O Caminho de Sandren - Livro 2 (Descaminho)
2 O último refúgio
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O conforto que o fogo trazia era como uma benção a tocar gentilmente a pele daqueles que caminharam sob o jugo do frio que se apossara de todo o norte de Graeldar, descendo inclemente da encosta das montanhas próximas, tornando cada passo de sua longa jornada ainda mais árduo e curto. Mas mesmo seu calor não conseguia aquecer o espírito dos três discretos viajantes que cruzaram as muralhas de Thorion logo após o cair da noite, seguindo diretamente até a única hospedaria da fortificação, a Grande Casa de Dhüor, no coração da fortaleza, cujas grossas paredes, abundante bebida e grandes lareiras que nunca se apagavam a transformavam em uma parada imperativa a todos que caminhavam pela Estrada do Norte.
Dhüor havia sido o primeiro homem que cruzara aquelas montanhas e sobrevivera, ferido e extenuado ao limite de suas forças, muitos anos antes da Garganta do Gigante ser aberta. Ele partira de Thimeran com um pequeno grupo de aventureiros, buscando glória e riqueza entre os picos inexplorados, mas encontrou apenas tormento e morte para aqueles que o acompanharam. Somente ele resistira à travessia, trazendo consigo algum ouro e poucas jóias, assim como sombrias estórias febris de um escuro labirinto no coração da montanha. Com ele também vieram pequenas caixas de uma madeira alva, repletas de objetos que eram estranhos aos homens que viviam nos dois lados da montanha, mas que, por suas mãos, atingiram um grande valor por sua raridade e beleza. Quando seu corpo ficou curado e seus bolsos se esvaziaram, ele tornou a cruzar as montanhas, como o fez então por muitas vezes, sempre solitário e em segredo, retornando com ainda mais riquezas e itens exóticos, criando para si um vantajoso comércio nos dois lados dos grandes picos, que parecia conhecer como nenhum outro, cruzando-os impunemente sempre que queria. Suas proveitosas viagens despertaram a curiosidade e a ambição de muitos, levando-os também à perigosa travessia e, em sua maioria, à morte e ao esquecimento. Os poucos que sobreviveram não conseguiram encontrar qualquer indício da trilha secreta de que Dhüor se utilizava, fazendo com que sua notoriedade e o mistério que o cercava crescessem para muito além daquelas encostas.
Com o passar dos anos, o abastado comerciante já havia acumulado uma considerável fortuna e, temendo a cobiça e o interesse que despertava, comprou as terras sob as montanhas que tanto o enriqueciam, iniciando ali a construção de uma grande casa e de uma fortaleza para protegê-la. Alguns anos depois, quando os altos muros ainda estavam sendo erguidos, Dhüor partiu mais uma vez para as montanhas, levando consigo seu único filho, Hafanim, para ensinar-lhe os segredos de sua herança, mas nenhum dos dois jamais retornou. Com o passar do tempo, sua fortaleza inacabada foi abandonada e sua riqueza, saqueada. A memória de seus feitos se perdeu, assim como o interesse pelos tesouros que a montanha poderia ainda ocultar, pelas vidas que consumira e por tantas outras que desgastara. Muito tempo depois, quando os reinos vizinhos decidiram abrir a preciosa passagem pelas montanhas, através das terras que haviam pertencido a Dhüor, a construção da antiga fortificação foi terminada e a grande casa transformada em abrigo para os trabalhadores e, posteriormente, em uma estalagem para os viajantes. Um pesado martelo pairando imponente sobre a porta da hospedaria, ricamente trabalhado em bronze mas desgastado pelo tempo e pelo uso e já sem ostentar nenhuma da prata que um dia tivera, era tudo que restava das travessias e dos objetos do antigo comerciante.
Apesar da importância da Garganta do Gigante, Thorion acabou por se tornar pouco mais do que a pequena fortaleza que Dhüor imaginara, transformando-se na guardiã daquela passagem, recebendo os comerciantes e viajantes que por ela viessem ou se destinassem, sendo farta em acomodações que iam de simples alojamentos para muitos homens, próximos aos muros, a luxuosos quartos para poucos abastados, no interior da grande casa. Havia também amplos estábulos e depósitos, que tomavam quase toda a extensão interna da muralha, para inúmeras montarias, mercadorias e cargas. A larga Estrada do Norte seguia pela fortaleza sem se deter, cortando diretamente através dela, passando por um imenso portão externo que jamais fora fechado, indo unir-se por fim aos primeiros aclives da Garganta. Não havia beleza alguma para ser encontrada na prática concepção de Thorion e esta não tinha pretensões de tornar-se mais acolhedora do que uma simples noite de tépido repouso poderia ser, sendo apenas um local de passagem, descanso e proteção. Sua guarda era excessivamente numerosa durante a maior parte do ano, com muitos soldados, vigias e sentinelas, mas a maior parte deles já havia partido com as últimas caravanas, muito antes da inexorável chegada das primeiras neves. Até o começo da próxima primavera, apenas um pequeno contingente permaneceria em seus postos, a sentir nos trêmulos ossos a chegada do inverno que em verdade nunca os abandonava.
A região à sombra das montanhas sempre fora inóspita, nada mais que um vasto território de pedras nuas onde nada florescia. As altas vertentes não ofereciam qualquer proteção contra o persistente vento que uivava entre as poucas torres de Thorion. Em verdade, elas o fortaleciam, conduzindo-o veloz por dentro da fortaleza. Em suas guaritas, os estreitos olhos de seus protetores agora não mais se voltavam desconfiados para a Garganta, mas esperançosos para a longa estrada ao sul que agora se escondia de seus olhos, a seguir reta para as planícies abaixo, conduzindo ao conforto de climas mais amenos, uma eterna promessa para aqueles que já haviam cumprido seus anos de serviço na montanha.
Havia poucos residentes em Thorion, responsáveis por sua conservação e por mantê-la viva quando tudo a sua volta parecia morrer. Eles há muito já haviam se acostumado tanto com o louco fervilhar dos comerciantes e suas comitivas quanto com o branco silêncio que não tardaria a chegar, quando apenas a caravana de suprimentos viria para a fortaleza, em intervalos cada vez mais longos, mas mesmo ela não permaneceria ali por um dia a mais do que fosse devido. Assim, nenhum deles poderia esperar que alguém se aventurasse até o último povoado ao norte de Graeldar com o inverno tão próximo, mas, apesar da curiosidade e da suspeita que aqueles três viajantes causavam, as moedas thimeranas que apresentaram eram boas e fartas o suficiente para que os homens que trabalhavam na taverna da casa não lhes indagassem seus motivos. Estavam acostumados com mercadores que preferiam o sigilo em seus negócios, com ricos nobres que viajavam em segredo e com toda sorte de aventureiros sombrios e reservados.
Os três haviam se sentado em uma mesa próxima ao centro da ampla taverna, onde uma lareira ardia intensamente em uma cavidade rasa, cercada de escurecidas pedras baixas. Pediram apenas por generosos pedaços de carne de caça e pão, assim como um pouco de queijo e um grande jarro de qualquer bebida quente que tivessem. O mais largo entre eles colocou-se de costas para o fogo, ocultando os outros sob sua sombra, que se fazia enorme com a proximidade da luz. Carregava apenas uma simples espada de lâmina larga, cujo cabo estava enrolado em tiras desgastadas de couro, em uma bainha sem qualquer adorno ou brasão. Uma longa e grossa capa cobria-lhe quase todo o corpo, arrastando-se úmida pelo chão quando ele se sentou. Sob ela, uma corpulenta armadura feita de grossos elos de metal podia ser vista. Tirando a pesada manopla, passou a mão lentamente pelo queixo, sentindo a barba que começava a surgir a incomodá-lo, pois não estava acostumado a ela.
