OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.
8 "E amanhã não seremos o que fomos, nem o que somos". Ovídio.
A zeladora ofereceu a passagem aos eleitos. Um a um atravessaram o umbral deparando-se com a escuridão profunda que engolia a claridade. Mesmo a respiração e o pensamento pareciam reprimidos pela treva.
Vachan caminhou por um minuto e sem saber como agir foi sentindo o corpo retrair até ficar paralisado por uma cautela tirana que desqualificou qualquer decisão que tentou tomar.
Nicholas entrou falastrão, fazendo piada, mas quando percebeu que ninguém lhe ouvia, sentiu o desespero crescente e começou a correr e ofegar.
Muriel percebeu que não estava sozinha. Uma presença ameaçadora espreitava na escuridão. Não via formas, mas a sua fé esboçou os piores demônios aprisionados no inferno. Juntou as mãos para rezar, mas seu corpo tremia e as palavras se embaralhavam com o perigo iminente. Agora não era capaz de fazer uma simples oração.
Akila andou confiante, mas sem a luz não conseguiu se enxergar, nem um caminho. Sentiu-se impotente e uma tristeza esmagadora começou a pesar sobre o corpo até deixa-la de joelhos. Queria gritar, chorar, mas uma força invisível sufocava sua garganta.
– Acalme-se, acalme-se... – Vozes sussurraram. – Ouça o teu mestre interior... Conheça a ti mesmo... – Disseram para todos enquanto o desespero tornava-se pungente.
Vachan encarou o medo de errar. Ofegante gritou que não sabia a resposta e quando fez isso, uma força inquebrantável suplantou a dormência do seu corpo e ele caminhou.
Nicholas se deparou com o medo da solidão. Sobreveio o cansaço e a apatia. Já estava desistindo quando ouviu sua respiração ressoar no escuro como se alguém estivesse perto. Deu o primeiro passo hesitante e este ecoou como se alguém lhe seguisse. E assim foi. Seus passos se multiplicaram e ele sorriu sabendo que não estava sozinho, pois alguém sempre lhe acompanhava. Tinha a si mesmo.
Muriel descobriu o medo de ser enganada. Perguntou o que os vultos queriam e em resposta ouviu o coro da própria voz pedindo ACEITAÇÃO. – Nos aceite... – As vozes disseram. – Nos aceite! – E quando Muriel disse “sim”, os vultos demoníacos desapareceram com a sua perturbação.
Akila reconheceu o medo da submissão. Desesperou-se quase sem fôlego, o coração acelerado golpeando o peito. Esfregou os olhos tentando afastar a escuridão que furtava os sentidos. Quase desfalecendo... – Eu não consigo sozinha! Ajudem-me, preciso de ajuda, por favor! – Gritou chorando...
Quando ela abriu os olhos discerniu uma pequena sala iluminada. Não estava sozinha. Deitada, sua cabeça jazia recostada no colo de Muriel, enquanto Vachan, ajoelhado ao seu lado, segurava sua mão. Os três ficaram em silêncio depois da prova de coragem e determinação.
– O que aconteceu? Onde estamos? – Akila soluçou.
– Seja lá o que for, – Muriel respondeu. – já passou.
– E quanto ao outro? Nicholas?! Será que está perdido? – Vachan perguntou.
– Receio que ele não tenha passado, eu já previa. Devemos esperá-lo?
– Ele ficará bem, Muriel. – Akila se ergueu lentamente. – Karin não permitirá que ninguém se machuque. E vejam esta porta. – Ela apontou para o único acesso do aposento. Nela havia gravuras em alto relevo de pessoas, com indumentárias de diversas etnias, em volta de um orbe. – Deve nos levar ao templo.
– Bem, senhoritas... Parece que nossa única opção é continuar.
– Então vamos logo. – Akila esfregou o rosto tentando recuperar a confiança. – Esse lugar é horrível...
As imagens se distorceram na porta criando uma única forma. Vachan andou para trás, de braços abertos, fazendo Akila e Muriel recuarem também. Uma bela mulher de ascendência negra surgiu da porta deixando apenas seus contornos gravados. Sua forma era opaca, translúcida (mas não espectral como a de Muriel) e suas pernas não apareciam visíveis. Tinha um véu sobre a cabeça e na fronte uma tiara adornada com muitos rostos. Na altura do seu coração pulsava o disco com uma espiral prismática que mudava aleatoriamente.
– Não se perturbem... – Falou serenamente com a voz em camadas. – Bem-vindos ao vestíbulo. Meu nome é Egrégora.
– Você é um espírito? – Muriel indagou curiosa.
– Não. Eu sou este templo e a comunhão de todas as forças positivas que emanam dele.
