O Caminho de Sandren - Livro 1 (Caminhada)
8 A grande assembleia
08
Após as grandes portas, Calligan e seus acompanhantes seguiram por um curto corredor, onde diversas tapeçarias adornadas com fios de prata e ouro pendiam enfileiradas muito acima, presas a grandes armações de metal, refletindo a luz das tochas que os pajens carregavam. Ali estavam representados os oito Grão-Diplomatas de Nyothar que haviam comandado a Grande Assembleia antes de Calligan. Mesmo Ephendias, que a assumira por menos de um mês e tornou-se conhecido como “Efêmero”, também estava ali representado, imortalizado em um fino bordado e trajando o manto azul que nunca usara em vida. Sob a bruxuleante luz do fogo, antigos olhos inquisidores pareciam acompanhar os passos da pequena comitiva, como testemunhas silenciosas de todas as mudanças que os últimos anos haviam trazido desde que um graeldara assumiu, pela primeira vez, o mesmo título que eles usaram, em nome de Nyothar e de seus imperadores.
O corredor terminava em uma larga sacada, sob a qual um grande cômodo se abria, cruzando todos os cinco andares do palácio, desde as fundações até a grande abóbada de vidro e cristal, poucos metros acima de onde estavam, onde um grande mosaico colorido formava um mapa de toda Graeldar, através do qual a luz do sol penetrava e se difundia em suaves tons. Finos arcos brancos se cruzavam na parte mais alta, sustentando o delicado teto, enquanto longas flâmulas tingidas com o mesmo tom azulado das vestes de Calligan e das águas do rio Lorun pendiam pelas laterais da sacada.
A assembléia fora toda construída com as pedras retiradas do interior das distantes montanhas do oeste, em um tom entre o azul e o branco, com a mesma forma de uma Vicetin, a flor mais comum de Graeldar, cujas pétalas levemente curvadas formando uma copa larga e uma base estreita. Assim também era o grande salão, com a parte mais alta com mais de três vezes o diâmetro de seu piso, com diversas sacadas a brotarem das paredes em grandes círculos inclinados que se cruzavam. Estas sacadas, já ocupadas por diversos diplomatas de outras nações e pelos lordes regentes dos feudos, estavam abaixo da sacada maior, onde Calligan se encontrava. Em frente ao Grão-Diplomata, do outro lado da câmara, duas outras sacadas, de igual tamanho, também se destacavam. Estavam com o brasão de Nyothar, o grande dragão negro, a cair pelo parapeito e grandes cadeiras aveludadas podiam ser vistas no claro interior. Em uma delas, Vyérdran aguardava, com um conselheiro de cada lado, tendo seus soldados às costas.
Uligan procurava prestar atenção a tudo que via, tentando não demonstrar surpresa com a beleza do Grande Salão de Caendlia, enquanto acompanhava o avô até a murada da sacada, onde Calligan se sentou em uma alta cadeira de madeira clara, passando-lhe o cetro e fazendo um sinal para que ajoelhasse ao seu lado, em uma larga almofada. Oehl permaneceu de pé, logo atrás do diplomata, aguardando suas instruções. Após se acomodar, Calligan fez um aceno com a cabeça na direção do orador, que havia se dirigido para a grande sacada vazia e permanecia de pé, ao lado do modesto trono que Jaendor II usava quando participava da assembléia.
Rewen, como ditava o protocolo, começou apresentando todos os diplomatas e lordes regentes presentes à assembleia, em muitas línguas, com uma fluência impecável. Falava devagar, sem elevar sua voz, que podia ser claramente ouvida por todos os presentes, ecoando levemente nas claras paredes. Uligan se surpreendeu ao ouvir apenas quatro nomes graeldaras entre todos os dirigentes dos feudos, mas se manteve calado, apesar de profundamente irritado. Quando as apresentações terminaram e a um sinal de Vyérdran, diplomatas e representantes dos lordes regentes começaram a discutir como deveriam dividir os estoques de grãos que se encontravam em Marahin e nos portos de Caendlia, prontos para serem embarcados, cada um apresentando seus argumentos e necessidades, sempre maiores que as do antecessor. As sempre férteis terras de Graeldar haviam sido especialmente generosas naquele ano e o que os nyotharins não conseguiram levar em seus navios e nas grandes carroças que já cruzavam a longa estrada que cortava os vales esmeraldas de Solirphen, as últimas terras antes do império de Nyothar, era agora disputado pelas abundantes moedas de estrangeiros e pelos apelos à justiça dos poucos graeldaras presentes, que só os ouvidos de Calligan pareciam escutar, intervindo por eles, com o chanceler sempre a contrariá-lo. A paciência de Uligan com o que via rapidamente se esgotava, até que não conseguiu mais se conter.
