O Poeta de Saint Clarice
2 Oscar Caster - O Falante
O jovem Vincent arfou fundo o ar da manhã, de um sol quente e agradável há muito esquecido. O cheiro de terra molhada invadiu seus pequenos pulmões o proporcionando um prazer puro e irresistível.
Dentro do casebre seus pais ainda dormiam em baixo de todas as cobertas rasgadas que foram possíveis arrumar.
A Srª Rutra sonhava com a infância, lembrava dos pães e doces que sua mãe preparava todas as manhãs. Lembrou-se da mesa farta, pães, bolos, geléias, torradas e uma infinidade de coisas que já não podia ter.
Já o Srº Rutra não sonhava com nada, se entregava a um sono pesado e sem sonhos. Sua mente e corpo totalmente exaustos pelo trabalho. Há muito que trabalhava em uma fábrica do outro lado da cidade. O emprego consumia toda a sua disposição e felicidade.
Vincent estava sentado na porta de casa descalço e com os pés na lama morna do Jardim. Não era bem um jardim, mas aprenderá com a mãe a o ver assim. Não passada de mato crescido salpicado por uma ou outra flor de campo.
Trazia debaixo dos braços as folhas da noite passada. Lia com admirada surpresa os versos que escrevera. Surpreendeu-se com suas próprias palavras, não havia duvida que aqueles eram seus sentimentos, mas as palavras...Eram tão doces e bem elaboradas que não podiam ter vindo dele.
Suas roupas velhas e curtas deixavam suas canelas finas para fora, esquentando no sol morno da manhã. Os cabelos grandes e desgrenhados reforçavam sua aparência de desmazelo. Os olhos negros ao contrario de quando escrevia estavam foscos e sem emoção. Era sereno na alma e no corpo.
Seu corpo miúdo o implicara uma aparência quase infantil, apesar de seus longos dezessete anos de vida. Tinha no corpo a marca de tempos difíceis, de frio, de fome, de maus-tratos, de esperanças e decepções.
Estava totalmente absorto em pensamentos e em sentimentos que nem percebeu um jovem de canela mais cinzas que sua se aproximar. Só se deu conta quando o vizinho puxou os papéis de sua mão.
- Hei – protestou Vincent.
- Hoho! O que temos aqui?
- Dê-me de volta Oscar.
- Poemas? Desde quando escreve poemas?
- Não é de sua conta, agora dê-me logo meus papéis.
- Nada mal pequeno Vincent, nada mal mesmo – disse jogando os papéis de volta ao amigo – Mas não se torne tão sonhador como os velhos poetas, são todos ordinários, miseráveis e sonhadores – Não teen outra coisa senão a esperança.
- O que quer dizer com isso?
- Quero dizer que ninguém vive de poesia – sentou-se ao lado do pequeno poeta – Todo poeta começa por escrever pra si e quando se torna reconhecido apega-se tanto a fama que acaba escrevendo para os outros – largou-se na parte seca do casebre – E é aí que se põem em desgraça, nunca mais conseguem escrever com verdadeiro ardor.
- Não se preocupe com isso Oscar, não pretendo me tornar poeta – respondeu com um tom de indignação – mas se assim o fosse, eu não seria de tal forma.
- É o que dizem todos os poetas, mas mudemos de assunto, vim lhe falar de outra coisa.
- Sinto muito Oscar, mas não tenho dinheiro algum, minha família passa por dificuldades tremendas.
- Oh! Vincent, se eu não fosse tão bom ficaria deveras ofendido – Oscar se pos de pé em um pulo – Parece que só lhe venho pedir dinheiro.
- Se assim penso é porque tem sido desta maneira nos seis últimos meses.
- Pois relaxe não é o caso hoje.
- O que traria o tão importante Srº Caster a minha humilde residência?
- Um convite meu caro, um convite, em nome de nossa amizade.
- Pare de rodeios Oscar, se lhe conheço bem nada faz sem motivos.
- Pois bem você me pegou – respondeu relutante enquanto esfregava as mãos tentando se livrar do friozinho que a brisa trazia mesmo debaixo do sol – Conhece meu primo De Luca?
- Se me lembro bem é aquele que vive na cidade não?
- Exato, pois então... Ele está trabalhando em um teatro – e nesse ponto Oscar vacilou – E convidou-me para ver o espetáculo.
Vincent soltou uma gargalhada gostosa antes de falar em tom irônico.
- Você no teatro? Claro claro, nada mais normal.
- Acalme seu sarcasmo e guarde sua ironia, pois ainda não acabei de lhe contar.
- Então conte – disse Vincent enfiando os papéis no bolso – estou realmente ansioso para saber de sua nova armação.
- Pois não se trata de armação – respondeu insultado – Há meses que venho pedindo ajuda ao primo – Quero trabalhar na cidade – Não imagina como se valorizam os rapazes que trabalham na cidade.
- E onde entro nesta historia?
- Preciso de uma ajudante, ao menos para essa noite.
- E o que faremos no teatro?
- Eu não faço a mínima idéia, mas ele deixou bem claro que levasse alguém comigo.
O pequeno poeta parecia preocupado, sabia que não teria a permissão dos pais. Já fazia algum tempo que desistira de receber a autorização deles para qualquer coisa. Eram completamente cegos quando se tratava de liberdade.
- Não sei se poderei ir Oscar – falou desanimado – Meus pais, eles não gostariam nada de me ver fora de casa por uma noite inteira.
- Oh Vincent como você é ridículo – resmungou seu amigo agitado – E desde de quando nossa geração liga para os pais?
- Mas não será toda uma geração a ouvir por semanas resmungos – escondeu seus pezinhos da lama quente enquanto falava mansamente – Serei apenas eu.
- Pois então diga que passara a noite em minha casa.
- Mas se descobrirem?
- Quantos “mas” e suposições, para um poeta você é racional demais – Pegou Vincent pelo braço e o puxou até a ruazinha – Veja Vincent, veja está ruazinha.
- Que tem nossa pequena rua?
- É está a poesia que deseja escrever? – xeque mate – Que lugar mais poético que o teatro? Onde mais poderia adquirir tamanha inspiração?
- Não sei Oscar...
- Não seja medroso meu amigo, os poetas devem ser corajosos para experimentar os mais diversos sentimentos.
- Mas e o que me disse sobre não ser poeta?
- Não me leve tão a sério, sou completamente ignorante quando não se trata de minha própria vida.
Vincent sorriu confirmando o convite do amigo que lhe disse que passaria as seis.
- Mas não tenho relógio em casa – gritou quando o amigo já ia longe.
- Pois então esteja pronto desde cedo – gritou Oscar em resposta.
- Não tenho roupas bonitas Oscar!
- Oh! Não se preocupe De Luca cuidará de tudo – gritou dando um ultimo adeus.
O coração de Vincent batia acelerado, iria pela primeira vez ao teatro viver a poesia e magia do lugar.
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