OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.
6 “A adversidade une os homens...”. Soren Kierkegaard.
Cesar Dominavit acordou tranquilo, satisfeito pelas merecidas horas de descanso. Afastou o gato branco felpudo que esquentava seus pés e começou a rotina de meditação, estudo e anotações no seu Livro das Sombras. Depois se banhou e foi à sala onde Muriel já esperava. Cumprimentou a convidada e gostou de saber que ela dormiu uma paz saudosa.
Após o café-da-manhã com frutas, iogurte, mel e queijo de cabra, Cesar pediu que fossem à Fundação Krause onde Karin e os eleitos se reunirão. Muriel não recusou, mas quis saber por que usava essa palavra para as pessoas procuradas. O mago explicou que Sir Donovan Krause, o pai de Karin, foi incumbido de selecioná-las para uma tarefa. Em suas visões ele vislumbrou os únicos que poderão triunfar nesse propósito: os eleitos.
– Então o senhor Krause é um tipo de profeta? – Muriel perguntou enquanto saía.
– De certa maneira, assim como todos que predisseram o futuro na História.
– E essa tarefa, do que se trata?
– A busca de artefatos, certamente, mas desconheço os detalhes. Por isso seguiremos à fundação. Na falta de Sir Donovan, Karin ou Dimitri oferecerão mais informações.
Cesar e Muriel seguiram ao bairro do bosque, muito conhecido em San Thomas. No caminho continuaram conversando e Cesar contou sobre o incidente do metrô no dia anterior. Nenhum imprevisto ocorreu dessa vez. Em seguida pegaram o ônibus e quinze minutos depois, ao avistar o bosque, Cesar pediu que Muriel se preparasse para descerem.
Contornaram o Bosque do Salgueiro Sombrio até a entrada da fundação. Lá havia uma guarida abandonada ao lado do portão de ferro com grades retorcidas fundidas como ramos de folhas e flores. Enquanto Muriel olhava o muro que parecia cercar a propriedade, Cesar exibiu sua joia iniciática, o belo anel quadrado cravejado com a pedra escura. O portão estalou e começou a abrir sem acusar um dispositivo eletrônico. Muriel sentiu um arrepio e Cesar deixou escapar um sorriso. Subiram uma via rudimentar de pedras que levava ao casarão pavoroso. O antigo Hotel Redenção era cinza como o dia mais nublado e melancólico. Tinha três andares, janelas que pareciam pontas de lâminas e duas torres redondas que flanqueavam a porta principal. O lugar seria funesto se não fossem as aves pescadoras no lago perto do bosque que avançava na propriedade.
– Donovan Krause mora aqui? – Muriel perguntou. – Esse lugar não parece um lar.
– Você tem razão. Há muito tempo Donovan Krause comprou o antigo hotel para usá-lo em sua causa humanitária. Ele viaja bastante, mas arrisco dizer que esta é sua casa também.
– Causa humanitária, Cesar, para quê?
– Para remediar os males que afligem o mundo... Criando a Fundação Krause, Sir Donovan começou a ajudar os necessitados tentando prevenir a aparição das pragas do caos.
– Não entendo. O que isso significa?
– Por exemplo, pense na fome em diversos países. Provê-la pode atenuar ou impedir a corrupção do Homem. Então uma força invisível e corruptora conhecida como Serpens chaos terá menos chances de tocá-lo. Por conseguinte nossa missão será menos difícil e a humanidade tem mais chances de prosperar.
– Curioso... Pragas, serpente do caos... A Sra. Karin terá muito a explicar. Posso estar enganada, mas tenho a impressão que você e seus amigos fazem parte de uma seita secreta, algo assim? – Cesar gargalhou.
– Ah, Muriel! Sua perspicácia é notável, mas a madre não perdia a paciência com tantas perguntas?
– O tempo todo... Às vezes eu até implicava... Deus me perdoe, mas era divertido vê-la alterar sua postura conservadora. Madre Helga era como uma mãe para mim... Sentirei falta...
– E quem disse que não poderá reavê-la? Se ainda têm assuntos pendentes, o Destino tratará de reuni-las!
– Será, meu amigo? Não acredito no destino.
