Meia Lua

10 Aqueles que seguem


Notas iniciais
Meus agradecimentos a todas as pessoas que permanecem acompanhando. Há sete ou oito pessoas que tem lido regularmente, e fico satisfeita com isso. Caso queiram opinar ou comentar, fiquem à vontade. Caso não, espero que gostem de lê-la tanto quanto tenho gostado de escrever.

— É mesmo seguro sair?

— Não. Por isso estamos pedindo que ponha isso aqui. Você não pode gritar, nem mesmo falar lá fora sem atraí-los. Por favor, ponha essa mordaça. Eu e Cássio vamos pôr as nossas também.

Tinham recebido a resposta: Finalmente o caminho estava livre. Tinha algo estranho na voz de Luca, e apressaram a partida como puderam. Marina aceitou com desgosto a capa suja que lhe ofereceram, mas uma mordaça era outra história. Levou muito tempo, mas ela acabou pondo o tecido em volta da boca. Seguiram devagar, e abençoadamente o caminho permaneceu livre. Ela entendeu a necessidade daquele pedaço de pano humilhante quando tropeçou numa pedra; soltou um gritinho involuntário e sentiu a mão de Mauro em seu ombro, até ser seguro levantar.

Desde então, ela seguiu sem cara feia. Ela quis correr ao ver a construção conhecida, mas os dois a seguraram pelas mãos. Entraram, largaram os ponchos, a sacola com o que fora a Isa e soltaram a mochila. Luca os esperava sozinho.

— Ué, cadê Fred, Odin? — Cássio olhou pro amigo na cadeira de rodas, e pra sala atrás da porta interna. — Inferno. O que aconteceu aí dentro? Cadê o pinel do Fred, cara? Mau, deixa Marina aí e vem comigo!

Tirou a capa suja, as roupas e abriu a porta interna num golpe. Vestiu o short esfarrapado de sempre e lavou-se às pressas. Correu até Luca.

Mauro e Marina viraram-se e perceberam a destruição: Cacos de vidro, telas quebradas, metal amassado e rastros de sangue no chão. Luca parecia ter sofrido um acidente de carro, o olhar perdido e coberto de hematomas.

— Cara, me deixa olhar você. — pediu enquanto a mão humana procurava algo errado além dos inchaços. Encostou o ouvido no peito. — Respira. Ok, de novo. Se algo doer, me avisa.

Começou a apertar as costelas de leve, até a mão esquerda de Luca voar pra segurar a mão dele. — Isso dói. Desculpe. — Recolheu a mão devagar. Aguentou com paciência o resto do exame, embora enrijecesse de vez em quando. Mauro acompanhava a inspeção, um pouco atrás. Cássio parou no braço direito muito inchado.

— Consegue mexer a mão, Luca?

— Eu não planejei direito. Depois que não teve notícias... ele derrubou a porta, Cas. Ai, isso é mesmo necessário?

— Você sabe mexer naquele raio-x portátil que a gente trouxe? Não? Então preciso descobrir se quebrou do jeito antigo. Foi mal, cara. — E começou a mexer com firmeza no braço direito. Quando terminou, Luca estava todo suado e parecia prestes a vomitar. — Acabei. Respira fundo, não vomita em mim. Umas costelas trincadas, acho, mas o braço não quebrou. Pelo menos, não por completo.

— Depois do terceiro dia que vocês não voltaram, Fred teve certeza que ela tinha morrido. Que vocês todos tinham. Eu nunca o tinha visto daquele jeito, e não pude voltar e mostrar que não tinha acontecido nada. Ele tentou sair.

— Como diabos você segurou ele surtado...ai não, Luca. Diz que você...

— Não tive outra escolha, atirei nele. Ele está vivo, não me olhem assim. Eu tinha que trazer vocês de volta, não podia ficar brincando de luta. Vão ver se ele tá bem, vou falar com Marina. Ninguém chega perto dele sozinho agora, fui claro?

— Bastante. Vem, Cas.

— Oi, Luca! Cadê a Mônica? Onde estão as meninas?

