O Caminho de Sandren - Livro 1 (Caminhada)
7 A cidade sobre a colina
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Muito antes de conseguirem avistar novamente a grande rua principal, caminhando agora com facilidade por vielas mais largas e menos tortuosas, o mentor e seu discípulo já haviam sido envoltos pelos muitos sons e aromas da grande cidade, mas Midler se mantinha atento aos seus arredores, não permitindo que Caendlia o distraísse novamente. De volta ao organizado caos do comércio, suas largas passadas faziam as inúmeras tavernas e lojas passarem rapidamente, com comerciantes a oferecerem seus produtos com gritos e acenos, sem que o discípulo lhes dirigisse qualquer atenção, mantendo um olhar cauteloso em todos à volta.
As vozes rapidamente diminuíram quando se aproximaram do grande muro que cercava a parte mais alta da cidade, até se tornarem pouco mais do que um distante sussurro sob os grandes portões de madeira e ferro entrelaçados, onde a larga estrada onde estavam se unia a outras duas, igualmente imponentes em sua construção, a virem do norte e do sul, tornando-se uma única e magnífica passagem que terminava sob os portões fechados. As muitas lojas já haviam ficado para trás, substituídas por elegantes e largas casas de apenas um andar, todas pintadas no mesmo tom claro, lembrando um extenso colar de pérolas que ornamentava a base da pequena colina. Estas casas, assim como todas as outras construções neste local, estavam afastadas em mais de dez metros de onde o alto muro se erguia, formando algo como uma larga estrada que contornava toda a cidade alta, coberta com uma fina areia branca e cascalhos sobrepostos, não permitindo que ninguém se aproximasse dela sem ser facilmente percebido, mesmo na escuridão da noite, pelos muitos guardas que caminhavam sobre a murada, patrulhando toda sua extensão entre elevadas torres de vigia.
Apesar da manhã se apresentar límpida e luminosa, vários archotes estavam acesos em suportes por toda a extensão externa da murada, até onde Midler conseguia divisar, com sua parede já fortemente marcada de negro sobre eles. Entre as duas torres centrais, logo acima e atrás das grandes portas, havia uma imensa rocha escura, tão alta e larga que se rivalizava com as torres que a guarneciam. Seu topo havia sido esculpido na forma de uma grande ave de caça, que parecia brotar da própria rocha, com suas largas asas abertas como se houvesse acabado de alçar voo de dentro dos altos muros, cobrindo a todos que chegavam com sua sombra. Duas grandes jóias vermelhas, do tamanho de um largo punho cerrado, tomavam o lugar de seus olhos e possuíam um brilho próprio, intenso, quase selvagem, pairando em eterna vigília sobre os portões da cidade alta.
Midler não podia deixar de admirar a beleza e imponência daquela figura, que parecia poder ganhar vida a qualquer momento. Ele não conseguia perceber nenhuma fresta ou argamassa em toda sua extensão, como se houvesse sido totalmente esculpida a partir da gigantesca pedra a qual ainda estava presa. O discípulo nunca vira uma ave como aquela, pois esta não era nativa de Graeldar ou das terras altas onde nascera, mas seu porte majestoso e olhar severo o faziam lembrar-se de algumas estórias que povoaram sua infância, de um pássaro tão grande quanto um cavalo, de garras tão afiadas quanto a mais amolada das espadas e seu grito trazia terror à última batida do coração de todos os animais que caminharam sob sua inclemente sombra. Chamada de Arkyllen, “os olhos do imperador”, fora trazida há muitos anos pelos regentes nyotharin que aqui passaram a viver, como fiel companheira e hábil caçadora. Era um dos símbolos da nobreza de Nyothar, rara e bela como a mais preciosa das jóias, quase tão desejada por eles quanto à própria coroa de Jaendor.
Um sorriso sutil se desenhou no rosto do discípulo. Ele acreditava que apenas um homem muito iludido, seja pelo poder que tem ou pela ganância de possuí-lo, poderia esperar domar um coração ao mesmo tempo tão nobre e selvagem como aquele, apenas por sua vontade. Seus olhos se voltaram uma última vez para a grande estátua, já caminhando sob sua sombra, antes que o alto muro a escondesse de seus olhos. Midler nunca vira aquela ave, a não ser na imaginação de sua infância, mas algo lhe dizia que, apesar da imponência que aquele símbolo da nobreza transmitia, esculpido com tamanha beleza e cuidado, a estátua de fria pedra não lhe fazia justiça.
