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– Temos de voltar! Agora, enquanto ainda há um caminho para seguirmos! – As palavras saíam quase sem força da garganta de Midler, seu grito morrendo rapidamente no frio vento que açoitava seu rosto. Ohel seguia poucos metros à frente, caminhando lentamente sob a neve que estranhamente não se acumulava sobre seu capuz, mas, se ouvira o discípulo, não fez qualquer menção de lhe responder. Um segundo grito mais forte o deteve por um momento e, quase sem se virar, indicou com a mão coberta apenas por uma fina luva algo para trás de Midler. Quando se virou, as esperanças que tinha de retornar à Casa de Abrigo lhe escaparam em um longo e enevoado suspiro, quando viu que a trilha que deixavam, sulcada na fofa neve que cobria as pedras com seu manto, rapidamente desaparecia sob o branco inclemente que caía. Não havia mais como encontrar o caminho de volta.

Midler acreditava que este deveria ser o quinto amanhecer desde que deixaram Thorion, mas a contagem dos dias se tornava inútil quando as manhãs eram quase tão escuras quanto às noites, apesar da lua ainda se apresentar como um largo sorriso minguante no céu, mas mesmo ela se escondera dos olhos e caminharam por horas dentro das densas nuvens que haviam descido das montanhas. Deviam ter atingido a parte mais alta da Garganta quando pararam para descansar da última vez, pois esta havia deixado de subir, abrindo-se em um largo planalto. A gigantesca parede de rochas que delimitara a estrada até então havia se afastado e desaparecido, perdida na imensidão branca que ofuscava os olhos. Nesta parte da Garganta, onde a montanha se abria por várias centenas de metros, havia uma grossa corrente incrustada na rocha para indicar o caminho aos viajantes, mas tudo que ela lhes trouxe foi grande frustração, quando a encontraram escondida sob a neve, em um amontoado de metal e ferrugem. Estava desgastada e partida em vários pedaços, vítima dos cuidados que lhe foram negligenciados ao longo dos muitos anos de serviço. Fora tirada da estrada quando se quebrou, para não atrapalhar a passagem das carroças, e nunca fora substituída. Nunca houvera em verdade muito uso para ela, pois a travessia não era feita sem a presença de experientes guias e raramente sob tanta neve.

Os anões seguiam pouco mais a frente, vagarosamente abrindo uma estreita passagem através da parede nevada que lhes chegava quase até o peito, mas mesmo Zartan demonstrava sinais de cansaço e incerteza da direção que deveriam seguir, enquanto Bharin pouco fazia para ajudá-lo, agora mais preocupado com o seu precioso vinho que estava a acabar no barril que trazia preso às costas. Ohel seguia logo atrás, aparentando estar alheio ao frio e ao vento que castigava inclemente a todos os outros, protegido apenas pelas leves vestes que usava e por algum tipo de aura que os olhos não podiam divisar, mas que deixava uma trilha úmida sob seus pés. Midler vinha por último, carregando o equipamento e as poucas provisões que ainda restavam, para aliviar o fardo dos que seguiam a frente, enquanto ajudava Uligan a avançar com dificuldade, extenuado tanto pelo esforço da caminhada como pelas constantes bênçãos que dava a seus companheiros para aliviar a dor e curar os ferimentos que o frio e as afiadas pedras escondidas sob a neve abriam nos pés de todos.

Midler não sabia mais para onde estavam indo, apenas que não seguiam mais a Garganta desde o último dia. Haviam divisado algumas distantes árvores para a direita nesta manhã, mas não havia nenhuma próxima à estrada, nada além da rocha sólida em toda sua extensão. As poucas que teimavam em nascer ao lado da Garganta, em pequenos oásis de terra dura, eram cortados muito antes que atingissem um metro de atura. Midler sugerira que retornassem para tentar encontrar a estrada, mas Uligan insistiu que deveriam virar à esquerda e prosseguir até que a interceptassem mais a frente, para não perderem ainda mais tempo, mas as pedras irregulares sob suas botas indicavam ao discípulo que a Garganta continua a escapar-lhes.

Ele voltou-se para o diplomata apoiado em seu braço, ouvindo a respiração pesada pelo esforço de cada passada. Seus olhos estavam fixos à frente, sempre buscando por algo, mas o que? A estrada? O perigo do qual fugia? Respostas para as dúvidas que não dividia com seus companheiros? Midler não sabia, mas podia entender sua obstinação e o juramento que fizera tornava comum o destino de ambos.

Uligan tropeçou em uma pedra solta e quase caiu, não fosse Midler ao seu lado, mas tudo que carregavam veio abaixo. O som do metal se chocando contra a pedra nua pela passagem dos anões ecoou alto e fez com que os que seguiam a frente se detivessem, lançando um olhar desesperançado para trás. Por um longo momento as pálpebras de Uligan se fecharam em um suspiro sem forças e Midler chegou a duvidar se elas se abririam novamente, mas dois exaustos olhos finalmente encontraram-se com os de Ohel quando ele se abaixou e colocou as mãos em volta do rosto abatido. Havia um calor reconfortante em seu toque, mas mesmo este já fora mais quente e firme. Os olhos de Uligan se mantinham sobre ele, suplicando por algo que não podia mais fazer.

– Vamos parar aqui por enquanto – Ohel falou para um congelado Zartan que se aproximava, enquanto procurava aquecer seu amigo – Apenas por uma hora, então prosseguiremos.

O anão olhava para os três homens agachados por baixo das grossas sobrancelhas tornadas brancas. Pingentes brilhantes pendiam de seu bigode e das tranças da barba que começavam a desmanchar sob o constante vento. Havia neve e gelo por todo seu corpo e também em seu olhar, desprovido agora de qualquer calor. Via Uligan tremer sob os mantos que o cobriam, enquanto Ohel continuava a tentar aquecê-lo.

– Devemos seguir – sua voz estava dura e seca.

– Não podemos, mestre Zartan – Midler havia reunido todos os pertences e colocado às costas, erguendo-se – Se continuarmos, não sei se Uligan poderá aguentar.


Zartan ergueu a cabeça, os olhos quase perdidos sob as sombras do elmo prateado, mas seu firme olhar não aceitava contestação.

– Se ficarmos, será como eu lhe disse. Ele não se levantará novamente.

– Então eu o carregarei! – a voz de Ohel soava tão firme quanto o olhar do anão – Preparem algum abrigo, por misericórdia!

Zartan lançou um olhar desamparado para Midler, não encontrando a mesma praticidade no rosto do discípulo. Ajudou-o a desenrolar uma larga peça de um grosso tecido e fincar estacas entre as pedras do chão, criando um anteparo contra o inclemente vento. Bharin se mantinha a alguns passos de distância, preocupado que pudessem pedir um pouco de seu vinho para aquecer o moribundo andarilho.

– Um firme golpe de machado acabaria com a dor e com esta demora – o anão mantinha sua rouca voz baixa, enquanto se servia de mais um gole.

Após o precário abrigo estar pronto, Midler ergueu os olhos por sobre a frágil proteção em busca de algum sinal, por algo que o ajudasse a descobrir onde estavam e para que direção deveriam seguir, mas tudo que via para além deles era o branco sem fim, cego, mudo e paciente. Lembrou-se de Laertes e de seus ensinamentos sobre a traiçoeira passagem, mas mesmo estas palavras pareciam agora distantes demais, como se as houvesse ouvido em outra vida. Pareciam não fazer mais sentido para ele. O que acontecera desde então? Como tudo pode acabar assim, sem um inimigo que se possa enfrentar e ao menos morrer lutando?

Durante os meses mais quentes, a travessia das montanhas não consumia mais do que três dias, mesmo para homens a pé, mas os traiçoeiros elementos continuavam a conspirar contra eles, alongando sua jornada e apresentando a cada dia um novo e maior obstáculo a ser vencido. Antes mesmo do sol se pôr no primeiro dia, o céu rapidamente se fechou sobre eles, escondendo a face da ainda brilhante lua que nascia e a escuridão se fez completa. Apesar dos olhos dos anões estarem acostumados com a eterna noite sob o chão, aqueles que os acompanhavam seguiam com dificuldade, diminuindo ainda mais a distância que seus curtos passos percorriam. Uma fina e incessante chuva acompanhou o cair daquela noite, sem que um abrigo adequado pudesse ser encontrado, terminando por umedecer todas as roupas e mantas que carregavam, aumentando seu peso e tirando-lhes qualquer proteção ou esperança que poderiam ainda guardar contra o gélido toque da montanha. Com a chegada de um lúgubre amanhecer, a chuva se intensificara, transformando as desgastadas pedras sob seus adormecidos pés em escorregadias armadilhas e tornando o alcance de sua visão tão longo quanto o comprimento de seus braços. Ao cair da segunda noite, a própria montanha pareceu cansar-se daquele enfadonho jogo e deixou de açoitá-los, cessando a chuva e o vento por completo, dando às trêmulas pernas, na frágil trégua que encontraram, a chance para alcançarem o primeiro dos abrigos utilizados pela guarda daquela passagem, já há algum tempo abandonada por suas sentinelas.

