Notas iniciais
Bem, certo. Aqui estou eu, mesmo não estando muito bem. Primeiramente queria deixar registrado que perdoo quem não deixou review capitulo passado, porque eu vou para o céu. E quero me desculpar por quem ficou esperando o próximo capítulo. Bem, este é bem curtinho. E serviu mais para realizar minha vontade de ver uma coisa que vai demorar para acontecer (seja nos livros ou série). Mas espero que gostem. Boa leitura, docinhos. Música do capítulo: Home - Gabrielle Aplin (O flashback foi escrito com Hallelujah - Rufus Wainwright)

O céu estava tão fechado quanto as enormes portas do castelo. Vista à distância, Winterfell parecia tão pequena quanto uma das casinhas de bonecas que acumulavam poeira no canto mais escuro de seu antigo quarto. Mas mesmo ao longe, com suas torres e ameias desaparecendo por entre a bruma cinzenta, a fortaleza conseguia trazer à tona um turbilhão de emoções que ela não sabia que guardava. E por isso ela parou, segurou as rédeas de seu cavalo negro e aspirou o ar familiar. O vento do Norte atravessou suas peles e fez seus olhos arderem, perfurando as barreiras que tão duramente ela impora sobre seus sentimentos.

— Jon... – O nome do irmão escapou por entre seus lábios secos e pareceu dispersar-se ao seu redor, sendo engolido pela terra que ela lutara tanto para voltar. Inevitavelmente a última imagem turva que guardava dele foi invocada pelas árvores cobertas de neve pendente, e esquecendo completamente toda a exaustão que acometia seu corpo, ela fincou os calcanhares nos flancos do animal e rezou para que ele de alguma forma ainda fosse o mesmo.

O sol ainda era uma criança jovem, empurrando seus raios teimosamente para o mundo escuro, quando ela chegou perto o suficiente para ser avistada. Um lanceiro veio cavalgando curvado e tremendo sob sua capa grossa de peles, a barba com crostas de gelo. Parou a uma distância segura, frente a ela, e fez o cavalo fincar as patas na neve remexida. – Devo alertar para que se afaste, minha senhora. A menos que se identifique, não pode passar deste ponto. – Sua voz soou rouca, mas segura e impondo os limites que ele achava necessário.

A garota ergueu a cabeça, fazendo o capuz pesado de sua capa escorregar para suas costas e deixando pela primeira vez em muito tempo que suas verdadeiras feições fossem plenamente vistas. Os curtos cabelos escuros presos, e os marcantes olhos cinzentos como as nuvens. – Meu nome é Arya Stark, e o senhor está atrapalhando meu caminho.

Durante a viagem ela sabia que exigira demais do cavalo, e quando o desmontou à frente das enormes portas que guardavam as muralhas duplas, as patas do animal tremeram de cansaço. Arya bateu levemente na coxa musculosa dianteira, enquanto segurava os freios e o puxava para frente. – Você foi bem, garoto. Vai poder descansar agora. – Assim como eu. Aquele pensamento aqueceu seu coração e ela esfregou os dedos gelados no couro.

O homem que a acompanhava fez um sinal para que um vigilante abrisse o portão e ela prendeu a respiração ao escutar a madeira da trava sendo erguida e as dobradiças congeladas rangendo ao serem forçadas. O pátio não estava tão cheio quanto ela esperara, com poucos homens carregando maços de palha e mulheres com cestos cheios de peças de roupa amarrotadas, ou baldes de água fria. O castelo ainda acordava, mas ela andou com pressa até a entrada principal.

As portas do Grande Salão assomaram diante dela, tão grandes e robustas que faziam-na sentir-se como uma criança outra vez. Mas não eram as mesmas, ela lembrava-se da antiga imponência que seu pai ganhava ao abrir sem muito esforço aquelas gigantes – enquanto ela esforçava-se para empurrar com o ombro – mas estas eram novas, tão estranhas e erradas às suas memórias que pareciam feias e rudes. Mas ela imaginava que quando o fogo chegara e consumira tudo, seus irmãos não haviam tido escolha à não ser substitui-las.

