Sem Piedade
5 Capitulo V - Sem Piedade
Notas iniciais
Um oásis.
Escondido dentro de um vale, cercado de vegetação, contendo água e sombra.
Em um passado imemorável, aquele fora um local de trabalho; um pequeno escritório de uma empresa, cercado por um estacionamento. Um totem de um dos alicerces da civilização da qual fez parte.
Agora, é a “definição moderna” de um termo quase tão extinto e perdido como a civilização de então, mas que é essencial para a civilização de hoje.
Um oásis, disfarçado de...
— ... Ruínas. — Diz uma voz impetuosa, de homem.
Do topo de uma colina ao norte, um sujeito observa a tríade de ruínas abaixo, no meio do grande descampado. Com os olhos espremidos, as rugas e as veias se realçavam em meio a sujeira e o suor do seu rosto, ao mesmo tempo em que ele não apresentava nenhuma espécie de barba malfeita ou cabelo nas laterais da cabeça, como se tivessem sido raspadas naquele dia mesmo. No escalpo e somente ali, havia essa faixa de cabelos longos que caiam pra trás da cabeça, quase deslizando pra lateral da mesma. Ela usava roupas e proteções escuras, ao mesmo tempo em que estava sem camisa, com a maior parte do torso nu ao vento.
Ele ouve os sons de alguém se aproximando ao seu lado, e ao virar o rosto, ele encontra uma mulher de rosto sujo como o dele; mas sob um segundo olhar, nota-se que o rosto dela também era pintado, entre as bochechas e basicamente em toda a testa. Ao contrário do homem, ela usava exóticos trajes feitos de panos leves e diversas peles de animal, com camadas concentradas em alguns pontos para dar proteção, como uma armadura. Ela também observa o vale diante dela.
— Ruínas...? Sabia. Jace deve ter corrido pra cá. — Retruca a mulher, também espremendo os olhos ao tentar enxergar alguém lá em baixo. — Consegue vê-lo?
— Aquela é a vespa dele. — O homem se agacha, e aponta com um sorriso para o ponto cinza no meio do planado de terra em frente às ruínas. — Ele está aqui.
— Devemos ter cuidado. Nós não sabemos se tem mais alguém lá em baixo. Vou chamar Blocks e os outros.
A mulher se vira e volta colina abaixo, mostrando o seu arco e aljava nas suas costas. O homem fica ali agachado, com seus fortes braços desnudos escorados nas pernas, ainda observando todo o vale, cuspindo no chão e em seguida tentando limpar as gengivas com sua língua, com a boca entreaberta.
Algum tempo depois a arqueira volta, agora acompanhada de outros três homens, e todos os cinco descem a colina juntos, rumando em direção ao prédio de dois andares.
Todo o grupo usava trajes parecidos, e andavam armados. O sujeito que parecia liderar o grupo, o homem que avistou as ruínas e a lambreta de Jace, usava duas ombreiras, que assim como as proteções de todos ali, eram feitas de materiais improvisados, como peças de metal de algum maquinário ou lataria de veículo, pedaços de pneu, pele de animal e qualquer coisa que fosse dura o suficiente pra aguentar impacto. Ele também usava uma calça de couro preta – sabe-se lá por que ele usaria isso no deserto – e coturnos da mesma cor indo até a batata da perna; além de uma “camisa”, que não passava de um pequeno pano pendurado nas argolas das ombreiras, adornado de peças reluzentes de metal e ossos no meio do peito nu do mesmo.
Aliás, todos os trajes, e até mesmo as proteções de todos ali eram adornadas de porcarias e coisas para chamar a atenção, se misturando já ao monte de proteções improvisadas, deixando impossível para um observador saber o que era feito de quê, ou se mesmo aquilo servia pra qualquer coisa. Todos eles usavam uma mistura de tudo, dependendo apenas do que cada um deles decidia colocar no corpo como proteção, ou adorno.
Quando eles chegam ao descampado, o líder deles retira o seu revolver da cintura, fazendo um gesto com o mesmo para que todos eles se espalhassem. Eles então começam a abrir espaço entre si e a retirar suas armas também: dois com arco e flecha, e dois com revolveres como ele – isso sem contar com possíveis armas brancas, como facas, que podiam estar camufladas em meio aos trajes de todos eles.
Eles avançam pelo planado de terra, atentos ao prédio de dois andares cheio de janelas em frente à eles, até se aproximar do que eles já estavam certos: a vespa de Jace, caída em meio ao lugar, sendo assada pelo calor do Sol acima dela.
O homem sem camisa e com proteções escuras nos ombros se agacha, fitando o pequeno veículo de cima a baixo, deixado ali no meio do aplanado.