– Não compreendo por que me trouxe a este lugar, meu avô. Eu ainda não consigo perceber a importância que esta assembleia pode ter para nós. Tudo o que vejo são comerciantes vestidos como diplomatas, negociando as migalhas que não nos foram ainda roubadas. Toda esta encenação serve apenas ao propósito de decidir como irão dividir o que conseguem tirar de nossas terras e o quanto terão de pagar por isto, como acontece em qualquer mercado nyotharin, enquanto nossos irmãos, que insistem em vir aqui carregando em seus bolsos nada mais que seu esquecido direito de nascença, sequer têm as súplicas consideradas e são obrigados a se contentar com isto.
Calligan virou-se na cadeira para olhar dentro dos vívidos olhos castanhos do neto, encontrando neles o mesmo olhar de antes, a queimar profundamente. Aproximando-se dele, falou-lhe tão discretamente quanto podia.
– Nada é tão simples quanto parece, Uligan, nunca o é. Aqui, esta verdade é ainda maior do que em qualquer outro lugar. Nossos olhos não conseguem ver a verdade que sempre se esconde por trás daquilo que nos é permitido ver. Veja – Calligan fez um pequeno movimento com a mão, referindo-se a toda assembleia – Este não é um simples salão, mas uma dura arena, e estes não são diplomatas, mas guerreiros inclementes e desleais. Neste combate que travamos, as vítimas estão distantes destas paredes e nos são, quase sempre, desconhecidas, mas existem, sofrem e morrem por aquilo que dizemos ou deixamos de dizer, e é por isso você deve sempre estar atento para tentar ouvir até mesmo os breves sussurros de uma conversa silenciosa. Nossas palavras podem causar mais dano do que qualquer espada ou trazer mais alívio que nossas maiores preces. O inverno não se encontra distante e se nos recusarmos a vir, para tentar recuperar aquilo que é nosso por direito, muitos morrerão de frio e fome em nossos feudos antes dele chegar.
– Mas vejo somente quatro comitivas nossas! – a voz de Uligan estava um pouco mais alta do que Calligan consideraria prudente.
– Lembre-se que muitos não veem a regência dos nyotharins sobre eles como uma escravidão disfarçada. Estão satisfeitos ou apenas resignados com o que conseguem obter de seus zelosos mestres. Você é filho de um regente, Uligan, mas mesmo que consiga convencer seu pai a recusar-se a enviar suas colheitas aos cofres de Nyothar, nenhum outro regente o acompanhará e muitos irão sofrer e morrer nas terras dos Baspoquin, sob as lâminas e a justiça imperial do segundo Jaendor.
Calligan estranhou o pesado silêncio que encontrou na assembléia após suas palavras, pois tinha certeza de que elas não foram ouvidas por ninguém além daqueles que estavam com ele. Erguendo as grandes sobrancelhas, olhou na direção do orador, apenas para encontrar os olhos de Rewen voltados para ele, em sinal de indignação pela desatenção do diplomata ao que havia dito. O rosto de Calligan passou a demonstrar uma tranquilidade que não sentia, percebendo, sem se virar, que os olhos de Vyérdran estavam sobre ele, a desafiá-lo. O chanceler sempre estava à espera de um erro, de um sinal de fraqueza do clérigo, para então contestar sua capacidade de comandar a assembleia, devido à idade avançada. Calligan baixou levemente a cabeça, como se pensasse sobre a resposta para a pergunta que o orador teria lhe feito. Em verdade, observava as outras sacadas, tentando descobrir o que teria de dizer agora, mas apenas encontrou olhares inquisidores em sua direção, principalmente dos graeldaras, o que aumentava ainda mais sua angústia, pois podia perceber que era de grande interesse deles o que deveria decidir. A voz de Oehl soou quase imperceptível por trás da cadeira.
– Os mais ao sul do porto me parecem os mais apropriados, orador. Que sejam enviados sem demora então, com o consentimento já oferecido pelo rei Jaendor. E com isso, acredito que este assunto esteja encerrado. Que se façam as ordens e se iniciem os preparativos.
Calligan repetiu as palavras com convicção, mesmo sem conseguir compreender o que dizia ou calar o receio dentro de si. Não duvidava das intenções dele, mas Oehl nunca estivera na assembleia e não tinha experiência com diplomacia ou com as armadilhas do chanceler. O clérigo podia apenas orar silenciosamente a Urm para que seu descuido não prejudicasse os graeldaras, mas a expressão de descontentamento no rosto de Vyérdran lhe mostrava que as palavras repetidas haviam frustrado imensamente o chanceler. Mas ele também podia ver, nos rostos desanimados com que os graeldaras ditavam as ordens aos seus escribas, que havia alguma coisa errada com aquela decisão.
– Desculpe-me, meu avô. Os Mestres estavam certos quanto ao receio de que eu o acompanhasse – Uligan mantinha os olhos baixos, observando as sacadas de seu povo e tentando imaginar o quanto sua impetuosidade poderia ter lhes custado.