Os outros dois homens também se mantinham calados, observando discretamente o salão da estalagem, a procura de olhos e ouvidos curiosos. Um deles, trajando um longo manto escuro, era o único que falava aos homens da taverna. Apesar de falar fluentemente a língua de Graeldar, sua voz possuía a forte pronúncia dos homens de Thimeran. Ele vestia compridas luvas que subiam por seus braços, até desaparecerem dentro de longas e folgadas mangas. Seu rosto estava encoberto por uma fina rede que deixava apenas seus atentos olhos à vista, mas estes também se ocultavam sob a sombra de um capuz. Assim que se sentou, passou a mão levemente na chama da pequena vela que estava sobre a mesa, como se a agarrasse, e ela pareceu dançar debilmente em sua palma, antes de extinguir-se. Ao seu lado, o terceiro viajante colocou as pequenas sacolas que trazia no chão, esperando de pé que os outros se sentassem para então fazer o mesmo. Seus olhos quase não se abriam, envoltos em uma máscara avermelhada, reflexo do cansaço, do frio e do esforço que fizera para chegar até ali. Desamarrou lentamente a longa faixa que lhe cobria as orelhas e envolvia-lhe toda a cabeça, revelando-a clara e nua como o cume das montanhas acima. Vestia as roupas simples de um humilde servo, cobertas por uma desgastada capa. Seus movimentos eram lentos e comedidos, com um olhar sempre baixo e discreto.
Wiven, o responsável pela estalagem, levou-lhes prontamente o que pediram, com um dissimulado sorriso no rosto. Com a escassez de clientes e atendentes que o inverno trazia, era ele quem tinha de servir contrariado às mesas, mas o fazia diligentemente, por ofício e pela eterna promessa velada de algumas boas moedas. Percebendo então a reserva que os três viajantes buscavam, ficou de pé ao seu lado, colocando-se a disposição para o que mais desejassem, mas o esperado tilintar em sua bandeja o fez retirar-se alegremente, sem nada dizer. Quando este já se encontrava mais distante do que a discrição exigia, o mais largo entre os viajantes falou aos outros, em pouco mais do que um sussurro.
– Não poderemos manter os anões escondidos por muito mais tempo, Nereos. A paciência de Bharin irá terminar junto com o vinho que trouxemos e ele não irá durar para sempre. Surpreendo-me que algum barril tenha resistido até aqui, mas sei que apenas isto não bastará.
– Eu sei, Midler, mas por enquanto teremos que contar apenas com o pouco controle que mestre Zartan ainda parece exercer sobre ele – o homem calvo respondeu-lhe no mesmo tom, em uma trêmula voz, enquanto tentava segurar firmemente uma fumegante caneca para aquecer as doloridas mãos, depois de haver servido os outros. Há muito tempo, mesmo décadas antes da destruição de Marelvian, existira um antigo regente graeldara que governara sábia e corretamente sobre um pequeno e distante feudo, sem nunca haver dito uma única palavra, pois nascera sem sua voz, o que não o impediu de convencer muitos de seus pares de suas convicções. Seu nome era Nereos e foi quase totalmente ignorado pela história de Graeldar, sendo desconhecido pela maioria dos Escolares de Caendlia e mesmo por alguns membros da Ordem de Hilnos. Nereos, o reservado, como era chamado pela única nota em sua referência na História dos Campos Sempre Verdes, vivera em um tempo esquecido de tranqüilidade e fartura, de poucos receios, suspeitas ou intrigas. Uligan escolhera deixar suas vestes, seu cabelo e seu nome para trás, adotando o do discreto regente em sua viagem, na esperança de que, em sua discrição, pudesse seguir alheio àqueles que o buscavam. Apesar das promessas de Uligan de que apenas usaria este nome para protegê-los e como uma justa homenagem ao antigo governante, toda sua diplomacia fora necessária para convencer parcialmente o discípulo de que chama-lo por outro nome não seria uma mentira.
Os três começaram a comer quase sem vontade e o silêncio voltou a reinar absoluto entre eles, como acontecera por quase todo o tempo em que trilharam a estrada até ali. A única montaria que possuíam, um robusto cavalo de carga, comprado de um sonolento comerciante durante a madrugada em que deixaram Latani, estava atrelado a pequena carroça que transportava suas provisões e uma limitada quantidade de um bom vinho, para ser entregue à guarda de Thorion, como se fora um pedido daquela guarnição.
Ohel viajou sentado sobre a carroça, como um modesto mercador, enquanto Uligan conduziu o animal, caminhando ao seu lado, disfarçado como seu humilde serviçal. Midler seguiu um pouco atrás, a guardá-los, enquanto Zartan, relutantemente escondido, tentava aquietar Bharin dentro da carroça, ocultos sob muitas mantas e peles entre os barris. Apesar de não haverem avistado nenhum homem ou animal em todo o caminho até Thorion, eles se mantiveram fiéis às atribuições que assumiram, com Uligan preparando e servindo as refeições, enquanto Midler se alimentava por último e mantinha vigília durante as frias noites que passaram na estrada. A primeira e tímida neve que atingiu as planícies alcançou-os antes de chegarem à fortaleza e já se acumulava sobre seus ombros quando cruzaram as portas da taverna.
– Você está certo, nobre guerreiro – Ohel lhes falou enquanto olhava distraidamente para um pergaminho em suas mãos, aparentando lê-lo discretamente, mas mantinha-se atento ao salão da taverna – Nossa presença aqui já desperta curiosidade suficiente sem que um anão inconveniente seja descoberto em nossa companhia. Até onde posso dizer, não há nenhum outro nesta região e ele seria facilmente associado aos que estiveram em Latani, junto ao que restou da caravana do finado neto do Grão-Diplomata. Teremos de partir antes que o sol ou mais suspeitas se levantem.
– Não foi o que eu disse e não deve ser interpretado assim. Já temos uma tarefa bastante improvável adiante e não acredito ser sábio torná-la ainda mais difícil – Midler tentava falar como Laertes falaria, lembrando-se de todos os conselhos que recebera sobre a travessia – Mesmo antes das primeiras neves caírem sobre a Garganta, nenhum homem sensato ousaria atravessá-la sem a companhia da luz do dia. Thorion já começa a ser coberta por seu manto e ela já deve cair inclemente sobre a parte mais alta da estrada. Também teríamos de evitar as últimas patrulhas que com certeza descerão durante estes dias, além de qualquer outro perigo que se esconda nestas montanhas.
– Infelizmente, sabedoria e sensatez não têm nos guiado nos últimos dias, meu amigo, ou não teríamos deixado Latani, sem recursos e sem ajuda – Ohel aproximou o pergaminho do rosto, para disfarçar ainda mais sua voz – Como disse, você está certo, mas vê apenas parte de nosso desafio. Teremos de evitar também todos os abrigos ao longo da estrada, se estes não houverem sido ainda abandonados pelos soldados que os guardam. Teremos também de deixar aqui nosso cavalo, limitando as provisões e recursos que poderemos levar conosco. O inverno ainda tardará a atingir as planícies de onde viemos, mas aqui seu frio já se faz muito presente e, assim como o vento, irá se intensificar a cada passo de nosso avanço, até que se torne uma companhia mortal, mas não poderemos carregar todas as mantas e peles que precisaríamos, pois estas encurtariam demais nossos passos. E teremos de fugir da luz do sol, pelo menos por enquanto, pois mesmo com seu abençoado calor, ela nos revelaria facilmente, trazendo-nos mais ameaças do que alento. E ainda, mesmo sob o véu da noite, poderemos não encontrar o esconderijo que buscamos, pois a delatora claridade da lua plena ainda se encontra sobre nossas cabeças e as nuvens que a escondem não irão durar eternamente – virou-se para Midler, encontrando um desesperançado olhar em sua direção – Mas não tema, pois este não é mais o momento de recearmos ou planejarmos, mas de agirmos. As escolhas já foram feitas, os riscos assumidos e as decisões tomadas, ou assim não o é mais? – olhou então longamente para Uligan, aguardando sua resposta.