As Casas de Abrigo, como eram chamadas os três pequenos fortes de pedras nuas ao longo da Garganta, ofereciam um arremedo do pouco conforto que encontraram em Thorion e, ainda assim, apenas quando a estrada estava aberta. A pesada tranca, desproporcional para a porta que cerrava, apresentara-se como um desafio pequeno demais para a impaciência de Bharin. Dentro das grossas paredes havia um pequeno salão com poucas mesas e uma grande bancada feita da mesma pedra. Do elevado teto, entrelaçado por grossas vigas, pendiam longas correntes com lustres envelhecidos, cobertos por uma escurecida cera derretida. No fundo do salão estavam cinco portas enfileiradas, levando aos singelos quartos cavados dentro da montanha, para aqueles que podiam pagar seu preço. Uma porta maior, atrás de uma pesada grade na parede da direita, conduzia a uma escada em espiral que subia até a torre de vigia, ao lado da casa. No outro lado, uma grande lareira jazia fria e inerte, tomada pelas cinzas de fogueiras mortas.

Eles não encontraram ali o calor ou o conforto pelo qual ansiavam, mas as rudes camas se mostraram reconfortantes como poucas, após a extenuante subida. Apesar da insistente recusa de Midler para acenderem o fogo com a farta madeira que havia sido deixada pelos soldados para este fim, ali passaram uma cômoda noite, permitindo-se adormecerem profundamente. Mesmo Midler, que tentou permanecer em vigília com a lembrança das palavras de Laertes sobre a montanha, acabou vencido pelo cansaço, adormecendo no empoeirado tapete espesso do salão.

Quando abriu os olhos, pouco antes do amanhecer, desperto por uma súbita lufada de ar frio e pelo som da porta a se fechar, Midler viu Zartan de pé, em frente a ele.

– Onde esteve, senhor Zartan? – o discípulo ergueu-se sonolento, retirando a pesada coberta que o envolvia, colocada pelo anão quando saíra.

– As nuvens se adensaram enquanto dormíamos e uma grande tempestade se aproxima, a descer velozmente do alto da montanha – o anão retrucou em sua grave voz – Desconheço qual é o propósito ou a urgência de nosso silencioso companheiro, mas sei que ambos terão de esperar que esta se vá antes de continuarmos.

Mas nem mesmo as duras palavras de Zartan conseguiram expressar a verdadeira extensão da realidade que se apresentou. Quando a forte nevasca chegou, nem mesmo os atentos olhos dos anões puderam perceber a pálida luz do sol que se escondeu por trás dela ou mesmo as elevações do outro da Garganta, a se cobrirem com a mesma palidez mórbida que a tudo envolvia. O próprio tempo pareceu perder seu sentido, arrastando-se em uma agonizante lentidão congelada, quando nada mais se movia para além do pequeno forte e o que se ouvia era o lancinante uivo entre as formações rochosas contra o silêncio que se fez dentro das paredes de pedra. Mas para Uligan aquela espera era angustiante.

Durante dois dias inteiros a casa de abrigo foi açoitada por fortes ventos que a castigaram, fazendo as velhas dobradiças da porta rangerem sob o peso da neve que se acumulava sobre ela. A comida e o ânimo deles diminuíram rapidamente, mas não havia o que pudessem fazer. Não havia nada para se falar ou perguntar e todos pareciam satisfeitos ou resignados com a fria mudez que imperou no salão. Mesmo Bharin se calara quando a pouca bebida que encontraram se mostrou congelada, assim como todo o suprimento que a guarda deixara.

No segundo dia Bharin acordou com um grito, praguejando e arremessando o que estava à mão contra as sombras. Midler acreditou que o anão finalmente enlouquecera preso à casa de abrigo, mas Zartan conseguiu acalmá-lo e contou que ele jurara ter visto alguma coisa mexendo em suas provisões. O saco jazia aberto e a pequena corda que o prendia estava cortada, mas não encontraram mais ninguém no pequeno forte. Nenhuma palavra foi dita, mas o olhar de todos estava carregado de receio, pois a lembrança das sombras do demônio que enfrentaram ainda queimava viva na memória deles e o dia se arrastou lentamente em tensa vigília. A madeira do teto e das estreitas janelas rangeu e estalou com o frio e o lamuriento uivo do vento, que atravessava as grossas paredes para envolvê-los, trouxeram gotas de suor às testas geladas. Ninguém ousou dormir ou descansar, espremendo nervosamente os cabos das armas, mas nada aconteceu.

Ao cair da noite daquele dia, Bharin subitamente arremessou um de seus machados contra o teto, que desapareceu entre as elevadas sombras com um baque seco contra as grossas tiras de madeira que o cobriam. Após um instante de silêncio, o anão gritou de raiva e esmurrou a mesa atrás dele, partindo-a. Quando um desapontado Zartan se virou para censurar seu amigo, uma escura figura correu de seu esconderijo sob a mesa quebrada, passando por eles antes que pudessem agarrá-la e passou entre as grades que conduziam à escada da torre de vigília, desaparecendo. Bharin foi atrás dela e, com três puxões e um contínuo urro gutural, arrancou a grade das pesadas dobradiças com um estrondo. Os dois anões subiram a escada, enquanto Midler ficou para proteger Uligan, mas nada encontraram nas pequenas acomodações da torre além da neve pisada no beiral de uma das janelas. Houve então uma curta e dura discussão entre Uligan e Zartan sobre se deveriam ou não deixar imediatamente a casa de abrigo. Midler manteve-se em silêncio, não defendendo nenhuma posição, dolorosamente dividido entre a experiência do anão e seu juramento.

E contra todo o juízo agora eles se encontravam perdidos em meio à imensidão branca, com as duras palavras com que Zartan encerrara a discussão transformadas em uma realidade ainda mais dura. Midler procurava por algo para tentar alimentar Uligan, mas a chuva e a neve haviam desmanchado e congelado todo o pão que ainda tinham, tornando-o inútil.

Após alguns minutos a palidez e a trêmula respiração irregular do diplomata pareciam estar sob controle, mas o discípulo percebeu que o intocado capuz de Ohel já estava tingido pelo branco da neve e que suas mãos começavam a tremer.

– Juntem o que tiverem que possa ser queimado, rápido!

Midler ouviu o comando de Ohel, mas hesitou por um instante, lembrando-se das palavras de Laertes, mas preferiu não argumentar com ele. A proximidade da morte havia afastado toda a prudência de que poderiam ainda dispor e a pouca roupa encharcada que carregavam nas mochilas não iria queimar sob a neve.

As vestes guardadas foram então empilhadas próximas a Uligan, sobre o escudo do discípulo para protegê-las do gélido chão, assim como os sacos de comida, mantos de dormir, cordas e duas das mochilas que ficaram vazias. Ohel tirou as finas luvas e as colocou sobre a pilha. Com um longo suspiro e uma hesitação anda maior, colocou as mãos sob as vestes e retirou de lá um pequeno livro coberto por uma fina capa em couro amarelado, colocando-o com reverência por cima de tudo.

As trêmulas mãos pareciam flutuar sobre o amontoado de tecido, fibras e papel enquanto ele sussurrava estranhas palavras com os olhos fechados. As veias se dilatavam em seus braços e a voz saía com uma dificuldade crescente, mas nada acontecia. A neve começou timidamente a se acumular sobre a pilha que montaram, para o desânimo de todos. Ohel passou a gritar, colocando as mãos com força sobre o pequeno livro, quase rasgando o macio couro. Os flocos sobre ele começaram a derreter, para em seguida se aglomerarem novamente.

Ohel dobrou o corpo à frente, deixando escapar um suspiro enevoado, Seu corpo tremia de frio e do esforço frustrado. Midler também suspirou, deixando as esperanças escaparem junto ao gélido ar. Quando colocou a mão sobre as costas de Ohel para consolá-lo, este retesou o corpo e lançou o punho alto no ar, gritando contra a neve que caía. Colocando a mão esquerda sobre o coração, ele esmurrou o livro com a outra mão três vezes, afundando-o entre as roupas molhadas, e caiu descordado. O gesto fora tão repentino que pegara Midler desprevenido, sem tempo para ampará-lo. Quando se abaixou para acolhê-lo, surpreendeu-se com a temperatura do corpo de Ohel, tão frio quanto a pedra morta sob seus pés, apesar de ainda respirar lentamente. Parecia que todo o calor de seu corpo o havia abandonado.