– Tanto quanto eu estava certo de que estava velho demais para me deixar ser pego desta maneira, como um incauto e inepto aprendiz. Também fui impulsivo em lhe falar naquele momento e por tanto tempo. Não, Uligan, se você deve se desculpar comigo ou com os Mestres, eu devo me desculpar com toda Graeldar pelo que poderia ter acontecido aqui, mas, para nossa fortuna e felicidade, um atento e sagaz amigo estava aqui conosco – virou-se para Oehl sorrindo, tentando não demonstrar a grande preocupação que sentia – E qual era o assunto que eu encerrei com tanta propriedade, meu jovem diplomata?
– O chanceler percebeu que você estava desatento, Calligan, e ordenou ao orador que lhe perguntasse se não gostaria de escolher os silos que deveriam ser entregues aos graeldaras, pois confiava totalmente em sua grande sabedoria e Nyothar iria acatar qualquer decisão que tomasse, em respeito a sua experiência e aos filhos desta terra. Estou certo que as palavras soaram a todos como uma cordial reverência ao líder da assembleia, mas eram, em verdade, uma armadilha, onde ele procurou desmoralizá-lo frente aos seus regentes. Se não optasse por nenhum dos silos, apenas o pouco que sobrasse após todas as vendas, se houvesse alguma sobra, iria para os feudos.
Calligan pensou durante um momento sobre as palavras de Oehl, não gostando de onde seus pensamentos o estavam levando.
– Mas os silos ao sul do porto são os mais distantes das estradas, sendo raramente utilizados. São os últimos a serem preenchidos, quando são sequer usados, e nunca ficam completamente cheios! – este era então o motivo do desânimo dos regentes graeldaras. Eles acreditavam, assim como Calligan, que não haveria nestes silos grãos suficientes para alimentar seu povo durante todo o inverno.
Oehl sorria maliciosamente.
– Seus campos produziram mais do que era de se esperar, Calligan, e as últimas remessas de grãos acabaram de chegar a Caendlia, pois vi as grandes carroças, abarrotadas da carga mais fresca possível, cruzando os portões nesta manhã, seguindo para o sul do porto. Os outros silos já devem estar cheios há algumas semanas, quando a colheita dos campos mais próximos se iniciou, e já aguardaram por um tempo demasiadamente longo pelos grandes navios do sul, que apenas começaram a chegar. Muitos destes grãos já não devem servir, pois bem sabe como os ratos e as aves do porto apreciam aqueles velhos depósitos, transformando-os em suas moradas nesta época. Por serem raramente usados, os silos do sul não são por eles procurados. Os outros compradores terão os maiores estoques a sua disposição, é verdade, mas todos aqueles que os graeldaras levarão para os feudos estarão frescos e prontos para partir de imediato, pois as carroças não devem ter sido ainda descarregadas.
As feições preocupadas de Calligan já haviam abandonado seu rosto antes mesmo de Oehl terminar e ele agora sorria alegremente.
– Não sabe como me deixa cada vez mais orgulhoso de ti, meu querido amigo. Há lições a serem aprendidas aqui, mesmo por alguém que já viu muito em seus longos anos. Felizmente, a sabedoria não é um privilégio apenas de senhores de poucos cabelos e muitas rugas. Todos nós temos muito que aprender ainda, mesmo sobre aquilo que julgamos conhecer tão bem, e não tenho mais dúvidas de que foi Urm quem protegeu Yezmerin durante sua árdua jornada e a trouxe até nós. De hoje em diante, Oehl Gamgliff, você será o Conselheiro de Graeldar, com as minhas bênçãos!
A assembleia prosseguiu, com os graeldaras apenas a observar como ela se transformava rapidamente em um grande mercado, onde os elaborados argumentos dos diplomatas perdiam a importância, sendo substituídos sem demora pelo tilintar das moedas nas bolsas dos mercadores. Uligan procurava não se lembrar de que eram os frutos da terra de seu povo que estavam sendo vendidos por aqueles que os usurparam, e que nenhuma daquelas riquezas chegaria aos cofres dos graeldaras. Olhava em volta, procurando outra coisa em que se concentrar, mas a assembleia havia se tornado ainda mais desinteressante e aborrecida para ele. Virou-se para o avô, percebendo que Calligan permanecia em silêncio, a olhar discretamente para o outro lado da câmara, vagarosamente passando a mão pelo queixo.