Ele mantinha os olhos fixos na fumaça que se erguia da caneca, sentindo o frio lentamente abandonar seu corpo, mas não seu espírito. Até onde a memória podia alcançar, ele fora instruído nas artes da diplomacia pelos melhores mestres que a Ordem pôde oferecer, para defender seus interesses e os de Graeldar, para negociar, inspirar, manejar recursos e homens, liderar e comandar, mas seu corpo nunca fora preparado para os esforços dos últimos dias. As poucas paradas para descansar e comer tornaram a árdua caminhada ainda mais dolorosa e desgastante. Seus pés começavam a doer dentro das simples botas que calçava, agora que começava a senti-los novamente. Ele sabia que o torpor que o frio da estrada trouxera não poderia ser comparado ao que encontraria na Garganta e, apesar de um longo calafrio percorrer todo seu corpo com este pensamento, dentro de si ele sentia uma chama a queimar ainda mais forte com a proximidade da montanha, com o temor que somente o fracasso pode trazer ao coração de homens obstinados.
– É você quem está correto, meu velho amigo, como sempre esteve – a voz de Uligan possuía agora uma força que não encontrava par em nenhum lugar de seu corpo – Não há mais retorno para nós. Caminhamos agora com um punhal pressionado em nossas costas – sorveu vagarosamente um longo gole, tentando encontrar no calor daquela bebida o ânimo que ameaçava lhe escapar – Não temam esta montanha, meus amigos, pois ela não é o nosso destino. Ele se encontra para muito além dela. Descansaremos por ora e iremos partir antes do sol se erguer.
– Mas... – Midler fez menção de contestá-lo, mas baixou a cabeça, com um suspiro. Não concordava com Uligan, mas havia colocado sua espada ao seu serviço. O diplomata mantinha sua missão em sigilo, não dividindo com ele seus segredos, mas, mesmo assim, Midler ainda não tinha motivos para suspeitar de seu intento. E afinal, repetia para si mesmo, não era ele quem comandava aquele grupo, cabendo apenas a Uligan à escolha do caminho que iriam seguir.
Eles voltaram a ficar em silêncio e comeram sem ânimo, apesar da fome que sentiam. Sabiam que, mesmo que tivessem sorte, esta seria a última refeição decente que teriam em muitos dias que se seguiriam e este não era um pensamento encorajador. Quando terminaram, Ohel solicitou a Wiven por um quarto modesto e confortável, onde seu servo pudesse ficar com ele, enquanto seu protetor seguiria para os alojamentos junto aos estábulos, para ficar perto da carroça. Uligan aproveitou a distração do estalajadeiro para colocar alguns pedaços de carne e pão em uma de suas sacolas para que Midler os levasse para os anões sem despertar suspeitas. O discípulo deixou algumas moedas extras sobre a mesa antes de partir, para pagar pelo que levava, fazendo com que o diplomata contivesse um sorriso, fruto de uma leveza que achava não ser capaz de sentir naquele momento. Ele observou discretamente Midler receber as ordens de Ohel e afastar-se em silêncio em direção à porta da estalagem.
Uligan não falara nada ou dera qualquer justificativa sobre sua urgência ou o porquê de arriscar-se tanto para chegar a Nosrin em sigilo a nenhum dos que o acompanhavam, a não ser Ohel. Ele sabia que os anões só estavam ali por Midler, por acreditarem nele, sem que ele nada precisasse lhes falar ou prometer, ou pelo menos assim o era com Zartan. Quanto a Bharin, seus sombrios motivos, quaisquer que fossem, mesclados a algo que lembrava uma paródia de dependência e amizade para com seu companheiro de armas, pertenciam apenas a ele. Mas Uligan sabia que não era o desespero pela morte de seu mentor ou alguma dívida para consigo que movia a lealdade inconteste do discípulo. O diplomata não precisou ludibriá-lo ou persuadi-lo outra vez, como lhe foi dito que deveria sempre fazer para atingir seus objetivos. Ele não experimentava o receio que seus mestres lhe ensinaram a ter frente aos homens de Sandren, mas algo em seu interior o fazia sentir-se culpado por isto. Não estaria ele sendo tão facilmente iludido pelas ações do discípulo? Ou seriam as histórias que sempre ouvira uma ilusão, nascidas de indevida suspeita e ignorância?
– Nereos! – Ohel puxou-o rudemente pelo braço – Se não deseja mais trabalhar, servo inútil, acharei facilmente outro que o substitua!
– Perdão, generoso senhor – Uligan abaixou-se e pegou as pequenas sacolas que trouxera, seguindo rapidamente atrás de Ohel, que caminhava a largas passadas ao lado de Wiven, sem se deter ou olhar para trás, tentando manter seus pensamentos apenas na empreitada que teriam a frente e não no medo que rondava seu coração ao ver a fraqueza que se abatia sobre seu amigo.
Ao deixar a estalagem, Midler teve o confortável calor do salão rapidamente roubado do rosto e sua respiração transformou-se em uma densa névoa a perder-se entre os pequenos flocos que pareciam dançar suavemente em direção ao chão. Puxando o pesado capuz sobre a cabeça, se deteve por um instante para lançar um último olhar para as montanhas a sua direita, cujos cumes eternamente brancos escondiam-se atrás do cinzento céu sem estrelas. Mesmo estando agora tão próximas e aparentemente tão serenas, o discípulo sentiu um leve calafrio que não era causado pelo rigor do precoce inverno a percorrer seu corpo, antes de dar-lhes as costas e descer sem ânimo pela maior e única rua de Thorion, a última centena de metros da Estrada do Norte, rumando em direção aos estábulos onde estavam os anões, sob os muros da fortaleza. Ele passou sob as agora escuras sacadas da grande casa, de onde já pendiam pequenas pontas de um brilho vítreo, e pelos silenciosos alojamentos de sua reduzida guarda, do outro lado da estrada. Um solitário sentinela em frente à pequena fortificação, envolto nas sombras que a pálida luz de uma agonizante luminária acima não conseguia debelar, lançou-lhe um breve e inexpressivo olhar, ao que Midler respondeu com um ligeiro aceno, mas o enrijecido corpo do soldado não se moveu, como se fora uma estátua a guardar eternamente aquelas portas, voltando apenas os olhos esmorecidos para o chão. Os passos de Midler ecoavam levemente nas grandes pedras desgastadas pela passagem de tantos homens, animais e carroças ao longo dos anos e eram o único som que se podia ouvir na calada noite da fortaleza, nos raros momentos em que o vento cessava de uivar por entre as torres. Com um longo suspiro, ele ergueu a cabeça, olhando para o distante e escurecido sul, para onde ele sabia que estaria a estrada que trilhara até ali, descendo como uma longa linha cinzenta para muito além daqueles declives e dos imperturbáveis campos alvos que os cercavam. Aquela era a estrada em que Laertes morrera, a mesma estrada que poderia agora levá-lo de volta para casa, mas que ele não poderia ainda seguir.
