Notas iniciais
"Perdoei-me pai, pois eu pequei." Sim, eu estou atrasada, desculpas por isso, mas é só um diazinho. Nem faz tanta diferença assim. Devo confessar que estava vendo séries (mais especificamente Medici: Masters of Florence e The Musketeers) enquanto devia estar escrevendo. Por favor, perdoem-me. Estou de férias e Netflix é meu pecado mortal. Neste capítulo veremos probleminhas aparecerem, inevitáveis probleminhas... Boa leitura! (Música: Say You Won't Let Go - James Arthur)

A sensação implodiu em seu corpo adormecido apartir do baixo ventre. Devagar ela foi sendo içada de seu sono pela agradável pressão que esticava-se tão firme e contínua que ela não quis abrir os olhos para não acabar com o leve prazer a qual estava sendo agraciada por algum sonho. Contorceu o corpo sem pensar, deixando que as borbulhantes correntes fossem suas guias. E, como se estivesse realmente mergulhada em um devaneio quente de sua mente, levou a mão até o meio das pernas para dar sequência àquela comoção de suas percepções, afundando os dedos em fios macios e sedosos.

Abriu os olhos repentinamente, e o ar de seus pulmões paralisou-se a meio caminho de sair por sua boca, aberta em uma exclamação muda. Arfou profundamente, tomando golfadas para aplacar a fúria da descarga que percorria suas ligações em um rompante avassalador. Suas mãos agarraram-se aos fios, que ela acabara de reconhecer como o cabelo de seu esposo, e puxou sua cabeça para si, beijando-lhe os lábios cheios que haviam lhe proporcionado àquela pequena prova de que o paraíso existia.

Daenerys enlaçou as pernas na cintura do rei, afastando seu rosto para ver seus olhos reluzirem como o gume de uma espada às primeiras luzes do sol de inverno. – Essa deve ser a melhor maneira de acordar. – Sussurrou e ele sorriu, tocando seus lábios brevemente antes de se deixar cair nos travesseiros ao seu lado. A mulher espreguiçou-se, alongando os músculos ainda comprimidos pela noite de sono, depois virou-se, dando-lhe um último beijo mais profundo para se levantar da cama.

O homem segurou seu pulso, impedindo-a de sair. – Aonde vai?

— Chamar uma criada para me preparar um banho. – Respondeu e logo riu ao ver o brilho que perpassou pelo olhar de Jon Stark, batendo em sua mão em um estalo para afastá-lo. – Nem pense nisso. Eu realmente quero tomar banho desta vez.

— Nós sempre tomamos banho. – Ele murmurou, cruzando os braços ao se acomodar melhor no encosto da cama e soando extremamente contrariado.

A rainha balançou a cabeça, empertigando-se definitivamente para impedir alguma ação que a desviasse de seu plano e cobrindo o corpo com o fino penhoar de seda que repousava em uma cadeira acolchoada; o rosto contorcido em descrença. – Sim, com um pequeno atraso, variando de uma à duas horas.

Ele abriu a boca desenhada por espíritos luxuriosos, mas não pode emitir nenhum som que se assemelhasse a protesto, o barulho da porta escondida do quarto estrondou no cômodo calmo como um sino na madrugada. Dany encarou a pequena camareira que coloriu o rosto com uma rapidez impressionante ao avistar o rei despido na cama bagunçada. Em seu alvoroço envergonhado, a menina derrubou todas as peças brancas que trazia nos braços e abaixou-se no chão para apanhar as toalhas e lençóis quase em uma reverência desesperada. Escondendo o rosto nos tecidos, ela tentou juntar tudo o que deixara cair, mas falhando miseravelmente.

— E-Eu... P-Perd-dão, vossa... V-Vossas... Eu n-não quis... Quero dizer q-que... – A voz pouco sonora denunciava uma filha dos portos da capital, provavelmente criada sem nenhuma comida descente até parar nas cozinhas reais. E suas mãos finas pareciam mínimas demais para recolher todos os panos, que escorregavam delas com peixes recém-pescados.

Daenerys mordeu o lábio fortemente, sem saber se ria da pobre garota ajoelhada ou do homem deitado, tão corado quanto uma virgem em seu leito nupcial, e tão soterrado em lençóis como se estivesse esperando o frio das Terras de Sempre Inverno. O riso conseguiu escapar-lhe pelo nariz, em um som muito pouco digno da realeza, mas ela respirou fundo e com uma ação merecedora de aplausos afastou o ataque de histeria que estava prestes a ter.