Cesar responderia quando uma voz grave e abobalhada chamou seu nome. Ele e Muriel olharam o colosso largar o rastelo e caminhar espalhando as folhas que juntava. Com um sorriso acriançado e os braços abertos, Samuel foi abraçar seu amigo. O corpo franzino de Cesar foi erguido facilmente pelo gigante musculoso que beijou seu rosto gargalhando como se reencontrasse alguém muito querido. Assistindo o homem de jardineira, com dois metros e meio, balança-lo, Muriel deduziu que tivesse algum retardo. Cesar pediu para descer e logo apresentou sua amiga. Ela também ganhou um abraço apertado que fez sua coluna estalar. – Pronto, Samuel, pode soltá-la. – Cesar cutucou seu braço e o gigante obedeceu como criança. Foi seguindo com eles, cantarolando que era o jardineiro juntando as folhinhas.
Aproximando-se do casarão, Muriel reparou o pequeno lance de escadas escurecidas que dava para a porta dupla que tinha o batente cercado por galhos definhados. Karin Krause apareceu sorridente para cumprimentar Cesar e fazer um carinho no rosto de Samuel que corou envergonhado. Olhando Muriel resplandeceu de satisfação e desejou boas-vindas. Cesar perguntou sobre os outros e Karin avisou que Nicholas havia chegado e ainda estava descansando. Então a anfitriã convidou todos para entrarem.
Muriel estudou o salão circular sustentado por colunas rachadas e decorado com estátuas de várias culturas que representavam, segundo sua teologia, divindades da justiça e sabedoria. No piso central havia o grande mosaico desgastado de um curioso brasão: uma coruja com asas abertas na posição frontal, sem olhos, carregando no pescoço uma estrela e nas QUATRO patas uma lamparina, uma chave, um pergaminho e uma ampulheta. Cesar chamou Muriel duas vezes para despertar sua atenção.
Da escada Karin explicou que uma fundação funciona no térreo e que os outros andares são particulares. Subindo, acrescentou que apenas seu pai, ela e alguns colaboradores moravam no casarão. Seguiram por um longo corredor, o percorso rinascimentale com obras de Botticelli, Rembrandt e Caravaggio, entre outros. No caminho observaram uma mulher idosa, de traço refinado, postura conservadora e elegante, aproximando-se para saudá-los. Karin apresentou Sra. Claire, a governanta, e avisou que na ausência de Dimitri ela atenderá a todos.
Chegaram todos numa bifurcação e dobraram à esquerda para a ala leste, dos quartos de hóspedes. A anfitriã sugeriu que Muriel aprovasse seu aposento, mas ela preferiu passear, se não tivesse problema. Karin assentiu e pediu que Samuel a acompanhasse, mas antes solicitou à Claire que trouxesse novas roupas para Muriel. Então convidou César para conversarem no escritório.
O mago, que pouco sabia da história de Samuel, perguntou curioso sobre isso. Karin narrou que ele foi retirado de um vilarejo, na Europa Oriental, depois de provocar um acidente, ser apedrejado e linchado pelas pessoas. Contou que Samuel tem uma força descomunal e grande resistência, embora fosse incapaz de controlar essa energia. Seu pai, Donovan Krause, cuidou para que viesse à fundação onde lhe deu trabalho e segurança para que não virasse uma ameaça. Karin explicou que a jardinagem tem sido uma boa terapia porque ele está mais calmo aperfeiçoando a sutileza com atividades manuais. Quando chegou, aliás, era incapaz de segurar um copo sem quebrá-lo. Cesar indagou sobre o temperamento do gigante e Karin tranquilizou que ele tem a mentalidade de doze anos e é pacífico apesar de ter crises esporádicas. Para controlá-las, o Dr. Carter fez a gentileza de prescrever e ministrar alguns medicamentos.
– Falando no doutor, – Karin mudou o assunto. – Carter telefonou ontem para avisar que sua filha estava lhe acompanhando. Isso aconteceu mesmo, Cesar?
– Sim, Iris é minha discípula preferida. Não queria envolvê-la, mas um eleito estava no hospital, internado. Achei que o doutor poderia ajudar, por isso pedi um favor a ela... Mas eu não sabia que Carter é um zelador do círculo! Fiquei surpreso!
– Ele é um bom amigo e excelente colaborador. Já fez muito pela fundação e pelo Circulo Externo. Mas, e a menina, ficou bem? O lacre está intacto? – Karin perguntou insegura, referindo-se ao sigilo da tarefa.