Assim que Laertes e Midler deixaram a última das casas de marfim para trás, um grupo de cinco soldados, que estavam em vigília em frente aos grandes portões, armados com lanças curtas e pequenos escudos, rapidamente se aproximou. Um deles, ostentando uma larga faixa vermelha a lhe cruzar o peito sobre uma fina cota-de-malha, designando assim sua posição superior na hierarquia da guarda, adiantou-se e fez um sinal para que parassem, enquanto analisava os dois homens que estavam a sua frente.
– Bom dia, viajantes. Com que propósito se dirigem à Cidade Alta de Caendlia?
– Um bom dia para você também, zeloso guardião dos portões. Até onde me recordava esta cidade era uma só – Laertes fez uma sorridente pausa – Mas, respondendo sua pergunta, viemos ter com o grande ferreiro Tallamir e tenho certeza que nossos assuntos para com ele não precisam ser explicados para que nos seja concedida passagem.
Laertes entendeu sua mão direita, mostrando ao soldado um delicado anel dourado que usava, onde uma pequena jóia azulada começou a brilhar fortemente, como se uma grande chama houvesse se acendido em seu interior por um momento para em seguida extinguir-se suavemente. Este era o Anel da Aliança, entregue a cada mentor e Paladino, quando de sua consagração. Concebido pelo primeiro discípulo, Kyeron, que fora escolhido e treinado pelo próprio Baltur, antes mesmo da construção de Sandren. Este era o símbolo maior do eterno compromisso firmado há séculos entre a Torre de Marfim e todos os reinos conhecidos, pela qual os homens de Sandren juraram proteger e estar sempre a serviço da verdade, dos homens e dos governantes destas terras, quando fossem por eles convocados. Os que o portavam, através das bênçãos de Baltur, podiam fazer sua pequena jóia brilhar com a mesma luz do amanhecer, como um sinal desta antiga e eterna aliança, permitindo assim livre passagem a qualquer lugar que os homens de Sandren quisessem. Mas Laertes podia ver nos olhos desconfiados do soldado, com uma profunda tristeza, que as velhas leis e tratados, conquistados tão arduamente em meio a longas guerras e traições passadas, estavam se perdendo, esquecidos ou desprezados pelos homens destes tempos.
– Aguardem aqui, viajantes. Irei falar com meu comandante sobre isto.
– Vá! E enquanto o incomoda com perguntas cujas respostas já deveria ter, seguiremos nosso caminho – a voz de Laertes deixava clara sua impaciência, enquanto voltava a caminhar em direção aos portões, fazendo um sinal para que Midler o acompanhasse.
A fronte do guardião franziu-se com aquelas palavras e seus olhos se estreitaram, mostrando seu desagrado com o que ouvira e com o aparente desrespeito do ancião. Colocou-se rapidamente à frente de Laertes, com a mão a pairar ameaçadoramente sobre o cabo de sua espada, desafiando o velho mentor a prosseguir.
– Aviso-lhe para que não me provoque, guardião, nem tente nos deter, ou se arrependerá, isto lhe prometo! – Midler se assustou com o tom e a atitude de seu mentor, pois jamais o vira agir assim. Não era apenas impaciência que percebia agora em sua voz, mas uma profunda raiva que ele julgava que Laertes não era capaz de sentir – Se minhas palavras e as antigas alianças que homens muito superiores a você morreram para defender não lhe servem, então ordene aos seus soldados que nos matem agora, pois apenas a morte poderá impedir-me de cruzar estes portões, com ou sem a sua permissão!
Os outros soldados se voltaram confusos para seu superior, aguardando o comando, apenas para encontrar em seu rosto um olhar perdido, a refletir a mesma dúvida que eles lhe dirigiam. Após um momento de hesitação, o guardião se voltou para Midler, tentando evitar assim o olhar enfurecido de Laertes.
– Não posso permitir que nenhum estranho ingresse na Cidade Alta portando as armas que carrega, viajante. Terá de deixar sua espada e seu escudo aqui, se desejar passar.
Ao ouvir estas palavras, Laertes puxou com força o braço do soldado, quase o derrubando ao fazê-lo se virar para que olhasse dentro de seus olhos.
