O Caminho de Sandren - Livro 2 (Descaminho)
1 Dívidas e Promessas
12
– Não! – Midler sentou-se rapidamente, sentindo o forte grito ainda a queimar em sua garganta, pelo tempo que seus pulmões permitiram. Esticando o braço à frente, procurou em vão agarrar-se a algo, enquanto seus olhos esforçavam-se para enxergar na inconstante luz que o cercava, recuperando-se de um profundo adormecimento, mas tudo que podia discernir era o tremular difuso de algumas velas próximas. Não sabia quanto tempo havia se passado desde que sucumbira à dor e a fraqueza que se apossaram dele após a morte de Laertes, mas o esforço para mover os braços dizia-lhe que este não poderia ser mensurado em poucas horas. Todo o corpo parecia tomado por um grande torpor, lutando a cada passo de um lento despertar. Uma pesada mão, marcada profundamente pelo passar de muitos anos e provações, segurou firmemente a sua, procurando passar-lhe a convicção e a segurança que lhe faltavam naquele momento.
– Acalme-se. Tudo está bem agora – a voz era firme e segura, mas também afetuosa, quase paternal, muito parecida com o tom com que seu mentor costumava usar.
– Laertes? – um sorriso esperançoso se desenhou em seu rosto por um momento, para logo se desvanecer, tomado pela certeza cruel que não podia negar.
– Não, jovem Midler, sou apenas eu, Zartan – a grave voz tornou-se pesarosa por um momento, quando os angustiados olhos do discípulo se voltaram para ele e a imagem do nobre anão aos poucos se formou, sentado em uma alta cadeira, ao lado da cama onde Midler estava, com a barba a cair desordenadamente em seu colo, refletindo o mesmo tom das folhas mortas de outono. Seu rosto, cansado e abatido, estava iluminado pela chama de uma grande vela em uma mesa ao lado, onde uma larga bacia de água e muitas tiras de um claro tecido também repousavam. Após um momento, um largo sorriso curvou os lábios de Zartan, com o brilho daquela luz a tremer levemente em seus olhos – Seja muito bem vindo de volta, bravo guerreiro. Sabia que minha fé em sua força era justificada.
Olhando para além do anão, Midler viu um pequeno quarto formado por altas paredes de pedra, de onde algumas lanternas pendiam acesas. Um pouco acima de sua cabeça, o encosto da cama em que estava se curvava sobre ele, na forma de duas mãos a acolhê-lo, em sinal de proteção. Um grande lustre pendia do teto com suas numerosas velas adormecidas já há muito desgastas pelo longo uso. Em frente à cama, junto a uma grande porta entalhada com suaves desenhos, havia uma pesada mesa com muitas frutas e pães sobre uma larga bandeja de madeira, assim como algumas garrafas contendo líquidos claros e escuros, cercadas por muitas taças. Na parede atrás de Zartan, através de uma estreita janela muito acima deste, algumas tímidas estrelas esforçavam-se para brilhar sobre a face de um céu escuro. Um suave aroma adocicado emanava de um viscoso líquido em um pequeno prato dourado do outro lado da cama, enquanto uma grossa vela queimava sob ele.
– Alegra-me muito vê-lo desperto e bem disposto – um homem pouco mais velho que Midler entrou no quarto, retirando um grande capuz azulado que lhe cobria toda a cabeça enquanto terminava de amarrar suas vestes em torno do corpo. Ele estivera repousando em um pequeno quarto ao lado quando fora despertado pelo grito do discípulo. O cansaço marcava profundamente seu rosto, mas estava claramente aliviado por ver que Midler estava recuperado. Logo atrás dele vinha outro homem, cujos olhos pareciam ao discípulo terem visto mais invernos que Laertes, se isto fosse possível, apressando-se para alcançar o outro a seu frente. Ele tocou levemente o ombro do mais jovem para que se detivesse, mas um leve movimento de cabeça o demoveu de seu intento, e o ancião permaneceu então calado ao seu lado – Abençoada seja a luz que brilha sobre você.
– Você... – o discípulo olhou atentamente para os olhos marcantes do homem, reconhecendo algo neles que não conseguia definir, mas que lhe era evidente – Você estava naquela caravana, escondido sob o elmo do último dos cavaleiros! Era você quem aquele demônio desejava matar.
– E ele teria conseguido, tenho certeza, não fosse por sua força e coragem, meu amigo, pelo que lhe serei eternamente grato – com um agradável sorriso ele encobriu sua surpresa com a naturalidade de um experiente diplomata. Ele não havia se revelado em nenhum momento desde que deixaram Caendlia, nem mesmo para os Feldaen que o acompanhavam. Apenas Ohel sabia de seu disfarce e falava aos cavaleiros em seu nome, enquanto outro clérigo, Haagen, tomava seu lugar na carruagem, pois neste segredo repousava sua segurança, ainda mais quando seus inimigos o consideravam agora morto. Mas mesmo em sua absoluta discrição, não conseguiu ludibriar Midler nem pelo breve momento em que entrara no quarto. Seus mestres sempre lhe ensinaram a ser extremamente cauteloso quanto estivesse à frente dos homens de Sandren, que sempre podiam ver muito mais do que se desejava mostrar. Sentiu-se desconfortavelmente exposto sob o atento olhar de Midler, mas sem demonstrá-lo, analisando cuidadosamente o que deveria dizer a seguir. Aprendera cedo a desconfiar de todos fora de sua ordem e mesmo de alguns dentro dela, mas havia algo que o aproximava deste desconhecido, algo além de mera gratidão. Era uma sensação de confiança, de uma familiaridade que ele não conseguia justificar e que o fazia sentir-se ainda mais vulnerável – Eu sou Uligan, da grande Igreja de Urm e um diplomata destas terras. Este ao meu lado é Ardlan, guardião de nossos princípios, clérigo Exaltado e o nobre Condutor de nosso templo nesta cidade – o velho inclinou-se levemente em um sutil cumprimento, mas estava visivelmente inquieto por seu companheiro falar tão abertamente a um estranho – E esta é a nossa humilde casa em Latani, valoroso Paladino.
– Discípulo – Midler baixou a cabeça por um momento, sua voz soando tão baixa quanto uma confissão de culpa. A vergonha que sentia não se dava por não ser ainda um Paladino, mas por acreditar que poderia ter salvado Laertes se realmente tivesse dentro de si a força para se tornar um – Sou apenas um mero discípulo de Sandren, não um Paladino...
– E ninguém ali poderia ter feito mais do que você o fez, jovem Midler, nem mesmo o mais forte guerreiro entre todos os meus irmãos, e você mesmo foi testemunha do quanto ele tentou! – Zartan desceu de sua cadeira, ficando propositalmente um pouco mais baixo do que estivera até então – Sua coragem, e apenas ela, salvou a mim e ao meu irmão, o que me causa grande embaraço e um ferimento em meu orgulho que irá demorar a cicatrizar, se algum dia irá – a alegria na voz do anão era genuína e contagiante, mas parecia ter pouca influência sobre o discípulo.
