dele como uma corda, conseguiu apenas erguer uma das mãos para segurar o seio da rainha e observá-la ofegar quando o apertou, fazendo a ponta arrebitada escapar-lhe por entre os dedos.

Subitamente ele ergueu-se, colando seus corpos aquecidos e embebidos de paixão e as pernas da mulher acomodaram-se sobre as suas quando ele puxou suas nádegas para si. Ela abriu os olhos turvos e agarrou-se em seus ombros, afundando as unhas na pele marcada, mas ele não teve noção disso. Queria-a ainda mais sob si, perto de si, e deuses, como queria afundar-se ainda mais nela. Apertou as coxas desenhadas da rainha à medida que o ritmo para aumentava junto à enlouquecedora necessidade, segurando os músculos com uma firmeza que deixaria marcas.

Perderam-se incontáveis vezes nos lábios quentes um do outro, beijando-se com a urgência desesperadora que seus corpos exigiam, enquanto suas mãos seguravam-se em costas, braços, pernas e nádegas; puxando, apertando e marcando um ao outro a fogo e desejo. O ar parecia ser dispensável em certos momentos, como se o contato fosse suficiente para satisfazê-los.

Ela o cavalgou como uma Khaleesi, longamente e profundamente, guiando-o para a chama Targaryen que ardia dentro deles e afastando-o cada vez mais do frio sangue do lobo. Ele sabia que não importava o que passasse sua alma e essência permaneceriam Stark de Winterfell, mas naquele momento ele preferiu isso, o fogo agonizante ao o frio desolador e não importou-se em queimar-se nele quando atingiu o ápice, nem com os dentes que ela cravara em seu ombro ao provar da mesma labareda.

Ainda unidos, ouviu Daenerys murmurar contra seu pescoço, o rosto escondido na curva de seu ombro e a respiração entrecortada. Ele não entendeu nenhuma das palavras e esperou que os dois acalmassem a si mesmos, um contra o outro, antes de erguê-la e apoiar-se nos travesseiros atrás de si. – O que disse? – Perguntou em voz baixa, sentindo uma desconfortável ardência nas costas.

— Era valiriano. – Respondeu simplesmente, com um sorriso que reluziu à lua fraca.

Sentiu as costas ainda mais ao mexer-se e levou os dedos a tocarem levemente o local. Jon encarou, incrédulo, as manchas vermelhas que as pontas exibiam, depois olhou para ela, com o cenho franzido. – Tenho que cortar suas garras e presas.

Daenerys riu enquanto encostava-se ao calor reconfortante dele. – Você gosta disso, admita.

O rei passou os braços entorno do corpo da mulher e abaixou a cabeça até que suas frontes se encostassem, os narizes acariciando um ao outro em um fio de equilíbrio delicado e precioso. – É, eu gosto. – Ele suspirou vendo o brilho de suas íris púrpuras mesmo na escuridão da noite, ou apenas poderia ter sido sua imaginação. Beijou carinhosamente sua testa em seguida, deixando os lábios ali colados. – Eu gosto de você. – Sua voz mal passava de um sussurro rouco quando ele desenhou as palavras contra a pele dela, mas as sentiu ecoarem em sua cabeça e aliviarem um nó que mantinha-se apertado desde que ele se dera conta disso.

Afastando-se minimamente para observá-la, ele sorriu com a reação. Daenerys pareceu surpresa por uma fração de segundos, antes que o sorriso mais radiante que ele já vira iluminasse sua face. Deslizando o polegar pelo rosto do homem ternamente, ela sussurrou de volta: – Eu também gosto de você.

*

A corte estava agitada. Parecendo ansiosa pelo início do julgamento e – como muitos lhe garantiram pessoalmente –, uma punição rígida para as atrocidades acometidas à seu rei. Mas Jon sabia a que aquilo era encenação barata, os lordes e seus asseclas mais assíduos estavam ansiosos pelo derrame de sangue, não importando mesmo o que lhe fora infligido, ou mesmo quem. Remexiam-se em seus bancos acolchoados e murmuravam como bandos de aves barulhentas apenas esperando a cena que se desenrolaria liturgiosamente até culminar na morte brutal de ao menos um dos envolvidos.