— O que está fazendo aqui, menina? – Perguntou com a voz surpreendentemente controlada para seu estado. A parte de sua mente que não estava tomada pela cena utopicamente ridícula que presenciava, lembrou-lhe que as arrumadeiras não apareciam em seu quarto antes que ela se levantasse há tempos, não depois que se casara. Ela havia suposto que as mulheres houvessem subentendido que os monarcas precisavam de certa privacidade; vendo a menina apavorada na soleira de sua porta, percebeu que não.

— E-Eu vim arrumar o quarto, Vossa Graça. – Ela lançou um olhar fugaz para o homem, que havia decidido sabiamente que o lençol bastava cobrir-lhe até um pouco depois da cintura, e não até o pescoço. Daenerys sentiu toda a vontade de rir evaporar de suas emoções ao notar o desejo sobre as camadas de pudor naquela face rosada e pura como uma prímula.

— Eu percebi. – Sua voz saíra ácida e ela não se importou com o jeito que a menina baixou os olhos para as mãos que trabalhavam em juntar os lençóis. – O que quero saber é por que está fazendo isso enquanto ainda estamos no quarto.

— A senhora Margot disse que não teria problema em vir a essa hora, porque o rei – ela olhou o homem mais uma vez, fazendo a rainha estreitar os olhos e tendo que se conter para não cerrar os punhos em irritação –, não estaria presente.

— E por que a senhora Margot pensou que meu esposo — a ênfase que deu àquela palavra seria lembrada com vergonha em um futuro próximo, mas naquele momento serviram exatamente para o propósito que idealizara: impor a menção naquela avoada cabecinha loira –, estaria fora de nosso quarto?

Sentindo o tom mais agressivo, e parecendo subitamente se lembrar que falava com a rainha de Westeros, ela não o olhou mais e levantou-se vagarosamente com os panos nas mãos. Permanecendo com a cabeça abaixada, falou com voz diminuta: – Ela imaginou que... – Seu rosto contorceu-se em uma careta, os lábios delicados franzidos e os braços apertando as roupas de cama com um escudo. – Bem, é comum que os reis e rainhas só compartilhem um quarto até terem gerado um herdeiro. – Ela inclinou a cabeça com petulância. – E como a senhora já está esperando uma criança...

Vossa Graça. – Daenerys corrigiu com impaciência, gravando o rosto da camareira em sua mente, para garantir-se de mencionar à Margot Crone, uma mulher redonda que mantinha a pulso firme às engrenagens de organização da Fortaleza Vermelha, que ela nunca mais rondaria os quartos reais. – Então diga a Senhora Margot que não é para ninguém vir arrumar o quarto antes que eu e o rei tenhamos saído de nossos aposentos. E que não tolerarei falhas nesse quesito. – Ela assentiu energeticamente, saindo porta afora com o rosto ainda afogueado. Dany soltou os braços, que cruzara sem perceber, virando-se para o homem calado. – Que menina mais impertinente. Você viu?

Jon desviou o olhar, o rosto adoravelmente embaraçado para seus olhos. – Acho que ela foi quem viu alguma coisa. – Falou com o rubor voltando a tingir as pontas de suas orelhas.

A mulher pendeu a cabeça. – Você realmente não percebeu que... – Impediu-se quando lhe ocorreu que era melhor que sua falta de tato para aqueles assuntos fosse útil daquela vez. Com passos curtos foi até ele, descobrindo seu corpo para revelar aquilo que só ela podia apreciar, enquanto lhe puxava pela mão para colocá-lo de pé. – Bem, não importa. – Ergueu o rosto para eliminar a pequena diferença de altura e beijá-lo suavemente, com a língua voltando a sentir o gosto de seu esposo que enuviava seus pensamentos. – Sobre aquele banho... – Ela sussurrou contra seu ouvido, e sem que pudesse resistir, mordeu delicadamente o lóbulo da orelha direita. – Acho que mudei de ideia.

