OFIÚCO: OS PERGAMINHOS PERDIDOS.
10 “Vós pré-julgais o que ignorais”. Tertuliano.
O guardião acelerou como um animal caçador à espreita. Vachan seguiu de perto e Aaron mais atrás. Dobraram outra esquina e então avistaram, bem no meio da rua, uma das poucas com luz artificial, o enorme corpo primitivo, enegrecido, com músculos poderosos e chifres curvados na carcaça. Lá estava o dameron, encharcado pela chuva, mais alto que uma casa, com os braços esticados e as mãos estendidas para cima, parecendo entoar um estranho cântico. Sua voz era mórbida e gutural.
– Mas o que ele está fazendo? – Vachan perguntou intrigado. “Vamos nos separar e flanqueá-lo. Depois o atacamos de uma vez...”, Aaron falou removendo o cabelo ensopado dos olhos. O líder concordou que cercassem o alvo, mas avisou que tentaria um contato direto e pediu que só agissem caso fosse agredido. Os companheiros apoiaram.
Tentando ser furtivo, Aaron seguiu pela esquerda visando um buraco. Sua intenção era se aproximar encoberto pelas paredes e muros. Entrementes, Nicholas escalava um prédio com a aderência de um lagarto. De relance Vachan notou sua destreza e voltou a mirar a aparição que estava num tipo de transe. Ele deu o primeiro passo, depois outro e foi chegando devagar, erguendo as mãos lentamente. A chuva castigava o território deserto.
– Olá... Viemos em paz... – A criatura parou, rosnou e virou-se na direção de Vachan. – Não tenha nenhum receio, só queremos saber o que faz aqui. De repente o clarão acima de uma loja e o líder viu Nic, imprudente, afundar no telhado precário. O dameron roncou e seu rugido reverberou pelas construções vazias. Aaron, aproximando-se por um beco, viu o monstro retesar os músculos para dar um grande salto e desaparecer. Nicholas saiu escorregando da loja, começando a perseguição como um animal. Aaron foi atrás, correndo com dificuldade. Vachan sorriu balançando a cabeça e entrou na caçada.
Nicholas captava o poder de criatura e, por mais que ela tentasse se afastar, alcançá-la com o teleporte seria uma questão de tempo. Aaron foi ultrapassado por Vachan que se distanciou, quando o rugido da criatura foi ouvido outra vez.
O dameron sentiu um espinho furar sua panturrilha. Bradou de dor e ódio vendo o atacante grudado na parede do prédio, o corpo esticado prevendo sua reação. Nicholas queria retardá-lo até os companheiros chegarem. O monstro rosnou e buscando um pedregulho, arremessou-o contra o perseguidor. Nic fez o corpo sumir num clarão, quando o pedregulho se espatifou na parede. O guardião reapareceu no chão e arregalou os olhos vendo a criatura avançar contra ele. Um baque atingiu seu ombro e Nicholas tentou recuar, confuso e dolorido pelo pedaço do pedregulho que o atingiu. A criatura urrou a sua frente com os braços estendidos e os punhos cerrados...
KARIN KRAUSE, RAINHA DO CÍRCULO DE KRAUSE, INICIADA NA CLASSE DOS ARCANOS, era um poderoso membro da Ordem Ofiúco. Para alguns, ao menos em San Thomas, sua potência psíquica só era inferior a de Sir Donovan, embora ele declarasse que as habilidades da filha eram mais versáteis. Estudiosos teorizavam que uma pessoa era proficiente em duas, no máximo três disciplinas de um campo psíquico, mas Karin despertou sua mente para diversas áreas em níveis menos desenvolvidos. Ela sabia do risco em explorar a mente treinada de Cesar Dominavit, que sua obstinação criaria defesas psíquicas que dificultariam o contato. E embora não tenha explicado à Muriel, no universo abstrato do mago, as representações de sua complexidade poderiam oferecer um perigo maior do que esperava.
A arcana se concentrou até os sentidos amortecerem. Sentiu a pressão na cabeça, o formigamento no corpo e uma leve ânsia de vômito. A passagem para a mente de Cesar foi mais fácil que esperava e ela percebeu, o mago deixara a porta aberta.
Primeiro Karin sentiu um cheiro forte de mirra e em seguida foi distinguindo o salão circular. Estava deitada sobre uma laje. Ergueu-se e viu ao seu lado mais um altar, vazio. Levantou rápido e examinou o aposento sustentado por velhas colunas de pedra. Nada havia além do portal para saída.
Karin parou a frente das escadarias, do lado de fora. Estava num monte e abaixo avistou uma cidadela que à distância parecia remontar a antiguidade. Descendo os primeiros degraus ela percebeu uma sombra gigantesca se projetar sobre o seu corpo. Virou assustada e se deparou com a ave gigante que estava sobre o templo. Seu corpo altivo se dividia em duas cabeças que olhavam fixamente para ela. Era uma águia bicéfala que impunha respeito e reverência com suas penas douradas como o ouro solar. Ela esticou as asas exibindo sua enorme envergadura e Karin paralisou maravilhada pela visão.
– Sou Palaio-Archidis. – A arcana ouviu duas vozes ecoarem ao mesmo tempo em sua mente. – E você, Filha de Ésper, veio aqui para resgatar uma pessoa...
– Você?! Como sabe disso? – Ela perguntou surpresa.
– Isto não se trata de saber, mas de ser, criança. E eu Sou a ajuda neste plano.