Uligan observava com crescente interesse o anão. Muito lhe surpreendia a atitude e as palavras de Zartan, despojadas de todo o grande orgulho que ele conhecera nos dias que se passaram desde que foram emboscados, apesar das poucas palavras que trocaram, apenas para tentar animar a um jovem que acabara de conhecer. Em verdade, Uligan não sabia ao certo o que poderia esperar dele, pois conhecia muito pouco da história e dos costumes de seu recluso povo, mas nunca poderia imaginar que ele pudesse ser tão aberto e espontâneo.
Os graeldaras nunca haviam tido quaisquer relações diplomáticas com os anões e o raro comércio entre eles sempre foi muito difícil, pois estes conseguiam ser ainda mais cautelosos e desconfiados do que os próprios seguidores de Urm. Mas este anão aparentava ser ao mesmo tempo muito semelhante e diverso daqueles que seus mestres lhe descreveram. Já havia notado a nobreza e a dignidade de Zartan, em cada gesto e ato seu, tão habituais ao grande general que deveria ser, a comandar com naturalidade a todos a sua volta, sem esforço ou imposição, apenas com a firmeza de suas poucas palavras e de seu olhar. Mas o alegre e sincero sorriso que iluminava agora seu rosto, quase tão pueril quanto o de uma ingênua criança, vinha de um coração imenso que não se permitiu endurecer pelos muitos anos de combates que vivera e que era onde repousava sua maior força e sua inata liderança.
Dois dias haviam se passado desde que eles foram atacados na Estrada do Norte e os poucos cavalos que conseguiram reaver se mostraram insuficientes para transportar os feridos com a rapidez desejada de volta à cidade de Latani, onde encontraram abrigo, proteção e o precioso sigilo que Uligan buscava na grande casa que os graeldaras mantinham ao lado de sua igreja. Desde então, Zartan não havia deixado o lado de Midler em nenhum momento, sempre a observar com tanta desconfiança quanto esperança os cuidados dos clérigos para com o discípulo, não aceitando ser tratado de seus ferimentos antes de ter a certeza da recuperação do jovem. O anão não havia dormido ou descansado desde que chegara, conversando pouco e se alimentando menos ainda, sempre dedicado e vigilante, e, neste momento, toda sua dor e cansaço pareciam ter desaparecido por completo com o despertar de Midler.
Ardlan caminhou calmamente em volta da cama, abaixando-se ao lado do discípulo para examinar seu ombro esquerdo quase displicentemente. Midler surpreendeu-se ao perceber que não havia ali ferida alguma, apenas uma pequena escoriação, pouco mais que uma tênue cicatriz que marcava agora sua pele, onde antes houvera músculos lacerados, tendões partidos e ossos quebrados pela espada de seu inimigo. Movimentou com receio o braço, mas não sentiu dor alguma, enquanto olhava atônito para Ardlan.
– Apenas os maiores entre os mestres da cura em Sandren poderiam fazer isto!
– Para sua sorte, ingênuo discípulo de Baltur, as artes para tratar o corpo e o espírito não pertencem apenas às toscas mãos que conhece e equivocadamente venera – as palavras de Ardlan eram ásperas, assim como sua voz, enquanto se erguia, voltando-se para Uligan – Não necessita mais de minha presença aqui, diplomata. Vou me retirar aos meus aposentos. Para mim e para aqueles que ainda retém algum senso, a noite já se fez demasiada e desnecessariamente curta.
Ele concordou com um leve aceno de cabeça e acompanhou Ardlan com um consternado olhar enquanto o velho clérigo deixava a sala, sem nada mais dizer. Uligan mantinha uma expressão serena no rosto, apesar das preocupações que insistiam em atormentá-lo. Procurava manter-se concentrado no presente e atento ao futuro, como fora ensinado desde que podia lembrar-se, mas as decisões que agora lhe cabiam não seriam fáceis de tomar. Ardlan era o Condutor desta cidade, além de um dos mais respeitados Sacerdotes Cinzentos e um virtuoso clérigo. Uligan sempre o admirara, mesmo antes de se tornar aluno de um dos mais competentes e exigentes professores de Graeldar, mas o velho mestre nunca compartilhara totalmente de sua visão, sempre excessivamente receoso e desconfiado aos olhos dele, arraigado a orientações e preceitos que, mesmo para os Mestres mais conservadores, já haviam se perdido nos muitos anos que se seguiram desde o tempo de seus ancestrais.
Ardlan nascera poucos anos depois da destruição de Marelvian e cresceu entre o ódio e a esperança fugidia daqueles que viveram os tempos mais sombrios da história de Graeldar. O lento passar dos anos vazios que se sucederam, repletos de desconfiança, intrigas, levantes e mortes, acabaram por mudar a compreensão e os caminhos de quase todos os novos Mestres, que se adaptaram ao que não podiam ainda mudar e para reconquistar o que perderam, mas Ardlan nunca se permitiu contaminar pela cegueira e pela aquietação dos jovens tolerantes, como ele mesmo sempre dissera aos seus alunos. Uligan fora muitas vezes arrebatado por estas mesmas palavras em sua juventude, mas a mensagem que elas carreavam não mais lhe trazia conforto ou inspiração, apenas o inquietavam. Ardlan conhecera Belenur e vivera o dia em que Graeldar foi usurpada de sua soberania. E estas lembranças ainda estavam vivas dentro do ancião, talvez demasiadamente vivas.
A formal voz de Midler o fez esquecer-se por um momento de suas preocupações.
– Agradeço pelos cuidados que teve comigo, Uligan de Urm – Midler tentava usar a cortesia e a formalidade para disfarçar a amargura que corroía sua alma, mas ela impregnava cada uma das palavras – Confesso-me surpreso e admirado pelos grandes poderes que domina.
– Estas bênçãos não são minhas, mas frutos das mãos muito mais hábeis e sábias de Ardlan. Peço apenas que perdoe suas palavras. Há muito mais para ser encontrado sob seu manto severo, mas o cansaço, a prudência e a idade não são sempre bons mediadores.
– E os outros guerreiros da caravana? E o que foi feito de meu mentor, Laertes? – o nervosismo do discípulo era agora indisfarçável.
– Deve descansar e tentar aquietar suas preocupações por hora, Midler. Seus ferimentos foram curados, mas seu corpo e sua alma ainda precisam de repouso. O último cavaleiro, Téhran, que lutou ao seu lado, foi muito ferido e ainda precisará ficar sob os cuidados de nossos clérigos, mas graças a sua intervenção, viverá para lutar novamente. Os mortos foram abençoados e queimados, como é nosso costume, em uma cerimônia muito mais breve e simples do que mereciam, mas o corpo de seu mentor foi trazido para cá, pela força e coragem de mestre Zartan, e repousa em nosso santuário, tendo sido protegido e preparado para ser enviado para onde desejar, mas estes são assuntos para serem tratados quando a manhã vier – Uligan colocou a mão sobre o ombro do anão, indicando-lhe que era hora de se retirarem – Esteja em paz por esta noite, Midler de Baltur. Que em sonhos possa encontrar a tranqüilidade que lhe foi roubada.
