Notas iniciais
Prólogo.

[Parado no espelho durante horas, encarando-me, pergunto: Quem é você?

A resposta que recebo é tão igual a pergunta que só posso imaginar que sou um esquizofrênico. Mas não é disso que eles me chamam, para eles eu sou o tal de sociopata.

Eles estão errados, esse não é o meu nome.]

Ontem teve uma grande enchente nessa cidade, as ruas estão idênticas aos canais de Veneza, sem falar que não há ninguém; é assim que eu gosto, me sinto livre. Estou remando num barquinho de madeira pelas ruas desta cidade chamada Böderwald, que hoje está excepcionalmente quente, aposto meus testículos que está uns 26°C — Vinte e seis graus celsius -. Houveram duas mortes na noite de ontem, os jornais anunciaram que um deles era turista: Um tal de Frederich, o outro se chamava Dittrich. Mais um ciclo que se completa. Ou dois...

São 11h37 — Onze horas e trinta e sete minutos da manhã -, creio que toda essa água seque ao entardecer, estou esperando muito por isso, finalmente irei me divertir um pouco; não que eu não goste desse clima italiano, muito pelo contrário, gosto e muito, sou muito excêntrico.

Eu também sou muito bom com palavras, e tenho um charme que atrai inclusive os meus olhares, um cabelo ruivo brilhoso e impecável — tenho orgasmos quando ajeito a minha franja pro lado esquerdo, cobrindo levemente o olho -, um terno fria e minuciosamente engomado e passado, vestido com todo o requinte e cuidado... É tamanha perfeição, que logo que chego em casa, sete mendigos correm até mim, alimentam-me na boca, penteiam meu cabelo da forma exata pela qual ensinei, porque para eles eu sou o Messias, o alpha e o omega, o salvador; eu sou a imagem da perfeição, todos vêem-me como quero ser visto.

Hoje a noite é a cerimônia de abertura do leilão do século no Mt. Wroclai, que apesar do nome, é uma torre negra de 52 andares no centro de Böderwald; e nesse leilão, apenas um item será vendido: O Europa Ring, um anel feito com um pedaço da lua de Júpiter com nome homônimo. O valor desse anel é absurdo, e o meu objetivo é roubá-lo...

– Qual seu nome? — perguntaram-me na recepção do Mt. Wroclai.

– Meu nome é Beirut.

São 22h e ponto, a cerimônia ocorre no grande salão de jantar; as mesas são em duplas, então dividi a minha com uma mulher espetacular com um decote tão chamativo que gritava meu nome; eu encarava-a disfarçadamente enquanto ela se mostrava distraída com o ambiente, até que num olhar de relance fui descoberto:

– Sua mãe não lhe ensinou a não encarar os decotes das moças?

– Minha mãe está morta, e provavelmente ela não gostaria de ter um filho gay.

O nome dela, de acordo com o crachá que todos ganham na recepção, é Suzana, e observei também que a pequena anedota que contei sobre minha mãe lhe causou remorso. O comportamento humano é tão padrão que até me sinto um pão de tão diferente e desejado.

– Eu não sabia... Mas, eu...

– Deloc Barsac, safra de 1945, bastante rara, é normalmente vendida para colecionadores, é algo bastante... Ousado, eu diria, pelo menos para uma cerimônia de abertura de um leilão, não acha?

– Hmm... É sommelier? — perguntou surpresa após minha interrupção.

– Nem perto — ri. — É apenas um dos meus hobbies. Eu apenas estava em outros planos astrais ao provar esse vinho e curiosamente meus olhos foram de encontro ao seu decote. — esclareci, sempre com um sorriso convidativo e um papo atrativo. — Que aliás, são lindos se me permite dizer...

Com muita lábia, estávamos horas depois na casa dela, apertando aqueles seios com as minhas mãos; meu pênis tão quente e duro que ela não soltava enquanto gemia a cada beijo que eu a dava no pescoço, comprenssando-a na parede do corredor; segurando uma de suas coxas, fui abraçado com uma chave de coxa, já estava sem calcinha e então fui penetrando lentamente aquela vagina carnuda, que logo que coloquei a cabeça pude sentir o quanto estava quentinha, apertada e muito molhada enquanto nossas línguas não se desgrudavam.

Suzana é filha de um dos maiores banqueiros de Böderwald, ela é só mais um degrau que pisarei friamente para alcançar o topo.

Notas finais
"Repúdio" será publicado dia 26 de março, uma quinta-feira.