– Os homens de Sandren não são estranhos em nenhum lugar destas terras, nem mesmo nos salões dourados desta cidade! Este é um discípulo de Baltur, guardião, não um simples ladrão de rua para ser tratado desta maneira! A espada que tenta arrestar está a serviço de um poder que possui uma autoridade muito maior que você jamais terá ou poderá compreender. A arma dele irá permanecer onde está, pois é à tenda de um ferreiro que nos dirigimos e não ao palácio de um rei, por tudo que ainda pode ser sagrado nesta terra! – o clamor e a ira de Laertes retumbaram dentro dos ouvidos do guardião, sua voz soando firme como a de um general a comandar seus homens, enquanto olhava diretamente em seus olhos – Vamos, homem, escolha agora a ordem que dará aos seus e assuma com convicção as responsabilidades e obrigações de seu posto!
– Abram os portões! Abram os portões para os homens de Sandren – o comando lhe saiu dos lábios sem que percebesse ou pensasse, como se subitamente algo que lhe fora ensinado há muito tempo voltasse à mente, mas que havia dado pouca importância até então.
Laertes largou o braço do guardião e caminhou a passadas largas em direção aos grandes portões que abriam lentamente em sua direção, sem olhar para trás, sendo rapidamente seguido por Midler. Após as pesadas portas, seguia-se um corredor da mesma largura destas, com pouco mais de uma dezena de metros de comprimento, terminando em outro portão já aberto, tão largo e forte quanto o primeiro, escavado na base da grande pedra escura que Midler vira. Muito acima de suas cabeças, a imagem do Arkyllen pairava solenemente, a recebê-los sob suas grandes asas abertas. As grossas paredes que os envolviam possuíam diversas fendas em sua parte mais alta, assim como em duas passarelas que cruzavam por cima do corredor, de onde os muitos guardas que defendiam aquela entrada, protegidos pelas grandes rochas que formavam o muro, podiam disparar impunemente suas flechas contra qualquer exército inimigo que, tentando invadir a cidade alta, ficasse preso nesta armadilha, ao conseguir passar pelo primeiro portão.
Após este corredor, a Cidade Alta de Caendlia se abria em todo seu esplendor para os olhos de um atônito discípulo, tornando-se ainda mais impressionante do que Midler poderia supor pelo que vira de seu exterior, em muito pouco lembrando as muitas cidades pelas quais passara antes de ali chegar. Suas ruas eram planas, mais largas e melhor calçadas do que todas as outras que já vira. Havia muitas árvores por toda parte, tingindo o claro cinza das pedras com o dourado que suas folhas espalhavam pelo chão, entre extensas praças verdes e algumas pequenos lagos de águas transparentes, circundadas cuidadosamente por numerosas estátuas de pedras brancas. As grandes casas que via, erguendo-se tão altas quanto torres de vigia, transformavam todas as outras que conhecera em pequenas e simplórias cabanas. Mesmo a casa em que crescera, a maior em toda a Marca da Vitória, não podia sequer ser comparada a mais modesta desta colina. E eram ricamente trabalhadas, com grandes janelas e colunas ornamentadas, majestosas como pequenos palácios, construídas sobre elevadas bases de pedra, flores e terra, entrelaçadas por compridos ramos verdes que subiam largas escadarias que se estendiam até as ruas pouco abaixo, tão pacíficas e silenciosas quanto o interior de um santuário poderia estar. As pessoas que via, a caminharem tranquilamente ou sentadas nos largos bancos sob o dourado das árvores, pareciam sussurrar entre si, evitando perturbar a paz daquele local. Também havia soldados de rosto severo por todo o lugar, portando longas lanças com flâmulas do mesmo tom cinzento das pedras da cidade, sem quaisquer adornos ou símbolos. Suas armaduras eram formadas por largas placas de metal sobre uma camisa de finos elos, tornando-as leves e resistentes, e seus escudos eram longos e estreitos, assim como suas espadas, como era o costume dos guerreiros de Nyothar.