Vista de seu interior, sob a pouca luz daquela noite, a murada de Thorion se apresentava em um grande semicírculo esbranquiçado, pontilhado por suas torres que se confundiam com os soturnos vales ao fundo, como uma singela coroa adornada por simples pedras sem qualquer valor ou beleza. De onde estava, Midler podia ver, para a esquerda do grande portão, o contorno dos extensos depósitos vazios, a acompanhar toda a murada até as montanhas, formando numerosas fileiras que se sobrepunham até próximo de onde estava. Para o outro lado, havia estreitas chaminés que demarcavam a localização das forjas e da pequena praça onde os reparos de numerosas carroças poderiam ser feitos. Um pouco para além dela, no local mais afastado da grande casa e dos alojamentos que a construção da pequena fortaleza permitia, ficavam as humildes acomodações para os soldados e servos, assim como os estábulos para onde ele se dirigia.
Chegando lá, Midler olhou discretamente a sua volta, procurando por outros olhos e ouvidos que não fossem os das duas sentinelas de guarda na larga entrada, a amaldiçoar silenciosamente a presença dos viajantes que os obrigava a estar em serviço, antes de se dirigir à carroça que trouxeram. Abrindo o cinturão, colocou respeitosamente a espada que trazia sobre as pernas cruzadas, enquanto se sentava no chão. O cabo daquela arma, bem mais longo que o de uma lâmina tradicional, havia sido coberto com desgastadas tiras de couro para que não se percebesse o rico trabalho em toda sua extensão, deixando a mostra apenas um pesado pomo em sua extremidade.
Aquela era uma espada singular, de folha mais larga e pesada que as que ele já empunhara, mas precisa e balanceada como poucas. Uma longa linha descia por sua lâmina, desde o cabo até a ponta, sinuosa como o símbolo maior de Graeldar, o grande rio Lorun. Apesar de parecer ter sido forjada como uma peça cerimonial e não para o combate, Uligan lhe dissera que ela já havia defendido valorosamente seu povo em serviço e que o faria novamente pelas mãos do discípulo. Ao examinar o espesso e afiado gume, podia-se ver que estava marcado por cicatrizes de antigas e ferozes batalhas. Se o discípulo conhecesse sua história, ficaria admirado ao saber que a espada que carregava havia lutado ao lado do próprio Meodarûn, tendo sido uma das poucas que foram recuperadas dos escombros da catedral de Marelvian.
Mas a mente de Midler estava agora tomada por outras preocupações para dar a atenção devida aquele artefato ou ao que ele poderia representar. Sempre atento ao que acontecia ao redor, estendeu discretamente a sacola que trouxera da taverna para dentro da carroça, erguendo a grossa pele que escondia a abertura traseira.
– Peço desculpas pelo serviço e pelas acomodações, mas a comida é boa e justa – Midler sussurrou, enquanto Zartan acenava com a cabeça. Assim permaneceram em silêncio por alguns minutos, com o anão a comer sua cota e separando a de seu companheiro. O discípulo sentia o cansaço começar a pesar em seus olhos, até que o estrondoso ronco de Bharin o fez sobressaltar-se e se erguer, procurando pelas sentinelas que ele sabia que teriam sido alertados para a presença do anão, mas a tranquila e firme voz de Zartan procurou acalmá-lo.
– Não receie desnecessariamente ou se iluda, jovem Midler. Os que aqui trabalham são homens simples, mas não são tolos. Eles sabem que alguém se esconde nesta carroça, mas não lhes importa quem seja, desde que não lhes traga aborrecimentos e que estejam sendo bem pagos para se manterem afastados – Zartan bateu levemente em um pequeno saco de moedas que trazia consigo, agora um pouco mais vazio – Não concordo com o que estou sendo forçado a fazer, mas vou respeitar a discrição e a aparente premência do momento, apenas enquanto você também o fizer. O que me conduz a lhe perguntar se o mestre de nossa pequena caravana já revelou nosso destino ou propósito.
– Não, nem eu o questionei mais – Midler voltou a se sentar, ainda atento a quaisquer olhos e ouvidos curiosos que poderiam ainda estar em busca de problemas ou novas moedas.
Zartan continuou a comer em silêncio, aguardando que Midler examinasse o galpão até se convencer de que estavam seguros.
– Há algo mais que a lhe incomodar, meu rapaz, não há? – Apesar do tom inquisidor em suas palavras, a firmeza na voz de Zartan deixava claro que aquela era uma afirmação que não se podia refutar – Pude ver durante nossa caminhada que não é apenas o que nos aguarda que o atormenta, mas algo que ficou para trás, escondido na estrada que nos trouxe até aqui.
Midler se voltou admirado para o anão, mas sua surpresa pouco durou, sendo rapidamente substituída pela tranqüilidade que parecia emanar do experiente comandante.
– É certo que não há segredos que possam permanecer escondidos por muito tempo do senhor, mestre Zartan – um leve sorriso brilhou nos olhos de Midler, mas a retidão do discípulo logo tomou seu lugar – Nada vi na estrada que trilhamos, mas sinto que há algo furtivo que segue nossos passos desde que deixamos Latani, oculto tanto pelas sombras do dia como pela escuridão da noite. Não alertei os outros, pois nenhum perigo parece se anunciar com esta presença, nem mesmo tenho certeza se ela existe.
– Então não confia mais em seus sentidos. Ou é naquele que nos lidera que não confia?
– Não sei dizer, mestre Zartan. Ele me parece um homem honrado, muito seguro de suas certezas e convicções. Não percebo nada que me leve a desconfiar de suas intenções, mas ao mesmo tempo ele é um astuto diplomata e fiel seguidor de uma ambígua divindade que não consigo sequer compreender – Midler calou-se por um momento, para então prosseguir com uma voz mais pesada – Não tenho mais certeza de que apenas sua vontade ou urgência o guiam agora. Seu corpo claramente sofre com o esforço desta viagem, mas é certo que ele coloca sua missão acima da própria vida e da de outros também, sem qualquer pausa ou questionamento. A simples ideia de que seu propósito possa ser frustrado o enche de desespero. Temo que agora sua perseverança beire a teimosia e a obstinação, nublando seu raciocínio e sua decisão.
– Não havia percebido como ele se parece em demasia com um anão... – Zartan parecia divagar, como se apenas pensasse em voz alta, mas estava bem consciente do que dizia.
– Desculpe-me, senhor Zartan. Não quis que minhas palavras soassem ofensivas.
– Acalme-se, jovem Midler, elas não o foram, mas se assim as considera, você ofendeu apenas a si mesmo. Não conheço muito sobre os Paladinos que admira, mas acreditei que era um deles que descrevia – apesar da voz tranquila, não havia nem mesmo um indício de sorriso no rosto de Zartan, – Mas, se realmente é o que acredita, deve abandonar esta missão e partir neste momento. Tem mais motivos do que precisa para isso. Não deve sacrificar sua vida por uma causa que desconhece ou que não acredite. Não irei sentenciá-lo por isto, nem o abandonarei. Irei contigo para onde for, se caminhar sem culpa ou remorso.
Midler permaneceu em silêncio, ponderando sobre as palavras do anão. De repente, pareceu despertar em um sobressalto. Quase não podia reconhecer-se por considerar seriamente a proposta de Zartan, pois não eram estes os ensinamentos de Sandren, mas não podia deixar de concordar com a sabedoria do que lhe fora dito.
– Não posso partir. Não ainda. Foi-me ensinado que devo ser sempre sincero comigo antes de com qualquer outro e é isto que tento agora fazer. Apesar de nada saber do que me aguarda, empenhei minha palavra e minha espada e nada ainda encontrei que possa demovê-las. Tudo que sei é que, contra melhor juízo, deveremos partir antes do nascer do sol.