O rei pousou as mãos duras em sua cintura, forçando-a para baixo e depois ajustando o ângulo de seu rosto para beijá-la de verdade – naquela macia pressão de seus lábios quentes e na lenta carícia íntima da língua –, em um todo, sendo irritantemente controlador. Mas ela deixou, permitiu que ele tomasse sua boca de forma tão possessiva e incisiva e a apertasse contra o corpo, de uma maneira um tanto desconfortável pela pequena circunferência que era sua barriga. Dany enrolou os braços em volta de seu rei e pressionou mais seu corpo contra o peito dele. Bebeu o cheiro almíscar, saboreando o calor de sua carne, a sensação de sua pele contra a dela.

As mãos da mulher deslizaram, como que com vida própria, desde seus ombros largos, passando pelas longas cicatrizes, até acomodarem-se nas firmes curvas de suas nádegas. Ela sorriu dentro da união dos lábios antes de cravar as unhas na pele e arranhar para cima, acompanhando o elegante desenho da coluna. Jon soltou um murmúrio indignado, mas não pareceu se importar mais do que o normal e retribuiu a travessura ao prender seu lábio inferior entre os dentes com força. Rapidamente livrou-a do penhoar que se mantinha inconvenientemente entre eles, descendo as mãos por seu corpo até soltar o leve tecido no chão. E quando a rainha conseguiu pensar lucidamente, em um breve espaço que ele lhe deu oportunidade de respirar e concentrou toda sua atenção maliciosa na curva de seu pescoço, ela girou o próprio corpo.

Encaixando-se de forma mais confortável com as costas contra seu peito esculpido, ela moveu os quadris contra ele. A pressão que seu membro fazia sem penetrá-la sendo quase irresistível e deixando-a cada vez mais pronta para recebê-lo. Daenerys sentiu a sua respiração quente ao pé de seu ouvido, no tempo que ele afundava os dedos duros na pele lisa de suas coxas, e ofegou quando a boca molhada sugou a macia carne que pulsava fora de ritmo. Jon escorregou seus dedos em uma tortura letárgica pela parte de dentro de suas pernas, massageando os músculos finos e sensíveis em uma promessa de chegar logo a uma área melhor. E quando finalmente alcançou seu ponto ela arqueou o corpo para ele, unindo-se ainda mais em seu peito e querendo sentir sua masculinidade preenchê-la da forma mais completa que existia.

— Jon... – Ela sussurrou de olhos fechados, mergulhada até o último fio de consciência no prazer que seu rei lhe oferecia. Não fazia ideia do que queria dizer, ou se queria mesmo falar alguma coisa, e se ela estava tão tonta desse jeito, ele devia estar fazendo a coisa certa. Mas queria mais, queria ele, precisava dele.

— Diga. – Ele murmurou, os lábios arrepiando os curtos cabelos de sua nuca, para logo distribuir beijos quentes na linha de sua face. Subitamente ele parou, interrompeu o fluxo da corrente que tencionava-se em seu corpo, e ficou imóvel, apenas segurando-a. – Diga.

A rainha cerrou os dentes para não gemer em frustração, e com uma das mãos, guiou-o para dentro de seu interior fervente. Em um suspiro lascivo, ela acomodou-se sobre ele, fazendo-o sentar na cama em um movimento brusco. E começou a se mexer novamente, reconstruindo a cadeia de sensações que fora cessada, guiando-os para longe dos pensamentos coerentes. O homem continuou apertando firmemente sua coxa com umas mãos e circundou o seio direito com a outra, deslocando-a em círculos languidos que a enviavam ainda mais para a urgência que a fazia mover-se sem pensar sobre ele, seguidamente e instintivamente mais rápido.

Seu corpo chocava-se ao dele, acompanhando os acordes crescentes daquela dança que apenas os fazia querer mais e mais um do outro, e podia tanto salvá-los quanto atirá-los na perdição. Mas Dany não se importava em perder-se naquele homem, afogar-se em seus braços e desfazer-se em centenas de pedaços em seus lábios. Só conseguia pensar em tê-lo cada vez mais para si, dentro de si, em uma necessidade que os consumia em todo ardor e delírio que perseguia os descendentes da Antiga Valíria.

Quando sentiu seus músculos internos contraírem-se ao êxtase arrebatador, toda sua essência pareceu esvair-se em deleite, como se ela fosse a maleável prata e ele o osso do fogo do dragão que queimava até as pedras de castelos inquebráveis.

