Notas iniciais
Muitas coisas para dizer, pouca gente que vai ler... Primeiro, eu sei que devo um pedido de desculpas do tamanho do Everest, sei que essa demora é imperdoável e eu provavelmente não receberei nenhum review porque leitores perdem interesse. Mas... Aqui estou eu. Segundo. Capítulo enorme, e como estou seguindo conselhos de leitoras lindas, não apaguei uma virgula. Se ele tiver ficado cansativo, chato, monótono, maçante, ou qualquer variação, avisem. Mas como é o último... Eu achei que podia escrever quanto quisesse. Terceiro... Flashback inútil para quem não ta afim de ver Jon e Robb quando crianças, podem pular. Quarto. Temos fofurices aqui. POR FAVOR, me digam se ficou muito meloso. Eu me esforcei para não deixar assim. Boa leitura, tamagoshis do meu coração! (Eu escrevi escutando três músicas diferentes... -Para o Flashback:- Riverside - Agnes Obel; When The Darkness Comes - Colbie Caillat; e Me Espera - Sandy feat. Tiago York)

Os gritos romperam o silêncio de seu sono e o fizeram acordar com o coração disparado. O menino afundou as mãos nas peles que o protegiam dos ventos da noite e apertou-as com toda a força que o medo do desconhecido conferia. Arfando pesadamente ele olhou para os lados, e ergueu-se dos travesseiros lentamente, apenas para constatar com alívio o vazio escuro do quarto. Mas logo eles vieram novamente, lamúrias tão sofridas e desesperadas que ele sentiu sua garganta apertar-se.

Jon engoliu em seco e reuniu coragem para afastar as cobertas de seu corpo e sair da cama. Nas pontas dos pés ele foi até a porta, tomando cuidado para não tropeçar nas roupas que deixara teimosamente ao chão ou esbarrar na parca mobília. Com as mãos suando ele abriu a porta e agarrou-se no frio do ferrolho, colando a bochecha vermelha na madeira para espiar pela fresta o corredor mal iluminado. A princípio não conseguiu enxergar nem mesmo um palmo à frente de seu nariz, mas um vulto passou correndo, fazendo-o piscar de susto, e assim que o primeiro archote se fez útil ele reconheceu uma mulher das cozinhas carregando uma bacia com água até a borda. Ela parecia andar apressadamente em direção aos gritos e a sua curiosidade de criança quis segui-la.

Depois de esfregar as palmas no tecido rude das calças, ele foi atrás dela. Mas mal havia dado dois passos quando ecos aproximaram-se e outra pessoa segurou seu ombro. – O que está fazendo aqui, criança? Isso não é hora de estar acordado! Volte para cama! – Mas a mulher que o repreendera não perdeu tempo empurrando-lhe para o quarto porta adentro; segurando toalhas imaculadas em branco, ela deixou-o para trás ao dirigir-se em frente, com um balançar apressado de ancas e passos leves. Jon mordeu o lábio, a indecisão de obedecer a ordem ou ir ver o que acontecia batalhando dentro de si. Quando quase estava convencido de que seria melhor retornar para suas peles quentes, a voz de seu irmão chamou-lhe.

— Ei! Venha aqui! – Robb sussurrou de algum lugar à sua direita, e ele virou-se, procurando cegamente a figura de cabelos ruivos que o requisitava tão urgentemente. Uma mão gelada puxou-lhe pela dobra do braço para as sombras onde se escondia. – Não fique aí parado no meio do corredor. Quer estragar tudo?!

— Estragar o quê?! – Jon sussurrou no mesmo tom eriçado, e agachou-se na reentrância da parede que seu irmão escolhera; um espaço pequeno entre duas colunas, mas suficientemente grande para corpos magros e ossudos de dois meninos com apenas sete dias de seus nomes. De frente um para o outro, seus joelhos se tocavam. – E você sabe o que está acontecendo?

— Estava tentando descobrir, mas você continua falando tão alto quanto um gigante! – O ruivo impediu que ele respondesse ao tapar sua boca com as mãos, e antes que pudesse protestar com indignação, ele viu as saias cinzentas na noite de uma serviçal que voltava de onde os gritos se originavam. Assim que ela sumiu na primeira curva, Jon livrou-se irritadamente das mãos dele. – Eu ouvi uma das mulheres falar alguma coisa sobre o bebê. Acho que meu irmão está nascendo. – Robb ergueu os ombros. – Ou irmã.

Jon Snow olhou para a escuridão que se alongava, escondendo a extensão do corredor. Pensou em mencionar que a criança que nascia era tanto sua irmã quanto dele, mas sabia que o menino não falara aquilo por maldade, mesmo que tivesse doído da mesma forma, então tentou deixar de lado. Robb remexeu-se em seu lugar, atraindo o olhar do bastardo.

— Acha que estão machucando ela? – Ele encolheu-se quando mais um grito veio, parecendo ser perpassado dolorosamente pelo som forte e rouco.

— Bem... – O menino começou, querendo de alguma forma retirar o olhar sofrido do semblante do irmão, mas sem saber como. – Se a barriga da sua mãe é o bebê, então ele tem que sair por algum lugar não é?

Robb uniu as sobrancelhas. – Então eles estão abrindo um buraco?

— Deve ser. Para ela gritar tanto. – Jon arregalou os olhos, incrédulo, quando uma ideia assustadora lhe ocorreu. – Se ela tem dois filhos, então ela tem...

— Não. – O irmão balançou a cabeça, soando extremamente superior. – Acho que não é assim que funciona. Se toda vez ela tivesse que abrir um, para que ela iria querer ficar grávida então? A mamãe parecia feliz.

