OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.

5 "Quanto maior a confiança, maior a traição". Luthor.


Vachan zapeou os canais da televisão. Um desenho sobre insetos, um filme romântico com uma garota-de-programa, documentários repetidos sobre animais e construções... Lamentou não estar com o celular e o tablet, mas não quis incomodar nem expor a secretária... Como esperado, nenhum telejornal noticiou seu atentado, mas quase todos ainda reportavam o grande terremoto ocorrido na América Central, que há três dias arrasou Mòn-paradi causando inúmeras mortes, desaparecimentos e centenas de pessoas feridas. No último canal uma criança e seu cachorro eram retirados abraçados e cobertos de lama, mortos, dos escombros de uma casa. Enquanto isso o chefe de resgate abocava o choro prometendo multiplicar as buscas com a chegada da ajuda internacional. Neste cenário de impotência, Vachan sentiu o impulso de acelerar suas funções vitais para regenerar completamente o ferimento e sair esta noite, mas, afinal, preferiu ficar e não gerar suspeita. Contava também que o seu agressor cometesse outro erro voltando ao hospital para remediar o fracasso e dessa vez estaria à sua espera...

A hora passou e Vachan não conseguiu dormir, pensativo, mas alerta, ansioso e inquieto como não era de costume. Então acomodou o corpo com os braços estendidos e as mãos viradas para baixo. Fechou os olhos e se concentrou para ignorar qualquer som... Nenhum ruído... Nem a própria respiração... Seu corpo ficou mais leve... Devagar... Já não sentia as batidas do seu coração... Só havia leveza e desapego... Sentiu a mente desprender e se elevar sob o teto do quarto... Lentamente... Continuou pairando, ascendendo sobre cada cômodo, cada andar, sobre o hospital... As luzes da cidade e a escuridão noturna foram superadas... Agora só existia o Vazio Real... E então...

Vachan ouviu sons parecidos com pequenas cascatas e sininhos. No espaço umbroso, o chão arenoso e prateado cintilou suavemente com seus passos relutantes. – Saudações, Viajante. Seja bem-vindo! – Em uníssono ecoaram vozes sublimes e miríades estrelares surgiram iluminando o local sem paredes, com pedras místicas pulsando no chão e estalactites vibrantes. Vachan foi descobrindo os olhos adaptando-se à luz ofuscante.

– Obrigado... Isto é um sonho? Ou estou onde penso que estou?

– Não, Viajante, você não está sonhando. E onde pensa que está depende do que sua consciência pretendia alcançar... – O brilho das miríades estrelares aumentava e diminuía conforme ressoavam as sincrônicas palavras.

– Eu conheço o processo, mas não estou certo como cheguei aqui...

– De fato... Esperávamos outra pessoa, mas seu advento foi providencial.

– Esta é a Vivenda da Mente?

– Este plano tem muitos caminhos e nomes. E esta morada existe desde o princípio para receber seus herdeiros, aqueles que buscam aconselhamento e restauração...

– Sim, eu estudei a respeito... E preciso de ajuda para tomar algumas decisões.

– Nós sabemos e iremos ajudar. Estamos prontos para compartilhar.

– Vocês são pessoas, realmente?

– Sim... Somos adeptos da Elevação, como você.

– Posso saber seus nomes?

– Certamente... Continue receptivo...

As miríades estrelares assumiram contornos humanoides e os Mentores se revelaram. Vachan surpreendeu-se reconhecendo aquele que se manifestou com o brilho mais intenso. Assim começou a aprender sobre este plano psíquico, inclusive que era um entre outros, como os planos do pesadelo e da loucura ocupados por Opressores e Insanadores. Também foi aconselhado. Não recebeu nenhuma solução às suas dúvidas, mas sua convicção foi revigorada. Depois Vachan seguiu pelo caminho de ágatas, ametistas e azuritas até a Fonte das Águas Etéreas onde meditou como nunca antes até sentir que era a hora de voltar.

– Você fez um ótimo progresso nesta elevação inicial, Viajante... – O primeiro mentor, aquele que foi reconhecido, se achegou.

– Anfitrião... Eu não compreendia nossa condição primária... Nossas mentes... Como pudemos atrofiar tanto?

– Não se perturbe... A evolução da mente não está contida em uma única vida mortal... Sua prisão é o esquecimento, mas aqui você recordará e poderá prosperar nesta senda...

– Assim seja. Agora me conte sobre o favor. Quer que eu leve uma mensagem?

O Mentor ficou satisfeito com a intensidade da conexão telepática. Mesmo sem mencionar, o Viajante foi capaz de compreender sua necessidade, que estava impossibilitado de transmitir uma orientação crucial. E ele era a pessoa certa para transferi-la...