Arya subiu os degraus com as pontas dos dedos latejando de frio e o coração bamboleando-se entre apreensão e ansiedade. Empurrou a pesada porta do lado direito e deslizou para dentro. O salão estava abençoadamente quente, acolhendo-a como uma manta, e ainda iluminado com as fracas luzes de tochas provavelmente restantes da noite anterior. Ela fechou os olhos, deixando o calor banhá-la e que seus sentidos fossem preenchidos pelo aroma do pão recém-tirado do forno.

— A-Arya?! – Por um breve instante seu coração falhou, enganando-se sabe-se lá como com o tom da voz e enchendo-se de alegria. Ela virou-se sorrindo, para avistar uma névoa de cabelos ruivos antes que a mulher colide-se contra seu corpo cansado. Alguma coisa pareceu esmorecer dentro dela, mas a menina abraçou a irmã com a força que lhe restava. Sansa afastou-a com as mãos sobre seus ombros finos, tão parecida com sua mãe que a menina pensou que fosse desabar ali mesmo. – Como... Onde... Onde você estava? Por que não veio com Brienne quando teve oportunidade?!

Ela não esforçou-se para tentar responder aquelas perguntas, desviando-se dos olhos azuis da irmã para olhar para os lados, ainda esperando que ele surgisse das sombras e a erguesse em seus braços. – Onde está o Jon?

Se Sansa incomodou-se com a pergunta, Arya não foi capaz de perceber, apenas a viu balançar a cabeça lentamente, com o rosto franzindo-se em uma preocupação estranha e nova para ela. – Ele não está em Winterfell. – A irmã percorreu seu corpo com criticidade no olhar, parecendo não notar a decepção que implodia dentro da mais nova. – Você deve estar cansada. Suas mãos estão geladas, por que não está de luvas? – Ela apertou os dedos de Arya entre os seus, e a menina segurou-se para não dizer que ela parecia tão fria quanto. Sansa dirigiu-lhe um sorriso inseguro. – Depois você pode me contar tudo. Venha, vou mandar prepararem-lhe um banho quente.

Ela empurrou o purê de maçã para o lado do prato, afastando-o da carne que vertia molho escuro com cogumelos. Separou as verdes ervilhas umas das outras e amassou a batata adocicada com a ponta do talher, tudo parecia realmente apetitoso, mas ela não conseguia forçar-se a comer. Então decidiu dar mais um gole em seu vinho quente. As especiarias despertaram seus sentidos e esquentaram sua garganta, enquanto seus dedos pareciam absorver o frio do metal.

— Eu sinto muito que ele não esteja aqui. – Sansa disse pelo que parecia ser a quinquagésima vez, e Arya assustou-se quando ergueu os olhos para ela, novamente notando o quão parecida com sua mãe ela era; sem as durezas que a idade marcara em Lady Catelyn, mas tanto que fazia seu coração doer. – Eu mandei uma carta para ele quando você estava tomando banho. Tenho certeza que ele virá assim que puder.

A menina assentiu e decidiu comer mesmo sem fome, para conseguir evitar qualquer outra nota de desculpas da irmã. Arya estava sendo injusta com Sansa, sentia isso, mas quase não podia evitar a apatia. Sabia não era culpa dela que quem a pequena loba realmente quisesse ver fosse o irmão mais velho; e não era culpa dela ainda que houvesse sido a figura embaçada do sorriso de Jon que a tivesse motivado a prosseguir, com o mínimo descanso para chegar o mais cedo possível. E que ao andar pelos corredores dolorosamente familiares tudo houvesse parecido frio e opaco. Não, Arya não podia culpar Sansa por tê-lo visto antes dela, mas ainda assim o fazia.

Quando conseguiu terminar o jantar, a lua apontava-se alta. Cinzenta e pela metade, como se houvesse decidido por maldade representar o estado da menina, ela iluminava por entre as brechas que as nuvens concediam. Arya insistira para que Sansa fosse dormir, garantindo que ela conseguia achar o caminho para seu quarto. Mas mesmo já tendo passado do sexto bocejo sonolento, a irmã recusara-se a deixá-la só. Aceitou silenciosamente a presença quieta dela, apenas porque a outra jurou que não perguntaria mais nada, e esperou. Talvez esperasse o sono lhe enuviar a visão, como fazia sem piedade com a Stark mais velha, ou que a coragem para entrar mais uma vez em seu quarto surgisse. Mas seu coração esperava outra coisa.

