OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.
7 "Prova-se a virtude de um homem apenas na hora do perigo". Friedrich Schiller.
O QUARTO FICOU IMPREGNADO COM A FUMAÇA DOS INCENSOS. Voltar ao local e reencontrar seus pertences provocou-lhe terríveis lembranças, flashbacks que não conseguiu afastar. Dor e remorso instigaram o inimigo. Cesar suava e tremia ajoelhado, mantendo o corpo dentro dos círculos riscados no chão. O mago reforçou a mistura de sal grosso, raspas de carvalho e pó de chifre no traço do primeiro dos quatro círculos cercados com velas especiais, pedras de fogo, novelos de ervas e um cálice de cristal com água imaculada, tudo para tornar o escudo intransponível. O Circulus palladium servia para afastar os opositores, mas Cesar ajustou e triplicou o poder desse ritual para impedir que o outro saísse. Por precaução, o chicote nove caudas e o punhal persa estavam apostos para medidas extremas.
– Porque tanto trabalho para me conter? O que você teme “Cesar”?
– Nigredo! Aqui não tem lugar para sua maldade... Vá embora! – O mago falou nervoso.
– Não diga isso... Você nunca entenderá meus métodos, meu objetivo.
– Objetivo?! Você nunca teve propósito, Sombrio! Apenas desejos covardes e mesquinhos!
– Sua ingenuidade é deplorável! Toda batalha precisa de peões para sacrificar, sabe disso. Acusa-me de covardia, mas se encolhe supondo que esse truque pode protegê-lo. Criatura medíocre você é!
– Pode ladrar suas ofensas, mas continuará enjaulado, animal. – Cesar sorriu.
– Mesmo? Já conheci as novas crianças. Adorarei me apresentar para elas. – Risos satíricos. – Talvez me prefiram como tutor. Eu daria lições que nem você ou o velhote poderiam ensinar...
– Ardiloso! Você não tocará neles! – O mago gritou pegando o chicote.
– Ora, o que é isso? Pretende me ameaçar assim? Raciocine comigo, “Cesar”, você deve ter um vislumbre do potencial dessas crianças. Imagine o que faria com os poderes deles? O que poderia conquistar? Esqueça aqueles pergaminhos arcaicos! A história já está repleta de profecias que se desmentem! Pense no poder! Do Cubo de Atlântida, os Crânios de Quartzo... Que tal o Piramidion? – Cesar afrouxou o chicote na mão.
– Não... Mãos despreparadas não devem reter o poder... E os eleitos serão designados para um único fim. Só os pergaminhos importam e Karin irá instruí-los para...
– Não seja ridículo! – Nigredo sibilou. – A garota é mais assustada que uma cria suína. Vamos, você sabe como funciona... Eles dominarão seus dons, inflarão seus egos, logo estarão prepotentes e tão exigentes que a menina insegura não saberá controlá-los!
– Eu confio nas escolhas de Sir Donovan! Karin e os eleitos aprenderão juntos, com experiência e sabedoria.
– E se eles falharem? Qual será o preço?
– O preço do Destino! Tudo está traçado! – Cesar ficou mais agitado.
– Então você não deve me culpar pelo passado. A morte dos seus comparsas foi inevitável. – Cesar agitou a cabeça, ofegando e resmungando. – Agora, devolva o que é meu! Chegou minha hora!
– Você não passará! – O mago gritou em desafio.
Disputaram o controle. O corpo franzino tentava se erguer e se prostrava conforme a vontade dominante. Cesar confundia as invocações enquanto sua vontade enfraquecia na peleja. Ele chicoteou as costas e gemeu como um bicho ferrado. A dor aumentou sua determinação e a ferocidade para confrontar o rival, mas a raiva só favorecia Nigredo. As veias inchadas do pescoço e da fronte pulsavam enquanto o sangue já escorria do nariz. Nigredo forçou o controle e Cesar açoitou o corpo com mais força. A dor lacerante provocou um espasmo que o fez soltar o chicote ficando de joelhos, chorando. Cesar sentiu a consciência esvanecer e pegou o punhal persa. Furou a mão, uma, duas vezes, gritando e amaldiçoando Nigredo. Ferido e cansado, o corpo enfraqueceu e o mago apoiou-se instintivamente para não tombar. – A vitória é minha! – Nigredo bradou percebendo que a mão ensanguentada raspou no primeiro traçado. Era o sangue do conjurador que abria o círculo! A vontade de Nigredo aumentou enquanto o outro se reprimia. Cesar reagiu chegando ao limite da resistência. O esforço era tanto que seu corpo foi encolhendo na posição fetal. Enfurecido, Nigredo tentou fazê-lo sair do círculo enquanto Cesar comprimiu-se para fazer o opositor desistir...
