Made of Stone
75 LIX. De todos os reencontros do mundo - Pt. II
Notas iniciais
Eu sabia que ele viria atrás de mim, de alguma forma, então esperei por ele.
Quando Alex apareceu, um tanto apressado, girando para dentro do corredor como se buscasse por algo, ele deu de cara comigo. O início de um grito espantado morreu tão logo começou quando ele frisou os lábios um no outro. Soltei um bufo nada feliz e peguei seu braço com a mão, arrastando-o até o escritório de onde vinha o único fiapo de luz do corredor inteiro e quase o joguei lá dentro antes que fechasse a porta atrás de mim.
Honestamente, o escritório do pai do Ian havia sido o primeiro lugar que eu havia encontrado para simplesmente respirar depois de tudo aquilo, onde eu deixei a maleta minutos atrás, em cima da mesa. Eu tive que acender a luz porque absolutamente todo o restante da casa não dedicado à festa estava escuro para que ninguém perambulasse por ali, onde a música ficava mais abafada. E quando eu cansei de andar de um lado ao outro, eu fui atrás dele, esperá-lo no corredor, até trazê-lo para cá.
Alex olhou para mim, as orbes negras alargadas, um vinco na testa.
Trinquei a mandíbula, a determinação oscilando apenas um pouco, visto que a raiva ainda efervescia em mim fortemente, quando olhei para ele pela primeira vez sem a dormência de antes.
Eu não quis perceber o quanto ele estava absurdamente lindo, talvez ainda mais do que já foi um dia. Fingi não ver a maneira como o cabelo em degradê nas laterais caía bem nele, brilhando enegrecidos, daquele jeito que fazia destacar os olhos da mesma cor. Não quis prestar atenção na forma como a roupa escura caía em seu corpo como se o abraçasse, o branco dos detalhes da camiseta preta iluminando a pele bronzeada. Desviei o olhar da barba de uma semana, odiando que tenha lhe favorecido de todos os ângulos possíveis.
— O que você tá fazendo aqui, Alex? — disparei, o óbvio, tentando me manter controlado.
Alex franziu o cenho, piscando algumas vezes quando apertei seu pulso um pouco mais no instintivo, e eu recém percebi que ainda o segurava, mas ele não reclamou do aperto. Soltei-o no mesmo instante, como se levasse choque, e quando ergui os olhos para ele, as orbes enigmáticas estavam muito culpadas.
Ele abriu e fechou a boca, mas no fim, tudo o que saiu foi um derrotado: — É seu aniversário, Caleb.
Eu o encarei pelo que pareceu muito tempo, sentindo um misto de incredulidade e raiva no peito, que apenas cresciam com o passar dos segundos em que ele não se explicava.
— E daí — chiei, entredentes — que é meu aniversário?!
Alex pareceu encolher-se minimamente com meu súbito bradejo, piscando repetidamente, e eu só consegui pensar que era bom mesmo. Eu iria morrer de frustração se ele não começasse a falar logo.
— Por que você tá aqui, na cidade, por que você veio?! — Certamente não foi por conta do meu aniversário, quis acrescentar, mas engoli as palavras. — Qual é o real motivo?!
Alex me encarou por um tempo, a ruga na testa, as sobrancelhas apontadas para o teto como se estivesse entristecido, quando eu é que deveria estar. Pareceu esforçar-se em encontrar uma resposta, e por um momento eu pensei que nem ele sabia. Afinal, eu também não conseguia pensar em nada que justificasse isto.
— Você quer saber... — murmurou, os olhos cautelosos sobre mim — por que eu tô na cidade ou por que eu quebrei meu pedido de novo?
Eu queria gritar na sua cara que eu não ligava para a porra dos seus pedidos egoístas e hipócritas do caralho; queria dizer para ele enfiar seus pedidos onde achasse melhor; queria dizer que eu sequer lembrava de pedido algum porque já havia seguido todos e nem lembrava mais da sua existência.
Tudo o que eu consegui, no entanto, foi encará-lo com raiva.
— Eu vim visitar minha mãe — optou por falar, e eu soube que haviam outras opções porque ele ficou tempo demais pensando sobre todas. Sua voz saiu baixinha, miúda, assim como ele parecia. — É por isto que eu vim...
