06

– Vinte anos! Mais de vinte anos e ainda não me acostumei com esta roupa! Eu não tenho mais idade ou paciência para isto – o velho senhor virou a cabeça e baixou os olhos até o jovem que o ajudava a se vestir, continuando a resmungar – Juro pelo que nos é mais sagrado que se não fosse por você eu entraria no Grande Saguão da assembléia ainda trajando as vestes que uso nas cerimônias de nossa igreja. Por acaso não são elas boas o suficiente para eles?

O jovem não pôde evitar um sorriso, mas procurou mantê-lo longe da vista de seu avô, passando a concentrar-se nas amarrações que fazia para fixar o grande brasão que ele levaria no ombro direito. Neste brasão estava o símbolo de Urm, o deus do equilíbrio, usado apenas pelo seu patriarca, a mais alta hierarquia de seu clero. Já havia quase dez anos que o clérigo o ajudava com o intrincado manto azulado, repleto de faixas e amarras entrelaçadas, e já se habituara a ele, assim como já se acostumara com o rosto carrancudo que o avô parecia vestir junto com aquelas roupas, mas isto nunca o incomodara, pois conhecia bem o grande coração que se escondia dentro daquele velho peito.

Seu avô era Calligan Baspoquin, Grão-Diplomata de Graeldar, o mais alto posto que qualquer graeldara assumira desde a morte de seu último regente, Meodarûn, o Bravo. Apesar da idade avançada, sua mente continuava afiada como em sua juventude e ele permanecia sempre atento a tudo e a todos a sua volta. Calligan era respeitado e admirado por todos os diplomatas da assembléia, não apenas por sua posição como seu líder, mas também por sua coerência e sabedoria. Ainda que já estivessem ausentes no alto de sua cabeça, seus longos cabelos brancos caíam ordenadamente pelos ombros e costas, como um curto manto. Mesmo seus resmungos, usados apropriadamente para distrair seus ouvintes do que realmente queria dizer, nunca conseguiram disfarçar a enorme simpatia que possuía, pois sempre cativava a todos com palavras bem colocadas e um carisma que parecia não ter fim.

Apesar da aparência sempre serena do patriarca, seu neto sabia que Calligan estava muito preocupado, mais do que admitiria ou deixaria que ele percebesse, mas estava. Nas últimas semanas, havia permanecido quase enclausurado em seus aposentos, estudando antigos livros de tratados e histórias, como se procurasse por algo que teimava em se esconder de seus olhos. Quando saía, seu rosto estava sempre conturbado e seus pensamentos distantes. Parecia que uma sombra angustiante o perseguia, quase o quebrando sob seu peso, mas ele não dividia suas preocupações com ninguém, nem mesmo com a pessoa mais próxima a ele, seu único neto, Uligan. Desta vez, havia algo mais a lhe preocupar do que a ingrata situação de seu povo, vivendo quase como indesejados estrangeiros em sua própria terra. Poucos haviam estudado tanto e conheciam tão bem a história dos seus como ele. Calligan já nascera em uma terra ocupada, mas, nem mesmo se tivesse vivido os Dias da Ruína, ele os teria tão vivos na memória.

Há mais de noventa anos, com a chegada de um rigoroso inverno para o qual os graeldaras haviam se preparado bem, estocando grandes quantidades de lenha e alimentos, pois os clérigos haviam lido nos sinais das estações que aqueles seriam tempos difíceis, os regentes dos feudos mais distantes começaram a ser assassinados, por um inimigo que ninguém conseguia ver. Seus corpos eram encontrados dilacerados dentro de suas próprias casas, sem que nenhuma porta ou janela houvesse sido violada. Era como se houvessem sido atacados por um demônio faminto, que podia entrar em quartos trancados e atravessar grossas paredes de pedra como um fantasma. Rapidamente, os relatos sobre as mortes correram por toda Graeldar e surgiram boatos de que os Walcarin, os demônios noturnos de seus contos mais sombrios, houvessem de alguma forma ganhado vida e os espreitavam silenciosamente. Passaram então a temer as sombras e a noite, mas Marelvian continuou ignorante ao que acontecia em todo o território. Durante muitas semanas, nenhum relato chegou à capital, pois os mensageiros enviados nunca atingiram seu destino, desaparecendo por completo. A Ordem de Hilnos só soube do que acontecia nos distantes feudos quando os outros regentes, movidos pelo medo e pelo desespero, enviaram suas numerosas famílias para procurarem abrigo entre os muros de Marelvian.

Mas não havia segurança para ser encontrada nem mesmo em sua maior cidade, pois os Walcarin os seguiram como sombras em um dia claro e os próprios membros da Ordem começaram a morrer por suas mãos. Buscas foram feitas, novos soldados recrutados, as vigias dobradas e luzes foram acesas para expulsar a noite, mas nada parecia saciar o desejo dos demônios e as mortes continuaram. Mesmo as preces de seus maiores clérigos se mostraram incapazes de deter os furtivos Walcarin e o caos ameaçava se instalar dentro de Graeldar.

Pedidos de ajuda foram enviados a todos os reinos, por corvos, navios e estradas, mas apenas as palavras de Dergaryn, o Veloz, chegaram a ser lidas. Ferido além de qualquer medida, ele morrera entregando sua carta ao governante do mais antigo aliado e protetor jurado de Graeldar, o poderoso reino de armas de Nyothar, há poucos anos transformado em um grande império quando Édhulor e Anandhys se uniram, após mais de mil anos de inimizade e guerras. Apesar de seu reino estar ainda exaurido, o Imperador Donenthur I prontamente enviou muitos de seus oficias e soldados para proteger Marelvian e a Ordem. Os burocratas das menores cidades do império seguiram para Graeldar para ocupar o lugar dos regentes assassinados, assim como várias divisões de seus exércitos foram para os feudos tentar restabelecer a ordem, mas os graeldaras continuaram a morrer. Os demônios não se intimidaram com a presença dos soldados do grande império, matando todos os nyotharins que tentaram, em vão, detê-los, até apenas um nobre entre os graeldaras sobreviver, seu último regente, Meodarûn.