AS HORAS PASSARAM. No escritório, Karin já admitia a falta do último eleito. Não poderia esperar anoitecer porque se os outros atendessem à convocação, primeiro passariam pelo ritual que deveria começar ao pôr do sol, no momento da conjunção astral descrita no Diário dos Eleitos. Ela estava indecisa. O tempo poderia abater a predisposição de Akila, Nicholas e Muriel. Por outro lado seu afã seria vão se eles traíssem os votos com a Ordem. Karin apequenou-se com a responsabilidade e pensou em declinar da tarefa. Forçou o choro desejando o amparo do pai, então se deu conta que estava sozinha, pela primeira vez. Não, não podia falhar com ele e frustrar o Supremo Conselho. Precisava agir.
OS HÓSPEDES CONTINUAVAM DISPERSOS NO CASARÃO.
Nic e Aaron jogavam sinuca mostrando que a rusga do primeiro encontro ficou para trás. De vez em quando Akila substituía Nicholas que ia preparar bebidas exóticas enquanto narrava suas aventuras amorosas provocando muitos risos. Aaron engasgou e Akila se apoiou no taco de tanto rir com a história da cilada feita pela ex que lhe fez entrar como streaper numa festa infantil.
Noutra sala Muriel encontrou a “Divina Comédia” na surpreendente versão italiana do século XIV, o Malleus maleficarum numa incrível segunda edição, o místico “Zohar Cabalístico” e o enigmático “Manuscrito Voynich” com suas ilustrações. Solene, posicionou as obras à mesa como se preparasse um banquete e logo escolheu a primeira para degustar, traduzindo:
Da nossa vida em meio da jornada
Achei-me numa selva tenebrosa
Tendo perdido a verdadeira estrada
Dizer qual era é coisa tão penosa
Desta brava espessura a asperidade
Que a memória a relembra inda cuidosa...
Cailin deixou a sala de música e andou até o salão das piscinas decorado com pinturas de sereias e tritões nos azulejos. Sentou-se à borda molhando os pés e então deitou passando os dedos no espelho d’água. Olhou a porta fechada e logo entrou na piscina usando o vestido verde-menta. Ela nadava graciosa, às vezes mergulhando e emergindo lentamente. Flutuando de olhos fechados era uma flor repousando suave num lago sereno. Pensou na sua casa, nos seus pais. Saudade... Cantou em sua língua natal e uma Ondina apareceu na água para brincar dançando ao seu redor...
Akila se concentrou na tacada certeira, mas Nic empurrou a ponta do taco fazendo a bola subir. Cesar aparou a esfera com um surpreendente reflexo e a fez rolar sobre a mesa até o buraco.
– Vejo que estão se entrosando, isso é bom! Precisarão agir em equipe quando estiverem em perigo. – O mago falou circunspecto.
– Como assim? – Akila desconfiou. – Irei investigar pergaminhos. Que perigo há nisso?
– Nós iremos! – Aaron corrigiu.
– Sim, mas Cesar e Karin não mencionaram os riscos. O que há?
– Crianças, porque acham que estão aqui? Se não houvesse perigo nesta busca, chamariam especialistas: historiadores, arqueólogos, antropólogos... Mas são seus dons, os prodígios que podem realizar é que os tornam mais qualificados que qualquer perito. Eis a razão.
– Acho que estou me sentindo um brinquedo... – Nicholas soltou.
– Não. – Aaron falou guardando seu taco. – Profanos não podem participar da busca. Há muita coisa em jogo. Gente seria capaz de fazer qualquer sacrifício, até matar para conquistar os pergaminhos. Por isso nós iremos...
– Céus! – Nic coçou a cabeça. – Uma superequipe na luta contra o mal? Maneiro!
– Não seja ridículo, rapaz. – Cesar reprovou. – Qualquer homem poderia manifestar suas capacidades latentes se não fosse pela mediocridade existente, mas a questão não é essa. O fato é que estão aqui para desenvolverem seus dons e quanto mais cedo fizerem isso, mas segurança e chance de sucesso nós teremos.
– Então... Como isto será feito, Cesar? – Akila perguntou juntando as bolas de sinuca.
– Vejamos, não há tempo para doutriná-los e prepará-los. Demoraria alguns anos e a busca não pode esperar. Então proponho um teste para usarem seus dons e assim poderei orientá-los.
– Vamos fazer uma prova, chefe? – Nic se preocupou.
– Encontrem Muriel e Cailin Druantia. Estarei no coreto.
