A chuva caia mansamente do lado de fora do casebre. As gotas que deslizam tão suave pelo telhado manchado, tão suave quanto o orvalho da manhã desliza nas pétalas de sua rosa amada.


Um vento fraco, mas persistente empurra as velhas paredes de madeira fazendo a casa balançar de pouquinho em pouquinho. A água que escorre do telhado pinga sem parar no já enlameado jardim. Um jardim pequeno e com umas poucas flores em meio ao mato crescido.


Na pequena viela ninguém se atrevia a sair de suas casas no frio cortante que fazia. A ruazinha vinha pequena e estreitando-se qual mais profundo se ia. Parecia uma cobrinha “amarronzada” ziguezagueando na imensidão verde dos gramados e matos.


Dentro do casebre torto a pouca lenha queimava dando seus discretos estrépitos e emanando um calor fraco que só deixava mais agudo à sensação de frio.


No único quarto da casa um casal de meia idade dormia abraçado. Abraço que esquentava, ou ao menos amenizava a sensação de gelo, mas tambémum abraço de amor e intimidade sutil que se ganha com uma relação de muitos anos.


No aposento abaixo do quarto que era, sala, cozinha, quarto, lounge, quintal e tudo o que fosse conveniente à situação, um jovenzinho escrevia suas doloridas rimas.


Deitado bem pertinho do fogo o rapazola de olhos negros escrevia em um pedaço grosso e sujo de papel. Escrevia suas primeiras estrofes e rimas. Descobriu-se poeta, descobriu a si mesmo. Com seu peito miúdo no chão duro e frio, escrevia seus sonhos e seus amores. Aprendera a dizer coisas tão profundas que muitas vezes não reconhecia que todas elas moravam ali, no fundo de seu peito.


Mas a cada vez que escrevia conseguia reconhecer alguma coisa diferente. Reconheceu no carinho e na delicadeza a cócegas que sentia na orelha quando a mãe lhe beijava. Na angustia e na melancolia o peito pesado e a respiração profunda dos dias de pobreza. E reconheceu principalmente aquele nó na garganta e os olhos marejados, o coração atormentado e isso ele reconheceu no amor.


E mesmo que o tempo parasse de correr e seu coração parasse de bater ele não poderia sentir. Quando escrevia, vivia. E quando vivia nada mais era importante, nada o atrapalhava. Nem mesmo aquele frio cortante e cruel.


E dentro daquela casa pobre e sem luxo ele se sentia em um luxuoso e quente castelo. Descobria a si mesmo enquanto descobria a poesia.


E o amor de seu peito pela vida era tão grande quando o amor de seus pobres pais deitados lá em cima.


Adormeceu ali mesmo, no chão gelado bem pertinho do foguinho que se amiudava a cada segundo. Dormiu enquanto o vento declamava seu poema:



Dorme meu pequeno de coração apaixonado


Dorme, Porque quando se apaixonada pela vida


Só se pode estar fadado


a amores no futuro e encantos ensaiados.



Ah! Dorme meu amado


Se sofreres tanto pra crescer


Como uma arvore na semente pra nascer


Torna-se-á mais viçoso e lustroso ao alvorecer

Notas finais
|______________Cap não betado______________|