O último governante de Graeldar nunca fora membro da Ordem e, diferente de todos os outros regentes e nobres daquela terra, era um guerreiro sagaz e um devoto dedicado, não se deixando intimidar pelo destino ao qual sabia que não poderia escapar. Com o coração pesado, mas decidido, Meodarûn ordenou que seu povo deixasse a capital, com todos os pertences que pudessem carregar, avisando-os de que tudo que fosse deixado para trás seria perdido. As grandes reservas de grãos foram dividas em centenas de carroças e navios e enviadas às mais distantes vilas, assim como todas as riquezas de Graeldar saíram secretamente da cidade, escondidas pelos clérigos. Meodarûn dispensou todos os nyotharins que ainda estavam em Marelvian e ordenou que estes prontamente retornassem ao seu reino e aos seus lares, com todas as bênçãos e agradecimentos de Graeldar, pois seus serviços não eram mais necessários. Seria ele a enfrentar os Walcarin, ao lado dos guerreiros graeldaras que ainda viviam, no solo sagrado da Catedral de Urm, e libertar seu povo. Mesmo assim, inspirados por seu nobre sacrifício, alguns soldados nyotharins se ofereceram para ficar ao seu lado em seu último momento.

Meodarûn sabia que não poderia vencer os demônios com armas de madeira ou metal, pois, segundo suas lendas, apenas o fogo poderia destruí-los para sempre. O regente não esperava sobreviver àquela noite e não escondeu isso de seus homens, dando-lhes a opção de deixarem a cidade junto com suas famílias ou lutarem ao seu lado para que elas pudessem voltar a viver sem medo. Para aqueles que ficassem, houve um único pedido. Quando os Walcarin entrassem na igreja, eles deveriam mantê-los lá, pela força, pela fé ou pela vida, dando-lhe o tempo necessário para fazer os grandes sinos da torre soarem. Seria este o sinal para que os soldados, escondidos do lado de fora, acendessem as grandes fogueiras que foram preparadas por sua ordem, queimando assim os demônios aprisionados. Ao cair da noite, quando Marelvian ficou vazia, todas as entradas e janelas da catedral foram fechadas e trancadas, escoradas com os pesados bancos de orações dos fiéis, e a angustiante espera teve início. Quase não era possível respirar dentro da igreja, pois o ar estava impregnado com o forte odor do óleo espalhado pelo chão e pelas paredes, mas os guerreiros permaneciam impávidos, aguardando pacientemente.

A cidade mergulhou em um silêncio denso, quase palpável, enquanto muitos graeldaras, reunidos em uma pequena colina próxima à cidade, oravam continuamente para que esta serenidade durasse até o amanhecer, mas suas preces não foram atendidas. Quando os sinos soaram, rasgando a noite de Marelvian, foram prontamente seguidos pelas fogueiras que queimaram alto, iluminando toda a cidade. Os poucos nyotharins que conseguiram escapar do inferno em que a cidade havia se transformado, contaram que, mesmo quando a catedral estava engolida pelo fogo, seus sinos continuaram a tocar, desafiando as chamas que a tomavam. Quando eles finalmente se calaram, caindo pesadamente sobre os escombros que ainda ardiam com força na base da torre principal, toda Marelvian queimava, consumida pelo mesmo fulgor que a libertava de seus demônios. Desde então, a memória e o significado destes dias, os Dias da Ruína, foram se perdendo com o passar dos anos e cada vez menos graeldaras ainda dedicavam o dia mais longo do ano, no auge do verão, à memória de seu último governante, acendendo grandes fogueiras e tocando sinos ao cair da noite, para lembrar-se do sacrifício de Meodarûn e da perda de Marelvian.

Mas Graeldar perdera algo muito mais importante e duradouro naquela trágica noite do que sua maior e mais bela cidade, sua própria soberania. Sem um governante legítimo em nenhum dos feudos que os congregasse, o caos reinou durante meses e a ordem só foi reconquistada pela força dos exércitos nyotharins, comandados pelos novos Lordes Regentes que o imperador nomeara, como fora exigido que os chamassem então, pela herança do nobre sangue nyotharin que carregavam. O outrora orgulhoso e próspero estado de Graeldar se tornou pouco mais do que uma simples província de Nyothar, sob seu domínio e proteção, enquanto os representantes de seu povo procuravam por um consenso que não conseguiam encontrar, perdendo-se em desconfiança e acusações, com mentiras e suspeitas sendo fomentadas dentro de quase todas as famílias. Irmão insultou irmão e, por onze anos, o Trono Branco, feito com as pedras tiradas do coração das montanhas que eram o símbolo daquelas terras, o símbolo maior de um rei, que Donenthur ofereceu na nova cidade que construiu para os graeldaras, permaneceu vazio, até que o imperador, próximo aos seus últimos dias, enviou o mais novo de seus sete filhos, Belenur, para ocupá-lo.

Quando um rei nyotharin sentou-se por fim no trono de Caendlia, os graeldaras pareceram esquecer-se quase imediatamente de suas disputas e uniram-se contra sua proclamação. Mesmo os servos mais simples a serviço dos Lordes Regentes tornaram-se relapsos e ineficientes, esquecendo ordens, perdendo displicentemente os objetos de seus senhores e deixando escapar seus segredos. Campos quase prontos para serem colhidos e enviados ao império amanheceram queimados, diplomatas eram vistos negociando secretamente com representantes de reinos vizinhos e nenhum ferreiro graeldara se encontrava disponível para forjar uma lâmina nyotharin ou consertar suas armaduras. Os ventos carregavam o odor de traição, motim e rebelião velada, sem que um único responsável fosse encontrado pelos espiões, soldados, torturadores ou algozes do império.

Os conselheiros do jovem rei rapidamente perceberam que não era apenas um homem que os enfrentava, mas uma nação inteira, fiel, resoluta e dissimulada, mas, acima de tudo, unida. Havia suspeitos em todos os feudos do reino e em cada cômodo da capital, mas não havia nyotharins suficientes para vigiá-los, para cuidar dos campos e para as tarefas do reino. Palavras, moedas ou espadas se mostraram inúteis e durante um ano e meio, não foi o rei ou qualquer outro homem que reinou em Graeldar, apenas o caos.