Logo após o segundo portão, havia uma praça de pedras claras, com compridos arcos a demarcarem as muitas ruas que partiam dela em várias direções, desde o norte até o sul, como um grande leque branco de ramos acinzentados. A rua principal, voltada para o leste, tão larga quanto a própria Estrada do Poente, era como uma continuação do longo caminho que trilharam até ali. Dentro dos muros da cidade alta, ela era chamada de O Caminho Dourado. Enquanto o sol estivesse no céu, suas pedras, planas como vidro e polidas à exaustão, refletiam fortemente o brilho de seus raios. Ela se iniciava sob um majestoso arco branco, maior que todos os outros, tomado por finas ramas de um verde bem claro, com suas compridas folhas a penderem alto sobre o começo do Caminho, como uma delicada cortina que se abria a quem por ele se dirigisse. As poucas flores que ainda resistiam ao frio que o final do outono trazia eram como pequenas joias amarelas incrustadas nas pedras claras, formando uma graciosa coroa. Até onde Midler podia ver, toda sua extensão era ladeada por belas e bem cuidadas árvores de tronco pálido, assim como por gigantescas estátuas de antigos guerreiros, que escoltavam com olhos inexpressivos os que se encaminhavam ao grande palácio que ele vira por sobre o muro.
De onde estava, o discípulo podia ver quase toda a grande morada do rei Jaendor II, um enorme castelo de paredes tão altas e maciças quanto um rochedo, sobre as quais conseguia avistar muitos soldados a caminharem entre longos mastros de madeira e grossas cordas trançadas, que era tudo que se podia perceber das inúmeras catapultas, balestras e outras armas de guerra que mantinham uma vigília constante sobre toda a cidade. Suas paredes, marcadas por muitas flecheiras e algumas poucas janelas estreitas, eram formadas por grandes pedras de vários formatos, cortadas e empilhadas aparentemente sem qualquer cuidado ou harmonia, mas com muita precisão. Ao fim do Caminho Dourado, guardada por enormes torres de pedra, estava a única entrada que ele podia ver, duas grandes portas fechadas, quase tão imponentes quanto os portões que defendiam a Cidade Alta, protegidas atrás de uma pesada grade suspensa. Antes desta entrada, havia um largo fosso, escavado profundamente entre as duas torres, com um longo passadiço móvel a cruzar sobre ele. Midler podia perceber facilmente que este palácio havia sido construído para nunca se tornar nada mais do que uma grande e invencível fortaleza, não havendo espaço para beleza ou suavidade entre suas duras linhas. Ele já havia escutado muitos contos sobre o raro encanto de seus alvos corredores e dos enormes vitrais de muitas cores que os enfeitavam, mas tudo que podia ver em seu rude exterior lhe indicava que aquele palácio havia sido erguido com grande urgência há muitos anos e que continuava sendo vigiado e protegido com o mesmo afinco de então, contra um iminente ataque que nunca aconteceu.
Tirando as luvas, Midler se abaixou, sentindo com a ponta dos dedos a perfeição das belas pedras sob as suas desgastadas botas, que lhe pareceram naquele momento tão indignas de sequer pisá-las levemente. Estas pedras haviam sido cortadas tão cuidadosamente como se fossem pequenas esculturas, sem quaisquer riscos, rachaduras ou imperfeições, mas, ao invés de lhe causar o arrebatamento que ele mesmo julgaria apropriado, um longo suspiro escapou dos lábios do discípulo. A cidade alta de Caendlia, revelada agora em toda sua beleza e imponência, não lhe trazia mais nenhum fascínio ou admiração, apenas uma profunda tristeza. Ele podia ver claramente, como se estivesse gravado em cada pedra, coluna e estátua desta cidade, o árduo trabalho de tantos homens para erguê-la, tão majestosa e extravagante quanto o devaneio de um monarca poderia ser, enquanto os sonhos e anseios mais simples destes mesmos trabalhadores, assim como os de tantos outros excluídos, agonizavam e morriam, à sombra de tanta riqueza.
O pesar que Midler sentia não era fruto da inocência de um jovem simplório, acostumado à vida modesta da pequena vila em que sempre viveu, pois o discípulo já havia conhecido outras cidades e encontrado miséria e desigualdade em seu caminho, mas nada que havia visto podia se comparar a Caendlia, tão grande e bela quanto injusta. Havia uma beleza ímpar na Cidade Alta, mas aos seus olhos, as pródigas casas, ricas e silenciosas como enormes mausoléus, ostentavam uma graça triste e frívola, com seus grandes salões vazios a brilharem em tons de prata e ouro por entre as altas janelas abertas, frios e distantes demais para se assemelharem a um lar.