– Nós somos os eleitos, Egrégora, e desejamos passagem. – Vachan falou respeitosamente. – Devemos nos apresentar a rainha e ao príncipe no templo.
– Vosso pedido é sincero, mas para seguirem deverão superar um teste de conhecimento e intuição. Apresentem três respostas para as perguntas que não farei. Se acertarem, passarão...
– Então você quer respostas sem perguntas? – Akila indagou. – Como isso é possível?
– Os verdadeiros eleitos têm as respostas para as perguntas inauditas. No vosso íntimo, DEVEM saber o que será perguntado.
– Muito bem. – Vachan suspirou e fechou os olhos. – Akila, Muriel, esvaziem o pensamento, não importa quanto tempo demore... Tentem escutar a primeira pergunta que surgir na mente e respondam sem hesitar. Comece comigo, Egrégora, se assim desejar.
– Assim seja. – Egrégora ficou em silêncio e a mandala do seu coração pulsou vívida. Pouco depois Vachan deu um leve sorriso e acenou com a cabeça.
– Guardar a Humanidade, zelar pelo Equilíbrio e caminhar na senda do progresso.
– Exato. – Egrégora aprovou e uma exata salva de palmas ecoou no espaço. – Sua atenção voltou-se para Muriel que fechou os olhos lembrando-se de Cesar.
– Eu sinto a resposta... O Círculo Externo... – Começou a gesticular como se escrevesse numa tela invisível. – O Círculo Externo é formado pelos colaboradores da Ordem, pessoas que não são dotadas, mas que ajudam de muitas formas, especialmente com seus conhecimentos. A Sra. Claire e Dr. Carter fazem parte do grupo dos Zeladores. – Eu compreendo... – Falou para si. – Já o Círculo Interno é aquele ao qual aspiramos. Formado por pessoas que têm dons e conseguem realizar prodígios. Tanto os membros do Círculo Externo como os do Círculo Interno recebem a doutrina da Ordem, talvez, num nível diferente de aprofundamento, mas, no circulo de dentro também aprendem a controlar suas capacidades com o objetivo de usá-las de acordo com os princípios ensinados. – Muriel concluiu soltando o ar e abrindo os olhos.
– Excelente. Resposta completa. – Em uníssono outra salva de palmas. – Agora, você deve responder. – Egrégora falou para Akila que disfarçou o nervosismo. A firmeza da resposta de Vachan e a dissertação confiante de Muriel provocou-lhe a maior pressão de acertar. Olhou discretamente para os companheiros, depois cruzou os braços e abaixou a cabeça. Começou a balbuciar uma soturna canção egípcia... Passaram quinze minutos e seu corpo parecia balançar em transe... Vinte minutos... Akila abriu os olhos.
– Algumas pessoas possuem dons, outras não, mas todos podem ser corrompidos. Existe, existe um equilíbrio que precisa ser mantido e quando ameaçado, o Círculo Interno é convocado para restabelecê-lo... – O silêncio imperou no aposento. Egrégora encarou Akila, a mandala pulsando e mais uma salva!
– Correto. Vocês estão aptos. Avancem com sabedoria e cautela, pois a prova seguinte será decisiva para que todos os eleitos cheguem ao templo. – Egrégora recuou e seu corpo retornou à porta restaurando os relevos originais. Em seguida ouviram o ruído como se alguém girasse por dentro a fechadura para destrancá-la. A porta se abriu sozinha revelando uma passagem bem iluminada.
Vachan, Muriel e Akila seguiram o corredor observando os afrescos de pessoas vestindo túnicas perante uma figura maior encoberta por um longo manto que exibia apenas seus dedos alongados. As próximas cenas denunciaram essa figura misteriosa atacando as pessoas de túnica. Depois o enfrentamento. Os últimos quadros apresentaram alguém prostrado enquanto os outros jaziam esquartejados...
– “Karin não permitirá que ninguém se machuque...” – Akila ironizou as próprias palavras.
– O próximo teste está claro. – Vachan ponderou. – Adiante encontraremos alguém que tentará impedir nossa passagem. Seremos desafiados.
– O que está pensando, Muriel?
– A última cena esta confusa para mim, Akila. Reparem bem a posição da pessoa abaixada. Ela... Parece lamentar a morte dos outros. O que significa? – Ficaram em silêncio.
– Então... Seguimos adiante? – Akila perguntou impaciente.
– Parece que sim. Se ele nos atacar, EU irei confrontá-lo. – Vachan avisou confiante. – E vocês não se arrisquem se não puderem ajudar. – Akila não gostou da ordem, mas não contestou.