Belenur convocou todos os regentes graeldaras e os senhores das grandes famílias à capital, formando com eles a Grande Assembleia de Caendlia, com autonomia sobre todos os aspectos da administração do reino, subordinada apenas ao decreto do rei e somente quando o assunto não fosse de interesse exclusivo dos graeldaras. Belenur também determinou que todos os nyotharins que desejassem viver em Graeldar teriam de assumir Urm como o deus legítimo daquelas terras e respeitar seus representantes, rituais e templos. O rei então cedeu todos os recursos necessários para que a grande catedral fosse construída e ali, sobre suas fundações e perante todos, selou, com seu sangue, tinta, cera e fogo, a promessa de que, quando morresse, sua coroa passaria para sempre para os legítimos filhos daquela terra e nunca mais um nyotharin se sentaria no Trono Branco. Assim, Belenur, o Conciliador, conquistou vinte e sete anos de uma inquieta e próspera paz, passando a ser chamado por muitos de “Pai da nova Graeldar”.

Pai. A curta palavra ainda pesava nas memórias de Calligan. Ele a ouvira muitas vezes em sua longa vida, quase sempre com desconfiança, outras tantas com temor e todo o calor e vida que ela poderia ter parecia ter desaparecido para seus ouvidos. Ele ainda se lembrava muito bem do seu, Valacar Baspoquin, um homem grande como um portão e quase tão largo quanto um, com fogo no olhar e um trovão na voz. Valacar, o Austero, como seus amigos o chamavam, por seu rigor e intransigência quanto às questões dos graeldaras. Fora afastado da Assembleia por estes mesmos amigos, que viram em sua inflexibilidade um obstáculo muitas vezes maior do que os nyotharins poderiam colocar, mas, mesmo sem a aprovação dos Mestres, ele jamais estivera distante das questões de seu povo, dentro ou fora da Grande Assembleia. E muitos ele convencera de suas ideias e tantos destes tiveram de ser retirados de seus deveres. Até mesmo entre os membros da Ordem de Hilnos houve baixas pela influência de Valacar. Em pouco tempo, aqueles em que as palavras de Valacar encontravam eco passaram a se chamar de “Destemerosos”, apesar de outros nomes bem menos lisonjeiros serem sussurrados as suas costas.

Quando Belenur morreu, o Patriarca de Urm, Mavlish, celebrou uma cerimônia em sua memória com todas as honras e os cânticos que um Mestre da Ordem receberia e seu corpo foi velado por um dia e uma noite inteira, segundo os ritos do Deus do Equilíbrio, sendo sepultado com um cristal de luz e um de sombra sob a inacabada catedral, abençoado pelos nove Mestres. Quando a noite de vigília se fez manhã, os graeldaras seguiram para o palácio, acompanhados contra a sua vontade por Valacar e os Destemerosos, após todos jurarem, pelo amor por sua terra, que nada fariam contra os interesses de Graeldar e sem o consentimento da Ordem.

Encontraram Jaendor, único filho de Belenur, de pé sobre o primeiro degrau que levava ao Trono Branco. As paredes da grande sala do trono haviam sido cobertas com compridas cortinas alvas e sem adornos que se estendiam do teto ao piso, em luto pela morte do rei. Sobre o duro assento de pálido mármore, cortado por um emaranhado de suaves linhas azuladas, finas como veias, repousava a coroa de Graeldar, ouro branco em elevações que imitavam o contorno das Montanhas do Gigante, com uma única joia azul cuidadosamente lapidada em uma fina e esguia linha curva, como o contorno do grande rio Lorun.

Todas as condolências foram apresentadas ao príncipe, que as recebeu sem demonstrar qualquer emoção. Os Mestres em uníssono apresentaram Mavlish, portando o pergaminho de Belenur, para receber a coroa das mãos do príncipe. Jaendor rompeu o lacre de cera, leu-o em voz alta e declarou que aceitava o que ali estava escrito e dava sua benção e as do império para cada palavra escrita e à promessa do pai, mas não reconhecia Mavlish como um rei. Jaendor então se declarou um filho de Graeldar, nascido e criado sobre aquela terra, tanto quanto todos os que ali estavam presentes e assumiu a coroa de seu pai. Os muitos diplomatas graeldaras presentes começaram a falar quase ao mesmo tempo, enquanto os Mestres olhavam atônitos para Mavlish, que se voltou com o mesmo olhar para Valacar, cujos olhos queimavam de raiva incontida.

Valacar nunca fora um membro do clero ou mesmo um diplomata, mas um homem de armas e um altivo líder, guardião da memória e herdeiro da coragem de Meodarûn. Não poderia se calar. As palavras brotaram ásperas e fortes em sua voz, calando sobre todas as outras. Os mediadores de Graeldar apressaram-se em desculpar-se pelas rudes palavras, mas Valacar os chamou de covardes e traidores e, junto com os Destemerosos, desembainhou argumentos de ferro afiado onde o clamor por justiça havia falhado. Mas Jaendor não era um tolo despreparado e avançou seus soldados escondidos sob as alvas tapeçarias e disfarçados de nobres e fidalgos de sua corte contra os insurgentes, rapidamente debelando a rebelião e prendendo Valacar. Todas as armas em mãos graeldaras foram consideradas traidoras, os Mestres foram afastados da Assembleia e seu comando foi entregue a um nobre de Nyothar, conselheiro do novo rei.

As perdas dos graeldaras naquele dia foram muito grandes, em vidas e em direitos, mas nenhum outro pagara o preço de Calligan, então um jovem e promissor acólito de dezesseis anos. Dez silenciosos dias se passaram até que o rei voltou a convocar os Lordes Regentes, os regentes graeldaras e os Mestres, agora para o julgamento de Valacar. Calligan fora escolhido pelo próprio Jaendor para representar o clero, a família do acusado e todos os filhos de Graeldar frente às acusações de traição de seu povo. Seria ele a decidir o destino de seu pai, frente às leis do reino e da sua igreja. De cima do púlpito onde foi colocado para proferir sua sentença, Calligan pode ver seu pai caído de joelhos logo abaixo, quebrado em dor e ferimentos, mas com os olhos durante todo o tempo firmes em Jaendor, ainda a queimar intensamente em fúria e desafio. Sob seus joelhos, o alvo mármore continuava manchado em tons de um pálido vermelho, onde os Destemerosos haviam lutado e morrido, fazendo jus ao nome que adotaram. Apenas quando a palavra foi dada ao jovem clérigo, Valacar desviou o olhar em sua direção e as chamas pareceram engolir o jovem.