Os amantes arfaram, os peitos subindo e descendo fora de compasso e perdidos em seus mundos, alheios a qualquer coisa que não fossem eles mesmos. E por um bom tempo não precisaram de palavras para se expressar. A rainha deixou a cabeça cair para trás, apoiando-a no ombro de seu esposo. – Sobre nosso banho. – Ela levou uma mão até sua nuca e acariciou seus cabelos tão macios quanto cetim, para receber um toque de lábios mais demorado do homem. – Podemos começar agora. – O peito do rei tremeu quando ele riu, e seus braços estreitaram-se em torno dela.


*

Os dedos da rainha apertaram-se uns aos outros, as mãos pousadas placidamente sobre o colo não demonstrando a força que imprimia sobre eles e o tédio que tentava aplacar. Estava sentada há mais de horas, e se aprendera uma coisa nesses poucos anos como regente do trono de ferro era que ele precisava urgentemente de almofadas no assento. Macios acolchoamentos de pena, ou espuma – não fazia realmente diferença –, seriam muito mais do que bem-vindos e ela poderia conceder um condado de terras ao lorde que sugerisse que ela precisava de mais comodidade. Mas em um rápido olhar ela não seria pega em desconforto e estava bastante satisfeita com sua postura ereta e controlada. Tudo apenas principiou-se a dar errado quando sua garganta começou a coçar terrivelmente. E ela, a um segundo de implorar à Missandei um singelo gole d’água, respirou fundo e esperou o lorde terminar.

— Não quero realmente lhe apetecer, minha doce Rainha. – Lorde Merian Florent retirou humildemente o frouxo chapéu que antes empoleirava-se precariamente sobre sua calvície precoce e apertou-o contra o peito. — Mas atacaram meu pobre Rênias, e ele ainda não havia corrido nenhuma justa! – Daenerys prendeu o suspirou que subiu-lhe pelo peito e pestanejou para o homem, querendo perguntar rudemente que medidas ele queria que ela tomasse para com o pobre cavalo morto. – Tão vigoroso esse Rênias, não era robusto, mas eu sabia que seria um grande vencedor assim que aprendesse a aceitar alguns comandos. Eu logo vi por sua mãe, uma boa parideira, experiente e...

A rainha inclinou-se para frente, muito pouco interessada em saber todos os detalhes da árvore familiar do equino. – E o que eu posso fazer para lhe ajudar, Lorde Florent?

O homem atarracado engoliu em seco e, olhando sobre os ombros, procurou apoio nos parcos membros da corte que presenciavam as audiências daquele dia. Mas os rostos empoados não lhe ofereceram incentivo e ele voltou-se para a rainha com o semblante seriamente carregado. Gotas salgadas de suor marcavam seu rosto parcialmente encoberto por uma barba penteada e ele tentou enxugá-las com o chapéu cinzento.

— Meus homens me disseram que apenas animais grandes poderiam deixar um cavalo tão dilacerado como o meu foi encontrado, Vossa Magnânima. – Ela previu onde aquela conversa chegaria e sentiu seu peito apertar-se. – Não tenho medo em garantir que seus dragões não se envolveram, nenhuma marca de fogo foi achada. Embora que... – Seu olhar verde opaco desviou-se para a grande forma branca que montava guarda tácita ao lado de seu trono. Fantasma não alterou-se uma polegada ao receber o olhar acusador do lorde. – Haja outras feras rondando por entre nossas ruas.

Daenerys sentiu o cenho franzir-se minimamente em incredulidade, as rugas manchando sua imagem serena. – Está insinuando que o lobo do rei atacou seu cavalo?

Algum tom mais hostil em sua voz não passou despercebido pelos atentos ouvidos do homem e ele apressou-se em balançar a cabeça. – N-Não, Vossa Graça, eu não quis que parecesse tão grave. Se assim me fiz soar, por favor, perdoe este simplório servo. – O círculo sem cabelos ficou visível quando ele abaixou-se em uma reverência profunda, mas logo desapareceu por entre fios castanhos e grossos quando ele ergueu-se novamente. – Apenas seria do meu agrado se Vossa Majestade concedesse uma compensação por minha perda. Meus cavalos são a parte mais valiosa de meu sustento, e perder um jovem potro com tantas promessas de...