A porta no final do corredor também abriu sozinha. Pensando na entrada do casarão e nas passagens da sala de armas e subterrâneas, Muriel cogitou que uma força invisível controlava os acessos. O aposento seguinte era um pequeno anfiteatro redondo. Para a surpresa dos três, arquibancadas estavam ocupadas por indivíduos com túnicas cinza, que seguravam longos archotes para iluminação. Seus olhos eram cobertos por máscaras semelhantes às venezianas.
– Guardião! – Vachan apontou para o sujeito, do outro lado da sala, vestindo o manto preto com o capuz encobrindo totalmente sua cabeça. – Nós somos os eleitos e queremos encontrar a rainha e o príncipe. – Falou com autoridade. O guardião deu um passo à frente e revelou suas garras retas que se projetavam para fora do manto como punhais de ossos. Com o espírito guerreiro Vachan caminhou na sua direção; fez uma reverência e assumiu a postura marcial de combate. Os zeladores começaram a bater o cabo do archote no chão produzindo um ritmo cadenciado. Iniciaram um incompreensível cântico ritualístico que logo se tornou frenético.
O guardião correu arranhando o chão com as garras. Antes que atacasse, Vachan desferiu um soco frontal no ar e o outro foi atingido pelo golpe invisível que o derrubou. O indiano avançou e desceu um pisão para acertar seu peito, mas o adversário sumiu. Confuso, Vachan tentou achá-lo quando seu corpo trovejou com a dor cortante nas costas. O guardião acertou um golpe descendente com as garras lanhando o indiano. Treinado para o combate, Vachan assimilou a dor e revidou com um chute para trás, mas seu golpe não foi veloz por causa do primeiro ferimento. O guardião agarrou sua perna e atingiu seu ombro e costelas. Vachan caiu quando o encapuzado largou sua perna. Agora sua atenção voltara para os outros. Muriel tomou coragem e se adiantou, não para enfrentá-lo, mas para distraí-lo, esperando que Akila ajudasse o companheiro caído. O guardião foi agressivo ao seu encontro. Muriel prendeu a respiração e visualizou o golpe atravessando seu corpo espectral, mas o dom não funcionou. Ela só conseguiu recuar para evitar o ventre dilacerado. O guardião cortou-lhe a barriga e o sangue manchou sua túnica escura. – MORRE! – Muriel gritou odiosa. Feridas eclodiram no corpo encapuzado fazendo-o gemer e recuar com a dor causticante. Akila tentou acudir Vachan que dispensou a ajuda para levantar. Agora o indiano estava mais sério, com o olhar compenetrado, absorvendo a cura psíquica. Então fechou os olhos e uma luz estrelada apareceu à frente da sua testa. Ele gritou e o guardião ficou atordoado como se o grito estourasse dentro da cabeça. Com telecinese Vachan arrancou os acentos vazios da arquibancada e arremessou-os contra o guardião que não pôde se esquivar aturdido pelo grito mental. Um grande felino escuro passou rugindo e saltando sobre corpo tombado que sumiu outra vez. Muriel gritou para avisar que ele estava no meio do anfiteatro. Rodopiando o guardião lançou vários projéteis aleatórios que atravessaram o corpo fantasmagórico de Muriel e se chocaram contra o escudo invisível criado por Vachan. O grande felino foi acertado no peito e numa das patas. A fera rugiu ignorando o ferimento: correu e pulou contra o guardião que desapareceu noutro clarão. O felino roncou, o desenho hieroglífico brilhou no seu peito e ele tomou a forma de Akila. – Parem! Não ataquem! – Ela gritou. Muriel recuou, mas Vachan não baixou sua guarda. Desferiu mais um soco telecinético que deslocou o ar e atingiu o guardião em cheio. – PARE! É Nicholas! – Akila gritou vendo a figura recuar dois passos e desmoronar. Ela arrancou os espinhos da perna, do ombro e foi ver o corpo caído. Retirou seu capuz e confirmou: Nicholas O’connor, ferido e confuso na forma hedionda, com a túnica por baixo do manto.
– Você é um anjo? Eu morri? – Nic perguntou forçando a respiração.
– Não, seu bobo. Você ficará bem. Não fale nada. – Akila respondeu preocupada.
– Satisfeitos? Era ISSO que queriam? – Muriel destemperou gritando com os zeladores.
– O teste... – Akila falou quando Muriel e Vachan se aproximaram. – Egrégora recomendou sabedoria e cautela. Ela sabia que encontraríamos Nic. Poderíamos ter evitado tudo isso.
– Mas como iríamos reconhecê-lo? – Vachan estudou a forma hedionda sem cabelo e pelos, a tez enegrecida e repuxada como se estivesse carbonizado, o corpo cheio de espinhos. – Nunca o vi assim.
– E nem eu. – Muriel concordou. – Mas Cesar me ensinou a não julgar pela visão e o coração nessas horas. Akila tem razão. Se tivesse lembrado, ninguém sairia ferido.