— Oi, Marina! Me dá um minuto que eu chego aí. — Virou pros dois e eles puderam ver claramente a raiva enquanto ele articulava “Não contaram nada pra ela?”

— Não deu, cara. Ela tá enfiada numa porra de gaiola há mais de seis meses de tanto medo.

— Medo do que, inferno?

— Toni tentou...— E a expressão dele disse tudo. — Mas não conseguiu. Levou uma semana inteira pra ela chegar perto, e dois dias pra convencê-la a sair de casa.

Luca pôs a mão na testa, bufando. — Aquele maldito é uma dor de cabeça até depois de morto. É agora que vocês me avisam tudo isso? Esse comunicador não é decorativo, porra. Vão logo ver o Fred.

— Luca, algo errado? — Conforme ele aproximou-se, ela percebeu os hematomas e o braço machucado. — O que aconteceu com você?

— Longa história. — Luca abriu a porta interna, e ela entrou. Percebeu a tristeza escondida embaixo da seriedade, e o silêncio interrompido apenas pelos passos de Mauro e Cássio cada vez mais distantes. Nenhuma voz. Nenhuma risada.

— Mauro disse que estavam todos morando aqui. Cadê a Mônica, a Magá, a Denise? O Jeremias, o Xaveco? Cadê todo mundo, Luca? Onde está o Franja?

O medo se infiltrava no silêncio, até ela não aguentar mais. — Cadê o meu namorado, Luca? Ele está bem, não é? Ele está vivo, não é?

— Fred está vivo sim. Senta, Marina. A gente precisa conversar.

***

Quando chegaram, viram Fred amarrado, caído de lado. Um curativo no ombro e outro na perna encharcados, e sangue borrifado em todo canto como num filme de terror. Perto dele, uma porta de madeira caída no chão.

— Puta merda Mauro, o que aconteceu aqui?

— Ele tá respirando, né? Caralho, ele arrancou a porta.

— Fred é forte pra cacete surtado. — Cássio aproximou a mão do rosto de Fred. — É, tá respirando. Qual a surpresa?

— A porta abria pra dentro. Como ela tá aqui fora?

— Vocês todos podem calar a boca? Um minuto que seja, merda?

— Fred, pode nos ouvir?

— Claro que posso. Todos vocês. A porra do tempo todo. Por que vocês nunca voltaram?

— Como assim? Nós estamos aqui.

— Claro que estão. Assim como o Joaquim, a Maria, o Bidu. Ninguém morreu e tudo foi só um pesadelo, não é? — Ele os encarava cheio de sarcasmo. Mas também olhava fixo pra algo ao lado deles. — Vocês sabem que não posso ir buscar vocês. Nem a Marina. Deus, eu queria vê-la uma última vez. Por que ela nunca aparece? Por que meus pais nunca aparecem?

— Mau, isso é estranho. Ele nunca fala coisas com sentido. Isso é bom ou ruim?

— Nunca falo coisas com sentido porque não era pra eu conversar com vocês. Mas se eu fico calado, vocês gritam o tempo todo. É difícil, droga. Mas agora eu tenho vozes e fantasmas. E a Marina não vai chegar. — concluiu com uma voz partida.

— Fred, a gente está vivo. A Marina já chegou. Tá lá fora, conversando com Luca.

— Eu ouvi vocês no meio de um monte de Obsessivos. Ouvi os gritos da Marina. Eu...briguei com Luca, não lembro direito. Inferno, ele também morreu? Parem com isso, estamos repetindo essa conversa sem sentido há dias. Joaquim, explica pra eles. Sim, Maria, também estou escutando você. Mas não vou fazer isso. Estava me perguntando quando você viria, Luca.

Os dois se viraram. Ninguém. Começavam a sentir um mal-estar vago. Cássio pegou discreto na mão de Mauro e sinalizou “É assim o tempo todo?”

“Acho que sim.”

“Horrível.” Em resposta, Mauro o segurou com mais força.