Como previsto Muriel foi achada na biblioteca, fazendo a leitura da “Divina Comédia”. Cailin, ao seu turno, se apressou em secar o vestido criando uma espiral de vento em volta do corpo. Depois os cinco saíram do casarão, Akila mais a frente, Muriel, Nicholas e Cailin acompanhando Aaron atrás.
Cesar agradeceu a rapidez. Cailin propôs que mostrassem o que podiam fazer, mas Akila e Nicholas não gostaram da ideia. O mago se precipitou falando que esta resenha não era necessária, pois a ocasião pedia ação extrema. Apontando para os muros poligonais da cerca-viva, explicou que a tarefa seria ir até lá, encontrar uma estatueta e sair do outro lado. Akila achou fácil e Nicholas curtiu o jogo. Muriel não entendeu o “exercício”, mas acompanhou os outros.
– Agora está valendo a viagem! – Aaron largou a jaqueta na grama expondo o bracelete prateado.
– Precisaremos pular o muro? Eu a Cailin não encontramos nenhuma passagem da última vez.
– Ali tem uma entrada... – Cailin apontou.
– Um labirinto?! – Akila admirou-se quando chegaram mais perto.
– Posso me perder com você, gata? – Nicholas galanteou.
– Deus, você não leva nada a sério! Que idade você tem, afinal? – Muriel criticou.
– Calma, moça, só descontraindo! Não fique com ciúme!
– Ora, seu...
– Chega! – Cailin deu um basta, apesar da voz delicada. – Cesar tem mais coisas em mente, fiquem atentos!
– Eu cuido de você. – Aaron falou sério e Cailin ofegou surpresa.
– Essas paredes devem ter uns quatro metros de altura! – Akila observou. – Vamos entrar?
– Podemos nos dividir. – Nic sugeriu. – Vai ser mais fácil encontrar o breguete.
– Num labirinto? Muito inteligente. – Muriel ironizou.
– Vamos juntos. – Aaron se adiantou mancando.
O mago acionou um botão oculto no balcão de madeira no centro do coreto. Seu tampão foi removido automaticamente para revelar um painel com pequenos monitores, muitos botões, chaves, seletores e outros dispositivos. Encarcerado, Cesar implorou para que não fizesse isso, mas Nigredo, agora no controle, mandou calar-se a aproveitar a longa estadia na prisão. – Agora vamos testar as escolhas do velho... – O sombrio falou sádico. – Vejamos do quê esses eleitos são feitos! – Gargalhou.
– É enorme... Quanto tempo levou para construí-lo? – Muriel perguntou ao grupo.
– Não tenho ideia, mas Cailin acertou quando disse que Cesar tem mais coisas em mente... – Akila reparou. – Vejam, duas câmeras! E estão ligadas.
– Olhem, galera, nem as plantas são de verdade! – Nicholas puxou um pedaço das folhagens que descobriu uma parede de metal.
Andaram por alguns minutos, monitorados pela maioria das câmeras ocultas. Akila parou de repente e pediu silêncio. – Escutem esses ruídos... Parecem vir das paredes, ouçam! Parecem... Engrenagens... – Continuaram quietos, mas o nervosismo sussurrava na respiração de Muriel. Os ruídos ficaram mais altos, misturados com estalos e rangidos metálicos. As grossas paredes foram arrastadas e logo deslizaram em ângulos retos chocando-se para formar um hexágono. O grupo estava cercado... Uma passagem se abriu lentamente... Passos ameaçadores...
O manco tomou a frente e Nicholas, mesmo assustado, adiantou-se também. Um urro ecoou aturdindo ouvidos e corações. Aaron mandou se espalharem e Nic duvidou que fosse um cachorro. Cailin correu para a esquerda, mas Akila e Muriel ficaram paradas. – Pai, me ajude... – A ruiva tirou a flauta transversal do cinto e tocou provocando o vento para eleva-la.
Os passos ficaram mais altos... Aaron cerrou os dentes, Nicholas tremeu sentindo o corpo formigar... Alguma coisa brutal estava chegando... – Sim, sim, lá vai ele! – Nigredo bradou. O elmo de ferro protegendo a cabeça e cobrindo parte da crina vermelha até o dorso. O rosto tomado pela energia pulsante. Surgiu o musculoso tronco bronzeado, sustentado pelo vigoroso corpo equino. Muriel sentiu as pernas bambearem e Akila segurou seu braço, apreensiva. O centauro era quase tão alto quanto às paredes do labirinto. Sua parte hominídea era repleta de cicatrizes e a forma cavalar exibia um preto opaco. Pior, estava armado com uma lança e uma pesada rede com bolas de metal nas extremidades.