Zartan despediu-se formalmente do discípulo e seguiu o diplomata para fora do quarto, onde ele voltou a cobrir a cabeça com o capuz. Os dois seguiram através de um longo corredor que levava aos aposentos dos visitantes. Uligan caminhava em silêncio, procurando manter o rosto oculto de quaisquer olhares, enquanto observava discretamente o anão ao seu lado. Apesar do alívio que sentia pela recuperação de Midler, o semblante de Zartan estava abatido e esgotado pelo esforço sem descanso dos últimos dias. Havia realmente verdade nas estórias que ouvira sobre a resistência quase infinita dos invencíveis guerreiros sob a montanha, mas estes eram também suscetíveis ao mesmo desgaste e sofrimento dos homens comuns. Deteve-se então em frente ao quarto do nobre anão, certificando-se de que não havia ninguém próximo a eles.
– Boa noite, mestre Zartan Balorin. Coloque-se à vontade e procure descansar. Estão seguros e são bem-vindos dentro desta casa, não devendo preocupar-se com nada mais agora. Se me permitir, gostaria de pedir-lhe apenas um favor, antes de seu merecido repouso. Diga a seu bravo companheiro que o Condutor Ardlan é bastante zeloso com suas provisões e que nosso vinho, apesar de farto, não brota livremente do solo como ele parece crer, sendo usado também em nossas cerimônias e jantares.
– Pois diga a seu Condutor que pagarei por tudo o que Bharin consumir e pelos estragos que fizer, senhor! Não somos mendigos nem ladrões! – Zartan olhou rispidamente para Uligan. Estava visivelmente indignado e todo o cansaço pareceu abandonar rapidamente seu rosto.
– Desculpe-me, mestre anão. Não foi meu intento ofender-lhe. Não desejo seu dinheiro ou sua raiva. Entre nós, sou eu o devedor. Mas há muitos outros que aqui vivem e dependem do que aqui se encontra. Eles os receberam e os cuidaram por uma solicitação minha. Meu pedido é apenas para que o que lhe devo não prejudique aqueles a quem os senhores também devem.
– Sou eu quem lhe deve desculpas então, senhor Uligan, por minha falta de temperança – Zartan ficou desconcertado com aquelas calmas palavras – Devo estar mais cansado do que acreditava, apesar de não ser esta uma justificativa digna para minha atitude. Não se preocupe mais, por favor. Irei ter com Bharin e resolverei este assunto.
Uligan despediu-se do anão com um cordial sorriso e seguiu o caminho de volta aos seus aposentos. Estava satisfeito com o resultado de seu pequeno ardil de diplomata. A força e a nobreza do coração de Zartan eram incontestáveis, mas ele não era tão diferente do que já encontrara em outros homens, podendo ser moldado e conduzido pelas palavras corretas. Planejamentos e possibilidades começavam a permear sua aguçada mente, como sempre fora ensinado a fazer, mas, para sua própria surpresa, a desconfiança natural de diplomata começava a ceder, sendo lentamente substituída por um sincero respeito pelo nobre guerreiro.
Ao adentrar na pequena sala da área reservada da Casa de Urm que conduzia aos aposentos íntimos dos mais elevados clérigos de Latani, encontrou um impaciente Ardlan sentado em uma grande cadeira coberta por um fino veludo esverdeado.
– Condutor? Não esperava vê-lo acordado tão tarde – Uligan olhou cuidadosamente em volta da sala antes de retirar seu capuz.
– Como se minha vontade ou decisões o preocupassem ou mesmo moldassem as suas, menino Baspoquin. Poupe-me de sua encenação. Minha memória ainda me serve o bastante para recordar de um bom aluno que tive e que saberia que eu estaria a sua espera — um leve sorriso se formou no rosto do mais jovem, para logo se desfazer – Sim, lembro-me muito bem de você, Uligan. Mais do que o bastante para me decepcionar com a maneira incauta com que está acolhendo e se expondo a este estranho. Estes são tempos muito difíceis para nos permitirmos estas indulgências, quando a morte pode cair dos céus sem aviso ou clemência.
– Ele é um homem de Sandren, Mestre – Ardlan não era mais um Mestre da Ordem, mas continuava a receber a mesma deferência de todos. Fora afastado há alguns anos por Calligan, para, oficialmente, descansar e aproveitar os prazeres que poderia encontrar nos últimos anos da vida em sua querida cidade natal, mas haviam rumores sussurrados sobre antigas diferenças irreconciliáveis entre os dois – Devemos evitar mentir-lhe enquanto for possível. E nada revelei de meu propósito ou de minha missão.
– Meias verdades ainda serão tão verdades quanto mentiras, rapaz. Quantas vezes terei de ensinar-lhe esta lição? – Ardlan ergueu-se e o tom de sua voz começou a alterar-se, demonstrando sua crescente impaciência com os argumentos de Uligan. O velho Condutor não estava acostumado a ser contrariado – Nem mesmo eu sei da incumbência que nosso venerado Patriarca lhe deu, e se não o sei é porque não devo sabê-lo. Este é um segredo que tem de ser muito bem guardado, mas está claro que precisamente aquele que não deveria conhecê-lo, seja quem for este inimigo que o atacou, o considera perigoso demais para que o cumpra, até mesmo para matar abertamente por ele. E, em meio a isto, seu novo amigo e protetor surge em um momento deveras oportuno para quem alega de nada saber.
– Meu mestre, com todo o respeito, acredito que está equivocado. Até onde sabemos...
– E até onde você sabe, diplomata?
Uligan hesitou por um momento antes de responder. Seus motivos não estavam claros até mesmo para ele e a paciência e o rigor de seu velho mestre haviam trilhado caminhos opostos nos anos que se passaram desde sua última lição, distanciando-se para muito além de qualquer reconciliação. Mas a admiração e o respeito que Uligan nutria por Ardlan não lhe permitiriam enganar-lhe, mesmo que considerasse isto possível.
– Eu sei... Eu sinto, dentro de mim, Mestre, que tem de existir mais a se encontrar nos homens do que apenas traição e desconfiança.
– Tenho certeza que nenhum de seus professores jamais lhe disse tamanho absurdo, jovem pretensioso! Não reconhece mais a dissimulação quando a vê? Onde estava Sandren quando precisamos mais? Não consegue nem ao menos perceber que este desconhecido pode ser tanto seu salvador quanto seu futuro algoz, aprendiz?
– Este discípulo não é nosso inimigo, Condutor! – agora era a voz do clérigo que se alterava. Ardlan jamais o chamara assim. Uligan o ouvira por anos referir-se deste modo aos alunos que considerava ineptos e indignos – Sou eu o guardião da confiança do Grão-Diplomata de Graeldar e Patriarca de Urm. No que concerne a este propósito, é a mim que cabem estas decisões!
Uligan arrependeu-se do que disse no momento em que as palavras deixaram seus lábios, mas ele não pôde contê-las. O súbito silêncio que se fez tornava o ar da pequena sala ainda mais denso do que as ásperas declarações foram capazes. Os dois homens se defrontavam com um desvanecente respeito e uma crescente e até então desconhecida rivalidade no olhar, até que a voz de Ardlan, contida no limite de sua temperança, pareceu ressoar entre as paredes de pedra da sala.