Para o rei, as coisas eram mais complicadas que isso. Sentado no trono de ferro, com uma coroa ridícula sob a cabeça, ele respirava fundo de tempos em tempos para manter-se em seu lugar e não desaparecer sorrateiramente por dentre as colunas apinhadas de lordes. Observava a rainha, conversando em voz baixa com um dos juízes, e engolia as palavras que tinha vontade de dizer a ela, mesmo daquela distância. Argumentara, por cerca de 2 horas, os inúmeros motivos que assinalavam sua inadequação para julgar seus captores. Mas o que Daenerys possuía de beleza quadriplicava-se em força de vontade, e ela no fim conseguira fazê-lo sentar-se nas espadas de Aegon como um dos julgadores, sentindo-se deslocado e patético ao ocupar aquele trono.

Também podia sentir a bile no final da língua, queimando suas papilas e fazendo-o deglutir saliva vezes seguidas para aliviar o gosto ácido. Ele, lorde Randyne e Tyrion Lannister iriam decidir o destino de Beltoar Dunt e Edwen Arron. Para o meistre – achado escondido em um moinho abandonado com seus cinzentos encapuzados à 4 milhas oeste de Harrenhall –, ele esperava as piores consequências e não se importaria de que modo aquilo terminaria para o velho, mas para Edwen... Não o perdoara, em sua cabeça não existia perdão para traição, mas também não queria ser um dos responsáveis por sua morte. As palavras do ex-subordinado, no encontro que tiveram há semanas, haviam sido difusas e sem nenhuma razão plausível para justificar seus atos, mas ele ainda não queria carregar aquele peso.

Ele viu o meistre de Porto Real acomodando-se em seu lugar discreto e parcialmente encoberto pelas sombras das janelas altas. Grande Meistre Alester, era como se intitulava, tinha o corpo esguio e a fala tediosa, e por Edwen descobrira que ele era um dos responsáveis por seu rapto. Contara há pouco isto para Daenerys e eles haviam decidido não envolvê-lo no julgamento agora, tanto por quererem observar os atos daquela conspiração e até onde se enraizava, e tanto pelas curiosas informações que Arron deixara escapar.

— Os meistres haviam mudado de pensamento nos últimos dias. Parecia que eles agora concordavam que vosso casamento era um bom caminho para o que quer que armassem. No final, Beltoar estava sozinho. – Ele confessara com a garganta presa.

Jon de forma alguma iria deixar que eles o controlassem, não permitiria que a afirmação de um traidor garantisse sua segurança, mas o que poderia fazer sem saber até onde as cabeças daquela hidra se estendiam? Daenerys concordara com ele, era melhor averiguar em silêncio, e apenas mover-se contra eles quando soubessem o quão profundo aquela doença infiltrava-se em Westeros. Assim o julgamento daquele dia seria tecnicamente a parte mais simples de tudo.

Não para mim, exalou pesadamente e experimentou encostar-se nas lâminas atrás de si, com cuidado e certa desconfiança. Era a primeira vez que sentava-se sobre aquelas espadas e as histórias que foram comentadas em cutucadas com timbre leve eram sobre as escoriações que elas causavam a todos os reis que fossem indignos daquele trono. A rainha desdenhara de seus temores, afirmando que aquilo era tolice, e todos que não tomassem cuidado se cortariam nas pontiagudas armas fundidas; fosse digno ou não.

Jon percorreu os rostos dos cortesãos, ignorando os sorrisos empolgados demais – e os olhares cabisbaixos que os homens Dustin exibiam, mesmo que ele os assegurasse que não seriam de forma nenhuma culpados por crimes que aconteceram em seus calabouços sem conhecimento –, e preferindo desviar sua atenção para os flocos translúcidos que brilhavam ao sol do Inverno através do vidro das janelas. Eles caiam esparsamente, flutuando entre os ventos leves, de um modo diferente e estranho para suas lembranças do Norte. Pareciam menores, destituídos da beleza fria que acobertava seu país, e ele desistiu de buscar algum tipo de familiaridade ali; até a neve era distinta. Ao menos ele tinha o lobo perto de si. Sentado mais majestosamente que ele, sobre as patas traseiras, Fantasma analisava as pessoas que preenchiam a Sala do Trono, como se desafiasse algum tolo o suficiente para aproximar-se de seu dono. Emitindo o conforto que o Stark necessitava, o lobo era indispensável e ele de certa forma divertia-se com as tentativas frustradas que alguns lordes faziam de ir até si. Andando com insegurança até o rei, certamente para oferecer-lhe votos de lealdade e lamentos por seu cativeiro, mas perdendo a coragem ao avistar o branco e gigante animal como guarda silenciosamente feroz.