– Mananam ad larr...

Midler ergueu a cabeça ao ouvir a voz sussurrada de Zartan e sentiu sua respiração se deter involuntariamente. Uma tímida chama azulada pairava acima do livro sem tocá-lo, alheia ao frio. Em pouco tempo a neve sobre o livro derreteu e secou, e o couro começou a escurecer, até que pequenas chamas começaram a crepitar em sua superfície. Quando as roupas abaixo começaram a arder, a chama azul se extinguiu e imediatamente o calor voltou ao corpo de Ohel, que abriu hesitante os olhos cansados.

Bharin se aproximou quando viu o fogo a queimar e sentou próximo a ele, ignorante ao que acontecera. Estava apenas interessado no calor que sentia em suas mãos agora. Zartan e Midler permaneceram onde estavam, incrédulos e desconfiados, enquanto um sonolento Ohel se encolhia, mantendo uma das mãos em direção ao fogo, parecendo avivá-lo, mas, de alguma forma, retardando a voraz fome das chamas.

Midler olhava com crescente suspeita para o trêmulo diplomata e para seu misterioso amigo. Ele não se surpreendera com as habilidades que Uligan demonstrara em Thorion ou com Ardlan em Latani, pois eram os mesmos poderes que os clérigos de Sandren, fiéis seguidores de Ívatar, o deus da Justiça, dominavam através de sua fé e de orações, mas o que viu Ohel fazer era algo diferente. Ele ouvira lendas respeitosamente sussurradas entre os homens da Marca da Vitória sobre os poderes perdidos da Era da Aurora, antes de Baltur e dos Paladinos, quando os deuses ainda caminhavam entre eles. Poderes que os fizeram, em sua arrogância, querer se comparar aos deuses e foram então punidos com dor, morte e ignorância. Ohel não estava em comunhão com nenhuma divindade, nem canalizava sua graça através dele. O poder estava nele, era dele para que o comandasse, algo que até então acreditava que apenas os Paladinos eram capazes. Quantos segredos estavam ainda por serrem revelados? E quantos nunca seriam? Midler se sentia desconfortável, percebendo que, se havia alguma diferença entre uma mentira e uma omissão, ele não conseguia vê-la claramente.

Os minutos se arrastaram lentamente, congelados pelo mesmo frio que o tépido fogo esforçava-se em manter afastado, mas, apesar do pouco alento que podiam encontra em seu calor, ele era bem vindo. Mas para o discípulo não havia conforto a ser encontrado, apenas a lúgubre certeza que não teriam para onde ir quando o fogo se fosse. Não havia mais força em Uligan ou em Ohel para continuarem, não haviam encontrado um caminho sobre a montanha e toda a comida se fora, junto com a pouca esperança que ousaram ter de atravessar a Garganta. Mesmo Zartan tinha um semblante fechado, o olhar vazio voltado para o cegante branco que a tudo envolvia, enquanto Bharin parecia indiferente ao destino que os aguardava, ou que pelo menos encontraria antes os que não possuíam a resistência dos anões.

Sob o pesado silêncio Midler pensava em Sandren, em Laertes e em seu pai, mas estranhamente era sempre em Lydis que seus pensamentos se detinham. Sem saber ao certo a razão, se lamentava de promessas não cumpridas e de intenções que não se realizariam, quando algo chamou sua atenção, um tênue som que era carregado pelo vento gelado, mas diferente dos uivos da montanha. Algo novo, como um choro de criança, mas ainda distante. O discípulo se ergueu, tentando perceber de onde vinha o gemido, mas este se deslocava com o vento. Quando ia começar a se afastar do acampamento, a mão de Zartan se prendeu com força em seu braço, detendo-o.

– Este não é um choro de pesar. É um uivo de caça. Turbilhão, teremos companhia!

Bharin se colocou de pé, esfregando as mãos enluvadas para tirar a neve, em uma animação doentia. Uligan pareceu não tomar consciência das palavras do anão, enquanto Ohel apenas ergueu os olhos cansados para Midler, sem qualquer ânimo ou força para serem encontradas neles.

O discípulo olhou para o escudo sob as chamas, sua madeira já enegrecida pelo fogo. Uma das tiras havia sido consumida. Não seria de nenhuma serventia agora. Desembainhou lentamente a espada de Graeldar, segurando o comprido cabo com ambas as mãos. Aquela empunhadura lhe era estranha, mas lhe pareceu correta. Tornava a arma mais leve, mais parte dele mesmo. Bharin já tinha o grande machado pronto, oscilando impacientemente o corpo para frente e para trás. Zartan tirou o excesso de neve dos ombros e do elmo, segurando firmemente o machado e o escudo de linhas retas. Firmando os pés no chão, fez um firme aceno de cabeça para Midler, indicando que estava pronto, ao que o discípulo respondeu da mesma forma.

Ficaram os três em volta do acampamento, aguardando. A tensão era inquietante, mas, para o discípulo, a espera era o pior. Apesar do frio, suas mãos estavam úmidas sob as luvas, enquanto um gélido fio descia por suas costas. A única certeza é de que a morte viria, pelo lento e silencioso toque da montanha ou antecipada pelo que quer que se aproximasse.

Algo parecido com uma sinistra risada curta indicava que Bharin havia encontrado o que buscava. Midler já se acostumara com o olhar aguçado do anão, como de um animal sempre à caça, mas suas atitudes ainda o deixavam desconfortável. Ao se virar na direção em que ele olhava, alguns vultos começaram a surgir por entre a neve. Três a princípio, comunicando-se por assovios, mas seu número rapidamente aumentou. Em pouco tempo oito homens estavam à frente deles, cobertos em grossas peles claras. Quatro traziam bestas carregadas nas mãos e espadas nas cinturas, os outros empunhavam lâminas de tamanhos variados e escudos pequenos. Permaneceram em silêncio, analisando o pequeno grupo sob os pesados capuzes. Midler imaginava se estes homens poderiam ajudá-los, mas o cruel sorriso que via neles o deixava inquieto, quando o sussurro de Zartan terminou por enterrar suas esperanças.

– Ladrões...

Uma súbita voz vinda de trás deles os surpreendeu.

– É assim que intrusos recebem seus anfitriões?

Ao se virar, Midler assustou-se ao se deparar com um grande lobo-das-neves, quase do tamanho de um cavalo, sua respiração brotando em grandes nuvens por entre os três anéis que tinha presos ao focinho, de onde partia uma fina corrente segura pelo homem que o montava. O pesado capuz estava puxado para trás, revelando um rosto que já deveria ter visto mais de quarenta invernos, de linhas duras e marcado por uma cicatriz que atravessava um olho cego. Uma escuridão com poucos dentes se abriu quando sorriu maliciosamente. Ao seu lado, uma figura esguia coberta em peles do mesmo tom das do lobo oscilava ansiosa, empunhando duas afiadas adagas.

– Mas onde estão meus modos? – prosseguiu – Eu sou Ogreb, rei dos Donos da Montanha e esta ao meu lado é Shirian, minha rainha – a mulher fez uma longa reverência desdenhosa – Vocês invadiram meus domínios sem serem convidados, uma afronta que não posso perdoar sem uma justa compensação. E quem são meus inesperados convidados e como chegaram aqui?

Midler não sabia como reagir, mas tinha certeza das intenções de Ogreb, se este fosse realmente seu nome. Olhando para Zartan, percebeu que o anão mantinha sua atenção voltada mais para os arqueiros que para o grande lobo.

– Nenhuma resposta? Que indelicadeza, senhores. Já ouvi algumas estórias sobre a grosseria dos anões, mas não sabia que eram surdos ou mudos. Ou ambos – o lobo salivava abundantemente sob ele, os grandes dentes amarelos desaparecendo momentaneamente sob a névoa de seu hálito, mantendo os pequenos olhos pálidos voltados para o discípulo – Terei que arrancar alguma resposta de vocês, meus amigos, antes de cortar suas línguas. Parece-me que vocês vieram de tão longe apenas para morrerem tão distantes de casa.

– Negociar, negociar! Pagar, pagar! – as palavras eram ásperas, ditas com dificuldade por Bharin. Midler olhou surpreso para o anão, vendo em seu rosto um estranho sorriso que o assustava quase tanto quanto sua fúria, balançando um pequeno saco que tilintava com o som de moedas.

– Pagar? – Ogreb deu uma gargalhada sarcástica, acompanhado por seus homens – Não deve ter o suficiente sequer para pagar por sua vida, anão! – Midler olhou para Zartan, percebendo que o anão apertou o escudo contra o corpo e prendeu o machado ao cinto, flexionando levemente as pernas. Estava se preparando para avançar contra eles, desarmado — Mas sinto que não possa negociar assim. Estas moedas são minhas, assim como sua vida, mas é um bom começo.