– Me desculpem também. – Nicholas falou com a voz gutural. – Não queria machuca-los, mas não reconheci vocês. As vozes na minha cabeça... Cantando...
– Os zeladores! – Vachan falou em reprovação.
– Errante, não se precipite novamente. – Claire surgiu da arquibancada vestindo sua túnica cinza. – Muriel tem razão. Nicholas pararia se o chamassem, mas vocês cederam ao envenenamento mental dos afrescos e quase condenaram alguém sem mesmo conhecê-lo. Felizmente Akila recordou o conselho de Egrégora. Parabéns. Vocês passaram pela Sala Escura, pelo Vestíbulo e o Anfiteatro com sucesso.
– Com sucesso?! – Akila falou irritada. – Estamos machucados! Isso não conta?
– Não se preocupem. Se puderem suportar um pouco mais, garanto que vossa rainha poderá tratá-los e nenhuma cicatriz restará desse encontro. Agora venham atrás dos zeladores.
Muriel apertou o ferimento no ventre. Vachan reergueu Nicholas que ainda sentia a falta de ar. Akila mancava com a perna fendida. Os zeladores começaram um cântico ameno e desceram a arquibancada, em pares, seguindo a passos lentos. Claire bateu três vezes e Egrégora, onipresente e invisível, abriu a porta do templo.
Os zeladores entraram em pares e seus archotes se inflamaram num fogo gélido iluminando o salão retangular. Seguiram dividindo-se entre as colunas gregas que formavam um largo corredor. Atrás, os eleitos caminharam no piso xadrez admirando o teto abobadado com os TREZE zodíacos, sendo o primeiro Sagitário e o décimo terceiro Ofiúco, o domador de serpentes. O signo secreto ficava exatamente acima do altar branco e triangular com o serpentário esculpido: o homem hercúleo jugulando cobras. Nesse altar repousava a estátua em pedra escura polida da serpente de três olhos, mais um objeto coberto por um tecido preto com estrelas prateadas. Do outro lado havia três grandes patamares de pedra com três cadeiras elevadas em níveis diferentes. Um homem ocultado pela sombra ocupava o lugar mais baixo, Karin Krause o intermediário, mas o nível superior estava vazio. Do lado esquerdo do altar os eleitos também notaram o púlpito com videiras cinzeladas e serpentes aladas entalhadas. Ali Aaron Balaque e Cailin Druantia aguardavam solenes.
O homem saiu da sombra e Muriel reconheceu o primeiro sujeito que avistou na enfermaria. Aleczander Zunniga tinha o cabelo liso e loiro que escorria até os ombros como o pálido sol; seus olhos agudos eram cinza e sua pele era alva como a lua prateada. Vestia-se como um nobre medieval. Acima Karin Krause agora sorria belíssima, uma autêntica rainha, usando um longo vestido da cor ametista adornado com um fino cinto prateado e uma tiara de prata repousando delicadamente em sua fronte.
Claire tomou o lugar no púlpito e acenou para os eleitos se achegarem ao altar. Altiva, Karin Krause desceu as escadas enquanto sua beleza real despertava a devoção geral. Nicholas, ainda hediondo, sem mesmo entender ajoelhou-se em reverência. – Meus queridos... – Karin falou compadecida enquanto erguia Nic e acariciava o seu rosto. – São realmente dignos de meu pai! Lamento que tenham enfrentado tanto pesar. Eu cuidarei de vocês e logo não haverá cansaço, dor e sangue para rebaixar vossa conquista. Fechem os olhos! – A rainha postulou e os eleitos atenderam. Seus ferimentos latejantes foram envolvidos por uma sensação de formigamento e frescor; seus corpos ficaram mais leves. Quando a rainha pediu para abrirem os olhos, as contusões, cortes e perfurações haviam desaparecido! Só Vachan compreendeu esse dom avançado de cura psíquica.
– Saudação à rainha! – Claire solicitou e Karin Krause estendeu os braços. Os zeladores cobriram a boca, sibilaram e pisaram forte no chão ao mesmo tempo. – Majestosa rainha! – Aclamaram em uníssono. Karin recuou três passos e voltou a sentar. Aleczander Zunniga também se ajeitou.
Claire iniciou:
– Rainha Mestra, Príncipe Honorável, Testemunhas e Prezados Zeladores... Hoje o templo e as tradições da Ocultista Ordem Ofiúco são revelados para Akila Shani, Nicholas O’connor, Vachan Siraj e Muriel. Esses errantes foram eleitos por vosso Imperador e Grão-Mestre, Sir Donovan Krause, para cumprir um propósito extraordinário. Rogamos à Rainha Mestra e ao Príncipe Honorável que aceitem recebê-los no Círculo Interno elevando-os ao posto de Peregrinos.
