Made of Stone

74 LVIII. De todos os reencontros do mundo - Pt. I


Notas iniciais
Esse vai ser agridoce e muito desconfortável. Estão avisados. Boa leitura!

Irremediável.

Era isto o que eu sentia, que o giro de trezentos e sessenta graus que minha vida acabava de dar tornava esta bagunça irremediável. Tudo parecia o mesmo, o mundo girou e parou no mesmo lugar. Eu continuava sendo eu, ainda estava na minha festa surpresa na casa do Ian com os meus amigos, tudo isto organizado pelo meu namorado, que seguia me esperando lá fora onde eu havia deixado as coisas como elas estavam: do jeito que se construíram e tomaram forma ao longo de meses. E ainda assim, nada mais era o mesmo, e eu jamais poderia voltar para onde eu estava um minuto atrás.

Eu estava irremediavelmente fodido.

Ainda sem processar o que estava acontecendo, eu vi que Alex tinha abraçado o Ian e que eles estavam no meio de uma conversa. A porta seguia aberta às suas costas, seu primo estava à sua frente, e seus olhos pousaram em mim quando o sorriso vacilou. Algumas pessoas estavam às minhas costas em meio ao corredor, afinal, haviam sido elas que bloquearam a minha visão da porta, inicialmente, até que eu tivesse passado por elas e estancasse bem ali. E o mais irônico é que eu estava imediatamente ao lado da bancadinha na qual jazia o meu celular esquecido.

Assim que engolido pelas orbes negras, eu não consegui sair de sua órbita.

Seus olhos não hesitaram, mas ele hesitou, e quando se moveu na minha direção, seus passos vacilaram com incerteza e receio. Havia tanta coisa ali, na imensidão escura do seus olhos, que eu sequer conseguia entender uma sequer. Ele pareceu testar as águas ao se aproximar, até que estivesse bem na minha frente, diante de mim pela primeira vez desde aquela noite em que foi embora. A noite em que dançou lento comigo, segurou minha mão, olhou nos meus olhos, me abraçou forte, disse que me amava e pediu muito mais do que eu poderia dar.

Seus olhos vasculharam o meu rosto como se quisessem ilustrá-lo, perpassando meus olhos, meu nariz, minha boca, antes de fazer o mesmo caminho outra e outra e outra vez. Eu não conseguia tirar os olhos dos seus, as orbes escuras como buracos negros pareciam atrair as minhas como se gritassem pela minha alma — e por tudo o que era mais sagrado, ela queria se entregar.

Antes que eu pudesse ter alguma reação, qualquer reação, além de simplesmente contemplá-lo, eu fui engolido pelos seus braços. Eu pisquei, tamanha força de seu abraço que dei um passo para trás ao cambalear antes de firmar os pés no chão outra vez. Os meus olhos, na ausência do universo escuro, fecharam-se ao inspirar seu cheiro.

Eu me senti fora de órbita, como se eu não fosse eu, como se eu não tivesse controle algum sobre mim.

Seu abraço seguia sendo confortável, relembrei, e seu cheiro seguia sendo o mesmo, um perfume que eu não conhecia mascarando-o vagamente, um perfume que eu gostei. Seu amparo era morno, mas fez sentir como se minha pele queimasse ao mero contato da sua roupa com a minha. Eu diria que podia sentir seu coração batendo no peito, mas devia ser o meu, ainda furioso e descompassado. Minhas mãos haviam cercado seu corpo, percebi, e por algum motivo, ele parecia menor e mais magro do que deveria, e isso me fez querer abraçá-lo ainda mais. Eu o senti inspirar contra o meu pescoço e um arrepio subiu pela minha coluna ao passo que eu estranhava a sensação que pinicava a minha pele.

O abraço desfez-se — por vontade minha, por vontade dele, porque tinha que se desfazer. Eu me senti vazio tão logo seu peito desencostou do meu, novamente sendo levado para a memória do nosso último abraço, um ano e meio atrás. E eu estava me esforçando muito para não me despedaçar ali mesmo — era esta a sensação aterradora, de que eu iria partir em mil pedaços a qualquer momento.

Quando ele se afastou, eu percebi as diferenças.

Sua fisionomia parecia diferente do que eu me lembrava, a barba de uma semana que pinicava a minha pele era um detalhe novo mas que pareceu cair tão bem em seu rosto bonito. Abaixo da escuridão dos olhos, haviam olheiras um pouco disfarçadas que indicavam cansaço, mas o brilho de vida das orbes escurecidas indicavam que ele estava completamente bem, ao contrário do que um dia esteve. E, principalmente, Alex havia diminuído. Foi o que eu inicialmente pensei, desde que eu o vi e abracei seu corpo, que ele parecia menor quando circundei os braços em torno de sua cintura.

Meus olhos buscaram confirmação de que ele houvesse emagrecido muito mais do que parecia pelas fotos que vasculhei, mas seu rosto não deixava transparecer nenhuma diferença de peso significante. Então eu raciocinei que quem havia crescido havia sido eu — e eu já havia percebido isto com relação ao Mason, por exemplo, porque ele era mais baixo que eu agora, mas nunca havia pensado como seria com o Alex. Nós estávamos praticamente da mesma altura agora, isto se eu não houvesse passado da sua, mas imaginei que fosse impressão.

Alex tinha o cenho franzido minimamente ao levar uma mão para o topo da minha cabeça, como se também percebesse a diferença, mas por um tempo, ele nada falou. Eu pisquei, ainda atordoado, contemplando os seus detalhes como ele parecia contemplar os meus, e estremeci quando seus dedos acariciaram meus cabelos. Prendi a respiração, seu cheiro entorpecendo meus sentidos, e senti quando sua mão desceu pela lateral do meu emaranhado de cabelos, acompanhando um fio longo e liso até a ponta, um arrepio novamente arrancando pela minha coluna.