Logo, um assovio perto dali chama a sua atenção, e seus olhos miram em um dos outros cinco, que apontava para o prédio de dois andares o qual a mulher, e os outros dois homens já rumavam em direção.
Ele se levanta novamente, protegendo os olhos do Sol com o pulso da mão que segurava o revólver, e ao abrir um sorriso, ele grita em plenos pulmões:
— JAAACEEE!!!
Dentro do prédio, escondido logo abaixo da faixa de janelas do primeiro andar, estavam o garoto da vespa e a misteriosa atiradora loira, que escutam o grito do homem armado lá fora invadir o refeitório aonde estavam e ecoar construção adentro.
Em um momento brevíssimo, de apenas segundos, o grito se processa na mente da pistoleira, que aperta as sobrancelhas como resposta. Ela vira o rosto rapidamente para a pessoa a qual acabara de ouvir o nome, ali agachada ao seu lado.
Em seguida há um momento de puro silêncio, como se o mundo tivesse momentaneamente feito uma pausa; nesse momento, ocorre uma troca de olhares entre a moça Jenny e o jovem Jace, que expressavam a reação e os pensamentos de cada um. A pistoleira emanava surpresa através dos seus olhos anis, e outro sentimento que parecia crescer logo atrás desse, um sentimento que o garoto já havia visto antes e que parecia ameaçar tomar o semblante da moça novamente.
Já os olhos de Jace, apesar de responderem instintivamente ao olhar hipnotizante da moça, não parecia prestar atenção no que viam. Ao contrário disso, eles demonstravam que o garoto parecia ainda se focar no grito que acabara de ouvir momentos atrás, como houvesse acabado de se lembrar de algo que ele quase se esqueceu completamente.
— ... Vex! — Diz o garoto em voz baixa, quebrando o momento e abrindo lentamente um semblante animado no rosto.
O garoto então se levanta, olhando para fora da janela e imediatamente tentando pelo que parecia correr em direção à porta. Em uma reação rápida, a pistoleira ao seu lado agarra a sua camisa, o impedindo de sair do lugar, mas não de se levantar e se expor ao grupo lá fora.
— Jace, não faça iss--
— VEX! VEEXX!! — Grita de volta o garoto, aparecendo na janela.
O líder do quinteto armado vê o garoto lá dentro do prédio e sorri novamente, olhando para os companheiros.
— Hahaha aí está você, homenzinho! Como você achou esse lugar?! — Pergunta o homem chamado Vex, colocando as duas mãos na boca para “lançar o som” para o menino ao longe.
— Jace, você está sozinho?! Tem mais alguém aí? — Pergunta desconfiada a mulher de cara pintada, ignorando a fala de Vex.
Esperando uma resposta, eles então observam o garoto sumir de repente pra baixo da janela novamente.
Jenny, segundos atrás, havia dado um chute na lateral das pernas do jovem que o lança pro chão de uma vez. Irritada, ela o segura no chão e tampa a sua boca, o impedindo de gritar mais uma vez.
— Jace...?! — A pistoleira ouve novamente a voz lá de fora, enquanto tenta pensar no que fazer agora.
— ...Cadê o Jace-- JACE!! — Grita mais uma vez o homem, esperando alguma resposta do menino novamente.
O bando se entreolha, agora suspeitos pela demora. A mulher de trajes de pele animal retira algumas flechas da aljava, fazendo com que os outros quatro também preparassem suas armas.
Enquanto isso, a piloto loira murmurava consigo mesma, ainda tentando pensar no que fazer. Ela olha para o garoto, que a encarava de volta enquanto ela pressionava sua boca, e após dar um suspiro, ela fala com ele em voz baixa:
— ... Ok, garoto. Vamos resolver isso.
O grupo de “abutres” avança devagar em direção ao prédio, atento às janelas, até que Jace aparece novamente em uma delas, quase tomando um tiro de um dos homens.
Após alguns breves segundos de silêncio, o menino então grita, meio emburrado:
— ... E-Eu vou sair aí pra fora!
O silêncio toma conta novamente. Vex e os outros se entreolham mais uma vez depois que o menino sai da janela, mas dessa vez, sinais e gestos são trocados entre eles, dizendo para ficarem atentos e para manterem as armas prontas.
Eles iriam matar algo hoje.
Era possível ouvir o vento assobiar no meio do descampado, por mais fraco que ele chegasse ali após ser murado pelos montes da região, tamanho era o silêncio no local. O prédio de dois andares não fazia nem um pio também, e não havia nem um sinal de vida perto daquelas janelas.