Empinando o corpo o centauro avançou com a lança apontada para Aaron. O manco jogou-se para o lado da perna sã e caiu desajeitado. A criatura não parou a corrida e Akila paralisada arregalou os olhos ao ver a ponta do aço reluzindo de encontro. Muriel lhe empurrou e virou o rosto contra o golpe perfurando seu peito. Cailin gritou e a lança do centauro brandiu na parede de metal. Perplexos, Akila e Nic viram a arma transpassada pelo corpo espectral de Muriel. Sem ferimento ela flutuou para trás atravessando a parede enquanto o inimigo golpeava a divisória com as patas dianteiras. Aaron valeu-se e projetou um jato de fogo pelas mãos atingindo suas costas. O centauro virou e investiu contra ele fazendo a pesada rede de mangual. As bolas de ferro bateram no lado direito e Aaron foi jogado ao chão. A criatura se aproximou e empinou para esmagar seu peito, mas veio o estrondo e o raio que atingiu o dorso encorpado. O centauro estremeceu e se voltou para o atacante. Cailin pairava com o vento que lhe mantinha no ar. O centauro armou o arremesso da lança, mas Nicholas interferiu saltando no corpo equino. Pendurado na lateral tentou subir nas costas, mas o adversário agitou-se dificultando a ação. A criatura soltou a lança e usou a rede para golpear o flanco, mas Nic desapareceu num súbito clarão e o centauro bateu no próprio corpo que descompassou para o lado. Nicholas apareceu na forma hedionda sobre o dorso equino. Confusa Akila gritou para que saísse de cima, mas Nic se atreveu a dominá-lo. O centauro violento puxou seu braço e o atirou no chão para pisoteá-lo. Outro raio interceptou a criatura: Cailin. Akila respirou fundo e adiantou-se para chamar a atenção do centauro enquanto Nicholas jazia vulnerável. A criatura bradou e arremessou a rede contra ela que se esquivou num salto. Enfurecido o centauro tentou golpeá-la com os punhos, uma, duas, três vezes, sem sucesso. Akila tinha uma destreza acrobática e a criatura, longe de Nic, não conseguiu acertá-la. Encurralada pelos ataques, observou temerosa a aproximação do centauro com a sombra engolfando seu corpo. Num súbito clarão, Nicholas apareceu a sua frente e com uma voz gutural mandou ela se encolher. – Espinhos! – Gritou e arremessou as farpas do antebraço que acertaram o peito da criatura. Fagulhas caíram no chão. – É um ro... – Nic tentou avisar, mas foi atingido por um violento golpe cruzado. O centauro puxou Akila pelo cabelo e ergueu seu corpo, quando Aaron, recuperado, arremessou a lança que enterrou nas suas costas. A criatura tombou nas pastas dianteiras e Akila escapou. – É um robô! – Ela gritou. – Cailin, acerte a lança! Raio! – Aaron comandou. Cantando para o elemento, Cailin concentrou a eletricidade na flauta-bastonete e disparou contra a haste da lança. A druidesa produziu um raio contínuo que passou pela arma e percorreu o corpo do centauro que se restringiu até ficar paralisado. Com tanto esforço a ruiva só conseguiu fazer seu corpo descer perto do chão e despencou inconsciente. Aaron correu manquejando e suspirou aliviado ao constatar que não estava ferida, apenas cansada.
Akila viu Nic nocauteado e chamou Aaron para ajudá-lo. Ignorando a aparência hedionda, ele apalpou o corpo e avisou que as costelas quebradas perfuraram o pulmão. Akila desesperou-se e Aaron tentou ver a saída, quando ouviram o brado odioso. O centauro se reergueu e começou a avançar. Aaron tocou sua perna direita e fechou os olhos preparando o que tinha de melhor para enfrentar o inimigo. Então a energia pulsante sob o elmo cessou e o robô parou prostrado, sem força.
Aaron vigiou ofegante e alerta para outra surpresa. Muriel reapareceu atravessando a parede e avisou que Cesar ou quem quer seja foi dominado por Karin. Aaron não entendeu e ela adiantou que não falaram exatamente com Cesar, mas Karin explicará melhor. Akila alarmou que Nicholas precisava de ajuda. Observando o corpo ferido, Muriel sentenciou friamente que ele morreria em poucos minutos. Então, ignorando a irritação de Akila, ajoelhou-se ao lado de Nicholas e começou a passar a mão rente ao seu corpo tentando sentir o ferimento mais grave: um ponto na costela, como Aaron indicou. Muriel tocou a lesão... Seu rosto enrugou e os olhos mortificaram. Sua mão foi envolvida por uma energia violeta que passou para o corpo do companheiro. Os espinhos soltaram e desmancharam como pó enquanto sua aparência lentamente voltou ao normal. Nic abriu os olhos e agradeceu com um fraco sorriso. Akila olhava abismada, enquanto Aaron aconchegava Cailin no seu peito.