AKILA ENTROU NO APARTAMENTO, INTRIGADA COM O RELATO DE CESAR. Mas como seu ex-namorado, o repórter, poderia prejudica-la? E de que modo o favor prestado ao chefe lhe comprometeria? Pensou na sua mãe na cadeira de rodas e na idade avançada do seu pai. Como poderiam ameaçar sua família? E que trabalho justificaria a diligência de Cesar e do seu patrono? Tinha dúvidas, estava preocupada, mas não o suficiente para mudar seus planos e seguir à Fundação Krause.

Quase despida, só com a blusa social, Akila abriu a geladeira, pegou uma bebida energética e voltou à sala jogando-se no sofá. Ligou a televisão, tomou um gole, suspirou e decidiu falar com seu pai. Trocaram amenidades. Ela contou que estava descansando e visitando pessoas em San Thomas. Também comentou, por alto, que estava pensando em seguir uma campanha patrocinada por uma fundação. Certificou-se que todos estavam bem, que sua mãe estava dormindo e então se despediu tranquilizada. Em seguida fez uma segunda chamada para o número privado de Eduard Keller. A ligação não foi completada e ela tentou mais duas vezes antes de largar descontente o aparelho no chão.

Bebeu outro gole e esticou o braço para alcançar o notebook sobre o rack. Com a noite livre decidiu bisbilhotar os arquivos do Projeto Warkna que salvou paralelamente em seu e-mail confidencial quando fez a transferência. Mas desapareceram! Os documentos não constavam na caixa de entrada! Akila praguejou e tentou acessá-la pelo celular. No seu visor e na outra tela a mesma imagem virou um mosaico, fragmentada pelo vírus que destruiu sua conta.

Num surto de raiva ela gritou arremessando o celular na parede e derrubou o note. Levantou e começou a andar de um lado para o outro pensando no aviso de Cesar e de repente ouviu o estouro de sobrecarga elétrica. A luz do apartamento e de todo prédio se apagou. O interfone ficou mudo. Akila se vestiu para saber o que estava acontecendo. Pisou num estilhaço de aparelho quebrado, xingou e ouviu bater à porta. O síndico.

Puxou a maçaneta para reclamar e recebeu uma descarga elétrica que derrubou seu corpo paralisado. A porta abriu e ela, caída, percebeu os sapatos italianos e a calça preta à risca de giz. Agora estava claro que a AGE ou Keller mandou alguém para eliminá-la. O agente entrou calmamente e ela, indefesa, não conseguia se mover. Ouviu seus passos andando pelo apartamento, vasculhando. Algo caiu ao seu lado e Akila gelou ao ver o paletó furtado do alfaiate. Os olhos do seu algoz estavam eletrificados, literalmente...

– O efeito da paralisia vai passar. – Robert falou num tom seco e intimidador. – Depois eu quero que explique como o meu terno veio parar aqui... – Ele sentou no sofá e cruzando as pernas fixou o olhar penetrante no corpo contraído da mulher. Akila começou a piscar e respirar com menos dificuldade.

– Como, como você me encontrou? – Suas palavras saíram picotadas e agudas.

– Vagabunda! – Robert levantou. – Essa NÃO É sua maior preocupação agora! O que você estava tramando, ladra? Diga!

– Não sou o tipo de mulher que está pensando... – Os lábios de Akila tremiam enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas. – Eu, eu queria fazer uma surpresa. Quando saí da sua casa, pedi que o empregado juntasse algumas roupas... Pretendia deixá-las no lugar onde iria levá-lo... Quando nos reencontrássemos... Não consigo parar de pensar em você.

– Mentira! Você a roubou do meu alfaiate! Mas como sabia? Para quem você trabalha, mulher?

– Você está louco?! Não seja ridículo! Algum serviçal ou a sua irmã deve ter apanhado antes! Por favor! Não me machuque!

Robert tentou cuspir outro insulto, mas sua voz travou. Aproximou-se relutante e ajoelhou-se por cima do corpo dela. Ele dobrou as mangas da camisa de seda e colocou as mãos sobre o peito de Akila que tremia com pavor nos olhos.

– Me diga quem é você ou faço o seu coração parar de bater. – A eletricidade nos olhos de Robert ficou mais intensa. – Você vai receber uma descarga e os paramédicos pensarão que enfartou...

– É a verdade... – Falou soluçando.

– Mentirosa! – Ele gritou cuspindo.

– Essa é a verdade! – Akila chorou. – Por favor...

– Diga!