Calligan olhou pelo grande salão do trono, procurando nas feições dos Mestres por uma resposta, mas quando seus olhos cruzaram pelos elmos dos muitos soldados de Nyothar colocados atrás de cada regente e Mestre presente, ele soube o que deveria ser dito. Havia muito ainda a se perder, para os que ali estavam e para os que aguardavam nos feudos comandados pelos nyotharin, para suas famílias e casas. Ele soube naquele instante o que deveria fazer, que Graeldar estava acima de todos e de cada um de seus filhos, mas isto nunca abrandou a dor que ainda sentia ao lembrar claramente do silêncio e dos poderosos olhos de seu pai sobre si, com a mesma intensidade e fúria com que estiveram antes sobre Jaendor. Eles jamais tornaram a se voltar para o indigno rei em seu trono roubado ou mesmo para o carrasco ao seu lado, permanecendo firmes em um acusador silêncio sobre seu filho acima, até se fecharem pela última vez.

Durante os mais de setenta anos de domínio nyotharin desde Belenur, outras cidades surgiram e a catedral em Caendlia foi terminada, mas Marelvian jamais foi reconstruída ou sua beleza superada por nenhuma outra. E continuava a haver um governante em Graeldar que não era considerado, por aqueles que ainda se lembravam de antigas promessas, um de seus filhos, o rei Jaendor II, filho do segundo rei nyotharin. E havia mais do que apenas intrigas de diplomatas nesta descrença. Apesar de, assim como seu pai, o atual rei ter nascido em Graeldar, a linha real nyotharin não aceitava misturar seus laços de sangue com estrangeiros e suas esposas eram sempre filhas de um dos grandes fidalgos de Nyothar enviadas à corte da Caendlia. Assim, o sangue de Graeldar, o Primeiro, jamais se sentou no Trono Branco.

Os anos que se seguiram à coroação de Jaendor foram difíceis para os graeldaras, mas ninguém sofrera como Calligan. O fantasma da revolta de seu pai o perseguiu tanto entre graeldaras como nyotharins, como uma herança e uma maldição. Suas escolhas foram mais árduas, seus caminhos mais tortuosos e suas conquistas mais raras. Apesar de todos os Mestres reconhecerem que não havia ninguém mais capaz do que ele, sábio, paciente ou com uma habilidade tão inata para a diplomacia, se passaram tantos anos quanto Hilnos levou para fundar aquela nação quanto para Calligan subir ao altar de Urm como o Patriarca de sua igreja e um Mestre da Ordem.

Havia agora poucos graeldaras que ainda se recordavam de sua história ou a de seus antepassados e menos ainda os que se interessavam por ela, satisfeitos com a segurança e as promessas de prosperidade que encontraram sob a proteção do poderoso império, mas não todos. Ainda existiam entre eles aqueles que prezavam as tradições esquecidas de Graeldar e buscavam com perseverança sua independência, não com armas ou desafios, mas através daquilo que sempre fizeram de melhor. O reinado de Jaendor durara quase quarenta anos e somente ao seu final Calligan pode chegar à posição que agora ocupava, com as bênçãos do novo rei. Havia novamente um graeldara no comando da Grande Assembleia, mas esta árdua conquista, muito celebrada por eles, trouxe vários perigos consigo. Ela ameaçava reabrir velhas feridas já há muito cicatrizadas entre as famílias de Graeldar, assim como despertar velhos fantasmas com voz de trovão que nunca foram realmente esquecidos por graeldaras ou nyotharins.

Agora, o Grão-Diplomata sentia que uma nova ameaça pairava sobre seu povo, furtiva e maligna como um inimigo que foge aos olhos, mas que estava lá, como as espadas embainhadas às costas dos Mestres, quarenta anos atrás, e isso o preocupava. Os primeiros ventos do inverno não tardariam a chegar, mas este velho clérigo, diferente de seus antecessores, há muito havia deixado de acreditar nos sinais das estações ou naquilo que apenas os olhos podiam ver. Uma leve pressão em seu braço trouxe sua mente de volta aos seus aposentos.

– Não aperte tanto estes nós ou meus braços ficarão dormentes como da última vez. Terei um dia longo pela frente e creio que irei precisar muito deles hoje – esticou então o corpo para conseguir olhar para o outro lado do quarto, por cima de seu neto. Apesar de estar sobre uma pequena bancada elevada, Calligan conseguia apenas ultrapassar precariamente a sua altura, agora que Uligan havia se levantado – Oehl, acredito que seria bom dar um merecido descanso a esses seus olhos cansados e um pouco de exercício aos braços ociosos. Venha aqui ajudar meu neto a vestir este pobre velho, por favor.

Atendendo ao chamado, dois estreitos olhos cinzentos se levantaram de um dos pesados livros que Calligan guardava em seus aposentos. Desde o começo da manhã, eles haviam permanecido ali, ocupados entre os contos, relatos e histórias descritas nas muitas páginas que o tempo havia tingido com um pálido amarelo. Com um profundo inspirar, o grande livro foi fechado e colocado suavemente em uma pequena mesa, enquanto um homem com a pele dourada dos cavaleiros das distantes planícies de Sherien se levantou, aproximando-se. Este era Oehl Gamgliff, o mais antigo amigo de Uligan, para quem os antigos livros dos graeldaras eram tão ricos como poucos tesouros poderiam ser.

– Não vejo nenhum pobre velho em seus aposentos, Calligan, e seu neto não precisa de nenhuma ajuda. Não há ninguém que possa conhecer melhor estas vestes do que ele. Desde cedo foi instruído não apenas para que o ajude a se vestir, mas para usar este mesmo traje um dia, não é verdade?

– Rezo para que este dia ainda esteja bem distante, meu amigo – Uligan estava agora ajoelhado ao lado de uma das pernas de seu avô, terminando as amarrações das altas sandálias de Calligan, sem olhar para Oehl – Os graeldaras nunca mais deixarão de ter seu devido lugar na assembléia e esta posição, assim como a Cadeira Cinzenta do Patriarca de Urm, não estará vaga durante muitos anos ainda por vir.