– Assim seja! – Os zeladores falaram em coro.
– NÃO! – Aleczander Zunniga respondeu provocando burburinho. – Rainha Mestra, membros da Ordem, – ele começou descendo as escadas – não desejo contestar a escolha de nosso amado Imperador, mas está claro que esta cerimônia não pode prosperar. – Os zeladores se agitaram e Zunniga acenou para falar. – Conforme o Décimo Quinto Mandamento do Terceiro Líber, este ritual deve ser chancelado pela Tríade Real e é óbvio que isto não é possível já que o próprio Imperador não está presente. Além disso, – a voz do príncipe tinha um tom meloso e soberbo, um ronronar irritante – o Quarto Líber, na Trigésima Sexta Diretriz, informa que nenhum profano pode ascender aos níveis intermediários sem vivenciar os graus primários de Aspirante, Neófito e Adepto. Portanto, peço respeitosamente à senhora rainha que adie esta convocação até que as formalidades sejam cumpridas. – Irrompeu o debate entre os zeladores. Aaron encarou Aleczander Zunniga e Cailin, de cabeça baixa, lamentou em pensamento.
– Majestosa Rainha! – Uma voz incógnita pediu a palavra. O príncipe apontou o dedo rispidamente para Vachan não falar, mas sua advertência foi ignorada. – Tenho uma mensagem para transmitir, uma instrução do próprio Imperador.
– Como isto é possível? Como este profano tem a audácia? – Zunniga falou irritado.
– Honorável... – A rainha interferiu. – Na antiguidade certas pessoas eram consideradas “sem língua”, mas como não estamos no Tempo das Trevas. O eleito falará. – O príncipe atendeu resmungando que seria melhor se estivessem.
– Obrigado, Majestosa Rainha. Posso dirigir-me ao púlpito? – Ela consentiu e os zeladores silenciaram novamente. – Creio que meu relato não parecerá estranho a vocês. Na última noite, enquanto me recuperava no hospital, alcancei o objetivo do meu experimento: encontrar a Casa de Ésper e conversar com os Mentores. Isto aconteceu. Neste plano psíquico, Sir Donovan me contatou. – Karin arregalou os olhos. – Ele me aconselhou e pediu que eu prestasse informação quando um opositor se manifestasse aqui.
– Absurdo! Como ousa fazer turbação neste local sagrado? – Aleczander falou agitado.
– Não sou o mensageiro da contenda, senhor príncipe, mas posso ajudar a dirimi-la. Majestosa Rainha, vosso Imperador recomendou a consulta às Cartas de Tenório. – Os zeladores sussurravam novamente.
– Prezada zeladora... Conhecendo os anais da Ordem, pode informar o conteúdo dessas cartas? – Karin Krause perguntou à Claire.
– São instruções subsidiárias para resolver questões ritualísticas, Rainha. – Zunniga se antecipou respondendo com arrogância e sarcasmo.
– Muito bem. Zeladora, queira providenciar os documentos para consulta.
Claire acenou para um jovem zelador perto do púlpito. Ele girou sobre os calcanhares e se afastou para buscar os documentos. A rainha abaixou a cabeça pensativa enquanto Aleczander Zunniga, juntando as mãos, concentrou sua mira colérica em Vachan que se esforçou para não desviar o olhar do príncipe.
Passou algum tempo e o jovem zelador reapareceu para entregar à Claire um velho maço de cartas amarrado com um cordão vermelho. Vachan, parecendo fatigado, cedeu o lugar no púlpito e retornou para os companheiros. A zeladora desatou o laço com muito cuidado e pegou no púlpito uma pinça e uma lupa para examinar delicadamente os manuscritos desgastados. Então acenou para a rainha com o sinal positivo.
– Rainha Mestra e Prezados Zeladores... Príncipe Honorável. A Quinta Carta de Tenório recomenda que em situações de grande relevância ou extrema urgência, a Metanóia comece sem a Tríade Real, desde que o ritual seja autorizado pelo Supremo Conselho. Quanto à elevação dos eleitos ao posto intermediário de Peregrino, a mesma carta informa que a situação é viável dependendo das circunstâncias, do propósito e da maturidade dadivosa dos candidatos. – Claire finalizou e a agitação recomeçou maior...
– CALEM-SE! – O príncipe impôs silêncio e por um instante pareceu que chamas sombrias se ergueram dele. – Rainha, estas observações não são conclusivas. A carta não define o que é uma situação de “grande relevância” ou “extrema urgência”. Além disso, – a voz de Zunniga ficou mais aguda, soberba e irritante – até que se apresente uma prova documental, ninguém pode confirmar a aprovação do Supremo Conselho. Rainha, zeladores, esses eleitos, se é que podem ser considerados assim, não têm nenhum compromisso com a Ordem. Como serão investidos? Que maturidade eles têm com seus dons? O que provaram? Não, senhores no templo, nada deve ser feito até o retorno do nosso amado Imperador... Se é que ele retornará.