– Então tudo que sabemos é que mais uma vez teremos de fugir, escondidos pela escuridão da noite como se fôssemos ladrões e assassinos. Tome – Zartan estendeu-lhe um dos grossos cobertores que forravam a carroça, enquanto tentava se esticar em um espaço pequeno demais até mesmo pra um anão – Você deve tentar se proteger, pois esta será uma noite fria, posso sentir em meus ossos – fechando os olhos, ele colocou o machado em cima do peito, sentindo o intranqüilo sono que o aguardava envolver lentamente seus sentidos – E acredito que esta será a melhor noite que encontraremos nos muitos dias por vir.
Midler retirou a capa umedecida dos ombros e a pendurou na cerca da baia ao lado, onde o robusto cavalo que trouxeram descansava. Colocando a espada ao seu lado, recostou-se em uma grande saca de alimento para as montarias, cobrindo-se com a manta do anão, mas, apesar do cansaço que sentia, demorou a adormecer, pois seu espírito não conseguia se aquietar dentro dele. Vários pensamentos passavam desordenadamente por sua mente, dúvidas e questionamentos que não encontravam resposta ou alento, mas por fim, sem que percebesse, acabou vencido pelo peso da estrada e pelo clamor de seu corpo por descanso.
A noite seguiu então seu curso, silenciosa como apenas a escura sombra da alva montanha poderia tornar. Tudo que se ouvia era o eterno vento que uivava melancólico por entre as torres acima, fazendo com que até mesmo o lento passar do tempo aparentemente se congelasse para os impacientes sentinelas em seus postos, ávidos pelo fim da noite, mas um raro momento de quietude pareceu permear o estábulo de Thorion e guarnecer aqueles que ali repousavam. Um profundo e acalentador sono, quase sobrenatural, tomou conta deles, trazendo consigo um pouco de paz para seus espíritos atormentados. Midler não se recordaria de haver dormido tão pesadamente em sua vida, mas as poucas horas em que o fez naquela noite lhe renderam um descanso como poucas vezes voltaria a ter. Muito antes de o sol nascer, um leve toque em seu ombro o despertou, enquanto ouvia debilmente uma voz ainda mais discreta que o chamava.
– Venham agora! Em silêncio!
Abrindo com dificuldade os olhos, Midler prontamente reconheceu os de Uligan sobre si, apesar das longas faixas que lhe cobriam todo o resto da cabeça e ergueu-se rapidamente, vendo os anões já de pé e prontos para partir, com volumosas mochilas às costas. Bharin carregava também um pequeno e comprido barril de uma madeira escura pendurado ao lado do corpo, afagando-o alegremente como uma criança. O diplomata passou ao discípulo uma mochila tão corpulenta e pesada quanto as que os anões carregavam e fez um sinal para que o seguissem, caminhando para as portas entreabertas do estábulo. Midler colocou a capa e prendeu firmemente a bainha da espada ao cinto, enquanto olhava em volta, estranhando a ausência de Ohel ou da montaria que trouxeram consigo. As sentinelas que deveriam guardar aquelas portas também haviam desaparecido, mas o discípulo se manteve em silêncio, enquanto terminava de se aprontar.
Ao chegar às portas e olhar para fora, por sobre os anões, ele pôde ver que já havia cessado de nevar e as nuvens começavam a se abrir, revelando as estrelas e a clara lua que se escondiam atrás de seu véu, como Ohel dissera que aconteceria. Não devia faltar muito para o nascer do sol, mas o céu ainda teimava em permanecer escuro como ébano. A partir da entrada do estábulo, algumas das pedras do calçamento refletiam levemente a luz da lua quase cheia acima e as poucas sombras que se tornavam visíveis eram escuras e bem definidas. Sobre eles, uma das altas torres de vigília pairava imponente e o contorno de sua sentinela se contrastava com a acinzentada tela ao fundo.
Uligan retirou as grossas luvas, revelando as mãos trêmulas e pálidas, já profundamente marcadas pelo frio. Unindo-as em um intrincado entrelace de dedos, ele fechou os olhos, inspirando com força. Após um breve momento, uma seqüência de tranquilas palavras começou a sair de seus lábios, em um contínuo e monótono sussurro. Midler sabia que aquela não era apenas uma simples prece, mas que ele estava tentando canalizar com aquelas palavras uma fração do poder divino ao qual servia, mas seu significado ou propósito eram desconhecidos para o discípulo. Após alguns segundos, em um leve movimento e com o ar a lhe escapar em uma comprida névoa, a silhueta entorpecida da sentinela acima recostou-se na parede da torre e sua cabeça tombou, adormecendo rápida e profundamente em um sono sem sonhos.
Assim que o soldado adormeceu, Uligan expirou longamente, curvando seu corpo fatigado pelo cansaço que sentia. Separou as mãos com dificuldade, exibindo entre os dedos doloridos as marcas do esforço que fizera. Estava claro para Midler que ele já havia completado este ritual numerosas vezes nesta noite e que, em cada uma delas, um alto preço havia sido cobrado de seu já debilitado corpo. Mas antes que pudesse ajudá-lo, Uligan já havia endireitado o corpo e deixado o estábulo, em direção aos alojamentos dos servos, apoiando-se em suas paredes e fazendo um silencioso sinal para que o seguissem para longe dos muros e da estrada, por entre as chaminés das forjas. Seus movimentos eram vacilantes a princípio, quase tropeçando enquanto caminhava ofegante, mas rapidamente ele se recompôs, encontrando em seu compromisso a força de que precisava para prosseguir. Ao observá-lo, Midler sentia-se ao mesmo tempo motivado e assustado por aquela atitude, mas ao imaginar-se na mesma situação, era quase como se olhasse para dentro de um espelho e era isso o que mais o assustava.
Desperto pela urgência do momento, o discípulo deixou de divagar, percebendo que os anões já haviam partido e mesclado-se as sombras das construções próximas, desaparecendo. Mesmo sem poder vê-los, ele tratou de segui-los o mais rapidamente que pôde. Ao contornar a última das forjas, ele se deteve, incerto de para onde deveria ir. A sua frente, estendia-se a pequena praça, sem quaisquer sombras agora para encobrir seu avanço, apenas umas poucas carroças colocadas desordenadamente em seu interior. Pilhas de pequenos escombros, tecido, madeira e metal, além de algumas peças já prontas amontoavam-se em suas laterais, impedindo que o discípulo a contornasse sem se entregar para a reveladora luz da lua, que começava a passar impune pelas aberturas das nuvens. Do outro lado da praça, que não deveria ter mais de vinte metros de comprimento, estavam os depósitos secundários de Thorion, menores e mais numerosos que os outros, formando um intrincado labirinto entre eles. Para além destes galpões, podia-se ver as duas maiores torres da fortaleza, chamadas de Portas de Graeldar, que demarcavam o começo da Garganta e uma das fronteiras daquele reino, esculpidas na própria pedra clara da montanha.
Midler olhou com cuidado para toda a extensão do local, procurando por alguma sentinela que pudesse encontrá-lo, mas nada viu. Ele dirigiu-se lentamente até próximo de uma das grandes chaminés, onde a travessia seria um pouco mais estreita e sem obstáculos, mas quando estava pronto para abandonar as sombras e correr, um forte puxão em sua capa o trouxe para o chão, derrubando-o como se ele fora apenas um pequeno brinquedo. Um som abafado foi tudo que se ouviu quando o discípulo caiu sobre alguma coisa macia e uma pesada mão enluvada cobriu sua boca, enquanto outra, ao lado de sua cabeça, apontava para um pequeno beco do outro lado da praça. Forçando os olhos, Midler conseguiu discernir o suave contorno de um soldado que agora se aproximava lentamente, respondendo ao barulho que ouvira.
Zartan soltou então o rosto do discípulo, que, com um sutil aceno, agradeceu-lhe a pronta intervenção. Uligan começou a retirar suas luvas, mas Midler segurou seu ombro para lhe chamar a atenção, fazendo-lhe uma clara negativa com a cabeça, preocupado com o seu estado, mas este prontamente lhe respondeu em um amargo sussurro.