– Sim, sim, rainha. Admiti a companhia de Iris, mas garanto que ela agiu com moderação e foi discreta o tempo todo. Ela me ajudou a fazer contato com Vachan Siraj e foi decisiva para convencer Nicholas O’Connor a vir à fundação. – Cesar suspirou. – Ele não estaria aqui se não fosse por ela.
– Entendo. Você parece admirá-la. É sua prerrogativa convidá-la para o Circulo Externo. Pretende fazer isso um dia?
Nesse momento, Karin e Cesar chegaram ao escritório.
– Iris tem potencial, mas receio que ainda não esteja preparada. Ela é imatura, ansiosa, inconsequente às vezes...
– Como a maioria dos jovens.
– Não como você, minha querida. Recordo do dia que a conheci, após a minha iniciação. Você era uma criança adorável, serena, educada, inteligente... Um prodígio de fato. Sir Donovan deve se orgulhar de você todos os dias!
– Obrigado, meu amigo. – Karin agradeceu com os olhos mareados. – Suas palavras sempre me confortam. Sinto a falta dele, Cesar. Espero que meu pai se recupere logo.
– Esse é o nosso desejo, mas já pensou se ele demorar? Está preparada para substituí-lo? Pelo tempo que for necessário?
– Não sei... – Karin desviou o olhar para a mesa. – Acho que não estou pronta para liderar o Círculo Interno, caso os eleitos aceitem nossa proposta. Como eles são? – Karin sorriu com expectativa. – Acha que irão colaborar? Aceitarão procurar os pergaminhos?
– Ah, Karin, todos são fascinantes! Alguns têm personalidades bem diferentes, talvez conflitantes, mas eu creio que podem formar um magnífico círculo. E eu confio totalmente nos desígnios de Sir Donovan!
– Que bom. Então me conte mais sobre eles.
– Vejamos, Nicholas é despojado, um tanto imaturo e parece ter medo de assumir responsabilidades, mas acho que se for motivado mostrará seu potencial. Muriel saiu de um mosteiro sem ter idéia do seu passado e já se deparou com uma praga do caos.
– Não diga?! Ela está ferida?
– Não. Eu a encontrei numa igreja e cheguei a tempo de impedir que fosse atacada. Entre todos, talvez ela tenha menos controle dos seus dons. Suas convicções se baseiam nas doutrinas da cristandade, mas não creio que ela seja fanática, pelo contrário, tem sede de conhecimento.
– E quanto aos outros?
– Akila tem um gênio forte, impetuoso, obstinado, é vaidosa e gosta de comandar. Vachan, finalmente, é um homem sensato, prudente, seguro e confiável.
– Você parece conhecê-los muito bem, Cesar!
– Sim, eu os observei, mas tudo que aprendi foi pelo diário de Sir Donovan. A propósito, Vachan Siraj seria um bom líder para a busca, se me permite dizer.
– Ele?! Mas eu pensei que você guiaria o círculo...
– Karin, estou honrado com a confiança do seu pai. Não sei se ele premeditou isso, mas localizar os eleitos reavivou meu desejo de voltar à Ordem, ainda mais nessas condições...
– Mas então o que lhe impede? Não há pessoa mais preparada para liderá-los! Você já provou isso! E a busca?! Não sabemos o que eles encontrarão! Seria tão bom se um membro experiente pudesse acompanhá-los...
– Não se aflija, minha rainha. – Cesar segurou as mãos dela entre as suas. – Se experiência e poder fossem indispensáveis, a posição do Supremo Conselho seria diferente. Então vamos confiar nas escolhas de Sir Donovan. Os eleitos mostrarão seu valor nessa busca!
– Você está certo, Cesar, como sempre! – Karin sorriu conformada. – Então posso pedir para que fique até a iniciação? – Cesar ficou pensativo.
– Será um privilégio...
USANDO UM RECATADO VESTIDO BRANCO, Muriel caminhou tímida, mas Samuel, ansioso, puxou seu braço desfazendo qualquer decoro e ela cedeu alegrando-se em explorar o lugar. Apesar do guia se perder algumas vezes, Muriel constatou que toda porta dupla abria para salas maiores. Foi assim com a biblioteca que reunia o grande acervo de livros antigos e obras raras. Ficou tentada a parar ali, mas supondo que permaneceria algum tempo na fundação decidiu continuar. Passaram pela sala de armas com uma coleção de brasões, armaduras e armas medievais. Agora foi Muriel quem arrastou Samuel evitando que ele pegasse um mangual para brincar. Continuaram pela academia, depois pelo jardim de inverno, a piscina coberta e a sala de jogos onde um homem de jaqueta jogava sinuca, indiferente. Muriel conheceu também as salas de vídeo e de conferência.