– BASTA, Aleczander! Você já advogou demais aqui. – Ele tentou contestar, mas Karin cortou com firmeza. – CHEGA! Agora ouçam... Por favor... Donovan Krause, vosso Imperador, arriscou sua vida para encontrar essas pessoas que atenderam com boa-vontade seu chamado. E ele fez isso na Catedral dos Profetas, perante os Veneráveis, portanto, está claro que sua escolha teve a ciência e a aprovação do Supremo Conselho. Então não duvide, senhor príncipe, da legitimidade deste feito. Os eleitos superaram o desafio de Quíron e seguiram juntos até aqui, como um verdadeiro círculo. Eles passaram com êxito e louvor por todos os testes dos iniciados. E eu garanto, eles SÃO os eleitos! – A rainha parou cadenciando a respiração. – Agora, sem mais objeções, que prossiga o ritual...
– Muito bem, rainha, muito bem. – Zunniga aplaudiu sarcástico. – Mas eu não tomarei parte disso. Não serei coautor desse teatro e só você assumirá esse fracasso. – O príncipe saltou do patamar e desapareceu na sombra projetada no chão!
Os eleitos ficaram aturdidos com tudo que testemunharam. A rainha suspirou e sinalizou à zeladora para continuar. Abrindo outra gaveta do púlpito, Claire anunciou a leitura da Secreta Missão 111, confiada pela Papisa Joana a Chris... – Os zeladores sibilaram e bateram o pé no chão. – A Chris Hunter Baldwin, o maior expedicionário da sua época, para explorar os subníveis então desconhecidos das catacumbas de Roma.
Baldwin e sua equipe vasculharam os refúgios dos primitivos cristãos procurando o túmulo onde supostamente estaria um mártir da Igreja. Depois de percorrerem as galerias mais profundas chamadas Seol, não descobriram o corpo, mas acharam, num altar escondido, um cordeiro embalsamado que se desfez em pó revelando os pergaminhos.
A descoberta foi levada à pesquisa no Vaticano e a equipe de Hunter Baldwin constatou que esses documentos, intitulados Opúsculos Ophiuchus, não traziam o relato do suposto mártir, mas sim a história da mulher pagã nomeada “Liu, Aquela Vestida de Estrelas”.
Fugindo dos Ceifadores, implacáveis caçadores do Oriente, ela se escondeu entre os cristãos, nos níveis mais profundos das Catacumbas de Roma, para registrar suas revelações, os frutos que a humanidade colheria por semear o mal. Quando pressentiu a aproximação dos caçadores, Liu disfarçou sua mensagem e abandonou as catacumbas atraindo os Ceifadores para longe.
Dois anos depois, quando os membros da equipe morreram misteriosamente, Baldwin furtou os pergaminhos e foragiu-se para terminar de decifrá-los. Quando isso aconteceu, o explorador foi tocado pela incumbência de Liu e começou uma peregrinação buscando Os Portadores, pessoas dotadas com capacidades sobrenaturais, que, segundo os Opúsculos Ophiuchus, protegeriam a humanidade quando o mal ganhasse forma. E então, Chris Hunter Baldwin fundou a Ocultista Ordem Ofiúco tornando-se o primeiro Imperador.
Claire encerrou a história sobre a origem da Ordem e os zeladores iniciaram um cântico profético parecido com o gregoriano. Depois o coro foi diminuindo até se transformar num sussurro musical. Nesse plano de fundo, a zeladora preparou-se para enunciar as Sentenças Proféticas dos Opúsculos Ophiuchus concebidas por Liu, Aquela Vestida de Estrelas, primeiro Arauto da Ordem:
I. Nos tempos do fim, grande será o Mal produzido pelo Homem. Seu corpo expurgará a imundice que se condensará no céu criando a Serpente do Caos. Ela descerá da grande espiral para tocar e revelar a aparência e a maldade da besta interior. Essas bestas serão as pragas do holocausto. – A Criação Maculada! – Os zeladores afirmaram em uníssono.
II. Encobertas pela face do Homem, as pragas vagarão incitadas pelo instinto de vingança contra os seus criadores. Elas viverão para conduzir o mundo à escuridão. – A Natureza do Caos! – Anunciaram.
III. E quando as pragas não temerem a luz o mundo viverá seus dias de maior aflição. Neste tempo aparecerão homens e mulheres agraciados com dons e prodígios para enfrentar a ameaça das trevas. A Serpente do Caos não tocará os Portadores, mas eles serão preenchidos pelo poder de Ofiúco. – O Fiel da Balança! – Os zeladores proferiram.