Ao erguer os olhos entristecidos, inspirando profundamente, Midler procurou por Laertes, esperando encontrá-lo já distante, caminhando com largas passadas em direção à casa de Tallamir, tão absorto que estava em seus pensamentos que não perceberia que o discípulo havia ficado para trás, mas, para sua surpresa, o mentor havia permanecido calado ao seu lado. Apoiava-se pesadamente em seu cajado, com o olhar fixo na direção do grande palácio, ao qual nem mesmo a clara luz do dia conseguia trazer alguma beleza ou calor.
Laertes sabia exatamente como Midler estava se sentindo, tão bem como se fosse o jovem o seu próprio filho. O experiente mentor não precisava olhar dentro dos olhos do discípulo para enxergar seus pensamentos, pois o conhecia como a nenhum outro que já caminhara ao seu lado nestes longos anos. A amizade e a admiração pelos Summerion já havia nascido muitos anos antes de Midler, quando Télan ainda era um jovem aprendiz como ele. Nas muitas viagens que fez à Marca da Vitória, para visitar um respeitado e muito querido amigo, Laertes começou a ensinar a filosofia dos Paladinos para Midler, assim como muitas das leis e disciplinas de Sandren, mesmo sabendo que não poderia fazê-lo antes de ser apontado como seu mentor, mas há muito que ele havia reconhecido no jovem um promissor discípulo, talvez ainda mais capaz do que o pai havia sido. As últimas semanas ao lado dele lhe convenceram que suas escolhas haviam sido corretas, mas, apesar de sua fé em Midler, ainda havia lições a serem aprendidas, não pelo grande Paladino que ele seria, mas pelo homem que o jovem estava se tornando.
– Existem coisas que nem mesmo o maior de todos os reis pode comprar ou conquistar, não importando o tamanho de sua riqueza ou o poder de seus exércitos, mas que você mesmo conseguiu ainda neste dia, sem armas ou dinheiro – Midler se levantou, ouvindo Laertes lhe falar na voz tranquila que ele conhecia tão bem e que, por um momento, acreditou ter se perdido desde que eles atravessaram os portões da Cidade Alta – Não se pode cativar verdadeiramente o coração dos homens com estas coisas, pois lealdade não pode ser comprada e respeito não pode ser imposto. Laços criados pela ganância ou pelo peso de uma lâmina são rapidamente construídos, mas são extremamente frágeis, rompendo-se facilmente quando as moedas ou o poder mudam de mãos ou de propósito. Quando chegar o dia em que lhe couber a autoridade de um comandante, e este dia virá, não tenho dúvida, lembre-se que poderá sempre exigir que aqueles que o seguirem sejam justos, mesmo se não os tiver cativado, mas nunca poderá obrigá-los a fazer o bem, apenas por sua vontade. A bondade, mesmo que pudesse ser imposta pela força, não seria mais do que apenas outra forma de tirania – Laertes colocou gentilmente a mão no ombro de Midler – Você irá enfrentar batalhas em que nenhuma arma poderá lhe trazer a vitória e outras em que sua espada será seu único recurso. Nem mesmo os mais sábios podem discerni-las com facilidade, mas será seu papel fazê-lo e de mais ninguém. Por enquanto, quero que se empenhe apenas naquilo que está ao alcance de suas mãos, meu discípulo, e aceite o que ainda não está em seu poder mudar.
– Não devo então discutir com um simples soldado por aquilo que seu comandante deveria lhe ter ensinado com o devido valor? – Midler não pôde evitar um sutil sorriso, fruto do alívio que as suaves palavras de Laertes lhe trouxeram. O velho mentor sempre sabia o que devia dizer para animá-lo como ninguém mais podia fazer. Havia momentos, assim como este, em que Laertes se aproximava mais da figura de um pai para ele do que o próprio Télan – Os soldados que guardam os portões desta cidade estavam apenas cumprindo as ordens que lhes foram dadas, meu mentor. Ordens que talvez nem eles mesmo compreendam, pois são...