Quando sua mão encontrou meu rosto, os dedos parecendo tão trêmulos quanto meu corpo inteiro estava, eu tive que lutar contra a vontade de fechar os olhos e inclinar na direção do toque. Os dedos finos acariciaram minha bochecha, a cabeça inclinando para o mesmo lado que eu gostaria de inclinar a minha, os olhos percorrendo o meu rosto como se pudesse memorizá-lo.

Não era o mesmo que eu fazia?

— Feliz aniversário — murmurou a voz perfeita, tomada de ternura incomensurável, antes que medo perpassasse seus olhos o suficiente para acrescentar: — Desculpa...

O pedido por perdão soou inacabado, como se houvesse uma continuação, e ele chegou a abrir a boca para finalizar, mas nada saiu. Ele a fechou, o franzir entre as sobrancelhas aprofundando-se, ao passo que ele deixava a mão cair para longe de mim. Havia um receio extremo no seu olhar, seus ombros começaram a encolher-se, como se ele quisesse se esconder dentro de si mesmo.

A expressão vacilante também era uma expressão medrosa, e mais tarde eu entenderia que era pela incerteza de como eu iria reagir a ele.

— Caleb — disse, e eu quis ofegar quando ouvi meu nome —, me desculpa por aparecer sem avisar. — Eu não tive certeza se suas palavras saíram mesmo cautelosamente ou se o mundo ainda estava em câmera lenta. — Eu quis mandar mensagem antes e... Mas eu fiquei com medo de você não deixar que eu quebrasse meu pedido de novo e eu... Eu só queria te ver, pelo menos um pouquinho... Só um pouquinho e... E agora que eu te vejo, eu só...

Um suspiro escapou de seus lábios, que haviam entortado para um sorriso leve na última frase, a combinar com os olhos brilhantes. Suas palavras pareciam vagar, sem muito raciocínio, as frases inacabadas esquecidas quando novas tentativas iniciavam, como se ele sequer conseguisse concluir um pensamento. E eu observei tudo da minha própria lente fora de órbita, tentando entender, tentando funcionar, tentando destravar.

Quando Alex abriu a boca novamente, não houveram mais tentativas de falar além de um sussurrado: — Me desculpa.

Meu cérebro de gelatina pareceu tornar-se um estado normal porque eu não consegui sair dali, meu sistema operacional inteiro dando pane, emitindo alertas por toda parte. Ao mesmo tempo, naquela câmera lenta que parecia se demorar, havia uma parte de mim que estava simplesmente dormente. Eu não consegui raciocinar, então eu estava apenas ouvindo e absorvendo as informações, memorizando o que eu podia.

Na ausência de uma resposta, meu silêncio gritando, ele acrescentou um inseguro: — Eu vou embora agora mesmo, Caleb... se você quiser.

Eu não conseguiria responder naquele estado, acredito eu, mas também não precisei, porque alguém puxou-o para longe de mim. No fundo, eu dei graças aos céus, porque eu não conseguia respirar com ele existindo na minha frente. Eu franzi o cenho, tentando registrar algo além dele ser arrancado da nossa momentânea bolha, mas acredito que fosse a voz do Ian que eu ouvi. As vozes ao redor começaram a tornarem-se mais altas, junto do retumbar ao fundo da música, e eu entendi que um Ian muito alcoolizado arrastava o primo em direção aos amigos conforme eu tinha um curto-circuito interno.

Um estalo aconteceu, a dormência passou e o tempo pareceu correr ainda mais rápido do que deveria.

Eu o observei ser levado ao longe, falar alguma coisa impaciente para o primo, e olhar para trás, os olhos parando nos meus apenas por um segundo antes que fosse forçado a olhar para frente de novo. Enquanto isto, eu começava a ter um pequeno e localizado surto.

Quando eu consegui me mexer, eu tremia mais do que vara verde, ligeiramente tonto com a velocidade com a qual o sangue circulava no meu corpo, e tive que me segurar na bancada para recuperar o equilíbrio. Meu cérebro bugado processou que aquele aparelho esquecido ali era meu e uma das minhas mãos trêmulas enfiou-o no bolso da calça jeans. Alguns pensamentos disparavam na minha cabeça, enquanto eu pesava minhas opções — uma delas, muito brilhante e muito segura, estava há alguns passos de distância: a porta, pela qual eu desejei muito fugir. Mas entre os milhares de pensamentos, a decisão se tornou unânime por inúmeros motivos — um deles sendo o Chris — de que eu deveria me arrastar para dentro da festa — da minha festa —, pelo mesmo caminho pelo qual ele andou.

Foi o que eu fiz, sem saber como estava fazendo, mas eu fiz.

Meus olhos voaram pelo recinto, em alerta, como se eu estivesse em perigo e buscasse a fonte dele, mas ao invés dele, deparei-me com o Chris e congelei no lugar.

Ele parecia estar me procurando, estando no meio da sala onde haviam algumas pessoas, quando o olhar castanho acalorado encontrou o meu. Eu não consegui distinguir no meio das pessoas, mas eu tinha certeza que Ian havia arrastado Alex até o lado de fora e, a julgar pela expressão perdida do meu namorado — céus, ele era meu namorado! —, eles não haviam se esbarrado no caminho.

Eu tentei um sorriso desconfortável, mas não sei se consegui, quando ele parou na minha frente.

Chris me olhou, confusão nas orbes castanhas quando analisou-me brevemente. Ele disse alguma coisa sobre ir ao banheiro, mas também sobre eu não haver voltado, e algo sobre o meu celular. E então ele ficou em silêncio por um tempo razoável de tempo até que eu percebesse que eu devia falar mas não havia ouvido o suficiente para responder a conversa em si.