IV. Mas haverá aqueles que renegarão seu destino e usarão o poder ao seu contento. Eles serão como cegos atingindo todos com o seu cajado e serão amaldiçoados com a solidão. – As Sombras Profanas! – Declararam.
V. Os Portadores deverão partilhar o mesmo caminho e cada um será responsável pelo destino do outro. Os elos da corrente nunca deverão se partir. – Os Elos da Corrente! – Os zeladores proclamaram.
VI. A Serpente do Caos tocará as pragas do holocausto e o poder da Constelação guiará os portadores. No equilíbrio da balança as pragas acharão a libertação e os escolhidos perderão sua dádiva. – O Caminho do Meio! – Apresentaram.
VII. A sombra da Grande Revelação cobrirá a Terra. Este será o dia... – Da Grande Comunhão! – Os zeladores exclamaram.
VIII. E em cada ciclo da Humanidade, um Elo aparecerá banhado em ouro e este sinal revelará sua missão de conduzir a redenção. O Elo Dourado não partilhará seu caminho com ninguém, pois seu destino é... – O Elo Dourado! – Os zeladores completaram.
Começaram um novo cântico, de fraternidade e união. Claire tirou do púlpito o belo recipiente com uma bebida azulada, encheu um grande cálice e entregou-o para Cailin Druantia. Então a zeladora voltou ao púlpito e pegou capas de cores diferentes, passando-as para Aaron Balaque. Os três posicionaram-se ao lado do altar.
– Que a Pitonisa apareça! – A rainha clamou e os zeladores sibilaram e bateram contra o chão. Circulando o espaço da Tríade Real, surgiu lentamente uma figura vestida com farrapos, uma velha corcunda, que tinha o corpo retorcido, o rosto inchado e deformado, com poucos tufos de cabelo branco. Ela não tinha nariz, nem cavidades oculares, apenas uma boca torta, e mesmo assim parecia orientada. Andando devagar, parou na frente dos eleitos.
Karin desceu, retirou a serpente de pedra polida do altar e a confiou à Pitonisa. – Portadores... – A rainha anunciou. – Agora seus espíritos e dons serão examinados para definir a classe que determinará o caminho que seguirão na Ocultista Ordem Ofiúco. A anciã recebeu a escultura e a serpente ganhou vida enrolando-se no seu braço e pescoço. Seus três olhos analisaram bem de perto os eleitos e a Pitonisa proclamou cada classe com uma única palavra torpe e engasgada:
MALSIM, para Akila...
Muriel, a CLÉRIGA...
O GUARDIÃO, Nicholas...
E Vachan, o ARCANO...
Aaron Balaque, o cavaleiro, entregou cada capa à zeladora Claire que as repassou com reverência à rainha. Akila foi agraciada com a capa azul escura, Muriel com a capa branca, Nicholas com a capa marrom e Vachan com a capa ametista. Quando todos vestiram as capas sobre as túnicas, a zeladora puxou o tecido preto com estrelas prateadas sobre o altar e os eleitos observaram um esplêndido estojo de prata aberto contendo diversas joias com pedras escuras incrustadas.
– Agora vocês escolherão a joia cerimonial que carregarão para se apresentarem como membros da Ordem. Apontem a peça almejada e a Majestosa Rainha irá condecorá-los.
Akila deu um passo à frente e apreciando criteriosamente os adornos indicou uma gargantilha. Então a rainha tomou a joia e ornou seu pescoço. – Malsim: sua missão é transportar, investigar e interceptar informações para a Ordem. – Akila riu considerando uma aparente coincidência.
Em seguida veio Muriel que se adiantou e pensando no anel quadrado de Cesar Dominavit, apontou outro, arredondado. A rainha pegou a peça e pôs no seu dedo. – Clériga: será formada nos princípios, leis e tradições de nossa Ordem; seu propósito é cuidar e elevar o espírito dos nossos membros.
Depois chegou Nicholas. Por causa das farpas no seu corpo escolheu um cinturão que poderia esconder com facilidade e não incomodaria sua “transformação”. – Guardião: sua tarefa é supervisionar e proteger as passagens do templo. Em campo, será treinado para despistar e rastrear qualquer alvo. Quando Nicholas recebeu o cinturão seu corpo voltou ao normal.
Finalmente Vachan se apresentou. Passando a mão acima das joias, tentou estabelecer uma conexão vibratória e um bracelete reagiu receptivo. Usando telecine ele direcionou o objeto à rainha. Karin sorriu satisfeita e ao invés de pega-lo, também exercitou o dom para colocá-lo com precisão no pulso de Vachan. – Arcano: quando o Círculo Interno estiver em campo, você deverá liderá-lo, como rezam as tradições de nossa Ordem. Use seu poder com sabedoria e não esqueça que o verdadeiro líder é aquele que se põe para servir.