Tyrion acomodou-se em seu lugar, subindo os quase imperceptíveis degraus que o ajudavam a chegar à cadeira do lado direito do rei, muito mais confortável que a dele. Lorde Randyne também veio, bamboleando-se sobre as pernas magras até seu ponto, um almofadado assento do lado esquerdo do trono, depois de sua aparentemente penosa conversa com a rainha. Randyne vestia um colete listrado que caía-lhe sobre a barriga incomumente protuberante como uma segunda pele, e com uma peruca torta e tronco franzino ele assemelhava-se muito à um peru rosado. Apesar de que poucos perus pudessem ostentar olhos azuis tão acesos e redondos.

Daenerys atraiu seu olhar ao mover-se por outros lordes de casas pomposas no tablado elevado, agitando seus cabelos prateados e sentando-se confortavelmente ao lado da irmã dele, Arya, e Gendry Baratheon. As mulheres murmuraram entre si, a rainha com uma das mãos pousada protetoramente sobre a arredondada barriga, e a irmã sorrindo levemente ao olhar para o que devia ser seu futuro primo, ou sobrinho, como ela teimava em afirmar para todos que ousassem dizer o contrário.

Decidindo que já adiara aquilo por tempo mais do que suficiente ele assentiu para o manto branco que prostrava-se perto dele como um cachorro adestrado, sempre o seguindo e observando-o – Para sua própria segurança. – A rainha insistira. Sor Comandante da Guarda Real deu dois passos para longe dele, o mais longe que provavelmente ele fora naquele dia, e sussurrou perto do ouvido de outro manto branco, fazendo o homem de armadura tintilar para fora da Sala. Poucos segundos arrastados depois, as grandiosas portas foram abertas e o abarrotado recinto mergulhou no silêncio para assistir a entrada dos réus.

Jon empertigou-se no trono, odiando o modo com as espadas pressionavam-se contra suas costas, para ver os dois homens de aparência moribunda serem conduzidos até o púlpito. Os elos das correntes pesadas que os prendiam estalando em seus ouvidos aos passos, mas ele recusou-se a desviar o olhar dos traidores e engoliu mais uma vez o ácido que subia-lhe a garganta quando eles foram presos ao tablado.

Lorde Randyne ergueu-se, pigarreando tão fortemente antes de falar, que a ação evoluiu para uma tosse rouca profunda, demorada o suficiente para que Jon tivesse vontade de lhe oferecer um copo d’água. – À todos que aqui apresentam-se, neste dia serão julgados os crimes de sequestro e tortura contra nosso rei Jon, da Casa Stark, consorte da rainha Daenerys, da Casa Targaryen, Primeira de Seu Nome. – O homem curvado prosseguiu apresentando os acusados e descrevendo laboriosamente seus crimes. O lorde possuía o dom da oratória e abusou dele, dissecando e enfatizando cada ato infame dos dois traidores, desde um imposto real atrasado até quantos assassinatos cada um deles havia cometido. Jon, devendo ser um dos mais interessados daquele falatório, deveria beber cada palavra monótona e pausada do acusador, mas a verdade é que louvava-se por não cair no sono ali mesmo, em frente à corte, sulista em sua maioria.

Enquanto ele discursava, ergueu os olhos para a rainha, encontrando as íris púrpuras com um brilho travesso. – Você vai odiar julgamentos, tenho certeza. – Ela comentara naquela manhã ao deslizar uma escova por seus fios, e ele não duvidara, achando mais uma oportunidade para insistir contra sentar-se no trono. Mas ela não parecera ouvir mais nenhuma palavra sobre o assunto e ele soubera que teria mais sucesso tentando convencer uma coluna de mármore a tomar seu lugar. Agora ela piscara para ele, e sorrira ao vê-lo desviar o olhar, contrariado.

Depois do que pareceram semanas, passadas entre acusações e mais acusações, alguma ação sua foi necessária, e ele levantou-se para dar a sentença. Enchera os pulmões com o ar abafado e sentira um peso incomum da coroa fina. Resistindo à vontade de arrancá-la bruscamente de sua cabeça, ele começou o que já estava decidido.