– Você tem razão, diplomata. Ele não é seu inimigo, mas se tornou algo muito mais perigoso para sua preciosa missão. Você não sabe o que ele é.
As palavras de seu antigo professor calaram fundo dentro do coração de Uligan e ele baixou lentamente a cabeça, expirando longamente. Não tentou buscar respostas para elas, sabendo que não conseguiria encontrá-las. Ardlan deu-lhe as costas e deixou a sala em direção aos quartos, proferindo calmamente uma antiga prece sem se virar.
– “Busques a divindade e encontrarás o equilíbrio, busques o mediador e encontrarás o diálogo, busques a natureza e encontrarás conforto, mas busques dentro de ti o que tens de fazer...”.
– “E encontrarás a resposta que buscas!” – Uligan completou a oração com um sussurro, enquanto a voz de Ardlan já não se podia mais ouvir. Ele sabia que o velho mestre estava certo, assim como Ohel também estava. Seu amigo lhe dissera, na manhã deste mesmo dia, que eles não poderiam mais esperar pela resposta de Calligan à carta que ele enviara em segredo para Caendlia. Uligan teria de decidir o que faria agora com sua missão. Cada dia que se demorava, parado nesta cidade, aumentava as chances do inimigo o descobrir. Os relatos da emboscada em que o neto do Grão-Diplomata perecera espalhavam-se velozmente por Graeldar e os preparativos de seu sepultamento já haviam se iniciado na capital, mas muitos já sabiam que houvera sobreviventes e que eles haviam sido levados para Latani. No nascer do próximo dia, o próprio Mestre Udhir Laind viria para levar o filho ferido, emanando um ódio infinito sobre o nome e toda herança dos Baspoquin. Apenas Ardlan sabia que Uligan sobrevivera, mas este segredo não poderia ser mantido por muito tempo naquela cidade, pois nem todos ali eram leais apenas ao seu avô. Ele não poderia esperar mais.
Caminhando para a porta que conduzia de volta ao corredor se deteve por um momento, antes de cobrir novamente a cabeça, voltando-se para onde o Condutor havia se encaminhado. Falando em uma suave voz, ergueu a mão naquela direção em uma benção.
– Que a sabedoria do Grande Conselheiro continue sempre a agraciá-lo por muitos anos ainda, Grande Mestre Ardlan.
Em outra parte da grande casa, Zartan caminhava por um largo corredor bem iluminado por inúmeras tochas em belos apoios de um estranho tom azulado, moldados na forma de esguios braços que pareciam brotar da parede para segurá-las. O anão ficara algum tempo em seu quarto, o bastante para guardar alguns pertences, lavar o rosto e tomar algumas decisões. Havia algo que ele queria fazer antes de se permitir descansar e não dizia respeito apenas a seu companheiro de armas. Zartan seguia com passadas decididas, indiferente aos olhares indagadores dos poucos clérigos e acólitos que ainda estavam despertos. As sentinelas por que passava esforçavam-se para não tentar detê-lo, pois as ordens de Ardlan foram para que os anões não fossem incomodados, enquanto não incomodassem mais que o esperado ou aceitável.
Seus passos o levaram até um largo pátio interno, cercado por altos muros, onde a casa em que estava se unia aos fundos de uma grande igreja. Ele inspirou profundamente o frio ar da clara noite que cobria a cidade, sentindo-se renovado por afastar-se por um momento das excessivas fragrâncias, dos óleos aromáticos e do suave perfume de cinzas coloridas a queimar em pequenos pratos dourados que pareciam permear cada cômodo daquela casa. Não eram estes odores que o incomodavam, mas, por mais agradáveis que fossem, eles o faziam sentir-se um pouco distante de algo que lhe era muito familiar, como se ficasse alheio ao que o tornava quem era.
– De que serve uma pedra tão firme sobre um chão que não treme? – Zartan perguntou para si mesmo, incerto sobre o que estava falando ou o porquê de ter dito aquilo. Batendo levemente com a mão na testa e soltando um grunhido de desagravo, procurou afastar aqueles pensamentos e olhou para o espaço aberto a frente.
No meio do grande pátio havia uma única construção de pedras cinzentas na forma de um domo com quase quatro metros de altura, cercado por seis colunas que se dobravam sobre ele, em um círculo perfeito, dando-lhe a forma de uma singela coroa. Havia uma larga entrada em forma de arco em sua lateral, de onde emanava uma pálida luz azulada, tingindo com o mesmo tom as poucas pedras que conseguia iluminar a frente, antes de esvaecer-se na escuridão noturna. Esta estranha luz chamava a atenção do anão, pois não parecia tremular como a de uma tocha, mas se mantinha constante como a clara luz do luar que já esmorecia no céu acima.
– Mananam permita que a feitiçaria dos homens e dos elfos permaneça sempre sobre a terra – a voz do anão era pouco menos que um sussurro enquanto caminhava com passadas quase cautelosas em direção ao domo de pedra.
Ao colocar-se sob o arco, Zartan viu uma peça muito brilhante no interior, logo abaixo do teto da abóbada, parecida com uma alongada bandeja de um metal muito polido, suspensa por uma rede de finos fios dourados. Destes fios, pendiam inúmeras jóias diminutas, cada uma a emitir um pouco daquela suave luz azulada, como se as estrelas houvessem sido arrancadas do firmamento por aquela fina teia dourada e aprisionadas sob este céu de pedra. A luz que se desprendia não conseguia clarear totalmente o interior daquela construção, mas era suficiente para que as poucas sombras que se formavam fossem muito tênues, quase imperceptíveis, mesmo para os sensíveis olhos do anão. Ele não conseguia definir se estava claro ou escuro ali dentro, mas algo no limiar de ambos. Zartan podia apenas dizer que se sentia estranhamente confortado sob aquela luz, em paz com tudo que o cercava.
No interior do domo, logo abaixo da suave luz, havia apenas uma longa bancada feita da mesma pedra, como um comprido altar, sobre o qual o corpo de Laertes repousava, ao lado de seu cajado, com uma expressão de absoluta serenidade a permear seu rosto, parecendo apenas dormir. Não havia no ar ou em seu corpo qualquer odor ou indício da degeneração que se esperaria pelos dois dias em que estivera ali. Aos pés deste altar, de costas para a entrada, Midler estava ajoelhado em silêncio.
– Quando vi que não estava em seu quarto, sabia que o encontraria aqui, ao lado de seu mentor, jovem Midler – Zartan lançou um último olhar desconfiado para as jóias acima antes de entrar, ficando de pé ao lado do discípulo, admirando a paz azulada que havia tomado o corpo de Laertes.
– Veio me dizer que deveria estar repousando, senhor Zartan? – a voz de Midler parecia extenuada, mas o cansaço que se abatia sobre seu espírito não poderia ser vencido por nenhum descanso, por mais longo e profundo que este fosse – Sei que está certo, mas...
Um leve sinal para que fizesse silêncio foi toda a resposta que o anão lhe dirigiu, enquanto permanecia com os olhos fechados e a cabeça baixa em sinal de respeito, enquanto sua mão pairava suavemente sobre o peito de Laertes. Após um momento, sussurrou algo em uma língua estranha, bateu suavemente a mão fechada sobre o peito e abriu os olhos.