Calligan sorriu e olhou com orgulho para ele. Possuía um carinho imenso por seu neto e não apenas pelos laços de sangue que os uniam. Uligan era muito semelhante ao avô e não poderia haver um herdeiro melhor de suas tarefas e das tradições de Graeldar. Dedicara a ele toda a atenção e o carinho que não pôde dar ao único filho, Valadani. As obrigações para com os graeldaras acabaram por lhe tomar muitos de seus anos, terminando por separá-lo da família, o que entristecia profundamente o velho clérigo. Mas Calligan sabia de sua responsabilidade e a aceitava, sempre fazendo o que tinha de fazer, não importando o preço que tivesse de pagar. E era nesta visão que o neto e o avô mais se assemelhavam. Voltou-se para Oehl, com a voz firme e decidida.

– Mas este dia chegará! Não será hoje e talvez não amanhã, mas chegará. E exijo que você, Oehl Gamgliff, mais do que qualquer outro, esteja ao lado dele quando este dia chegar.

O estrangeiro olhou alegremente para os dois, sentindo-se feliz com as palavras de Calligan. Ele era poucos anos mais velho que Uligan e não havia nenhum outro que se aproximasse mais da figura de um irmão do que seu amigo. Ele era um estranho nestas terras, um exilado de um reino que já não existia, Mellagast, uma terra árida e vazia, destruída pela ambição e pela ganância, de onde apenas sua mãe, a rainha Yezmerin, da nobre casa de Edhérien e a mais bela flor do deserto, conseguira sair com vida. Ela viajou com Oehl em seu ventre durante meses, pedindo aos deuses de seus antepassados pela vida de seu filho e por uma chance para criá-lo, longe das intrigas e da guerra que consumira sua família. Ela caminhou sem rumo até ser encontrada quase sem vida por uma caravana de mercadores que não compreenderam sua língua, mas para quem as jóias que carregava consigo traziam uma mensagem muito clara e bem-vinda. Eles cuidaram de seus ferimentos e a alimentaram, levando-a consigo até o destino da caravana, a grande cidade de Caendlia, onde ela encontrou abrigo e amparo na catedral de Urm, pois Calligan, recém-nomeado patriarca, jamais permitiria que suas portas se fechassem para pessoa alguma. Assim Oehl nasceu, sob as bênçãos de um deus desconhecido em uma cidade estranha, distante das planícies de sua família e com um nome que jamais pertenceu ao seu povo, pois Yezmerin não queria que os inimigos de sua casa o encontrassem. Sua mãe ensinou-o tudo sobre os Edhérien, suas histórias e sua cultura, pois esta era a herança que ninguém poderia tirar de seu filho. Com a morte de sua mãe, Oehl tornou-se o único guardião das tradições de sua casa, mesmo não tendo mais uma casa para defender. Apenas os dois homens naquele aposento conheciam a verdadeira história daquele que passaram a considerar como um membro de sua família. Oehl podia compreender como se sentiam, pois ele era também o herdeiro de uma terra que nunca fora sua.

– Com certeza estarei, Grão-Diplomata – virou-se para Uligan, colocando a mão em seu ombro para chamar sua atenção. Curvou-se em uma respeitosa saudação, mas com um sorriso de puro deboche nos lábios – Mal posso esperar por este dia, futuro patriarca. Será uma honra e um prazer ajudá-lo a se vestir, meu senhor.

Com estas palavras, Calligan soltou uma estrondosa gargalhada, como não fazia há muito tempo, sentindo-se grato pelo humor de Oehl, mas Uligan levantou-se em um salto, olhando diretamente nos olhos do diplomata, irritado.

– Parem com isso, vocês dois! Um assunto sério como este não deveria ser tratado de forma tão leviana, nem mesmo por você, meu avô. Já lhe disse que não estou pronto para a cadeira dos graeldaras. Não agora. E nunca tive certeza de que esta paródia de diplomacia que nos permitem aqui, com a benevolência de Nyothar, seja o melhor caminho para nós. A assembléia de Caendlia me parece um grande teatro de magistrais atores encenando vagarosamente uma péssima peça que apenas aos tolos convence!

O sorriso de Calligan se desfez rapidamente e ele olhou profundamente nos olhos do neto, aparentando uma calma que não se refletia em seu interior. Podia ver claramente o fogo de Valacar a queimar no limiar daquele olhar e isso muito o assustava. Se fechasse os olhos, poderia facilmente imaginar as mesmas palavras na trovejante voz de seu pai. Isto era algo que lhe trazia a amarga lembrança de como os graeldaras já estiveram tão próximos de perder até o pouco que ainda tinham, um aviso de quão longe as escolhas equivocadas nos momentos errados poderiam, novamente, levá-los. Calligan e os outros Mestres já haviam percebido há muitos anos que Uligan nascera com o mesmo espírito de seu antepassado, forte e impetuoso, com a coragem e a vontade para fazer o que tivesse de ser feito. Apesar das vozes em contrário, com medo que ele seguisse os passos de Valacar, Calligan continuou a preparar seu neto para tomar o seu lugar, à frente dos graeldaras. Procurando afastar aquela imagem de sua mente, falou-lhe com convicção.

– Mas esta cadeira será sua, cedo ou tarde, estando pronto ou não. Você é herdeiro de minha herança e não pode fugir eternamente desta responsabilidade. Não estarei aqui para sempre e não a confiaria a ninguém mais. Conquistamos mais nestes últimos dez anos do que acreditávamos ser possível em uma vida e uma atitude impensada agora poderia nos fazer perder muito mais do que ousamos imaginar.

– Não tenho medo desta responsabilidade, meu avô, e dizer que estou despreparado para ela seria menosprezar seus ensinamentos. Apenas digo que poderemos perder mais ainda quando e se algum dia tivermos em nossa cadeira alguém que não acredita inteiramente no que faz. E eu ainda não acredito, não como espera de mim.

Oehl já havia presenciado esta discussão entre os dois muitas vezes para saber que não haveria um vencedor. Conhecia bem a ambos e acreditava que os dois tinham razão, sob pontos de vista distintos. Decidiu intervir, antes que a discussão se alongasse demais.

– Para a sorte de todos nós, Calligan, você ainda estará aqui por muitos anos, para permitir que todos aprendamos a trocar impulsividade por experiência e receio por ação.

– Não acredito em sorte. Nunca acreditei – Calligan sorria levemente. Havia percebido a crítica sutil que lhe fora endereçada e não podia deixar de reconhecer a sabedoria daquelas palavras – Acredito apenas em se estar pronto quando a oportunidade surgir.