Ainda sorrindo, Bharin arremessou o pequeno saco de moedas para cima, na direção de Ogreb, fazendo-o erguer o rosto para acompanhar seu voo. Antes que este chegasse ao destino, uma besta disparou. Ao se virar, amaldiçoando a natureza traiçoeira dos ladrões, Midler viu um dos arqueiros caindo para trás, com um dos machados de arremesso de Bharin em sua fronte. Os outros imediatamente atiraram contra o anão, mas ele havia abraçado as largas chapas de seu machado, curvando o corpo atrás delas. Não era uma proteção adequada, mas cobria quase inteiramente seu tronco, abdômen e cabeça, expondo ao inimigo quase nenhuma área vital. Duas setas se quebraram contra as chapas e uma cravou-se em seu braço esquerdo. Quando ergueu a cabeça, o assustador sorriso do anão ainda estava lá.

Assim que Bharin arremessou o machado, Zartan avançou em direção aos outros, girando a tempo seu escudo para deter uma das adagas que Shirian arremessara contra suas costas. Ogreb foi pego de surpresa e puxou a corrente, gritando com sua montaria. Com um rosnado de dor e ódio, o lobo partiu velozmente contra o nobre anão.

Midler também demorou alguns segundos para perceber que a silenciosa ordem para atacar fora dada, Quando avançou em direção a dois dos homens de espadas, eles também já corriam contra ele. O primeiro tomou posição e girou a espada à frente, protegendo-se com o escudo, mas o discípulo apenas se abaixou sem se deter, passando sob o arco da lâmina. O ladrão que vinha atrás esperava que Midler se detivesse para combater seu companheiro, estando com o braço do escudo ainda ao lado do corpo. Ele tentou erguer a espada para se defender, mas esta apenas raspou pela manopla do discípulo e ao longo das proteções sob seu braço, detendo-se sem forças contra a placa peitoral. A arma de Midler avançou entre a espada e o escudo do guerreiro, atravessando couro, pele, carne e couro novamente em uma explosão rubra.

Bharin alcançou os arqueiros muito antes que eles conseguissem colocar outra seta em suas bestas, deixando-os sem escolha a não ser desembainhar trêmulos as espadas que traziam. Um de seus companheiros tentara deter o anão, mas jazia agora na neve dividido em dois, com um corte que se iniciava em seu ombro e atravessava todo o tronco, saindo pela cintura oposta. Bharin girava o grande machado sobre a cabeça, atacando com violência incontida, mas preferindo feri-los inúmeras vezes antes de ceifar-lhes a vida, divertindo-se com o olhar de pavor que encontrava em seus olhos.

Zartan mantinha-se atento ao grande lobo aproximando-se rapidamente a suas costas, enquanto corria em direção a outro espadachim. O ladrão apenas esperava, assumindo uma posição defensiva. Estava claro que o lobo alcançaria o anão antes que ele o enfrentasse, mas quando percebeu que o animal iria atacá-lo, Zartan jogou-se no chão, girando o corpo e segurando o escudo com ambas as mãos. As mandíbulas se fecharam pouco acima de seu rosto e o anão sentiu o ar escapar-lhe com força dos pulmões quando a pesada pata acertou o escudo, pressionando suas costas contra o duro chão. O lobo não encontrou a resistência esperada, passando velozmente sobre o anão e atingindo o aterrorizado ladrão como um aríete, quebrando seus ossos em um estalar seco com a força do impacto.

Midler segurou o longo cabo da espada com as duas mãos, puxando com toda a força e, em um giro contínuo, atacando o guerreiro atrás dele, que se defendeu com dificuldade do golpe. O sangue que banhava sua lâmina também escorria abundante do peito ferido de seu inimigo, enquanto seu corpo já quase sem vida caía de joelhos no chão. O discípulo sabia que não se moveria tão habilmente quanto o outro ladrão, mais leve e acostumado com aquele terreno. Não podia permitir que ele recobrasse o equilíbrio, girando rapidamente a espada com as duas mãos e atacando com força. O ladrão apenas se defendia, recuando. Um rápido golpe ascendente atingiu-lhe o ombro esquerdo, fazendo o escudo escorregar pelo braço até prender-se na mão adormecida. Com a dor, ele tropeço e caiu de costas, jogando fora sua arma e gritando.

– Eu me rendo, poupe minha vida! Eu me rendo!

Midler se deteve de pé sobre o homem que chorava como uma criança, a espada erguida com o sangue a escorrer pela lâmina. Estava ofegante e manchado, mas seu inimigo estava vencido. Ele ouvia a voz de seu pai e de Laertes entre as rápidas batidas do coração. ”A morte não é recompensa para se distribuir ou sua serva para comandá-la”. Havia agora sangue e morte em suas mãos, mas não em seus olhos. Não havia sede de sangue em sua alma. Ele ainda se sentia como um discípulo de Sandren. Abaixou a espada, aceitando a rendição. Então, um grito de mulher lhe chamou a atenção.

– Rendam-se ou ele morre!

Shirian estava no acampamento e tinha o braço em torno do pescoço de Uligan. Sua adaga pairava ameaçadoramente sobre o peito do diplomata, enquanto Ohel tentava persuadi-la com palavras ofegantes. Uligan abriu os olhos por um momento, colocando a mão suavemente sobre o braço da mulher e sussurrou algumas palavras. Shirian arregalou os olhos e começou a urrar de dor, enquanto a manga de pele clara que cobria seu pulso era tomada por manchas de um sangue escuro, subindo rapidamente pelo braço até explodir em seu pescoço e rosto, em uma contínua chaga purulenta. A dor que sentia era indescritível, fazendo-a recuar, olhando com terror o braço destroçado, enquanto Uligan caía inerte no chão, completamente exaurido.

Midler olhava incrédulo. Não conseguia deixar de sentir pena da ladra, mas o que mais o horrorizava era a corrupção que Uligan fizera da graça de cura de um clérigo. Jamais soubera que isto era possível e não queria imaginar do que mais ele seria capaz.

Shirian, enlouquecida pela dor, ergueu sua adaga sobre Uligan, tentando colocar um fim ao sofrimento. Midler estava muito distante para detê-la, mesmo assim não conseguiu se mexer, paralisado pelo que vira. Ela arregalou ainda mais os olhos e o grito de dor morreu em sua garganta, com o ar a lhe escapar lentamente. Quando caiu sem vida, o cabo escuro de uma faca de arremesso brotava de suas costas.

Neste momento o discípulo foi derrubado pelo ladrão que se rendera, sendo atingido com força nos joelhos. Midler viu o chão erguer-se rápido contra ele, tendo tempo apenas de proteger a cabeça com as mãos. A espada escapou de seu alcance, chutada para longe. Quando abriu os olhos, atordoado pelo impacto, o ladrão estava sobre ele, tentando acertar sua cabeça com uma pedra. O discípulo usou as proteções do braço como escudos, sentindo os duros golpes fazerem seu corpo tremer. O ladrão ficava mais lento a cada ataque com a perda de sangue. Quando ele ergueu a pedra uma vez mais, Midler acertou seu ferimento com a manopla, fazendo-o gritar de dor e largá-la. Enterrou com força o punho fechado no rosto do ladrão, quebrando seus dentes e a mandíbula. Quando seu inimigo caiu de lado, tão desacordado quanto morto, o discípulo conseguiu se erguer, buscando a espada.

– Tenha a misericórdia que buscou – sussurrou ofegante.

Zartan ergueu-se, sentindo as costas doerem quando respirava profundamente. Soltou o machado do cinto, olhando para o lobo que já havia se virado, puxado pela corrente de Ogreb. Toda vez que a fera atacava, o anão se defendia com o escudo, mas não conseguia espaço para contra-atacar. Seus golpes estavam lentos e acertavam apenas o frio vazio que as rápidas mordidas deixavam. O animal e o anão se enfureciam com o combate, sem qualquer um deles conseguir atingir o adversário. Zartan tentou atacar com o escudo, forçando-o contra a boca aberta do monstro, mas este se prendeu entre as grandes presas e seu braço a ele, conseguindo um inesperado apoio enquanto o lobo tentava arrancá-lo do anão. Em um amplo giro, ele conseguiu atingir a lateral da cabeça do lobo com o machado, que se prendeu em seu crânio. Com um engasgado uivo de fúria e dor, a fera chacoalhou violentamente a cabeça, sacudindo o anão pelo ar como se este fosse um boneco nas mãos de uma irrequieta criança. Quando as tiras se romperam pela violência dos espasmos, Zartan e Ogreb foram arremessados para longe do lobo. O líder dos ladrões caiu para trás, sendo amortecido por um amontoado de neve, enquanto o anão atingia uma pequena coluna de rochas. Apenas a cota-de-malha que vestia impediu que sua carne se separasse dos ossos com a força do impacto.

