OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.
9 "A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda". Provérbios 16:18.
A Sra. Claire apareceu no salão das piscinas com Aaron e Cailin, que foram os primeiros a acordarem. Akila Shani, usando roupão, estava sentada, curvada numa cadeira de palha trançada, a cabeça baixa, com as mãos trêmulas entre as pernas. Depois de anos sentia uma vontade enorme de fumar. – No banho da purificação os sonhos podem assustar. – Sra. Claire explicou. – Foi o seu subconsciente expurgando as negatividades incubadas, mas não se aflija. Logo se sentirá melhor. – Akila suspirou e olhou para a piscina rasa quando Nic levantou resmungando de fome. Depois foi Muriel que recebeu o roupão dado por Cailin e Vachan, por último, reparando como havia escurecido fora do casarão. – É bom vê-los reunidos assim, como um novo círculo, uma nova esperança. – Claire falou contente, observando que todos estavam bem. – Em meia-hora o jantar será servido, não se atrasem...
A governanta retirou-se enquanto os iniciados foram saindo da piscina.
– Difícil acreditar no que aconteceu nos últimos dias... – Muriel falou sentando perto de Akila. – O casarão, o que descobrimos aqui... Essas mãos que podem matar e curar...
– Olha, enquanto puder remendar meu corpo eu não ligo que fique por perto. – Nic se achegou passando a mão nas costelas.
– Acho que não poderei fazer sempre... Não tenho controle. Quando me atacou, tentei me proteger, mas acabei ferida.
– É porque seus dons não estão desenvolvidos. – Cailin explicou tocando as asas do Caduceu. – Creio que nenhum de nós tenha o pleno controle dos poderes, por isso que estamos aqui.
– Verdade... – Akila reconheceu, constrangida. – A propósito, me desculpem não ter ajudado no labirinto. Não queria que se machucassem, mas demorei a entender o que estava acontecendo.
– Tá brincando, gata?! Se não fosse você, aquele bicho teria me esmagado. Você se arriscou para afastá-lo de mim. Que tal um beijo de agradecimento?
– Sai fora, Nic! Não sou uma das suas amiguinhas da faculdade!
– Mas você ficaria linda numa fantasia colegial!
– Então você é uma metamorfa? – Vachan interrompeu acabando de prender o cabelo.
– Não sei. Nunca busquei definir o que sou... Mas a minha mãe dizia, há muito tempo, que meu corpo era o templo dos deuses e que eu poderia tomar suas formas. Mas isso foi antes do acidente, antes dela parar de falar...
– Entendo... E lamento. – Vachan falou solidário.
– Não, tudo bem. O que viram no templo não é comum. Raramente consigo transformar assim.
– Não se preocupe, dona. Ficará surpresa com o que fizer quando estiver em perigo. O risco é o melhor incentivo. – Aaron falou displicente. – Pressão é tudo...
– Você já foi pressionado assim? – Akila perguntou curiosa. Aaron pensou um instante...
– Sim. Já estive em perigo muitas vezes... No passado, antes do mestre me acolher... Já incinerei pessoas... Inocentes também. – Ele confessou sombrio.
– Se está arrependido, seus pecados podem ser perdoados. Mas você também deve se perdoar. – Muriel falou serenamente e Aaron acenou tentando disfarçar, no seu íntimo, a desesperança de acabar com sua culpa.
– Foi um ritual grandioso, não acham? – Cailin deu novo rumo à conversa.
– De fato. Pelas provações e revelações... Haverá outros? – Vachan perguntou.
– Sim, existem rituais para os doze graus da nossa Ordem: Aspirante, Neófito, Adepto, Experiente, Peregrino, Membro Emérito, Benemérito, Honorável, Mestre, Grande Mestre, Mestre Venerável e Arauto. Há também o encontro das Confrarias que reúnem apenas os membros de uma classe... Os Cavaleiros, por exemplo, se encontram para medir força em combate... Druidas se juntam em clareiras para compartilharem tradições e assim por diante. Para frente vocês saberão das maiores convocações...
“Iniciados... A rainha aguarda na biblioteca”. Muriel assustou-se quando a voz em camadas de Egrégora ecoou. Cailin franziu a testa intuindo algo errado. Então o grupo voltou aos vestiários para trocar de roupa. Depois seguiram para encontrar Karin Krause.
– Olá... – Karin acenou com um sorriso preocupado. – Sentem-se, por favor.
– Com licença. O que aconteceu? – Vachan perguntou recuando uma cadeira.
– Durante a iniciação um invasor tentou entrar no casarão. Consegui interceptá-lo no decorrer do ritual e ele falou...
– O que ele quer? – Aaron perguntou ainda de pé.
– Pedir ajuda... – Karin escolheu as palavras para explicar. – Nas ruínas da cidade existe um lugar chamado Liberung... Ele foi fundado por Kamus Khan, um amigo do meu pai na juventude e um poderoso membro da Ordem no passado... Pelo que entendi, ele tentou se comunicar com outro plano aproveitando a conjunção astral desse dia... Mas algo deu errado e ao invés de fazer contato, Kamus abriu um portal... E o que veio parar aqui pode ser uma ameaça...
– Caramba, será que vamos nos acostumar com isso? – Nic perguntou para todos.