Oehl colocou então a mão no ombro de Uligan. Ele nunca duvidara da capacidade de seu amigo e sabia que ele sempre iria encontrar uma maneira de fazer aquilo que lhe coubesse, não importando as dificuldades que tivesse de vencer ou o caminho a trilhar.

– Ele estará pronto quando Graeldar precisar dele, Calligan, eu sei que estará. E eu estarei lá com seu neto, pois precisará de alguém com quem discutir suas idéias intempestivas e para lhe dar os conselhos que não vai querer ouvir.

Os três começaram a rir com aquelas palavras, esquecendo-se por um momento da assembléia e de seus problemas. Algumas leves batidas na porta do quarto chamaram a atenção dos três, enquanto a voz de um dos pajens da assembléia podia ser ouvida vindo do corredor atrás delas.

– Meu senhor Calligan, os diplomatas o aguardam.

– Pois que eles aguardem um pouco mais, sentados em suas confortáveis cadeiras, enquanto este velho tem de permanecer de pé para terminar de ser vestido como um inválido! – Calligan falava com uma voz forte e firme, que desmentia sua avançada idade – Diga-lhes que já estarei com eles, assim que terminarmos aqui.

– Já terminei, meu avô. Pode ir quando quiser. Não irei atrasar o Grão-Diplomata ainda mais. Voltarei agora para nossa igreja e irei fazer os preparativos para mais tarde – Uligan estava visivelmente descontente em participar da cerimônia que se daria ao cair da noite, pelo Dia do Reconhecimento. Era um ritual imposto por Nyothar a todas as igrejas das terras sob sua proteção, no último e mais importante dia de cada semana, para comemorar a fundação do império, agradecer por seu amparo e orar pela saúde e longevidade do imperador. Aos olhos do jovem, esta era apenas mais uma afronta contra Graeldar – Quando retornar, estarei aguardando em meus aposentos para que me conte como foi a assembléia.

Calligan voltou-se para ele com um olhar calmo, mas distante, enquanto sua fronte franzida mostrava que sua mente não estava ali, mas perdida em pensamentos. Com um curto suspiro, seu olhar se avivou, aparentando ter chegado a uma conclusão.

– Não, hoje não. Eu quero que você venha comigo até o Grande Saguão, como meu acompanhante oficial. Preciso mais de você ao meu lado do que usurpadores de outro infiel bajulador.

– Mas... – Uligan se deteve por um momento, indeciso se deveria aceitar ou não o convite de Calligan. Apesar de sempre ter desejado estar na assembleia ao seu lado e ajudá-lo, sabia que tal atitude não seria bem vista pelos Mestres. Deveria ter sempre suas responsabilidades com a igreja em primeiro lugar, mesmo que lhe fossem impostas e lhe parecessem humilhantes – Assim como você, eu tenho meus afazeres e deveres, e eles ainda se encontram distantes dos balcões da assembléia.

– Derek e os outros podem cuidar muito bem dos preparativos e há muito que já é chegada a hora de você conhecer o que o futuro lhe reserva. E quero que você também venha conosco, Oehl.

O estrangeiro inclinou levemente a cabeça, em sinal de aceitação, sem questionar a decisão. Calligan desceu facilmente da bancada onde estava, pegando o longo cetro dourado de Grão-Diplomata que repousava em uma pequena mesa próxima. Como em incontáveis vezes anteriores, um longo suspiro escapou dos seus lábios quando olhou para as largas portas a frente. Ele sabia exatamente o que o esperava do outro lado e era exatamente isto que o desanimava. Então, deu três batidas firmes com o cetro contra o chão, que ecoaram por seus aposentos. Em resposta, as portas foram abertas e um pequeno homem, de pele clara e rosto severo, com longos cabelos negros presos em duas tranças que caíam ordenadamente pela parte da frente dos trajes de um nobre nyotharin, o aguardava impaciente do lado de fora. Ao seu lado, dois soldados do império, com grandes armaduras e escudos cerimoniais, o acompanhavam.

Este era Vyérdran, Chanceler de Nyothar e conselheiro oficial do Rei Jaendor II nos últimos anos, responsável por levar até ele as decisões da assembléia. Sua influência sobre o destino de Graeldar era muito maior do que Calligan gostaria, pois o clérigo sabia o quanto o nyotharin havia secretamente tornado todas as conquistas dos graeldaras desde que chegara muito mais difíceis, além de ter impossibilitado tantas outras. Vyérdran não era oficialmente um membro da assembléia, mas sua presença nela era constante. A hierarquia do chanceler no Grande Saguão não era claramente definida, podendo estar abaixo ou acima da posição do Grão-Diplomata, dependendo sempre do assunto tratado e dos interesses do império, o que fazia os graeldaras serem sempre muito cautelosos em sua presença. Tinha a voz rouca e baixa, o que dificultava compreender o que dizia por aqueles que não estavam acostumados a ela. Esta era a primeira vez que Uligan e Oehl conheciam o chanceler, apesar de já terem ouvido muito a seu respeito.

– Bom dia, Grão-Diplomata Baspoquin. Ouça. Os pássaros já cantam alto fora de sua janela, indicando a todos que a manhã já se encontra bastante adiantada para aqueles que a viram nascer.

Calligan fechou levemente os olhos e girou a cabeça, como se procurasse ouvir alguma coisa. Após alguns momentos, um ruído rouco e áspero podia ser ouvido do outro lado da janela, a se repetir incessantemente. O clérigo virou-se na direção do nyotharin, com um suave sorriso a se desenhar em seus lábios.

– Acredito que o nobre chanceler tenha se equivocado, pois o único som que consigo ouvir mais me parece ao grasnar de um pequeno corvo, que considero uma ave digna de pena, pois apenas ele considera o que sai de sua boca belo ou importante aos ouvidos dos outros. Acho que apenas ouvidos surdos ou corrompidos conseguem encontrar alguma beleza ou sabedoria naquilo que eles dizem, não acha? – a voz de Calligan se mantinha calma e inalterada – Mas estas não são desculpas para a minha demora e, por isso, desculpo-me com todos os membros de direito da assembléia.