As engrenagens do labirinto foram acionadas e as paredes retrocederam. – Este é o caminho pelo qual viemos. – Muriel falou. – Karin deve estar no comando. Vamos sair daqui. – Andou e sentiu uma dor absurda no estômago. Muriel caiu de joelhos gemendo, os dentes rangendo, lamuriando e rindo com os olhos revirados... Vomitou um jato escuro, gosmoso e podre. Tudo que ingeriu foi espargido no chão...
O GRUPO RETORNOU DEVAGAR AO CORETO. Akila emprestou seu apoio para Muriel e Cailin, suportando a dor na cabeça por causa do puxão no cabelo. Aaron veio mancando, espancado. Nicholas chegou melhor, sentindo apenas o corpo dolorido. Karin e Samuel esperavam. A anfitriã se precipitou para ampará-los. Todos se largaram no assoalho do coreto e notaram Cesar deitado. Akila exigiu explicação. Karin estudou o mago.
– Foi Cesar quem ativou o Desafio de Quíron. Não o nosso amigo, mas o desdobramento da sua personalidade, aquele que se autodenomina Alvarus Nigredo. Graças a Muriel consegui encontra-lo. Ele me ameaçou e precisei deixa-lo em coma psíquico para evitar o pior...
– O que faremos agora? – Aaron perguntou estalando o ombro.
– Tentarei ajudá-lo, mas primeiro chamarei o Dr. Carter para examinar vocês. Samuel, leve Cesar para o quarto.
Entraram no casarão por uma porta lateral que subia para o segundo andar. Claire apareceu para escolta-los até a enfermaria e depois foi telefonar para o médico, a pedido de Karin que reparava desolada a situação. Muriel abatida. Cailin, escoriada, insistindo e ajudando Aaron a deitar devagar na cama. Akila irritada e arrependida por prender o cabelo com um rabo-de-cavalo...
– Ei, viram como apareci nas costas daquele bicho? – Nicholas se agitou na poltrona.
– Um robô. – Karin falou. – Com o labirinto, foi um presente do Grande Nicomedes para o Círculo.
– Presente? Aquilo era uma máquina homicida e o labirinto o nosso cemitério! – Akila protestou.
– Peço perdão pelo ocorrido... A maioria dos iniciados não enfrenta esse desafio... Cesar arriscou a vida de vocês...
– Mas você disse que não era o mesmo Cesar... – Muriel murmurou.
– É verdade... E eu pretendo descobrir exatamente quais eram suas intenções.
– E os outros iniciados, onde estão? – Nicholas perguntou. Aaron e Cailin baixaram a cabeça.
– Eles... “Partiram”... E o Círculo Interno está quebrado desde então.
– Então estamos aqui para substituí-los?
– Não é tão simples assim, Muriel... Agora prestem muita atenção. Meu pai convidou vocês e eu estou aqui para representá-lo. Tenho um pedido a fazer em nome de Sir Donovan Krause. Ele arriscou a vida para encontrá-los, pois acredita, e agora eu também, que vocês estão predestinados a encontrar os pergaminhos perdidos. Esses artefatos, os originais, outrora guardados pela Ocultista Ordem Ofiúco, nossa Ordem, foram perdidos há muito tempo e precisamos achá-los para sancionar uma profecia que se cumprirá em breve.
– Profecia? De que tipo? – Muriel pensou nas Escrituras Sagradas.
– Do tipo que, se for confirmada, a humanidade enfrentará seus dias mais difíceis e nós precisaremos protegê-la como nunca antes. Se vocês concordarem, deverão passar da Metanóia para o Círculo Interno. Então os conhecimentos da Ordem serão compartilhados, gradativamente, enquanto desenvolverem seus dons e a nova compreensão do mundo.
– Fale desse círculo interno... – Akila pediu.
– Nossa Ordem é dividida em dois círculos. O primeiro, chamado Círculo Interno, é reservado somente aos portentos, quero dizer, pessoas como vocês que foram agraciadas com dons. Neste círculo, três membros são designados para funções diretivas compondo a Tríade Real formada pelo Imperador ou Imperatriz, o Rei ou Rainha e o Príncipe ou Princesa. Sir Donovan Krause é o Imperador do nosso Círculo Interno e eu, há três anos... Fui proclamada Rainha. –Karin ruborizou.