– Então você, vocês, devem saber quem eu busco... Onde posso encontrá-lo?
– É para lá que deve seguir. – Palaio-Archidis voltou as cabeças para oeste. – Desça até a cidadela, encontre à saída e atravesse o campo. Então estará mais perto daquele monte e no seu cume achará quem procura.
– E o que mais preciso saber? – Ela perguntou humildemente.
– Aguce a sua percepção, não esqueça o seu passado, sua preparação, mantenha a determinação e tenha cuidado com aquele que espreita...
– Vou me lembrar. – Karin juntou as mãos entrelaçando os dedos. – Agora eu preciso ir e se não encontrá-lo novamente receba minha gratidão.
O grande pássaro estufou o peito, agitando as asas e as cabeças. Karin acenou e começou a descer a escadaria margeada pelas árvores retorcidas. Mais à frente reparou que os degraus, de dois em dois, tinham larguras diferentes e alguns apresentavam vestígios de símbolos que não conseguia decifrar. Apreensiva por sua ignorância, Karin não teve escolha a não ser prosseguir.
A cidadela estava em ruína. Ela seguiu analisando as ruas estreitas. As casas, de pedra antiquíssima, estavam chamuscadas e as janelas pendiam dos trincos. Cortinas esfarrapadas se agitavam em algumas sacadas. Cerâmicas, barris, tudo quebrado. Portões caídos e paredes entulhadas. O ar estava denso. O local era uma visão em cinza. Passando por uma rua, avistou um chafariz no espaço aberto que parecia uma praça. Cruzando a área, Karin reparou o chão com manchas escuras. Na fonte havia duas estátuas apolíneas com cabeças quebradas, que tentavam se imobilizar numa luta eterna... Então reparou a água corada, viscosa, e ao tocá-la percebeu que era sangue. Ela recuou assustada e se apressou para achar a saída da cidade.
Agora as casas intercalavam com edificações maiores, embora todas as construções parecessem iguais. Cansada e com sede, Karin voltou-se para o monte do templo e aguçou o senso de direção. Precisava continuar a oeste. O silêncio inquietava e o tempo parecia inerte. Tudo continuava cinza, estagnado. Seus pés incomodavam, os joelhos doíam, a coluna parecia travada. Ela acelerou, mas seus passos percorriam uma distância mínima. Construções arruinadas, paredes entulhadas, portões caídos, era só o que via, sempre, sempre. Irritada, Karin pegou um caco de porcelana e jogou contra uma casa, mas a lasca atravessou a parede criando ondulações como um espelho d’água agitado. Surpresa ela riu e gritou, berrou, mas não havia som para o seu desespero. Estava perdida. Recostou o corpo numa parede e o desânimo lhe arrastou para baixo até ficar sentada com os braços envolvendo as pernas dobradas. Sentia-se impotente. Era a primeira vez que fazia uma incursão ao universo psíquico de uma pessoa e apesar dos seus estudos a experiência mostrava o quanto estava despreparada.
– Perdoe-me, pai, eu falhei. – Karin soluçou, ainda culpada por desperdiçar a ajuda de Palaio-Archidis. Pensou no sorriso afetuoso de Cesar, no outro olhar perverso e nas estátuas da praça principal. Karin se levantou querendo voltar, mas num lampejo, várias imagens repassaram em sua mente: dois altares, degraus repetidos, casas idênticas, estátuas gêmeas, tudo estava duplicado porque duas eram as personalidades do mago! – Eu compreendo! – Ela sorriu com a esperança renovada e a dor atenuada. Karin se levantou convicta e correu observando o cenário ao seu redor. Precisava encontrar uma visão dissonante, um ponto sem duplicidade: árvores duplas, carroças parelhas, estátuas idênticas, sacadas repetidas, casas equivalentes, mais do mesmo, tudo igual, tudo... As colunas! Karin parou numa esquina. À direita uma edificação com quatro colunas e à esquerda outra com cinco! Lá estava! O tetrástilo e o pentastilo revelaram o caminho... Depois de andar um pouco ela se deparou com o muro de pedra e o portal da cidade: a saída.
NICHOLAS GRITOU APAVORADO. O dameron golpeou de cima para baixo, os punhos cerrados, descendo os braços com violência. Incapaz de recuar o guardião espremeu os olhos temendo os ossos quebrados. Um baque e um urro. Nic percebeu seu recuo há alguns metros. O teleporte o salvara de novo. Lascas de concreto soltaram dos punhos da criatura. Ela rosnou o desafio batendo nos ombros. “Vamos, onde estão vocês?”, Nicholas pensou, desejando que Vachan e Aaron chegassem logo. Ele chacoalhou os espinhos e devolveu o rosnado exibindo presas pontiagudas. O dameron avançou para desferir um murro cruzado. Nic se esquivou com um rolamento para o meio da rua. O atacante era ágil, apesar do tamanho, e com uma passada à direita desferiu um golpe horizontal para repelir o adversário. Nic saltou e depois evitou um soco direto com o teleporte. O dameron não conseguiu achá-lo na linha de visão, quando Nic girou o braço para lançar uma saraivada de espinhos. Muitos não acertaram, alguns passaram de raspão, mas três acúleos penetraram nas costas da criatura que bradou e arqueou o corpo tentando apalpar o que havia lhe atingido. Nicholas esperou a reação do monstro. Ele se virou e investiu rapidamente com um soco contra o peito. A pancada fez um barulho surdo, seco. Nicholas tentou rolar desesperado, mas seu movimento foi antecipado e ele levou um chute nas costas fazendo-o resvalar no chão. Seu pescoço foi agarrado e corpo arrastado, esfolado no concreto, arremessado nos escombros como um boneco.