O rosto de Vyérdran tornou-se ainda mais severo com as palavras do clérigo e seu olhar parecia atravessá-lo, resmungando algo que nem os guardas ao seu lado poderiam compreender. Calligan fez um sinal com a mão para que seu neto se colocasse ao seu lado, ao que se apoiou pesadamente em seu braço, caminhando em direção à porta com uma dificuldade que nunca tivera. Ao passar pelo chanceler, parou para apresentar aqueles que o acompanhavam.

– Este é Uligan Baspoquin, meu querido neto, ajudante e, ocasionalmente, um providencial apoio a um velho cansado. E este é Oehl Gamgliff, um jovem de muitos talentos, meu novo escriba, intérprete e tradutor.

Vyérdran olhou longamente para eles, analisando-os friamente. Então, com um leve sorriso desafiador, dirigiu-se a Oehl em uma língua antiga de Nyothar, usada somente em cerimônias formais entre seus nobres, que mesmo Calligan pouco conhecia.

– Creio que alguém tão jovem tenha de ser muito inteligente ou haver gasto muito mais anos de estudo do que sua pouca idade poderia lhe permitir para ter sido escolhido como tradutor do próprio Grão-Diplomata de Graeldar, apenas para começar a compreender todas as línguas que pode encontrar na assembléia, ainda mais para um estrangeiro.

Oehl cruzou os braços em frente ao peito e se curvou longamente, sem dizer palavra alguma, mantendo seus olhos baixos como se estivesse envergonhado. O sorriso no rosto de Vyérdran aumentou ainda mais com o seu silêncio, enquanto ele lançava um olhar vitorioso na direção de Calligan. Quando Oehl percebeu que o chanceler começara a se virar para deixar os aposentos do diplomata, ergueu-se e passou a falar na mesma língua que Vyérdran usara, mas com uma fluência ainda maior que a dele.

– O nobre chanceler me enche de orgulho com seus elogios, dos quais sei que não sou merecedor, mas, mesmo assim, agradeço – e repetiu o mesmo agradecimento em mais cinco línguas das quais o nyotharin não conhecia três, mas sabia que duas eram verdadeiras, pois já as ouvira antes, mas era totalmente ignorante em relação à terceira.

O rosto de Vyérdran agora havia se transformado em uma máscara rígida, de onde se ouvia apenas uma pesada respiração, enquanto Calligan sorria satisfeito. O chanceler rapidamente se virou e deixou os aposentos do diplomata, caminhando pelo corredor a passadas tão largas para pernas tão curtas que seus guardas, em pesadas armaduras, tiveram dificuldade para acompanhar. Quando os três já haviam se distanciado, Uligan dirigiu um olhar preocupado a Calligan.

– Este é um jogo muito perigoso, meu avô. O chanceler pode dificultar ainda mais nossos pleitos junto ao segundo Jaendor – os graeldaras que ainda valorizavam os feitos de Meodarûn nunca se referiam ao governante nyotharin como seu rei quando conversavam entre si.

– Quando um homem planeja, decide ou age quando está sob a influência de uma forte emoção, como ódio ou paixão, está fadado ao fracasso antes mesmo de começar. É por isso que você deve sempre se manter o mais sereno que sua impulsividade lhe permitir. Além disso, duvido que Vyérdran possa se empenhar ainda mais do que já o faz, pois existem limites para o que até mesmo ele pode fazer, ao que agradeço todos os dias. E quanto a você, Oehl, não se deixe abater pelas palavras do chanceler, pois apesar de já participar indevidamente da assembléia há alguns anos, ou talvez exatamente por isso, ele não confia em estrangeiros.

– Então eu não posso deixar de sentir pena do pobre homem. Acho que ele esquece ou nega sua própria condição nestas terras, que não pertencem a Nyothar. E o que se pode fazer, se a própria natureza parece conspirar contra ele? – Oehl fez um leve movimento com a mão em frente à boca, como se bocejasse, e o som de um estridente corvo podia ser claramente ouvido, como se viesse de trás da janela próxima a ele.

Com um largo sorriso no rosto, Calligan olhava admirado para aquele que aprendera a amar como a um neto.

– Acho que nunca vou deixar de me surpreender com você, Oehl Gamgliff, filho de Yesmerin e herdeiro de Mellagast, e sabe muito bem que não me surpreendo facilmente. Estou muito feliz que esteja aqui conosco, meu querido amigo.

– Não existe para mim herança longe destas terras que já não tenha conquistado ou familiares que não estejam agora a minha vista, Calligan – a voz era firme, não demonstrando carregar qualquer tristeza, mas havia algo em seu olhar que desmentia aquelas palavras, mas que nenhum dos dois homens ali podia perceber. Apenas ele sabia de sua promessa a Yesmerin em seu leito de morte – Mellagast morreu com minha mãe, assim como a linhagem dos Edhérien. Graeldar sempre foi minha casa, assim como vocês minha família.

Calligan bateu novamente com o cetro no chão e seis soldados apareceram, vindos do corredor. Eram chamados de Feldaen, os leais guerreiros de Meodarûn, e estiveram todo o tempo do lado de fora de seus aposentos, apenas aguardando seu chamado para conduzirem o Grão-Diplomata até a assembléia. Trajavam longas vestes brancas por cima de escuras armaduras de couro e metal, totalmente encobertas, assim como as curtas espadas que traziam presas às pernas. A única marca que se via em suas vestes era o símbolo de seu povo, que poucos graeldaras ainda se recordavam, o grande rio desenhado ao lado direito do peito, a serpentear desde uma nascente em seus ombros até pouco abaixo dos joelhos. Usavam altos elmos de prata polida que lhes cobriam quase toda a face e que terminavam em uma longa crina de pelos brancos, descendo por suas nucas, com uma curta cortina de finos elos a caírem sobre seus ombros e costas. Nas mãos, traziam uma comprida lança, com largas lâminas douradas em seu topo e grandes flâmulas logo abaixo destas, com o símbolo de Urm, uma balança prateada dividindo igualmente dois lados, um claro e um escuro. Eram os mesmos homens que sempre protegiam Calligan, mesmo quando ele exercia apenas a função de patriarca de sua igreja, e foram escolhidos entre os mais fortes e habilidosos entre todos os Feldaen, treinados tanto para a guerra quanto para a formalidade dos protocolos diplomáticos. Eles prontamente se colocaram em silêncio ao redor do velho clérigo e seguiram com ele, acompanhando seus passos.