— Para o traidor Beltoar Dunt. – Todos os mínimos murmúrios calaram-se para escutar, e Jon pronunciou o que todos ansiavam em ouvir com asco pelas pessoas sedentas. – Em nome da Rainha Daenerys, da Casa Targaryen, Primeira de Seu Nome, eu o sentencio à morte. – As vozes recomeçaram altas e excitadas com a visão de uma decapitação em suas mentes podres. Ele viu o meistre abaixar a cabeça, o rosto ossudo sendo encoberto pelas sombras da tarde que descia. Lorde Randyne ergueu a mão fina para silenciar a pequena balburdia. – Para o traidor Edwen Arron. – Sua boca pareceu estar cheia de formigas nervosas e ele mordeu a língua para cessar o incômodo. – Está, por decreto real, destituído de todas as posses e direitos de herança, bem como terras e títulos; e exilado dos Sete Reinos, sob a pena de morte caso volte ao país de Westeros.

Ele voltou a sentar-se no trono Targaryen, com as vozes surpresas agigantando-se em seus ouvidos e fazendo-o entrar em um transe confuso, enquanto os guardas arrastavam os dois réus. Não era aquilo que todos esperavam, não era o que ele e Daenerys haviam acertado, mas não pudera condená-lo à morte. A misericórdia podia ser uma virtude em certas ocasiões, mas ele sabia que errara naquela. Não fora piedoso, suspirou sentindo o olhar da rainha arder sobre si, fora fraco.

O povo aclamou a execução como o espetáculo que era para eles, gritando insultos para o preso que de joelhos sorria misteriosamente. Atiravam legumes e frutas podres contra o corpo frágil do miserável, e sem piedade jogavam excrementos no rosto dele. Jon mantivera-se impassível à aquela cena, sentindo-se sujo por ter feito parte daquilo. Não houvera muitas delongas e logo a sede de sangue da multidão foi saciada, caindo na forma macabra de uma cabeça que rolou, como que por destino, para a os pés do rei – parando à polegadas das pontas das botas lustradas. Ele ergueu o rosto para sol crepuscular quase engolido pelas montanhas e rodeado de pragmáticas nuvens cinzentas, antes de deixar as calçadas altas do Grande Septo.

Seus passos pelos corredores vazios eram leves e silenciosos, em contrapartida as armaduras de seus guardas faziam barulho suficiente para assustar os mortos. Não soube exatamente para onde ia, e sentiu falta da companhia de Fantasma. Pensou em voltar à Sala do Trono, o último lugar onde o tinha visto, mas quando deu por si, viu-se de frente à porta de seu quarto, onde sabia que uma rainha furiosa o aguardava. Antes que pudesse pensar demais e desistir, ele abriu a porta e entrou de uma vez, ficando aliviado em livrar-se dos mantos brancos ao cruzar a soleira.

Jon ergueu as sobrancelhas ao ver Fantasma deitado sobre o tapete macio, com os olhos rubros fixos na mulher que observava os últimos gritos exultantes da multidão lá fora. Ela parecia tão enojada quanto ele ficara ao presenciar a execução, com as luzes alaranjadas da tarde banhando seu rosto pálido.

— Parecem urubus brincando com uma carcaça. – Sua voz soou soturna e áspera, e seus olhos frios. Ele observou ela virar-se para ele, esperando todas as repreensões que sabia que se seguiriam. Mas o rosto dela abrandou-se ao olhá-lo. – Fantasma me seguiu, mas acho que precisamos conversar sem ele por perto.

— Pretende me agredir? – Ele murmurou, mas abriu a porta e fez sinal para que o lobo saísse antes que ela respondesse. Fantasma ergueu-se lentamente sobre as patas, parecendo demorar-se de propósito para retirar-se do quarto. Viu o lobo eriçar os pelos das costas ao ver os guardas e fechou a porta, imaginando que eles podiam se entender, ou ao menos chegar a um acordo sobre quem protegia a quem.

Daenerys acariciou a barriga, sorrindo ao sentar-se na cama. Bateu de leve sobre os lençóis, convidando-o para aproximar-se. Jon sentiu o corpo cansado quando foi até ela e a cama pareceu-lhe tentadoramente aconchegante. Ela inesperadamente tomou sua mão, e a pousou sobre a barriga inchada. O rei retraiu-se, o corpo tencionando-se involuntariamente àquele toque, e com esforço não puxou a mão de volta. A rainha o espiou sob os cílios claros, como se esperasse alguma reação.