Já cansada pensou em voltar, quando olhou uma porta de vidro e reparou a enfermaria. Estranhou, mas talvez o espaço servisse à fundação. Os móveis e aparelhos estavam cobertos, com exceção de uma cadeira ocupada por um homem loiro, muito bonito, mas abatido, fazendo hemodiálise, sozinho. Ele virou a cabeça e sorriu, revelando os olhos cinza fendidos como os de um gato. Muriel sentiu uma súbita atração, quase um fascínio despertado por essa beleza misteriosa, antiga e rara. Sua atenção foi dispersa por Samuel que fez manha para andarem e quando voltou a olhar o homem havia desaparecido. Muriel piscou os olhos e mexeu os lábios tentando perguntar, mas Samuel não deu importância e tornou a puxá-la.
Desceram para o salão circular do térreo. Só então Muriel notou a porta simples que abriria para as repartições da fundação. Estava trancada e o silêncio do outro lado sugeria que não havia ninguém trabalhando. Assim ela chamou Samuel para fora, puxando-o pelo bolso da jardineira. Na saída eles avistaram à distância uma mulher de cabelo preso.
Caminharam até a parte de trás do casarão. Muriel apreciou mais de perto as árvores frondosas do Bosque do Salgueiro Sombrio e depois descobriu um coreto de madeira nobre com entalhes intrincados.
– Belíssima, não é? – Muriel e Samuel ouviram a voz melodiosa e perceberam uma jovem aparecer rodeando o coreto. Sua pele era branquinha e o cabelo ruivo-alaranjado era longo e ondulado nas pontas. Usava um comprido vestido verde-menta de feitio campestre e carregava uma flauta no cinto. Descalça, sua frágil aparência não indicava ser mais velha que Muriel. – Arte Celta... Foi esculpida em Tintagel. Um presente para seu imperador.
– Meu imperador? – Muriel estranhou enquanto Samuel permaneceu encantado com a beleza da ruiva. – Deve estar enganada, não conheço nenhum imperador.
– Ah, desculpe, acho que me precipitei. – A jovem ruborizou. – Eu sou Cailin Druantia.
– Meu nome é Muriel e este é Samuel. Você mora aqui?
– Não, estou representando uma pessoa, mas ficarei por pouco tempo.
– Também veio falar com Karin Krause? – Muriel perguntou subindo até o coreto.
– Sim, e você também. Vi quando chegou com o Sr. Cesar. – Cailin subiu também.
– Você conhece Cesar? – Muriel apoiou os braços no passadiço de madeira.
– Sim, ele é conhecido e respeitado. Um mestre excelente. Seria ótimo aprender com ele.
– Ele me contou que é professor. O que você gosta de estudar? Química?
– Não, como direi... – Cailin estendeu a mão para uma borboleta azul. – “Outras ciências”.
– Magia? Isto é uma ciência? – Perguntou vendo a borboleta pousar nas mãos da ruiva.
– Então você sabe... O que mais ele explicou?
– Cesar contou algumas coisas. Sua missão como mago, os eleitos, uma busca... Mas ele não entrou em detalhes porque disse que Karin fará isso.
– Então estamos na mesma situação... – Cailin deleitou-se com a brisa passageira e a borboleta voou para o passadiço.
– Compreendo. Você também faz parte dessa seita? – Muriel tocou a asa da borboleta com a ponta do dedo.
– Essa não é a pergunta certa. Vamos caminhar? – Muriel ficou sem resposta novamente.
Elas seguiram com Samuel até se depararem com muros poligonais, muito altos, cobertos por trepadeiras. Cailin comentou que do seu quarto parecia um imenso jardim no meio do gramado. Samuel ficou parado, desconfiado, enquanto Muriel e Cailin chegaram mais perto tentando achar a entrada, sem sucesso. Encoberto pelas trepadeiras descobriram apenas algumas imagens, em alto relevo, de homens atléticos usando mantos ou coroas de louro. Só uma continha inscrição: Akhilleus. – Aquiles?! – Muriel estranhou. Cailin não teve um bom pressentimento e pediu para voltarem.