O outro teve que concordar. – É, ela parecia feliz. – Seus olhos desviaram-se para o chão de pedras lisas, enquanto mais gritos longínquos pontilhavam as altas horas da lua. Tentou sentir satisfação com aquilo, afinal a mulher que o perseguia e o maltratava tantas vezes por debaixo dos panos estava sofrendo. Isso devia trazer-lhe algum tipo de alegria, mas não conseguia sentir nada. Só queria que aquilo parasse, para assim poder voltar a dormir. Ele cutucou o irmão. – O que você vai fazer?

— Não sei. – Robb respirou fundo, e sem querer sua boca abriu-se em bocejo, tão cansado quanto o Snow. Ele tentou falar em seguida, sua voz aberta pelo gesto sonolento. – Podemos ir avisar ao papai. Eu não vi nenhum homem indo pra lá. Talvez ele nem saiba disso.

Jon não ponderou sobre o que deviam fazer ou não, uma confusão de passos, mais pesados do que deveriam soar para moças, surgiu no corredor e foi até eles. Os meninos prenderam a respiração, os corações palpitando rapidamente ao ver três homens altos passarem por eles, sem – graças aos deuses – ao menos perceberem as criaturas abaixadas no escuro. O Snow reconheceu o Lorde de Winterfell, em uma cena que ficaria gravada em sua memória. De cabeça abaixada, mão direita no botão da espada, murmurando uma prece baixa, ele parecia alheio aos sons de sua esposa, e ao mesmo tempo completamente afetado. Antes que pudessem suspirar de alívio, uma das sombras girou nos calcanhares e Lorde Eddard colocou um joelho no chão, ficando da mesma altura que os filhos.

— O que estão fazendo fora de seus quartos? – Perguntou com a voz tensa, em um tom que nenhum deles se lembrava de ter escutado antes. Jon e Robb cruzaram os olhares, cinza e azul consentindo com a mesma ideia, mesmo sem palavras.

— Os gritos. – Como sempre acontecia quando era necessário, o ruivo quem falou primeiro. Ele era melhor naquilo mesmo. – Nós viemos ver o que estava acontecendo. – Depois deu voz ao seu próprio espírito. – Achamos que tem alguém machucando a mamãe.

O homem olhou de uma criança para a outra, buscando em seus rostos aparentemente inocentes algum sinal de mentira. Jon baixou os olhos, envergonhado. Ele não estava realmente preocupado com aquilo, e apenas não voltara para seu quarto para ajudar o irmão. Lorde Eddard apertou as mãos frias dos meninos. – Não se preocupem. Estou indo resolver isso agora. Voltem a dormir.

Robb pareceu realmente melhor depois de saber que o pai iria cuidar de sua mãe, e voltou para seu quarto bocejando livremente, coçando os olhos e sem mais reclamações. Jon arrastou seu sono para o calor de seu cômodo, ouvindo a porta do irmão fechar ruidosamente atrás de si e a mão do Lorde segurar a madeira da sua, impedindo-o de fazer o mesmo. Ele ergueu os olhos nortenhos para o homem, receosamente esperando a reprimenda. Mas seu pai deu-lhe um raro sorriso. – Obrigado, Jon. – Ele viu o olhar Stark brilhar nas chamas dos corredores. – Por cuidar dele.

O menino encarou por um longo tempo as tábuas retas da porta quando ele foi embora. Suas entranhas se contorceram em um nó estranho, e ele voltou para a cama sorrindo, sem se importar com os gritos de dor da mulher ao longe.

O ar escapou-lhe furiosamente, com se atemorizado demais para permanecer alimentando seu corpo, e ele apertou a mão em punho. As unhas curtas pressionadas contra a carne marcada da palma, as falanges dos dedos embranquecendo-se gradualmente e os tendões tornando-se proeminentes enquanto tremiam na força imprimida. Frustrado, ele quis afundar os ossos rígidos nos tijolos da parede clara, mas isso era uma coisa que ela não gostava que ele fizesse então se conteve. Em vez disso deixou o olhar vagar através do vidro da janela embaçada, deslizando pelos desnivelados telhados sujos e gastos da capital, com alguma camada de neve, mas insignificante para sua memória crescida na imensidão branca do Norte.

Apoiou a cabeça no músculo do ombro, no mesmo braço em que se escorava na tinta fria da sala amarelada. O rei teria preferido estar fora de paredes naquele momento, em um lugar onde pudesse estancar a apreensão e impotência que o corroía. Provavelmente em um pátio de lutas, descontando em bonecos inanimados ou em soldados que não o batiam naquilo; ou mesmo apenas andando sozinho. Mas ele queria, e de certa forma precisava, ser o primeiro a saber de qualquer notícia vinda do cômodo ao lado, então prendera-se entre as janelas e lareira aquecida daquela sala. Se houvesse lhe ocorrido prestar atenção em algum momento, teria notado que se tratava de mais um quarto da ala de aposentos da Fortaleza Vermelha, mas para seu espírito atormentado não passava de um lugar de espera e nem mesmo a rica mobília lhe era notável.

— Vinho, Vossa Graça? – Uma voz feminina soou à suas costas, e ele conteve o sobressalto da melhor maneira que pode. Virou-se para a mulher que oferecia sobre uma bandeja de prata uma taça de vidro cheia da dita bebida escura, e balançou a cabeça levemente, murmurando um agradecimento simples. Por mais que desejasse esmorecer o incomodo que pulsava em seu corpo, sabia que o vinho não era o melhor caminho. A servente inclinou a cabeça em sua direção e afastou-se lentamente para evitar que qualquer gota transbordasse.