O dameron bradou triunfante e deu as costas abaixando a cabeça. Em silêncio esticou os braços com as mãos espalmadas para cima e recomeçou o cântico mórbido. Uma bola de fogo explodiu nas suas costas e ele tropeçou com o impacto. “Vai se arrepender, maldito!”. Aaron gritou. Vachan tocou seu ombro para alertar que Nicholas precisava de ajuda. O líder deu um passo à frente e saudou o oponente como sempre fazia antes do combate. Vachan gostava de enfrentar adversários maiores. O tamanho da criatura parecia um bom teste. Rosnando o monstro firmou os pés e disparou numa carga enfurecida. Percebendo o estúpido ataque, Vachan usou seu dom telecinético para juntar as partículas de ar e criar uma barreira sólida, um escudo quase invisível para fazer o oponente se chocar. Mas o dameron despedaçou a barreira com sua força atropelando Vachan e Aaron. Mortos...
Assim estariam se não fosse pela proteção do Kaelum, o metal de pujança corporal das joias cerimoniais. Os dois levantaram-se com corpos doloridos e grandes hematomas. O dameron enraivecido pegou uma placa de trânsito e batendo-a contra o chão fez a chapa se soltar da barra de ferro. Virou-se e rugiu agitando a clava no ar. Surpreso, Vachan percebeu que menosprezou o adversário de aparência rude. “Precisamos enfrentá-lo juntos”, falou para Aaron. “Faça a sua parte”, ele respondeu...
KARIN PASSOU PELO ARCO DE PEDRA E A CIDADE FICOU PARA TRÁS. À distância viu outro monte e mais perto um vasto campo com uma única árvore sobre a colina. Forçou a visão e lá distinguiu um rebanho descansando, com alguns pastores. Talvez eles pudessem ajuda-la, mas primeiro teria que atravessar o trigueiro que se estendia à sua frente.
A altura do trigueiro abandonado passava da cintura. Karin foi abrindo caminho, incomodada por não ver onde pisava. Na metade do percurso transpirava muito com o calor quase insuportável. Subitamente o ar ribombou e o fogo subiu se espalhando na plantação. A arcana ficou cercada, lacrimejando quase cega pelo calor. Um vento inesperado lançou uma nuvem sufocante de fumaça. Karin sentiu fagulhas queimarem o ombro, o pescoço e gritou com a labareda queimando sua perna. Titubeou para o lado, a garganta ardendo sem passagem para o ar. Lembrou-se do afogamento na infância. A sensação de sufocar com a fumaça era muito pior... Sua visão foi escurecendo, esvanecendo...
Então escutou a voz do pai, cada vez mais perto, instruindo-a, como no seu teste de iniciação: superar o trauma da infância passando sobre um lago... Levitação! A capacidade psíquica de erguer o próprio corpo, esse era o meio! Apesar da perícia limitada, mesmo que não pudesse manobrar, se conseguisse manter o corpo acima do trigueiro não seria queimada.
Concentração. Expansão. Sustentação. Elevou o corpo acima da plantação incendiada e o conduziu mantendo o foco, lentamente. O calor incomodava e labaredas ameaçavam lamber seus pés, mais ao invés de criar um escudo psíquico, Karin preferiu acelerar seu deslocamento em linha reta. Sábia decisão, pois as chamas indomáveis cresceram atrás e ela não foi alcançada.
O esforço desgastou a arcana. Muito cansada, pensou em deitar na grama, mas com a colina adiante, desafiou a fadiga e a sede para tentar encontrar os pastores. A queimadura na perna lateja e ela prosseguiu mancando, observando, aguçando a visão... Seus passos ficaram mais relutantes e cessaram quando viu o rebanho... Os seres tinham corpos de bodes, mas à frente do peito surgiam pequenos braços atrofiados; pernas finas e alongadas se esticavam das ancas, até o chão. Suas cabeças eram humanoides, rostos hediondos cheios de inveja e rancor. Uma criatura preta, com grandes chifres laterais retorcidos, olhos vermelhos e barba caprina, virou a cabeça na sua direção e levantou. Os outros também. Sentindo o vento da ameaça, Karin olhou ao redor e percebeu que não poderia correr se fosse atacada. Esperou. Os Pavores Caprinos foram descendo a colina, desajeitados. Mais de trinta se achegaram...
– Que presente... – O preto de chifres retorcidos falou com rouquidão. – Que presente o destino trouxe para nós! Nunca um ser tão bondoso e belo havia pisado neste campo. Não mesmo. – Ele balia quando terminava as frases. – Qual é o seu nome, meu tesouro?
– Karin... Krause. – Ela respondeu e não conseguiu disfarçar o incômodo pela forma abjeta da criatura. – Alguém que eu procuro está lá, naquele monte. Preciso achar um caminho para encontrá-lo.
– Lá? No Monte das Correntes? – O ser gargalhou e seus cúmplices zombaram. – Não, minha estrela, você não seguirá para lá, não pode ir! Os prisioneiros ficam no cume e o caminho é vigiado pelo carcereiro que não vai deixá-la passar. Se tentar, morrerá.
– Se meu amigo também estiver preso, eu falarei com o carcereiro para soltá-lo. Nós amamos Cesar e precisamos dele.