Agora faz mais sentido, pensei, amargo, porque agora o cenário na minha cabeça parecia mais real. Ele estava visitando a mãe, por isto apareceu na cidade, e como ele estava na cidade, ele resolveu aparecer aqui apenas porque sim, porque é um egoísta de merda. Trinquei a mandíbula ainda mais, sentindo-me franzir ainda mais o cenho, meus pensamentos gritando que aquilo não era motivo suficiente para ele estar aqui, fisicamente, na minha frente.
— Mas eu escolhi vir agora por causa do seu aniversário, Caleb — contou, e eu hesitei um pouco, apenas um pouco, porque a raiva cedeu um espaço para a desolação ao ouvir aquilo.
Eu apertei ainda mais meus lábios, sentindo meus olhos arderem um pouco, mas tão logo senti, forcei meu corpo a parar de tentar chorar. Ouvir que ele havia pensado em mim, que ele queria fazer parte de um dia meu que é culturalmente importante, que ele apenas desejou estar na minha vida, me fez doer fisicamente. Aquilo era tão fodido, porque depois de um ano e meio, ele aparecia em um belo dia para dizer aquele absurdo, virando minha vida de cabeça para baixo, para então ir embora novamente.
Que porra?!
— Por causa de...? Você... — comecei, mas acabei bufando, tão incredulamente indignado que eu nem conseguia formular algo. — Como é que... — Mais um bufo e olhei-o com pura exasperação. — Você foi embora — grunhi — e agora você tá aqui, do nada — reforcei, incrédulo — por causa de um aniversário estúpido?!
Alex engoliu em seco, uma careta torturada tomando conta do seu rosto, e então ele suspirou pesadamente, balançando a cabeça de um lado ao outro ao negar. Ele passou uma das mãos no cabelo, em ansiedade, imaginei, ao passo que a outra se contorcia, como se estivesse em agonia, os olhos baixando para os pés algumas vezes.
E então, seus ombros caíram. — Não, é claro que não — murmurou, baixinho, e eu frisei os lábios um no outro.
Ele deu um passo em frente e eu estreitei os olhos até que ele estancasse bem ali, exalando tremidamente. Desviei os olhos, amargurado, e meus lábios estavam repuxando em uma careta enquanto eu tentava deixá-lo falar sem explodir de ódio.
— Não se trata disto. Eu não teria vindo para te dar os parabéns e ir embora depois de tudo o que aconteceu, eu não faria isto com você. Não se trata da data de hoje, eu... Eu não quero perder mais nenhum... — Ele refez, em seguida, mais firme: — Eu não vou perder mais nenhum aniversário.
Meus olhos dispararam para ele novamente, estreitos, analisando.
Que merda ele queria dizer com aquilo?!
Eu estreitei os olhos, maldoso, ao declarar com acidez: — Você veio no aniversário da pessoa errada — cuspi. — Se você quis voltar a ser mais presente na vida de todos, que ótimo — debochei —, todos sentem muito a sua falta. Mas se quisesse visitar seus amigos — cuspi —, você devia ter feito a cortesia de me deixar fora disto.
Alex franziu o cenho, piscando em confusão, ao negar. — Mas era você, Caleb, era você que eu...
— Então devia ter ficado onde estava — cortei, ácido, a voz falhando apenas na última palavra.
Alex fechou a boca instantaneamente.
Minhas sobrancelhas estavam tão unidas que eu deveria parecer um animal selvagem em uma jaula, prestes a atacar, mas eu não consegui descongelar ainda que, por dentro, eu estivesse choramingando. E eu tive que sustentar seu olhar para que ele entendesse que eu falava sério, que eu estava decretando algo aqui e que não havia nada que ele pudesse fazer para mudar isto.
Mas os malditos buracos negros...
Puta que pariu, eu esqueci como era olhar para eles.
As duas orbes negras, em toda a sua intensidade, me avaliaram cautelosamente de onde ele estava. Ele tomou um instante para isto, como se estivesse encarando os fios coloridos de uma bomba que ele queria desarmar — e eu odiei cada segundo disto. E ele ainda tinha aquela cara estúpida de quem havia acabado de ter o cachorro assassinado na sua frente, a melancolia vazando de cada detalhe de suas feições, assim como aquela maldita conformidade que estava começando a me dar nos nervos.
