Sem Piedade

7 Capitulo VII - Meio-dia


Notas iniciais
Aqui vai outro capítulo. Eu já abordei isso no disclaimer e - provavelmente - nas notas de outros capítulos, mas meu tempo pra escrever É realmente limitado, mas saibam que eu, literalmente, penso sobre continuar a escrever todo dia que se passa. Por mais que demore o próximo capítulo, se a história ainda está aqui no site, é porque eu não desisti dela. Aguentem firme, meus leitores. :) Enfim, boas festas de fim de ano. Prometo que, se gostou até agora da história, as coisas só ficarão melhores em 2015. Até a próxima, e, é claro, boa leitura.

Era difícil de abrir os olhos para Jace.

Na primeira tentativa, haviam sido imediatamente repreendidos por luz intensa, e por isso, voltavam à escuridão borrada das pálpebras fechadas, na qual estavam logo antes de acordar. Seus sentidos ainda se recobravam, e tentavam informar à mente aonde estava agora, e o que havia acontecido.

Ele vagamente se lembrava de algo ruim, como um pesadelo, e uma sensação igualmente desagradável parece gradualmente surgir pelo o seu corpo.

Ele tenta se mover, mas não consegue.

Por que estava tão quente?

O garoto abre seus olhos novamente – bem pouco, bem apertados dessa vez –, e após se acostumarem com a luz forte, a paisagem finalmente se expõe diante dele: o enorme céu anil, sem nuvens, com o poderoso Sol lá em cima, bem no meio. Haviam dois altos paredões de rocha e terra que se seguiam pelas laterais do caminho o qual estava, até fazer uma curva lá na frente, centenas de metros de distância dali.

O lugar, que parecia ser um estreito, era recheado de rochas, grandes pedras e pedregulhos; pedaços dos dois paredões, que se desvencilharam durante os anos. Haviam pequenas gramíneas escondidas por toda a parte, conseguindo refúgio dos ventos ásperos e do sol intenso com as sombras feitas pelos paredões e das pedras, dependendo da hora do dia.

Meio segundo depois, ele percebe que estava se movendo pelo lugar, seu corpo se inclinando pra frente e pra trás enquanto ainda permanecia parado. Jace consegue então balançar as pernas e olha para baixo, vendo que estava suspenso no ar, seu corpo amarrado com uma lona ao redor de algo. Assustado, o rapazinho joga sua cabeça pra trás e acaba batendo em uma placa de metal, causando o baque característico que denuncia a mesma, e finalmente, ele presta atenção nos sons de pistões que estavam bem próximos a ele.

O calor intenso o incomodava a ponto de fazê-lo se remexer, virando e contorcendo a cabeça na mesma intensidade até notar os membros robóticos gigantes que se moviam ao seu redor; sua mente, em seguida, trazendo de volta as memórias vagas que ele havia julgado ser apenas um pesadelo.

— Vex... — Geme baixo o garoto, em uma mistura de agonia física e mental. — Ahhh.... AHHHHH...NÃO!!... NÃOO!!!... ME SOLTA!!

Jace fica a se queixar e fazer grunhidos de angústia, suas lamúrias ecoando pelo estreito o qual o massivo robô atravessava, imperturbado. Thunder, como era a sua alcunha, marchava por entre os paredões com passos rápidos e, ao contrário do que se podia pensar, incrivelmente fluídos; Ele caminhava excelentemente sobre a terra desnivelada do local, além de não deixar para trás nenhum tipo de rastro, como fumaça de um possível carburador ou o barulho interno de algum motor. Era claramente um robô, uma máquina, mas tinha esse “jeito” incrivelmente humanoide.

Curiosamente, Thunder avançava pelo desfiladeiro com a cabine de piloto aberta, sua porta levantada ao alto, chegando a pairar parcialmente por cima do garoto; mas devido ao ângulo do Sol, a sombra era incapaz de chegar até ele. Parecia quase ser algo proposital, feito para dar o rapazinho a falsa esperança.

Era possível ver também logo acima dois pés nus para fora da cabine, escorados na beirada pelo calcanhar. Lá dentro, sã e salva do castigo do Sol pela porta da cabine, e recebendo todo o “ar fresco” de fora, estava a misteriosa pistoleira, e dona daqueles pés nus, conhecida como Jenny. Ela estava deitada em sua cadeira de piloto, com as pernas esticadas, uma sobre a outra, por cima do painel de controle de Thunder, sem o manto bege e parte dos cintos, vestindo só a peça inteiriça que cobria seu corpo – agora aberta até a clavícula –, e o chapéu na cabeça.

Sob primeira impressão, parecia que a moça estava dormindo, já que não era possível ver os seus olhos por baixo da aba do chapéu; mas podia-se notar, sob um olhar mais atento, que havia uma arma de fogo em suas mãos, na qual ela se focava em desmontar, calmamente, peça por peça: um revólver. Mas não o seu revólver. O seu próprio se encontrava no seu colo, logo abaixo, também parcialmente desmontado.