Acompanhando seu olhar, Uligan viu um velho diplomata sentado em uma larga cadeira reclinada, em uma das sacadas mais abaixo, do lado oposto do salão, onde o brasão do reino de Thimeran, um grande tomo aberto, era visível. Este era o embaixador do povo que dominava as vastas planícies ao norte das Montanhas do Gigante, uma terra de sábios mestres de todas as artes e experientes alquimistas. As vestes escuras eram largas e compridas, deixando apenas as mãos à mostra, que terminavam em longos e finos dedos, onde uma pele muito ressecada cobria quase nenhuma carne. O rosto mais se assemelhava a uma rígida máscara, cujas feições já haviam desaparecido entre as profundas marcas da longa passagem dos anos. Não fosse pelo sutil movimento dos inexpressivos olhos, a acompanharem as discussões dos outros membros da assembleia, Uligan acreditaria que ele há muito já havia morrido, pois não se percebia nem mesmo o menor movimento do seu peito a respirar.
– Quem é aquele?
Calligan manteve o olhar naquela direção, respondendo numa voz muito baixa, com as palavras a lhe saírem pelo canto da boca.
– Aquele já foi Dhoul Amuir, o melhor embaixador que Thimeran já teve e um bom amigo. Foi através de sua influência nesta assembleia, há dez anos, que cheguei à posição que hoje ocupo. Três anos atrás, ele se retirou de nossa presença e voltou para sua amada cidade de Dalaras, onde a paz e a tranquilidade que só podem ser encontradas naquelas terras abençoadas fazem os dias passarem devagar e os homens viverem mais e melhor, para descansar e dar lugar aos mais jovens e lúcidos, como ele mesmo me disse quando se despediu com um sorriso – Calligan fez uma pausa, enquanto a alegre lembrança passava em frente aos olhos, para então se desvanecer – Ele retornou há poucas semanas à cadeira em que está, sem nos dar as explicações que não podemos exigir, permanecendo calado a maior parte do tempo, em nada lembrando o grande diplomata que aprendi a admirar e respeitar ao longo de muitos anos. Ele quase não se mantém ereto pelas próprias forças, como se fosse agora nada mais que uma casca vazia, uma imagem distorcida do grande homem que um dia foi. Até seus olhos, que possuíam uma força capaz de vencer qualquer discussão e a convencer o mais teimoso dos homens com um único olhar, perderam todo o brilho que já tiveram. Pesa-me o coração rever este homem assim.
– E não foi ter com ele para saber o que aconteceu? – Uligan podia facilmente perceber que havia mais do que apenas preocupação nas palavras de Calligan. Havia uma profunda tristeza que nem mesmo o Grão-Diplomata conseguia disfarçar.
– Eu o procurei no dia que soube de sua chegada, para alegremente dar-lhe as boas vindas, mas agora me arrependo de tê-lo feito. Seus pensamentos parecem estar ainda mais lúcidos do que antes, se isto for possível, atento a cada palavra e gesto ao redor, mas não há mais nenhuma emoção em sua voz, apenas palavras frias e vazias, como se aquelas fossem as memórias de outro homem, um homem que não desejo conhecer. Não posso imaginar o que poderia ter se abatido sobre ele para deixá-lo assim, mas com certeza, há alguma força perversa em ação aqui. Algo naquele nobre coração mudou ou foi mudado, como se este tivesse morrido há muito tempo, mas o corpo se recusasse a acompanhá-lo, ou fosse impedido de fazê-lo. Muitas de minhas últimas preces a Urm foram em seu nome, mas me parece que nem mesmo nosso deus possui as respostas ou o consolo que procuro neste momento e isso muito me preocupa.
– Há algo mais que me intriga em tudo isso, Calligan – Oehl havia se colocado ao lado do velho clérigo e também mantinha os olhos fixos na sacada do embaixador Dhoul Amuir, alheio a desordem de vozes e valores que agora reinava sob eles – Por que o reino de Thimeran estaria tão interessado na venda das safras de Graeldar, a ponto de enviar uma delegação completa de diplomatas e adidos para esta assembleia, mas sem demonstrar qualquer interesse na compra de seus grãos, sem fazer ofertas ou contestar as dos outros reinos? Posso ver que não há nenhum mercador ou comerciante a acompanhá-los e estamos agora tão próximos ao inverno que a estrada que passa pela Garganta do Gigante já não deve permitir que grandes carroças a transponham com facilidade.
O Grão-Diplomata inspirou profundamente, cerrando as grossas sobrancelhas, atento às sábias palavras do amigo. Realmente não havia nenhum dos membros da comitiva de Thimeran a participar do caótico leilão em que a assembleia havia se transformado.
– Já havia percebido a apatia deles por qualquer assunto aqui tratado, Oehl, mas não com tanta profundidade. Você está certo, não foram os grãos desta terra que os trouxeram aqui, mas o que então? Os olhos deles me parecem alheios a tudo que acontece.
– Nem todos os olhos daquela comitiva estão desatentos, Calligan. Quem é aquela estranha que os acompanha, escondida atrás do embaixador de Thimeran? Posso ver que ela não é nativa daquelas terras.