– E porque devemos nos preocupar? – Akila discutiu. – Se ele fez besteira, que resolva o problema. Não temos nada a ver com isso.
– O problema é que Liberung não está vazia; o lugar se tornou um refúgio para os renegados da sociedade e eles correm risco. Além disso, se o que apareceu chegar às áreas mais habitadas, a população estará em perigo.
– Então vamos arriscar nosso pescoço pela merda que ele fez... – Aaron resmungou.
– Isso cabe a vocês decidirem. Não queria que se desviassem da busca aos pergaminhos, mas cedo ou tarde o preceito de proteger inocentes exigirá nossa atenção.
– Melhor agirmos agora para não respondermos por omissão no futuro. – Vachan considerou. – Espero que entendam isso.
– Muito bem, temos um código, o que estamos esperando? – Aaron falou sisudo.
– Karin, como nós acharemos esse lugar? – Vachan perguntou.
– O homem que tentou entrar no casarão disse que esperaria no bosque. O acesso à Liberung é restrito, mas ele irá levá-los em segurança.
– Muito bem... Não acho prudente todos nós seguirmos. Se a aparição chegar à cidade, alguém precisa estar aqui para detê-la se for necessário. Melhor que eu, Nicholas e Aaron, encontremos o homem. Akila, Muriel e Cailin ficarão, se concordarem.
– Por acaso não está propondo isso porque somos mulheres, não é? – Akila perguntou.
– Não, claro que não. – Vachan respondeu com diplomacia. – Pensei numa emergência.
Cailin percebeu a coerência de Vachan e aceitou a retaguarda. Muriel julgou não poder ajudar e preferiu ficar também para não atrapalhar. Então Akila concordou pesando ser mais arriscado aventurar-se no lugar desconhecido. Questão resolvida, Karin sugeriu que fossem ao bosque. Ela criaria um elo telepático para manter contato. Mas antes do trio sair, ela revelou que suas joias cerimoniais foram especialmente forjadas com o metal de pujança chamado Kaelum. “Este raríssimo metal azul, forjado pelos antigos magos-armeiros da Ordem, é capaz de aumentar a resistência do corpo tornando-o menos vulnerável ao dano físico. Pretendia contar quando fossem atrás dos pergaminhos, mas a circunstância exige a informação”, admitiu. Apenas Cailin tinha uma ideia do valor dessas relíquias, do seu poder de proteção, mas o trio de algum modo se sentiu mais seguro.
Vachan se adiantou ensaiando a partida e todos foram saindo devagar da biblioteca. O indiano reparou, preocupado, a perna manca de Aaron, mas preferiu não comentar. “Divirtam-se, meninos!”. Akila brincou. Na entrada do casarão tudo estava deserto, silencioso, só os grilos tritinavam. Muriel rogou proteção aos amigos e uma ave agourenta respondeu grasnando. Cailin beijou o rosto de Aaron e voltou apreçada para o casarão... Karin, por fim, pediu cuidado...
As nuvens pesadas deixaram a noite mais escura e o ambiente sombrio; um vento fúnebre assobiou mexendo as folhas secas. Como o Bosque do Salgueiro-Chorão ficava perto do casarão e se estendia até a propriedade, o trio só precisou contorná-la para chegarem ao ponto esperado. Perceberam que o portão alto e gradeado do bosque estava trancado com um pesado cadeado. As árvores farfalhavam com um vento forte que prenunciava a chuva. Nicholas cerrou os olhos tentando achar o sujeito ou até um vigia, mas a silhueta das árvores dificultava a visão.
– O que vamos fazer? – Perguntou enquanto Aaron examinava a resistência do cadeado.
– Apenas aguardar. – Vachan requisitou, mas Aaron, impaciente, precipitou-se para olhar a área.
Pouco depois Nicholas chamou o companheiro afastado. Ele e Vachan avistaram um vulto que passava pelas árvores. Chegando mais perto ele parecia coberto de lama. O indivíduo encostou-se ao portão e se espremeu passando entre as grades estreitas. Sua pele expurgava um visco lodoso e malcheiroso. Aaron espraguejou o fedor e Nic debochou que o sujeito precisava de um banho. Ele riu mostrando os dentes podres e respondeu que nunca imaginou o dia que falaria com seres tão repugnantes. Aaron avançou irritado e Nicholas tentou segurá-lo, mas ele se precipitou para agarrar o homem. – Aaron, espere! – Vachan pediu. As mãos de Aaron resvalaram e apalparam sem aderência o corpo lodoso. Lanec gargalhou se gabando de ninguém poder prendê-lo. Nic segurou Aaron o suficiente para Vachan ficar entre ele e o elemento pedindo calma. Então Aaron decidiu adiar o revide menosprezando a aparência deplorável do sujeito.
– Então... – Vachan iniciou – Lanec, nós vamos ajudar, mas primeiro explique exatamente o que está acontecendo.
– Vocês não parecem grande coisa... Pensei que mandariam mais gente pra morrer!
– Fale logo, seu lixo, antes que mudemos de idéia. – Aaron ameaçou.