Chris inclinou um pouco o rosto para o lado, confuso. — Você tá bem? — perguntou, tentando ler minha expressão, e eu sinto que assenti, mas não tenho certeza. — Você tá pálido. Tá enjoado? Bebeu demais? — perguntou, um vinco entre as sobrancelhas, mas minha mente estava berrando.

Muitas vozes emaranhavam-se em tantas linhas de raciocínio paralelas que meu sistema inteiro estava entrando em pânico. Não havia maneira no mundo que eu pudesse me preparar para isto e eu nem sabia por onde começar. Encarando as orbes límpidas e preocupadas do meu namorado, sabendo que em algum lugar nesta mesma casa estava ele, porque minha nuca ainda formigava como se pudesse senti-lo existir perto de mim, eu me perguntei como diabos eu iria contar ao Chris. Ao mesmo tempo, eu sabia que ele iria descobrir de uma maneira ou de outra — Alex estava bem ali em algum lugar, pelo amor de deus —, então deveria ser por mim.

E o que caralhos eu digo?

E o que caralhos eu faço?

E o que caralhos eu sinto?

Tudo o que eu conseguia pensar que era que bastou um olhar. Foi tudo o que bastou, a porra de um olhar, e um olhar apenas fodeu tudo. E eu não sei por que caralhos os palavrões começaram a correr soltos, mas aqui estavam, como muitas coisas simplesmente começaram a correr soltas pela minha mente, berrando, esperneando, vibrando.

Minhas pernas estavam bambas, literalmente, elas oscilavam como se não houvesse força no mundo que aguentasse o peso do meu corpo. Eu devo ter respondido alguma coisa ao Chris, eu devo ter dito algo, porque ele assentiu hesitantemente e logo sua atenção desviou. Eu peguei o celular do bolso para ligar a tela, tentando agir normalmente conforme também distraía a minha mente, mas o aparelho oscilou nas minhas mãos trêmulas e eu percebi que tudo tremia.

Eu estava trêmulo da cabeça aos pés.

O sentimento que Alex despertava em mim era tão intenso, tão avassalador, tão profundo. Como é que eu sentia isto antes, todo dia, e ainda conseguia parar em pé? Será que eu estava em abstinência? Será que era isto? Eu fui privado tanto do Alex quanto do que eu sentia por ele por tanto tempo que eu sequer lembrava da sensação, e agora que eu aspirava um pouquinho dela, meu corpo entrava em choque?

Por deus, eu preciso me acalmar.

Como se o universo discordasse, debochando da minha cara, Chris balbuciou: — Aquele é o...?

Eu ergui o olhar para ele, mas seus olhos não estavam em mim e eu sabia exatamente onde eles jaziam. Engoli em seco, seguindo as orbes o suficiente para deparar-me com o Alex à distância, próximo da porta que levava ao pátio, entrando no recinto onde estávamos. Haviam poucas pessoas naquela parte, então dava para ver claramente que ele estava debaixo do braço do primo alcoolizado, que balbuciava coisas sem sentido, MJ atordoada logo atrás, seus olhos escaneando o lugar como se procurasse por algo.

E eu nada pude fazer além de assentir, quando senti — e não ousei olhar — os olhos castanhos pousarem em mim em uma interrogativa. Eu apenas assenti, porque sim, aquele era ele.

— Você sabia que...?

Novamente, a pergunta ficou inacabada, mas desta vez, imagino que era porque eu respondi antes dela chegar ao fim, balançando a minha cabeça violentamente de um lado ao outro. Quando imaginei o que Chris veria na minha cara, apavorado, eu senti que meus olhos estavam arregalados e tentei relaxar a expressão novamente. E eu não tive coragem de olhar para o meu namorado — e não tive forças para tirar os olhos do Alex, com medo de que, se eu piscasse, ele já não mais estivesse ali.

Céus, o quão fodido é isto?!

Alex me localizou um segundo depois, como se as orbes escuras também fossem atraídas para as minhas, e ele pareceu incomodado quando teve que desviar o olhar outra vez para dizer algo ao Ian. Meu amigo seguia falando e, a julgar pela falta de equilíbrio, eu diria que suas palavras estavam arrastadas. Alex colocou uma mão em seu ombro e falou mais alguma coisa, sério demais a ponto do Ian deixar seu riso morrer, assentindo como uma criança grande que leva bronca.

E então lá estava ele novamente, os olhos presos em mim.

Um pânico subiu pelo meu corpo quando percebi que ele estava vindo na minha direção e eu disparei meu olhar para o Chris, apenas um pouco aliviado que ele não estivesse testemunhando de primeira mão o meu mais completo desespero. O alívio não durou muito, no entanto, porque percebi que as orbes achocolatadas que não observavam meus movimentos estavam presas no Alex, que parou há uns dois passos de mim.

Alex não pareceu perceber a existência do Chris à minha direita, um vinco preocupado na testa, a escuridão em mim. E eu senti, mais do que vi, meu coração afundando um pouco mais no peito, que Chris pareceu dar um passo para longe de mim.

— Caleb, desculpa mesmo — foi logo dizendo, uma expressão culpada atingindo seus traços bonitos. — Eu não planejei isto, não realmente, eu não quis causar tumulto — falou, e eu pensei que talvez fosse isto o que aconteceu quando nossos amigos o viram: um localizado tumulto. Mas então sua boca fechou e ele fez uma careta, como se recém se desse por conta que ele causaria tumulto de qualquer forma, querendo ou não. — Eu só... — Suspirou. — Desculpa, quando sua mãe falou que você tava aqui e quando o Ian me disse que era uma festa, ainda assim, eu não imaginei que fosse tão... E que tivesse tanta... — Suspirou outra vez. — Desculpa, Caleb, mas depois que sua mãe falou sobre a festa, eu mandei mensagem e acho que você nem viu e eu... Eu esperei umas duas horas e... Mas se você me mandar embora, eu juro que vou. Depois de tudo o que aconteceu, depois de tudo o que eu causei, eu não iria...