A respiração de Robert acelerou e uma linha de eletricidade surgiu pelos seus olhos. Akila se contraiu na descarga fatal, mas então sentiu o toque... O delicado toque no seu corpo. Abriu os olhos e percebeu Robert encarando, agora com uma expressão sofrida e apaixonada. O ritmo da sua respiração foi amainando. A raiva no olhar deu lugar ao desejo... Ele desabotoou a blusa dela e por alguns segundos admirou seus pomos primorosos... Lentamente achegou seu rosto até sentir o calor do hálito contra a pele eriçada... Sua língua tocou o seio qual o mortal e o divino em Michelangelo... Depois o beijou... Akila gemeu de medo e prazer. Forçando os músculos atrofiados abraçou Robert. Ele tomou sua mulher e levou-a para o quarto, à cama que sabotou sua vingança à primeira vista. Por toda a vida, Akila nunca se sentiu tão vulnerável como agora. Seu corpo jazia quase imóvel à mercê do homem. E gostou...

MURIEL FOI À CASA DE CESAR. O lugar destoava do mosteiro, mas as alegorias e símbolos espalhados proporcionavam um estranho conforto. O ambiente parecia vibrar em liberdade e mistério.

Cesar seguiu para a cozinha e ela, incitada pela curiosidade, começou a examinar cada cômodo que oferecia uma porta aberta. Depois o mago reapareceu na sala trazendo peixe grelhado com ervas e salada. Os gatos se agitaram com o cheiro da comida e Cesar precisou afastá-los para passar. De repente Muriel sentiu fome e sua boca salivou com o salmão temperado. Sentaram-se à mesa e Cesar serviu a convidada que foi engolindo apressadamente até perceber que ele estava reparando. Desculpou-se e justificou que seu apetite também lhe surpreendia. Cesar sorriu e comeu também.

As perguntas de Muriel foram respondidas durante o jantar. Enquanto dividia sua comida com um gato siamês atrevido, Cesar falou sobre o trabalho como professor, da sua paixão por lecionar. Ele contou sobre o fascínio pela astronomia, história, química, antropologia e botânica. Também explicou como entrou no meio esotérico e ressaltou sua empolgação em reunir novos discípulos. Muriel ouvia tudo com atenção, cultivando mais admiração e confiança. Na sua vez falou da amnésia que escurecia seu passado, sobre sua vida e seus dilemas no mosteiro. Finalmente revelou seu drama sobrenatural e o medo de estar amaldiçoada. Cesar escutou tudo com muita atenção, confirmando a precisão do Diário dos Eleitos.

As horas passaram rapidamente com a boa conversa. Cesar e Muriel debateram sobre vários assuntos, inclusive sobre a identidade dos reis-magos citados nos Evangelhos. Nessa altura eles já se tratavam respeitosamente como amigos. O último debate foi encerrado sem a conclusão se o milagre e a magia seriam unificados no mesmo conceito. Satisfeitíssimo Cesar propôs que retomassem a conversa numa próxima ocasião. Então pediu que Muriel se acomodasse no sofá enquanto buscava cobertas e travesseiros. Em seguida desejou um bom descanso e foi repousar.

Deitaram a cabeça no travesseiro ao mesmo tempo. Cesar acumulava contentamento, ansiedade e melancolia. Estava em paz por não ter falhado com Sir Donovan e seu coração acanhado desejava saber o desdobramento dessa história, mas também lamentava não poder acompanhar os eleitos. Muriel sentia vergonha, tristeza e ansiedade. Culpava-se pela felicidade de sair do mosteiro, por deixar a vida espiritual que lhe oferecia abrigo e vocação. Estava triste por imaginar a decepção de Deus com seu egoísmo, por não renunciar um passado nebuloso. Nesse momento as incertezas do futuro eram mais atraentes. Muriel chorou remorso e desapego até que o sono a tomou.

NICHOLAS OUVIU O CHORO PELA PORTA ENTREABERTA. Levantou limpando os olhos e enxergou, pela fresta, o pai tomando um trago de bebida. Gabriele estava no seu colo, soluçando, com a cintura envolvida pelo braço peludo do pai. Ele bateu o copo sobre a mesa velha e mandou que parasse de chorar. Colocou a menina de pé, segurou firme seu cabelo e começou a beijá-la. Nic viu a irmã inerte, aturando aquele bigode arranhando seu braço, suportando o cheiro do bêbado suado, engasgando com os dedos que refreavam seu soluço. Não esperava que ela mordesse. O açougueiro berrou tentando puxar os dedos, mas Gabriele cravou com tanta força que seu corpinho foi à frente nos solavancos. Ele tentou puxar outra vez, gritou, forçou a menina, mas não conseguiu. Bateu na sua cabeça até retirar a mão ensanguentada com dois dedos decepados. O barrigudo entrou em pânico e Nicholas gritou para impedir o pior.