– Bem, bem, meu mestre, Kamus Khan, o Senhor da Lua, não deseja nenhuma ajuda. Meu senhor me enviou para fazer o favor de alertá-los sobre o dameron em sua cidade. Ele apareceu em nosso território, mas quando cansar de destruir o que já está arruinado vai seguir pro Exílio e nem a sua polícia e o seu exército conseguirão pará-lo. Ele derrubará, quebrará e matará tudo que estiver em seu caminho. – Lanec fez uma pausa e sorrindo encarou Aaron. – Talvez isso não seja tão ruim...
– E se falarmos com ele? Quem sabe descobrimos porque está irritado? Nic divagou.
– Ele é um dameron, idiota! Você acha que ele fala nossa língua? – Lanec gritou e o lodo do seu rosto pingou no chão. – Pare para conversar e ele arrancará sua cabeça e cuspirá em dois tempos!
– O fedido está certo, rapaz. – Aaron falou para Ben. – Esses bichos são quase irracionais. Quando acharmos o nosso, é melhor pará-lo antes que nos esmague!
– Precisamos analisar melhor a situação. – Vachan considerou. – Karin disse que a criatura apareceu por causa de uma experiência indevida. Se ele não é deste plano, talvez não tenha noção do seu paradeiro, de onde está. Lanec, você o viu? O que pode nos dizer sobre ele?
– Maldição! Como vocês perdem tempo falando! O dameron é grande e poderoso, com o corpo cheio de chifres e presas que podem rasgar a carne. Ele não fala, só rosna e urra.
– Para mim é o bastante. Sabemos quem é o inimigo. Não vejo razão para ficarmos aqui.
– Vamos ver... – Vachan relutou. – Lanec, leve-nos ao local onde ele apareceu.
– Claro que sim. Vou levá-los onde precisam estar...
Lanec cobriu o rosto com o velho capuz do seu casaco cinza e passou pelo grupo mandando que o seguissem. Por causa do mau tempo, as ruas estavam mais vazias. Foram até a passagem do metrô e desceram à plataforma. Lanec ainda sentia o corpo dolorido por causa do espancamento e queria vingança, mas se esperasse o vagão cheio, talvez criasse problemas que desagradariam seu chefe. Preferiu seguir pelo túnel, como muitos sunas faziam. Enquanto os passageiros entravam se acotovelando no vagão, ele se esgueirou até a ponta da plataforma e pulou no trilho. Vachan resolveu segui-lo antes que outras pessoas aparecessem. Aaron foi depois, com certa dificuldade por causa da perna manca e Nicholas desceu por último, surpreso com a iniciativa dos companheiros...
MURIEL SUSPIROU E PERGUNTOU O QUE IRIAM FAZER. Karin tocou seu ombro e respondeu que esperassem o bom retorno dos amigos. “Enquanto isso, vamos jantar e aguardar notícias”, ela recomendou, mas Muriel não ficou empolgada para comer.
A anfitriã e as convidadas subiram. Passaram pelos corredores de parquê e entraram na sala de jantar onde a Sra. Claire vistoriava a mesa forrada com um tecido perolado combinando com a louça. Os talheres refletiam o ambiente com seu polimento prateado; delicadas taças pareciam modeladas com a água da fonte mais cristalina; bandejas de prata ostentavam o cardápio refinado. A mesa estava impecável. Karin sentou-se amparada pela governanta. Akila, Muriel e Cailin também se acomodaram, quando Carter apareceu, tímido, desejando boa noite. Do canto da sala Sra. Claire adiantou-se para preparar seu lugar. Sentada na direção oposta, Akila disparou um olhar provocante e desejoso contra o médico.
Conversaram durante o jantar. Karin relatou o apoio da Fundação Krause à República Sondaga, afetada pela descarga de material radioativo em suas áreas. Muriel falou orgulhosa sobre o trabalho assistencial da igreja nesses lugares e Akila divulgou os esforços da NON, a Nova Ordem das Nações, para aumentar o fundo de amparo aos países indigentes. A discussão ficou acirrada quando todos (menos Cailin) debateram as soluções para o cenário deplorável de certos países. Muriel exaltou a importância da religião para a prevenção de conflitos e Carter lamentou a falta de uma política de saúde competente para reduzir a mortandade. Akila justificou porque as estratégias da NON progrediam lentamente em alguns lugares. Karin acompanhou o debate exaltando os melhores comentários de cada um. E no momento que Akila criticou a influência da religião na política, a discussão ficou acalorada com Muriel. Cailin, que não gostava de debates sobre crenças, aproveitou um instante de silêncio para perguntar a Karin quando partiriam em busca dos pergaminhos. “Quando os outros retornarem... Então trataremos de Zagra”, ela respondeu preocupada. Akila se animou com a viagem e se ofereceu para conduzi-los porque já conhecia a cidade. Testando o humor de Muriel, ela contou sobre os pontos turísticos: a Ponte dos Apóstolos com as treze estátuas em pedestais, incluindo Maria Magdalena, e a grande catedral de Zagra. Carter, já seduzido pela beleza confiante de Akila, comentou que visitou rapidamente a cidade para encontrar seu melhor amigo, o Dr. Metzger.