– Não, jovem Midler, é você quem está correto. Seria leviano e indigno que homens honrados descansassem sem que antes houvessem cuidado dos feridos e se despedido apropriadamente daqueles que foram melhores do que eles e caíram para que estes pudessem viver.
O silêncio azulado voltou a reinar no domo por alguns momentos, até que o discípulo tornou a falar.
– E o que devo fazer agora, senhor Zartan? Não posso mais seguir o caminho que me foi indicado — Midler baixou a cabeça, olhando com desalento para a lâmina partida de sua espada, que repousava sobre as pernas. Zartan a havia trazido consigo para Latani e a deixara junto aos pertences do discípulo, ao lado da cama, onde ele a encontrara — Meu espírito esta agora quebrado, assim como esta espada, além de qualquer reparo.
– E por que isto se daria? Tenho certeza de que há bons ferreiros e muitas outras espadas nesta cidade. E ademais, você é um hábil e corajoso guerreiro, tendo derrotado um poderoso inimigo com apenas metade de uma lâmina. E desconheço caminho que seja tão árduo que alguém como você não possa trilhar.
– Em Sandren nos é ensinado que a força da espada é igual a força de quem a usa, e a minha se partiu quando era mais necessária.
– Permita-me dizer-lhe algo, Midler de Sandren – Zartan colocou a pesada mão no ombro do discípulo, mas tão afetivamente que ele quase não percebeu – Nunca deve tomar conselhos daqueles que não conhece ou confia, mas mesmo assim peço que me escute. Já vivi muitas batalhas, onde vi irmãos mais dignos do que eu caírem ao meu lado, apenas para que eu continuasse de pé por mais um dia, sem temer ou hesitar. Eles acreditaram que era o que deveriam ter feito. Carrego estas vidas que se foram a cada passo que dou, não como um pesado fardo, mas como algo que me impulsiona, que me faz seguir adiante. Eu caminhei ao lado destes mesmos guerreiros por muito tempo, mais do que o suficiente para conhecê-los e admirá-los e seus atos dignos sempre me inspiraram. E assim será até o meu fim e para muito além dele. No dia em que desistir, estarei traindo esta confiança e este sacrifício. Eles acreditaram em mim, Midler de Sandren, assim como seu mentor confiou em você. Não permita que esta memória e esta esperança se percam. Não há vergonha alguma em se estar vivo, quando muitos já se foram. Só há vergonha em desistir da vida que lhe deram, seja por escolha ou omissão.
Midler ergueu os olhos úmidos, encontrando os do anão sobre ele, firmes e inabaláveis, mas ao mesmo tempo carregados de uma benevolência sem fim. Suas palavras eram capazes de trazer com imensa naturalidade tanto alento quanta coragem aos corações de quem o ouvia, como um velho amigo e um sábio conselheiro. Zartan era a personificação do líder de que Laertes lhe falara, inspirando e conquistando sem esforço os que estão a volta, como um farol em meio à densa névoa que ameaçava engolfá-lo.
– Não sou seu mentor, jovem Midler, nem jamais poderei sê-lo – o anão podia ver claramente nos olhos do discípulo o que se passava em seu coração – Não posso aceitar este fardo, pois está certamente muito além de minhas forças carregá-lo. Seu mentor era um homem sábio além de qualquer medida e não poderá ser jamais substituído – Zartan abaixou-se levemente, apoiando-se em um dos joelhos, até que seus olhos estivessem na altura dos do discípulo, falando-lhe com um encorajador sorriso – Não conheço seu sonho nem seu objetivo, meu jovem amigo, e não posso indicar-lhe o caminho a seguir, mas, se me permitir, posso ajudá-lo a trilhá-lo. É meu débito e minha honra – retesando o corpo, com um brilho altivo no olhar, o anão colocou o punho direito fechado à frente do peito, falando solenemente – Enquanto me chamar de companheiro, amigo ou irmão, eu estarei ao seu lado, sempre que precisar, Midler de Sandren!
O discípulo não sabia o que dizer, surpreso e admirado pela atitude do nobre anão, mas as palavras naquele momento eram desnecessárias entre os dois guerreiros. O discípulo ergueu-se, segurando o cabo quebrado de sua espada para saudar formalmente Zartan, mas não pôde evitar um desajeitado sorriso quando tentou tocar sua fronte na lâmina que não estava mais lá. O anão também sorriu, contagiado pela esperança renascida no jovem.
– Deve agora se despedir apropriadamente de seu mentor sem nenhuma tristeza que vá além daquela que a saudade pode causar e depois vá descansar. Amanhã, o sol irá voltar a nascer, mesmo que hoje você não queira ou acredite nisto.
Zartan encaminhou-se para a saída, deixando Midler a sós com suas despedidas, mas a renovada voz do discípulo o deteve.
– O que lhe disse em sua despedida, senhor Zartan?
O anão quase não se virou para respondê-lo, mas Midler sabia que um leve sorriso se formou em seu rosto.
– Desejei-lhe uma rápida e tranquila viagem de volta aos seus ancestrais, que saberão acolhê-lo com as glórias e reverências que ele certamente não irá querer, mas que se tornou merecedor delas mesmo assim. E, se não for tranquila, que tenham piedade de seus inimigos.
– Muito obrigado, senhor Zartan Balorin, por mais do que jamais poderei agradecer ou lhe pagar. Desejo-lhe uma boa noite, hábil ferreiro de espíritos.
– Quisera eu, jovem Midler, mas há um espírito atormentado e inconstante a rondar a adega e as despensas desta casa que devo tentar apenas desbastar, pois não existe malho ou martelo que possa moldá-lo contra sua indomada vontade.
Zartan então partiu atrás de Bharin, aliviado por deixar para trás a tranquilidade azulada do domo. Midler ajoelhou-se novamente em frente ao altar de pedra e despediu-se formalmente de Laertes, com as preces de Sandren a saírem calmamente de seus lábios. Tentou lembrar-se de cada uma das lições que ele lhe ensinara, mas, ao fechar os olhos, podia apenas ouvir dentro de si a voz eternamente serena do mentor, a lhe falar no dia em que deixaram a Marca da Vitória, mostrando-lhe a longa Estrada do Poente à frente, antes de avançarem sobre ela.
“- Você nunca deixou as terras de seu pai, jovem discípulo, e pouco conhece do mundo além destas fronteiras. Há muito a trilhar e aprender, mas quero que jamais tema o destino ou a estrada que o conduz até ele. Ela nunca terminará, meu jovem, seguindo sempre adiante, com muitas voltas, desvios e armadilhas. As escolhas que fizer serão apenas suas, mas quero que saiba que, assim como não há atalhos, também não há caminhos sem volta. Nada posso lhe prometer nesta estrada, além de uma caminhada longa, árdua e infrutífera, sem glórias ou recompensas ao final. Ser bom e justo, como bem sei que é, não é o bastante, mas apenas o começo. Terá de ser sábio além de seus poucos anos e deverá se tornar mais do que um homem ou um Paladino, mas um ser perfeito, quase divino, mas então descobrirá que sua busca terá sido em vão, pois a própria divindade é falha. Mas não se preocupe. Sua estrada nunca chegará ao fim ou o frustrará, pois a humildade e a razão o impedirão de se comparar a Baltur.”
