Meia Lua

9 Aqueles que permanecem


Ainda bufando, Cássio recuperou algum controle e olhou ao redor. A primeira coisa que notou foi o cheiro, ainda pior que de costume. Atrás dele, Marina estava magra e apavorada, numa jaula em que mal podia ficar em pé. Ao redor um cheiro forte de uréia se juntava ao habitual cheiro de decomposição. Ao notar que Cássio se aproximava dela, encolheu-se ainda mais, parecendo prestes a chorar. Ah, droga. Usou a voz mais tranquila que conseguiu.

— Marina, sou eu Cássio. Vai ficar tudo bem. Nós vamos te tirar daqui.

— Cássio, Cássio...peraí, Cascão? Você matou a Isa? — Ele olhou ao redor, procurando...Merda. Agora via os cabelos longos e loiros num dos obsessivos caídos, amontoados no canto. Droga, a Isadora sobreviveu tanto tempo, e eles não a acharam. O Luca ficaria arrasado.

— Foi necessário, me desculpe. Frederico nos mandou aqui. Só encontramos você agora. Por favor, não grite. Vai atrair mais daquelas pessoas pra cá. Mauro, eu já vou aí te ajudar, espera um pouco.

— Frederico está vivo? Ele está vivo! — A risada foi tão estranha que Cássio quis recuar. — Eu sabia que ele estava vivo!

Cássio sentou-se e começou a forçar as grades com a mão e o pé, mas nada se moveu.

— Quem foi o canalha que te deixou aí presa? Droga, vai levar dias pra gente arrebentar essa coisa. Chefe, tá na escuta?

— Não, sai daqui! Não cheguem perto! — Segurava o lápis mágico como uma faca. — Se vocês chegarem mais perto, vou soltar uma cobra em vocês!

— Cas, se afasta. Marina, por favor não fale alto. E por favor, não solte uma cobra aqui. Somos nós, seus amigos. Não vamos machucar você.

— Toni e os outros mascarados disseram isso também! Eu tive que ficar nessa gaiola pra fugir deles! Tive que desenhar najas cuspideiras pra eles irem embora! Se afastem de mim!

O jeito como ela se protegia, segurando a camisa rasgada, a bermuda...O lobo sussurrou-lhe o que podia ter acontecido, e Mauro sentiu uma fúria tão intensa que parecia afogá-lo e faze-lo enxergar tudo em amarelo. Cássio ainda tentava forçar as barras da gaiola

— Cas, para com isso e vem aqui. Marina, lhe dou minha palavra de lobo: Nenhum de nós vai machucar você. Nem a obrigar a fazer qualquer coisa que você não queira. Vamos esperar ali, no canto, até você decidir.

— Mauro, o que você...

— Chefe, desliga o comunicador por ora. — Ouviram o chefe concordar e a estática constante do rádio sumiu. — Vem aqui, Cássio.

Sussurrou numa voz cheia de ódio mal contido. — Olha pra ela. Pra roupa dela. Lembra do que o patife do Toni disse que iria fazer com a Mônica se a encontrasse?

— Não me diga que ele ... — Ficou pálido com o que viu nos olhos de Mauro. — Filho duma porca! Espancar, roubar e deixar a gente praquelas coisas foi foda, mas a gente já esperava isso dele. Es... nem consigo dizer isso, a Marina? A Marina? Porque diabos a gente não o matou antes, Mauro? Como é que o Fred vai reagir a não poder chegar perto dela?

— Eu não sei. Nem consigo imaginar. Vou pegar água pra gente.

— Devia ter matado aquele porra assim que o vi. — Cássio rosnou entredentes. Mancou uns dois passos, mas ainda havia muita distância, uma distância segura. Usou sua voz mais calma, embora tremesse de fúria. — Marina, o Toni machucou você?

— Ele tentou. Eu fugi dele, e desenhei a gaiola. Ele...ficou com raiva, tentou forçar a entrada, mas criei uma jaula com uma grade forte. Criei as najas, as aranhas armadeiras, e eles fugiram. Depois vieram aquelas pessoas estranhas, e elas tentam me alcançar desde então. Tenho medo dele. Vocês não trabalham com ele, trabalham?

— Inferno, não! Opa, desculpe, não queria te assustar. Toni e Timóteo estão mortos, Marina. Eu e o Mauro matamos eles e os capangas há uns seis meses atrás. Toni também tentou nos matar. Não precisa mais ter medo dele.

— Morto? — Uma sombra de sorriso passou pelo rosto da garota. — Como aquelas pessoas? Mas por que Titi morreu? Ele me ajudou a fugir.

— Timóteo não fez nada quando Toni limpou o chão com a gente e nos largou pra morrer. O fato é que Toni está definitivamente morto. Não precisa ter medo dele. E dou minha palavra também. Nenhum de nós vai tocar em você sem sua autorização. Eu não vou deixar.

Mauro voltou com um pedaço de sabão.

— Marina, nós gostaríamos que você fosse morar com a gente. Estamos todos no laboratório do Fred. Não é confortável, mas você estará segura. Nós vamos proteger você.