Quando todos pareceram satisfeitos, a anfitriã pediu licença para ver Cesar Dominavit. Muriel perguntou se poderia acompanhá-la e Karin não viu razão para vetar o pedido. Sua presença seria oportuna e daria um descanso a Samuel que ficara algumas horas de vigília. Cailin, que permaneceu inquieta durante o jantar, avisou que estaria lá fora. Carter se viu sozinho com Akila e comentou sobre tempo tentando evitar o silêncio incômodo. Akila riu e sugeriu que o médico ficasse no casarão. Ele relutou respondendo que nunca ficara ali, que estava cansado e... Akila cortou avisando que se tivesse medo do escuro poderia ficar no seu quarto. O médico tentou argumentar, mas cedeu ao toque dela massageando seus ombros. “Não devemos... Minha filha está...”. Akila sussurrou ao seu ouvido e ele foi atrás...
A REDE METROVIÁRIA SE ESTENDIA PELO SUBSOLO DE SAN THOMAS, cortando a ilha desde o Éden até o Exílio, sua iluminação ficava mais precária enquanto se estendia para o bairro mais pobre. Seguindo pelo túnel, Lanec avançou rapidamente pisando nos dormentes da linha. Vachan, com a visão prejudicada, caminhou equilibrando-se sobre o trilho. Aaron seguiu atrás, tropeçando e resmungando com as topadas enquanto Nicholas, por último, sufocava o riso para não irritar o companheiro da frente.
Caminharam por um bom tempo, encostando-se à parede quando o metrô passava, de vez em quando. O túnel era abafado e o calor tornava o cheiro de Lanec mais repugnante. Vachan continuou concentrado no caminho e Aaron deixou de reclamar querendo apenas ar fresco. Nicholas, que ficou mais atrás para se aliviar, correu para alcança-los. Avançaram mais e mais passando furtivamente pela estação do Exílio e depois por um caminho de entulhos que denunciavam obras esquecidas. Neste ponto fiações clandestinas sustentavam gambiarras com lâmpadas protegidas por latinhas. Lanec avisou que não faltava muito e Aaron reclamou que o saco de bosta devia ter escolhido o pior caminho. Nic riu e Lanec praguejou trocando ofensas com o outro por alguns minutos.
No quilômetro seguinte Vachan parou e fez um gesto pedindo atenção. Ele sussurrou chamando Lanec, que voltou reclamando. Então ele reparou a agitação no túnel e fez uma careta prevendo o pior. Um som estranho foi crescendo na escuridão. “Parecem ratos...”, Aaron suspeitou. Um grito inesperado. Nic ajoelhou-se com a dor dos espinhos rompendo em suas costas. Aaron foi ajudá-lo, mas o companheiro ergueu o braço pedindo distância. Tremendo, ele tentou se reerguer e soltou mais um grito com as farpas que cortaram os antebraços. Os três recuaram vendo Nicholas tatear o ar buscando algo invisível. Suas farpas vibraram e os espinhos dorsais chacoalharam nervosos.
– Não estamos sozinhos! Alguém se aproxima! – Nic alertou e Vachan, aguçando a visão, distinguiu à esquerda um grande portal em arco que parecia uma passagem de galeria.
– Maldição, ela vai nos encontrar! – Lanec falou irritado.
– Podemos correr para alcançar a saída? – Vachan perguntou com frieza.
– Correr? “Dela”? – Aaron ironizou. – Nós não vamos fugir! Vamos ficar e exigir passagem.
– Louco! Você não sabe o que está dizendo! – Lanec desesperou agitando os braços. – Ela controla tudo que rasteja na podridão! Eles devorarão seu corpo e cavarão um túnel da sua barriga até a cabeça!
– Está vindo! – Nicholas falou tremendo com a dor provocada pelo farfalhar dos espinhos.
– Se agrupem! O que quer que aconteça, vamos ficar juntos! – Vachan comandou.
– Precisamos é de luz. – Aaron se adiantou e tentou concentrar sua força nos punhos cerrados. Suas veias se dilataram e o coração acelerou. Uma gota de suor escorreu da testa enquanto o vapor foi emanando das mãos. – Chama vingadora... – Murmurou e seus punhos foram envolvidos por labaredas que iluminaram a área.
– Espere! – Lanec interferiu apreensivo. – Mande fogo nisso!
O suna juntou as mãos e começou a moldar uma substância viscosa. Lançou a pelota e Aaron a atingiu com um jato de fogo fazendo-o queimar. Lanec modelou mais três e arremessou-as em direções diferentes enquanto Aaron as acertava no ar. A substância viscosa era suscetível à combustão. Com a luz bruxuleante o túnel revelou centenas de ratos e roedores maiores, horrendamente deformados, desprovidos de pelos e com dentes estrábicos ameaçadores. As criaturas guincharam agressivas enquanto centenas de ratos formavam um cerco. Um grito de lamento e revolta se propagou na galeria ao lado do túnel e Lanec se encolheu amedrontado. Vachan analisou o portal, Aaron ficou excitado pela ameaça desconhecida, mas Nicholas recuou intimidado.
– Desgraçados! Amaldiçoados! Que agonia e desespero devorem pernas e braços! – Uma voz feminina berrou da galeria, chorosa, odiosa, envergonhada. Ouviram um barulho arrastado, alternado com uma batida seca no chão. Uma grande silhueta se projetou na parede, em frente ao portal da galeria, iluminada pela esfera viscosa que queimava. – Dor! Aflição! Quem interrompe minha expiação?