— Eu sei disso, Luca. Deveria ter fugido. Agora todos vocês estão mortos. E eu estou preso aqui. Por favor, acabem com isso. Eu não aguento mais.

— Me dá tua faca, Mau. Fica pronto pra me ajudar. Fred, vou cortar as cordas. Não me ataca, ok?

— Como eu vou atacar um fantasma?

— Vem cá. É, um buraco aqui. Respira fundo. Parece tudo bem. Consegue andar? Você precisa de um banho. Mauro, ajuda aqui.

— Você vai soltar as mãos dele?

— Tá planejando lavar o Fred? Eu não.

Fred foi arrastado por alguns minutos, com Cássio mancando atrás deles, até entender que aquilo não era alucinação. Estacou, piscando os olhos.

— Cas, Mauro...vocês estão mesmo vivos?

— É o que estamos te dizendo há dez minutos, babaca.

— Espera. O que mais é verdade? O Luca tá vivo? A Marina está viva? Ela veio com vocês?

— Estão. Fica quieto, merda! Ela não vai a lugar nenhum. E nem você, até tirar esse sangue da cara.

— Vocês não entendem. Eu preciso vê-la. Preciso vê-la. Marina? Marina! MARINA!

— Puta que pariu, entra aí, Fred! E você só sai parecendo gente. Toma banho! — Bateu a porta do banheiro. — Puxa, será que o Batmão passava esses perrengues com o Coringa?

— Por favor, me deixem sair!

— Cala a boca e toma banho, animal! E nem pensa em derrubar essa porra! Com uma perna ainda te dou uma surra!

— Sério que você vai ficar discutindo com o Fred, Cas?

— Ele devia ficar feliz que eu tô só batendo boca e não dando os tapas que ele merece. Você viu o que ele fez? Ele quase quebrou o braço do Luca. Droga, a gente tá todo sujo também. Essa era minha última bermuda boa.

Ouviram um choro distante. Cássio olhou o amigo um tanto constrangido.

— É, ela descobriu.

— Isso é uma droga. Nós tivemos um ano inteiro e ainda é difícil. Vamos ter certeza que ele está seguro e ver como podemos ajudar. E depois você vai pedir pro Luca olhar essa perna.

— Eu já disse que eu vou ficar bem, droga. Já é suficiente o Luca bancando o pai de todo mundo, não preciso de mais um.

Mauro parecia prestes a discutir, mas mudou de ideia. Passaram vários minutos em silêncio, até ouvirem a cadeira de Luca chegando.

— Cascão? Nimbus? De quem é esse sangue? — Marina aproximou-se, empurrando a cadeira de Luca. Ela fungava e tinha os olhos vermelhos. Os dois gesticularam pra ela não falar. Se Fred a ouvisse tão próxima, teriam ainda mais trabalho.

— Luca, ele tá bem (do jeito dele). Bem alucinado. Só vai dar pra entender o estrago depois de um banho. — Olhou pra Marina, cuidadoso. — Lembra que eu te falei como ele tá? Você vai precisar ter paciência. Se você decidir acabar tudo, vai com calma, tá bom?

Viu a expressão intrigada de Marina, articulando sem som: “Acabar?”

Depois do que pareceu uma eternidade, ouviram lá de dentro.

— Terminei. Posso sair? Prometo que não vou machucar ninguém.

Quando abriram a porta, ela estava lá. Deus, era mais bonita do que ele lembrava. Ele aproximou-se olhando como se a temesse e adorasse. Avançou a mão receoso.

Marina fez um grande esforço pra não fugir. Todos eles estavam um tanto magros, esfarrapados e barbudos, mas Franja parecia um náufrago. Os olhos dele estavam selvagens e arregalados, como se ainda não acreditasse que ela estava ali. A mão estendida finalmente a tocou, e ele começou a ofegar, balançando todo no esforço. Cássio o empurrou pelo ombro devagar.

— Já chega de assustar a menina, seu maluco. Encosta que desse jeito você vai ter um troço. Relaxa, Fred. Isso, devagar.