– Quanto altruísmo! Você é tão virtuosa, meu tesouro. – A criatura se aproximou farejando o cheiro de Karin. – E perfumada! Não... Seria condenável deixá-la ir para aniquilação. Você ficará para cuidar de nós... Hein? – Os Pavores Caprinos baliram.
– Mas eu não posso! Cheguei até aqui e preciso buscar meu amigo!
– Você não vai fazer o que deseja! Vai ficar e nos adular! – A criatura berrou de volta.
– Não! Vocês não podem me impedir!
– E que vai fazer, tesouro? Correr? “Flutuar”? – O ser debochou.
Karin sentiu os pés afundando no gramado que logo virou um charco. Agora não podia correr e estava cansada demais para levitar. As criaturas se aproximaram, balindo cada vez mais alto. O coro da angústia invadiu a mente de Karin e fez sua cabeça doer até ela ficar de joelhos aflita, desorientada...
VACHAN E AARON CORRERAM EM DIREÇÕES OPOSTAS. O dameron perdeu alcance para ataca-los ao mesmo tempo. Hesitou alguns segundos, tempo suficiente para Aaron se concentrar e arremessar duas bolas de fogo que explodiram no seu flanco. Vachan aproveitou para controlar as funções vitais e se deslocar numa velocidade surpreendente. Ele saltou e deu um chute certeiro contra a mão do oponente fazendo-o soltar a barra de ferro, mas recebeu uma tapa repelente que o arremessou à distância.
– Desgraçado! – Aaron gritou e lançou outra bola de fogo. O dameron se encolheu buscando proteção e berrou com a dor provocada pela explosão. Ele avançou tentando quebrar o pescoço de Aaron, mas foi interceptado por uma parede de fogo que o fez recuar trôpego. Com ódio nas órbitas o dameron arrancou e arremessou um bloco de tijolos atingindo o cavaleiro. Vendo o dameron se aproximar do companheiro caído, Vachan usou telecinese para arremessar entulhos que não surtiram nenhum dano. Aaron foi puxado pela perna sã e levantado como um saco. Apreensivo, Vachan se esforçou para arremessar uma caçamba de lixo, mas o oponente a rechaçou com facilidade. Ocorreu um clarão e Nicholas apareceu agarrado nas costas do dameron, um braço envolvendo seu pescoço e o outro rasgando com os espinhos agressivos. A criatura largou Aaron e puxou Nic das costas atingindo o cavaleiro com o corpo do próprio companheiro. Vachan viu Nicholas abatido e Aaron se esforçando para levantar. Ele correu e saltou para tentar um chute duplo, mas o dameron estufou o peito e rebateu o ataque. Vachan foi pisado e seu tórax espremido contra o asfalto. O dameron mirou um pedregulho para esmagar a cabeça de Aaron quase inconsciente, quando um relâmpago caiu à sua esquerda deixando-o alerta. O segundo desabou à direita fazendo-o pular para o lado oposto e o terceiro atingiu-lhe pela frente arremessando-o alguns metros.
Cailin desceu sustentada pelo vento e tocou suavemente o chão com os pés descalços. Guardou a flauta transversal e correu para Aaron que tentou sorrir, cuspiu sangue e perguntou como conseguiu encontrá-los. “Mensageiro do vento...”. A druidesa respondeu enigmática e alisou o cabelo do querido caído. Vachan acudiu Nicholas e examinou seus sinais vitais. Ele ainda resistia. Mesmo inconsciente seus espinhos chacoalharam alertando a presença do inimigo... O dameron rugiu furioso e pisou forte no chão. Seus chifres cresceram com o seu corpo crepitando de eletricidade.
– Rainha... Ele é forte demais... – Vachan tentou pedir ajuda, mas não havia contato. Karin não podia responder. Buscando serenidade ele assumiu a postura marcial contra o oponente. O combate precisava terminar...
KARIN KRAUSE FOI SUCUMBINDO À AGONIA, a resistência minando, o espírito rachando... Seu corpo tombou no charco, se contorcendo com o berreiro insuportável. Os Pavores Caprinos formaram um grande cerco frustrando um ataque específico. Karin estava sob um fio de vontade para o fim... Precisava tentar... Uma última técnica... A arcana foi comprimindo seu poder telecinético ignorando o risco do aneurisma cerebral. No plano material estava com os dentes cerrados e o corpo, em convulsão, encharcado de suor. Um filete de sangue escorreu pelo nariz, alarmando Muriel. Sentindo a cabeça amolgada, a arcana projetou uma explosão cósmica, duas, três... Um grande halo telecinético retumbou fazendo o ar varrer os caprinóides como seres ridículos e insignificantes. Karin sentiu o coração golpeando o externo. Sua cabeça girou vertiginosa. Vomitou, em desespero, tentando respirar e se prender à consciência. Seu corpo permaneceu largado no charco, coberto de lama e vivo...
O tempo foi passando. Karin apoiou o braço dolorido para sentar no gramado ressurgido. Sentiu o corpo débil. Há distância os caprinóides jaziam inertes, abatidos. Precisava continuar. Levantou, cambaleou, vacilou, andou... Lentamente, passo-a-passo...