Jon Stark continuou encarando a moça afastar-se, com os olhos na fina linha que mostrava-se arroxeada onde o conteúdo da taça terminava, mas sem realmente ver nada e arrependendo-se de não ter aceitado o vinho. Havia começado no jantar, mais cedo naquela noite, enquanto ele cortava laboriosamente uma fatia fibrosa de carne vermelha. Depois de tempos na Patrulha ele acomodara-se a comer a maioria dos alimentos com as mãos, mesmo que quando pequeno houvesse sido ensinado a usar talheres, mas percebera que não seria possível manter o hábito; não com cortesãos quase sempre presentes nas refeições – julgando-o com olhares desdenhosos. Então se acostumara novamente a garfos e facas.

Daenerys, redonda em sua oitava volta de lua, apreciava uma sopa laranja. Ele não via como ela podia gostar de pedaços de galinhas dentro de seus próprios sangues cozidos, mas não falava nada sobre o cheiro estranho de cenoura, ou mesmo as bolhas transparentes que eclodiam pelo calor quase fervente. No meio caminho de mais uma colherada, a boca em um sopro cômico e os olhos fechados de satisfação, ela soltou uma exclamação surpresa e a prata da colher estalou ao cair contra a mesa. A mulher pôs a mão no ventre, logo abaixo da barriga – como ele podia ver por estar ao seu lado –, sem se importar com o líquido quente que manchava a toalha bordada. Rostos viraram-se em sua direção, e um silêncio pasmo calou todos os pratos.

O homem quis falar alguma coisa, suas entranhas calcificando-se em aparente gelo, mas a rainha foi mais rápida. – Não foi nada. – Ela sorriu para a corte curiosa em um tom firme. – A criança chutou um pouco mais forte que o normal. Acho que ele não quer mais sopa. – Eles riram, e algumas outras frases animadas sobre o vigor do príncipe retomaram o burburinho de conversas. Daenerys olhou para seu lado direito e em segundos Missandei estava pronta para ajudar. A mulher inclinou-se para sua soberana e a Targaryen falou em voz baixa, para que nenhum presente escutasse. Jon não resistiu à vontade aproximar a cabeça apenas mais um pouco para tentar escutar alguma coisa, e antes que a escriba retornasse ao seu lugar, ele pode ouvir: –... Seu corpo está se preparando, Vossa Graça. Não se preocupe.

A rainha assentiu concentrada em algum ponto da parede em frente à sua cadeira, olhando sobre a cabeça de uma mulher que gargalhou com um pedaço de toucinho gorduroso pendendo da boca. O Stark engoliu em seco e depois umedeceu os lábios. – Dany... – Ela atendeu ao seu sussurro como sempre fazia quando ele chamava seu nome daquela forma, e seu sorriso daquela vez foi tranquilizador, assim como o aperto em sua mão sobre a mesa.

— Não foi nada. – Mas ele não acreditou em sua reafirmação e provou-se certo na desconfiança mais tarde da mesma noite, quando ela segurou seu braço com força, cravando as unhas na carne, e pediu urgentemente que ele chamasse Missandei. Jon fora expulso de seu próprio quarto por mulheres de caras fechadas – que se recusavam a iniciar o parto com um homem por perto – mal vestido para o frio da hora tardia e completamente confuso. Não tinha certeza se devia ter realmente ido, e menos ainda se devia ter ficado. Mas alguma coisa lhe dizia que não teria utilidade observando sua mulher caminhar inquieta ao redor do quarto, sentindo as pressões inicias do nascimento de seu filho.

Ao longo de quase cinco meses ele fora um expectador ausente do crescimento da criança dentro da barriga da mulher. Claro que o rei mantivera-se ao lado da esposa, Daenerys não aceitaria de outra forma, mas observara com certa distância todos os momentos que ela passava. Os desejos exóticos que ela tinha nas horas menos convenientes, as mudanças mais significativas em seu corpo e as alegrias espontâneas haviam sido recebidas por ele com falta de real envolvimento de suas emoções; era novo, confuso e muitas vezes aterrorizante, e mesmo que às vezes ele a visse magoar-se com suas maneiras frias, não conseguia fingir. Parecia-lhe errado ter que mentir para sua mulher, principalmente em um assunto tão importante para ela.

Por conta disso eles haviam discutido uma vez – melhor dito, ela iniciara um monólogo. Daenerys chegara ao limite de sua paciência para com a indiferença do homem, que beirava perigosamente o descaso, ao falar-lhe sobre um movimento distinto da criança, onde a única reação do Stark fora levantar de seu livro um olhar gelado e destituído da alegria que ela esperava dele. Jon escutara em uma imobilidade muda as acusações afiadas contra seus sentimentos, que segundo ela eram tão profundos quanto os de um chouriço putrefato, tentando entender porque a mulher causava tanta confusão por ele simplesmente não ter a mesma felicidade que ela. Não era sua culpa, por mais que ele temesse que fosse.

Naquele mesmo dia, antes que pudesse continuar a acusá-lo de insensibilidade para com seu próprio filho, a rainha pressionara a mão em seu ventre, com o rosto contorcido em dor, e desabara de joelhos para o chão coberto em frente aos seus olhos débeis. Depois ela lhe assegurara não ter passado de uma pressão forte, como uma pontada aguda – e isso bastara para alertar seus sentidos para a possibilidade de perda que não lhe ocorrera ainda. Assim, sem que desejasse ou que pudesse controlar, uma parte apreensiva e inexplorada de sua mente colocava a culpa em um ser inocente pelo risco de vida que ela corria, aumentando cada vez mais à medida que os dias passavam.