— Dez moedas de ouro são uma compensação suficiente?

Os olhos do lorde saltaram para fora de forma cômica. – E-Eu não ousaria pedir tanto. – E seu tronco dobrou-se atabalhoadamente para frente, enquanto ele agradecia com um fervor pontífico, com dezenas de adjetivos que enalteciam sua graça e bondade.

Dany deixou os ombros relaxarem enquanto o lorde retirava-se da Sala tão alegre quanto um infante, e olhou para Tyrion Lannister, que anotava preguiçosamente o débito de dez moedas que seriam retiradas do tesouro da coroa. A cabeça dourada apoiada em uma das mãos, com a apatia deformando ainda mais seu rosto contorcido, e as curvas da pena demorando-se em cada letra floreada. Ele molhou a ponta na tinta negra, o braço erguendo-se na indolência de quem tinha que fazer um esforço monstruoso para executar a ação.

— Tyrion. – O homenzinho não desviou o olhar de sua labuta torturante e aterrissou um ponto final com uma lentidão digna de mérito. Depois de longos segundos ele se deu o trabalho de arrastar os diferentes olhos sonolentos para a rainha. – Quantos faltam?

O sacrilégio se repetiu, e ele demorou-se com diligência para verificar a lista de pedintes, suspirando profundamente ao tomar conhecimento do número. – Treze. Faltam treze infelizes. – Sua grande e aparentemente pesada cabeça afundou no encosto duro de sua cadeira. Ele moveu os olhos vagarosos para o lobo albino. – Fantasma, seja útil e mate todos eles. Eu não aguento mais. – E atirou-se para frente com dramaticidade exagerada, escondendo o rosto nos braços cruzados sobre os papéis com tinta molhada. – Não aguento mais.

A rainha pensou em avisar-lhe que a metade da corte presente assistia seu pequeno espetáculo, mas achou que ele não se importaria com isso. Ela apoiou-se nas espadas atrás de si, decidindo dar ao Lannister um pequeno intervalo de sua lamuriosa função, e olhou para o animal gigante de seu esposo. – Onde está o rei? – O silêncio daqueles que a rodeavam foi unânime e ela olhou acusadoramente para o anão que fingia-se de surdo. – Tyrion.

— Vossa Magnificência Jon Stark tem idade suficiente para não precisar de uma ama de leite que siga seus passos. – Ele levantou a cabeça e voltou a recostar-se na cadeira. – Mas se quer realmente saber, ele saiu.

Daenerys não se engasgou com a água que Missandei lhe oferecera por uma graça concedida pelos deuses. – Saiu? – Ela quase exclamou, mas felizmente sua surpresa manteve-se controlada a apenas um sussurro urgente dirigido ao Lorde sua Mão. – Sozinho? Para onde? Tyrion! – Ela sentiu vontade de atirar o restante da água fria na cabeça pendente que oferecia um alvo consideravelmente grande para que ela não errasse.

— Eu sou a Mão da Rainha, lorde de Rochedo Casterly e ocasionalmente vinicultor, mas nunca me candidatei para o cargo de vigia do rei consorte. Então não, não sei para onde ele foi e nem se estava acompanhado da falecida sua avó que o visita em forma de fantasma. – O anão impertinente piscou como um pássaro agitado para o lobo. – Sem querer ofender os presentes. – A rainha continuou encarando duramente o homenzinho, esperando com paciência louvável que ele percebesse a seriedade de sua preocupação. Tyrion bufou teatralmente. – Ora, pergunte a Varys, saber de tudo é mais função dele que minha.

Dany empertigou-se em seu trono rígido. Percebendo com frustração que a Aranha não encontrava-se em seu costumeiro lugar perto dos conselheiros ela entregou a taça de vidro incolor para Missandei e voltou a cruzar as mãos sobre o colo. – Muito bem, chame o próximo. – Ela esperou que o Lannister desse a ordem de chamar mais um que esperava um momento com a rainha antes de lhe falar em um tom mais baixo que o burburinho da corte. – Nós vamos atrás dele assim que terminarmos.

— Nós? O que quer dizer com nós? – Tyrion Lannister torceu-se em sua cadeira para olhá-la com descrença, repentinamente acordado, mas qualquer reclamação sua foi convenientemente abafada pela voz alta e clara de Missandei anunciando Lorde Durin Moster.