— Tá tudo bem — disparei, entrando em pânico, antes que ele continuasse.

Meu cérebro começou a destravar e raciocinar rápido demais, buscando alternativas e saídas da situação, ativando o pensar e bloqueando todo o sentir que havia sido demasiado para começo de conversa. Então, naquele momento, sentindo a presença calorosa do meu namorado ao lado, tudo o que eu pensei era que o Alex começaria a pedir desculpas por mais coisas além do que deveria — e balbuciar mais coisas que não deveriam ser para os ouvidos de Chris.

Eu vi quando a aflição vacilou em seus olhos, e ele deixou escapar um miúdo e descrente: — Tá tudo bem mesmo?

Engoli em seco, mas assenti, vendo que ele pareceu não acreditar. Ainda assim, Alex soltou um suspiro e relaxou um pouco os ombros, dando mais um passo ao me analisar. Um pequeno sorriso hesitante brotou nos lábios, os olhos parecendo acariciar meu rosto e eu senti que não deveria respirar em falso.

— Você deve ter crescido uns dez centímetros. Meus olhos — falou, soando divertido e curioso, indicando as orbes escuras com o indicador — ainda tão se acostumando a não olhar pra baixo quando falo com você. Quando é que isso aconteceu?

Eu pisquei, perguntando-me a mesma coisa, sem saber responder.

— Eu só percebi agora — murmurei, atordoado.

O sorriso em seu rosto aumentou, como se achasse algo cativante na minha resposta, quase como se sentisse aliviado por ela. Eu apenas pisquei, tentando entender, mas ele desviou o olhar rapidamente para o lado por uma milésima de segundo, como se recém percebesse o Chris, mas não o percebesse ao mesmo tempo, os olhos retornando a mim. Imaginei que ele deve ter pensado que era apenas um conhecido esperando a conversa acabar para se aproximar de mim novamente, e o pensamento por si só fez meu estômago revirar.

Fiquei ainda mais tenso e ele pareceu perceber, a aflição retornando às orbes negras, uma mão levada ao pescoço para coçá-lo em nervosismo. Ele parecia nervoso, receoso, como se estivesse pisando em ovos. Soou como se estivesse tentando puxar conversa sobre o tempo quando perguntou, em um murmúrio: — O que deu em você?

— O quê? — murmurei, pateticamente, sem entender.

— Você não gosta de aniversários — apontou, um sorriso divertido e hesitante, e eu retesei no lugar, sentindo todo o sangue sumir do meu rosto.

Senti meus olhos alargarem um pouco mais, meu corpo tenso ao relembrar de Chris, e respondi, fraco: — Foi surpresa.

Alex franziu o cenho, piscando em confusão, quando apontou: — Todo mundo sabe que você não gosta de surpresas. — E, pela minha reação estática e mortificada, ciente demais do olhar que Chris disparou para mim — eu pude senti-lo na pele —, Alex acrescentou, gaguejado: — Não que... — começou, mas pigarreou, desconfortável. — Talvez você goste agora. Eu não saberia...

— Não, não saberia — cortei, mas arrependi-me no mesmo instante, percebendo como a acidez soaria para o meu namorado.

Eu deveria fazer alguma coisa que reconhecesse a presença do Chris ao meu lado o suficiente para que Alex se desse por conta, identificá-lo ou apresentá-lo, qualquer coisa que me tirasse desta situação. Mas aquilo havia ido longe demais e, se eu dissesse alguma coisa agora, soaria muito estranho, até porque, Chris também não fez questão alguma de interromper a conversa. O passo que ele havia dado para longe havia sido largo o suficiente para que nem parecesse que ele estava me acompanhando, mas perto o suficiente para que parecesse estranho estar parado sozinho ali. Podia ser uma distância educada de privacidade ao entender que não fazia parte daquela conversa, mas também me pareceu que era uma distância segura para ele mesmo, como se quisesse entender a situação sem meter-se nela. E, de qualquer forma, era uma distância pequena o suficiente para que dissesse que ele havia deixado em aberto que eu o trouxesse para a conversa, e eu simplesmente não conseguia fazer isto.

Eu estava travado demais.

Eu debatia sobre o que fazer quando Alex finalmente disse, em um tom doído e pesaroso: — Eu sei, me desculpa, Caleb, eu...

Aquilo tocou um nervo que não devia e uma irritação subitamente subiu pela minha garganta quando eu disparei: — Por que você tá aqui, Alex? — mas minha garganta estava seca e não saiu mais do que um murmúrio fraco, com raiva enfraquecida.

Alex piscou algumas vezes, parecendo murchar um pouco, antes que tivesse alguma reação. Ele remexeu-se no lugar, trocando o peso de perna, obviamente desconfortável. Abriu e fechou a boca algumas vezes, mas ao mesmo tempo em que parecia não saber como se explicar, eu também pensava que não explicação alguma que fosse plausível.

Não depois de tudo.

— É o seu aniversário, Caleb — murmurou, enfim, parecendo derrotado, como se soubesse como aquilo soava inconcebível. — Eu não quis perder outro aniversário seu. — Eu pisquei, sentindo minha respiração acelerar ainda mais, os pensamentos frenéticos sem saber para onde correr, mas não pude fazer nada além de franzir ainda mais o cenho. Ele suspirou, então. — Mas eu devia ter avisado. Sinto muito.

Alex pigarreou, como se entendesse que nada justificava, e então estendeu a mão de modo que eu descesse os olhos para o pacote que ele vinha segurando desde o início. Era este o nível do quão fodido eu estava: o pacote provavelmente estava na sua mão o tempo inteiro, até mesmo quando me abraçou, e eu sequer percebi.