Vachan retornou ao seu lugar. Karin recebeu o cálice de Cailin. – Druidesa e cavaleiro, assumam suas posições. – A rainha ordenou. Ela e Aaron, usando capas verde-musgo e carmim, respectivamente, se posicionaram ao lado dos eleitos. A Pitonisa evanescera. Os zeladores iniciaram um novo cântico de elevação para o espírito, acompanhados por Claire emocionada. A rainha continuou. – Hoje, o Círculo de Krause ressurge forjado por esta nova aliança. E para consolidar este momento solene, convido o Círculo Interno a beber do mesmo cálice. – Karin Krause tomou o primeiro gole e da direita para a esquerda, a grande taça passou por Aaron, Akila, Muriel, Nicholas, Vachan e Cailin Druantia que sorveu o último gole de sabor suave, adocicado e muito revigorante. Nesse instante o sino ecoou no grande salão. – Iniciados da Ocultista Ordem Ofiúco. Virem-se para serem agraciados! – Então os zeladores retiraram as máscaras e aplaudiram com euforia os novos membros que também ficaram emocionados, talvez afetados pela bebida. Aaron levou a mão ao peito e inclinou a cabeça em reverência enquanto Akila saboreou a admiração dos zeladores. Muriel fez uma oração e Cailin chorou pelo sucesso do ritual. Nicholas, o mais vibrante, abraçava o moderado Vachan que estranhava o excesso do companheiro.
Claire e os demais zeladores aproximaram-se para saudar o Círculo Interno. Alguém tocou o ombro de Akila, o Dr. Carter, vestindo túnica cinza, sorrindo para ela. Akila brincou que ficava mais charmoso de médico e ele riu agradecendo a suposta sinceridade. Cailin abraçou Muriel e Nic estendeu a mão para cumprimentar Aaron. No tom cordial Vachan pediu ajuda à Akila para liderar e ela respondeu orgulhosa que poderia aconselhá-lo. Depois Aaron e Cailin foram apresentados ao indiano.
– Vejam a fivela do meu cinturão! – Nic exibiu. – Gostaram do tamanho, meninas?
– Realmente... É maior que o seu cérebro... – Akila brincou e todos riram.
Claire chamou os iniciados. Todos, inclusive Aaron e Cailin, seguiram-na pela passagem oculta nas sombras entre as colunas perto do altar. Caminharam por um curto corredor até uma sala idêntica ao átrio. A zeladora instruiu que retirassem as capas e as deixassem no sustentáculo. Akila perguntou se deveria devolver sua joia e Claire respondeu que apenas quando seu corpo esfriasse. As indumentárias foram guardadas e a zeladora escoltou o grupo.
A porta dava para uma escada longa e curvilínea que subia até uma bifurcação. A zeladora pediu que adiante trocassem as roupas, indicando o caminho da direita para os homens e o da esquerda para as mulheres. Assim cada grupo chegou aos vestiários com motivos marinhos. Em cabides repousavam sungas, maiôs e roupões.
– Não acredito... – Akila falou bocejando.
– Vamos à praia? – Nic perguntou sonolento do outro lado.
– Troquem as roupas. – Cailin recomendou.
– Não demorem... – Aaron aconselhou.
Os seis reuniram-se no salão das piscinas decorado com pinturas de sereias e tritões nos azulejos. Todos sentiram um sono sobrenatural que foi esvaecendo qualquer constrangimento. A frente da piscina mais rasa, cercada por almofadas, havia um grande incensário na forma de Caduceu. Onipresente, Égregora projetou sua voz em camadas pedindo que acendessem incensos e deitassem para o Banho da Purificação. Cailin tranquilizou explicando que era o final da Metanóia. Ela pediu para Vachan acender a primeira vareta no incensário. Depois Akila, Muriel e Nicholas (quase derrubando o Caduceu) repetiram o rito completado por Aaron e a própria Cailin.
Deixaram os roupões e entraram na água que não chegava ao joelho. Vachan repousou a cabeça na almofada e seu enorme cabelo flutuou solto. Akila exuberou na forma atlética exibindo algumas tatuagens. Muriel, saída do mosteiro, resistia ao sono com seu pudor ao passo que Nic resgatava duas almofadas derrubadas na água para se acomodar. Aaron flagrou Cailin fitando suas cicatrizes e ela desviou o olhar, embaraçada. – Cante para nós, por favor. – Ele pediu quase sorrindo. Cailin fechou os olhos e atendeu. A acústica do salão deixou sua voz tão esplêndida que até uma sereia invejaria. Leves ondulações se formaram massageando os corpos sonolentos. Um-a-um os iniciados adormeceram...
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