As ruas calçadas de Porto Real estavam cheias como de costume, preenchidas com seus frequentadores atarefados. Mulheres gritavam a mercadoria do dia, mais fresca onde suas vozes se fizessem mais altas. Sob um dos arcos dos portais estreitos, escribas e cambistas se estabeleciam para fazer negócio, juntamente com uma Sacerdotisa do deus da Luz, uma vendedora de ervas aromáticas e um malabarista muito ruim. Um homem de barba pontilhada com fios cinzentos vendia maçãs de penugem pálida em um carrinho de mão, e outra mulher oferecia arenque com cebola picada para afastar os ventos frios da estação. Galinhas e crianças pareciam correr por toda a parte, juntamente com pombos esbranquiçados e alguns cachorros mestiços. Mas era o cheiro que mais se mostrava.

Mesmo depois de anos ela não conseguia se acostumar com o fedor que parecia exalar de cada pedra dos ladrilhos, como se a cidade estivesse podre em suas fundações. E a rainha sentia o mormaço infiltrar-se por entre sua capa amarronzada, o mau cheiro impregnando-se em sua proteção comum. Preferira vir assim, escondida por entre as dobras de sua larga capa camponesa e protegida apenas por Sor Barristan Selmy, que seguia em seus calcanhares, também encoberto por vestes simplórias. Tyrion a acompanhava sob panos escuros ao seu lado, murmurando lamentações e injúrias para sua pobre existência sofrida.

— Não consigo entender. – Ele recomeçou sua ladainha, chutando uma garrafa de vinho com o gargalo quebrado para fora de seu caminho. – O eunuco lhe disse onde o rei estava, e com isso Vossa Graça tinha inúmeras opções. Poderia ter deixado ele resolver seus próprios assuntos, como homem crescido que é. Poderia ter mandando um brutamonte da guarda real arrastá-lo de volta, bem, acho que seriam necessários três. Poderia até ter vindo pessoalmente vê-lo. Mas em nenhuma das situações eu vejo minha presença necessária.

Dany o ignorou deliberadamente, mais ocupada em parar em um banco de madeira, onde duas moças vendiam damascos suculentos, e comprar uma fruta por algumas moedas de prata. Seus olhos fixos na figura que descava-se em sua visão como se estivesse vestindo um manto azul turquesa e não preto, como era a realidade. Jon Stark conversava com um jovem vendedor de mexilhões e ostras, que provavelmente não tinha mais que 13 dias de seu nome, e nunca sequer imaginara o semblante do rei para saber que era com ele que gesticulava apressadamente. O garoto apontou repetidas vezes para uma viela estreita, e parecia querer se livrar do homem que apenas atrapalhava suas vendas. Mas o rei atirou-lhe uma moeda dourada, que reluziu na admiração dos olhos claros do menino, e seguiu para onde ele apontara.

A rainha acelerou o passo para segui-lo, perdendo-o de vista em alguns momentos, mas sempre voltando a encontra-lo por entre as pessoas incomodadas. Jon virou à esquerda, entrando no beco que lhe fora indicado e ela sobressaltou-se ao perceber o antro onde ele se metera. Uma pequena barraca de forro listrado vendia raro bacalhau frito, de aparência crocante e dourado por fora. Logo depois havia um bordel, deixando escapar de suas portas e janelas mulheres mal vestidas para o tempo que se assomava e que não perdiam a oportunidade de atirar-se no primeiro exemplar masculino que surgisse por entre as paredes estreitas. Um pouco mais para o final da viela aparentemente havia uma cervejaria de portas cerradas, mas seu esposo não deu atenção a nenhuma dessas figuras e, com passos decididos, ele andou até um grupo de homens que jogava dados. Eles pareciam extremamente animados com as apostas de moedas de ouro que rodavam pela mesa e ela reconheceu com surpresa Merian Florent dentre os apostadores.

O rei apertou o ombro do lorde que ela atendera mais cedo, e Dany espremeu-se contra o muro escurecido pela sujeira, curiosa para descobrir do que se tratava aquela ação misteriosa. Jon fez o homem erguer-se com um safanão, e tirou-o de seu círculo para empurrá-lo contra a parede. O lorde arregalou os olhos ao ver quem o agarrara.