— Hoje eu só queria te ver e, bom, te entregar algo. — Eu apenas desviei o olhar do presente para ele e de volta para o presente. — Eu sei que não é um presente original também, porque eu te dei algo parecido antes, mas eu não consigo pensar em nada que você ame mais do que desenhar.

Alex o balançou uma vez, em nervosismo, para que eu pegasse logo, e minhas mãos moveram-se por conta própria. Eu fiquei cem por cento mais nervoso quando tive que colocar mais força do que pretendia ao segurá-lo, sentindo que era pesado. Tentando ao máximo disfarçar o quanto elas oscilavam, eu tentei desembrulhá-lo o mais rápido possível, até que eu me deparasse com uma maleta de desenhos de madeira.

Puta que pariu.

Minha visão saiu fora de foco quando desviei o olhar da maleta preta para o Alex e de volta para a maleta, sem encontrar coragem para abrir. Podia não ser a versão mais cara de uma maleta de desenho profissional, mas continuava sendo caro — aquilo era madeira, pelo amor de deus. Enquanto eu tinha um surto momentâneo, meus dedos trêmulos perpassaram a madeira ao tentar raciocinar o que dizer, mas pararam ao encontrar uma irregularidade na superfície.

— Pedi pra colocarem suas iniciais — contou, quando arregalei um pouco mais os olhos, a visão tornando a focar —, porque, bom... Porque sim.

Ali estava, no canto inferior direito, em uma cor marrom-madeira — o que devia ser a cor original da maleta por trás da tinta escura -, as iniciais encravadas: C. A. J.

— Eu... — comecei, mas não soube o que dizer, meu coração batendo tão alto que meus ouvidos latejavam. — Eu nem... — Engoli em seco, a maleta praticamente vibrando pelo tremor das minhas mãos, erguendo os olhos para ele ao deixar os ombros caírem. — Eu não posso aceitar.

Alex negou prontamente, mas eu estava estendendo a maleta de volta como se minha vida dependesse disso, e ele não deixou, um vinco preocupado entre as sobrancelhas. — Não diz isso. Pode sim, eu comprei pra você.

Hesitei, ainda em pânico, quando murmurei: — Você não devia ter comprado nada.

Alex negou, colocando as mãos nos bolsos para declarar que não iria pegar o presente de volta. — Bom, eu comprei — declarou, apenas. — Não tem reembolso — pensou em falar, com um sorriso de canto. — E eu não sei desenhar, então vai ser um desperdício me devolver isto.

Aquilo me fez pensar que o Alex podia estar começando uma carreira de músico, com perfis profissionais e apresentações ocasionais em bares, mas ele seguia sendo apenas um trabalhador, sem qualquer apoio financeiro que não o próprio. Ele não havia vindo para a formatura dos nossos amigos, para se ter noção, porque ele precisava se apresentar para ter uma chance de um futuro. E aquilo era uma maleta de desenhos de madeira!

Eu apertei-a ainda mais contra os meus dedos, sentindo-me pequeno, e acabei cedendo. Aquilo tinha tomado bastante dele e não havia maneira no mundo que alguma loja, qualquer loja em pleno século vinte e um, aceitasse devolução sem defeitos — às vezes, até com defeitos, eles apenas faziam trocas.

— Obrigado — murmurei, murcho, trazendo a maleta para o meu peito para segurá-la mais firme ao disfarçar o tremor.

Talvez tenha sido isto que chamou a atenção do Alex para o pingente no meu pescoço, porque depois que abriu um sorriso um pouco mais relaxado, ele franziu o cenho, levando a mão para ele. Eu retesei o corpo inteiro, vendo-o pegar o pingente entre os dedos com curiosidade, mexendo nele de tal maneira que puxou o segundo pêndulo junto, observando-os com um inclinar da cabeça confuso.

Que o chão me engula e me salve desta situação, pelo amor de Odin!

Fiquei subitamente ciente da presença ao meu lado — puta que pariu, o Chris ainda estava ali — e em como eu tive que lutar contra a vontade de fisicamente arrancar a mão do Alex do pingente do Chris. Era a mesma sensação de quando o Chris havia pego o pingente de bala entre os dedos, elogiando e dizendo que ficava bem em mim. Eu me senti quase violado nas duas vezes.

— E isto? — perguntou, com um riso fraco, provavelmente notando que haviam duas iniciais iguais. — Isso tudo é amor próprio? — perguntou, e o toque de carinho em sua voz me fez encolher um pouquinho.

Eu praticamente olhei ao redor em busca de salvação, a menção ao Odin me fez lembrar do Mason e eu vasculhei as costas do Alex o suficiente para encontrar alguns dos nossos amigos ao fundo. Nenhum deles focava exatamente na gente, no entanto, e nenhum poderia me salvar.

— Não.

Os olhos escuros desviaram automaticamente para o meu lado, de onde veio a negativa, ao passo que Chris dava o passo em minha direção — o passo que havia dado para trás dois minutos atrás.

Alex piscou, analisando-o com curiosidade, e o fato de algum reconhecimento passar pelo seu rosto havia me deixado ainda mais alarmado — desta vez, Alex parecia enxergá-lo ao invés de só passar os olhos por ele. Eu não consegui me mexer, eu não consegui desviar o olhar do rosto do Alex porque ele estava na minha frente e meus músculos endureceram, da cabeça aos pés, tão imóvel que não ousei sequer piscar.

Aquilo estava acontecendo, e a voz do meu namorado, que soou tão esgotada quanto irritada, disparou muitos alertas na minha cabeça. Minha mente subitamente ativou os palavrões novamente, gritando-os como um mantra, como se isto pudesse me fazer acalmar.

Porra, porra, porra, porra, porra, porra, porra, porra, porra, porra.

— O quê? — perguntou Alex, soando perdido, e eu sequer pisquei.