A jovem loira comparava peças entre as duas armas, tentando montar o melhor conjunto das duas, e jogando o resto das peças que não precisava dentro de um saco aberto que se encontrava do lado da cadeira, onde haviam mais armas de fogo e alguns equipamentos, todos que podiam ser identificados como os itens dos abutres que acompanhavam Jace. Jace, que voltava a gemer sem parar do lado de fora, logo abaixo da cabine.

Ele estava dessa maneira desde dias atrás, quando eles deixaram o pequeno oásis, desde que fora amarrado à força na perna do robô. A lona que cobria o seu corpo já o protegia de ser completamente assado como carne na chapa – e de morrer de frio à noite –, mas claramente o ponto todo de estar amarrado ali era exatamente de ser algo desagradável. O que a pistoleira parecia não ter calculado era o quanto Jace teria garganta para lamuriar o dia inteiro, nem o nível de aborrecimento que teria por isso.

Como um martelo sendo usado para derrubar um muro, os sons feitos pelo rapazinho se chocavam contra os ouvidos de Jenny sem parar, uma vez após a outra, lentamente arrancando lascas do muro de paciência da mesma; ela chega a apertar os dedos dos pés pra baixo e uns contra os outros toda vez que era atingida pela onda de som angustiante do menino, continuando a receber “pancadas” até finalmente sua paciência acabar.

— Vejo que você acordou! — Diz a moça, em um tom sarcasticamente animado e simpático, aparecendo acima de Jace ao se sentar agora na beirada da cabine.

— AHHHH! ME SOLTAAAA!! — Ele grita imediatamente ao ouvir a voz da moça.

— Não te escutei. Por que você não grita um pouco mais alto? — Ela pergunta, ainda com o mesmo tom.

Jace se remexe com todas as suas forças, tentando mais uma vez se desvencilhar das cordas que o prendiam ali. Ele tenta por algum tempo, em meio a mais gemidos, mas era óbvio que tudo aquilo era inútil. Logo, ele começa a parar, como se sua força de vontade tivesse se esvaindo ao poucos, até sobrar apenas cansaço e derrota em silêncio.

Jenny, observando tudo de cima, vendo que toda a “grande contenda” havia terminado – por enquanto –, suspira despreocupadamente, se virando pro lado de dentro da cabine novamente.

— ... Por que você não me mata...? — Podia se ouvir o choro entalado na garganta do rapazinho, ao ouvir sua voz fraca.

Um momento de silêncio se segue. A piloto volta-se mais uma vez para o lado de fora, olhando para o vasto céu azul acima dos paredões com os seus olhos da mesma tonalidade, pensativa. Após alguns segundos, ela tira o aparelho eletrônico de trás do cinto, e observa sua tela rapidamente.

— Está cedo. Não é nem meio-dia ainda. — Ela comenta, normalmente. — Nós provavelmente vamos ter que passar o resto do dia atravessando essas ravinas...

— Por favor... — Jace balbucia em meio ao seu choro seco, sem lágrimas. — Eu quero morrer...

Novamente, não há nenhuma resposta da pistoleira. Ela nem aparecia mais na beirada da cabine, sumindo dentro da mesma, enquanto o garoto começa a chorar seco copiosamente.

De repente, porém, Thunder começa a desacelerar, até parar completamente.

A enorme máquina humanoide assume a posição ereta novamente, mas por pouco tempo, logo em seguida se arqueando pra frente e se ajoelhando no chão, Jace sentindo o poderoso baque do pesado robô ao atingir o chão rochoso. Sendo a primeira vez que isso acontece desde que saíram das ruínas, o menino olha pros lados e pra cima alarmado, tentando ver o que acontecia, ou que estava prestes a acontecer.

Ele então vê as pernas de Jenny saltarem pra fora da cabine novamente – somente que, dessa vez, com seus coturnos pretos nos pés. A jovem loira desce até a “coxa” esquerda do robô – que estava na horizontal, enquanto o garoto estava amarrado na da direita, a que tocava o chão –, e então cai com todo o cuidado dali até o solo. Jace percebe então que a piloto segurava um copo de plástico na mão, cheio de água fresca.

Jenny dá algumas pisadas fortes contra o chão, ajustando as botas mal calçadas nos pés, e caminha em direção ao gaiato de pele morena, substituindo o som do fraco choro meio engolido dele com o crepitar do cascalho sendo pisado por ela. Ela o fita diretamente por todo o trajeto, sem expressar nenhum semblante agressivo ou nervoso, até parar na sua frente, com menos de um metro de distância separando os dois.

— ... Está com sede? — Ela quebra o silêncio, em um tom calmo.

O garoto fica calado, emburrado por um tempo, mas não tinha mais capacidade nenhuma de resistir a algo tão tentador como aquele copo de água.

— ...S-Sim... — Ele retruca fraco, balançando a cabeça positivamente.

— Tá bom. — Ela dá um sorriso contido, estendendo o copo até a boca dele.

