Sem Piedade
6 Capitulo VI - Populus
Notas iniciais
Não havia nada além do breu lá fora. Apenas escuridão.
Os olhos da jovem, claros como o céu do dia, se mexiam, faziam varreduras, mas não havia nada lá; ela encarava fundo nas estranhas do vazio, através do painel de vidro que separava ambos um do outro.
Jenny vira o seu rosto de volta para o lado de dentro, observando a série de assentos vazios naquele vagão de trem escuro. Logo a frente, havia outro assento virado pra sua direção, onde era possível notar fartos estofos de coloração azul escura, que revestiam o mesmo. Ela repara no conforto do seu próprio assento e ao olhar para baixo ela confirma suas suspeitas, vendo o mesmo estofo entre as suas próprias coxas e o manto surrado que cobria completamente o seu torso. Ela acaricia com a mão esquerda o resto do assento ao seu lado, sentindo a textura branda em sua mão, ao mesmo tempo em que consegue ouvir o som fraco do maquinário do trem se movendo, reverberado pelo espaço lá fora. Logo em seguida, sua atenção é roubada quando dois pontos de luz passam como cometas pelos dois lados do vagão, o iluminando brevemente, seguido de um zunido, como se alguém tivesse jogado algo contra o vagão e errado por pouco.
Após um breve período de tempo, acontece novamente. E denovo. E as luzes continuam passando intermitentemente de modo que a pistoleira pudesse enxergar tudo claramente dentro no vagão, reparando agora nos detalhes: as paredes e o teto eram na maior parte de aço escuro, com rebites hexagonais ao redor das janelas e em diversas outras partes; também haviam pedaços da parede feitos de madeira escura, que eram ligadas aos assentos, também feitos de madeira, e com detalhes geométricos cinzas; sendo assim também o piso assoalhado, que era acarpetado no corredor do vagão por um tapete da mesma cor do estofo. Tudo tinha um ar elegante, meio art deco, e tudo era muito bem cuidado, limpo e luxuoso.
Voltando mais uma vez a olhar para o lado de fora, Jenny finalmente consegue perceber, graças às luzes transeuntes, paredes de concreto maciças a poucos metros de distância da janela, que sustentavam as luzes e assim como elas passavam em alta velocidade. O trem parecia passar por dentro de um longo túnel, e quase no mesmo instante em que ela tem essa realização, os sons do movimento do trem parecem começar a se amplificar gradativamente, reverberando mais e mais alto dentro dos túneis como se fossem anúncios de algum ápice que estava por vir.
A piloto tenta inclinar a cabeça contra o vidro para enxergar algo mais à frente, mas era impossível.
Quando o barulho do trem ressonando nos túneis parece não poder ficar mais alto, uma forte e intensa luz a cega de repente, e em seguida, tudo se silencia mais uma vez.
— Olá, mocinha!
Jenny abre os olhos devagar e olha alarmada para frente, vendo agora o vagão do trem completamente iluminado por lâmpadas e luminárias que nem sabia que estavam ali. Havia uma dúzia de pessoas andando pelo corredor e se sentando nos assentos do local, e sentada logo à sua frente estava uma mulher de complexão clara como a dela, não parecendo ter mais do que seus 30 anos e cabelos castanhos claros, puxados e presos atrás da cabeça em um elaboradíssimo e complexo coque.
Ela, assim como as outras pessoas agora no vagão, usavam roupas como ternos e vestidos, alguns desses últimos com babados, peles e até mesmo com luvas; porém, ao mesmo tempo, ninguém parecia usar muitas jóias pelo corpo, o que dava a impressão de serem visuais um “pouco menos formais”.
— Ohh, me desculpe querida! Eu nunca vi um rostinho tão assustado só de ouvir minha voz! — A mulher de sorriso branco como neve ri brevemente enquanto toma um semblante de piedade, pairando sua mão esquerda em cima da coxa de Jenny em um gesto apologético.
A pistoleira, apesar de reagir de maneira defensiva e confusa até então, logo ameniza a sua expressão para um aspecto mais amigável e simpático.
— ... Está tudo bem. — a mesma responde, abrindo um sorriso tímido e se reajeitando comportadamente no seu assento, voltando o seu olhar mais uma vez pra fora da janela.