Pela visão periférica, eu vi que Chris deu de ombros, e a voz soou mais controlada de um jeito bem passivo-agressivo quando falou novamente: — Eu disse que não, não é amor próprio, o pingente — especificou —, é amor de outra pessoa.

Alex pareceu um meme de contas matemáticas quando estreitou um dos olhos em confusão ao passo que uma careta ainda mais perdida se apossava do seu rosto. Chris aproveitou o momento de dispersão dele para estender a mão e, desta vez, eu consegui desviar o olhar o suficiente para encarar a mão estendida ao meu lado.

— Prazer, Alex, meu nome é Christopher, mas todos me chamam de Topher — apresentou-se, rapidamente, e eu tive que olhar para ele quando senti que os olhos castanhos desceram para mim. Encontrei o olhar achocolatado, lutando contra a vontade de me encolher, e eles pareciam me perguntar alguma coisa que eu não soube responder. Mas, parecendo satisfeito com a resposta que eu nem sabia se dei, meio segundo depois, ele tirou os olhos dos meus quando acrescentou diretamente ao Alex: — Eu sou o namorado do Caleb.

Era um acidente de carro e eu não conseguia desviar o olhar.

Alex pegou a mão do Chris no meio do caminho, quase como instinto: alguém estende a mão e você simplesmente aceita, e eles a apertaram assim, enquanto ele ainda parecia perdido. Demorou poucos segundos mas, quando Alex raciocionou o que havia sido dito, eu vi o exato momento em que a compreensão recaiu sobre seus olhos alargados. E eles recaíram sobre mim, ainda com tamanha força que eu tive que apertar a maleta mais para não me desmanchar em mil pedaços — ainda era essa a sensação. Eu não tinha ideia de como eu seguia em pé ou inteiro ou exatamente que tipo de cola mantinha todas as minhas partes unidas.

Um som baixo saiu de seus lábios em “o” logo em seguida, sem dar muita chance para maior racionalização: — Ah.

Se meu cérebro tomasse alguma personificação, ele seria um carinha correndo em círculos em torno da minha cabeça, berrando o quão alto poderia.

Alex balbuciou, sem lógica e sem sentido, por algum tempo: — Você... Vocês... — começou, em um gaguejo confuso, porque apesar de já haver entendido, alguma coisa ainda estava deixando-o bastante perplexo. — Ah, eu não... — Em seguida, ele literalmente sacudiu a confusão mental para longe quando balançou a cabeça de um lado ao outro e a firmou em seguida. Um riso nervoso saiu da sua boca e eu estremeci. — Caralho, me desculpa.

As mãos finalmente se separaram e Alex seguia olhando de mim para Chris e de Chris para mim em pura perplexidade, como se realmente não esperasse isto. Muita coisa estava passando pela minha cabeça, como o porquê dele não saber — afinal, ele conversava com todo mundo — e se ninguém teve coragem de contar a ele. Ou como isto confirmava que ele jamais perguntava sobre mim ou vasculhava as minhas coisas, reforçando o quanto ele me queria longe da sua vida, apenas para aparecer aqui do nada no meu aniversário. Ou como...

Perdi a linha de raciocínio quando os olhos, agora mais firmes e intensos, pousaram em mim, toda a perplexidade sendo substituída por compreensão, em meio a outros sentimentos que eu não ousava nomear. — Eu... — começou, em um fiapo de voz que soou desolado. — Eu não sabia que você tava namorando, Caleb.

Chris não falou nada e eu sequer me mexi, mas meu coração bateu, ardeu, encolheu, pareceu sangrar por ele naquele momento. E então os olhos do Alex pousaram em Chris novamente, com aquele reconhecimento mais solidificado, e ele soltou mais um riso cuja alegria nunca chegou aos olhos.

— Nossa, desculpa, parece que não nos vemos há séculos, eu... — Riu, como se para disfarçar, ao alternar os olhos entre eu e o meu namorado. — Eu fiquei bem perdido aqui — explicou, engolindo em seco, sabendo como nós três sabíamos que aquilo não era explicação suficiente. Então, perguntou, com uma careta mínima, para nós dois: — Há quanto tempo?

Depois de alguns segundos em que eu continuei travado, Chris em silêncio como se esperasse que eu respondesse, ele, enfim nos tirou do sofrimento: — Três meses e contando — enfatizou, com um sorriso tenso, apesar da marca de três meses ser fechada semana que vem, mas isto não era relevante.

Ainda assim, isso fez Alex praticamente murchar, e ele não conseguiu disfarçar desta vez, quando os olhos pousaram em mim: — Você... — A expressão começou a ficar vazia, a intensidade inteira só no olhar, quando murmurou, ausente: — Você realmente fez o que eu pedi.

Meu coração encolheu-se ainda mais aqui dentro, mas eu continuei estancado no chão, a maleta pressionando meu peito para aliviar um pouco a dor familiar, meus olhos esbugalhados.

Alex pigarreou outra vez, como se afastasse todo o desconforto, e um sorriso alegre se formou em seu rosto, como uma máscara esquecida que subitamente se elevava sobre sua expressão: — É um prazer, é claro, eu sou o Alex — apresentou-se, dirigindo-se diretamente ao Chris, os lábios esticados em um sorriso largo que não chegava aos olhos.

Chris assentiu, sorrindo de volta, muito mais fracamente do que Alex, antes de dizer: — É, eu sei.

Alex piscou, embora parecesse distraído, como se não estivesse ali realmente: — Sabe?

Chris assentiu, relanceando-me ao lado, de forma que os olhos do Alex também vaguearam sobre mim sem se demorar muito ali. Ele deu de ombros. — É, você deixou sua marca — decidiu dizer, em reconhecimento. — Ouço falar de você desde que entrei na panelinha. Todos sentem sua falta, eles gostam muito de você — optou, estranhamente, por dizer.