Zartan se ergueu com dificuldade, tentando firmar tanto as pernas quanto a visão, ouvindo o som de seu escudo sendo destroçado entre ganidos de dor. Procurou por seu machado, encontrando-o ainda preso à cabeça do monstro, atrás de dois olhos agora tão avermelhados quanto os de Bharin. O enorme lobo o encarava com fúria a poucos metros de distância, com sangue escorrendo da boca ferida pelos estilhaços do escudo e de um focinho rasgado pelos anéis que se partiram. O sangue também pulsava da cabeça da fera, manchando o claro pelo e a neve sob ele, enquanto rondava cambaleante o desarmado anão, preparando-se para atacar.

Zartan tentou arrancar uma das muitas pedras da pequena coluna para usar como arma, mas, para seu desespero, elas pareciam fazer parte da própria montanha. Mesmo com o violento choque de seu corpo contra elas, nenhuma havia se desprendido. Estava agora desarmado e sem nenhuma proteção, mantendo-se sempre de frente para o lobo, incerto do que faria. Apesar de muito ferida, a fera ainda tinha o peso de pelo menos oito anões e ele não conseguiria deter seu ataque. Firmou os pés no chão e inclinou o tronco para frente, flexionando os braços e os dedos das mãos, aguardando. Com um rugido de batalha, desafiou a fera a atacá-lo.

Um furioso rosnado foi a resposta que recebeu, aceitando o seu desafio. O lobo saltou sobre o anão, mas outro som cortou o ar entre eles. Um grande machado desceu velozmente, mas a fera o percebera um momento antes e desviou a cabeça do golpe que a deceparia. Levado pelo peso que colocou no golpe, Bharin quase caiu, batendo com força um dos joelhos no chão. Quando o lobo o atacou, ele ergueu o machado contra a investida, mas estava baixo demais e desequilibrado, não conseguindo completar o arco. A poderosa mandíbula se fechou em volta do braço do anão, prendendo-o. Bharin tentou mover o machado para atacar, mas não conseguiu, por mais que puxasse. Ele desferiu um soco contra o rosto do lobo, recebendo em troca um ganido de dor e uma mordida ainda mais forte em seu braço, quebrando-o com um estalo seco. Com um grito de raiva, Bharin mordeu o focinho ferido, arrancado um grande pedaço e fazendo-o jogar a cabeça para trás com um agudo ganido, arremessando o anão que gargalhava doentiamente no ar.

Zartan tentou atacar, mas o lobo movia as patas cegamente à frente, tentando proteger o que ainda restava de seu focinho, acertando o peito do anão e o arremessando novamente ao chão. Quando tentou se levantar, uma das enormes patas o prendeu sob seu peso. Zartan via o abundante sangue que escorria do rosto do lobo cair em sua barba, enquanto o hálito quente lançava respingos em seu rosto. Dois pálidos olhos enlouquecidos olhavam dentro dos seus, em uma clara mensagem de morte e vingança, mas Midler apareceu correndo em meio a neve e enterrou profundamente a espada na lateral do monstro, que rolou para o lado com o discípulo sobre ele.

O lobo ergueu-se com dificuldade e olhou longamente para os dois guerreiros desarmados, sua cabeça já baixa pela dor e pela fraqueza, mas com o ódio ainda a brilhar vívido em seus olhos. Tentou rosnar em desafio, mas conseguiu emitir apenas um moribundo uivo final, quando a imensa fera desfaleceu na neve manchada, arquejando profundamente. Zartan se aproximou e arrancou seu machado da cabeça do trêmulo animal e, com um certeiro golpe, pôs fim a sua vida.

O anão olhou para Midler, surpreendendo-se com o rosto do discípulo coberto de sangue.

– Não é meu – Midler estava ofegante pela corrida, mas não estava ferido. Tinha as luvas viscosas pelo sangue do lobo, assim como o peito e as pernas salpicadas. Zartan apenas acenou positivamente com cabeça para ele, sem nada dizer. O discípulo estava finalmente batizado e se saíra muito bem.

Neste momento, as súplicas de Ogreb chegaram aos seus ouvidos e eles se viraram a tempo de ver o líder dos ladrões caído sob a pesada bota de Bharin em seu peito e uma enorme pedra na mão levantada do anão.

– Negociar, negociar – a voz era rouca e maliciosamente alegre.

– Turbilhão, não o mate! Só ele sabe o caminho para fora daqui! – Mas as súplicas de Zartan pareceram não alcançar os ouvidos surdos de ódio de seu amigo e a pesada pedra transformou a cabeça de Ogreb em uma pasta disforme de pele, ossos, e cabelos, sujando de sangue quente a escura barba que circundava lábios curvados em um largo sorriso.

Zartan deixou escapar um longo suspiro desesperançado. Não havia qualquer entusiasmo a ser encontrado nesta vitória. Ela era vazia. O frio acabaria por deixá-los tão mortos quanto os corpos dos ladrões espalhados na neve. Haviam apenas adiado o que agora era inevitável.

Midler voltou para o acampamento, encontrando um enfraquecido Ohel tentando trazer algum calor a Uligan. Ao olhar para o corpo de Shirian caído sobre o anteparo que haviam construído, não pode deixar de sentir repulsa, apesar da metade destruída do rosto da mulher não estar visível.

– Temos de queimar este corpo, inclusive as roupas!

– Não será necessário, lhe asseguro – Ohel respondeu sem tirar os olhos de seu amigo, cobrindo-o com mais uma manta – Não precisa temê-la. Ela está morta.

– Não é ela que eu temo! – a voz do discípulo estava estranha, grave como nunca estivera. Quando Ohel levantou os olhos, encontrou os de Midler acusadoramente sobre Uligan.

– Ele apenas salvou a própria vida!

– Talvez ao custo da própria alma – o discípulo desviou o olhar de ambos e voltou-se para a fogueira morta, encerrando a discussão.

O fogo se apagara durante o combate, consumindo vorazmente o que havia para queimar, deixando-os novamente apenas com o frio da montanha e a pouca luz que conseguia atravessar as pesadas nuvens acima. As chamas se foram, assim como a pouca esperança que poderiam ainda ter.

Midler abaixou-se e pegou um punhado de neve, esfregando vigorosamente as mãos para limpá-las. Passou também um pouco da neve derretida no rosto, sentindo o gosto férreo do sangue a escorrer por ele. Não sabia o porquê daquilo, talvez quisesse apenas se sentir limpo ou talvez não quisesse que seu corpo estivesse marcado quando a morte o encontrasse. Este pensamento o fez lembrar-se mais uma vez de como Shirian morrera, trazendo-lhe um súbito tremor involuntário. Olhou novamente para o corpo da mulher, surpreendendo-se com o escuro cabo da faca em suas costas, como se o visse pela primeira vez. Havia algo familiar nele. Esticando o braço com cuidado para não tocar as vestes ensanguentadas que cobriam o corpo, agarrou a faca e a puxou devagar. Um espesso sangue escuro seguiu seu movimento, cobrindo a curta lâmina que Midler rapidamente limpou nas peles claras de Shirian. Quando empunhou a faca, teve a certeza que a conhecia.

Erguendo-se, olhou em volta, ciente de que não veria nada além do que estava ali para ver, mas ele sabia que não estavam sozinhos.

– Brans! – gritou – Apareça, Brans Budir, não há mais o que temer!

Para a surpresa de Ohel e de Zartan, que se aproximava do acampamento, a pequena figura de uma menina surgiu no meio do ar, como se abrisse uma cortina invisível a sua frente. Quando puxou com trêmulas mãos quase sem forças o capuz, um rosto de menina surgiu. Envolvida pela capa que Laertes lhe dera, protegida dos olhos e do frio, estava visivelmente faminta, apavorada e extenuada. Midler percebeu imediatamente que fora ela a presença na estrada e o fantasma na Casa de Abrigo, assustada demais com seus companheiros de viagem para se mostrar. Brans lhe dirigiu um breve sorriso inocente, para em seguida cair de joelhos na neve, vencida pela árdua caminhada.

O discípulo correu até ela e a pegou com cuidado no colo, levando-a para perto dos outros. O tênue aconchego que ela encontrou nos braços de Midler pareceu ser o suficiente para revigorá-la, trazendo um leve sorriso aos seus lábios. Apesar dos dias de caminhada seguindo o discípulo pela estrada e pela montanha, as vestes ainda estavam secas e sua pele ainda carregava o rubor do calor das distantes planícies ao sul, protegida pela capa do velho mentor, mas o discípulo sabia que mesmo ela não a manteria viva nestas condições por muito mais tempo.