E talvez o que mais lhe assustasse fosse a possibilidade dessa apatia continuar mesmo depois que olhasse nos olhos do seu próprio sangue. Jon não conseguia se sentir da mesma forma, não conseguia olhar para – o que era para ser — seu filho que crescia com o amor incondicional que parecia brilhar nas íris violetas de sua mulher, ou mesmo sentir aquela fagulha de animação que fervilhava na corte inteira. Em suas veias corria receio e medo, desenfreadamente afogando-o em dúvidas. De quê exatamente, ele não sabia.

Em uma tarde funesta e nublada como os dias passados, mais perto da época em que se previa o nascimento do que longe, ele foi à busca de ajuda, alguém que pudesse lavar as inquietações de seus pensamentos ou ao menos lhe mentir dizendo que eles eram infundados. Mas Tyrion pouco foi útil em qualquer aspecto. – Eu não posso ajudar se você não diz em que quer que eu ajude. – O Lannister murmurou sem falar diretamente para ele. Folheava página por página um livro gasto, com a capa variando em tons de vermelho e marrom nas bordas, sentado em uma cadeira acolchoada em veludo escuro. As pernas imóveis sem tocar o chão e toda a lentidão de alguém que sabia como tirar do sério um religioso paciente.

O rei torcera os dedos de couro de suas luvas descalças, sentindo os dentes trincarem ao controlar um resmungo irritado. Desviou o olhar da cabeça dourada do anão e encaminhou-se para a estante perfeitamente organizada, por títulos, tamanhos e cores. Correu os dedos nus pelas lombadas de diferentes texturas e idades, reconhecendo letras, mas não formando palavras, sem saber o que estava fazendo no quarto de Tyrion Lannister e por que tinha ido ali. A palavra Pai pareceu saltar de um dos dorsos arredondados, e com espanto ele olhou duas vezes para suspirar com a mão sobre um livro da Fé dos Sete.

— O que você faria se... – Jon cobriu a palavra que o incomodava, deixando amostra por entre os dedos Donzela e Ferreiro, e tentou engolir o nó que o impedia de falar.

— Se eu fosse você? – O homenzinho antecipou e em seguida molhou os dedos com a língua, para passar lentamente a página seguinte. O rei tinha a leve impressão de que ele não estava realmente lendo nada, e fazia aquilo apenas para irritá-lo, ou para deixá-lo mais confortável para falar, se ele fosse pensar com benevolência. Estava funcionando para a primeira opção. Depois de rolar os olhos por um parágrafo atrevidamente grande, Tyrion respondeu a própria pergunta. – Em primeiro lugar eu não usaria esse corte de cabelo, passaria a navalha no mesmo instante. Não sei como a rainha gosta disso. E depois... Hum, por que Corchutt enrola tanto para descrever um simples fechar de punho? Não é como se isso fosse uma ação importante para o rumo da história...

— Tyrion. – O Stark falou o nome do maldito por entre dentes, em um som vindo do fundo de suas cordas vocais, bem mais parecido com um rosnado.

— Eu deixaria de tentar prever o futuro e escaramuçar o passado e trataria de me concentrar no presente. – Os olhos do homem elevaram-se de repente, firmando um contato que Jon não estivera esperando. Ele nunca havia se incomodado com os olhos de Tyrion, diferentes em cores e na sabedoria, quando comparado a qualquer outro; mas naquele momento, sentindo a bile arder no início de sua traqueia, um arrepio correu sua espinha, como um sopro do inverno. – De quê adianta continuar fazendo isso? Você por um momento já parou para realmente pensar no que está acontecendo? – O Lannister fechou o livro que estava dedicando sua atenção abruptamente. – Enquanto continua mais ocupado em se martirizar em silêncio, está perdendo as coisas realmente importantes.

Jon sentiu o ácido queimar contra o tecido sensível de sua garganta, e engoliu com dificuldade. – Que coisas?

Tyrion o encarou por um momento, aparentemente tentando descobrir se estava se comunicando com um equino ou com um ser humano articulado. Decidindo-se pelo cavalo, ele voltou os olhos para o livro, balançando levemente a cabeça. – Se você não consegue perceber, não serei eu que o fará. – O homem estalou a língua, irritadamente. – Você me fez perder a página. Pode ir perturbar outra alma desocupada. – E abanando a mão em um sinal de despejo, ele encerrou a conversa.

Nunca pensara em si mesmo como um homem violento, mas estava descobrindo-se com aquele Lannister petulante, e quis ter pressionado a cara feia contra as letras alinhadas. Mas zelando pela paz, e recordando-se que já havia descontado em Tyrion uma vez, ele retirou-se do cômodo mais incomodado que antes.

Após aquilo, ele tentara melhorar. Todas as noites ele se lembrava de perguntar como fora o dia dela, o que sentira, o que o bebê fizera. A princípio Daenerys estranhou a repentina mudança, mas por fim aceitou aquele interesse alegremente. E sem que quisesse, ele começou a gostar de saber que o menininho da rainha movia-se mais à noite do que durante as horas de sol, mas que sempre se acalmava quando ela lhe cantava em valiriano, pondo a mão por cima do inchaço. Concentrou-se nisso, era uma veia de escape, agradável e doce, se comparada à realidade quebrada de sua mente. Assim começou a morder a língua todas as vezes que ela perguntava o que ele tinha sonhado, com isso ganhou algumas finas linhas de cicatrizes no músculo e o costume de não pensar tanto. Um sonho ruim, pronto. O bebê estava bem? Era um curativo simples, e não duradouro, mas o melhor que podia conseguir.