Das sombras do corredor de entrada do lugar, o grupo do lado de fora ouve passos sobre o amontoado de cacos de vidro. Eles todos ajustam suas miras no corredor, já começando a enxergar Jace caminhando pro lado de fora, e não muito depois, percebem também uma outra pessoa andando logo atrás dele.
A luz intensa do sol atinge o rosto de Jenny mais uma vez, mas ela evita a todo custo fechar os olhos; ela não podia perder sua visão por nem um segundo. À sua frente, Jace continua a caminhar, enquanto ela mantém sua mão esquerda firme em seu ombro. Na sua mão direita, está seu rifle de repetição, cuidadosamente colocado na lateral do garoto, o atravessando e apontando direto pro grupo.
Os cinco aparentemente conhecidos do garoto da vespa a observam de cima a baixo, impressionados por verem uma jovem mulher de cabelos loiros e pele clara no meio do deserto, especialmente com uma arma na mão. Do pescoço pra baixo, tudo que eles podiam ver era o manto que ia até a coxas, suas pernas e coturno preto abaixo disso. Alguns dos “abutres” chegam a olhar novamente para o corredor e as janelas para se certificar que havia mais alguém; tinha que ter. Não podia ser tão fácil assim.
Vex faz novamente sua mania de limpar o fundo de suas gengivas com a língua sem fechar a boca, enquanto abaixa a arma. Ele parecia tentar esconder um sorriso, como se tentasse esconder o quão... “Fascinado” ele estava não só com a moça, mas com a situação toda.
Jace e a pistoleira continuam a caminhar pelo aplanado de terra, levantando poeira com seus passos lentos e firmes em direção ao bando, até ficar a uns 20 metros de distância do grupo, aonde eles param completamente.
A tensão era tão forte ali que até mesmo o vento não passava mais por entre eles.
— Vem cá, homenzinho. — Chama o líder dos abutres, olhando para o rapazinho.
Jace troca olhares com Vex, mas sente a mão de Jenny sutilmente apertar o seu ombro, olhando então para a mesma, e logo em seguida, para a moça atrás dele.
— ... Você ainda não nos apresentou, Jace. Quem são os seus amigos? — A piloto ignora a fala do homem, fazendo a pergunta sem tirar os olhos dos cinco individuos armados ali.
— ... Ahn... — O garoto reluta um pouco, mas faz o que a moça pede, apontando pra cada um da esquerda pra direita. — ... Aquele é o Sadder... Aquele é o Vex... Ele é o Blocks, o Painsack e a Willow.
— ... É um prazer. — Diz a jovem loira, sem mostrar nenhuma espécie de animosidade em sua voz, olhando pra cada um deles.
— E a sua nova amiga, Jace? Qual o nome dela? — Pergunta Vex, ainda sem levantar o revólver.
— ... — Ele olha rapidamente para a moça, antes de responder. — ... Jenny.
— Jenny... — Repete o homem só de ombreiras, dando ênfase ao mesmo, como se saboreasse o nome dela.
O silêncio volta por alguns instantes. Eles permanecem da mesma maneira.
— ... Eu tenho que dizer... Jenny. A gente não vê muito do seu tipo por aqui. — Vex continua. — Pele clara como a sua... É raro; diz a verdade, há quanto tempo você está aqui fora no deserto selvagem? É perigoso por aqui, especialmente alguém como você, sozinha por aí...
Ele faz mais uma pausa. A piloto apenas ouve as palavras do líder do grupo com um sorriso amarelo.
— ... Vou te dizer o seguinte: Esse mundo é brutal. Sem piedade nenhuma. Se você não tiver amigos... Tudo que você tem é inimigos! Hahaha! — Ele abre os braços, rindo. — MAS... Eu gosto de você. Eu vejo em você o que eu quero; e isso não é algo que eu digo pra todo mundo! Se você vier comigo, eu vou te mostrar o que é realmente se sentir segura nesse lugar de merda. Você pode vir com a gente, com o Jace, e nós podemos ser amigos, juntos. — Ele abre um sorriso convidativo, usando um tom de voz o tempo inteiro como se estivesse dando uma dica esperta pra ela. — Eu prometo, que se você... Mostrar do que é capaz, e o quanto está interessada, há uma boa chance de você fazer parte do nosso grupo. O que acha?
Jenny escuta todo o discurso do rapaz, sem dizer uma palavra. Pela maior parte dele, ela se manteve com o mesmo semblante; porém, agora parecia que ela havia abrido um sorriso maior, como se estivesse tentando responder ao sorriso enorme que Vex continuava a estampar no rosto.