– Uau! Eu quero conhecer a princesa! Ela tem namorado? – Nic perguntou.
– Temos um Príncipe, Aleczander Zunniga. Ele chegará em breve. Bem, quanto ao Círculo Externo, é formado por colaboradores sem dons, que decidiram servir à Ordem oferecendo suas aptidões. São chamados Zeladores os que fizeram o voto de auxiliar o Círculo Interno a cumprir seu propósito.
– Que é... – Muriel sugeriu a resposta.
– Proteger a humanidade, servir ao Equilíbrio e buscar a iluminação pessoal. Esses preceitos podem ser conjugados de muitas formas, mas em suma, a Ordem Ofiúco entende que os dons recebidos devem ser aproveitados em benefício do Todo, sendo este seu propósito maior. E quando necessário, quando os corruptos e corrompidos ameaçam o Equilíbrio, a Ordem se manifesta para impedi-los, restabelecendo as condições para que a Humanidade siga o seu caminho evolutivo. Finalmente, pelos ensinamentos da Ordem e pela prática dos preceitos anteriores, cada membro pode buscar e cultivar sua iluminação pessoal.
– E porque fazer isso num grupo secreto? Não poderíamos ir à igreja?
– Ah, Nicholas, – Karin riu da pergunta (Muriel não gostou). – porque historicamente a Ocultista Ordem Ofiúco sofreu muitas perseguições, principalmente na Idade Média. Muitas vidas e muitos tesouros se perderam nesse tempo. Além disso, na cultura moderna, as pessoas estão mais propensas a temer, discriminar, ameaçar e destruir o que não compreendem. Então, por segurança, por zelo aos nossos membros e tradições, sigilo e discrição são necessários.
– Muito bem, Karin. – Muriel elogiou. – Tenho mais uma dúvida. Numa igreja testemunhei um padre, que na minha crença é um homem santo, transformar-se numa aberração que nem consigo descrever. Pelo que Cesar explicou, ele poderia estar entre esses corruptos que você mencionou?
– Sim, Muriel.
– E o que sua Ordem faz com eles?
– Você quer saber se os perseguimos? Não, Muriel, nós não somos caçadores. Respeitamos o direito à vida e acreditamos na redenção. – Aaron deu uma risada discordando. – Mas se eles representarem um perigo iminente e ameaçarem os preceitos da Ordem, infelizmente precisamos pacificá-los.
Claire reapareceu na enfermaria para avisar que o Dr. Carter chegou. Karin agradeceu e saiu com a governanta, mas antes pediu para Akila, Muriel e Nicholas meditarem sobre o que foi conversado e sobre o número de pessoas que serão afetadas por vossa decisão. “Se escolherem abraçar nossa causa, deverão aguardar a iniciação, na Sala de Armas. Do contrário, podem ficar aqui pelo tempo que desejarem”.
O doutor entrou logo depois. Akila reparou as rugas no rosto maduro e o cabelo grisalho que inspirava maturidade, segurança e proteção, conferindo-lhe um ar sedutor. O médico colocou sua maleta sobre a cômoda perto da porta, retirou alguns instrumentos e brincou se Cailin seria a primeira a tomar a injeção. A menina corou olhando para baixo e Akila perguntou se tinha um analgésico. Num tom paternal, Carter respondeu que primeiro iria examiná-la, mesmo que aparentasse estar muito... “saudável”. Akila ficou atraída e testou o médico perguntando se deveria tirar a roupa. Ele engasgou e fingiu não ouvir, seguindo para o leito de Aaron. Cailin pediu baixinho que examinasse a perna dele também. Aaron ficou incomodado com os cuidados do médico, mas Carter conseguiu descontraí-lo contando sua experiência no Exército da Salvação. O paciente até riu com a piada da tartaruga voadora (e todos ficaram admirados por isso), mas mesmo assim não deixou tocar sua perna garantindo que estava tudo bem. O médico concordou, passou para Nicholas, depois para Muriel e Cailin. Enquanto isso, ele relatou seus fracassos amorosos e recebeu conselhos duvidosos de Nic. Muriel gostou de ouvir sobre o período que esteve no Haiti e perguntou do trabalho dos missionários. Percebendo Cailin envergonhada, o médico contou da sua filha Íris, da sua idade; quando criança ela usava o estetoscópio para ouvir seu coração e hoje não liga mais para o seu velho. Nic pediu o telefone dela. Cailin ficou mais à vontade. Finalmente chegou a vez de Akila e só Muriel percebeu que o médico ficou tenso. Akila encarou-o com um olhar ferino e Carter, quase sem piscar, tentou se concentrar ignorando seu decote. Ela perguntou debochadamente se o médico era casado e ele respondeu que só tinha uma gata chamada Julie. Akila gargalhou e lançou um olhar dardejante que fez o médico antecipar o diagnóstico positivo.