KARIN AVISTOU MURIEL, CAILIN E SAMUEL PELA JANELA DO ESCRITÓRIO. Cesar também olhou e não reconheceu a jovem ruiva entre eles. Karin falou seu nome e esclareceu que ela é uma druidesa enviada por Eleonora Cadi, imperatriz do Círculo da Harpa, para participar da aliança que buscará os pergaminhos. O mago admirou-se com a menção à aliança, pois imaginou que somente os eleitos iriam procurar os pergaminhos. Karin explicou que no conclave do Supremo Conselho, os outros círculos não aceitaram que profanos fossem enviados. Exigiram que primeiro os eleitos fossem iniciados na Ordem Ofiúco e pediram que outros membros participassem da comitiva. Sir Donovan concordou para evitar contenda e Simon Barzilai sugeriu mais dois componentes para formar a aliança com os eleitos. Cailin foi a Benemérita escolhida por Cadi e Barzilai indicou um Peregrino do seu círculo, Aaron Balaque. Cesar comentou que já ouviu rumores sobre a druidesa e sua relação com os elementos, mas não imaginava que fosse tão jovem. O indicado do Mestre Barzilai era uma incógnita, já que não fazia ideia de quem se tratava. Karin mudou o semblante mostrando preocupação. Desabafou que a chegada de Cailin era bem-vinda, por sua dedicação à Ordem e o aval de Eleonora, mas pouco se conhecia sobre o cavaleiro enviado por Simon Barzilai... – Há quem diga que ele foi um assassino. – Falou sussurrando. – Se isto for verdade, como confiar nele? Quem garante esta aliança? – Karin questionou apreensiva. Fechando os olhos, Cesar cogitou que talvez ele ajude tanto ao círculo, como o círculo a ele. – Talvez o cavaleiro garanta a proteção do grupo e se mostre digno de confiança. – As palavras de Cesar e o seu tom sereno mais uma vez tranquilizaram Karin.
– Claire regressa com outra convidada. – Falou uma voz misteriosa com suaves camadas. – Cesar reconheceu Égregora, a entidade invisível que rege o casarão. A porta se abriu sozinha no momento que a Sra. Claire apareceu com Akila. Ela vestia camiseta preta com as tatuagens expostas, calça cáqui e botas; seu cabelo estava preso num rabo-de-cavalo. Cesar foi cumprimentá-la e depois puxou a cadeira ao seu lado para ela sentar. Incisiva, Akila mencionou o convite de Cesar, a expedição e o artefato. Questionou sua natureza, importância, sobre o que seria feito quando encontrasse e quanto receberá pelo trabalho. Tentando aparentar segurança, Karin respondeu que se tratava de pergaminhos com uma relevância dogmática para sua organização e que depois de achados serão examinados por peritos. A princípio não considerou recompensas materiais já que nenhuma riqueza supera o desenvolvimento do autodomínio e a descoberta da própria identidade. – Nosce te ipsum... – Cesar balbuciou. Contudo, Karin prosseguiu, se algum pagamento for exigido, a Fundação Krause assumirá a prestação, embora preferisse tratá-la como companheira e aliada. Akila moveu a sobrancelha e alertou que não poderia se afastar muito tempo do trabalho. Karin replicou que a estadia em Zagra deve ser breve e que depois poderá partir se julgar irrelevante o sucesso da busca. A citação de Zagra, “a Cidade dos Insones”, aguçou o interesse de Akila. Ela indagou se os pergaminhos estariam lá e quis saber sobre o seu conteúdo. Cesar fitou Karin esperando a resposta seguinte e ela falou em sua mente que sim, que poderiam estar em Zagra e que os originais confirmarão a Hecatombe e o momento da Escolha Essencial. Com um sorriso enigmático Akila se levantou e perguntou a hora do voo.
NA PRIMEIRA HORA DA TARDE a Sra. Claire e Samuel passaram pelos quartos para levarem os convidados à sala de jantar. O almoço estava pronto. Nicholas saiu do quarto sonolento, com o cabelo desgrenhado, vestindo apenas o short do pijama com um coração estampado na frente. Akila riu, Muriel protestou e Cailin ruborizou. Cesar não foi encontrado e o homem de jaqueta, Aaron, foi o último a sair do quarto.