Sem que estivesse preparado para tal coisa, ele sentiu mover-se. O minúsculo ser vivo que residia dentro do corpo de sua mulher pareceu agitar-se à seu toque, e mesmo com a camada fina do vestido dela, pode sentir a perturbação estranha sob a pele da mulher. Jon engoliu a aparente areia que arranhava sua garganta e seu coração descompassou-se do ritmo normal, o sangue parecendo zumbir em seus ouvidos. Afastou a mão com a respiração acelerada.

A rainha olhou-o, rindo abertamente. – Ele não vai machucar você, sabe? Está apenas se mexendo.

Jon encarou a barriga, sentindo dificuldade em entender o que se passara. – E-Ele se mexe? – Não importando-se com a leve tremida que sua voz demonstrou, ele perguntou.

A mulher riu novamente, mas sua voz foi suave. – Claro que sim. Está vivo. Venha, sinta mais uma vez. – Ela segurou sua mão pelos dedos e tentou colocá-la sobre a barriga, mas o homem livrou-se dela, balançando a cabeça. Daenerys franziu o cenho para ele. – Não seja medroso, prometo que ele não vai mordê-lo. – Prendendo sua mão firmemente sobre o inchaço ela o fez senti-lo mais uma vez. Nada aconteceu à princípio, e ele quase pensou que a criança houvesse resolvido ficar quieta, quando um movimento leve o fez prender a respiração. Era um leve empurrão, como se alguém forçar-se um dedo contra um pedaço de couro, mas mesmo assim bastava para assustá-lo. – É um pouco estranho, não é? – Daenerys sorriu carinhosamente, olhando para as mãos deles unidas sobre o ventre. – Mas é bom senti-lo pela primeira vez.

Jon não estava totalmente certo quanto a parte boa daquela experiência, e totalmente de acordo com a estranha, mas manteve-se calado, permitindo-se apenas sentir os repentinos e leves movimentos contra sua mão. Para seu espanto, ficou desapontado quando o bebê parou de se mover e recusou-se a mexer-se novamente.

— Acho que ele cansou. – Ela murmurou para a barriga.

— Ele? – Ergueu as sobrancelhas para ela.

Daenerys apoiou a cabeça em seu ombro, entrelaçando os dedos das mãos que se seguravam. – Sim, ele.

— Como sabe que é ele?

— Apenas sei.

Eles aconchegaram-se no silêncio, Jon esqueceu-se por um instante do que pensara que ela fosse reclamar e aproveitou o momento sobre a luz morna do pôr-do-sol, sentindo a respiração controlada da rainha e os dedos pequenos contra os seus.

— Acha que podemos... – Ele limpou a garganta, com o rubor subindo pelo colarinho da roupa até as faces. – Ter machucado ele?

— O quê? Quando nós... Ah, não, Missandei me garantiu que não há risco para ele. Não desse tamanho. Ela disse que...

— Você perguntou à Missandei? – O ardor queimava em suas orelhas e ele imaginou a jovem escriba respondendo àquelas perguntas.

— A quem mais eu posso perguntar? – Ela encarou-o com os olhos escuros, ao mesmo tempo levantava-se de seu lugar e punha-se entre suas pernas. Daenerys desamarrou suas correias, descendo de nó à nó com agilidade e rapidez, até que pudesse retirar o manto escuro, deixando-o com a camisa branca de linho lavado. Desafivelou seu cinto e o pôs desleixadamente de lado, preocupando-se em correr o cós da calça e colocá-lo inteiro para fora. Com as mãos extremamente macias ela percorreu-o, um sorriso libidinoso e provocador nos lábios.

Jon deixou a cabeça cair para trás e fechou os olhos, suspirando pesadamente quando ela ajoelhou-se sobre ele, e por um bom tempo não pode pensar em mais nada além da maciez de sua rainha.

Notas finais
"Lily, não é possível que a mula lerda do Jon-Jon falou que GOSTAVA da Dany só agora! No capítulo 18!" Ah, meus tamagoshis pequerruchos, vocês desconhecem a lerdisse dessa criatura, e eu só achei que ele estava devidamente pronto para sentir e isso e falar agora. Descobrir que ama... Só os deuses sabem quando. Gostaram?