— Você está aqui. — murmurava entre arquejos. — Está realmente aqui. Meu Deus, obrigado. Você está viva. Está chorando. Me desculpe, eu deveria estar lá com você. Você precisou de mim, e eu não estava lá.

Nem sabia pelo que ele mesmo chorava: Se tristeza, alegria, vergonha ou tudo junto. Era como se finalmente pudesse respirar depois de tanto tempo. Sentiu a mão dela no seu rosto. Com suavidade, secava seu rosto com os dedos.

— Não chora, Franja. Eu vou ficar bem. — Ele fechou os olhos, chorando em silêncio.

Os três permaneceram em silêncio. Era a primeira vez que o viam daquele jeito. Sem perceber, os dois puseram as mãos nos ombros de Luca.

Luca tinha o rosto entre as mãos. Rezava, como há muito tempo não fazia. Duvidava que Ele aprovasse suas escolhas naquele ano. Mesmo Ângelo quando aparecia o questionava em silêncio. Mas não pedia por si. Queria que o amigo finalmente encontrasse o sossego que precisava tanto; ele merecia, não é? Todos eles mereciam descansar um pouco.

Levantou o rosto assustado com o barulho de algo pesado caindo no chão: Fred caíra de joelhos, desmoronando; Marina o abraçava, ainda chorando.

Eles ficariam bem. Gesticulou a Mauro que manobrasse a cadeira e saísse dali. Em silêncio, Cássio os acompanhou, os soluços ecoando nos corredores metálicos.

***

— E aí?

— Conseguimos pouca comida: macarrão instantâneo, quatro garrafas de água, um pacote de ração de gato e três pacotes de biscoito. Não encontramos sinais de algum outro vivo fora a Marina. Passamos por vários urubus, um gavião e vi uns dois gatos. Encontrei isso aqui, consegui pegar sem chamar atenção. — Puxou uma pistola pelo cabo. — Não tive tempo de avaliar calibre ou munição. Travei e trouxe pra você ver. Encontramos um dos nossos entre os obsessivos que apagamos.

— Isadora, não é? — Mauro assentiu em silêncio.

— Marina me contou. Se eu tivesse cedido e investigado se Marina estava viva, teria salvo a Isa também. — Bateu na máquina ao lado, frustrado. Ele e Isa flertavam um com o outro meio a sério, meio na brincadeira desde que ela acabou com o namorado. Ele sempre a achou maravilhosa, e se tivesse mais tempo teria uma boa chance.

Mas aí o mundo acabou. Se ele não estivesse fazendo a manutenção da cadeira elétrica no laboratório do Fred, não teria sobrevivido. Lá fora, ainda não tinha chance. Não podia sair e salvar ninguém. Seus pais, amigos, ou sua nova família. Por mais controlador que fosse, por mais que o chamassem de “Odin” e confiassem nele, era só ilusão. E ele não podia se apegar a ilusões. Porque toda vez em que ele ficava confiante demais...

Alguém morria. Como a Maria Melo. O Joaquim. A Isadora.

— Luca, o que você vai fazer com o Fred?

— O que tem pra fazer com Fred, Cássio?

— O cara te espancou daquele jeito e não vai acontecer nada com ele?

— Não vai. Foi um acidente. Ela está aqui, não vai acontecer mais.

— Odin, você...— Luca o interrompeu com os olhos. Mauro puxou o ombro dele de leve pra trás.

— Vou reavaliar o estoque. Deixem a pistola no cofre. Valeu pela comida, rapazes. Estava deliciosa. — Cássio, pode me empurrar até lá?

***

— Você tá bem, cara?

— Preciso de um minuto e todos nós de um descanso. Tô ouvindo seu mancar desde que chegou, Cássio. Vocês trouxeram comida, e o lápis mágico pode nos dar uma folga. Se dê tempo pra curar essa perna direito. E esse braço.

— Você sabe que não precisa carregar todo mundo nessa cadeira, né? Também pode se apoiar na gente. Desculpe o que eu disse mais cedo, só estava com raiva de te encontrar espancado daquele jeito. Sei que o Fred não costuma ser assim, mas isso não se faz.