– Licença, minha senhora! Rogamos passagem pelo seu domínio. – Lanec falou choramingando e em resposta um grito estridente de intolerância e reprovação fez os ratos se agitarem. Nicholas tentou conter a tensão para evitar a transformação. Aaron esboçou uma ofensa, mas Vachan apertou seu braço pedindo que esperasse.
– Licença?! Você está na desavença! Daqui não passarão e seus ossos minhas crias roerão! – Ela soltou uma gargalhada abominável ou um pranto odioso. Vachan estudou a silhueta e calculou sua enorme estatura, a aparência disforme e talvez a corcunda que se projetava entre o ombro e o pescoço.
– Minha senhora... – O líder falou num tom respeitoso. – Perdoe por invadirmos seu domínio. Nós, que pensávamos conhecer o mundo, agora precisamos descobrir o que está embaixo. Seguimos em paz e se não fomos cautelosos, releve nossa urgência, pois caminhamos para um desafio e talvez para a morte em outro lugar.
– Não me chame de senhora, Medonha Insônia é quem dá a resposta. Seu propósito não importa, vossa aparência me enoja! Essa é a minha casa e aqui só há desgraça. – A mulher falou e a rispidez na sua voz foi cedendo à tristeza na medida em que as criaturas do esgoto ficavam menos agitadas.
– Mas você não é má... – Nicholas falou dando um passo a frente. – Não é o que parecemos, mas as escolhas que fazemos. E a cada hora se pode mudar... Gostaria de ouvi-la se quiser conversar.
– Sim... – O ser surpreendeu-se por ele trovar. – Eu já fui jovem, como você... Até a beleza esquecer e o horror enlouquecer... Eles me jogaram no buraco, para o mundo escurecer e a alma esvanecer...
– Mas você, o que é de verdade, não precisa mudar. Sua essência ninguém pode tocar. – Nicholas continuou versando. – Pode vir conosco se desejar. Esse lugar não é sua prisão e não precisa ficar.
– Eu fico onde preciso estar... – Medonha Insônia falou amarga e todos perceberam sua voz menos afetada. – Podem ir, mas você, antes de partir, prometa retornar para conversar e minha história eu irei contar.
– Tem a minha palavra. – Nicholas respondeu sério como nunca antes.
– Então saiam daqui. – Ela ordenou e o som que seguiu poderia ser um cântico ou um choro. Os ratos e criaturas saíram pelos buracos, tubulações e dutos do metrô. Os passos arrastados da mulher recuaram até a silhueta diminuir e desaparecer com o lamento.
Nicholas continuou parado, tocado pela tristeza, imaginando a dor execrada na escuridão. Aaron bateu em seu ombro e Vachan o cumprimentou pela iniciativa. Nic esfregou os olhos contando que escrevia músicas e tocava numa banda antes da faculdade. Impaciente outra vez, Lanec mandou se apressarem para saírem desse lugar.
Caminhando, Vachan perguntou como Nicholas sentiu a aproximação da criatura e ele corrigiu dizendo que era uma mulher. “Acho que os espinhos alertaram a presença dela...”. Vachan concordou ponderando como esta capacidade, se fosse um dom, poderia ajudar numa situação específica. Entrementes, Aaron criticava Lanec por tê-los conduzido para a zona daquela coisa e interrogou se ele tinha planejado a armadilha. O suna se limitou a responder que os esgotos são o domínio de Medonha Insônia e que não esperava encontrá-la no subterrâneo do metrô. “Dizem que suas crias matam quem invade seu território, que ela mesma se alimenta de carne ensangüentada e depois rói os ossos das vítimas!”. Aaron achou graça fazendo pouco caso. Vachan adiantou-se fincando entre os dois para evitar outra rusga.
Lanec finalmente parou, inspecionou o túnel e apontou numa direção. Quando chegaram perto do ponto indicado, notaram uma escada enferrujada, ocultada na escuridão. Primeiro foi Lanec, depois Vachan, Nicholas e Aaron por último. Lanec removeu a tampa do bueiro e todos saíram à superfície.
Vachan inspecionou o lugar enquanto Aaron, de olhos fechados, sentia a garoa em seu rosto, respirando o ar revigorado. Lanec foi se afastando. – E agora, o que faremos? Nic perguntou, raspando a sujeira do tênis na quina da calçada. Vachan continuou observando. Para onde olhasse, o bairro retratava o legado decadente de um sonho distante em San Thomas. A cidade, que no passado tentou se levantar como potência industrial, sucumbiu à crise deixando um deserto de fábricas, prédios arruinados e tombados, ruas cheias de escombros e sujeiras. Quase não havia iluminação, mas latões queimavam lixo clareando as ruas. Entrementes, vultos apreçados se esgueiravam entre as casas quase demolidas, por buracos e becos.
– Venham comigo. – Lanec reapareceu segurando um pedaço de madeira com estopa queimando na ponta. – Os renegados serão avisados que estão de passagem e não irão incomodá-los. Vou levá-los onde o dameron foi visto.