– Pare, papai, é sua filha! – Suplicou amedrontado.

– Sua criaturinha miserável... – O homem falou com a voz rouca e enrolada. – Você não deveria estar acordado. Aliás, nunca deveria acordar. Matou minha mulher e agora? O que sobrou? A menina? É só o que mereço?

– Vá embora, papai. O senhor já bateu nela. Vai para a rua.

– Para a rua? E se eu não for o que você vai fazer, vermezinho?

Nicholas não conseguiu responder. Apavorado ele viu seu pai arrancar o pé estragado da mesa e cambalear na sua direção. Correu para o quarto e fechou a porta, mas a tranca não ofereceu resistência ao violento chute do açougueiro.

– Agora você vai receber um corretivo, moleque. Você tirou sua mãe de mim e agora vou devolvê-lo para ela.

– Não pai, por favor.

Nic se jogou na cama, encolhido, enquanto o bêbado cutucava mirando suas costelas. O menino tentava se proteger, mas o pai puxava seus braços para o lado. Um golpe quebrou sua clavícula e com outra esticada teve o ombro deslocado. Que dor torturante! Sentiu o corpo formigar. Nicholas não soube quanto tempo passou, mas quando o sofrimento cessou, ainda deitado, abriu os olhos e viu seu pai tombado no chão... Alvejado por espinhos. Sua garganta foi perfurada e ele sufocava com o sangue. Reparando o próprio corpo, o menino se aterrorizou com a visão bestial.

– Não! – O grito rompeu o pesadelo e Nic saltou aflito. Sua pele estava repuxada e escurecida como se estivesse queimada. Sentiu a dor lacerante por causa dos longos espinhos projetados nas costas e braços. O lençol foi esfarrapado e as paredes do trailer perfuradas. Assustou-se com a cauda agitada e o espigão em sua ponta. Os esporões nos calcanhares arranhavam o assoalho.

Iris apareceu para conferir se Nicholas dormia. Abriu a porta devagar, reparou que não estava na cama e saiu furtivamente. No teto do trailer Nic viu, pela janela, ela sair sorrateira. Preferiu não aborda-la imaginando sua aparência hedionda. Esperou um minuto e soltou do teto numa acrobacia felina. Foi até a porta e verificou que ninguém estava perto. Lamentou não se despedir de Iris e dos seus amigos. Então deixou o Circo de Órion e correu pelas ruas e prédios como uma besta na escuridão.

ENCOBERTO PELAS SOMBRAS, o vulto apareceu para Magnus Bredariol. O reitor da Universidade Cosmos aguardava paciente, degustando o vinho, sorrindo confiante com seu plano impecável. Finalmente o informante chegou. Apontando o pequeno cetro de osso com o ónix incrustado na ponta, ordenou que se achegasse. Os passos do informante ecoaram pelo salão que tinha apenas uma grande mesa de mogno situada no único ponto em que o luar passava pela cúpula de vidro. Sem cerimônia ele sentou sobre a mesa.

– Cheguei a pensar que não viria! O que me traz? – Magnus moveu a cabeça, soberbo.

– Havia um livro, mas não consegui pegá-lo. – Respondeu balançando as pernas.

– Não?! E você veio só para me dizer isso? – Ele tocou o queixo do informante com o cetro. – Me fez esperar por nada?

– Não, mestre. – Beijou a ponta do cetro sensualmente encarando o reitor. – Eu li as páginas marcadas enquanto ele estava em transe. Passei o dia seguindo-o.

– Magnífico! Conte-me tudo, já!

Iris afastou o cetro com o dedo e deslizou sobre a mesa, tão perto que Magnus agora sentia seu perfume. – Me dê um beijo primeiro, “Magnífico Magnus”... Eu mereço... – Exigiu movendo o cabelo da testa. Magnus Bredariol sorriu admirado com a petulância da amante.

– Sabia que ele não desconfiaria de você... – O reitor beijou ardentemente a aluna. – Então a seita do traidor buscará o artefato... E quando ele for encontrado, a Mandala irá tomá-lo.

– Que delícia, meu amor! Não perderei esse dia por nada! E como vai fazer isso? – Iris bebeu o vinho do cálice.

– Os Quatro Flagelos... – Magnus anunciou com um olhar diabólico. Iris levantou rápido.

– Mas, eles? Por quê? Essas pessoas não precisam morrer.

– Claro que não! Eles só tomarão os pergaminhos... Nigredo é quem vai destruí-los...

Iris sorriu disfarçando a apreensão. No seu íntimo não queria que Cesar e Nicholas se machucassem. Magnus Bredariol apertou seu pescoço e fez com que deitasse novamente. Derramando o vinho sobre o corpo da sua criança, o mago ordenou que ela falasse...