— Caleb, eu... Caleb, eu sinto muito — murmurou, com tanta dor que eu tive que desviar o olhar. — Eu sei que eu devo ser a última pessoa que você gostaria de ver agora, mas por favor, me escuta um pouquinho. Eu já vim até aqui e eu não posso ir embora sem conversar com você. Eu...
Minhas mãos estavam em punhos trêmulos que começaram a doer, mas eu fiquei quieto. Isto pareceu incentivá-lo, porque ele pareceu firmar os pensamentos, a voz, a postura, os olhos pousados em mim com um pouco mais de discernimento agora, com um objetivo corajoso.
Eu sabia que ele diria algo importante, algo que eu precisava ouvir, e por mais que eu quisesse impedi-lo e gritar que ele não tinha o menor direito de conseguir algo que quer, eu não consegui. Meus lábios estavam cerrados, meus olhos voltaram a focar nos mínimos detalhes de seu rosto, buscando por franqueza e por tanto mais.
— Eu voltei por você — pronunciou, devagar, palavra por palavra. Eu engoli em seco, tentando manter minha expressão neutra ao tentar decidir o que eu deveria sentir aqui. Mas ele continuou, a postura vacilando um pouco, as sobrancelhas naquele arco entristecido. — Eu precisei — enfatizou — voltar porque eu preciso tentar acertar as coisas. Eu não tô aqui para um “aniversário estúpido”, Caleb, eu tô aqui para todos os aniversários estúpidos e todas as datas comemorativas estúpidas e todos os outros dias mundanos estúpidos entre eles. — Seus lábios tremeram levemente, um começo de sorriso em meio à feição dolorida. — Eu não quis perder seu aniversário porque eu não quero perder mais nada seu. E eu também não vim simplesmente pra... pra fazer parte das datas comemorativas, eu vim porque quero fazer parte da sua vida.
Não houve uma continuação, porque não havia, era a declaração de algo sólido que eu estava tentando absorver.
Meu coração começou a retumbar nos meus ouvidos, minha visão a ficar turva, meus pensamentos raivosos congelando onde estavam. E eu pisquei, tentando desvendar o que exatamente aquilo queria dizer, mas não ousei estabelecer que aquilo era algo bom. Um resquício de esperança ponderada acendeu dentro de mim e eu quis tacar fogo nela imediatamente. Eu não deixaria que ele fizesse isto comigo, eu não acreditaria nas suas palavras e, francamente, ainda que eu acreditasse em todas essas baboseiras, elas ainda não eram o suficiente para justificar, para perdoar ou para confiar. Essa era a verdade: eu não confiava em porra nenhuma que saía da sua boca e era ultrajante a maneira como ele parecia pedir por isto.
Eu exalei a respiração prendida e ela saiu trêmula demais para o meu gosto, minha expressão ainda congelada em uma raivosa, mas meu peito estava trêmulo com a fragilidade do meu coração. Eu amei cada palavra e eu odiei cada palavra com o mais profundo do meu ser — porque seguia não sendo o suficiente.
E por que só agora?
Por deus, o tempo que se passou era visível na porra do rosto dele!
— Depois de um ano e meio? — foi tudo o que saiu da minha boca, em palavras lentas e duras, meu corpo inteiro enrijecido.
Alex enrijeceu também, hesitando. Ele abriu e fechou a boca, a expressão voltando a tornar-se envergonhada, ao passo que eu sentia a irritação voltar a queimar meu peito, a dor se contorcendo como um verme em volta do meu coração. Outro suspiro frustrado escapou da sua boca, e ele movia as mãos como se quisesse explicar mas não soubesse como. Eu apenas fiquei em silêncio, tentando ignorar a raiva para deixá-lo falar um pouco, apenas um pouco, antes que eu pudesse esculachar com ele, porque não havia merda nenhuma que ele pudesse falar que amenizasse esta raiva.
Simplesmente não havia nada que pudesse mudar o que ele causou.