— Realmente preciso daquele minuto, Cássio. Sozinho.

— Ok, vou ver nosso Mengele de estimação.

Ele não podia quebrar. Não podia. Desespero era um luxo que Luca não tinha. Indecisão era exclusividade de épocas mais amenas. Ele não podia quebrar.

Saiu e conteve um palavrão. A prótese mordia sua perna cada vez que caminhava há semanas, mas depois de tanta correria e esforço, sentia como se pregos entrassem na perna a cada passo. Mauro tinha razão, tinha que parar e desmontar aquela coisa pra perna sarar direito.

O estômago revirava só de pensar em voltar pra maldita mesa de metal. Não devia ter sido estúpido daquele jeito com o Mauro, ele só queria ajudar. Ah, droga, sangue de novo. Desde que o Fred do passado mexeu naquela perna, ela sangrava quando se esforçava demais. Não iria conseguir esconder aquilo do Mauro pra sempre. Com um suspiro resignado, foi deitar um pouco.

***

Fred não sabia quanto tempo passou de joelhos, sem força pra fazer outra coisa que não chorar.

Sentia-se vazio, porém, mais como ele mesmo. Parecia que tudo estava bem apenas porque o pior já tinha acontecido. Não. Faltava uma coisa.

— Se eu fosse o homem que fui, eu me afastaria de você. Estou louco, escuto e vejo coisas que não podem estar lá, mas nunca agredi ninguém... pelo menos até dez dias atrás. Mas não consigo. Pela primeira vez em quase um ano, eu posso respirar direito. Eu te amo mais do que a vida, mas não sou seguro pra você. Você deveria se afastar de mim.

— Também tem uma coisa que você precisa saber sobre mim. Encontrei o Toni enquanto estava lá fora. Ele me agarrou, e tentou me estuprar. Eu consegui escapar a tempo. — Finalmente dizia isso em voz alta, depois de tanto tempo lidando com aquilo sozinha. Dizer aquilo lhe dava uma sensação de domínio sobre o que aconteceu. Ela venceu. Então ouviu a voz dele sem expressão, o que não combinava com os olhos repletos de fúria.

— Toni tentou estuprar você.

— Se acalma Fred. Ele está morto.

— Ele teve sorte, o canalha. O inferno será um resort de férias comparado com o que eu faria com ele. Ah, droga. É disso que eu tô falando. Eu nunca tocarei em você contra sua vontade, mas... — Ela pegou as mãos dele, olhando os inúmeros cortes. O viu suspirar e fechar os olhos, completamente entregue. Ainda era ele. Embaixo daquela fachada bizarra, ainda havia o homem que ela aprendera a amar. O beijou de leve na testa.

— Meus sentimentos por você não mudaram. Me dá tempo pra eu me acostumar, Franja. Essa situação é muito nova, e ainda me deixa um pouco nervosa. Preciso de espaço por enquanto. Agora você precisa cuidar desses machucados. Onde tem material de curativo por aqui?

— Tudo bem. Obrigado. Eu arrumo isso, pode deixar. Desculpe. Se precisar de alguma coisa...

— Eu peço. E, Franja...

— Sim?

— Fica bem, tá?

O sorriso foi pequeno, mas aliviado. Sussurrou enquanto ela se afastava. — Eu já estou melhor. Obrigado.

***

Viu o Cássio deitado no canto de sempre, e preocupou-se, mas afastou o pensamento com raiva. Dane-se o idiota teimoso. Luca continuava enfurnado na despensa, não queria interromper o casal na sala. Discussões de relacionamento já eram complicadas sem o apocalipse se intrometer.

Pegou uma tigela de comida pro Dr. Shkreli, juntou a um jornal que guardava há um ano e levou para a sala de isolamento. Encontrou um homem de meia-idade sentado e olhando pro chão. Os hematomas coloriam seu rosto de vários tons de amarelo e roxo, mas fora aquilo era a mesma cara dos noticiários, do planejamento, dos seus pesadelos.

— Ei, doutor, trouxe comida.