Oehl se referia a uma pequena mulher trajando um escuro manto sem quaisquer adornos, que se mantinha coberta pela sombra da grande cadeira de Dhoul Amuir. Mesmo com o pesado capuz que lhe cobria a cabeça, os grandes e irrequietos olhos claros como a manhã pareciam refletir fortemente a pouca luz que chegava até eles, enquanto corriam rapidamente por toda parte, procurando observar cada detalhe do que acontecia. O pouco que se conseguia ver de seu rosto possuía um tom tão pálido que não parecia natural e os lábios também eram os únicos a se moverem discretamente naquela sacada, mas nem mesmo Oehl podia reconhecer nenhuma das estranhas palavras que conseguia ler neles.
– Tudo que consegui descobrir, meu sábio conselheiro, com grande dificuldade, devo dizer, é que ela é chamada de N’jarin e tem estado ao lado de Dhoul desde que saíram de Thimeran. Mesmo os outros acompanhantes da comitiva nada sabem sobre esta mulher ou da função exercida junto ao embaixador, apenas que somente à ela é permitido o acesso irrestrito aos seus aposentos privados e que raramente é vista fora deles. O restante da história me é totalmente desconhecido, assim como a terra de onde se originam seus traços, pois não me recordo de tê-los visto antes. Há uma exótica beleza em seu rosto, mas quase perturbadora. Ela tem se mantido à parte de tudo e de todos, discreta demais até mesmo para uma diplomata, que não creio ser o seu papel entre os thimeranos. Quando fui ter com o embaixador, ela permaneceu em silêncio ajoelhada ao seu lado, mas os olhos esbranquiçados se mantiveram todo o tempo sobre mim, causando-me um desconforto que até então não havia sentido. Pelo que pude perceber do pouco que me disseram, a vontade dela é muito forte e as palavras, sedutoras, conseguindo dobrar facilmente todos ao redor, mas não me pareceu haver nada além disso, ao menos não o que esperava encontrar. Conheci o suficiente do homem que Dhoul Amuir costumava ser para saber que ele não se deixaria iludir facilmente apenas pelas belas palavras de uma linda mulher. Tenho certeza de que muito mais foi necessário para deixá-lo assim.
Oehl revirou seus olhos por um momento, atrás de pálpebras bem fechadas, como sempre fazia quando buscava fervorosamente por algo quase esquecido na vastidão de sua mente.
– Se me recordo bem, os registros narram uma ocasião, dez anos antes de sua elevação, Calligan, em que um pequeno grupo de estranhos homens aqui esteve, poucos e despreparados demais para serem chamados de uma comitiva, ainda durante a estada do primeiro Jaendor – aqueles que cresciam conhecendo os preceitos da Ordem de Hilnos jamais se referiam ao período após a destruição de Marelvian como um reinado, apesar de haver desde então um trono e um rei em Caendlia – Eram homens pequenos e calvos, com pele alva e vestimentas escuras, de olhos quase brancos como se fossem cegos e que falavam entre si em um estranho dialeto que não era comum a nenhuma das terras conhecidas, apesar de falarem fluentemente com todas as delegações que encontraram, e as procuraram a todas, sendo recebidos até mesmo pelo Falso-Filho – a referência sussurrada à condição de Jaendor era comum entre os que ainda se lembravam da história de sua coroação.
Calligan virou-se para seu conselheiro, esforçando-se sem sucesso para não demostrar a surpresa que sentia. Há muito que o patriarca sabia que Oehl deveria conhecer os registros das antigas assembleias melhor do que aqueles que os escreveram, pelo tanto que os lia em noites insones, mas os acontecimentos a que se referia haviam ocorrido há mais de trinta anos e não passavam de uma pequena nota em algum poeirento tomo esquecido.
– O Mestre Escriba à época, Calephus, autor destes escritos, – Oehl continuou em uma voz baixa, apesar do grande tumulto abaixo – fora até os estábulos da cidade em busca das respostas que não possuía e fez notar que, através da sujeira que impregnava as patas e o grosso pelo de suas estranhas montarias, ressecados e pequenos camelos de um tom acobreado que nunca vira, eles deveriam ter cruzado o Grande Deserto Vermelho por muitos dias antes de chegar a estas terras. Como nunca houve nenhuma cidade ou vila conhecida naquela direção, nem mesmo o menor dos assentamentos jamais fora encontrado naquela inóspita região, pelo menos até onde alcançam nossos mapas e os mais tolos ousaram ir e conseguiram retornar, posso apenas concluir que sua origem seria algum lugar para além do Mar de Areia, em terras ainda desconhecidas para nós.
– O que mais o atento Mestre Calephus nos deixou, sábio conselheiro? – Calligan usava o mesmo tom de Oehl, mantendo os olhos atentos ao balcão onde estava a comitiva de Thimeran – Alguma advertência ou aviso?