Mais perto o monte se tornava branco como mármore. Exausta, Karin olhou para trás e percebeu que o campo e a cidadela permaneciam estranhamente perto... “A relatividade do tempo e do espaço...”. Perseverou e descobriu que o monte era uma pilha colossal de pedaços de estátuas: braços, troncos, pernas e cabeças, tudo amontoado numa altura tremenda. Não havia trilha, nenhum caminho a seguir. Levitação poderia elevá-la ao cume, mas isto resultaria num desgaste inconsequente. Preferiu caminhar enfrentando escorregões, afundamentos e pequenos deslizes.
A subida exigia preparo físico e Karin sentiu os joelhos estalarem. Quando a elevação ficou mais íngreme, seguiu apoiando as mãos no terreno para ter mais segurança. Sentando para recuperar o fôlego, ela reparou os fragmentos das estátuas, as sutilezas das suas expressões sofridas. De repente o monte começou a tremer e Karin deitou-se cobrindo a cabeça temendo o desmoronamento. O abalo passou e quando ela se recompôs deparou-se com um monstro aracnídeo albino. Parecia uma aranha abissal, do tamanho de um carro, com a cabeça inchada e deformada. Longos tentáculos se agitavam saindo do pescoço e detrás uma calda escorpiana se curvava expondo o ferrão ameaçador.
– Aquele que espreita... – Karin lembrou o aviso de Palaio-Archidis. – Ele é... – O carcereiro avançou com os tentáculos ávidos para agarrá-la. – Chega de ser vítima! – Karin gritou e usando a telecinese arremessou dezenas de pedaços de estátuas. A criatura vacilou e tentou prosseguir, mas outro ataque, com projéteis maiores, afundaram sua cabeça e tórax... Karin se aproximou contornando o abissal derrotado quando sua calda lançou um raio nebuloso. Sem reação ela foi atingida e caiu. Seu corpo foi endurecendo e se transformando em... Pedra! O algoz se aproximou devagar para aumentar seu monte com outra estátua quebrada. Karin já estava sufocando com o tórax enrijecido. Uma lágrima escorreu e cerrando os dentes ela gritou... Estava acabado. O abissal esperneava com uma pedra pontuda cravado no abdome. Karin usou o poder telecinético para atacá-lo por trás, mas agora seu corpo estava quase todo petrificado... Seu corpo, não a sua mente. Sentindo ódio, desespero e medo, evocou os mentores na Morada de Ésper... Depois veio a exaustão... E a paz, na medida em que a petrificação retrocedia... Karin Krause gritou liberando o terror. Gritou de alívio e gratidão pela ajuda superior. Levantou-se, mas não sentiu o braço esquerdo... Estava empedrado, mortificado. Chorou...
O DAMERON DEU UM PASSO NA TORRENTE, O CORPO AINDA CREPITANDO. Um relâmpago cortou o céu. Vachan correu pela chuva, saltou numa altura sobrenatural e desceu com um chute vertical. O dameron cruzou os braços para bloquear, mas o golpe foi mais forte que antes. Vazou sua guarda atingindo a cabeça e resvalando no ombro. Numa acrobacia marcial Vachan quicou recuando e partiu noutro ataque ignorando o oponente apoiado no joelho. O dameron se moveu depressa e desferiu um soco direto, mas Vachan se esquivou ofensivo e desferiu uma joelhada no ar que atingiu o oponente! O dameron refugou dolorido e surpreso.
– Tire Nicholas daqui! – Cailin gritou para Aaron.
– Eu não vou fugir! Só os covardes recuam!
– Não seja tolo! – Ela encarou Aaron com as mãos em seu rosto. – Nicholas está muito ferido! Ele precisa ficar em segurança! Vá!
– Está bem... – Aaron concordou admirado com a obstinação de Cailin que parecia tão frágil e tão poderosa ao mesmo tempo.
“Agora podemos medir forças”, Vachan falou ao oponente. Ele fez os músculos crescerem rompendo os botões da bata. Com a força ampliada avançou contra o dameron que não se intimidou e atacou. O murro acertou Vachan, que assimilou o golpe e revidou com um soco frontal, um cruzado e chute meio-pulo. O dameron gemeu e se precipitou agarrando o agressor para um abraço mortal. Vachan segurou os chifres perfuradores, flexionando os braços para se afastar. Tão perto os olhares colidiram na disputa. Em desvantagem sem apoio, Vachan dobrou e estendeu as pernas empurrando o corpo do oponente para se desvencilhar numa cambalhota. O dameron partiu jogando pedras. Vachan girou o tronco para se esquivar da primeira, pulverizou a segunda com um soco, aparou e arremessou a terceira com telecinese. A pedra despedaçou na cabeça do oponente que urrou. Vachan avançou para consumar a vitória. Um raio. O dameron canalizou a eletricidade do corpo para as mãos e disparou o raio que baniu Vachan do combate.
Ouviu-se um trovão arrastado. Pairando no ar Cailin convocou o raio e concentrou seu poder na flauta. O dameron foi atingido em cheio e recuou cambaleando com a eletricidade serpenteando em seu corpo. Veio o segundo ataque, impiedoso. Os chifres da criatura pulsavam energizados. – Cailin, não! – Vachan gritou ainda caído, mas a chuva abafou o alerta. O último raio produziu um clarão ofuscante ao atingir o dameron. A druidesa foi descendo atordoada e nada pode fazer contra a descarga elétrica que ribombou no seu peito. Vachan viu Cailin bater contra um prédio, despencar sobre um carro velho e cair no chão. Ele se levantou suportando os espasmos. Agora era o único de pé e precisava decidir a peleja. O arcano manipulou o corpo para aumentar vigor. Sentiu o coração acelerar no processo, muito, mais, demais! Vachan tombou, em pânico, com o corpo em convulsão.