Logo seu filho tornou-se mais do que uma dúvida, uma macha de disforme que apenas servia para afastar a mulher de si e abalar ainda mais a não convencional relação, havia se transformado em um elo poderoso e um assunto onde ele podia permanecer e usar como bálsamo. E mesmo que às vezes durante noites frias e molhadas de suor aflito aquela rachadura ameaçasse estourar as barreiras que ele impusera, sentiu que estava curando-se aos poucos. Como uma criança que cai do cavalo e recobra a coragem de montar novamente.

Um estampido o acordou de sua visão vaga, fazendo seus olhos entrar em foco. Em vez de encarar os flocos finos através da janela, seu reflexo o julgou de volta. Um homem duro, com a barba encobrindo uma longa e branca cicatriz que descia do canto de seu olho direito até duas polegadas antes do queixo, contornando o maxilar cerrado. Suas íris refletiram o brilho da fogueira que estalara ruidosamente, eram tão estranhas, tão antigas para seu corpo jovem. Jon passou a mão pelos fios apressadamente presos e quase sorriu ao lembrar-se de quanto Tyrion caçoava do modo como ele usava os cabelos. Mas seus lábios não chegaram a se erguer, e o primeiro grito atravessou as paredes como se elas fossem feitas de papel velho.

O rei fechou os olhos, aceitando o que estaria por vir com impotência. Sentiu uma baforada quente e úmida no centro da mão que pendia ao lado do corpo, correu os dedos por entre os pelos ásperos de Fantasma, e ligou-se ao lobo; prendendo-se a sua presença reconfortante, usando-o como uma âncora na realidade.


*

— Você... devia ter aceitado o vinho. – Tyrion Lannister arranhou as botas polidas ao colocá-las sobre o tampo de uma mesinha onde se punham vidrarias para as bebidas, o salto quadrado errando por sorte a rolha de cristal da garrava preciosa de um Dourado da Árvore. – As coisas sempre... Sempre! São mais fáceis com um pouco de vinho na barriga. Um sábio já lhe disse isso... uma vez. – A voz engrolada não se alterou quando ele assentiu repetidamente para si mesmo. – Disse sim. – O homenzinho apontou para o próprio peito, afundando o dedo no tecido fino de seu gibão carmim duas vezes, como pontos para as palavras. – Tenho... Certeza.

Jon moveu os olhos gelados com letargia para ele, mas o Lannister não estava se dando o trabalho de lhe dirigir o olhar, falar para o copo de vidro era mais interessante e interativo. Tyrion girou o recipiente translúcido, analisando meticulosamente os reflexos das chamas que morriam para deixar brasas incandescentes – ou tão meticulosamente quanto um homem em seu estado podia ser.

— Você está bêbado. – Foi o que o rei falou, com voz colocando para fora toda a tensão aprisionada em seu corpo cansado. As horas em claro cobrando o seu preço sem piedade, os músculos doloridos e rígidos, e os tímpanos pulsando como se sinos houvessem sido batidos à apenas três polegadas de seus ouvidos. Na realidade os gritos de uma mulher em trabalho de parto é que haviam povoado sua noite, madrugada adentro. Torturando-o e deixando-o irritado a cada hora que se arrastava. Em um primeiro pensamento esperançoso ele imaginara que ela não gritaria; Daenerys Targaryen, a Rainha de Westeros, Protetora dos Sete Reinos, Quebradora de Correntes, Mãe dos Dragões e ocasionalmente sua esposa, uma mulher com fibra o suficiente para governar aquela imensidão de terras sem perder a sanidade devia ser forte – ou tola – o bastante para teimar em não emitir nenhum som. E horas mais tarde de tudo ter começado, ele teria preferido os sinos estrondando cadenciadamente sem titubear. Jon sentou-se em uma cadeira perto da lareira quente, desconfortável e ossuda para mantê-lo alerta. – Eu pensei que houvesse perdido essa capacidade.

— Um homem... Sempre consegue ficar bêbado. – Ele virou o copo sobre o rosto, procurando de pálpebras semicerradas alguma última gota de seu já bebido conteúdo. – É só achar as razões certas. Você tem as razões certas. – Um pingo escorregadio desceu do vidro e acertou-o no meio do nariz decepado. Ele bufou a respiração, chacoalhando a cabeça. – Você devia estar bêbado. Papai. – Aquele que não temia o perigo Lannister, aterrissou o copo sobre a mesinha com a graça e a delicadeza de um elefante tonto, onde o Stark ficou surpreso de não ouvir o estilhaço do material, e sorriu com insolência; um arregaçar de lábios grotesco e com o bafo alcoolizado capaz de embebedar 30 homens crescidos.

Mas Jon não prestou atenção à chacota, não tanta quando Tyrion teria apreciado, e sua mente apenas concentrou-se no porque de seu ventre parecer estar congelado. Ele deglutiu a saliva acumulada, empurrando garganta abaixo o tremor que assolava suas mãos soltas. O rei torceu o pescoço de um lado para o outro, sentindo o estalar dos ossos, e entrelaçou os dedos, cotovelos seguramente apoiados sobre os joelhos. Suas bochechas aparentemente coloridas em rubor. – Você não sabe se já nasceu.

Bha! — A mão achatada e sem nenhuma coordenação motora naquele nível de ingestão de vinho tateou sobre a mesa até agarrar o pescoço da garrafa, com a força que um condenado agarrar-se-ia a seu nó da forca. O homenzinho livrou-se da rolha, que estralou e rolou para longe sobre os tapetes, e trouxe o gargalo para perto do que restava de seu nariz. Aspirou o Dourado, com os olhos revirando de prazer, e bebeu direto da fonte, sem paciência ou raciocínio para colocar em uma taça. Depois de perder o fôlego em goles profundos, Tyrion arrotou. – Se não tiver nascido, que meu pau nunca mais suba. E você pode ver a verdade disso... Agora mesmo. Estou tão duro que poderia até aceitar uma chupada de...