Ainda estava tudo extremamente escuro lá fora, assim como antes, mas agora não haviam luzes ou as paredes de um túnel transitando rapidamente por eles. Agora a vista era desse lugar de magnitude imensa, com um mar de pequenas luzes brilhando, e gigantescos painéis iluminados ao longe. De primeira, a jovem achou que estivesse olhando para as estrelas; mas mas as luzes não estavam no céu, e sim um pouco abaixo da linha do horizonte, se estendendo até desaparecerem ao longe – exatamente como um mar. Entre elas, haviam silhuetas de formas retangulares, mas que não podiam ser discernidas direito.
Acima do mar de luzes, roubando toda a atenção em meio à escuridão, haviam o que pareciam ser enormes estandartes brancos pendurados em meio à escuridão, em intervalos iguais de distância um dos outros, iluminados por holofotes colocados acima e abaixo deles. Eles mostravam uma imagem de um casal, uma mulher loira em um vestido e um homem de terno, com as palavras “Populus” e “Holywood”, em cima e em baixo da imagem, respectivamente; e os outros dois estandartes ao lado desse mostrando apenas um símbolo azul no meio deles, um círculo preenchido com três triângulos invertidos dentro, em forma de pirâmide. Os estandartes seguiam nesse padrão por toda a extensão da vista, até sumirem também no breu.
Jenny reconhecia o casal do estandarte de algum lugar, mas parecia não se lembrar de onde exatamente.
— Olha só a sua carinha; seus olhos estão até mesmo brilhando, haha! É realmente lindo, não é? — A mulher se pronuncia novamente, observando Jenny com encantamento. — Quando eu vi essa vista pela primeira vez, eu também fiquei absolutamente admirada. Minha mãe teve que me puxar pra fora do trem porque eu queria fazer a viagem todinha denovo, hahaha!
— ... É mesmo? — Retruca a jovem pistoleira enquanto balança a cabeça, com um sorriso amarelo.
— Poisé! Meus pais me trouxeram para passear de trem pela primeira vez quando eu tinha a sua idade também! É incrível que os seus te deixam sozinha assim!
— ... O quê? “Minha idade”? — Jenny diz entre as palavras da moça, dissolvendo aos poucos o seu sorriso e perdendo a polidez na sua voz.
— ... Isso signfica que você é uma mocinha agora! — Termina a moça de cabelos castanhos em um largo sorriso.
A piloto loira parecia visivelmente incomodada, mas ela tenta manter a educação antes de se pronunciar novamente.
— Me desculpe, mas... — Jenny balança a cabeça, não entendendo o que se passava ali. — ... Eu não sou uma criança.
— Hahahahaha! — A mulher solta uma gargalhada. — Não, é verdade, você não é uma criança mais! Olha só como você já é crescidinha, hahaha!
— ... Você é surda?! EU NÃO SOU UMA CRIANÇA! — Grita a pistoleira cara-a-cara com a moça que se sentava a sua frente, após se levantar e se inclinar na direção dela, nervosa.
O silêncio se instaura em todo o vagão, as outras pessoas olhando para as duas moças ali espantados. A mulher de cabelos castanhos estava de olhos arregalados agora, em uma mistura de surpresa e ultraje, que logo se transforma em um semblante de autoridade e desaprovação.
— ... Mocinha! Que falta de educação é essa?! — Ela chega a olhar pros lados, em direção aos outros passageiros. — Seus pais deveriam te dar uma boa lição de maneiras! Ladys não se comportam dessa maneira!
Jenny, ainda de pé, começa então a se afastar do seu assento, tomada pela pressão dos olhares de todos ali.
— M-Me... Desculpe... — Ela diz, trocando olhares rápidos com todos ali.
— Aonde você pensa que vai, mocinha? Você vai ficar aqui até chamarmos o seu pai... — A mulher levanta a saia do seu vestido com uma das mãos e se levanta também, esticando a outra mão para pegar no braço da jovem loira.
De repente, a mulher nota algo, quase ao mesmo tempo em que a própria Jenny: uma mecha enorme de cabelo loiro cai da cabeça da pistoleira, como se acabasse de ter sido cortado da sua cabeça.