“- Mas o que me pede não é possível de ser atingido em uma vida, meu mentor! – foi tudo o que um assustado discípulo conseguiu responder, arrependendo-se no mesmo instante de suas palavras.”
“- Em minhas muitas andanças aprendi que o impossível nada mais é do que algo que ainda não foi feito, que está esperando apenas por uma chance para acontecer. Dê-lhe esta chance e ele acontecerá – então prosseguiu com uma voz ainda mais calma e profunda, olhando dentro dos olhos do discípulo – Nem sempre o caminho mais fácil é o mais correto, assim como o mais árduo também pode não sê-lo, mesmo para os homens de Sandren. Quando não souber o que fazer, quando se sentir perdido, antes de procurar por qualquer direção a seguir, procure pela serenidade dentro de seu coração, e ele lhe indicará sempre o melhor caminho.”
Midler ergueu-se e beijou levemente a fronte de seu mentor, agradecendo-lhe mais uma vez por sua sabedoria, tão vasta quanto generosa e simples em seus ensinamentos. Ao olhar uma última vez para Laertes, Midler sentiu suas dúvidas e temores serem apaziguados pela tranqüilidade em seu rosto, e a serenidade que havia perdido apossou-se de seu coração. Ao virar-se para deixar o domo, foi surpreendido pela voz de Uligan, vinda sob o arco de entrada.
– Com certeza o homem que ele foi não pode ser descrito em simples palavras ou mensurado apenas pelo que se pôde ver ao caminhar ao seu lado. Eu sinto por sua grande perda, meu amigo, mais do que pode imaginar.
Midler concordou com um leve aceno de cabeça, deixando escapar um longo suspiro. Seu espírito começava a aquietar-se dentro do peito e, apesar de estranhamente não sentir como seu corpo deveria estar exaurido, não tinha mais ânimo ou vontade para estender-se em cordialidades ou agradecimentos, mas sua dívida para com Uligan e alguns assuntos pendentes o mantinham ainda alheio ao clamor mudo de seu corpo.
– A oeste de Caendlia há um pequeno vilarejo, a pouco mais de uma hora de caminhada da grande cidade, onde há uma bela casa cercada por um baixo muro de pedras que pertence a Malent Duharee, um antigo acólito de Sandren – Midler falava devagar, procurando manter-se tão sereno quanto podia – Peço-lhe que o corpo de mestre Laertes seja enviado para lá.
– Assim será feito, com todas as glórias e honras de um grande líder.
– Não, peço-lhe que não. Mestre Laertes foi o maior mentor que já existiu e assim será até que o próprio tempo se desfaça, mas ele também foi o mais singelo de todos os homens. Não há honraria que lhe faça justiça ou mérito que não tenha alcançado em vida, mas tenho certeza que não seria esta sua vontade. Que seu cortejo seja tão modesto como caberia ao mais comum filho desta terra.
– Como queira. Será feito conforme sua vontade.
– Se me permitir, gostaria que estes fragmentos... – Midler olhou longamente para a lâmina partida em suas mãos e para sua imagem refletida nela, procurando não ver ali um reflexo de seu próprio espírito – Gostaria que esta espada fosse enviada para Caendlia, para as forjas do mestre ferreiro Tallamir. Seu ajudante, Alenthor, saberá o que fazer com ela.
Uligan concordou prontamente com o pedido, sem nada mais dizer, apenas tomando respeitosamente a espada em suas mãos, percebendo o pesar nos olhos de Midler. O discípulo agradeceu cordialmente e despediu-se pela noite, encaminhando-se ao seu quarto, mas o clérigo fez-lhe um sinal para que se detivesse, caminhando até onde estava o corpo de Laertes. Quando estava totalmente tomado pelo tênue brilho azulado do domo, retirou seu capuz e olhou longamente para o mentor, voltando-se então para Midler.
– Para onde pretende ir agora, discípulo? Para onde sua estrada o leva daqui?
– Não sei bem ainda. Meu caminho me é incerto agora – Midler estranhou tanto a atitude quanto a pergunta de Uligan, cuja voz se encontrava naquele momento propositalmente tão parecida com a de seu mentor.
– Não conheço tão bem quanto gostaria as ordenações e os preceitos de Sandren, mas admiro tudo o que me foi dito até hoje, assim como admiro o pouco que vim a conhecê-lo, Midler. Mais do que o suficiente para confiar-lhe o que não poderia nem mesmo a muitos de minha ordem – o discípulo podia sentir sua sobrancelha elevar-se involuntariamente – Este domo é o nosso santuário nesta cidade, abençoado por nossas preces mais sagradas e profundas. Sob sua luz, podemos aquietar todas as nossas preocupações, medos e dúvidas, tanto do corpo quanto do espírito, para que possamos pensar claramente e encontrarmos o que buscamos. A agonia e a dor não podem nos alcançar aqui, assim como a fome, a sede e o lento deteriorar da passagem do tempo. O que aqui dizemos não pode ser ouvido para além destas pedras e os segredos revelados permanecem escondidos. Por isto eu peço que fique um pouco mais e ouça o que tenho a lhe dizer, antes de ter seu devido descanso e de escolher sua estrada a partir de Latani.
Midler acenou com a cabeça, olhando por um momento para as luzes acima dele. Era este então o segredo por trás da serenidade infinita daquele lugar.
– Não posso devolver-lhe o que lhe foi tirado, nobre discípulo, e não acredito que ninguém mais possa. Sua perda é grande e não posso pedir-lhe nada além do que já sacrificou para salvar a mim e aos meus, mas estou incumbido de uma urgente missão que envolve os interesses desta e de outras terras, assim como a vida de todos que nelas vivem. Não posso dizer-lhe mais e não há muitos em quem possa confiar ou que possam ajudar-me. Nem mesmo os melhores guerreiros de que posso dispor puderam defender-me e pereceram valentemente em sua missão. Irei honrá-los devidamente quando puder dispor deste tempo, mas agora minhas obrigações permanecem para com minha missão. Preciso chegar à cidade de Nosrin, em Thimeran, o mais rápido que puder e não poderei esperar pelo fim do inverno. Apesar de minha presumida morte esconder-me dos olhos e dos ouvidos de meus inimigos, não acredito que eles irão desistir de me buscar ou que estes serão os únicos perigos que irei enfrentar nesta viagem. Por isto preciso e gostaria que você estivesse ao meu lado, Midler, e estou pronto para recompensá-lo devidamente por esta ajuda.
Midler ficou calado por alguns momentos, enquanto sua mente vagava por ensinamentos antigos e por tudo que ocorrera nas últimas semanas. Fechando os olhos, podia ouvir as palavras de Laertes a ressoarem dentro dele, assim como as doutrinas da Torre de Marfim. Estas verdades, imortais para ele como a luz do Guardião, eram tudo que tinha naquele momento. Acreditava que, se havia ainda um caminho a frente, uma única chance para chegar ao seu destino, não poderia mais falhar, mesmo que seu espírito estivesse abatido e seu ânimo ausente.