A chuva foi diminuindo e o dameron se aproximou parecendo maior e mais poderoso com os chifres pulsantes. De fato estava mais poderoso.
– Dameron! Maldito, maldito seja! – Aaron retornou mancando. Seus olhos queimavam de puro ódio. – Sua vida é uma desgraça para o mundo! Chegou a hora de acaba-la...
– Eu não quero lutar... – A criatura falou com a voz gutural. – Não quero machucá-lo, humano!
– Não terá essa chance... – Respondeu com um olhar assassino. – Vou cortá-lo e queimá-lo com a chama da purificação...
– Você não compreende.
– Depois a chuva limpará suas cinzas e tudo... Estará... Purgado... – Aaron fechou o punho ao lado da coxa e uma energia se materializou em sua mão.
“Oh, Anjo de Jacó! Clama o guerreiro de Jericó! Toque a ferida e revele o estigma! Para destruir o inimigo liberte Megido!”. Aaron moveu o braço num semicírculo tirando da coxa uma espada de lâmina larga: era Megido, “O Último Juízo”, “A Destruição Final”. Runas foram aparecendo no aço escarlate enquanto ele caminhava imponente. Com a espada mística liberada não havia aleijão.
A aparição pegou a barra de ferro no chão e avançou descrevendo o ataque lateral. Aaron brandiu Megido partindo a barra e fez um movimento giratório para cortar profundo, em diagonal, do peitoral ao quadril do maldito. O cavaleiro sorriu com o sangue aspergido no rosto. Urrando a aparição tentou recuar, mas tombou quando Megido quase decepou sua perna que ficou pendendo na pele. – Por Cailin! – Aaron formou uma grande bola de fogo e o lançou contra o peito do inimigo. Seus chifres estilhaçaram com a explosão...
A aparição levantou a cabeça trêmula e viu o carrasco subir na sua carcaça. – Esta é a sua sentença! – Aaron ergueu a lâmina escarlate. O moribundo liberou a eletricidade retida no corpo, mas a sanguinolência de Aaron ignorou o choque. Com as duas mãos o cavaleiro cravou a lâmina rompendo músculos, ossos e órgãos, até perfurar o chão. – E agora sua purificação! – O fogo consumiu a lâmina e incendiou o corpo da criatura que se contorceu em agonia...
Cailin se recuperou vendo as silhuetas nas chamas... As labaredas foram cessando quando Aaron, sem qualquer queimadura, retirou a espada da carcaça imóvel. Balbuciando uma oração indecifrável ele enterrou Megido na coxa e a espada sumiu. A expressão de Cailin foi um misto de medo e decepção. Reparando o cadáver fumegante ela deu as costas e foi olhar Vachan. O ódio de Aaron virou confusão.
Agora só chuviscava. Um cheiro desprezível de carne queimada se espalhava no local. Vachan levantou devagar, ajudado por Cailin, e perguntou sobre Nicholas. Enciumado, Aaron respondeu que ele estava vivo e seguro. “Então vamos embora. Esse lugar já está cheio de intolerância”, Cailin desabafou. Vachan apontou para o cadáver, já ressacado, se desfazendo em flocos de cinzas. Tentando ficar indiferente ao comentário de Cailin, Aaron foi examinar o espaço em que corpo se desfez. – Venham aqui! – No chão restava um globo escuro e vívido...
KARIN OLHOU O MEMBRO INSENSÍVEL PETRIFICADO. Ela chorou, odiosa, enquanto a aberração estrebuchava com um som agonizante. A mulher gritou, amaldiçoou e começou a andar, pranteando e escorregando...
Subiu até o cume do monte, uma área plana cercada por rochas que formavam uma coroa. Nessas rochas, corpos putrefatos jaziam presos às correntes. Karin observou suas roupas e reconheceu Argoile, Diana, Felipo, Nicanor, Orfeu, Emélia e Ângelus Aurelius, o arquimago preceptor de Cesar. Amargurada, percebeu ainda mais um corpo quando sua cabeça pendeu para o lado... Cesar... Vivo... Sem poder escalar a arcana focou a telecinese para tentar soltar o corpo franzino do amigo.
– Se fizer isso sofrerá mais do que todos para morrer. – Karin virou-se e viu alguém chegando pelo outro lado do monte. A indumentária do mago era inconfundível e seu rosto também. Era Cesar, não, seu alterego, com uma sombra ameaçadora sobre os olhos e um sorriso sádico, desdenhoso.
– Então foi você, Cesar? Você os matou? – Karin perguntou assombrada e chorosa. – E o que significa esta memória? O troféu da sua traição?
– Criança tola, você não sabe quem eu sou... Aliás, você nem faz idéia de quem é. Este Cesar não existe. E quanto ao precioso círculo, eles pagaram por não compreenderem minha visão...
– E você os matou porque discordaram de você? Que motivo torpe justificou essa loucura?
– Não seja leviana, menina! – Nigredo sibilou. – Eu sou O Arquimago! Nem Ângelus Aurelius conseguiu vislumbrar a magnitude do meu propósito. Eu achei a câmara da sentinela! Sim, bastaria que ela fosse eliminada para ter o Orbe Guia e o poder supremo! Então eu conduziria o mundo para uma nova era...
– Mas sua competência não se igualou à sua arrogância, não é? Você falhou, Cesar...