— A Mônica e as meninas também estão lá?

Ambos ouviram com alívio o bipe do comunicador ligando. Ninguém queria responder aquela pergunta tão cedo. Mauro levantou a mão, pedindo que ela esperasse.

“Abram a janela da cozinha. Os remédios e as bulas estão na sacola. Marina está bem?”

— Está viva. Eu e Cássio estamos machucados.

“Ok, encerro comunicação. Liguem se o cenário mudar. Ligo de novo quando for seguro sair. Deixei o celular na sua mochila.”

— Obrigado, Odin. — O chiado sumiu. — Vou até lá pegar os remédios, Cas.

— Você não devia se mexer tanto.

— E você não devia pular pela casa inteira como um saci, vai cair de cara num esqueleto. Vai tomar banho, eu te ajudo.

Mauro o ajudou a chegar até o banheiro, o balde na outra mão. O barulho dos obsessivos tentando entrar tinha se reduzido a um ruído de fundo. Depois disso, pegou uma sacola na cozinha e começou a tirar pacotes da mochila. Olhava discreto pra Marina, que parecia oscilar entre a curiosidade e a vergonha.

A higiene era difícil de manter depois do fim da civilização. Ninguém pensava no destino dos dejetos quando tudo que tinham que fazer era dar descarga. Mas quando a água potável acabou o problema apareceu depressa, junto com as doenças e os parasitas.

Também aprenderam rápido que se não se limpavam logo depois de matar algum obsessivo, adoeciam. Com os meses, a febre e vômitos por dias reduziram a mal-estar e enjoo, mas ainda precisavam ter cuidado. Então Fred e Luca organizaram as coisas, inventando sistemas que permitiam manter a limpeza, mesmo sem um banheiro comum. Não demorou até que tivessem um suprimento regular de água limpa e gás pra cozinhar no laboratório, e tinham um ou dois jeitos de se virar quando saíam, pra não acabarem rodeados de sujeira.

Marina não tinha nada disso. E ela tinha um lápis mágico, não uma borracha mágica. Quanto mais o tempo passava, mais os três tomavam consciência da imundície do lugar, com esqueletos, baldes fechados e cascas de coco pra todo lado.

— Sua vez. — Mauro adiantou-se e passando o braço por baixo do ombro de Cássio, o ajudou a caminhar de volta.

— Eu consigo sozinho, seu fresco.

— Reclama mais e eu vou te carregar.

— Vai tomar no ...— Olhou pra Marina. — Você entendeu.

Mauro riu baixinho e Cássio se sentou na lona estendida, continuando a arrumar espaço pra dormir e comer, afastando os ossos e baldes de forma casual, e mesmo muito constrangida, ela percebeu que nenhum deles a olhava com a fome que havia nos olhos de Toni. Nem pareciam incomodados com o cheiro forte da sala.

— Desculpem...isso aqui tá uma bagunça.

Cássio relaxou um pouco ao ouvir aquilo. Ela parecia mais tranquila, mais parecida com...bem, ela mesma. Talvez fosse só o choque. — Tem lugares piores. Só em Caminhantes Mortos tudo fica limpo e arrumadinho no apocalipse. Trouxemos comida. Quer um pouco? Temos arroz desidratado, farinha e ...é, acho que vamos deixar a ração só pra gente, ok?

— Ração? Ração de cachorro?

— É leve, nutritiva, tem proteína. Só não dá pra comer muito, senão a gente passa mal. — Já estavam acostumados, mas sabiam que soava esquisito. — Não dá pra escolher muito hoje em dia. Quer?

— Não, obrigada.

Mauro voltou, e Cássio finalmente pôde olhar melhor o ferimento. Aquele lobo interior psicopata absorvia a maior parte, mas sabia que Mauro estava com medo. Foi o líder daqueles sarnentos que quebrou seu pé num ataque; a infecção quase o matou, e perdeu parte da perna no processo. Fez o curativo com uma tranquilidade falsa.

— Tomou os remédios? Ok, isso tá com uma cara boa. Você não vai perder o braço, Mau.

— Você otimista é assustador. Não vai mesmo me deixar ver essa perna?

— Eu só preciso de descanso. — diante do olhar reprovador, retrucou. — Quando a gente voltar, peço pro Luca olhar isso. De qualquer jeito, não tem o que fazer aqui fora.

Estavam tão concentrados em deixá-la em paz que não entenderam quando sentiram um cheiro de comida. Comida quente.

— Eu não agradeci por vocês me terem salvo daquelas...pessoas. E por terem acabado com o Toni. — Ela estava no canto mais distante da sala, pronta para correr, desenhando algo furiosamente. Onde estava a jaula? Em seu lugar, havia um prato de cerâmica com um bife enorme e suculento, ainda soltando fumaça. Com acompanhamento de alface, tomate e batatas, ainda úmidos. Os dois olharam pra o prato de olhos arregalados, como quem vê uma assombração. Estavam prestes a atacar a comida, quando Mauro levantou os olhos. A jaula estava de volta, em outro lugar.