— V-Vossa Graça? O que faz em um lugar tão...

O rei sorriu sem humor. – Soube que seu cavalo foi encontrado morto. Rênias, não era? – Lorde Florent tentou engolir a bile, mas aparentemente havia um sapo entalado em sua garganta. – Bonito animal. Uma pena o que uma espada pôde fazer com ele. Por que foi uma espada, não Merian? Nós dois sabemos que foi. Mesmo que você tenha ido implorar aos pés da rainha por uma compensação. – Ele pressionou o antebraço de músculos contra o pescoço do homem. O lorde arfou com os olhos esbugalhados, o rosto tornando-se rubro pela falta de circulação. – Disse a sua soberana que meu lobo atacou seu animal. – Uma raiva desconhecida para ela fez o homem apertar ainda mais o pescoço do outro contra a parede. Lorde Florent tentou inutilmente afastar a força que lhe era infligida.

Dany sentiu a mão de Sor Barristan puxar seu braço. – Venha Vossa Graça, não será bom que veja isso. – E rla deixou que seu protetor a arrastasse para longe, enquanto via com um sentimento estranho e desconfortável Tyrion encaminhar-se até o rei que apertava o pescoço daquele lorde.


*

Ela o encontrou horas depois, no lugar mais improvável que poderia imaginar. Havia voltado para a Fortaleza Vermelha com o homem velho que era seu guarda mais antigo conduzindo-a por entre os súditos alheios, com uma angústia distinta apertando seu coração como uma corrente de ferro fria e impiedosa. Quando chegara ao seu quarto percebera que o Sor não tivera razão, teria sido melhor que ela houvesse visto mais, descoberto mais aquele lado escuro que o filho atormentado do Norte escondia. Ou o contrário? Ela realmente queria conhecer aquelas sombras? Sempre que pedia que ele contasse sobre seus pesadelos, intimamente rezava para que o homem se mantivesse calado, não querendo ouvir os horrores que o tinham acometido e que ainda lhe perseguiam. Mas ao vê-lo tão fora de si naquela viela... Começara a se perguntar quem era de verdade o homem que dividia seus lençóis.

Jon estava sentado em seu banco favorito, sendo estritamente vigiado por um dragão de escamas verdes que bufava de tempos em tempos ar quente sobre seu corpo. Rhaegal apenas desviava seu olhar dourado para esquentar as asas finas, mas logo depois voltava a espalhar os cabelos soltos de seu esposo com sua respiração quente. O rei parecia estranhamente alheio à fera prostrada ao seu lado.

Ela costumava vir para a arena dos dragões e passar as últimas horas mornas de sol do dia observando o lago com sua camada congelada e ocasionalmente suas crianças, quando eles não estavam explorando os céus com suas asas translúcidas. Acostumara-se a vir tantas vezes que Missandei sugerira que ela colocasse um banco perto das pedras, camuflado na cor cinza o suficiente para que as feras não o quebrassem como um brinquedo novo. E de todos os lugares que ela pensara em procurar, aquele havia sido o último, não conseguia ver seu esposo buscando a companhia dos dragões por vontade própria, mas Tyrion a informara – com um mal humor considerável e um inchaço no supercílio do olho esquerdo – que ele se encontrava ali. Havia resmungado que era melhor deixá-lo sozinho e ela esperara impacientemente até que o sol começasse a se pôr para ir procurá-lo.

Aproximou-se devagar, as botas finas afundando na velha camada de neve, mas sua chegada foi terrivelmente denunciada pelas orelhas erguidas do lobo que descansava aos pés do dono – e apenas mais tarde lhe ocorreria que as portas pesadas e extremamente barulhentas da arena teriam sido um aviso bem mais significativo. Com um olhar longo, Rhaegal afastou-se do homem, embrenhando-se na mata ao vê-la, como se não precisasse mais protegê-lo já que sua mãe chegara. Sentindo pela ida do dragão, ela sentou-se na ponta do banco, correndo os dedos pela pedra lisa e gelada.

— O que você estava fazendo lá fora? – Perguntou com as costas eretas, não lhe surgindo outra forma de abordar o assunto mais sutilmente.

— Você não vai me manter preso dentro dessa Fortaleza. – Sua voz estava tão fria como o aço, e ela engoliu em seco, preferindo olhar os movimentos dos peixes embaixo da camada congelada do lago.