— Pare Tyrion. – Jon levantou-se em agonia e ansiedade, seus músculos formigando sem nenhuma razão, e seus pés o levaram para mais perto do que restava do fogo. – Se quer sair para foder qualquer coisa que respire e tenha a mais vaga semelhança a uma mulher, vá. Mas não fique aqui atormentando minha paciência ainda mais.

— Hum. – Foi a resposta eloquente da Mão da Rainha, a boca ocupada demais em absorver vinho como um barril vazio para se dignar o esforço de responder apropriadamente. – Você é quem está precisando foder alguém. – Então seus olhos brilharam, perversos. – Há quanto tempo você não dá uma boa fodida, hã? Imagino que uns bons meses... – Tyrion piscou o olho preto. – O resguardo da gravidez deve ser frustrante.

O olhar ameaçador que Jon lhe lançou causou uma crise de risos violenta, ilustrada com o icor dourado que escorreu dos cantos de sua boca e espirrou de seu nariz até que o homem vomitasse vinho para as botas. O Stark fechou os olhos e poderia ter rido da cena se seu corpo não estivesse tão rígido, irrequieto, afligido. Consumido até a última terminação nervosa em uma ansiedade que fazia suas palmas suarem frio. Ele havia rezado, como se lembrava de ter visto seu pai fazer, um murmúrio baixo e particular, um sussurro desesperado como se ele estivesse à beira do abismo da morte, e não ela. Sabia que essa era uma visão mais do que pessimista, mas seu instinto não podia evitar.

Ele encarou a porta em verniz reluzente, pela milésima vez durante aquela vigília atribulada, esperando que ela fosse aberta bruscamente para que uma menina com o avental sujo de sangue lhe chamasse com urgência para encontrar com sua esposa e ver seu filho, segurá-lo nos braços. Ou filha. Lembrou-se com um suspiro, apoiando-se contra o portal quente de pedras polidas e estrangeiras que circundava a lareira – ela provavelmente não gostaria que seu manto ficasse cheirando a fumaça, mas era a única coisa que cobria seu corpo, e ele estava precisando de mais calor. Daenerys falara tanto na criança como um menino que ele acabara acatando a ideia inconscientemente, mas nunca chegara a imaginar nenhuma característica física. Era melhor não.

— Você não quer um pouquinho? – Ele virou-se para o Lannister, em nome dos anos de amizade, e não se surpreendeu em encontrá-lo no chão, apoiado ao pé de sua cadeira, estendendo a garrafa suja de vomito aguado. – Só um pouquinho? Está com a cara feia. Não que sua cara seja bonita... Bem, talvez seja. Para fazer tantas mulheres suspirarem. – Tyrion enfiou o gargalo de volta na boca, não percebendo a sujeira do que viera de suas entranhas. – Elas parecem peixes fora d’água, suspirando e debatendo-se daquele jeito. “Saia da frente!” – A voz bêbada foi afinada para imitar grosseiramente uma mulher. Jon não pode evitar sorrir, um subir de cantos discreto, mas suficiente. – “Eu quero ver o rei! Ai, ele fica tão bem de azul escuro.” – O tom desceu uma oitava e o pulso dobrou-se afetado em um abano ridículo. – “Ele fica melhor de preto! Você lembra aquele gibão com o dragão na gola? Fui eu quem lavou! O cheiro dele é tão bom!” Humpf. – O anão estirou a língua para o pé da cadeira, que não se mostrou muito ofendido. – Aposto que ela enfiou os dedos na boceta com sua roupa no nariz. – E virou-se para ele extremamente sério. – Eu teria cuidado com o que visto daqui em diante.

O Stark sentiu o riso subir na garganta, mas nem isso lhe foi concedido. A tão esperada entrada repentina escancarou as portas escuras, fazendo o vento frio correr e a lareira se apagar. Jon olhou para as brasas brilharem em vermelho por segundos, atiçadas, para depois morrerem em carvão escuro; circundadas por uma penugem esbranquiçada de cinzas. Você não acredita em presságios. Repreendeu-se e finalmente encarou a menina que irrompera no quarto, assentindo para que ela falasse.

— Perdão, Vossa Graça, mas... Nasceu.

— Eu lhe disse! – Tyrion comemorou erguendo a garrafa em um brinde imaginário com um fantasma, antes de desabar no chão com um barulho seco.

O homem assentiu outra vez, dispensando a garota. Ela curvou o corpo em uma reverência confusa, e foi embora. As portas continuaram abertas, convidando-o para conhecer a criança, mas mesmo assim não seguiu para o corredor, onde viraria à esquerda e encontraria na porta seguinte o quarto do nascimento. Ele devia ter perguntado mais. Era realmente um menino? Daenerys estava feliz? Ela estava... Bem? Não podia se enganar e fingir que queria saber daquilo antes por outra razão que não fosse adiar, deixar o momento em que encararia sua semente em vida. O medo era sufocante, e ele não sentiu vergonha em tê-lo. Não há vergonha no medo. A voz de seu pai ecoou de tempos mais simples. O que importa é como enfrentamos ele.

Jon encontrou a maçaneta quente, provavelmente aquecida pela quantidade de vezes que a porta do quarto fora aberta e empurrada às pressas por mulheres trazendo água e toalhas limpas. Fingiu não sentir os olhos dos mantos brancos em sua nuca e forçou o trinco.