– Quem é esta? – Ohel olhava com desconfiança para a menina, enquanto Midler se ajoelhava próximo a ele, mantendo Brans em seus braços.

– Uma imprudente que salvou a vida do líder desta caravana condenada e poderá pagar com a vida por isto – as palavras ásperas do discípulo fizeram Ohel se calar – Ela é Brans Budir de Caendlia e merece seu agradecimento, não sua suspeita.

O silêncio tomou o acampamento, com o único som vindo de Bharin a revirar os corpos procurando seu machado de arremesso, moedas, joias e na vã ilusão de algum vinho, decepcionado com a ausência deste último. Uma tala improvisada mantinha seu braço esquerdo imóvel, pendendo inerte ao lado do corpo, mas se isto o incomodava, o anão não o demonstrava.

Uligan começou a convulsionar sob as inúmeras vestes, balbuciando palavras sem sentido. Sua testa estava tomada de suor, apesar do frio que congelava o próprio ar. Midler sentia também a fraqueza de Brans, mas não havia nada para comerem e mesmo Zartan, acostumado como nenhum deles às montanhas, não conseguira encontrar um caminho que pudesse levá-los à morada dos ladrões. Uligan não iria durar muito tempo, mas seria apenas o primeiro deles a partir, com Brans seguindo ligeira em seu encalço.

O vento mudara, vindo agora pelo lado onde não haviam montado nenhuma proteção, mas nenhum deles pareceu se importar com isto, apenas permaneceram sentados em torno das cinzas embranquecidas da fogueira morta. De repente Zartan ergueu a cabeça, cerrando os olhos, procurando por algo. De um salto, colocou-se de pé, arrancando o elmo com pressa.

– Outro perigo se aprox...

– Cale-se! – a aspereza do tom de voz de Zartan assustou a todos, mantendo a mão aberta na direção deles, enquanto girava lentamente a cabeça.

– O chamado de Mananam – o sussurro do anão era quase inaudível, parecendo falar apenas consigo mesmo. Quando voltou a olhar para eles, havia algo enigmático em seus olhos, um misto de incredulidade e esperança – Fiquem aqui e em silêncio!

O anão partiu sem aguardar a resposta deles, dirigindo-se contra o vento, buscando por um som que apenas ele parecia ouvir. Aproximou-se de onde o grande lobo morrera, caminhando até a pequena coluna de rochas em que fora arremessado quando perdera o escudo. Ela se abaixou e retirou as luvas, passando as mãos nuas por toda sua extensão. Ela não parecia ser nada além de um metro de pedras empilhadas, mas era em verdade uma única rocha, esculpida com maestria para ter esta aparência. O anão retirou rapidamente toda a nave que a cobria. Podia ouvir agora claramente o leve som que o vento fazia quando passava por pequenos orifícios escavados tão discretamente que eram quase impossíveis de perceber.

– Por Mananam, como pude ser tão cego? – As ágeis mãos procuravam impacientes por pequenos sinais que estariam em sua desgastada base, enquanto pedia seguidamente– Que sejam apenas dois, não mais que dois.

Seu rosto pareceu derreter quando encontrou quatro saliências bem marcadas na rocha dura. Buscou mais duas vezes, recontando-as com decrescente esperança, mas sabia que não deixariam de ser quatro. Baixou a cabeça, batendo-a levemente seguidas vezes contra a coluna de pedras. Ficou ali parado por alguns minutos, avaliando suas opções, mas não podia negar a verdade que o atormentava. Não poderia fazer aquilo sozinho.

Voltando para o acampamento, deteve-se quando já estava à vista de todos, olhando entristecido para o braço caído de Bharin.

– Mestre Zartan, o que encontrou?

O anão não respondeu ao discípulo, parecendo nem mesmo haver escutado sua pergunta. Havia uma severidade incomum em seu rosto.

– Turbilhão, você pode mover o braço?

– Posso lutar com uma mão só! – Bharin ergueu seu machado com um orgulhoso sorriso.

– Eu perguntei se pode mover o braço, Bharin Bolfix, apenas isto! – o sorriso do anão se desvaneceu. Aquela não era mais uma pergunta a um amigo, mas uma ordem na voz de um rigoroso comandante. Mesmo Bharin compreendeu a gravidade do momento. Zartan não o chamava pelo nome na língua deles há décadas.

– Não – a voz do anão soou baixa, carregada de mágoa, baixando os olhos para o braço inerte. Após um momento ergueu-os, olhando firmemente para Zartan – Não posso!

Apesar da dura certeza que tinha, o nobre anão permaneceu calado por alguns segundos, buscando por escolhas que sabia não ter.

– Venham todos, agora. Deixem o resto para trás.

Eles seguiram em silêncio, sem questionar o anão. Midler carregava Uligan desacordado em seus braços, enquanto Brans seguia quase invisível ao lado, enrolada na fina capa de Laertes. Bharin arrastava pesadamente o grande machado pelo chão e Ohel caminhava com dificuldade por último, tentando permanecer atento à direção que seguiam.

Zartan caminhou até a pequena coluna, apontando para o corpo do lobo.

– Cortem pedaços tão grandes quanto possam carregar e tragam-nos.

Assim foi feito, enquanto Zartan arrastava lentamente os pés nas pedras em torno da base da escultura até encontrar o que buscava. Com um tênue sorriso, aguardou que os outros terminassem, para então seguir à esquerda, passando pela carcaça retalhada por faca, machado e espada do grande lobo, com um gesto para que o seguissem. O anão caminhava devagar, detendo-se a cada dezena de metros para buscar algo sob a sola das botas e mudando constantemente de direção, com um crescente ânimo dentro de si, mas em nenhum momento partilhou suas descobertas ou seu propósito com os que o seguiam.

Caminharam por uma hora, seguindo uma trilha invisível escondida sob a neve, feita para ser encontrada somente por aqueles que conheciam seu segredo em pequenas saliências que apenas os pés treinados podiam sentir. Uligan começou a tremer mais violentamente, mas não havia nada que pudessem fazer ali, então Midler permaneceu calado. Brans se apoiava em seu braço também, já próxima ao limite de suas forças, deixando o discípulo ainda mais carregado. Algumas árvores começaram a aparecer entre os flocos, tímidas a princípio, mas foram rapidamente crescendo em número e tamanho, até estarem andando entre grandes troncos de madeira escura. Midler sabia que estavam se afastando da estrada que buscavam, mas tinha mais fé em Zartan do que na direção que qualquer outro ali pudesse indicar, incluindo ele mesmo.

A caminhada tornou-se ainda mais lenta, não apenas pelas tortuosas raízes que se escondiam sob a fina camada da neve que conseguira passar pelas copas acima, mas pelas pistas que Zartan seguia estarem mais difíceis de serem encontradas no solo da pequena floresta, até que o anão se deteve próximo de outra pequena coluna, já tombada pela grande árvore que nascera ao seu lado. Abaixando-se, limpou-a com cuidado, procurando por sinais em sua base. Após um momento, expirou longamente, voltando-se com convicção para os outros.

– Fiquem aqui, protegidos sob as árvores. Apenas Midler virá comigo. Há madeira ainda seca nos galhos mais baixos, Turbilhão, pegue-a para todos – apontou para Bharin, falando a Brans – Menina, ajude-o com a madeira. Tragam-na para Ohel. E quanto a você, mestre feiticeiro, mantenha-os aquecidos se puder.

Brans engoliu em seco olhando para Bharin. Nem lhe passou pela cabeça reclamar do tratamento que Zartan lhe dirigira, mas o outro anão a assustava. Apertou firmemente o braço de Midler, que lhe dirigiu um olhar terno, tentando passar-lhe alguma confiança, sem muito sucesso.

– Não o provoque, nem fale com ele, e estará tudo bem.

O discípulo aninhou Uligan entre as raízes de uma árvore de copa larga, onde a neve mal havia tocado o solo. Ohel cobriu-o com a pele que tinha sobre os ombros, tentando controlar as mãos trêmulas. Não era um bom sinal quando mesmo ele não conseguia manter o frio afastado de si. Bharin seguiu com Brans para baixo de outra árvore e batia nos galhos com o machado, derrubando displicentemente madeira e neve sobre eles, mas a menina se manteve calada.

Midler seguiu Zartan para dentro da floresta em silêncio, passando por árvores cada vez maiores, mas em menor número. Em poucos minutos o chão se tornou novamente endurecido pelas rochas e uma grande parede surgiu à frente, onde a montanha novamente se erguia, desaparecendo nas nuvens pouco acima, marcando o fim daquele alto vale.