– Guarde suas moedas e seus tesouros, Uligan de Urm. As espadas de Sandren não podem ser vendidas ou alugadas a nenhum propósito – o diplomata permaneceu em silêncio enquanto a previsível recusa formal do discípulo ecoava nas pedras do domo, aguardando a resposta que sabia que viria depois – Sinto vergonha por me considerar um guerreiro. Em um único dia enfrentei dois oponentes e fui por eles derrotado, tendo minha vida em suas mãos e sendo salvo por outros. Não sei o que pode esperar de um protetor assim, mas você acredita mais em mim do que eu mesmo e, para mim, este é todo o pagamento de que preciso agora. Não conheço sua missão ou propósito, mas percebo facilmente o mal naqueles que querem impedí-lo e é o bastante por agora para mim – Midler levou a mão inconscientemente até a bainha, para então deixar escapar um sorriso desconcertado, extinguindo toda a formalidade que procurava empregar naquele momento – Gostaria apenas de ter uma boa espada para colocá-la a seu serviço.
– E você a terá, meu amigo, a melhor espada que esta cidade puder oferecer – Uligan colocou a mão sobre o ombro do discípulo, contagiado pela singela vitória que aquele sorriso trazia em meio a tanta dor, mas mesmo este precioso momento, repleto de uma tranquilidade que se fazia tão fugidia nos últimos dias, teve de ser abreviado pela urgência que o premia – Sei que bem merece e precisa de um longo repouso, Midler, depois de tudo que passou, mas se faz necessário que partamos dentro de poucas horas, antes que a reveladora luz do dia nos encontre. Passarei as próximas horas ausente, providenciando os suprimentos, equipamentos e a discrição de que iremos precisar. Para nossa segurança e meu desgosto, quando voltarmos a nos encontrar, já será para além dos muros desta casa, escondidos nas últimas sombras da noite como inocentes ladrões. Um amigo em quem confio minha própria vida irá buscá-lo em seus aposentos na última hora que precederá a aurora e o levará até onde estarei. Sei que não será muito, mas procure descansar o que puder.
Uligan virou-se e partiu, puxando o capuz sobre o rosto, para então deter-se sob o arco.
– É justo que lhe diga que ouvi as palavras de mestre Zartan e sei que ele o acompanhará para onde for, o que me traz grande alegria e alívio em tê-lo conosco, se ele assim concordar.
– Acreditava que não se podia ouvir o que era falado dentro destas paredes – a voz de Midler soava grave e havia um indício de censura em seus olhos.
– Mentiras podem ser transformadas em verdades quando observadas de uma posição conveniente, meu amigo – apesar do alegre sorriso que lhe dirigia, o tom da voz de Uligan era de uma inquietante neutralidade, deixando Midler incerto quanto ao seu significado. Então ela tornou-se repentinamente leve – E não há segredos escondidos para aqueles que ajudaram a criar estes esconderijos. Durma bem, astuto discípulo de Sandren.
Midler observou enquanto ele se dirigia discretamente de volta à casa de Urm. Sabia que Uligan escolhera propositalmente aquele santuário para falhar-lhe, tanto pela aparente proteção que ele oferecia contra ouvidos alheios quanto pela profunda serenidade encontrada sob suas luzes, para acalmar o angustiado coração do discípulo. Laertes o ensinara a confiar em seus instintos tanto quanto em seus ensinamentos e Midler não percebia uma maldade propriamente dita em Uligan, mas havia nele uma astúcia nata, uma sagacidade que fazia o discípulo sentir-se pouco confortável em sua presença. Ele era mais que um simples servo de Urm. Era parte de seu clero, o discípulo sabia, apesar de tentar escondê-lo sob o suave véu da diplomacia, servindo a um ambíguo equilíbrio que Midler não conseguia compreender ou aceitar facilmente e era capaz de dissimular suas intenções e emoções com uma facilidade que o deixava atônito. O discípulo começava a entender as reservas que seu mentor sempre tivera para com os diplomatas e a sabedoria de se evitar ser tão aberto ou espontâneo em sua presença.
Midler voltou-se então uma última vez para seu mentor, com a certeza de que nunca mais o veria. Apesar da tristeza que sentia escondida dentro de si, o desespero não ameaçava mais tomá-lo, tendo encontrado na nobreza e na companhia de Zartan e na missão de Uligan um propósito para continuar a seguir o caminho que escolhera. Sua atenção então se voltou para o cajado de Laertes, que jazia ao lado do corpo. Sua chama havia sido extinta, não sendo mais um instrumento abençoado, apenas uma bela peça trabalhada em madeira alva, sem mais propósito ou vontade, tão morto e inerte quanto seu senhor.
O discípulo tomou-o respeitosamente, sentindo a delicada e suave madeira em suas mãos. Não havia mais qualquer indício de calor e de vida ou de que algum dia fora tocado pelas bênçãos dos clérigos de Sandren. Mesmo assim, Midler sentia que sua longa história de serviços a Baltur não poderia terminar ali, esquecido de seu dever e dos muitos caminhos que trilhara ao lado de Laertes. Ele fez então uma promessa silenciosa de que, se algum dia chegar à Torre de Marfim e for considerado digno de se tornar um Paladino, será através deste cajado que ele será consagrado.
– Que a luz de seus ensinamentos possa continuar a me guiar na noite escura que se fez dentro de mim, meu mentor. Ainda não compreendo muito do que me disse, mas sei que nenhuma de suas decisões nesta vida foi equivocada. Não vejo dentro de mim esta força de que sempre me falou, nem sei se algum dia a verei ou me sentirei pronto para seguir até à Torre de Marfim, mas jamais permitirei que sua passagem ou suas promessas tenham sido em vão. Fique em paz agora, querido Laertes, grande mentor de Sandren.
Enquanto isto, em outra parte, Zartan caminhava atrás de seu companheiro, guiado pelas reclamações de alguns pajens ainda despertos contra sua vontade. Ao final de um estreito corredor, um grupo de soldados fortemente armados estavam em frente a duas grandes portas abertas, olhando impacientemente através delas, aguardando por um comando que nunca viria de um nervoso superior que não sabia o que fazer. Suas ordens haviam sido claras, mas não suas alternativas. Havia sido instruído a evitar qualquer conflito que pudesse ser evitado, assim como fora alertado sobre a força e a perícia dos anões. Ao avistar a aproximação de Zartan, o ar escapou-lhe lentamente dos pulmões, quase sem forças. Voltou-se então para o soldado ao seu lado, em uma voz desalentada.
– Vá à guarda e traga mais homens, rápido, tantos quanto puder.
Zartan passou por eles sem dar-lhes qualquer atenção, discordando de suas atitudes e de seus medos. Nenhum guerreiro deveria agir daquela forma covarde ou temer aqueles que são seus convidados e que deveria proteger. Ao entrar na grande adega, viu Bharin sentado em uma cadeira com seus pés sobre uma larga mesa, onde várias garrafas jaziam tombadas e vazias, por cima e em volta das lâminas de seu grande machado. Numerosos filetes de vinho escorriam pela barba, enquanto terminava de virar mais uma longa jarra de cerâmica na boca. Soltou-a então displicentemente sobre a mesa, vindo a girar e cair no chão, partindo-se. Seus pequenos olhos avermelhados voltaram-se então para Zartan e um incompreensível grunhido desprendeu-se de seus lábios, misturado a um longo arroto. Zartan conteve um suspiro de desaprovação e falou-lhe alegremente em uma voz vibrante.