– Você não me deu escolha.
Procurando se concentrar, Uligan iniciou sua prece tão tranquilamente quanto pôde, mas ficou claro para ele desde o início de que desta vez a dificuldade para vencer a vigília deste oponente seria muito maior, pois não era contra uma sonolenta sentinela que ele se defrontava, mas contra um guerreiro desperto e alerta, consciente pelo temor de que algum perigo poderia estar escondido nas sombras das forjas. Ele começou a entoar sua oração com ainda mais vigor, até transformá-la em um vigoroso cântico por entre seus dentes cerrados. De repente, colocou a mão direita sobre o peito, apertando com força o medalhão de Urm por entre os dedos congelados, enquanto mantinha a outra quase esticada na direção do soldado que se aproximava, sentindo o suor escorrer por sua testa franzida, apesar do frio que o cercava.
Quando as últimas forças que ainda lhe estavam começavam a abandoná-lo e sua voz não mais se elevava além de um sussurro moribundo, o corpo do soldado pareceu balançar e ele levou a mão à cabeça, apoiando-se em uma parede próxima, deixando seu escudo escorrer lentamente pelo braço. Seus passos eram agora incertos, sua visão turva e seus pensamentos desconexos. Após um momento de grande esforço para não se entregar ao torpor que o tomava, seus joelhos se dobraram sobre o imenso peso em sua mente e ele acabou caindo ruidosamente, finalmente vencido, com o som do metal contra a pedra ecoando por entre os muros da fortaleza.
Uligan também não resistiu impune ao confronto e prontamente desfaleceu, como uma marionete cujas cordas se partiram, sendo seguro por Midler antes que caísse no chão. Tão completa foi sua entrega e o esvair de suas forças que o discípulo chegou a temer por sua vida, mas a respiração ofegante era também a grata testemunha do cansaço que sentia. Midler o tomou nos braços, assim como seus pertences, apesar do grande peso que já carregava, olhando para Zartan, incerto sobre o que fariam agora.
– Não podemos ficar aqui – o anão lhe respondeu sem olhar para ele, atento às sombras que os cercavam. Apontou então para as Portas de Graeldar, ainda há algumas dezenas de metros de onde estavam, que era para onde deveriam seguir. Sua presença ali não era mais um segredo e eles não podiam retroceder.
Olhando em frente, Midler concordou em silêncio, preparando-se para correr, e, após um sinal do anão, cruzou velozmente a pequena praça, sendo seguido de perto por Zartan, sob a face de uma lua que as nuvens fugidias não mais escondiam e de cujas inconstantes sombras não podiam mais depender. Bharin também se adiantou, mas permaneceu alguns segundos parado sob aquela luz, com seu machado em punho a refletir debilmente aquele brilho, olhando de forma desafiadora para as outras passagens ao seu redor, quase como se quisesse ser encontrado. Após um momento, com um grunhido de desapontamento, tornou a seguir seus companheiros pelos estreitos caminhos entre os armazéns e depósitos menores.
Midler avançava o mais rápido e silenciosamente que podia, mas, apesar das hábeis mãos que forjaram sua armadura a terem transformado em algo mais leve e maleável do que ele jamais imaginaria possível, ela também se apresentava como um dos obstáculos a serem vencidos naquele tortuoso labirinto. Em algumas passagens, sob as escuras sombras daqueles galpões, havia numerosas e volumosas caixas, assim como algumas compridas ferramentas e pedaços de madeira de vários tamanhos, usados para acomodar e separar nos depósitos as mercadorias que os comerciantes traziam em suas caravanas, o que tornavam seus passos ainda mais lentos, difíceis e ruidosos. Eles não podiam seguir diretamente até seu destino sem se expor em caminhos mais amplos e abertos, próximos à estrada principal. Midler por vezes se detinha para escutar e tentar divisar as Portas, mas as torres teimavam em se esconder de seus olhos por entre aquelas construções. Ele podia ouvir o balançar das armaduras e as abafadas vozes cada vez mais próximas das sentinelas de Thorion, apesar do coração acelerado que retumbava em seus ouvidos com a certeza de que seriam encontrados. Sabia que não poderiam permanecer ocultos de seus olhos por muito mais tempo e desconhecia os planos de Uligan para saírem despercebidos da fortaleza ou o paradeiro de Ohel. Lançando um olhar desesperançado para o diplomata que jazia desacordado em seus braços, o discípulo seguiu em frente, movido apenas pela convicção de que não poderia permanecer ali.
Já próximo às torres, Midler se deteve em um escuro beco que se abria para a Estrada do Norte, com suas delatoras pedras claras a brilharem sob a lua, úmidas pela suave neve que caíra. Pouco à frente, dois soldados podiam ser vistos, a vigiarem como imagens petrificadas os últimos metros da estrada, protegidos por seus muros. Para além deles e de dois grandes portões abertos, a Garganta seguia sempre a subir, escavada sinuosamente na própria montanha, expondo a rocha crua e sem vida, sem quaisquer adornos ou lapidação, tão diferente das estradas que ele trilhara até ali. Midler olhou para o estrelado céu acima, com a última nuvem que podia ver a afastar-se rapidamente, desfiando-se sob a força dos ventos. Não havia mais sombras ou esconderijos para ocultar seu avanço e as últimas sentinelas em seu caminho estavam alertas para os ruídos daquela noite. O discípulo se voltou então para Zartan, que se colocou ao seu lado olhando fixamente para as torres a frente, mas ainda sem encontrar as respostas que ele buscava.
Do outro lado da estrada, junto à muralha que separava a fortaleza da montanha, havia uma pequena casamata feita com as mesmas pedras escuras de suas defesas, onde apenas uma pesada porta e algumas janelas podiam ser vistas. Uma velha lanterna, há muito apagada, pendia sobre a entrada, com o leve rangido de sua corrente a cantar sob o compasso do vento. Era um pequeno alojamento, usado pelo menor contingente de toda a guarda de Thorion, responsável por proteger as Portas de Graeldar. Em frente a ele, uma sentinela olhava atentamente na direção de onde eles estavam, incerta do que poderia haver ali, escondido pelas sombras dos armazéns. Midler sentiu um leve tremor percorrer o corpo quando aquele soldado começou a se aproximar cautelosamente, com sua lança em punho. Ele não queria enfrentá-los, não por temor, mas por acreditar que aqueles não eram seus inimigos, mas eles não iriam hesitar em atacá-lo se o encontrassem ali. Viu com desalento Zartan puxar vagarosamente o machado do cinto, enquanto prendia a respiração e arqueava levemente o corpo, pronto para atacar.
– O que foi? – uma receosa voz vinda de sobre o muro cortou o pesado silêncio que se fizera – O que você viu?
O soldado se deteve pelo que pareceu uma eternidade para eles, olhando fixamente para aquele beco escuro, sem demonstrar nenhuma reação. Então, ergueu seu corpo e baixou a arma, voltando-se para o muro acima.
– Não era nada. Sombras e vento – sua voz soou estranha aos ouvidos de Midler, abafada pelo pesado elmo – Apenas sombras e vento, como sempre.
Um longo suspiro escapou quase sem força dos lábios de Midler quando ele o viu se afastar, enquanto Zartan guardava o machado. De repente, um grande ruído explodiu atrás deles, como o som de vários objetos caindo no chão de pedra, entre ecos de metal e madeira que podiam ser ouvidos por toda a fortaleza.