— ... Obrigada... Vex, certo? Obrigada, Vex, pela oferta. Eu diria sim que estou muito interessada em mostrar pra você... Pra quem precisar, o que eu posso fazer. — Ela faz um som de risada baixa, o homem fazendo o mesmo. — ... Você me perguntou há quanto tempo eu estou no deserto selvagem, certo? Faz um tempo já; eu sei que pareço jovem, mas é o que dizem: “Quanto mais cedo, melhor”... E, ao contrário de você, eu já vi muitos do seu tipo por aí afora: abutres sujos como você. — Ela mantém o mesmo tom de voz calmo e amigável do começo do seu próprio discurso. — Eu mato todos eles quando eu tenho a chance. Quanto menos de vocês no mundo, melhor.
Outro momento de quietude aflige o local. Há uma intensa troca de olhares entre o abutre e a pistoleira, como se a tensão estivesse a um fio de cabelo de explodir como uma dinamite acesa. Vex enche o peito de ar, como se estivesse pra fazer algo, e quando ele joga aquele ar pra fora...
— ... Hahahahah! Haha! Ha!... Haha! Você é engraçada, garota. Você é. — Ele fala, passando a mão no cabelo do escalpo. — ... Por que você não abaixa esse rifle, e eu prometo que eu não vou deixar nenhum dos meus amigos cortar sua cara enquanto eles estupram você.
A piloto estica o braço pro lado, tirando o rifle da direção deles e mostrando-o por inteiro. Quando ela faz isso, ela consegue reparar a corda do arco da mulher à direita se esticar um pouco mais.
— ... Tudo bem. — Jenny retruca curto.
Ela aponta a palma da mão pra baixo, demonstrando que ia largar o rifle. Enquanto isso, Jace sente a mão da pistoleira sair do seu ombro.
— Você esqueceu de apresentar alguém pra eles, Jace... — Jenny fala só para o rapaz, quando finalmente solta o rifle. — ... Thunder.
Ao terminar a frase, um barulho altíssimo explode do sul, e pega todos de surpresa. Nesse segundo, parte do grupo atira contra a piloto, enquanto o resto é paralisado pelo barulho.
Dois tiros e uma flecha passam pela moça.
Três erros.
A mão direita já havia alcançado o seu coldre na coxa, e quando sua mão esquerda volta para fora do manto, a pistoleira junta seu braço esquerdo com o direito e os estica, já com o revólver, por cima da cabeça de Jace.
A atenção do grupo de abutres é quase toda roubada pelo que parecia ser uma aterradora máquina gigante que atravessa a parede do galpão lá atrás, e eles não percebem a tempo a jovem loira puxar o revólver e atirar contra eles, em três tiros rápidos.
Um tiro atinge a cabeça da mulher com o arco.
“Willow.”
Outro tiro atinge o pescoço do homem com o estranho capacete de espinhos.
“Painsack.”
O último vai no peito do líder do grupo, o jogando pra trás e o fazendo cair no chão.
“... Vex.”
Com o seus reflexos finalmente reagindo aos tiros, e ao ver diante de seus olhos os três indivíduos caírem, Jace sai correndo de repente em direção à Vex, deixando Jenny quase completamente exposta.
Ela então pensa rápido e também começa a se mover, porém ao invés de correr pra frente, ela se move para o lado – mais especificamente, o lado esquerdo, aonde ainda restavam dois abutres.
O último deles com um revólver se desespera e tenta atirar com uma mão só, trocando tiros com a pistoleira.
Dois tiros atravessam limpo pelo manto vazio e esvoaçante dela; um tiro estoura os óculos do homem.
“Sadder.”
O último homem de pé nem prestava atenção na garota; ele via a enorme criatura robótica correndo em direção à eles através do aplanado do vale e pensa racionalmente que aquela não era uma batalha que ele podia vencer.
Ele atira seu arco com pressa, só pra atrasar a garota e impedi-la de atirar nele e então sai correndo na outra direção, de volta para a colina de onde os cinco desceram.
— Por favor, eu não quero morrer!! — Lamenta o homem em meio à sua corrida.
Quase escorregando nos cascalhos, ele tenta subir até mesmo com as mãos pela colina enquanto dá rápidas olhadas pra trás. Ele percebe que a moça parece recuar, e a criatura também desacelera a medida que ela se aproxima do local do tiroteio, como se começasse a desistir de perseguir sua presa.
A misteriosa pistoleira caminha de volta até o seu rifle, no chão, o pegando novamente. Ela dá uma olhada rápida para Thunder, que vai se aproximando, e se agacha no chão, apontando o rifle para a colina. Ela respira fundo, e fecha um dos olhos, mirando no alto da subida, um pouco acima do último homem que tentava escalar a mesma.