As orgulhosas passadas em cadência dos Feldaen ecoavam alto no piso polido dos largos corredores de pedra da maior das construções de Caendlia, o palácio de Jaendor, chamando a atenção de todos por onde passavam. Ali ficavam a assembléia e os aposentos de todos os diplomatas das muitas nações que vinham até a cidade durante as colheitas. Oehl seguia pouco atrás, atento a tudo que acontecia ao seu redor. Podia ver homens e mulheres de muitos reinos e cidades naqueles corredores, embaixadores, adidos, acompanhantes, soldados e membros das comitivas que chegaram à Caendlia nos últimos dias, trajando roupas exóticas e adornos estranhos, sempre a sussurrar em dialetos desconhecidos e, mesmo assim, somente longe de ouvidos estranhos. Muitos olhos se voltavam curiosos para ele, a acompanhar os graeldaras até a assembléia. Era fácil para aqueles homens e mulheres, acostumados com representantes de muitas terras, perceberem a herança que Oehl trazia em seu sangue, o que aumentava ainda mais sua surpresa, pois Sherien era conhecida por todos apenas como uma terra de bárbaros e selvagens, criadores dos melhores cavalos que se conheciam, divida em clãs familiares que constantemente lutavam entre si pela posse dos melhores campos e pastos, sem que nenhum jamais houvesse enviado quaisquer emissários ou representantes para além de suas fronteiras. Muitos duvidavam de que eles fossem sequer capazes de qualquer ato civilizado. Mesmo o pouco comércio que se permitiam ter com estrangeiros era baseado em barganhas de mercadorias e ameaças.

Calligan caminhava devagar, despreocupado, distribuindo sorrisos e acenos às delegações que encontrava, parecendo estar alheio aos olhares e comentários que surgiam após sua passagem, mas estava, em verdade, bem ciente deles. Uligan caminhava inquieto ao seu lado, aguardando por um momento quando menos ouvidos curiosos estivessem a volta deles. Quando este momento finalmente se apresentou, falou ao seu avô em uma voz muito baixa, como se faltasse força às palavras para escaparem por entre seus dentes cerrados.

– E quanto ao temor dos Mestres de que minha impulsividade pudesse influenciar suas decisões na assembléia, se eu o acompanhasse antes de estar pronto, apesar da relutância deles de que me treinasse?

Calligan não esboçou reação alguma, como se não houvesse ouvido, mas respondeu em um tom de voz muito semelhante ao de seu neto:

– Já atingi uma idade onde, por convicção e teimosia, o pouco que meus ouvidos me permitem perceber não pode mudar o que tenho aqui dentro – Calligan tocava discretamente seu peito com os dedos – e esta decisão cabe somente a mim, com ou sem o consentimento da Ordem – voltou-se então para o neto, agora com um tom de cumplicidade em sua voz – Mas me orgulho em saber que a sua audição está excelente, a ponto de conseguir ouvir o que os Mestres conversam em segredo, mesmo atrás de portas fechadas.

Uligan esforçou-se para conter o sorriso que quase lhe saltou ao rosto, enquanto continuava a caminhar ao lado de seu avô, sem olhar para ele. Diversas estátuas, feitas de belas pedras brancas, representando todos os grandes diplomatas de terras próximas e distantes que em vida já caminharam por ali, margeavam os dois lados do corredor, refletindo a clara luz da manhã que parecia dançar em volta deles, como água sob a ação do vento, ao passar pelos vitrais coloridos das compridas janelas que enfeitavam as paredes. Os desenhos nos vidros lembravam cenas muito familiares aos graeldaras, como grandes campos sendo cultivados e colhidos, extensas bibliotecas e imagens de belas montanhas, com seus cumes cobertos por uma neve avermelhada pelo pôr do sol. Sobre estes vitrais, as belas pinturas que decoravam o teto lembraram um céu de azul infinito, marcado por finas nuvens de inesperadas formas, que passavam na mesma cadência de seus passos, até suavemente ceder lugar a uma bela e clara noite, pontilhada por inúmeras constelações que os filhos daquela terra conheciam muito bem. Ao fim do corredor, atrás de uma fileira de soldados nyotharins fortemente armados, havia duas grandes estátuas, maiores que todas as anteriores, com detalhes em azul e dourado, que pareciam guardar duas grandes portas de uma madeira escura como ébano, contrastando com o tom claro dos corredores. Nestas portas estava entalhada uma imagem do grande rio de Graeldar cruzando suas largas planícies, mas este não nascia no Bosque Sagrado, ao pé das Montanhas do Gigante, mas de uma única e gigantesca montanha, Musnir, a Coroa do Imperador, como era chamada a maior elevação de Nyothar, aos pés da qual se erguia sua capital e também seu maior orgulho, Andelnam, a cidade das infinitas torres. Atrás delas ficava a passagem que levava até o balcão e a cadeira do Grão-Diplomata no Grande Saguão. As estátuas que as guardavam eram de Meodarûn e Donenthur, "os criadores da assembléia e pais de uma nova Graeldar", como estava escrito em diversas línguas em suas bases.

Sufocando um resmungo de indignação, Calligan bateu com seu cetro no chão e as grandes portas lentamente se abriram, puxadas pelos guerreiros nyotharins. Por trás delas, diversos pajens aguardavam, carregando compridas tochas presas ao cinto, que em muito ultrapassavam a altura deles. Outro homem, ricamente vestido em um traje cerimonial do Império, chamado Rewen, o orador do palácio, anunciou a sua chegada.

– Atenção, ó toda Caendlia, atenção! Saúdem Calligan Valcar Baspoquin, filho de Graeldar e Grão-Diplomata desta assembléia!

Tradicionalmente o nome do pai do diplomata anunciado seria dito logo após o seu durante a apresentação, para atestar sua família e sua herança, mas há muito que o nome de Valacar fora banido pelos próprios Mestres, preferindo a expressão "filho de Graeldar".

E assim, enquanto as grandes portas eram fechadas atrás deles e com as altas tochas dos pajens a se cruzarem sobre suas cabeças, formando um estreito corredor de luz, os três cruzaram a passagem que conduzia ao Grande Saguão da Assembléia de Caendlia.