Quando seus olhos a acharam, seu sangue pareceu parar de correr, congelado em veias e artérias rígidas. À sua visão atormentada, Daenerys parecia estar afogada em carmesim, o corpo escondendo-se por entre lençóis rubros, e frio no sono da morte. Sua cabeça pendia de qualquer jeito por um dos ombros, e suas pálpebras estavam terminantemente cerradas. Ele não pode dar outro passo, era como se um peso esmagador estivesse comprimindo seus pés contra o chão, e ele talvez tenha olhado tolamente para as botas. O que era aquilo? Sua cabeça não raciocinou e seus sentidos não apuraram nenhum estímulo, só podia ver; a pele branca demais, os membros sem a mínima reação, o peito sem subir... Então o segundo passou, ele viu a mulher respirar fundo e o alívio inundou seu corpo aterrorizado, como um gole d’água em uma garganta sedenta. Aparentemente seguindo uma deixa, ela de alguma forma tomou conhecimento de sua presença. – Jon. – A mulher aliviou-se em vê-lo, sem parecer ter percebido sua anterior expressão de pavor, e seu sorriso foi fraco, assim como sua voz. – Venha aqui. – Ela pestanejou, e ele notou os cílios longos sombreando a luz das velas sobre as bochechas avermelhadas, vivas. – Venha ver seu filho.

Só naquele momento seu coração pareceu voltar a bombear e seus ouvidos a escutar. O que antes parecera ser um zumbido ao longe eram os gritos indignados de um bebê com pulmões bastante fortes. – É... Um menino?

Rugas de cansaço marcaram os cantos dos olhos da rainha quando seu sorriso tornou-se mais feliz. – E todo esse tempo você não acreditou em mim? – Sem quebrar a ligação invisível que seus olhos mantinham, ela falou. – Dê a ele, Derfel.

— A mãe deve segurá-lo primeiro. – A senhora que habilmente acalmava os gritos da criança protestou com o cenho franzido, embalando um conjunto agitado de mantas brancas e macias nos braços. Mas assim que o silêncio real respondeu sua afirmação supersticiosa, ela apressou os passos em direção ao rei.

Jon Stark puxou pela boca o ar viciado e quente daquele quarto com gosto de ferro, tentando apaziguar as batidas descompassadas e profundas de seu coração, que parecia pressionar-se de forma dolorosa contra os ossos duros de suas costelas. Por algum motivo a que ele era alheio, seus braços não tremeram ao receber o embrulho de panos, e mantiveram-se tão firmes quanto era necessário ao acomodar instintivamente a criança junto ao peito. Entre o espaço de uma pulsação e outra, ele deixou escapar um suspiro, ao mesmo tempo em que erguia a mão direita para afastar as dobras da manta que encobria o rosto do recém-nascido. Não era para ser bonito, ainda parcialmente envolvido por uma fina camada de uma espécie de sebo escorregadio e com o tufo escuro de pelos da cabeça tingidos e grudentos de sangue, era natural e cru. Devia pesar menos que sua espada, mas ele não se sentiu grande demais ou inadequado ao segurar o infante – as pálpebras finas apertaram-se ainda mais, certamente temerosas em abrir para um mundo tão hostil, e um soluço tardio abalou seus frágeis membros –, ele era seu e não precisava ser mais nada.

Os minúsculos punhos cerrados foram para o rosto, cobrindo os olhos em uma proteção contra a luz, e ele sentiu o bebê espernear para mais perto de seu corpo, em busca de calor. Jon não se importou com o sangue, ou mesmo com o sebo grudento, e com o cuidado que teria se ele fosse feito do mais fino cristal, mudou a criança de posição, acomodando-o em seu peito aberto e despido de panos. O menino encaixou a cabeça na curva dos ossos de sua caixa torácica e franziu o rosto de forma engraçada, ficando sabiamente imóvel para aproveitar o quente de seu pai. O rei inclinou-se para ele, envolvendo-o com mansidão, e fechou os olhos, sentindo os batimentos acelerados como os de um pássaro. Era como se um pedaço de sua alma houvesse voltado, saído finalmente das sombras daquele calabouço, livrando-se daquelas correntes banhadas em sangue e tivesse renascido naquela forma indefesa – seu queixo tocou o crânio do menino, seu filho, e seus pulmões encheram-se com a pureza da nova vida.

O olhar de Daenerys aqueceu-se sobre ele, mas não pode desviar do rosto vermelho do filho, buscando traços familiares e esquecendo-se de sentir medo ou preocupar-se com o que estaria por vir. O homem só saiu de seu bobo encantamento quando uma corajosa e experiente mulher pediu de uma maneira um tanto insistente, a criança para si. Jon ergueu os desapontados olhos cinzentos para o rosto de lua da serviçal. – Tenho que limpá-lo, Vossa Graça. – Com certa relutância ele entregou o bebê, e enfim olhou de verdade para sua mulher, esperando encontrar um sorriso feliz, mas ela ocupava-se em despir, com a ajuda de uma das mulheres que acompanhara o nascimento, sua roupa acabada em sangue.

Seus pés quase foram sozinhos para ela, guiados por seu corpo que precisava tomá-la em seus braços para... Ele não sabia. Só a queria manter perto de si pelas próximas horas. Jon procurou uma cadeira, tateando sem olhar atrás de si até achar um acolchoamento para desabar como um saco de tubérculos. Viu uma das meninas murmurar no ouvido da rainha, fazendo com ela sorrisse e olhasse em sua direção, com o violeta de seus olhos brilhando. O rei sentiu o rosto esquentar e abaixou a cabeça, passando a mão nervosamente pelos cabelos bagunçados, ao escutar as risadinhas das aias. Depois ele voltou a erguer o olhar, encontrando os da Targaryen, e sorriu... Não apenas horas, pelos próximos anos.