Os seis acompanharam a Sra. Claire, mas Aaron foi ficando para trás porque mancava na perna esquerda. Andava com dificuldade tentando alcançar o grupo, sentindo o incômodo das passadas. Akila não reparou nenhuma deficiência no homem que aparentava mais de trinta anos. Solidária, Muriel perguntou se ele precisava de ajuda, mas foi ignorada. Nicholas caçoou dizendo que não gostaria de conhecer a mulher que fez isso com ele. Cailin pediu que não brincasse com isso e o manco só balançou a cabeça, mas quando Nic menos esperava recebeu um empurrão contra parede. Aaron apertou sua tranqueia e com a outra mão armou um soco. O rapaz tentou rir, mas Aaron apertou; tinha os olhos inflamados e vapor saía dos seus ombros. Um cheiro de enxofre se espalhou. – Prefere bem ou mal passado, filhote? – Aaron rosnou quando a mão delicada de Cailin tocou seu braço. Na ponta dos pés descalços ela sussurrou uma canção gaélica sobre homens, animais e perdão. Uma brisa soprou no corredor e o ódio de Aaron foi diluindo com a doçura da voz de Cailin. Ela retirou sua mão da garganta do outro e pediu que todos fossem na frente. A Sra. Claire seguiu tranquilamente como se estivesse acostumada à situação. Samuel foi assustado. Akila puxou Nicholas antes que ele falasse e Muriel seguiu também.
A governanta abriu a sala de jantar e esperou todos se acomodarem. Akila analisou os móveis do aposento. A longa mesa retangular, os armários, o buffet para sobremesa e a cristaleira, tudo atestado pelos séculos passados. Muriel ficou acanhada com o requinte do aposento, mas Nicholas entrou avisando que estava faminto. Atrapalhado chutou o pé da mesa empurrando castiçais, louças e talheres. Muriel reorganizou a bagunça e distinguiu o brasão da família Krause nos objetos.
Samuel foi conduzido como um menino pela Sra. Claire que alertou a Nicholas O’connor que estava no lugar do anfitrião. Ele pediu desculpas e levantou arrastando a cadeira que chiou agoniando os ouvidos. Muriel invocou a paciência divina quando Nic sentou sorrindo ao seu lado. Cailin e Aaron chegaram. A governanta foi até a cozinha e quando voltou com o carneiro assado, a ruiva foi ajudá-la. Nicholas se ofereceu também, mas Akila mandou o trapalhão ficar sentado. Ligeiro ele pegou o pão no cesto sobre a mesa e comeu fazendo um estranho barulho de contentamento. O banquete foi completado com várias saladas, postas de bacalhau e molhos especiais. Vinhos acompanharam os pratos principais.
Karin apareceu desejando boa tarde e se dirigiu, desconfortável, para ocupar o lugar do seu pai. A governanta estava de pé ao seu lado e ela perguntou discretamente onde estava Cesar. Claire se inclinou sussurrando que o Sr. Dominavit pediu desculpas e preferiu ficar no quarto por causa de uma enxaqueca. A anfitriã acenou e levantou para saudar formalmente os convidados. – Akila, Muriel, Nicholas, Aaron e Cailin, bem-vindos! Eu sou Karin Krause, filha de Donovan Krause. Mesmo que sua presença seja insubstituível, farei o possível para honrar seu lugar. Este almoço é oferecido a vocês, que aceitaram de bom grado o nosso convite e se dispuseram a considerar o pedido de ajuda que em breve vos será apresentado. Comam e bebam em nome da Oportunidade e da Esperança.
A anfitriã terminou e Nic atacou o cordeiro. Os outros o seguiram educadamente até perceberem Muriel de cabeça baixa, olhos fechados, mãos unidas e dedos entrelaçados. Samuel foi o primeiro a imitá-la, Akila cutucou Nicholas e Aaron, impaciente, largou os talheres e se inclinou para o lado apoiando o braço no encosto da cadeira. Desapontada com sua rudeza, Cailin respeitosamente fechou os olhos e não reparou que Aaron fez uma breve oração enquanto ninguém olhava.