Virando-se rapidamente, eles viram o cabo do grande machado de Bharin entremeado por várias ferramentas que estavam apoiadas na parede atrás dele, agora caídas desordenadamente por todo lado. O anão ergueu a cabeça, parecendo perplexo, dirigindo-lhes um olhar ambíguo de raiva e desorientação. Zartan prontamente cerrou o rosto e o punho, pronto para esmurrar seu companheiro, mas se conteve por hora. Midler piscou longamente, recusando-se a acreditar que aquele descuido poderia ter sido, de alguma forma, proposital, enquanto se voltava para a estrada, sabendo o que o aguardava antes mesmo de abrir os olhos.
Assim que ouviu aquele barulho, o soldado se virou para o beco novamente e desembainhou a espada, deixando a lança cair, enquanto gritava para a guarda. Outros gritos se seguiram de dentro da casamata e de outros lugares da fortaleza, enquanto o som de passos a correr se aproximava, unindo-se aos estalos dos arcos sendo retesados sobre o muro.
Midler viu mais três soldados saírem apressados do pequeno alojamento, brandindo espadas e escudos. Algumas tochas se aproximavam pela estrada e ordens eram proferidas por muitas vozes. Não havia agora mais saída para eles, a não ser pelo combate e pela morte. Às suas costas, sem que percebessem, um largo sorriso se desenhava no rosto de Bharin e seus olhos pareciam brilhar na escuridão. Subitamente, um clarão explodiu para além dos soldados, em um dos longos armazéns próximos à Casa de Dhüor, com grandes chamas irrompendo de seu telhado. Gritos de alarme e de medo ecoaram por toda Thorion e alguns soldados permaneceram imóveis enquanto outros corriam em todas as direções, desnorteados e confusos. Com um abafado grito de guerra, Bharin começou a avançar em direção a estrada com seu machado em mãos, mas a firme mão de Zartan o deteve antes que abandonasse as sombras que os escondiam.
– Aguarde, meu amigo. Isto não foi fortuito! – a voz do anão era tão firme e inequívoca quanto um forte brado poderia ser, apesar de não passar de um leve sussurro – Há algo mais além da sorte ao nosso lado nesta noite, jovem Midler.
O discípulo não respondeu, atento ao soldado mais próximo que, ainda voltado para onde estavam, gritava em vão para que alguém o acompanhasse, tentando cumprir seu dever mesmo em meio ao caos que se instalou na fortaleza, mas sua voz não podia ser ouvida. Ele então arrancou seu elmo e o arremessou com força contra outro soldado que parecia perdido, chamando-lhe a atenção. Bradando ainda mais alto, começou a comandar com firmeza os que estavam a sua volta, apesar de não ostentar nenhuma distinção eu o diferisse dos outros soldados. Midler se surpreendeu não apenas com a convicção e a dedicação daquela sentinela, mas por descobrir que, sob seu elmo, escondia-se em verdade os traços de uma mulher.
Seu nome era Roan, uma das raras guerreiras de Graeldar que podiam empunhar armas em seu nome com a chancela do reino. Apesar da resistência da maioria dos Mestres a sua própria existência, a Ordem não podia censurá-las ou dissolvê-las, por tradições ainda mais antigas que Meodarûn e a própria Marelvian. Elas eram avaliadas ao extremo, com o intuito maior de rejeitá-las do que aprová-las, mas, não fossem por estas mesmas tradições, teriam a mesma importância dos Feldaen junto a Ordem, assim como detinham a mesma habilidade em combate. Mesmo assim, sua presença não era sequer tolerada junto aos Mestres, sendo sempre enviadas para ocupar posições sem quaisquer regalias nos locais mais distantes de Graeldar, como um castigo por sua ousadia. Eram por isso chamadas de “Espadas Virgens”, não pela presumida inocência de quem as empunhava, mas por nunca terem visto um combate real em suas vidas, não sendo convocadas para nenhuma tarefa relevante. Assim o foi com Roan, enviada para Thorion com a promessa de uma promoção que nunca chegara. Todos os soldados que com ela vieram já haviam retornado para as planícies ao sul, após cumprirem seu serviço na fortaleza, mas, para ela, os anos continuavam a se acumular e tanto as promessas quanto a guerreira haviam sido esquecidas por aqueles que as fizeram. Em sua maioria, com o descaso e o lento passar do tempo, estas guerreiras desistiam de suas ambições e de suas espadas, assumindo uma posição mais recatada e aceita por aqueles que as oprimiam. Mesmo assim, Roan continuava em seu posto, cumprindo fielmente o dever que lhe fora designado, como uma simples sentinela do ultimo refúgio da Estrada do Norte, onde Graeldar terminava, mas não suas aspirações, ainda aguardando diligentemente pelo que nem mesmo ela sabia precisar mais.
Midler conhecia pouco a estória das Espadas Virgens e nunca havia encontrado uma antes, mas, apesar do perigo que ela agora representava, não pôde deixar de admirar a determinação e a dedicação daquela mulher. Ela não abandonou sua missão em meio ao tumulto que explodira por toda fortaleza e comandava sem hesitação os homens a sua volta. Mas o discípulo procurou afastar rapidamente estes pensamentos, pois não era ao seu lado que ela lutava agora e não era para ajudá-lo contra um inimigo que ela reunia os soldados em torno de si. Ele era o inimigo.
Outro clarão explodiu em um armazém próximo, subindo alto aos céus e iluminando por um momento a estrada como um repentino sol. Apesar da intensidade destas explosões, eram poucas e pequenas as chamas que permaneciam em seu lugar quando a escuridão voltava a reinar, tênues demais para serem verdadeiras herdeiras daquele fulgor. Midler pensou em correr até os portões, aproveitando-se daquele momento, mas o peso que carregava o tornaria lento demais e os atentos olhos de Roan quase não se desviavam dele. De repente, um vigoroso galopar e alguns gritos chamaram a atenção de todos que estavam ali, fazendo-os se voltarem para o sul, em direção à entrada de Thorion. Mais abaixo na estrada, sem que o discípulo pudesse ver, o pesado cavalo que trouxera corria desesperadamente, atrelado a uma carroça em chamas, de onde caíam pequenos barris que se quebravam com o impacto, liberando um viscoso líquido escuro de seu interior que se incendiava em contato com o fogo, propagando rapidamente as chamas.
Em meio a desordem, um dos comandantes da guarda gritava para que os soldados detivessem a carroça, antes que toda fortaleza fosse destruída pelo fogo. Sua intrincada armadura de couro, sob um curto traje colorido amarrado a cintura, com os desenhos que indicavam sua patente de capitão, era leve e resistente, cobrindo-lhe quase todo o corpo. Um pequeno elmo, com longas laterais em um grosso tecido que lhe passavam dos ombros, deixava apenas uma estreita linha de seus olhos a mostra, assim como uma pequena parte de seu nariz e queixo. Os soldados começaram a correr, mas Roan hesitou por um instante, indicando-lhe o beco em que Midler e os anões estavam. O capitão desembainhou a espada e se aproximou da guerreira, seus dentes fortemente cerrados, com uma voz rouca de ódio a lhe escapar entre eles.
– Não há sequer uma única ordem que possa cumprir sem me questionar, mulher? Vá, agora!
Roan baixou a cabeça, sentindo o sangue ferver em suas veias, com ainda mais ardor que o fogo que explodira naquela noite, enquanto espremia com força o cabo da espada que tremia em suas mãos. Mas o espírito de soldado e seu dever acabaram por vencê-la e ela se virou e partiu, sussurrando algo incompreensível até mesmo para ela.
Midler olhou atentamente para o capitão, incerto se a sorte o havia favorecido ou não. Apesar de estar agora sozinho, ele poderia ser um inimigo ainda mais mortífero do que aquela brava mulher, mas, ao se voltar para Zartan em busca de respostas, surpreendeu-se ao encontrar um sutil e enigmático sorriso no rosto do anão.