— Eu não quero prender, estou tentando lhe manter seguro.

— A linha que separa proteção de cárcere parece estar turva para você. – Dany o viu afastar os fios que eram levados pelo vento para seus olhos em um gesto impaciente. Para depois decidir prender os cabelos com uma tira de couro. Ela desviou o olhar da expressão mais grave que seu rosto assumiu. – Para sair do lugar que quer que eu chame de casa eu tenho que me esgueirar pelos fundos. Não me comunicou que eu não podia passar desacompanhado do portão principal, Vossa Graça.

Dany apertou as dobras de seu vestido, sentindo o vento perfurar os espaços entre as linhas até atingir sua pele arrepiada. Ela sabia que aquilo viria sobre ela, Tyrion teimara horas seguidas contra aquela decisão. Mas quando ordenara, seu coração ainda estava comprimido pela quase perda dele, observando todos os dias a febre aumentar e o homem delirar, afogado em dor. Então para ela protegê-lo era a melhor opção, mesmo que lhe custasse sua liberdade. Vendo seu semblante turvo, arrependia-se de ter ditado aquilo.

A rainha procurou seus dedos, e apertou levemente. – Não faça isso. Não trate tudo com esse tom. Você tem que entender que... – Ela não deixou que ele puxasse seus dedos dentre os dela. – Perder você não é mais uma opção. Mas eu não farei mais isso, foi um erro, eu sei. E não impedirei mais se você decidir sair, isso lhe prometo.

Daenerys percebeu com certo alívio as linhas duras ao redor das sobrancelhas dele anuviarem-se, como se ele consentisse com a trégua em silêncio. Mas ela ainda sentia o incômodo ao lembrar-se da fúria que vira em seus olhos mais cedo. – Por que fez aquilo com Lorde Florent?

Jon suspirou, baixando o olhar para os pelos do lobo deitado, que subiam e desciam controladamente, misturando-se com o branco da neve. – Ele mentiu para você. Fantasma não ataca cavalos sem mais nem menos, principalmente sem uma ordem minha. – O animal moveu a cabeça para olhar o dono ao ouvir seu nome, mas assim que se certificou que Dany não estava oferecendo perigo, voltou a apoiar-se nas patas. – A Aranha me informou que o lorde estava indo dizer-lhe esta mentira, e tentei ir atrás dele antes que chegasse até você. Mas só achei-o quando você viu.

A rainha apertou sua mão com mais força. – Não me refiro a isto. Estava falando de quando o agrediu. – Ela percebeu muito mais do que viu seu corpo se retesar, as costas saindo da posição levemente relaxada e a mão livre apertando-se sobre o joelho. – Aquele não era você. Por que fez aquilo? – O homem cerrou os dentes, como que para se conter de falar algo que não devia, e passou a olhar fixamente uma árvore com marcas de garras. Dany suspirou, estava aprendendo a odiar quando ele fechava-se daquela maneira para dentro de si mesmo, envolto em uma armadura impenetrável com algum sentimento corrosivo estraçalhando-o por dentro. Costumava deixá-lo em paz quando isso acontecia, mas resolveu ser mais insistente daquela vez, fazendo-o olhá-la ao virar seu rosto com uma pressão firme dos dedos. – Alguma coisa está quebrada dentro de você, e peço desculpas por não ter percebido antes. – Ela acariciou onde seu cabelo macio iniciava-se perto da orelha. – O que realmente aconteceu naquele calabouço?

Jon olhou-a profundamente, mergulhando em seus olhos em um escrutínio que a revelava por inteira para ele, de uma maneira que ela não conseguia retribuir. E apenas por uma fração de segundo conseguiu ver uma escuridão apavorante em suas íris cinzentas, mas então ele piscou e o tom normal voltou aos seus olhos. – Nada. – Seu rei beijou sua testa, enquanto envolvia seus ombros com a capa macia que o cobria. – Nada que eu não possa lidar.

E ao se encostar-se a seu calor reconfortante, quis acreditar nele. Com tanta força que quase acreditou.

Notas finais
Nhe, eu sinceramente estou com raiva desse capitulo... Mas e vocês? Nota: Barristan Selmy continua vivo nos livros, e como eu gosto dele, está vivo aqui também. :)