Jace fecha os olhos, sentindo o esplendor da água molhar os seus lábios secos; mas apenas por meio segundo. O copo então se afasta da sua boca, fazendo-o voltar à realidade e ver agora o rosto frio da moça, ainda o fitando sem nem mesmo piscar.

— ... Você disse que queria morrer. — A piloto lembra.

Jenny então começa a virar o copo lentamente na horizontal, derramando pouco a pouco a água do copo no chão árido entre os seus pés.

— Sabe, Jace, a morte não é uma questão de escolha. Ela é exclusivamente a nossa única certeza. A única. — Ela faz uma pequena pausa, parando de derramar a água e vendo se ainda havia mais no copo.

Jace a olhava incrédulo.

— Olha pra isso, Jace. — Ela faz um gesto com a mão em direção à paisagem atrás dela. — Olhe ao seu redor; até esse mundo já está morto! A questão é que nós não estamos mortos ainda. Talvez amanhã; Talvez depois. Um dia, nós estaremos também.

Ela então joga o resto da água na cara do garoto, que sofre imediatamente o choque térmico, seu corpo agindo como se estivesse com falta de ar, e é logo em seguida estapeado duas no rosto pela pistoleira, sendo então segurado pela mandíbula para que não desviasse o rosto da sua direção.

— Agora, preste atenção, garoto. Preste muita atenção no que eu estou falando, e preste muita atenção nisso que está sentindo agora: Isso é sofrimento. E enquanto você estiver nesse mundo aqui, isso é o que você vai sentir. Você acha que isso que sente agora é o limite, o limiar, mas a verdade é que não existe limite. Você continuará sofrendo até morrer. Sorte pra eles, Vex e os outros não podem sofrer mais. Eles estão mortos. Mas você não está. E EU não vou deixar você morrer até que eu termine com você; Então até lá, você pode escolher entre me ajudar e sofrer pouco, ou me irritar e SOFRER MUITO.

Ela então se afasta e solta o rosto dele, ainda se mantendo à sua frente.

— ... Agora balance a cabeça se você me entendeu.

O garoto, com os olhos ainda fechados e ainda grogue de tudo que acabou de passar, demora alguns segundos, mas acena com a cabeça repetidas vezes. Jenny também acena a cabeça, reconhecendo a resposta dele, e continuando em seguida.

— ... Então eu vou te perguntar de novo – e vai por mim, eu vou saber se você mentir –: Você disse que tinha uma vila na direção que vocês vieram. Vocês vieram mesmo por aqui? Tem mesmo uma comunidade do outro lado dessa ravina?

Jace se apressa em concordar novamente com a cabeça, ainda respirando picado, uma mistura de soluço de choro e do choque térmico de antes.

— Ótimo. Obrigada Jace. — A pistoleira então suspira, fechando os olhos e passando sua mão livre nos seus cabelos dourados, Jace ainda de olhos fechados.

Jenny observa o rapazinho de cima a baixo, analisando as condições da corda e da lona que cobria a maior parte do seu corpo, e logo nota a sombra projetada da porta da cabine lá em cima, que já chegava se estica cada vez mais pra baixo; em pouco tempo, o Sol estaria perfeitamente acima deles, e a sombra iria finalmente cobrir o rapaz.

— ... É quase meio-dia. — Ela comenta novamente. — Vamos continuar andando.

Andando de volta até a outra perna de Thunder, a moça parece conversar consigo mesma mentalmente, até “convencer” a si mesma a parar novamente, se virando uma última vez para o menino da vespa.

— ... Ei, Jace?

Chama ela, vendo-o virar-se na sua direção com um olhar tímido, temeroso.

— Vamos fazer o seguinte: Se você não ficar gritando e fazendo barulho por meia hora, eu vou te dar água. Eu juro. — Ela levanta sua mão, mostrando os dedos indicador e do meio cruzados um no outro.

Jenny adentra a cabine do piloto novamente, voltando a ficar de pés nus no chão escuro morno, e amarrando o copo mais uma vez no galão que havia lá dentro, em meio a todos os seus outros pertences.

Terminado isso, sua mão em seguida vai pra trás da sua cintura, apertando algo no seu aparelho eletrônico.

— Thunder. — A moça fala brevemente, e logo em seguida, toda a cabine se move enquanto o robô se levanta, retomando a posição ereta.

A pistoleira pula em cima da sua cadeira de piloto, e com incrível agilidade começa a apertar interruptores e botões, tudo no complicado painel à sua frente, parando na hora em que segura uma alavanca, pronta para puxá-la pra frente.

Ela fica ali parada por algum tempo, com os olhos baixos, sem fazer nada; parecia tentar prestar atenção em algo. Tentava escutar algo, mesmo que baixo, lá fora.

Somente o som calmo dos ventos do deserto.

Acenando com a cabeça mais uma vez, ela então empurra a alavanca devagar, que acaba em culminar na marcha do gigante de metal pra frente mais uma vez.

Thunder volta atravessar a ravina, até sumir na apertada curva que havia no final da paisagem visível.

Continua...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.