– Não, apenas a frustração por não conseguir descobrir o que eles queriam, assim como nenhum dos outros diplomatas o fez. E o tempo para isso rapidamente lhes escapara. Um dia depois de sua chegada, os estranhos homens desapareceram de Caendlia como se nunca houvessem aqui chegado. Seus aposentos foram encontrados vazios e intactos, também assim estavam as baias de seus camelos, sem que os que ali trabalhavam soubessem dizer o que acontecera. Houve apenas rumores de sombras em pequenas montarias sumindo à distância ao amanhecer, para noroeste, em direção às distantes montanhas sem estradas ou travessias e para o deserto muito além delas.
De onde estava, Uligan não conseguia ver aquela estranha mulher A grande cadeira de Dhoul Amuir a encobria totalmente e ele não queria se mover para não chamar atenção para si. Mantinha-se atento à conversa entre Oehl e Calligan, tentando imaginar como ela deveria ser.
– Devemos ficar atentos a esta mulher, meu avô, e nos prepararmos. Não acredito que ela irá se manter impassível por muito mais tempo. Furtiva como se mostra, ela poderia ter permanecido escondida nas sombras da comitiva, sem vir à assembleia, mas preferiu se mostrar sem disfarces à frente de todos. Quaisquer que sejam seus interesses, estes não devem demorar a se revelar.
Calligan virou-se para Oehl, questionando com os olhos a opinião do conselheiro, que acenou levemente com a cabeça, concordando com as palavras de Uligan. O velho clérigo se recostou em sua grande cadeira e cruzou as mãos em frente ao rosto, pensando no que deveria fazer, quando seus olhos se voltaram uma vez mais para a sacada dos thimeranos, como se atraídos por alguma força invisível. Lá, eles encontraram o cativante e profundo olhar de N’jarin caindo sobre ele, poderoso e branco como uma avalanche que tentava traga-lo por completo. Sentia como se ela tentasse sondar sua mente, procurando descobrir seus pensamentos mais secretos. Calligan procurou evitar os olhos dela, fechando os seus e apoiando a testa nas mãos. Não conseguia explicar o que sentia sob aquele olhar, mas era algo mais do que desconforto, quase como uma invasão, que ele se esforçava em repelir. Deixando escapar um longo suspiro, tocou suavemente o ombro de seu neto, falando-lhe sem olhar na direção daquela estranha mulher, como se receasse que ela pudesse ler em seus olhos as palavras que dizia.
– É provável que ela movimente suas peças em breve como bem disse, Uligan, mas não temos esta certeza e não podemos esperar indefinidamente que ela se apresente. Lembre-se do que lhe disse. Descobrir a verdade aqui é como perseguir sombras na escuridão. Você sabe que elas estão lá, mas não pode vê-las, até que se descerrem as cortinas e a luz se faça presente. Não confie apenas no que vê, não seja enganado por seus olhos. Se esperarmos que o véu que foi colocado em frente a eles seja levantado, com toda certeza já será demasiado tarde para nós – Calligan recostou-se então na alta cadeira e retesou o corpo, sentindo os velhos ossos se queixarem do tempo que estavam naquela posição – Não, meus queridos, não podemos esperar mais, mas este não é o lugar para tratarmos de um assunto como este.
Calligan levantou-se, erguendo alta a mão direita na direção do orador, que prontamente fez soar uma pequena corneta prateada que trazia consigo. Um límpido e grave tom ecoou brevemente pelas paredes do Grande Salão, ao que todos se calaram. O Grão-Diplomata inspirou profundamente e se dirigiu a Vyérdran em uma voz decidida.
– Creio que os assuntos ainda inacabados podem prosseguir sem a minha presença. Deixo-a agora ao seu comando, sábio e justo chanceler de Nyothar. Fiquem todos com as bênçãos dos filhos desta bela terra.
Uligan observava com grande prazer o nyotharin se submeter, ainda que relutantemente, à autoridade do avô, o líder dos verdadeiros senhores de Graeldar. O olhar de ira quase incontida no rosto do chanceler já não o assustava. Ele o fazia sentir-se quase vingado, apesar de saber que esta era apenas uma pequena vitória, insignificante comparada às dificuldades que seu povo enfrentava. O jovem começava então a compreender que a importância que o avô dava àquela assembleia era merecida. Percebeu pela primeira vez que havia um poder nesta sala que não podia ser facilmente mensurado ou controlado e isso começava a fasciná-lo. Não fosse pela clara voz de Calligan a chamá-lo, teria permanecido ajoelhado naquela almofada por muito mais tempo, olhando desafiadoramente para o chanceler.