– Crianças! São apenas crianças inconsequentes e petulantes a quem foram dadas armas e responsabilidades grandes demais para seu próprio bem ou de qualquer outro que cruzar seu caminho! – Para Midler, estas palavras, tão exaltadas quanto as que fizeram o guardião tremer, pareciam sair de outros lábios que não os de seu mentor. Então, após um momento de silêncio e de um súbito franzir em sua testa, Laertes soltou uma alegre gargalhada, virando-se para Midler com um sorriso que ele jamais esqueceria, tão jovial e espontâneo quanto o de uma travessa criança – Nem mesmo o maior de todos os mentores da Torre de Marfim poderia ter sido mais oportuno ou incisivo do que você acabou de ser, meu querido Midler! – Laertes olhava carinhosamente para o jovem ao seu lado. Já havia aprendido a respeitar o honrado rapaz que ele sempre fora e o exímio discípulo em que havia se tornado, mas agora sentia que havia algo novo entre eles, uma admiração, quase como uma reverência, que não partia apenas do jovem, mas também do velho peregrino. A cada dia, Midler se assemelhava mais ao pai, e a mesma amizade entre discípulo e mentor voltava a nascer, como há muitos anos atrás, diminuindo a distância e a formalidade que o treinamento exigia, se alguma poderia ainda existir entre eles – Vamos, devemos nos apressar, legítimo filho de Sandren. A viagem é longa e, quando chegarmos, espero ainda poder me apresentar à sentinela dos Portões Dourados como seu mentor e não como seu humilde aprendiz – Laertes voltou a caminhar, agora tão levemente que parecia poder dispensar facilmente seu cajado.
Os dois passaram então sob um dos arcos que delimitavam a grande praça, seguindo o caminho que se dirigia para o nordeste. Midler se deteve por um momento para admirar os belos pilares daquele arco, parcialmente cobertas por uma fina relva avermelhada que os envolvia como um veludo quase tão delicado quanto o das vestes das nobres senhoras da cidade alta. Após elas, a estrada seguia sempre em frente, por entre grandes construções com largas portas e nenhuma janela, com soldados postados a sua frente em constante vigília. Ao fim daquela estrada, um extenso galpão era visível, construído cuidadosamente com grandes pedras claras e largas colunas de madeira escura, com suas altas chaminés a expelirem continuamente uma densa fumaça branca, que se dirigia preguiçosamente em curtas espirais para o sul, em direção às distantes praias do Oceano Esmeralda. “Estas devem ser as forjas do mestre ferreiro Tallamir, com certeza, cercadas pelos silos e depósitos da cidade alta”, pensava Midler, enquanto caminhava despreocupadamente ao lado de Laertes. Por trás dos armazéns, os sons de muitos cavalos guardados em longos estábulos chegavam aos seus ouvidos, vindos de algum lugar próximo ao grande muro. Para o leste, a grande catedral lhes dava as costas, com suas compridas torres que pareciam desafiar o céu em sua interminável ascensão projetando longas sombras pelo caminho que seguiam. Quando o sol se escondeu dos olhos do discípulo, por trás da torre negra, a escuridão que ela lançava lhe pareceu estranhamente densa, como se toda a luz do dia houvesse se apagado por um momento e o frio da noite o envolvesse, fazendo sua pele se eriçar. Ao deixar o manto de sombra para trás, sentindo novamente o calor do dia em seu corpo, todo o desconforto desapareceu, tão rapidamente quanto surgiu, como se este nunca houvera existido. Midler diminuiu suas passadas, voltando-se para Laertes enquanto apontava na direção da catedral, sentindo-se como se houvesse recém despertado de um confuso e inquietante sonho.
– Que lugar é aquele, meu mentor? A beleza e a forma desta igreja contrastam com tudo mais nesta cidade, como se não houvesse sido erguida pelas mesmas mãos.
Laertes virou a cabeça na direção das torres, trazendo a mão até os olhos ofuscados pelo sol que brilhava por trás delas. Após um silencioso sorriso, voltou a caminhar, fazendo um sinal para que ele o acompanhasse.
– Este é o maior templo dedicado a um deus tão antigo quanto à própria história dos homens e que sempre foi adorado pelos filhos destas terras, até onde seus contos mais antigos podem alcançar e ainda para muito antes disso. Esta é a catedral de Urm, o deus do equilíbrio, também conhecido por outros povos como Urain, o senhor da natureza ou Arnin, o sábio mediador. Se olhar com bastante cuidado, irá perceber que as belas linhas deste templo foram criadas para se assemelharem às curvas do grande rio que banha esta cidade e ao desenho das distantes montanhas ao norte, que são os maiores símbolos dos antigos habitantes destas terras. Ele foi erguido muitos anos depois desta colina já estar tomada por todas as outras construções que nos cercam, por homens sábios e cultos que prezavam a beleza e a simplicidade da forma muito acima da praticidade melancólica da guerra – um aceno de cabeça na direção do palácio completou a frase do mentor.