Ao se aproximar da muralha, Zartan se deteve, olhando para ela em um misto de orgulho e embaraço. Quando o discípulo se colocou ao seu lado, o anão agarrou com firmeza seu braço e o puxou com força, fazendo Midler cair em um joelho, os surpresos olhos na mesma altura de dois trêmulos olhos carregados de obstinação. Quando falou, a voz do anão deixava clara que não admitiria ser ludibriado.

– Acredito e confio em você, mas vou precisar de mais do que isso agora! Vou confiar-lhe algo que para mim é mais valioso que minha própria vida. Preferia matar a todos e morrer, mas sou escravo de minha palavra e precisarei de quatro hábeis mãos – olhou em volta, para ter certeza de que estavam a sós – Jura manter eterno silêncio, seja em palavras ditas ou escritas, do que vou lhe mostrar? Pense antes de responder, pois saberei se mentir e o matarei se o fizer! E se algum dia perder a confiança em você, eu também o matarei!

O discípulo olhou firmemente nos olhos do anão, sem temer a fúria que via neles, pois sabia que ela não lhe era dirigida, mas a ele mesmo.

– Juro-lhe por Sandren e pelo nome de minha família.

– Não! – as palavras saíam com dificuldade por entre os dentes cerrados com força – Não jure pelos outros! Esse compromisso não é deles!

– Eu juro por minha honra então, Zartan Balorin, meu companheiro, amigo e irmão!

O anão ficou quieto, procurando por algo no fundo dos olhos do discípulo, para então expirar longamente, encontrando o alívio que havia lhe escapado desde que ouvira o chamado de Mananam. Soltou o braço que ainda apertava com força, dando-lhe um amistoso tapa no ombro.

– Venha.

Ao se aproximar da parede de pedra, Zartan tirou as luvas, indicando ao discípulo para fazer o mesmo e colocando-o ao seu lado. Esfregou suavemente a mão por entre duas fissuras, na altura dos ombros, encontrando um pequeno apoio, nada mais que uma saliência natural que se projetava da rocha, apenas o suficiente para a mão. Ao pressioná-la, ouviram um suave estalo vindo de dentro da rocha, menos do que um graveto a se partir. A pouca neve que se apoiava nas pedras em frente ao discípulo se soltou, revelando vários orifícios que nivelavam com seu peito.

Zartan estudou por um tempo a disposição deles, instruindo Midler como deveria posicionar as mãos. O anão mantinha a sua pressionada contra a saliência que encontrara, enquanto a outra empurrava a própria montanha.

– Esta não é uma porta, mas uma boca de pedra, e ela tem presas, Midler. Se tentar tirar seus dedos, irá perdê-los. Eu serei a maçaneta, você deve ser a chave. Continue a empurrar.

O discípulo sentiu afiadas lâminas contra a ponta dos dedos nus, ameaçando perfurá-los se continuasse. Confiando nas palavras de Zartan. Midler continuou a pressioná-las e, apesar da dor que lhe causavam, elas retrocediam à medida que ele avançava. Quando as palmas das mãos encostaram-se à pedra, as lâminas recuaram e o anão começou a pressionar a própria montanha, que girou lentamente, revelando uma larga porta retangular presa em velhas dobradiças de um desgastado metal, reveladas apenas quando ela se abriu. Um vento sombrio os recebeu, vindo do lúgubre interior da montanha.

– Eu ficarei aqui, busque os outros.

O fogo crepitava tímido sob a árvore, tentando sobreviver ao vento e ao frio, assim como aqueles que se reuniam em volta dele. Bharin comia um naco da carne que trouxeram, levemente passada nas chamas que pouco fizeram para mudar-lhe a cor. Brans olhava para o anão escondida sob o capuz, ao mesmo tempo amedrontada e curiosa. Via o que restava da seta que o atingira ainda a saltar de seu braço ferido, logo abaixo do ombro, mas ele parecia nem notá-lo. Quando Bharin olhou para ela com um duro olhar inquisidor e um comprido pedaço de carne a pender da boca, Brans sentiu o sangue gelar. A menina apenas apontou para o ferimento do anão, que girou a cabeça para olhá-lo. Um sorriso com dentes cobertos do sangue do lobo se desenhou em seu rosto. Ele colocou o dedo sobre a haste quebrada e começou a pressioná-la ainda mais para dentro do braço, sem demonstrar qualquer dor ou hesitação, sempre voltado para os trêmulos olhos de Brans. A pequena ponta emergiu do outro lado, com um fina gota de sangue a pender momentaneamente dela. Bharin a agarrou e puxou a longa haste de quase quarenta centímetros, que espetou na carne que tinha presa aos dentes e continuou a comer.

Brans desviou o olhar, mais assustada do que antes, sentindo o vazio estômago revirar-se quando viu a silhueta de Midler surgir por entre as árvores. Esquecendo-se do cansaço e da fraqueza, ergueu-se de um salto e correu na direção do discípulo, abraçando-o. Midler retribuiu o abraço desconcertado, sem saber ao certo como reagir. Após um momento afastou-a delicadamente, vendo dois estremecidos olhos sobre ele.

– Tudo vai ficar bem, agora.

– Promete? – um brilho se acendeu nos escuros olhos de Brans.

– Prometo – Midler não pôde deixar de se sentir envergonhado, como se houvesse contado uma mentira. Não sabia por que havia dito aquilo, mas algo no olhar dela o reconfortava – Vamos – voltando-se para os outros – Devemos seguir agora, encontramos um abrigo.

Zartan os esperava sob a porta aberta, um severo olhar sob o elmo posto e o machado pronto nas mãos. Apontando-o para eles, falou em sua voz de comando.

– Toquem em algo e perderão as mãos. Vão onde eu não disser e perderão as pernas. Desobedeçam-me e perderão a vida. Se cruzarem esta porta, será esta a lei, sem concessões, exceções ou indultos.

Ohel olhou para Midler, indagando-o, mas o discípulo mantinha os olhos voltados para Zartan, falando em voz alta.

– Esta é a lei e eu a respeitarei!

Após a larga porta, havia uma escura câmara quadrada de teto baixo, pouco acima da cabeça de Ohel. A pouca luz que entrava pela porta aberta não alcançava seu fundo, que permanecia escondido em sombras, mas as paredes eram parcialmente visíveis, esculpidas na forma de colunas hexagonais e, entre elas, imagens de montanhas, minas, grandes feras e guerreiros. A câmara devia ter oito metros de largura, com uma pequena mureta de meio metro de altura no centro, em torno do que parecia uma retangular cuba comprida, onde um homem poderia se deitar com sobras. Estava preenchida com largas toras de madeira escura, cobertas pela poeira e teias de eras passadas. Entre elas havia um pó claro e cintilante que atraiu a atenção de Ohel, que esticou a mão em sua direção, mas prontamente a recuou, sob o severo olhar do anão.

– Afastem-se.

Zartan pegou uma curta haste que repousava entre tantas outras em uma caixa de pedra e limpou-a com a mão. Sob a poeira uma superfície de vidro se revelou, cheia do que parecia ser um líquido de cor âmbar. O anão a ergueu tão alta quanto pôde sobre a cuba de pedras e a arremessou contra as toras. O barulho do vidro quebrando foi logo engolido pela fúria do fogo que surgiu, vorazmente consumindo o pó cintilante. Na explosão de luz que se fez, antes de ser cegado por ela, Midler viu um profundo fosso sem fim logo após o limite da luz que entrava pela porta, pronto para engolir quem avançasse sem cuidado. Após o fosso havia uma barricada de pedras com várias fendas de onde arqueiros poderiam disparar incólumes e grandes alçapões no teto guardavam suas ameaças atrás de pesadas portas. Após o fosso e a barricada havia quatro túneis que seguiam em diferentes direções, com um intrincado desenho esculpido na rocha entre eles, mas um deles se diferenciava dos demais por ter suas paredes marcadas por um espesso gelo azulado que brilhou forte sob a luz.

O fogo se acalmou assim que começou a consumir a escura madeira, iluminado apenas o início da longa câmara e doando seu abençoado calor quando Zartan fechou a porta, revelando um engenhoso conjunto de dobradiças, alavancas, roldanas e contrapesos em seu interior. As paredes esculpidas se revelavam agora em toda sua beleza, em imagens de grandes montanhas nevadas, imensas portas de pedra através das quais exércitos marchavam, salões subterrâneos tão grandes quanto cidades, guerreiros de longas barbas trançadas e colossais colunas enfileiradas em uma floresta de pedra, reverenciadas como catedrais. Ao olhar para Zartan, Midler viu que ele também admirava as cenas eternizadas em pedra, mas com uma dolorida saudade a dançar nos olhos umedecidos. Aquelas imagens eram da Grande Casa Branca, Khedzaer, a morada dos anões, a casa de Zartan.