Sentada no banco, com a madeira gasta deslizando por seus dedos nervosos, ela comtemplou as tapeçarias. Estranhamente era uma das coisas que mais se lembrava, o jeito como os lobos gigantes eram retratados nos pesados tecidos, como se estivessem presos naquele perpétuo campo congelado, com as linhas como suas correntes. Sentira tanta falta daquelas imagens, que era estranho vê-las tão de perto.

— Como elas sobrevi... – Arya interrompeu sua pergunta ao tomar conhecimento da ruiva adormecida. Com um sorriso que poderia ser traduzido para um “Eu te avisei” que apenas irmãos sabem dizer, ela levantou-se de seu lugar. Retirou a capa que protegia seus ombros do frio que fazia seus dedos tremerem e a recolocou sobre o corpo da irmã. Não depois de muito tempo ela a acordaria, e perguntaria como as tapeçarias haviam sobrevivido ao fogo, mas por hora deixaria que ela dormisse. E assim poderia aproveitar o tempo só, sem perguntas que ela não queria responder.

Arya não teve oportunidade de voltar a se sentar, as portas do Grande Salão sendo abertas com um barulho quase raivoso para revelar uma figura que a impediu de mover-se. Jon parecia assustador. Com as feições acobertadas pelas sombras e com um manto grosso deixando-o ainda maior, teria sido capaz de aterrorizar homens de barba. E ela não foi capaz de dar nenhum passo, em qualquer direção que fosse, sendo ele o único a aproximar-se da menina.

Seus passos vagarosos, quase como se indecisos, pareciam ecoar no vazio do Salão como sinos em um septo e ela engoliu em seco ao sentir a fúria invasiva da corrente fria que a neve trazia ao aproveitar-se das portas abertas. Era um homem, Arya percebeu com certo pesar ao vê-lo emoldurado pela tempestade de lá fora, o frio cinza como parte de si. Em algum lugar durante aqueles anos, o menino que lhe assanhava os cabelos sorrindo com olhos gentis quando ela lhe contava uma travessura, havia se perdido. Tinha os cabelos repuxados duramente para trás e cicatrizes em seu rosto que ela tinha certeza de não conhecer. Os olhos cinza pareciam mais duros que o aço que carregava e sem dúvida escondiam tantas sombras quanto os dela. Mas quando o sentiu perto, perto o suficiente para tocar seu rosto se erguesse a mão, Arya pulou em seus braços, ignorando conscientemente o medo que ameaçava afogar-lhe. Seria ele ainda o mesmo? Não se incomodou com possível resposta negativa, tudo o que importava naquele momento era a segurança que o irmão lhe passava com o apertar de seu corpo, retirando seus pés do chão e fazendo-a arfar contra seu ombro. Ela fechou os olhos e deixou que ele a acalenta-se, sentindo-se finalmente quente e em paz.

— Eu senti sua falta. – Ela assustou-se com a repentina fala de Gendry ao pé de seu ouvido. Seu noivo segurou sua cintura e a fez se afastar da amurada, envolvendo-a com os calorosos braços de ferreiro. Arya retesou o corpo inconscientemente, mas forçou-se a relaxar, acomodando as costas em seu peito. – Por que não veio jantar?

— Não estava com fome. – Respondeu com os olhos vidrados. Ponta da Tempestade era um lugar frio, úmido e parecia ter sal até por dentro dos travesseiros. E ela tinha a tendência a odiar.