Lanec deu as costas e caminhou seguindo pelo meio da rua esburacada. O trio acompanhou reparando as carcaças dos carros abandonados. Um cadáver ressecado jazia no velho Firebird. Passaram por um poste derrubado e Nic reparou o semáforo quebrado no chão.
Dobraram numa esquina à esquerda e seguiram por uma avenida onde os prédios expunham suas veias-vergalhões. Uma antiga igreja, cercada por arame farpa, entulhos e a porta coberta por tapumes, denunciava a fachada arruinada.
Mais à frente, na Escola 04 de Julho, cadeiras quebradas estavam amontoadas nas janelas, barrando a entrada de invasores. Os muros estavam pichados com ameaças. Vachan pressentiu que estavam sendo observados. A garoa se transformou numa pancada de chuva que deixou Lanec mais irritado. Cortaram caminho por dois quarteirões, com Aaron mancando mais atrás, se esforçando para acompanhar.
– Ali! – Lanec apontou na direção de uma fábrica. – Foi ali perto que vimos o dameron pela última vez. Agora vocês vão sozinhos. Não posso ir mais adiante.
– Covarde... – Aaron rosnou para ele.
– É por nossa conta agora, amigos. Vamos encontrá-lo. – Vachan declarou.
CAILIN DRUANTIA PAROU NA ANTIGA SACADA. Ventava bastante, mas o frio não parecia incomodar. Ela gostava do vento tocando sua pele, acariciando o cabelo, enquanto observava a migração das nuvens com relâmpagos brilhando no interior. Tudo isso lhe trazia uma paz saudosa. Estava tão distante de casa e não fazia ideia de quando poderia voltar. Cailin desejou caminhar sentindo o Campo Teorain pulsando sob os pés; queria se jogar no Penhasco do Silêncio e subir nos braços dos Silfos; voar até o Mar Esmeralda e dançar com as Ondinas; ir para a Ilha Flama brincar com as Salamandras. – Minhas salamandras... – Lembrou e suspirou com os olhos mareados. “Estamos ligados, o que está em cima está embaixo”, pensou. “Se os pergaminhos ajudarem os Homens, o desequilíbrio cessará e poderei voltar...”. Um rosto apareceu em sua mente e Cailin se deu conta que, mais que a saudade de casa, desejava que ele agora estivesse ali. Veio a angústia, com coração pesado e ao mesmo tempo ausente. Queria gritar para não sufocar... “Deusa, o que está acontecendo?” Queria chorar e gargalhar, ser o elemento dele, a terra para acolher, a água para saciar, o fogo para aquecer e o ar para vivificar, tudo, tudo para ele... Aaron... Desejou e veio o medo de perder o que não se tem. – “Como pode ser?” Cailin duvidou da própria resposta. Este sentimento intimidava, desconcentrava, confundia... E acalorava. Lembrou-se do seu corpo na piscina, pelos, cicatrizes, e riu envergonhada lembrando que foi flagrada...
– Precisa de algo, senhorita? – A Sra. Claire perguntou.
– Ah... Não... Só estava tomando ar. – Cailin respondeu surpresa por não tê-la notado ao lado.
– A senhorita parece preocupada. – Claire falou olhando pela sacada.
– Ansiosa. – Cailin respondeu abaixando os olhos.
– Compreendo. No fundo, você gostaria de ter seguido com ele, não é?
– Como?! – Cailin ficou desajustada. Seu coração acelerou e ela não soube o que responder. – Do que está falando? – Tentou disfarçar. Claire sorriu.
– Está certo... Senhorita Cailin, prestar conselhos é uma responsabilidade que excede minhas atribuições. Mas, se me permite dizer, boas coisas, talvez as melhores, podem acontecer nos caminhos que não planejamos. Então, apesar das suas preocupações, saiba que o amor é compatível com qualquer prioridade. Ele edifica, fortalece, aprimora... – Claire olhava para um ponto distante como se relembrasse o passado. – Por isso não receie experimentá-lo, não abdique dessa oportunidade...
– Tenho medo. Ele é tão agressivo... E não sei como agir na presença dele...
– Confie no seu coração e não duvide da sensibilidade deste homem. Conquiste sua confiança e ele irá surpreendê-la. Você saberá o que fazer quando a hora chegar.
– Obrigada, Claire. – Cailin suspirou. – Não esquecerei suas palavras...
– Não precisa agradecer. – A governanta alisou seu cabelo ruivo. – Esta casa ficou tão vazia. É bom ter alguém para conversar.
Cailin se apoiou no parapeito e olhou para baixo medindo a altura da sacada. Ela sorriu e ficando mais à vontade, pediu à Claire para contar sua história. Então soube que há muito tempo, antes de se tornar governanta, ela trabalhava como psicóloga em Paris. Um dia certo amigo pediu sua ajuda com uma criança catatônica que não conseguia superar a morte da mãe. Claire viajou à América, participou da reabilitação da menina e depois de conhecer o único amor da sua vida, percebeu que não queria mais partir. Essa pessoa, seu grande amor, lhe apresentou a Ordem e ela desistiu da profissão aceitando a tarefa, como zeladora, de cuidar diretamente do Círculo de Krause. “Este é o terceiro círculo que tenho a honra de servir”, ela revelou com os olhos mareados. Admirada, Cailin perguntou onde estava esse amor. “Muito longe... E muito perto”, Claire respondeu. Uma vez, explicou, ele julgou que não seria capaz de conciliar suas responsabilidades com o amor dela, por isso preferiu se devotar ao que era mais certo. Cailin lamentou e Claire balançou a mão sinalizando que não estava triste. A ruiva preferiu mudar de assunto: comentou despretensiosa sobre o clima da sua terra e Claire falou sobre sua estação preferida, primavera. Continuaram conversando até a governanta perceber o avanço da hora e pedir licença para organizar o dia seguinte.