Com um brusco movimento o anão retesou o corpo e enxugou os olhos, distribuindo as ordens sobre onde deveriam descansar, como aquecer a carne sobre o fogo e repetiu sua lei uma vez mais. Dirigindo-se à escuridão ao fundo, cruzou o fosso sobre uma estreita ponte sem qualquer balaustrada que rangeu fortemente sob seu peso. Minutos depois retornou com um barril sobre os ombros, que abriu e deixou para quem quisesse se servir de uma espessa bebida de aroma forte, entre o vinho e a cerveja. Bharin sorriu como uma criança travessa e aguardou apenas que seu amigo enchesse uma larga caneca para se colocar embaixo da pequena rolha, arrancando-a e sorvendo o próprio barril.

Zartan aproximou-se de Ohel, oferecendo-lhe a bebida.

– Obrigado, mas não tenho gosto para o que pode entorpecer a mente – não havia sinal de verdadeira cortesia em sua voz.

– Não é para você, mestre feiticeiro, mas para aquecer seu moribundo amigo – a voz de Zartan também não carregava o calor que tomava a câmara.

– Nenhuma bebida pode salvá-lo agora, anão! – havia raiva na voz de Ohel, mas não era dirigida a outro senão a ele mesmo. Após um momento, prosseguiu em um tom lastimoso – Perdoe-me, senhor Zartan, mas aquele que mais se aproxima de um irmão para mim está morrendo e não há nada que eu possa fazer.

O anão ficou observando Uligan se debater febrilmente sob as peles, suando e salivando abundantemente. Abaixando, tocou-lhe a testa, sentindo a pele fria e pegajosa do diplomata.

– O frio tomou-lhe as entranhas, está dentro dele agora. Quando chegar ao coração, estará morto, – levantou-se, olhando para as sombras ao fundo da câmara – mas talvez ainda tenha uma pequena chance de vida, ao risco das de outros.

– Diga-me o que tem de ser feito e eu o farei! – Ohel ergue-se de um ímpeto, olhando de cima o anão­, mas Zartan não pareceu impressionado ou intimidado.

– Guarde suas bravatas, mestre Ohel. A vida a ser colocada em risco também será a sua, mas a decisão em nada lhe pertence – voltou-se então para o discípulo – Midler, devo arriscar a vida de todos para tentar salvar este que nos trouxe até aqui contra toda prudência?

– Você tem um juramento... – Ohel começou a falar, mas foi bruscamente interrompido por Zartan, que o agarrou pela gola do manto, puxando-o até que seu rosto encontrou o do anão.

– Cale-se! Eu disse que esta decisão não lhe pertence! – largando um pávido Ohel, voltou-se novamente para o discípulo, sem qualquer emoção na voz – Não recriminarei nenhuma resolução que tomar nem o julgarei por ela, permanecendo ao seu lado para onde for.

Midler assentiu com a cabeça, tentando demonstrar uma firmeza que não sentia. Olhou para os olhos dos que o cercavam, para a frieza de Zartan, para a acusação de Ohel, para o medo de Brans e para a indiferença de Bharin, procurando sem encontrar um sinal, uma ideia do que deveria dizer. Tentou lembrar-se de Sandren e de seus preceitos, mas as lembranças da sombra da escura torre da catedral, da morte da sentinela e da corrupção do braço de Shirian sobrepujavam todas as outras, sem que conseguisse evitá-las. A missão e o propósito de Uligan ainda lhe eram misteriosos e apenas sua dissimulada faceta de diplomata era por ele conhecida. Aquele que o seguia se revelara um feiticeiro e ele um poderoso clérigo de uma ambígua divindade. Como poderia arriscar a vida de todos por apenas uma, quando ainda acreditava na inocência de Brans e na nobreza de Zartan? Não há vergonha em dizer a verdade, não devia se desculpar por ela, repetia para si mesmo.

Midler abriu a boca para falar, acreditando saber o que era certo fazer, quando lembrou-se de uma verdade que Laertes lhe dissera em Caendlia e que acreditou não ter compreendido até então.

– Devo ser justo antes de ser correto, devo defender o bem antes mesmo da verdade – sua voz era baixa, como se falasse consigo mesmo, para em seguida falar com convicção – Eu tenho um juramento, mestre Zartan, é verdade, mas mais importante que minha palavra é minha honra. Nenhum bem virá de sua morte, não quando ainda podemos salvá-lo. Eu ainda não sei quem ele realmente é, mas sei quem eu sou e quem pretendo ser!

Zartan assentiu com a cabeça e seu olhar se avivou novamente, concordando com a decisão do discípulo. Ohel se acalmou, voltando as mãos quentes para Uligan, tentando prolongar sua vida e diminuir a agonia. Brans abraçou o discípulo, sem nada dizer. Não compreendia totalmente o que estava acontecendo ou o porquê de estar feliz, mas para ela não importava. Quanto a Bharin, simplesmente continuou a beber, não que houvesse realmente parado.

O nobre anão tirou a armadura e começou a se cobrir de pedaços de peles, amarrando-as com tiras nas pernas e nos braços. Midler não sabia que frio ele se preparava para enfrentar, apenas podia perceber que seria ainda mais inclemente do que o lado exterior da montanha oferecera. Lembrou-se do corredor tomado pelo gelo azul. Pediu a capa a Brans, oferecendo-a ao anão.

– Tome, mestre Zartan. Irá protegê-lo contra o frio que antevê – antes que o anão recusasse, insistiu – Não quero perdê-lo como perdi meu mentor.

Zartan concordou e tomou a capa, vestindo-a. Quando se sentiu pronto, caminhou em direção às sombras, detendo-se por um momento.

– Turbilhão, se eu não voltar em uma hora, abra a porta e leve-os todos daqui. Procure a estrada dos homens e as fortalezas que a guardam. Deixe que Midler os lidere, apenas tente mantê-los vivos até lá. Se alguém não quiser sair, deixe teu machado argumentar por ti.

O anão partiu, engolido pelas sombras. Apenas o ranger da estreita ponte testemunhou sua passagem, para então mergulharem em um denso silêncio. Ninguém falou, permanecendo onde estavam, enquanto os minutos se arrastavam sem pressa. Midler pensou ouvir um distante rio a correr ao fundo do escuro fosso, o som de suas águas ecoando nas profundas paredes de pedras nuas. Os Thrord o chamaram de Thürdin, o Sangue da Montanha, que corria sob sua morada e que sempre demarcara o limite de suas escavações, nunca indo além do grande rio para não ferir o coração de seu lar. Ao fundo deste fosso, eternamente banhado pelas gélidas águas do Thürdin, o cadáver de Hafanim repousava, coberto por todo o ouro que pôde carregar em sua última travessia.

Midler observava Bharin continuar a beber, aparentando estar alheio ao que mais acontecia na câmara, mas o discípulo sabia que a tímida paz que experimentavam terminaria junto com a bebida. Não compreendera as palavras de Zartan, mas sabia que apenas ele podia acalmar o demônio que vivia em Bharin, ainda mais quando o anão se embebedava para muito além da razão. Sentado próximo ao fogo, soltou a trava da espada tão silenciosamente quanto pôde, enquanto Brans adormecia em seu colo. Pediu a Baltur que protegesse Zartan e o trouxesse de volta rapidamente, mas, sem saber por que, sentiu-se estranho ao fazê-lo, como se falasse a um estranho. Teria ele se desviado tanto de seu caminho? Ou começaria a duvidar que seria este o único a seguir? Sentia-se confuso, sujo e perdido.

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Um sonoro arroto marcou o fim da forte bebida dos anões e dos pensamentos do discípulo, despertando Brans. Bharin lambeu os lábios, piscando os olhos apequenados. Virando a cabeça em direção aos outros, riu maliciosamente, passando as costas da mão pela boca. O raspar de seu machado contra a pedra preencheu a câmara quando o anão o puxou para perto de si, usando-o como apoio para se erguer, fazendo sua sombra crescer contra as paredes atrás dele, engolindo nobres heróis sob ela. A úmida barba brilhava contra a luz do fogo, o desgrenhado bigode torcido sobre um leve sorriso e os olhos vermelhos voltados para Midler.

– Quer tomar meu lugar, criança? – Midler não compreendia as palavras do anão, mas sem tom não trazia conforto. O discípulo ergueu-se, vendo o sorriso de Bharin tornar-se ainda mais largo – Acha que pode me enfrentar? – o anão deu um firme passo em sua direção – Eu matei guerreiros maiores que você quando era ainda mais jovem e é você quem ele admira?

Outro passo. Brans prendeu a respiração quando Midler desembainhou a espada, puxando a menina com a outra mão.

– Atrás de mim – o discípulo ergueu a lâmina de Graeldar.

Neste instante o coração de Uligan parou de bater.