– Mas este deus serve a que propósito, meu mentor, ao bem ou ao mal? – Midler não conseguia afastar a lembrança do que sentiu ao passar pela sombra da torre.
– A ambos e a nenhum ao mesmo tempo – Laertes se voltou para observar a sobrancelha de seu discípulo se erguer alta em sua fronte, como sabia que aconteceria – Urm representa a eterna busca pelo equilíbrio entre forças que se opõem, como o dia e a noite, a luz e as trevas, o bem e o mal, não se tornando nem mestre nem servo de nenhuma delas. Eu já estive nesta grande catedral algumas vezes em minhas passagens por esta cidade, caminhando por seus corredores silenciosos e pelo grande salão de orações. Conversei longamente com alguns de seus clérigos, devotos e fiéis e posso lhe dizer que muitos dos princípios que ouvi verdadeiramente se aproximam das palavras de Baltur, enquanto tantos outros, infelizmente, os levam a caminhos muito, muito distantes.
– Então como podemos confiar em um deus tão ambíguo e dissonante? – as palavras de Laertes traziam pouco conforto ao discípulo. Midler nunca duvidara da sabedoria do mentor, mas o respeito e a admiração que percebia em sua voz o deixavam receoso.
– Assim como confiamos na própria natureza que nos cerca, meu jovem, pois a mesma árvore que nos dá a reconfortante sombra, as belas flores e os deliciosos frutos, contém em seu cerne uma imensa fonte de setas, flechas e lanças. O fogo que nos aquece e afasta a escuridão é o mesmo que nos fere e queima nossas casas. Mas, mesmo assim, a árvore e o fogo não são nossos inimigos nem servem ao bem ou ao mal, pois não há culpa ou um propósito único em sua existência. Apenas vemos aquele fim que nós mesmos lhes damos, segundo nossa vontade. Assim também é com o deus do equilíbrio e seus desígnios. Urm também não é nosso inimigo, nem se coloca voluntariamente contra nós, mas aqueles que interpretam seus ensinamentos segundo os próprios interesses, procurando apenas uma justificativa divina para atos indignos, podem se tornar nossos mais ferrenhos adversários, perigosos e traiçoeiros como poucos. Muitos os seguirão sem questionar o que dizem, por inocência, ignorância ou conveniência, disseminando ainda mais uma visão distorcida e equivocada de algo que é, em verdade, tão belo e verdadeiro. É contra estes que você deve se acautelar, acima de todos os outros.
Midler se calou, aceitando com um leve aceno de cabeça as palavras do mentor, mas sem encontrar nelas a costumeira tranqüilidade. Não queria prolongar ainda mais aquela conversa, temendo que suas objeções começassem a soar impertinentes ou tolas para Laertes, mas, mesmo reconhecendo que havia sabedoria no que ele lhe dizia, não conseguia compreender como o maior de todos os mentores de Sandren podia admirar uma filosofia tão incerta e inconstante como a de Urm. Midler nunca contestara a sensatez de Laertes, mesmo quando não compreendia totalmente o significado de suas palavras, mas, mesmo assim, não conseguia aliviar o desconforto que estas lhe trouxeram. As profundas linhas que se formaram em sua testa fizeram Laertes sorrir, consciente da inquietação que tomava seu discípulo. Continuando a caminhar, cruzou seu braço sobre os ombros de Midler, abraçando o jovem como a um velho e querido amigo.
– Aquiete seu coração e suas justas dúvidas, Midler, até que a experiência dos anos expresse mais claramente o que um singelo ancião não soube explicar a contento. Por enquanto, quero que abra bem os olhos e ouvidos, pois há mais para se ver e ouvir na breve companhia de homens como Tallamir do que em muitos meses de caminhada.
Midler sorriu, tentando, sem sucesso, transmitir ao seu mentor uma serenidade que não sentia naquele momento. Laertes apertou ainda mais seu braço sobre o jovem, batendo levemente a mão em seu ombro. E assim, abraçados como queridos companheiros, os dois chegaram às forjas do mestre ferreiro.
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