— Você não vai comer? — Droga, ela ainda parecia tão assustada! — Olha, eu vou te entregar a minha faca, ok? E o Cássio, um pé de cabra. Se os Obsessivos entrarem, você pode se defender conosco. Você não precisa ter medo da gente, Marina. — Deixaram as armas no meio da sala e voltaram para o canto, esperando. Ficaram se olhando em silêncio, até que Cássio pôs um bocado na sua tigela, e deixou os objetos ao alcance dela na jaula.

Devagar, cautelosamente, ela esticou a mão pra fora das grades, e pegou as armas antes da tigela com comida. Segurava com firmeza a faca enquanto se sentava. Eles dividiram a comida, e os dois gemiam de satisfação. O bife estava delicioso. Dividiam pedaços com uma colher e uma faca e Mauro reclamava de Cássio pegando seus pedaços com a mão. Por algum tempo, só barulho de mastigação.

Sentaram satisfeitos, um contra o outro. Ela afastou-se, desenhou um colchão e um travesseiro. Observou-os se amordaçarem e dormirem daquele jeito peculiar. Pela manhã entendeu as mordaças. Os dois falavam e gritavam dormindo, a assustaram a noite inteira. Os dias passaram, ela foi relaxando; via que não queriam mesmo feri-la.

***

— Eles estão mortos. Fala a verdade, Luca.

— Eles vão chegar, Fred. Ninguém morreu. — Até agora, pensou. — Precisam esperar um pouco, estão exaustos. Só estou economizando a bateria do comunicador.

— Eu ouvi a luta. Os gritos da Marina. Já faz quatro dias. Sei que você quer me poupar, mas fala a verdade. Eu só preciso vê-la mais uma vez.

— Ela está bem, cara. Para de dar ouvidos à essas coisas, elas não querem seu bem.

— Você não entende. — A voz atrás da porta era dolorosa. — Eles estão aqui. Eu nunca tive alucinações tão nítidas. Cássio e Mauro são fantasmas, droga. Se eles estão mortos, a Ma não tem chance. Me deixa sair.

— Pode ser nítido o quanto for. — Droga, onde estava o Ângelo quando precisava dele? — mas não é real. Se você for lá fora, vai morrer. Ninguém quer isso, Fred.

— Não importa mais. Eu imploro, Luca.

— Eu me importo. Não vou perder você também. — Apressou-se a completar a frase. — Já perdi o Quim e a Maria. Não é só a Marina que precisa de você. Eu, o Cas e o Mauro também. São só mais uns dias.

— Essa dor não passa. Esse...aperto não vai embora. Ela não precisa de mim. Eu preciso dela. Ela é minha última chance. Eu preciso sair, por favor.

Céus, e agora?

***

Depois da janta, Mauro sacou o celular e os olhos de Cássio brilharam. Marina não entendeu o entusiasmo até a música começar.

Era em japonês, mas a voz era maravilhosa. Marina não ouvia música havia um ano, e se percebeu chorando de alegria. Por uns minutos, ela não estava com medo, cansada ou coberta de sujeira. Via Cássio com um sorriso relaxado no rosto. Algo lhe dizia que ele também se sentia jovem e com esperança mais uma vez.

— Que música é essa, Mau?

— Hum, me deixa ver... “Smile for you”. — Depois dos últimos acordes, ouviram um fio de voz do outro lado da sala.

— Deixa tocar mais uma vez. Só mais uma vez, por favor.

Aos poucos, limparam como possível a sala em que viviam; ela parecia pedir desculpas com comida, coisa que eles aceitavam com prazer; até a noite em que ela não desenhou a jaula de sempre. Sem uma palavra, arrastou o colchão para perto deles. Mauro viu e estendeu-lhe a mão. Ela a segurou e ficou olhando o teto. Ele não tinha mais febre, mas o calor da mão de outra pessoa era estranho pra ela.

— Nimbus, qual o verdadeiro motivo que o Franja não tá aqui? Que nenhum de vocês veio em um ano? Por que a Mônica não veio me salvar?

— Nós impedimos o Fred de vir, porque ele não conseguiria chegar. Ele está louco, Marina. Pensamos que se você não tinha feito um portal pra lá, tinha morrido. Fred não iria aguentar não ter nem a esperança. A Mônica...não pode vir. Se a gente soubesse antes...

— E como vocês vieram agora?

— O drone. Estivemos resolvendo umas coisas, e Fred aproveitou e mandou o drone até aqui. Não foi culpa dele, sério. Nos desculpe.

— Eu...vou tentar.

Notas finais
A seguir: Quando o amor e a loucura dançam tango. * Curiosidade: Najas cuspideiras são cobras do continente africano, e podem lançar veneno nos olhos de uma ameaça. Aranhas armadeiras podem medir até 20 cm, são agressivas e venenosas também. * Link da música "Smile for you" (SAO Ordinal Scale): https://www.youtube.com/watch?v=lO-jCwMqlQI Infelizmente não encontrei a música legendada em português, mas há versões em inglês e espanhol. Mesmo sem entender nada da letra, Cássio e Marina amam a suavidade dessa música. A todos, mais uma vez, meus agradecimentos e até o próximo capítulo.