– Eu não sou Cesar! Você é surda? Meu nome é Nigredo, Alvarus Nigredo! Nunca existiu ou haverá um “Cesar”, sua estúpida... Eu não falhei! Jamais! Aquele círculo idiota tentou me impedir... Ah, sim, eles pagaram o preço! Mas o velhote apareceu e me prendeu antes que a sentinela acordasse.
– Realmente, você não é o Cesar... Não passa de uma anomalia psicológica, um distúrbio megalomaníaco e sociopata criado para ocultar sua frágil condição. “Isto” – Karin se referiu à Nigredo. – é uma patologia que deve ser tratada com remédios.
– E você vai me curar? Diga-me, como pode fazer isso se já está... Morta!
Nigredo lançou mísseis de luz que voaram ondulando no ar. Karin, tranquila, observou os projeteis minguarem e sumirem. Desconfiado, o mago ergueu os braços e das mangas cumpridas surgiram centenas de insetos zunindo. O enxame voou e virou pó antes de ferroar o alvo.
– Como?
– Ora, Cesar, porque a surpresa? Eu superei suas defesas psíquicas, passei por todos os obstáculos que a sua mente doentia criou para me impedir de encontrá-lo.
– Mas, mas eu não entendo!
– Para usar magia você precisa manipular os elementos herméticos do plano material. Mas seu corpo está inerte e sua consciência obstruída pelo coma psíquico. E aqui, no âmago da psique, a magia não pode superar o poder da mente.
– Não! Como pode saber dessas coisas? Você não é um mago!
– Você está certo, pela primeira vez. Eu não sou um mago... Eu sou a Rainha Arcana!
O céu foi escurecendo acima do monte e Nigredo olhou confuso para o alto. Uma ventania agitou sua indumentária e as correntes rangeram descendo os cadáveres até o chão. Os membros do antigo círculo ficaram de pé e caminharam até o mago corrupto. Palaio-Archidis, a gigante águia bicéfala, surgiu voando e pousou sobre um rochedo. Nigredo se desesperou e ameaçou destruí-los de novo, mas a bravata soou como o resmungo de um velho decrépito. Ângelus Aurelius tocou o dedo na sua testa e o fez ajoelhar-se. Felipo laçou seu corpo com duas correntes. Argoile e Diana o arrastaram para uma grande rocha. Nigredo esperneou, implorou, sentiu a indiferença de Orfeu e a cuspida coagulada de Nicanor. Entrementes, Karin Krause libertava Cesar arrancando suas correntes com a telecinese revigorada.
– Illic est oculus qua res quam adamamus... – Cesar sussurrou tocando o rosto de Karin. Ela o abraçou com cuidado e surpreendeu-se com Palaio que desceu para agarrá-los. A águia bicéfala se dividira em duas, cada qual com uma cabeça. A outra pousou ao lado Nigredo, espreitando, mirando, enquanto ele desesperado se debatia acorrentado até Emélia capturar sua voz.
Alçada na garra de Palaio, Karin sentiu-se como num sonho. Do alto viu o antigo círculo reverenciá-la e desaparecer etéreo. Viu Archidis também, eviscerando o flanco do mudo Nigredo, tingindo de vermelho seu bico dourado.
Palaio subiu até o céu clarear e uma súbita luz ofuscou Karin Krause. Seu corpo despencou.
AARON ABAIXOU PARA OLHAR A ESFERA. O objeto tinha a densidade e a polidez que lhe conferia uma beleza misteriosa. Era preta e continha pinceladas nebulosas azuis e violetas com pontos brilhantes. Sua forma não parecia lapidada por mãos humanas.
– É magnífica! – Cailin admirou-a nas mãos de Aaron. – E vejam como o panorama muda?! É como observar o universo com um telescópio...
– Ou de dentro de uma nave! – Vachan imaginou.
– Mas para que ela serve? – Aaron perguntou desconfiado.
– Talvez Karin possa nos dizer. Melhor levarmos para o casarão.
– Errado, discípulos de Krause. Vocês não levarão o Orbe Guia a lugar algum.
A voz incógnita pertencia a um homem alto, albino, com o cabelo descolorido. Usava um colete acobreado que mais parecia um corselete de batalha, braçadeiras e braceletes. Ele vestia um tipo de saia longa, preta, com uma faixa marrom que pendia de um nó quase até o chão. No pescoço carregava um medalhão de crescente lunar.
– Você deve ser Kamus Khan. – Vachan observou. – Atendemos ao seu chamado, fizemos o que pediu. Nossa tarefa está cumprida e não há razão para ficarmos aqui...
– Sim, vocês serviram bem ao meu propósito. Destruíram a sentinela e pegaram o Orbe Guia. Agora eu proponho um acordo: deixem esta oferenda para o Senhor da Lua e saiam vivos de Liberung. Resistam e meus Renegados não terão misericórdia.
– Este não foi o trato. – Vachan falou sereno. – Nossa ajuda foi requisitada para conter uma ameaça comum. Nós a evitamos e precisamos levar o objeto para análise.
– Ameaça? – Não, ela só guardava o orbe. Eu mandei trazê-los enquanto a despertava. Depois só precisamos assisti-los atacarem enquanto a sentinela buscava outro lugar para hibernar com a esfera.
– Você nos manipulou... – Vachan concluiu derrotado.
– Ora, os meninos de Krause fizeram exatamente o esperado! Julgaram e condenaram um suspeito com a prepotência que marca sua fraternidade! Ignorância e vaidade... Não esperava combinação melhor!