*

Os primeiros flocos começaram a cair enquanto a lua desaparecia acima do horizonte. Quando o dia chegou, a neve caía tão pesada que o sol se ergueu, sem ser visto, atrás de uma cortina branca e espaçada. Parecia aos seus olhos que seu filho havia trazido o Norte consigo, e ao ver as nuvens pesadas, tão baixas que da janela de seu quarto tinha a impressão de que poderia tocá-las se abrisse os vidros, sentiu seu coração aquietar-se como não fazia desde que deixara Winterfell. Com os olhos fixos nos grãos de gelo, Jon Stark sorriu apoiando uma mão na janela para em seguida ver o contorno natural que o calor abrira no frio.

— Você não vai dormir? – Daenerys soou tão exausta quanto seria esperado, e quando olhou para ela, de cabelos em uma confusão clara e bolsas acinzentadas embaixo dos olhos, pensou que talvez não existisse mulher mais bonita. A rainha bocejou longamente, não se preocupando em esconder polidamente o ato com a mão, e acomodou as costas nos travesseiros macios. Seu rosto cansado formou preocupação ao franzir a testa, e ela abraçou o corpo pelo frio. – Teve algum pesadelo, querido?

— Não. – Ele abandonou seu ponto de observação plácida para voltar à cama, mas parou ao passar pelo berço adornado. As barras que o sustentavam conferiam sentido literal à berço de ouro, e o brilho pálido do metal precioso ao nascer do dia era encoberto por mantas de linho, algodão e seda branca. Não era de forma alguma o que teria esperado para seu filho, se caso houvesse esperado, mas algum instinto primitivo lhe advertia a não contrariar uma mulher que tinha dado à luz há tão pouco tempo. Sua mão moveu-se para afastar o véu que enuviava a figura pequena de dentro, revelando um monte de panos, com o rosto vermelho ressonando de boca entreaberta. O bebê mastigou o nada, os lábios rosados abrindo e fechando-se, para mostrar gengivas lisas, e depois levou as costas da mão para chupar a pele, como fizera há minutos atrás no seio cheio da mãe. Não devia estar com fome, apenas a sensação que era reconfortante.

— Você já pensou em um nome? – Ele assustou-se quando ela abraçou seu tronco, os braços finos enlaçando-se em seu corpo e as mãos frias arrastando-se por pele, procurando calor. Daenerys apoiou o rosto em seu braço, querendo espiar a criança com orgulho incontido. – Ele é lindo não é? Uma pena que não tem os seus olhos, aí seria uma miniatura sua.

— Violeta é bonito. – O menino empurrou um pedaço da manta que o cobria, irritado com o tecido que pinicava. Ele nunca havia gostado de seda, talvez seu filho também não gostasse. Jon resolveu afastar o cobertor, e antes que pudesse puxar a mão de volta, o bebê agarrou-se por reflexo em seu dedo. Uma mãozinha inteira, para circundar o menor deles.

A rainha soltou o ar pelo nariz, colando os lábios em seu músculo sisudo. – Então você gosta dos meus olhos. – Ela murmurou com ar de riso. O Stark soltou-se do filho e virou-se para a mulher, abraçando a fina cintura. Jon inclinou a cabeça, e o beijo foi demorado, laçado por línguas e selado por lábios, como se eles matassem a saudade de anos, não de minutos. – Sabe qual vai ser o nome dele?

— Não. – Outras bocas estaladas. – Qual? – Jon abandonou sua atenção na curva macia do pescoço alvo, que cheirava só a ela.

A mulher mergulhou as mãos em seus fios soltos, puxando-o mais para si. – Estou perguntando a você. – Sua língua quente enroscou na pele, e ela perdeu qualquer fio de raciocínio, ou foi o que lhe pareceu quando a sentiu suspirar e colar o tronco ao seu.

— Perguntando o quê? – Ele provocou, prendendo o lóbulo aveludado entre os dentes. Daenerys murmurou inteligivelmente na sua língua materna, como sempre fazia quando ele lhe inebriava seus pensamentos, agarrando-se sem firmeza os ombros do homem, e curvando-se à suas carícias maldosas. Ele suspirou, sabendo que ainda não podiam, e deu um último beijo em sua bochecha. – Vamos dormir. – Ele recebeu um olhar duro e irritado por isso, mal sabendo ela quem é que mais desejava a união de corpos. A rainha não reclamou, mas não perdeu a oportunidade de apertar o músculo delineado das nádegas antes de fazer seu caminho de volta para a cama desforrada. Jon Stark gargalhou, achando mais graça ainda no piscar de cílios que ela lhe encenou.

Depois de fechar o véu claro do berço, tocar familiarmente a cabeça do lobo que montava guarda silenciosa aos pés da estrutura dourada, apagar a última vela sépia envelhecida em gotas duras pelo desgaste do tempo, e colocar-se para dentro de seus lençóis recém-trocados, ele sorriu mais uma vez, brandamente; com o rosto afundado no cheiro macio dos cabelos de prata, o corpo contíguo à mulher serena. Havia sorrido muito naquele dia, e esperava sorrir muito mais vezes perto de quem ele sabia amar.

Notas finais
Então? Peço muito que deem a opinião aqui, no último, mesmo aqueles que nunca apareceram. (Só dizer que gostou, ou que eu te fiz rir em algum momento basta, hehe.) Vai ser muito importante para mim. Claaaaro que vai ter um epílogo. Vocês não se livraram de mim assim tão fácil. *MUAHAHA* Até!