Alex engoliu em seco, a expressão oscilando, antes de assentir. Soltou um riso seco, soando amargo, antes de assentir. — A panelinha — murmurou, compreendendo. — Você faz parte dela — e não foi uma pergunta —, é claro que faz. Que bom — declarou, focando os olhos em Chris, sorrindo de uma maneira um pouco mais genuína, desta vez. — Fico feliz.

Chris desviou os olhos para mim ao mesmo tempo que desviei os olhos para ele, encontrando-nos no meio do caminho, e eu não consegui segurá-lo por muito tempo, mirando meus próprios pés.

Como se ouvidas as minhas preces — muito atrasadas —, uma comoção se fez às costas do Alex com nossos amigos. Ian havia começado a cantar muito alto, acima da música, e alguns dos nossos amigos tentavam arrancá-lo de perto da caixa de som — porque ele parecia querer diminuir o volume da música para cantar. Alex virou para trás, como se também estivesse aliviado pela interrupção, e nós três observamos quando Grace xingou Ian e o puxou para trás, no meio de um esporro, mas o bocaberta escorregou e, com o equilíbrio de uma girafa alcoolizada, esborrachou-se no chão.

Grace foi levada junto, é claro, e como Cristina estava junto dela ao tentar ajudá-la com o Ian, Cristina foi puxada pela mão de Grace também, como um efeito dominó. Os três estavam atirados no chão quando Dan começou a gargalhar junto de Korn e de Bex, tanto que curvou-se sobre o próprio corpo ao passo que Korn perdia a força nas pernas e se desmanchava no chão aos risos. Um preocupado Mason tentava ajudar sua namorada a se levantar, antes de qualquer pessoa, e MJ também correu para ajudar Grace, enquanto todos abandonavam o coitado do Ian.

Alex virou-se para nós rapidamente, com um suspiro pesado, antes de apontar para as suas costas com o polegar. — Bom, eu vou... — Pigarreou, relanceando-nos novamente, de um ao outro, antes de finalizar: — Eu vou cuidar daquilo ali antes que se torne um problema.

Chris assentiu e Alex assentiu de volta, tudo muito estranho e desconcertante, antes que ele me dirigisse um último olhar vazio e desse as costas, correndo para acudir seu primo.

Alguns segundos passaram-se sem que nem eu nem Chris ousamos nos mover ou olhar um para o outro, ao passo que eu seguia apertando a maleta contra o peito, diretamente abaixo do pingente de compromisso. A percepção disto não me passou desapercebida. E, assim que Alex saiu de vista, arrastando um Ian bêbado para dentro da cozinha, Chris entrou no meu campo de visão ao parar na minha frente, onde Alex havia estado.

— O que foi isto?

Senti meu coração falhar uma batida, a ansiedade começando a subir pela garganta como se fossem mãos que a apertavam. Era como se eu houvesse sido pego no flagra fazendo algo muito errado.

— O quê? — consegui murmurar, piscando.

Chris franziu ainda mais o cenho, os olhos segurando os meus com uma firmeza que eu nunca havia visto neles. Havia uma exigência ali, uma incredulidade, uma decepção profunda, que me fez lutar contra a vontade de me encolher.

— Caleb — retrucou, apenas, sem reticências, e eu engoli em seco. Ele ainda se demorou me encarando como se eu devesse me explicar, mas então, desistiu, e apontou: — Você me disse que vocês nunca tiveram nada.

Pisquei, sem me mover, quando retruquei rápido demais: — Nunca tivemos.

Chris suspirou, obviamente frustrado, antes de colocar as mãos na cintura, como se não soubesse onde colocá-las em exasperação. Demorou-se com o olhar em mim, como se questionasse como eu ousava dizer aquilo.

— Não é a isto que me refiro — falou, devagar, como se quisesse mastigar para que eu entendesse ou apenas quisesse dar um tempo a mais para que eu repensasse antes de mentir —, e você sabe. Você sabe — repetiu, quando abri a boca para responder.

Engoli em seco, desviando o olhar, sentindo-me minúsculo.

— Mas você sabe que a gente chegou a ficar — apontei, em um fiapo de voz, porque não havia como me defender nisto —, não foi nada demais.

— Nada demais?!

Encolhi os ombros, mais forte do que eu, quando novamente ergui os olhos para os seus, a incredulidade estampada neles. Sua voz saiu baixa, mas igualmente potente, porque eu senti toda a culpa que eu deveria sentir no mesmo instante. Estava ali, pulsando no meu peito, se fosse uma pessoa estaria querendo entregar-se com as mãos atrás da cabeça baixa.

— Você tá me dizendo que o que acabou de acontecer aqui, na minha frente, não foi nada demais? — exigiu, baixo e forte, a indignação vazando do som apenas perdia para a decepção. Eu não consegui responder, como poderia? Eu não tinha nada o que dizer em minha defesa, eu sabia muito bem como a conversa inteira com o Alex havia parecido para os olhos e ouvidos dele, do meu namorado, dentre todas as pessoas. — Você me disse que vocês ficaram e tudo bem, que seja — descartou, como se não fosse nada. — Mas, Caleb, pelo amor de deus, você deu a entender que o que você sentiu foi platônico.

Neguei, na defensiva, antes que pudesse evitar. — Eu não disse isso.

A expressão de Chris, então, tornou-se sombria e eu senti um nódulo começar a se formar na minha garganta. Ele estreitou os olhos então, disparando-os por cada canto do meu rosto como se tentasse entender quem era a pessoa diante dele, porque não me reconhecia — foi assim que pareceu, e aquilo doeu mais do que imaginei. Eu nunca o havia visto desta forma, e saber que eu havia causado isto me fazia sentir mil vezes pior.

