O Poeta de Saint Clarice
1 O Jovem Vincent Rutra
A chuva caia mansamente do lado de fora do casebre. As gotas que deslizam tão suave pelo telhado manchado, tão suave quanto o orvalho da manhã desliza nas pétalas de sua rosa amada.
Um vento fraco, mas persistente empurra as velhas paredes de madeira fazendo a casa balançar de pouquinho em pouquinho. A água que escorre do telhado pinga sem parar no já enlameado jardim. Um jardim pequeno e com umas poucas flores em meio ao mato crescido.
Na pequena viela ninguém se atrevia a sair de suas casas no frio cortante que fazia. A ruazinha vinha pequena e estreitando-se qual mais profundo se ia. Parecia uma cobrinha “amarronzada” ziguezagueando na imensidão verde dos gramados e matos.
Dentro do casebre torto a pouca lenha queimava dando seus discretos estrépitos e emanando um calor fraco que só deixava mais agudo à sensação de frio.
No único quarto da casa um casal de meia idade dormia abraçado. Abraço que esquentava, ou ao menos amenizava a sensação de gelo, mas tambémum abraço de amor e intimidade sutil que se ganha com uma relação de muitos anos.
No aposento abaixo do quarto que era, sala, cozinha, quarto, lounge, quintal e tudo o que fosse conveniente à situação, um jovenzinho escrevia suas doloridas rimas.
Deitado bem pertinho do fogo o rapazola de olhos negros escrevia em um pedaço grosso e sujo de papel. Escrevia suas primeiras estrofes e rimas. Descobriu-se poeta, descobriu a si mesmo. Com seu peito miúdo no chão duro e frio, escrevia seus sonhos e seus amores. Aprendera a dizer coisas tão profundas que muitas vezes não reconhecia que todas elas moravam ali, no fundo de seu peito.
Mas a cada vez que escrevia conseguia reconhecer alguma coisa diferente. Reconheceu no carinho e na delicadeza a cócegas que sentia na orelha quando a mãe lhe beijava. Na angustia e na melancolia o peito pesado e a respiração profunda dos dias de pobreza. E reconheceu principalmente aquele nó na garganta e os olhos marejados, o coração atormentado e isso ele reconheceu no amor.
E mesmo que o tempo parasse de correr e seu coração parasse de bater ele não poderia sentir. Quando escrevia, vivia. E quando vivia nada mais era importante, nada o atrapalhava. Nem mesmo aquele frio cortante e cruel.
E dentro daquela casa pobre e sem luxo ele se sentia em um luxuoso e quente castelo. Descobria a si mesmo enquanto descobria a poesia.
E o amor de seu peito pela vida era tão grande quando o amor de seus pobres pais deitados lá em cima.
Adormeceu ali mesmo, no chão gelado bem pertinho do foguinho que se amiudava a cada segundo. Dormiu enquanto o vento declamava seu poema:
Dorme meu pequeno de coração apaixonado
Dorme, Porque quando se apaixonada pela vida
Só se pode estar fadado
a amores no futuro e encantos ensaiados.
Ah! Dorme meu amado
Se sofreres tanto pra crescer
Como uma arvore na semente pra nascer
Torna-se-á mais viçoso e lustroso ao alvorecer
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