Depois de uma hora, o médico realizou as prescrições e se despediu cordialmente.
– Gostei dele... – Akila brincou reparando seu traseiro enquanto saía.
– É, deu para perceber. Eu deveria fazer medicina! – Nic agulhou.
– Karin espera a decisão de vocês. – Cailin lembrou.
– Nossa decisão, você quer dizer! – Akila reformou.
– Já estamos engajados, moça. – Aaron avisou. – Seguiremos com ou sem vocês.
– Mas então, vocês não participarão desse... Ritual? – Muriel questionou.
– Já fomos iniciados. Servimos à Ordem faz algum tempo. – Cailin respondeu.
– Muito bem, então vai ser com a gente, meninas. Ménage à trois? – Nic falou maroto. – Mas já vou avisando, se quiserem ficar comigo, tenho um problemão para resolver.
– Você é um problema ambulante, seu pervertido! – Akila revidou.
– Sério... Vocês viram o que aconteceu com meu corpo, não é?! Preciso cuidar disso...
– Não gostou da sua fantasia de Halloween? – Aaron surpreendeu com a piada.
– Ok, podem zoar... Mas se essa gente vai ajudar, se vou aprender a lidar com isso, então acho que vou ficar...
– E quem garante que têm cura para o seu problema? – Akila duvidou e Nicholas ficou sem resposta. Cailin aproximou e ajoelhou para segurar suas mãos.
– Não sei o que aconteceu com você, mas acredite no apoio que lhe é oferecido. Já conheci pessoas com limitações piores que foram ajudadas pela Ordem. Akila, Muriel, Nicholas... – Voltou-se para os três. – Pensem naqueles que têm problemas e não sabem onde procurar auxílio... Naqueles que ouvem explicações que não aplacam sua angústia... Que ficam desesperados sem tempo para achar uma saída... Pensem nas pessoas que se arrependeram de não ter tentado, que não tiveram a chance de redimir a pouca fé... Antes que percam a vontade, que sigam pelo desespero, por favor... – Cailin se emocionou. – Acreditem em nós! Se forem os eleitos, então nós dependemos de vocês para alcançar os pergaminhos... O destino da humanidade conta com isso...
– Cedo ou tarde o Mal alcança até quem não quer enxergá-lo. Se alguém pode fazer alguma coisa, não deve ficar parado. – Aaron sentenciou.
– É difícil aceitar tudo isso. – Akila franziu o cenho. – Parece que estamos sofrendo uma imposição... Seguimos nossas vidas, fazemos planos, buscamos promoções e paixões... De repente alguém aparece e nos pede para mudar, a troco de quê? Porque devemos nos envolver?
– Mas não é esse o seu trabalho, moça? – Aaron aumentou o tom da voz. – Remediar conflitos, como fez tanta questão de dizer?! Se o chefe manda você jantar com um ditador que tem sangue nas mãos, você não obedece? Porque se envolve então?
– Isso é bem diferente. E não preciso responder... – Ela foi até a porta e tocou a maçaneta.
– Akila, espere! – Cailin pediu e ela parou. – O que Aaron quer dizer é que precisamos da sua ajuda, talvez não para remediar, mas para prevenir um grande conflito, o maior da História. Creio que não seja só uma questão de escolha, mas de possibilidade. Nós podemos. E devemos? O que você pensa?
– Sempre coube a poucos assumir o fardo por muitos... – Muriel divagou pensando nos santos.
– Minha vida não é um fardo. Nunca será. – Akila deixou a sala. O silêncio desabou na sala.
– Acho que nosso time ficou desfalcado! Droga, eu estava quase conquistando ela. E agora?
– Se já tem a sua decisão, Nicholas, Muriel deve dizer qual é a dela...
– Se não me pedirem para mudar a fé, Cailin, aceitarei o que podem me oferecer. Preciso encontrar minha família e talvez o pai de Karin possa ajudar. Eu ficarei.
– Ótimo! Agora precisamos escolher um nome para o grupo? Que tal... Quarteto Miraculoso?