Sozinha outra vez Cailin sentiu a ansiedade diminuir. Precisava confiar que Aaron e os outros retornariam bem. Ela passou as pernas sobre o parapeito e recostou na grade da sacada contemplando as nuvens. Retirou do cinto a falta transversal e tocou chamando o vento que respondeu agitando seu cabelo. Cantou, com sua voz suave, cristalina e ardente; deu um passo à frente e jogou-se no ar para logo se elevar acima do casarão. Cailin planou e voou cantando na imensidão da noite.
AKILA SERVIU UM MARTINI AO MÉDICO. Estavam no quarto dela, um aposento espaçoso, com bar e suíte, escolhido pela governanta para satisfazer qualquer exigência da hóspede. Akila agora preparava o seu drink e Carter olhava a própria taça buscando um assunto. Ela terminou a mistura, encheu o copo, bebeu num fôlego e completou novamente desafiando o médico. Ele admirou sua rapidez, mas tomou devagar o primeiro trago.
– Você está bem? – Akila perguntou.
– Faz tempo que não bebo com uma linda mulher... Estou enferrujado – Sorriu com um leve constrangimento que o deixava mais atraente.
– Mesmo? Difícil imaginar um médico bonitão sozinho. Suas pacientes dão em cima?
– Não... Elas respeitam, são amigas. E depois da separação, preferi me concentrar no trabalho, nada de aventuras!
– Espero não comprometê-lo... Mas agora, você preferia estar em outro lugar?
– Não, não... Só estou... Apavorado! – Falou desviando o olhar.
Akila contornou o balcão e Carter reparou a renda preta insinuante por baixo da blusa entreaberta. Ela sentou ao lado e acariciou seu rosto. “Desculpe o papelão”, Carter falou e Akila gargalhou soltando o cabelo. “Sua beleza intimida”, justificou. Akila achou a sinceridade cativante. Então beijou suavemente sua boca e numa rápida investida deu o segundo beijo atrevido e dominador. No começo Carter ficou vulnerável, mas logo revidou envolvendo o corpo dela, puxando-o vigorosamente contra o seu peito. Akila gemeu desconfortável, com dores nas costelas. O médico estranhou e pediu que a paciente desabotoasse a blusa. Ela relutou dizendo que não era necessário, que não queria dar trabalho e o médico a repreendeu por não ter avisado no primeiro exame. “Coopere!”, ele pediu. Akila suspirou e desabotoou a blusa. Carter respirou fundo e se concentrou para ignorar os lindos seios alinhados sutiã. Apalpando seu tórax ele reparou os hieróglifos tatuados.
– Essas linhas cicatrizadas, o que são? – Ele perguntou.
– Estilete... E não quero falar disso.
– Hã... Não dói fazer tantas tatuagens?
– Não... Depois da primeira, a dor é tão excitante que não consegue parar. Posso te contar um segredo, doutor? – Akila perguntou fitando o rosto do médico perto do seu seio.
– Claro! O que a paciente conta fica no consultório! – Ele brincou.
– Doutor... – Ela sussurrou. – Tenho orgasmos tatuando o corpo. A última quase me fez derreter... O médico tossiu e tentou recuar, mas Akila segurou seu rosto e falou tocando os lábios na sua orelha. – Nunca contei isso para ninguém... Você quer vê-la? – Carter fechou os olhos imaginando a tatuagem. Akila beijou-o e com um movimento ferino sentou-se no balcão. Esticou as pernas graciosamente, uma por vez, induzindo o obediente à retirar suas botas. Depois o afastou com os pés, desceu e caminhou sensualmente para cima da cama. Desafivelou o cinto e moveu-se com uma serpente, fazendo o corpo ondular e tremer. Boquiaberto, Carter viu a calça dela descer, sem o toque das mãos, para revelar a lingerie preta e magenta. Akila tirou o sutiã e soberba acenou para que ele se achegasse. Então foi descendo sua calcinha, serpenteando à vista dele, devagar, até exibir um pequeno Ankh tatuado no liso púbis. – Você vai morrer e renascer comigo... – Akila provocou e Carter avançou sedento.
Constrangida, Claire fechou discretamente a porta sem os amantes perceberem...
KARIN E MURIEL FORAM AO QUARTO DE CESAR. A porta estava aberta, mas Karin, delicada, bateu chamando a atenção de Samuel. Entraram e Muriel reparou os detalhes do cômodo. O quarto parecia uma extensão da morada do mago, com objetos decorativos, uma estante repleta de livros e uma escrivaninha com o pequeno chicote “nove caudas”. Samuel se levantou do chão esbarrando na cômoda ao lado da cama; fez um gesto brusco de silêncio e apontou para o desenho com os objetos largados. O círculo de proteção ainda estava traçado na ponta da cama, alguns elementos esparramados e o punhal persa abandonado no chão.