Quando as grandes portas escuras se fecharam atrás deles, Calligan levantou a cabeça e deixou escapar um longo suspiro, como se houvesse deixado um grande peso para trás. Sentia-se aliviado por ter se afastado do perturbador olhar branco de N’jarin, mas seu rosto continuava a expressar a inquietação que sentia. Quando os pajens se afastaram, fez um sinal em direção aos Feldaen para que se aproximassem, enquanto trazia seus dois acompanhantes para perto de si e lhes falou tão baixo quanto podia.
– Há muito tempo aprendi a dar ouvidos a uma voz que tenho dentro de mim, uma fiel aliança entre a minha intuição e a experiência que adquiri ao longo de todos estes longos anos, e esta agora me diz repetidamente que, tanto pelo bem de Graeldar quanto de Thimeran, devemos buscar as respostas para este mistério, mas tenho certeza de que não as encontraremos nesta cidade. Não posso me ausentar de Caendlia sem levantar suspeitas, pois é sobre mim que a nova conselheira de Dhoul Amuir mantém seu olhar, aguardando apenas por um leve descuido meu, um momento de fraqueza, para tentar me seduzir com ele, como fez com o próprio embaixador. Por isso, quero que você vá a Thimeran em meu nome, Uligan, e procure por um homem que conheço naquelas terras, na cidade de Nosrin – Calligan aguardou que alguns serviçais passassem por eles antes de continuar, pronunciando o nome com um cuidado ainda maior – Ele é Falmos Vieljean, uma pessoa muito difícil de se encontrar e mais ainda de se confiar, mas é também um dos melhores mercadores de informações que ainda vive, em um lugar onde não existem segredos que não possam ser comprados ou descobertos. Se ele não possuir as respostas que buscamos, ou não souber como obtê-las, não sei de ninguém mais que o possa. E quanto a você, Oehl Gamgliff, sei que retornou há pouco de Caledhorn, mas gostaria que o acompanhasse de volta àquelas terras, pois tenho certeza que ele irá precisar muito de um amigo leal ao seu lado, além de bons e sábios conselhos, antes disto tudo terminar.
– Não duvide nem por um momento que eu iria com seu neto ao encontro de minha inevitável morte, Grão-Diplomata, mesmo que me ordenasse a permanecer aqui. E se tentasse me forçar a ficar, nem todos os Feldaen sob seu comando poderiam me impedir de seguir minha consciência.
– Não, meu querido conselheiro – rapidamente, um conhecido sorriso voltou a iluminar o rosto do velho clérigo, enquanto colocava sua mão no ombro de Oehl, detendo-se para admirar o belo rosto dourado do amigo. Apesar do tom quase jocoso na voz dele, Calligan podia ver a veracidade daquelas palavras em seus olhos e em seu coração – Bem sei que seria impossível obrigá-lo a fazer algo que não quisesse e desconheço força neste mundo capaz de fazê-lo. Por esta dedicação, filho de Yezmerin, sou-lhe eternamente grato.
A um sinal de Calligan, eles retomaram a caminhada de volta aos seus aposentos, enquanto o Grão-Diplomata cumprimentava alegremente a todos que encontrava nos corredores do palácio. Oehl seguia ao seu lado, discutindo discretamente com ele sobre os acontecimentos da assembleia e o que deveriam fazer para enviar prontamente os grãos para os feudos, enquanto escrevia agilmente as palavras do patriarca em um pergaminho que puxara de suas longas mangas. Uligan seguia alguns passos para trás, absorto em pensamentos mais distantes, sem interesse ou paciência para a logística de estradas, carroções de carga e animais de tração. A mera sugestão de que poderia ter uma participação ativa nos assuntos dos graeldaras já seria mais do que suficiente para deixá-lo entusiasmado e a certeza disto era quase inebriante. Havia se preparado e esperado por uma oportunidade como esta durante toda a vida e sentia-se pronto como nunca mais poderia estar.
De repente, o clérigo sentiu como se uma presença incômoda se fizesse sentir atrás dele, chamando-lhe em uma suave voz que apenas seus ouvidos podiam escutar, mas que lhe fazia sentir um momentâneo frio invernal a descer por suas costas. Deteve-se por um momento, aparentando estar distraído pelos desenhos de infinitos campos verdes em um alto vitral, permitindo que os Feldaen passassem por ele em uma retumbante cadência de pedra e metal e aguardou, atento a esta voz. Ela voltou a lhe sussurrar, mais próxima agora, a ressoar suavemente dentro de sua cabeça, abafando todos os outros sons. Os passos dos soldados pareciam ecoar já muito distantes quando ele se virou devagar, percebendo os pelos de seu corpo se eriçarem, como se o ar a sua volta subitamente se resfriasse. Seus olhos se moviam independentes de sua vontade, atraídos por alguma força que ele não podia resistir, até se encontrarem com dois outros, grandes e pálidos, ao lado das portas que conduziam ao salão da assembleia.