Aaron, Cailin e Muriel ignoraram a ridícula sugestão. Desculpando-se Nicholas seguiu os três que saíram rumo à Sala de Armas. O aposento era enorme e impressionava a soma de artigos arrumados sobre estantes e pedestais. Armaduras, maças, lanças, manguais, punhais, machados, arcos e bestas, martelos de guerra, escudos e dezenas de espadas de todos os tipos e tamanhos. Aaron apreciou o claymore escocês e Cailin observou uma fileira de punhais cerimoniais enquanto Muriel estudou uma armadura templária. Nic fez graça colocando um capacete com grandes chifres.
– Pequenas kirpans e duas espadas... Muito pouco para esta coleção... – Alguém falou e todos notaram o indiano com um longo cabelo preso na ponta, vestindo roupas sociais. – É um prazer conhecê-los, eu sou Vachan Siraj.
– Você... – Muriel não sabia como perguntar.
– Estou aqui pela mesma razão que vocês, atendendo ao pedido de Donovan Krause.
– Então vai entrar para o time também? Nicholas perguntou tirando o capacete, esbarrando o cotovelo e derrubando as duas espadas do suporte.
Vachan focalizou as armas no chão e estendeu os braços. As espadas trepidaram e se ergueram no ar. Ele fechou as mãos e balançando os braços, fez as lâminas entrarem numa coreografia marcial zunindo bem perto dos ombros do desastrado. Então o indiano devolveu as armas à base. – Exatamente. Karin Krause pediu que esperasse vocês nesta sala. Garantiu que apareceriam. – Siraj respondeu e foi cumprimenta-los com a melhor etiqueta.
Ouviram um ruído metálico, mas ninguém apareceu pela porta dupla fechada. Em seguida mais dois estalidos e as atenções encontraram um sarcófago encostado na parede do corredor formado por duas estantes com escudos. Muriel se aproximou, acompanhada. O objeto arcaico não era bem um sarcófago, mas uma pesada cápsula de ferro, maior que um homem, com as feições esculpidas de uma dama serena, a Virgem de Nuremberg. A parte dianteira se abriu e Muriel piscou recuando. Dentro não havia cravos de tortura, mas no fundo havia uma escada que descia... – Deve ser à entrada do templo. – Cailin reparou e tomou dianteira. – Venham.
Ela foi adiante seguida por Muriel, Vachan, Nicholas relutante e Aaron por último. A passagem na parede dava para uma escadaria de pedra rústica e estreita que descia sinuosa até o longo corredor coberto por teias e iluminado por antigos lampadários empoeirados. Encontram uma porta de madeira e Cailin usou o puxador de bronze em forma de serpente para bater três vezes, proferindo palavras numa língua desconhecida a cada batida.
A porta se abriu e Claire apareceu usando uma longa túnica cinza adornada com detalhes prateados. Ela fez um gesto solene para entrarem. No aposento, também iluminado por lampadários, havia nas paredes laterais duas fileiras de cadeiras escuras com encostos cumpridos e estofamentos vermelhos. Em frente à entrada tinha um sustentáculo com túnicas pretas e duas capas. Do lado oposto à passagem existia um portal encoberto por um tipo de névoa que parecia uma parede invisível ocultando o outro lado. Com a mesma solenidade, Claire entregou as túnicas pretas que se ajustaram bem aos biótipos do grupo. Depois a zeladora passou a capa vermelha para Aaron e a capa verde-musgo para Cailin que as colocaram cuidadosamente por cima das túnicas. Sentaram-se. Muriel observou novamente o bracelete de Aaron e comparou a joia com o colar prateado exibido por Cailin. Ambos tinham a mesma pedra escura como adorno.
Um sino ecoou pelo aposento. Posicionada ao lado do portal, a zeladora falou com uma voz estranha e arrepiante. “Cavaleiro e Druidesa, cruzem o umbral. Rainha e Príncipe aguardam no templo”. Aaron e Cailin atenderam e atravessaram a passagem enevoada.
– Errantes, queiram levanta-se. – Todos obedeceram. – Vocês que vagaram pelo mundo profano, confirmam neste átrio o desejo de serem iniciados nos mistérios da Ocultista Ordem Ofiúco? – Cada um respondeu positivamente.
– Sim. Mais uma peregrina confirma esse desejo! – Akila Shani apareceu na entrada e Nicholas sorriu olhando de soslaio. Muriel balançou a cabeça confirmando sua suposição.
– Então seja bem-vinda, peregrina. Caminhe em ângulos retos, vista sua túnica e junte-se aos confrades. – Akila agiu prontamente e se colocou ao lado de Muriel.
A sala ficou em silêncio até que o sino ecoou pela segunda vez. – Errantes, atravessem o umbral. Rainha e Príncipe vos aguardam. – Começava o Ritual dos Eleitos...
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