A piloto pega a mecha com uma das mãos, e olha para o mesmo em extrema confusão. Ela passa a outra mão no seu cabelo curto e apenas com o seu toque mais tufos inteiros de cabelos se soltam. A mulher com quem discutia também percebe o que acontece, tão confusa quanto ela.
— Seu cabelo... — As duas trocam olhares em um breve momento de silêncio, o semblante da “lady” logo se tornando um de deboche. — Olhem isso, ela n--
No meio da fala, ela é surpreendida por um soco de Jenny que a atinge com força total no nariz, ouvindo-se o estalo do mesmo se quebrando e esguichando sangue de volta contra a jovem. A mulher cai sentada de novo no assento, enquanto outras passageiros dão suspiros e gemidos de surpresa e espanto, chocados com a cena. Até mesmo a própria atiradora tampa a boca com as duas mãos após o soco, como se ela mesma não acreditasse não que havia acabado de fazer.
Jenny olha para o resto do vagão, vendo uns três ou quatro homens se levantarem dos seus assentos. Ela se desespera, olhando para trás para ver se havia alguma saída dali, mas ela estava no fundo do vagão, e ela não se lembra se havia outro carro antes daquele; a outra porta estava no final do corredor à sua frente, além dos homens.
— Ei, Ei! Você! — Diz um dos homens, saindo do seu assento para o corredor. — Não se mova!
Sem pensar demais, a misteriosa jovem explode em uma corrida através do corredor, rumando em direção à porta atrás do homem, que se prepara para segurá-la. Ela acaba por dar um encontrão contra o peito dele, e, estando de braços abertos quando foi atingido, ele consegue segurá-la momentaneamente; mas ela briga e se contorce com extrema ferocidade, se desvencilhando rapidamente do mesmo, tropeçando um pouco antes de voltar a correr desimpedida através do vagão. Algumas mãos atravessadas ainda tentam segurá-la no caminho, mas ela era ágil, conseguindo se desviar de tudo até não sobrar mais ninguém entre ela e a porta para o próximo vagão, um grupo de homens a seguindo logo atrás.
Jenny atravessa a escuridão entre e vai parar no próximo carro. Ela olha imediatamente para trás, preparada para correr mais quando visse os homens, mas ninguém aparece, nem havia nenhum som vindo do outro lado da porta pela qual atravessara. Depois de algum tempo, a jovem decide que estava segura e finalmente relaxa o seu corpo, respirando fundo para recuperar o seu fôlego novamente. Limpando o marejo que havia discretamente surgido em seus olhos, ela se vira para o resto do novo vagão, lamentando uma frase pra fora da boca:
— ... Pai?
O interior daquele vagão estava escuro, podendo se enxergar muito pouco, assim como antes de toda a confusão. Pelo que podia ser visto com a pouca luz, entretanto, o design do local parecia exatamente igual ao do carro anterior, exceto que os estofos e as outras decorações de lá eram azuis, e ali pareciam ser brancas. O trem também parecia passar por mais um túnel, suas luzes rápidas iluminando o lugar intermitentemente como antes.
— ... Pai? — Chama novamente a garota, sem resposta.
Jenny engole o receio e avança pelo corredor a passos lentos, passos que incomodavam o imperturbado silêncio do local. Ela passa a mão direita no recosto de cada assento enquanto corta o corredor, tentando assertar se havia alguém naqueles assentos pelo qual passava ou não. Lá pela metade do corredor, ela tenta novamente:
— ... Pai?
Logo em seguida do terceiro clamar, ela ouve o aumento repentino do som do trem outra vez, como antes; mas dessa vez, ela sabia o que estava por vir.
Por isso, a jovem se agacha no chão, tampando logo em seguida as laterais dos olhos e encarando, sem nem mesmo piscar, a porta no fim do corredor. Não sabia se pessoas iriam adentrar o carro como da outra vez, e tinha apenas a esperança de que, se protegesse como pudesse os olhos das janelas, ela não seria cegada novamente.
Então ela espera pacientemente. Quando o som crescente atinge o seu ápice, dessa vez, seja pelo que ela fez ou seja por sorte, nenhum clarão de luz acontece. As luzes do vagão se acendem, e parece que o trem saíra do túnel mais uma vez.
