Mt. Wroclai
2 Repúdio
Notas iniciais
[Mãos;
Mãos que penteiam meu cabelo,
que engomam meu terno,
que alimentam-me na boca;
Numa valsa fúnebre de narcisismo
e excentricidade;
Olhos mortos
obcecados em servir o amor da sua vida,
tais olhos, nesses olhos
está o controle que foi perdido;
Tão lindo, maravilhoso, charmoso...
Me chamo Beirut.
Mas será mesmo que meu amor próprio
é realmente amor?
...Ou a falta dele?]
O sol nasceu sorrindo pra mim hoje: mais um servo ao meu dispor, e dessa vez uma vadia que poderei usar para atingir sua família. Antes do sol nascer, deixei-a dormindo, preparei um café da manhã dos deuses e fui embora; ela vai ficar eufórica. Ao menos o dia hoje está voltando a esfriar em Böderwald...
[Eu odeio ficar sozinho,
por isso crio minhas "marionetes" humanas...]
Beirut saíra do apartamento e sentou-se num banco para fumar enquanto nevava suavemente; sempre depois que manipulava alguém vinha a sensação de... De nada, ele não sentia nada, isso que o incomodava: "Eu não deveria estar satisfeito?" pensava. Mas pelo menos nesse caso tinha um objetivo, este sendo o Europa ring. Num banco atrás, duas pessoas conversavam, Beirut acabou escutando tudo sem querer:
– Tem alguma notícia do Lucas? — perguntava a garota.
– Sou só um bombeiro que salvou a vida do noivo dele, por que eu saberia? Tu que é amiga deles.
– Felippe, sabe, ele me deixou uma carta pedindo pra colocar na cama do Eduardo junto desse celular. — explicou mostrando um envelope e um celular. — Acho que ele vai fazer algo muito ruim...
– Eu sei que ele acabou tendo um caso com um colega de trabalho.
– Como sabe disso?
– Ei, Elior, esqueceu quem me mandou salvar vocês?
– Me chama de Ellis, por favor.
"Pessoas não interessantes..." pensava Beirut a respeito deles. A conversa continuou:
– Eu ainda estou chocado pela morte do Dittrich e daquele teu amigo, mas principalmente do Dittrich, ele não era meu amigo, mas era meu colega de trabalho... — lamentava Felippe.
– O Frederich não era meu amigo, apesar de termos criado um laço de risco de morte, eu só me preocupo com o Dudu... O Lucas desaparece com outro cara e o Fred morto... Sabe o que significa?
– Ele só tem a gente agora, certo?
Nesse ponto a conversa chamou a atenção de Beirut:
"Frederich... Dittrich... Os nomes do jornal de ontem no resgate daquele restaurante francês de luxo... Sinto cheiro de gente importante... E esse Eduardo, solitário, inconsolável provavelmente, é a mente frágil e carente na qual preciso..." concluiu. Beirut não agia fora da lei realmente, o plano arquitetado e cruel dele é fazer outros agirem por ele, se tornarem dependentes que obedecem tudo que ele manda com grandes promessas e um falso amor, depois os larga sem o mínimo de consideração para agonizarem, como dependentes químicos... Até que alguns cometem suicídio.
– Bom, já tá na hora, vou passar no hospital pra ver se o Dudu acordou. — Avisava Ellis, levantando-se e ajeitando-se.
– Ele ainda está inconsciente? Me pergunto se tu é muito forte ou ele que é muito fraco.
– Não zomba! Parece que ele não podia beber nada alcoólico, e ele tinha bebido muito naquele dia. Vem comigo?
– Não, eu tenho um compromisso.
– Mais um possível namorado? — perguntou Ellis.
– Sim, e espero que dessa vez dê certo, sabe? Não quero me apaixonar por outro hétero...
"Ao que me parece, esse não tem muita relação com o Eduardo e é gay... Posso me aproximar dele para pegar mais informações. Uso o truque do rapaz intelectual que anda carregando um monte de livros e que curiosamente é desajeitado e derruba tudo com toda a magia do clichê, ou devo ser mais original?" pensava em como se aproximar de Felippe.
Normalmente sociopatas não arquitetam todo um planejamento como Beirut faz, a grande diferença de Beirut para os outros é que: Enquanto os outros agem dessa maneira naturalmente e sem nenhum objetivo real, sem ao menos sequer saber o motivo do que fazem — que provavelmente é por prazer; Beirut tem um grande objetivo de roubo e é ciente da sua condição e capacidade.
O horário é 9h — nove horas da manhã, do dia 10 de Outubro, quando Felippe começou a andar; foi seguido tão discretamente que ninguém seria capaz de reparar, o dia realmente estava perfeito para Beirut. Ou quase.
Um avião vindo da cidade de Zikade — localizada à sudoeste, desembarca no aeroporto da zona sul de Böderwald, nele desce um rapaz de óculos e cachecol, vestido de uma camisa branca de manga comprida sem detalhes e calça de veludo cinza azulado, seu nome é Francis, ou "branco de neve" para os íntimos devido a sua pele quase pálida e seu cabelo loiro bastante claro. Böderwald é uma cidade rica e desenvolvida dividida em três partes: Norte, centro e sul. Na região norte, onde Beirut está, ficam casas normais, pequenos condomínios, um pouco de comércio e pontos importantes como o Mt. Wroclai, é também nessa parte que as enchentes são esperadas. Na parte central há apenas comércio e grandes empresas, assim como o centro político. No sul é onde está a classe nobre, os prédios, os melhores restaurantes e a maioria dos turistas; é a Böderwald que é famosa mundialmente.
Francis é alguém que planeja destruir Beirut a todo custo, e o motivo disso ainda é um mistério, mas o que pode se esperar, ou o que Beirut sabe que vai ocorrer, é uma grande guerra civil.
[A máfia participará do leilão...]
Suzana acorda e depara-se com um café da manhã: tudo que ela gosta de comer. Beirut não estava lá. Com um sorriso de canto de boca, ela diz:
– Esse maníaco acha que vai me enganar...
O celular toca, no visor nada mais, nada menos que Francis:
– Encontrou ele? — perguntou Francis.
– Aham, dar pra ele foi o melhor trabalho da minha vida, Fran!
– Você é uma piriga impossível mesmo, Suzana.
– Ah, a pulsação do teu dentro de mim é algo sem comparação, mas esse Beirut... Ele tem talento. — riu.
– Me poupe desses detalhes. Acabei de chegar na cidade, onde você está?
– Zona norte, perto do Mount Wroclai.
– Conveniente, estou a caminho. — disse Francis, desligando.
Beirut não sabia, mas estava sendo cercado; e quanto mais ele avança, mais enrolado fica numa teia de aranha.
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