Muriel observou os ossos presos às tiras do chicote sobre a escrivaninha. Alguns fragmentos estavam sujos de sangue. Karin pegou a cadeira e colocou perto da cama.
– Ele não vai acordar? – Samuel perguntou preocupado.
– Vai, mas não agora. Precisa descansar e você também. – Karin respondeu sorrindo. – Procure a Sra. Claire e peça alguma coisa para comer. Depois tome seu remédio e deite um pouco, está bem?
– Posso pedir cho-co-la-te?
– Pode sim... – Karin riu. – Mas não coma demais.
Samuel sorriu mexendo as orelhas e acenou com o polegar. O gigante beijou a cabeça de Karin (que acariciou o seu rosto), encarou o chicote um instante e sorriu para Muriel antes de sair.
– Porque ele não foi iniciado? Não viajará conosco?
– Não... – Karin respondeu observando a fisionomia angustiada de Cesar. – Samuel está melhorando, mas ainda não está preparado, ou melhor, a Ordem é que não está pronta para doutriná-lo. Ele tem a mentalidade de uma criança, mas pode ser muito agressivo. Não sabemos como agiria numa situação de risco. Por hora, – ela falou orgulhosa – nossa prioridade são os iniciados.
– E Cesar? – Muriel se achegou reparando o amigo.
– Acho que esse homem não é o Cesar que conhecemos, apesar da sua aparência. Agora ele está em coma psíquico, mas sua consciência está ativa. Vou criar uma ponte e tentar descobrir o que aconteceu. – Karin virou encarando. – E você, Muriel, fique alerta, mas não se precipite ou interfira a menos que eu peça ajuda...
– Cesar pode nos ameaçar assim? Ele pode feri-la?
– Não tenho certeza. O plano psíquico é abstrato, volúvel, construído pela força-pensamento e dependendo da intensidade o choque de consciências pode causar danos físicos.
– Em suma, se o contato for hostil ele realmente poderá machucá-la?
– Bem, tenho uma clériga ao meu lado. – Karin sorriu e tocou os dedos de Muriel. – Eu confio em você. Agora façamos silêncio.
“BOA SORTE, PÁRIAS”, Lanec falou sarcástico, recuando para a marquise de uma loja abandonada. Vachan, Nicholas e Aaron seguiram atravessando a rua rumo à fábrica. Era uma empresa têxtil, mas como tudo no bairro, também estava desolada. Nic perguntou se o monstro estava lá dentro e Aaron, analisando o local, não identificou nenhum vestígio da sua presença. Se o dameron tivesse entrado na fábrica, o peso dos seus passos marcaria o caminho sobre os escombros, com pedras esmagadas e as grades do portão derrubadas. O lugar, entretanto, conservava os destroços sedimentados pelo tempo. Aaron mandou esquecerem a fábrica e Vachan concordou lamentando não ter a capacidade de rastrear qualquer emoção na área. Uma idéia lhe sobreveio então:
– Nicholas, lá embaixo, você percebeu a aproximação daquela mulher, certo?
– Eu não sabia que era ela, mas conseguia sentir sua presença, seu poder...
– E você acha que pode fazer isso de novo? Aqui, pode descobrir onde está a aparição?
– Não sei... No metrô, foi a primeira vez que aconteceu...
– Não custa tentar, rapaz. – Aaron tentou motivá-lo.
– Tudo bem. Talvez eu consiga se estiver transformado... Cuidado... Afastem-se.
Sabendo que a mutação deixaria sua roupa em farrapos, Nic rasgou a blusa furada, tirou o tênis e se agachou apoiando a mão direita no chão, a esquerda na cocha. Era a primeira vez que tentava a transformação e não tinha idéia de como fazer. Ele abaixou a cabeça e pensou na sua irmã e no ódio que sentiu vendo os estupradores. Lembrou-se das risadas, como um homem latia debochando, dos insultos, ameaças e de como arrancavam suas roupas enquanto ela tentava se proteger. – Espinhos! – Gritou e sentiu o corpo formigar, a pele repuxar e os aguilhões crescerem...
Nicholas caiu de joelhos e sorriu nervoso com a dor provocada por dezenas de cortes. Sua aparência hedionda era irreconhecível, a cabeça enrugada encaixada nos ombros largos, o olhar reptiliano, agudo e ameaçador. Sua calda agitava-se com o espigão mortal na ponta. Nicholas testou sua conexão com os espinhos, envergando-os com sua vontade. Então começou a sentir vibrações emanando dos corpos de Aaron e Vachan, oscilando em seus espinhos. Com esta percepção ela sabia que poderia distingui-los e encontra-los, se fosse necessário. – Se ele estiver perto, eu saberei. – Nicholas falou, pela primeira vez, com uma voz rouca, soturna.
O guardião seguiu a frente, aguçando sua percepção. A chuva aumentou e as ruas alagaram espalhando o lixo. Não demorou e os espinhos chacoalharam.
– Mais a frente... Eu sinto o poder dele...
– Então vamos nos aproximar. Agora furtivamente. – Vachan recomendou. – Mostre o caminho...
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