Sucesso.
Jenny, que ainda tampava os olhos com as mãos, nota manchas de sangue no seu braço, por ter socado a moça pouco tempo atrás. O sangue parecia ter voado diretamente nela, e analisando a situação da mancha em suas roupas, ela percebe que estava usando roupas completamente diferentes agora: uma saia longa, e uma blusa abotoada até o pescoço, bordada e de manga curta, ambas completamente brancas, muito parecido com os vestidos das mulheres do outro vagão.
Logo antes de notar os sapatinhos abertos que também usava, ela se levanta e vê o contraste do vermelho no seu vestido branco; havia essa enorme mancha da sangue em toda a frente da sua blusa, muito mais do que ela se lembra ter saído do nariz da atrevida que agrediu. A jovem se impressiona tanto que, por um segundo, pensou estar sangrando ela mesma.
E como uma cena bizarra e perturbadora de um filme de terror, ao olhar para os assentos ao seu redor, Jenny vê todos os estofados brancos do local manchados de sangue; todos eles, exatamente como o seu vestido. Inspecionando mais atentamente, porém, ficava ainda pior: o sangue parecia ainda escorrer. Ele continuava se espalhando e manchando todo o branco cada vez mais, como se o que quer que tivesse ali ainda tivesse perdendo sangue.
Completamente assustada, Jenny olha rapidamente para fora da janela, só para notar que lá fora havia mudado também, sua surpresa maior ainda: os estandartes haviam mudado, não mais contendo uma imagem de um casal, mas agora mostrando uma pintura de um rosto...
... O seu rosto.
Era uma pintura que parecia ser um retrato-falado, estampando em todos os estandartes – alguns deles estando agora parcialmente destruídos. Nesse retrato, ela havia sido desenhada com esse cabelo mais volumoso, e com os olhos sutilmente cerrados, dando esse olhar incrivelmente penetrante, indiferente e intimidador, como se ela pudesse enxergar através da sua alma; ao invés das palavras “Populus” e "Holywood", haviam as frases “Procura-se” e “Viva ou morta” nos enormes estandartes, acima do mar de luzes que agora parecia ter perdido muita das suas luzes.
Aquela era uma imagem que exalava poder, uma imagem que instigava medo e respeito em quem a encarasse. Havia essa enorme semelhança entre aquela imagem e a imagem de um leão, somente pela imponência que as duas compartilhavam uma com a outra.
Jenny, porém, vê outra coisa quando olha para o seu próprio reflexo no vidro da janela. Criada pelas luzes internas, ela via a imagem de uma frágil garota adolescente de cabelos compridos, dando, em adição ao seu vestido branco, esse ar de “noviça” para ela – apesar de ser improvável que ela soubesse o que era uma noviça.
Olhando para dentro do carro denovo, o coração da pequena loira quase pula pra fora da sua boca quando ela nota que haviam pessoas sentadas em todos os assentos agora, em cima das manchas de sangue. Ela parece reconhecer vagamente cada um que estava ali, mesmo sem olhar para os seus rostos; todos olhavam para a janela, sem mexer um dedo, como manequins horripilantes. Eles não apresentavam nenhum ferimento, e a maioria usava estranhos e exóticos trajes, feitos dos mais diferentes materiais possíveis – a maioria lixo, apesar de também haver gente de roupas comuns também.
— Ei, Ei! Você!
Jenny se vira assustada, reconhecendo aquela voz. Ela vê um homem sem camisa, com ombreiras feitas de pneu e calça de couro preto, levantado em meio ao assentos.
— Ela é brutal. Sem piedade nenhuma. — Diz o homem, limpando as gengivas com a sua lingua. A sua boca aberta parecia ser um amplificador, a garota podendo ouvir cada barulho molhado feito como se tivesse ao lado do seu ouvido.
— ... Q-Quem? — Retruca a garota, assustada.
O homem passa lentamente a fechar a boca e saborear algo, suas bochechas inchando até ele “vomitar” palavras pra fora, em um tom horrifico e cavernoso, as palavras em assincronia com a sua boca.