— Não quero. Pode levar de volta.

Mauro sentou e olhou pro homem deprimido com curiosidade. Se sentia uma criança olhando pro banco de acusados de Nuremberg: como era possível que um homem que causou tanto sofrimento tivesse uma aparência tão comum?

— Se quiser morrer, vá em frente. Mas você deveria diminuir um pouco o estrago que fez antes.

— Espera, eu lembro da sua voz! Você estava lá! No meu laboratório! Você é um dos meus sequestradores! — Levantou os olhos, e parecia ter reencontrado sua energia e um objeto pra sua raiva — Por que fez isso comigo? Eu não te fiz nada! Eu nunca sofri nenhum acidente! Eu sempre fui cuidadoso!

— Eu evitei sua infecção duas vezes naquele dia.

— Minha filha estava doente! Vocês me arrancaram da minha família! Eu não fiz nada! Eu tinha tudo sob controle, e vocês destruíram o trabalho da minha vida!

O prisioneiro continuou a despejar sua raiva e frustração em Mauro, que o observava indiferente.

Ouviram os passos pesados de Cássio na direção deles. A voz do cientista foi baixando, os insultos sumindo com a lembrança daquele olho vermelho.

— Mauro, esse cara tá mesmo te xingando e você escutando calado?

— Tô curioso pra entendê-lo. Isso não incomoda.

— Escuta aqui, Mengele de araque: Você está aqui porque suas mentiras e falta de cuidado extinguiram a raça humana. Todo mundo que mora aqui perdeu tudo. Eu não dou a mínima pros seus sentimentos. Mas esse cara aqui é meu irmão. Me deixa escutar você xingando-o mais uma vez, e eu te deixo lá fora com o “trabalho da sua vida”. Entendeu? — E virou-se para o homem ao seu lado. — Eu vou deitar um pouco, mas venho se você me chamar. E... desculpe por aquilo, Mauro.

—Tá tranquilo, Latinha. Fala com o Luca, você precisa arrumar isso.

— Eu vou falar. Eu tô melhor, mas eu vou falar.

— Vai dormir, eu já chego. Aquele cara resumiu bem a situação, doutor: Eu tenho raiva de você. Sei que você não é mau, apenas covarde; mas não ter intenção não é suficiente. Você deixou acontecer. Você pode ficar aí e esbravejar contra a injustiça cósmica; pode ficar quieto, e nesse caso vai permanecer aí. Pode sair e tentar arrumar pelo menos um pouco do estrago. Ou pode morrer de novo, não ligo.

Permaneceram em silêncio por algum tempo. Luca se aproximou de Mauro.

— Você está bem?

— Sim. Estou tentando entender. Devia ter me chamado pra te trazer.

— Passei a semana tentando convencê-lo a trabalhar numa cura, mas ele recusou-se a trabalhar para “criminosos”. Estou dando um tempo pra ele se acostumar com a nova situação. — Nem tentou disfarçar o sarcasmo. Virou-se pro homem atrás do vidro. — Mas não demore tempo demais, doutor.

Mauro levantou-se. Acionou uma pequena escotilha e passou o prato de comida, junto com um jornal muito amarelo. — Não sei porque eu guardei isso, mas talvez você queira ler. É difícil estar aqui, eu sei. Mas quando puder, pense sobre o nosso pedido. Você pode salvar o resto da humanidade. Talvez seja um trabalho que você queira fazer.

Quando se afastou, viu o prato intocado e o doutor olhando a capa do jornal. Foi por muito tempo a única coisa que tinha pra ler, então sabia de cor a manchete de capa “Epidemia devasta América do sul — Número de casos confirmados passa de dois milhões, segundo OMS”

Notas finais
* Quando Mauro e os outros chamam Shkreli de Mengele, é uma referência a Joseph Mengele, médico alemão que fez experiências tenebrosas em prisioneiros na segunda guerra. Não dá pra xingar um cientista de algo mais ofensivo que isso. Mais uma vez, a todos que permanecem lendo, muito obrigada e até o próximo capítulo.