– Salve, Turbilhão. Há ainda algum vinho nesta adega que tenha resistido a tua fúria ou terei de passar a noite tão sedento quanto um rato do deserto?
Um estrondoso som gutural que saltou da garganta de Bharin foi toda a resposta que o nobre anão recebeu, enquanto seu companheiro lhe empurrava com a bota um garrafão quase vazio até a beirada da mesa. Zartan sentou-se em uma cadeira e tomou das mãos de Bharin uma garrafa cheia que ele acabara de pegar e estava prestes a beber. Abrindo-a, saudou seu companheiro e tomou um longo gole, ficando então alguns momentos em silêncio a observá-lo, antes de lhe falar.
– Acho que é chegada a hora de partirmos, Turbilhão. Graças a ti o vinho desta casa esta rapidamente a acabar e não há nada mais que possa nos interessar dentro destas paredes.
Bharin concordou com um grunhido, curvando-se para pegar outra das muitas garrafas que os pajens contrariados haviam colocado em volta de sua cadeira.
– O nobre jovem que encontramos já está recuperado de seus ferimentos e deve partir em breve – Zartan continuou – Quando o fizer, acredito que irá seguir para o norte, pela estrada que cruza estas montanhas, como era teu intento inicial, então imagino se...
– Não! – Bharin respondeu-lhe prontamente sem se virar, continuando a beber.
– Já vagamos por tempo demais sem rumo ou propósito, Turbilhão, e o que encontramos aqui não se apresenta facilmente, bem sabe. Por que ele não pode nos acompanhar, meu amigo? Ou melhor, por que não podemos ir com ele?
– Ele nem mesmo é um guerreiro de verdade. E eu não vou pajear uma criança.
– Ele é jovem, é verdade, mas é também um homem honrado e digno. Acredito que tenha tanto a aprender quanto a ensinar. E ele é habilidoso com a espada, não podes negar.
– Tão habilidoso quanto uma criança desajeitada pode ser – Bharin havia esvaziado sua garrafa e tomou de volta a que Zartan pegara – Ele nunca esteve em um combate verdadeiro, Zartan. Não há morte em seus olhos ou sangue em suas mãos.
– É verdade, Turbilhão, – Zartan sabia que Bharin tinha razão. Ele podia perceber facilmente, pela maneira que Midler lutava, que o discípulo não havia ainda defendido sua vida ou tirado a de outro em combate – mas mesmo sendo tão jovem e inexperiente, ele salvou nossas vidas e a de todos os outros. Temos uma dívida para com ele.
– Você tem uma dívida, não eu! – Bharin colocou-se de pé e bateu com força a garrafa na mesa, quebrando-a e espalhando o vinho sobre ela, que escorreu rapidamente para o chão como finos filetes de sangue. Olhava furioso dentro dos olhos de Zartan, com a dolorosa lembrança do Ghaenbür, o único inimigo que não conseguiu vencer, a queimar dentro dele – Eu nunca pedi e nem preciso da ajuda de ninguém!
– Está bem, Turbilhão, está bem. Não posso e não irei obrigar-te a fazer o que não queres – Zartan soltou um longo suspiro, esperando que seu companheiro se acalmasse e se sentasse, voltando a beber, satisfeito por haver encerrado aquela discussão – Mas por mim então, meu amigo? Ao meu lado tu virás?
Bharin ergueu-se de um salto e levou um dedo em riste na direção do rosto de Zartan, mas nada disse. Seus olhos moviam-se desesperadamente de um lado para outro, procurando as palavras que poderiam dar vazão à raiva que se apossava dele, mas não conseguiu encontrá-las. Após um momento de um tenso silêncio, esmurrou com força a mesa, quase partindo-a, fazendo algumas garrafas sobre ela saltarem e caírem no chão. Ele fez menção de arremessar a que segurava, mas se deteve ao perceber que ainda continha algum vinho. Tomou-o avidamente com um único gole, jogando-a então violentamente contra a parede do outro lado da adega com um urro de raiva.
Zartan observava com tristeza seu companheiro. Sabia que havia conseguido dobrar seu espírito indomável, que ele agora iria consigo, mas não conseguiu sentir qualquer prazer nesta pequena vitória. Bharin parecia não conseguir ou não querer perceber a nobreza que havia nas ações de Laertes e de Midler, nos sacrifícios que fizeram por outros que não conheciam sem hesitar. Era esta a nobreza que Zartan esperava um dia poder encontrar em seu companheiro. Ele acreditava que, ao caminhar ao lado de Midler, Bharin poderia, através das atitudes corretas do discípulo, despertar para a única coisa que lhe faltava para ser considerado digno de se tornar um Portador do Machado aos olhos do Conselho e de seu pai. Mas agora, ao olhar para ele, a beber displicentemente de outra garrafa, cujo gargalo ele quebrara com as próprias mãos apenas para provocá-lo, Zartan não pôde deixar de questionar-se se sua decisão havia sido acertada.
– Virei buscá-lo pela manhã, pois sei que ainda estarás aqui – Zartan ergueu-se, mas não obteve qualquer resposta, que o ignorou completamente – Boa noite, Bharin Bolfix.
O nobre anão dirigiu-se para a entrada da adega, onde pelo menos uma dúzia de guardas aguardava impacientemente. Zartan dirigiu-se diretamente até aquele que parecia ser o superior da pequena tropa, enquanto os soldados tentavam não ficar em seu caminho. Colocando a mão em um pequeno saco que trazia consigo, tirou duas diminutas pedras de um claro tom avermelhado e as entregou a ele, falando a todos em uma clara voz de comando.
– Não o perturbem e deixem-no beber até que se farte e ele irá deixá-los em paz. Estas jóias serão mais do que suficientes para pagar por todo o estoque de sua bebida por mais de um mês e cobrir quaisquer transtornos que ele ainda possa vir a causar. Tenham uma boa noite.
Nenhum dos guardas questionou as palavras de Zartan ou ousou desobedecê-las, mesmo quando ele há muito já havia partido e Bharin parecia não se demover de seu intento de secar até a última gota da grande adega. Muitos deles acabaram por dormir naquele mesmo corredor, pois o anão permaneceu a beber até que seu amigo voltou para buscá-lo, faltando pouco para o amanhecer. No dia seguinte, apesar das jóias que o anão lhes entregara terem sido convertidas em muito mais moedas do que acreditavam ser capaz, elas mostraram-se apenas suficientes para pagar por todo o vinho que Bharin consumira naquela noite. Durante muitos dos anos vindouros, seria contada com vívido entusiasmo, para além dos limites da cidade de Latani, a estória de um anão amaldiçoado por um vazio tão infinito que, se as águas do próprio Rhallys fossem transformadas em puro vinho, não seriam suficientes para apaziguar sua sede.
Notas finais
Muito obrigado a todos.
Daniel.
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