— ... BLONDIE.
De repente, todos os presentes começar a virar os seus rostos lentamente, causando pânico imediato na garota e um palpitar estrondoso no seu peito. Sua reação imediata é a mesma de antes: correr.
Ela atravessa o corredor quase tropeçando nas próprias pernas, tentando evitar que os rostos se virassem completamente na sua direção. Ela logo atravessa a porta para o próximo carro, passando pelo vão de escuridão no entremeio.
Jenny adentra o novo vagão.
Tudo escuro novamente; nada de luzes transeuntes, nada de mar de luzes ou holofotes dessa vez. Pelo que se podia enxergar, não havia mais carpete, ou assentos de madeira, ou estofos. Tudo era de aço, tudo era rebitado.
Ainda assustada, ela começa mais uma vez a lamentar, podendo se ouvir o choro entalado na sua garganta:
— ... Pai!
Ela continua a correr, chamando-o incessantemente. No meio do caminho, ela parece chutar alguma coisa, a fazendo tropeçar e cair de joelhos no chão. Olhando pra trás, ela vê a coisa que parecia ter chutado se acender sozinha: um brinquedo caído ali.
Jenny o pega do chão, e percebe que era um brinquedo de um robô. Atrás dele, havia um nome escrito com uma letra desleixada, infantil:
“Jennifer”.
O barulho começa denovo.
Jenny sabia o que era aquilo.
Estava chegando, e ela sabia que vinha atrás dela.
Por isso os sons. Não era o trem.
Era um anúncio.
O som vai ficando alto. Muito alto.
Seus ouvidos doíam.
Quando o ápice chega, o barulho para; e em seu lugar, um breve toque eletrônico é ouvido, seguido de uma mensagem através de um alto-falante:
— Última parada. Favor desembarcar à direita do trem.
O toque então se repete, e silêncio se segue.
— ... Pai? — Chama a garotinha loira, uma última vez.
As portas se abrem, e o que aguardava atrás delas invade o local de uma vez como um enxame aterrador de coisas e sons indescritíveis; a menina expele um grito de horror, abafado pela torrente assustadora que então a cobre completamente.
***
Os olhos azuis de Jenny, claros como o céu do dia, se abrem, em um movimento brusco com a cabeça. Ela dá olhadelas rápidas em todas as direções, analisando o ambiente à sua volta de imediato.
Lugar escuro; espaço pequeno; sentada em uma cadeira; um painel de controle e uma vidraça escurecida à sua frente; sons fracos de maquinário, nenhuma voz.
A pistoleira percebe que estava dentro de Thunder, e então dá um fraco e sutil suspiro aliviado.
Ela esfrega as mãos na cara algumas vezes, e em seguida passa a mão nos seus cabelos repetidas vezes, puxando-o pra trás da cabeça e dos ouvidos, como sempre fazia. Checando sua própria mão em seguida, outro suspiro sai de sua boca: nenhuma mecha de cabelo solta ou caindo da cabeça. Apenas alguns fios dourados.
Com a vista do Deserto Selvagem de madrugada à sua frente, através do vidro da sua cabine, a piloto permanece pensativa, refletindo no que pouco que podia se lembrar do seu pesadelo.
Não importava. Era tudo bobo e sem sentido.
Ela aparta as lembranças do sonho com um sutil sacudir de cabeça, e gira a sua confortável cadeira de piloto 180 graus, observando o fundo da cabine. Lá, estavam todos os seus pertences, jogados num cantinho: Uma lona dobrada, um saco cheio de coisas, seu galão de água, uma grande caixa de ferramentas, e uma mochila cheia de bolsos, tudo organizado e apertado junto, para economizar espaço.
Na frente daquilo, porém, havia outra coisa, empurrada a todo custo contra esses pertences: uma vespa carcomida, a mesma que estava caída no acampado do oásis que a pistoleira havia estacionado para descansar.
Ela observa o veículo em silêncio, logo se lembrando do seu dono.
Após algum tempo, ela calmamente se vira para frente mais uma vez, voltando-se para a vista do deserto à sua frente, e começa a mexer no painel eletrônico à sua frente, controlando e guiando o enorme robô através da noite.
Continua...
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