Apesar da considerável distância que os separava, Uligan podia vê-los tão claramente como se estivessem sobre ele, absolutos, quase sufocantes. Todas as cores com as quais o final daquela bela manhã iluminava o corredor através dos vitrais coloridos rapidamente derreteram em tons cinzentos, deixando apenas um clarão alvo em seu lugar, até que ele não conseguiu enxergar mais nada para além daqueles olhos onipresentes. Ele sentia que havia alguém dentro de sua mente, perscrutando seus pensamentos mais profundos, lendo-o como a um livro. Houve um momento de um branco absoluto, como se todas as cores houvessem desaparecido do mundo, então ele voltou a enxergar formas difusas que rapidamente tomavam forma.
Com olhos que não eram seus, viu uma longa estrada de pedra sob os pés, que se espremia entre a rocha e a neve, descendo continuamente até uma extensa planície muito abaixo. Ele não sentia as pernas, nem nenhuma parte do corpo, mas começou a se mover, não por sua vontade. Parecia haver luz do dia, mas não conseguia ver o sol em um céu obscurecido por uma densa fumaça, sem saber em que direção rumava. Viajava rapidamente por esta estrada e por tantos outros caminhos tortuosos que pareciam dela brotar, levado pela velocidade de um pensamento, até uma escura cidade que nunca vira antes, protegida por altos muros. Os grandes portões enferrujados e de uma madeira carcomida estavam fortemente fechados, como as mandíbulas de um animal feroz, com fogo a ser cuspido muito acima do topo das elevadas torres que o flanqueavam. Finos rios rubros escorriam das muitas fendas ao longo da muralha, como longos filetes de sangue fresco a brotar de ferimentos abertos. Muitas sentinelas inumanas estavam postadas sobre ela, com arcos e bestas preparados, aguardando impacientemente por uma ordem de seu comandante, uma figura alta e sinistra, envolto em uma longa capa de um grosso couro enegrecido, a fitar o vale abaixo de um largo parapeito sobre os portões. Seu alvo olhar, igual ao que havia lançado o clérigo neste pesadelo desperto, parecia poder atravessar seu corpo, dando-lhe claramente a certeza que não era bem vindo, mas ele não conseguia afastar-se daquela sombria cidade, continuando a ser impelido contra ela pela mesma força que o trouxera até ali. Então, sem aviso, inúmeras flechas e setas caíram sobre ele, como uma pesada chuva que enegreceu por completo o escuro céu, arrancando de sua pele lacerada um sangue grosso e escuro que não era seu e que escorria por todo o corpo, cobrindo-lhe até os olhos. Ele levou as mãos ao rosto, mas as deteve ao ver uma carne apodrecida a brotar sob a pele rasgada, que rapidamente se separava dos ossos escurecidos. A força que o impulsionara desapareceu sem aviso e suas pernas pareceram ruir sob um peso sem fim. Caindo no chão poeirento, um grito de dor morreu em sua garganta, juntamente com o resto do corpo.
O forte aperto da mão de Oehl em seu braço conseguiu despertá-lo, como se o livrasse do feitiço que aqueles olhos haviam colocado sobre ele. Ainda assim, Uligan levou alguns segundos para perceber que ainda estava vivo e de volta aos claros corredores de Caendlia, que não havia realmente saído dali. Ele conseguia ver seu amigo a lhe chamar, assim como o brilho de um sol esverdeado que vinha por trás dele, mas a voz e o calor que tanto desejava naquele momento pareciam vir de muito longe. Oehl sacudiu-o com ainda mais força e os olhos do clérigo voltaram a se avivar. Enquanto seus sentidos lentamente retornavam, despertando de um profundo torpor, as recordações da visão que tivera desapareciam, ficando apenas uma vaga lembrança no fundo de sua mente, imprecisa como um distante sonho. Ao olhar novamente na direção em que ouvira aquela voz, encontrou apenas as portas abertas do Grande Salão, com as diversas comitivas a saírem devagar, ao que Uligan expirou profundamente, aliviado. Por mais que se esforçasse, não conseguia recordar o que deveria encontrar próximo àquelas portas, mas estava certamente grato por não fazê-lo.
– O que houve? Está pálido como se houvesse visto... – Oehl calou-se, ao sentir que as mãos de seu amigo estavam tão gélidas quanto às de um cadáver. Ele podia ver nos olhos de Uligan um resquício do medo que sentira a desaparecer.
– A própria morte? – as palavras saíram dos lábios do clérigo sem que fizessem sentido para ele. Não sabia o que o motivara a dizer aquilo, mas não pôde evitá-las. Uligan ergueu o corpo dobrado e sacudiu a cabeça, procurando colocar seus pensamentos em ordem, sentindo um último calafrio a percorrer seu corpo – Eu espero que não, meu amigo. Sinceramente, espero que não.
Fale com o autor