— Não — retrucou, devagar —, como eu disse, você deu a entender — repetiu, como se eu estivesse me fazendo de idiota. — E não venha me dizer que isto é questão de interpretação, Caleb, não foi só uma conversa que a gente teve sobre isto — apontou, com muita razão e muita sobriedade. — E em todas elas, você disse a mesma coisa.

Abri e fechei a boca, mas eu não tinha defesa alguma, porque ele tinha a mais completa razão. Na primeira vez que falamos sobre o Alex, eu disse que não havia acontecido nada entre nós, mas na segunda eu confessei que a gente havia ficado um par de vezes — foi a expressão que eu usei. Eu havia sido evasivo de propósito, eu havia contado tudo pela metade de propósito, eu havia encontrado uma brecha para que não tivesse que mentir de forma que omitisse o suficiente da mesma maneira, de propósito. Chris não era um idiota manipulável, e agora eu também percebia que ele havia simplesmente me perguntado a respeito, sem nada acusar, sem julgar antes de saber. Eu é que estava fugindo de responder, de fato, o que era uma resposta por si só.

Eu balancei a cabeça de um lado ao outro e Chris quase bufou, incrédulo, os olhos extremamente sérios em mim, quando perguntou: — O que você tá negando?

A pergunta veio da mesma maneira como alguns pais perguntam para a criança: “por que você está chorando?” quando ela chora por besteira, a pergunta é para que a criança pare, pense e se dê por conta que nem ela tem um motivo plausível para estar chorando. E quando Chris perguntou o que eu estava negando, foi uma maneira de dizer que nem eu sei o que exatamente estou negando, sem pensar, apenas por negar.

E, bom, eu devia ter ouvido e parado para pensar, mas não consegui.

Eu não sei por que diabos eu sentia a necessidade de reforçar isto — talvez porque queria que ele entendesse que eu não estive mentindo para ele, por mais que tenha omitido algumas coisas —, de continuar negando o que eu considerava ser o ponto principal da discussão. Mas então eu neguei mais uma vez: — Nós nunca estivemos juntos. — E no momento em que eu verbalizei, eu percebi que havia sido a escolha errada, afinal, este nunca foi o ponto principal. Mas é que eu também não estava preparado para admitir isto para mim mesmo que haviam motivos pelos quais eu decidi omitir isto.

Chris bufou, estalando a língua, a expressão terminando de cair apenas em um completo desapontamento. Os olhos refletiam tanta mágoa que eu quis chorar e, assim que ele conseguiu dizer alguma coisa, ele disse carregado de desgosto na voz.

— É, bom — concluiu, com um riso seco —, tecnicamente, Romeu e Julieta também nunca “estiveram juntos” e isto não os impediu de casar e morrer um pelo outro, a história de amor mais fodidamente notória de todos os tempos.

Chris não esperou uma resposta, ele deu as costas e marchou para longe, e eu sequer tentei impedir que ele fosse. Afinal, que merda eu diria a ele, ainda mais depois da sua última frase?! Sua menção ao Romeu e Julieta — que, inclusive, lemos pela primeira vez este ano no colégio — simplesmente deixou escancarado da maneira mais didática possível que Alex e eu nunca havermos estado juntos não importava de porra nenhuma, aquele nunca havia sido o ponto, sequer era relevante.

Eu inspirei e expirei fundo pela boca, sentindo meus próprios lábios tremerem no processo, conforme eu tentava me acalmar e colocar os pensamentos em ordem.

Meus olhos deslizaram para as costas do Chris antes dele desaparecer pelo caminho que levava à porta da frente — onde eu havia me reencontrado com o Alex, e droga, minha cabeça não saía dali. Tentei não entrar em pânico, minhas inseguranças tentando me convencer de que ele realmente iria embora no meio do meu aniversário, da festa que ele mesmo planejou. E tudo isto por causa de um desentendimento sobre o Alex — nosso primeiro desentendimento desde que começamos a namorar, a ficar, caramba, desde que nos conhecemos, na verdade. Ele não faria isto, pensei, o coração batendo dolorosamente no peito, enquanto encarava o ponto por onde Chris havia sumido como se ele fosse magicamente retornar por ali um segundo depois.

Eu cheguei a dar um passo em frente, para ir atrás dele, mas não havia nada que eu pudesse falar ou que ele quisesse ouvir à esta altura do campeonato. Chris tinha todo o direito do mundo de ficar chateado e desapontado comigo, de haver ficar doído com tudo, e havia sido tudo culpa minha, porque...

Desviei os olhos para onde Alex também desapareceu pela porta da cozinha. Minha respiração oscilou outra vez e eu apertei ainda mais a maleta contra o peito, recém relembrando da existência dela, ainda ali, presa entre os meus braços e o meu coração.

Porque eu não pensei que ele fosse voltar.

Por mais que eu quisesse, que eu desejasse, que eu implorasse, que eu sonhasse com o seu retorno, que eu mantivesse uma faísca de esperanças sobre nós, a verdade é que essa faísca de esperanças era completamente infundada, impensada, irracional. A parte racional de mim nunca cogitou que ele voltaria, não depois da ficha haver caído sobre ele realmente ter ido embora, nem por um segundo, eu jamais pensei que existisse a mais remota possibilidade dele retornar.

Não existe isto de retorno — quem vai, não volta mais.

Então por que caralhos ele estava aqui?

Eu havia estado anestesiado demais, desde que eu o reencontrei, para me deixar sentir raiva ou rancor ou mágoa. Mas estes sentimentos começavam a me alcançar aos poucos, espalhando-se pelos meus ossos, meus músculos, minhas células, até que eu sentisse a cabeça latejar em ódio e minha visão avermelhar. Agora os pensamentos dormentes começaram a se agitar, saindo da inércia, todos de uma vez, junto de todos os sentimentos apodrecidos que eles resguardavam...

E vieram com força.

Notas finais
Amem, odeiem, mas me digam o que acharam!