Cailin abaixou a cabeça e Aaron lembrou-se do apelo da sentinela que não queria lutar. Visivelmente abatido, Vachan sentiu-se responsável, envergonhado por não avaliar os fatos, por ser envolvido numa artimanha que expôs o grupo ao risco evitável. Sua confiança foi abalada, sua competência testada e reprovada. A expectativa do êxito, enfim, trouxe a amarga ilusão de quem podia tudo.
Percebendo a relutância do grupo, Aaron encarou Kamus Khan. “O protetor morreu cumprindo sua missão. Agora o dever é nosso e se não gostar, branquinho, vai ter que nos matar...”. Kamus riu da ingênua coragem do guerreiro, da sua imensa ignorância do perigo.
“Renegados!”, chamou e os asseclas saíram das ruínas para cercar o grupo. Olhando à volta, Aaron, Vachan e Cailin viram um homem muito alto, musculoso, que parecia um mítico ciclope apoiando uma grande marreta no ombro. Havia duas mulheres. A primeira tinha pequenas asas courícias e dedos que terminavam em finas garras. Seu corpo era furado com centenas de grampos e alfinetes. A segunda, anoréxica, tinha o cabelo preto e manchas escuras sobre os olhos completamente brancos. O outro homem tinha a pele azulada e braços cumpridos até abaixo dos joelhos. Finalmente Lanec reapareceu com um sorriso podre e o corpo lodoso pingando.
– Percebem agora que estarão condenados? Entreguem a esfera. – Kamus ordenou.
– Se quiser pegá-la, deverá conquistá-la, como nós fizemos!
– Pense bem, rapaz... O orbe não tem serventia para vocês. Acha mesmo que são páreos para os meus Renegados? Nesta situação, depois de enfrentarem a sentinela?
– Besteira, nós a derrotamos enquanto se escondiam, covardes! Venham tomá-la se tiverem coragem!
– Não seja tolo. Isso não é bravura. Você está agindo como um adolescente fanfarrão. O que pretende provar?
Aaron se irritou e avançou estalando o pescoço. Kamus Khan sorriu e vidrando os olhos fez o corpo dele cair pressionado contra o chão. Aaron rosnou e ofegou sentindo os pulmões comprimidos. “Alterei o campo gravitacional ao seu redor... Em poucos minutos seus órgãos serão esmagados e você morrerá, é claro”. Khan falou soberbo. Aaron tentava gritar, mas uma carga invisível espremia seu corpo. Com exceção do ciclope, os Renegados gargalharam com a demonstração de poder. Então o chão se abriu e Kamus foi engolido pela terra, quase até o pescoço. Era Cailin, deixando a marca do seu pé descalço sobre as cinzas (da sentinela), controlando a terra.
– Quanto mais pressioná-lo, mais será esmagado. – Ela falou convicta.
– Spinah, agora! – Kamus gritou tossindo. Um clarão e a fera surgiu ameaçadora sobre Nicholas inconsciente. Seu corpo de espinhos tinha o tamanho e a forma feminina.
– Vamos fazer um trato, menina... – Kamus falou com dificuldade. – Solte-me e libero seu amigo... Entregue o Orbe Guia e o outro também viverá.
– Você é falso... Como poderei confiar? – A terra foi distendendo.
– A escolha é sua. Veja quem tem mais a perder: eu destruo esse verme, você tenta me matar, minha Spinah rasga seu amigo e os Renegados destroem você e esse pária ao seu lado... – Cailin hesitou, mas, vendo Vachan passivo, acenou concordando.
– Está bem... – A terra expeliu Kamus e ele gravitou para o chão.
– Agora o Orbe Guia...
– Primeiro solte Aaron...
– Ele já está liberado. Ulrich! – Kamus acenou para o homem de pele azulada que esticou o braço elástico para Aaron.
– Entregue, por favor. – Cailin pediu e ele, por Nicholas, se viu forçado a atender.
Lanec sorriu com desprezo. Ulrich passou o Orbe Guia para Kamus Khan e os Renegados juntaram-se ao redor do mestre. Spinah se pôs a sua frente como um cão de guarda. O senhor dos Renegados elogiou a sensatez de Cailin, dedicou um sorriso vitorioso para Aaron e tocou a cabeça de Spinah. Os Renegados encostaram-se aos ombros do mestre e todos foram teleportados.
Vachan passou as mãos no rosto e Aaron berrou extravasando a humilhação. Nicholas abriu os olhos e tentou levantar apoiando os cotovelos. Cailin foi ajuda-lo. “E aí, o que eu perdi?”, perguntou dolorido e a druidesa respondeu que o final do aprendizado. “Que isso pessoal?! Estou legal, não precisam chorar!”, ele brincou percebendo os amigos desolados, mas os três estavam realmente abatidos com o final inesperado.
Aaron foi se afastando dos companheiros. Cailin o chamou, mas foi ignorada com um gesto de descaso. Entrementes, Vachan remoía os próprios erros. Depois da precipitada luta no templo da Ordem, era inaceitável outro julgamento errôneo. E isto causou a extinção da sentinela e a cisão do cavaleiro. Tudo sua culpa. Em parte Kamus Khan acertou. A autoconfiança e a vaidade prejudicaram sua razão. Desde os 10 anos, nunca perdera um combate e o desafio de enfrentar um grande rival relaxou sua liderança. Falhou. Cailin o tocou pedindo que fossem embora. “Isto não é o fim. Apenas começamos”.
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