Após alguns segundos, ela atira.
“Blocks.”
Três segundos depois de ouvir o barulho do tiro, Jace observa Blocks cair no meio do morro, seu corpo deslizando-o ladeira abaixo imóvel. Ele estava ajoelhado, em meio aos corpos dos três primeiros atingidos, agora engolindo a morte de outro conhecido.
De repente, ele ouve a respiração ofegante de alguém, quase ao seu lado.
Ele logo vê Vex ao seu lado levantar sua cabeça e braço direito do chão, apontando seu revólver para a direção onde ela estava.
— Sua... M-Maldita.. PUTA...! — Ele cospe a última palavra junto com sangue e baba.
Jace observa o homem sem camisa – que agora sangrava por um buraco no peito – no chão, tentando mirar com seu revólver com uma mão trêmula. Jace pisca quando ouve o barulho forte do tiro, e alguns segundos depois, ele vê as pernas dela se aproximarem e, com um chute na arma de fogo, desarmar o líder moribundo.
— Por qu... Como... Voc--Você não est...
— Desculpe, Vex. Você disse você mesmo: Esse mundo é brutal. Sem piedade... — Jenny aponta o rifle pra cabeça dele. — ... Sem piedade nenhuma.
A jovem loira vira a cara e atira, espalhando a mente do líder de abutres por todo o chão.
“Vex. Dessa vez.”
Thunder se aproxima de Jenny, agora apenas caminhando. Quando ele fica a um metro de distância dela, ele para completamente, travando suas juntas. A moça abaixa o rifle, por um momento deixando seu lado agressivo de lado e tomando um semblante melancólico; mas isso não dura muito tempo.
Ao virar o rosto, a primeira coisa que percebe é a boca de um revólver apontada para seu corpo, no que ela imediatamente se agacha com a cabeça entre os ombros, desviando de um tiro. Usando o seu rifle como um bastão, ela dá um golpe com o cano da arma na mão do agressor, desarmando-o facilmente; quando ela puxa o rifle de volta pro seu corpo, ela puxa a alavanca em baixo do rifle e ejeta a cápsula do último tiro, o tambor já alimentando outra bala lá dentro, pronta pra ser lançada em...
— ... Jace? — Reage surpresa a moça, agora vendo no fim da sua mira de ferro o garoto.
O rapazinho da vespa, assustado, então começa a correr. A piloto fecha a cara e corre atrás dele pelo campo, o enorme robô ficando agora no lugar como antes.
A perseguição dura cerca de dez segundos, logo antes da moça dar um chute numa das pernas do garoto que se embola com a outra e logo ele cai ao chão.
O garoto vira de barriga pra cima e se arrasta pra trás com os cotovelos, observando com olhos lacrimejados a moça se aproximar como um simbolo da morte em cima dele.
— SAI DAQUI! FIQUE LONGE DE MIM!!
— Eu te avisei, não avisei? — Ela expressa, em tom ameaçador e agressivo. — Eu te perguntei!
Ela avança em passos rápidos e se senta no peito do garoto, o parando no lugar. Ela aponta o rifle mais uma vez pra cabeça dele, voltando a falar.
— ... Você mentiu pra mim, Jace! Eu te perguntei se tinha alguém com você e você mentiu pra mim! Abutres!
— NÃO! NÃO!! ME SOLTA! MONSTRA! ASSASSINA! MONSTRA!
— ... Eu deveria ter posto uma bala na sua cabeça naquele momento mesmo.
Ela fecha um dos olhos e põe a mira de ferro entre os olhos dele.
“Jace.”
Jenny abre o olho esquerdo novamente. Ela começa a respirar mais devagar, controladamente.
— Não... Não, não, não. Não vou fazer isso; isso seria burrice... — Diz a jovem, retirando a arma da cabeça do menino. — Você... Você é mais valioso pra mim vivo do que morto, garoto.
Jace ainda tinha adrelina bombando em suas veias, mas ele agora estranhava toda a situação.
— Vou deixar esse lugar, antes que mais dos seus “amigos” apareçam... E você vai vir comigo.
A moça se levanta, o puxando pela camisa remendada, agora parcialmente rasgada novamente depois de tudo que aconteceu ali.
— ... O q-- NÃO! NÃO! ME SOLTA! SUA MONSTRA!
— Calado, garoto.
Jenny o puxa pelo acampado em direção à Thunder, guardando suas armas novamente. Jace luta como pode, mas é inevitavelmente levado à força pela misteriosa pistoleira...
“Não...”
“... Ele não.”
Continua...
Fale com o autor