O silêncio preencheu a sala nos segundos seguintes. Muriel deu graças pela comida e pelas boas coisas que aparecem nos caminhos inesperados. Akila, que estava muito acostumada a comer sozinha, contemplou o momento e Nicholas fingiu rezar, porque o cheiro do cordeiro anulava sua concentração. Aaron estava angustiado, mas Cailin cantou a gratidão e comunhão no seu coração. Uma lágrima furtiva escorreu pelo rosto de Karin que desejou seu pai amado para compartilhar essa ocasião especial. De repente todos ouviram a oração de Samuel escapar do pensamento. – “Senhor Barba Branca” proteja meus amigos, que eles não briguem porque não quero ficar sozinho. Dê comida aos pobres e cure o outro velhinho. Karin chorou emocionada com a menção ao pai. Aaron se levantou resmungando e saiu. Cailin iria atrás, porém Muriel acenou para deixá-lo sozinho. Nicholas cochichou perguntando quem era esse velhinho, mas calou pelo cutucão reprovador de Akila. Claire providenciou um lenço para Karin que se desculpou justificando que seu pai estava muito doente e pediu que não deixassem a comida esfriar.
O almoço seguiu tranquilamente. Perguntada sobre a Fundação Krause, Karin resumiu sua história e os trabalhos realizados. Akila acompanhou o tema, fazendo questão de demonstrar que conhecia os projetos da fundação. Depois explicou detalhadamente o seu próprio trabalho, exaltando o sucesso dos esforços diplomáticos da NON nos últimos anos. Muriel pregou que toda filantropia reflete a caridade e o amor de Cristo e Cailin evocou sutilmente a bondade e a generosidade da Deusa. Muriel estranhou e todos olharam curiosos para a ruiva que corou ocupando o centro das atenções. Ela explicou que não estava familiarizada com as religiões, mas acreditava na existência da Deusa, da Grande Mãe. Akila se apropriou do assunto discorrendo sobre a deusa Isis e Karin, empolgada, percebia que os convidados se entrosavam.
Nic avisou que estava satisfeito após exterminar todo pavê com frutas secas e chocolate. Finalmente Karin convidou a passarem para a sala de música que mais parecia um pequeno museu com instrumentos antigos, clássicos e tradicionais de diversas culturas. A Sra. Claire serviu café e chá. Depois de algum tempo Aaron reapareceu tentando disfarçar sua chegada, olhando os instrumentos nos pedestais e estantes. O homem de jaqueta era alto, forte e vigoroso. Seu cabelo escuro e comprido caía sobre os ombros largos. O rosto e a barba encruada mostrava uma beleza calejada. Aproveitando o momento, Karin puxou assunto perguntando o significado do seu sobrenome, Balaque. – Devastador... – Aaron respondeu num tom quase ameaçador. Fez-se um silêncio desconfiado e ele permaneceu olhando a réplica do instrumento que Lúcifer tocava na orquestra angelical.
Karin se levantou e foi até o Steiways. – Tomei algumas aulas de piano quando criança. – Falou para quebrar o gelo. – Espero não agredir seus ouvidos. – Sua modéstia apareceu nas primeiras notas. Admirada com o talento da anfitriã, Cailin ficou de pé e dedicou a canção para Aaron. Quando começou a cantar, todos ficaram boquiabertos com sua voz cristalina, suave, acolhedora, carregada de paz e nostalgia. Cailin era uma menina aos dezesseis, porém seu canto desvendava a mulher madura, senhora da sua plenitude, uma fortaleza intocada que inspirava segurança e fé. Aaron ergueu a cabeça e fechou os olhos para ouvir a canção que pedia para jogar o sofrimento no oceano e esquecê-lo nas profundezas. Uma brisa passou acalentando seu espírito e sossegando a raiva. Muriel suspeitou que a voz de Cailin atraísse o vento porque outras brisas acompanharam as notas estendidas. Quando terminaram Karin sorriu para Cailin que avermelhou com os aplausos e elogios empolgados de Nicholas. Agora o rosto de Aaron não parecia tão duro.
– Meus amigos! Que alegria estar com vocês! – Karin exaltou. – Por favor, aguardem mais um pouco até a chegada do último convidado. Logo trataremos do assunto que trouxe vocês aqui. Fiquem à vontade. – A anfitriã pediu licença e saiu acompanhada por Claire e Samuel.
Antes que Aaron se aproximasse de Cailin, Nicholas convidou-o para jogar sinuca e tomar uma bebida, querendo fazer as pazes. Akila gostou da ideia e foi também, porém Muriel preferiu voltar à biblioteca. Cailin continuou na sala de música examinando antigas partituras.
PERTO DO CORETO a borboleta azul jazia arruinada...
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