Como se literalmente fosse o fim do mundo, ela sentia-se estranhamente presa por aquelas ondas imperiosas, que forçavam-se contra as barreiras de granito escuro e desgastado, e pelas muralhas protetoras. Arya era uma loba, precisava no frio seco do Norte, e da liberdade que as camadas de neve lhe davam; seu âmago rejeitava com todas as forças as paredes aparentemente sempre molhadas ao toque e o constante cheiro de peixe apodrecido. Era escuro, confinado e muitas vezes monótono. Ela ansiava pelas antigas saídas à cavalo para os campos limpos de Winterfell e as breves lutas que tinha no pátio com Jon. E pensar no irmão apenas piorava tudo, mesmo que ela gastasse algumas horas de ócio espetando bonecos de palha em uma sala abafada e cheia de réstias, nada parecia ser suficiente para saciar sua saudade de casa.

Em muitos momentos do dia ela pegava-se pensando, com os olhos fixos em nenhum ponto, acompanhando com placidez a dança que o mar travava com as rochas. As espumas das águas cinzentas que por vezes respingavam em seu rosto e ardiam contra a pele, indo e vindo, e de certa forma livres. Ela invejava o mar, mesmo que não estivesse presa, e quando pairava seu olhar sob as nuvens salgadas perguntava-se com angústia se havia tomado a decisão correta.

— Mentirosa. – Gendry beijou a veia pulsante de seu pescoço, e percorreu languidamente o caminho até o lóbulo de sua orelha. Ele mordeu a fina carne e umedeceu a área como se seus lábios escrevessem uma poesia doce em sua pele. Arya fechou os olhos, levando uma das mãos para os fios grossos dele, e seu suspiro foi tão suave quanto a carícia que recebia. Ela cravou as unhas curtas na nuca do homem quando ele repentinamente parou. – Você sente falta do Norte. – Ele a fez ficar de frente para si, e ela pode afundar-se em suas íris castanhas, tão sérias que ela prendeu a respiração. – É por isso que todos os dias olha de nossa janela para o mar, não é? – A garota desviou os olhos, incapaz de enfrentar a força com que ele impunha aquela afirmação. O Baratheon a fez encará-lo novamente com a firme pressão de seus dedos, e a intensidade de seu olhar deixou-a incomodada. – Eu a quero Arya, perto de mim e se possível com alguma afeição por minha pessoa. – Ele sorriu brevemente antes de afastá-la de seu corpo. – Mas não infeliz.

— Eu não sou infeliz. – Ela pousou a mão em seu rosto, gostando de sentir como a barba recente ranhava contra a palma. – Eu tenho você.

— Não é infeliz ainda. – Com delicadeza, ele retirou a mão do rosto e segurou as duas entre as grossas dele. – Não posso mantê-la aqui enquanto sei que deseja estar em outro lugar. – Gendry abaixou-se pesarosamente, deixando que ela visse um relance melancólico e machucado em seu olhar, e beijou as costas de suas mãos. – Vá para Winterfell. Ou para qualquer lugar que seu coração chame de lar.

— Gendry... – Arya buscou o ar para dentro de seus pulmões comprimidos e engoliu em seco. O homem virou-se de costas, parecendo repetir a mesma ação, e seus ombros caíram quando ele suspirou.

— Só não demore a voltar, está bem? – Ele olhou para ela, com um mínimo sorriso travesso nos lábios e aquela luz brilhante de seu olhar que ela apreciava tanto. – Ou eu posso desistir dessa ideia de ser altruísta, e rodar o mundo para trazê-la de volta. Nem que seja sob meu ombro.

Arya não pode deixar de sorrir, mas seus olhos pareceram arder ao vê-lo se afastar lentamente como se não quisesse ir embora, e ela não achou que fossem as ondas. Mas seria melhor assim, não? Ir por um tempo e encontrar o que quer que procurasse, o que quer que tivesse anseio. Mas talvez... Tudo que ela precisasse mesmo fosse perceber que o verdadeiro lar de seu coração era ele, e a distância seria quem se encarregaria de mostrar isso, mais cedo ou mais tarde.

Notas finais
Tenho duas coisas para dizer: 1 - Não me esganem. (Principalmente quem mora na mesma cidade que eu. Vulgo Raelle Hawkstark e Maria_Misty,) 2 - Eu shippo Jon e Arya. Mas isso não tem relação nenhuma com o final deste capitulo. Arya e Gendry é superior.