Assim que Roan se afastou, o capitão olhou discretamente a sua volta e embainhou com pouca familiaridade a espada, estranhamente gritando ordens para soldados que não estavam mais lá. Quando teve a certeza de que estava só, voltou-se para as torres próximas, caminhando apressadamente em sua direção, fazendo um leve sinal para que Midler e os anões o seguissem. O discípulo se manteve por um momento onde estava, mas Zartan prontamente avançou e se colocou ao lado do capitão, sendo seguido por um muito desconfiado Bharin. Ao se aproximar, Midler pôde perceber os dois estreitos olhos que se escondiam sob a sombra daquele elmo, quando eles se voltaram com receio para o amigo desacordado em seus braços.
– Vamos, não temos muito tempo – a voz que o discípulo ouvia agora era novamente a de Ohel, não mais alterada pelas artes que ele comandava.
Eles passaram rapidamente pelas abandonadas Portas de Graeldar, com suas distantes sentinelas a tentarem debelar o fogo que consumia inclemente um dos grandes depósitos. Assim que cruzou os limites da fortaleza, Midler se deteve sobre a rocha nua do início da Garganta, vendo seus companheiros subirem apressados seus primeiros aclives. Lentamente ele se voltou para Thorion e para os muitos gritos que cortavam sua outrora tranquila e escura noite. Ele podia ver as pequenas silhuetas tremulantes dos homens a lutarem contra as chamas, seus gritos se perdendo em meio ao caos que chegava até os ouvidos, ecoando debilmente na base da montanha. Toda a urgência que sentia foi substituída por um profundo desgosto que se abateu sobre ele, deixando-o sem forças ou vontade para prosseguir. Tudo ali se afastava do ideal que perseguia e do que aprendera ao lado de Laertes e nos livros de seu pai. Por um instante, sentiu-se só, como se tudo e todos a sua volta deixassem de ter qualquer significado ou importância e sua voz não conseguia se elevar para além de um débil sussurro que nem mesmo ele parecia poder ouvir.
– Tanto engodo, dano e desespero. E por quê?
Um gemido em seus braços o despertou e ele se voltou para Uligan, que tentava vencer com urgência o torpor que dominava seu corpo. Os olhos abertos ainda apresentavam a mesma apatia, mas estavam fixos em alguma coisa para além do discípulo. Ao olhar para o alto, seguindo o olhar do diplomata até as torres acima, Midler viu o contorno de uma sobressaltada sentinela que ainda permanecia em seu posto, desperta naquele momento do pesado sono que a longa vigília e uma boa dose de uma forte bebida para vencer o frio que não lhe era familiar lhe haviam imposto.
O jovem soldado rapidamente pegou sua lança e o escudo, olhando na direção do armazém em chamas, sem compreender o que estava acontecendo. Aquele era seu primeiro ano de serviço em Thorion e não havia agora nenhum capitão para comandá-lo, não havia mais ninguém ali para lhe dizer o que deveria fazer. Todos os outros haviam abandonado suas posições e se dirigido para o centro da fortaleza. Tentando cumprir a única diligência que conhecia, o jovem permaneceu em sua função, enquanto aguardava apreensivo por uma ordem, por alguém que lhe dissesse o que fazer.
Ao olhar para baixo, para as Portas que deveria guardar, viu alarmado os dois estranhos sob a torre e alguns outros a se afastarem. Prontamente ele buscou seu berrante, tentando alertar a fortaleza, mas seu aviso nunca foi emitido. Um pequeno machado-de-arremesso surgiu veloz, refletindo momentaneamente a luz do claro luar antes de enterrar-se profundamente no peito da sentinela, antes que este pudesse soprar. O ar então lhe escapou pelos lábios quase que sem vontade, em um moribundo gemido enevoado, e seu corpo lentamente se curvou para frente, girando enquanto tombava por sobre o parapeito, vindo a cair ruidosamente aos pés de Midler.
O discípulo girou a cabeça na direção de onde partira o machado e encontrou Bharin ainda com a mão estendida e um cruel sorriso de satisfação a se desenhar em seu rosto. Zartan e Ohel haviam se detido um pouco mais adiante, quando ouviram a queda da sentinela, e observavam em silêncio, aguardando que os outros os seguissem.
– O que você fez? Ele não era nosso inimigo! – Midler não se importava mais se sua voz seria ouvida pela guarda de Thorion, apenas com a raiva que sentia dentro de si.
Antes que qualquer um pudesse lhe responder, Uligan agarrou a frente da capa de Midler com uma força que não possuía, erguendo-se de seus braços para olhar firmemente dentro de seus olhos, como se pudesse atravessá-lo.
– Foi você que derramou este sangue, discípulo! Foi por seu descuido que este homem morreu! O anão apenas fez o que tinha de fazer, com as minhas bênçãos! Faça agora o mesmo ou fique aqui, eu não me importo!
Uligan se desvencilhou dos braços de Midler, quase caindo quando suas trêmulas pernas sentiram novamente o peso de seu corpo, mas ele recusou o apoio do discípulo e continuou a caminhar com muita dificuldade na direção dos outros, sem olhar para trás. Midler permaneceu ali parado, sem saber o que fazer, não conseguindo desviar o olhar do rosto aterrorizado do jovem soldado, vendo a centelha da vida rapidamente a se apagar daqueles olhos sem qualquer expressão, voltados agora para o nada, eternamente congelados naquele derradeiro momento.
Midler sentiu seus olhos se umedecerem, em um misto de tristeza e culpa, raiva e remorso. Ele fora treinado e preparado para enfrentar a morte e para tê-la ao seu lado como último recurso contra aqueles que perpetravam o mal, a injustiça e a angústia, contra aqueles que feriam os desígnios de Baltur e de Sandren, mas este jovem não era seu inimigo. Ele deveria ter a sua idade, sem nunca ter feito algo que lhe fizesse merecer este destino, mas esta era a fria realidade do mundo e da guerra e ele teria de aceitá-la, como Laertes lhe dissera que seria. O discípulo se amaldiçoava pela primeira morte em seu solitário caminho ser de alguém tão jovem e inocente, sem que nada pudesse ter feito para evitá-la. Ele ajoelhou-se e fechou gentilmente os olhos do soldado, tentando lhe dar o conforto e a paz que não conseguia encontrar dentro de si.
– Chegará o momento em que todos teremos de responder por isto. Eu terei de responder! Tais atos não podem ficar eternamente impunes. Tem de haver uma razão, um desígnio justo por trás disto, mas eu ainda não consigo enxergá-lo. Que Baltur me ajude e perdoe o que não posso, pois não irei desistir até descobri-lo.
Erguendo os olhos, ele viu Zartan a aguardar pacientemente, encorajando-o em silêncio a prosseguir. As palavras que Bharin lhe dissera na adega de Latani ecoavam em sua mente e este era o momento de descobrir quanta verdade elas poderiam portar. O batismo de morte era sempre um pesado fardo para se carregar, mas era necessário na dura vida de um guerreiro. O anão não podia e não iria torná-lo mais leve, nem abrandá-lo com palavras, pois cabia apenas ao discípulo suportá-lo. Se ele não pudesse fazê-lo, não havia nada mais que o anão pudesse lhe ensinar.
Ao vê-lo erguer-se e prosseguir, enxugando com força os olhos, Zartan concordou solitário com a cabeça, confiante de que o menino que ele fora até então morrera junto com aquele jovem soldado e o guerreiro que se tornaria estava agora pronto para nascer dentro dele.
– Agora há morte em seus olhos, Midler Summerion, e logo o sangue correrá por suas mãos.
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