Alex mordeu o lábio inferior, os olhos marejando.
— Eu sei que eu tô atrasado — murmurou, assentindo, com pesar. — Eu sei que eu demorei, acredite, eu... eu sei. Me desculpa. Caleb, por favor, me perdoa — pediu, a voz vacilando. — Eu cometi um erro tremendo e eu sou tão... tão fodido que eu demorei pra perceber. Eu achei que eu tava fazendo a coisa certa, sabe, por você. — Desviei o olhar, porque é claro que eu sabia disto. Eu o conhecia o suficiente para saber quais foram suas intenções, mas elas não importavam. O inferno está cheio delas, não está? — E no fim, eu... eu fodi com tudo. E eu não tenho como consertar e eu não tenho como me defender, eu sei que não, tudo o que eu posso fazer é... não cometer o mesmo erro de novo. Caleb...
Engoli em seco, voltando o olhar para ele quando vi que ele pausou. Só então percebi que eu já estava balançando a cabeça de um lado ao outro como se minha vida dependesse disto. Conforme eu a movia para lá e para cá, uma imagem voltou à minha cabeça do Chris ao perguntar: “o que você está negando?” e frisei os lábios um no outro, sentindo-os tremer.
Alex hesitou, inclinando o rosto para me olhar com tanta culpa e tanta ternura que eu queria enfiar os dedos entre os meus cabelos e puxá-los com força. E então veio, a declaração que levou anos para sair, verbalizada com tanta facilidade como se fosse natural: — Eu te amo tanto, Caleb, eu... Porra, eu sei que se passou muito tempo, mas podia ter passado mais, podia ter passado dez, vinte, trinta anos, e eu teria voltado ainda assim... Eu sempre acabaria voltando pra você — declarou, os olhos brilhando, e minha visão começou a embaçar enquanto meu coração traiçoeiro respondia a ele. — Você faz parte de quem eu sou, Caleb, você tá impregnado na minha pele, na minha alma, no meu coração. Eu não posso... Eu até posso tentar, mas eu não consigo simplesmente te deixar pra trás e seguir com a minha vida. Eu... — Alex soltou um misto de bufo com um riso nada feliz. — Os pedidos que eu te fiz... Eu jamais conseguiria segui-los — admitiu. — É uma piada grotesca de proporções cósmicas.
Virei a cabeça para o outro lado, tendo perdido a luta para as lágrimas, sentindo o queixo tremer contra a minha vontade. Eu soltei a respiração e ela saiu trêmula, assim como meu autocontrole. Limpei o rosto rapidamente, o nariz pinicando, e não tive coragem de olhar para ele por um tempo.
Realmente, pensei, é uma piada grostesca de proporções cósmicas.
Eu estava oscilando entre a raiva e a desolação, como ondas que iam e vinham, mas eu não conseguia sentir muita coisa diferente. Eu ainda não conseguia acreditar no que estava acontecendo, era como se a ficha estivesse travada na metade do caminho. Eu mal consegui processar que ele estivesse aqui, na minha frente, muito menos todas as coisas que ele estava declarando como se... como se não existisse espaço nenhum entre nós.
Isso dói tanto que eu gostaria de arrancar o coração do peito.
Alex podia não saber como consertar isto, como ele disse, mas ele certamente sabia o que dizer. E ele estava dizendo muito, ele estava falando tanto, e era muito, era demais, era sufocante — as palavras, a sua voz, o seu olhar, tudo transbordava tanto que eu sentia que iria explodir a qualquer momento. E o pior de tudo é que não valia de nada, não neste contexto, não depois de um ano e meio, não com todo o espaço que existia, sim,entre nós.
— Eu sinto muito, Caleb, eu sinto tanto...
Eu neguei uma vez mais, automaticamente, antes de limpar meu rosto com movimentos bruscos. E eu ainda não conseguia olhar para ele, mas pude ouvi-lo fungar e podia vê-lo limpar o rosto também com a visão periférica.
— Você não pode simplesmente... — comecei, a voz trêmula, e frisei os lábios. — Você foi embora. Você sumiu por um ano e meio. Você nem tentou... — Bufei, trêmulo, antes de suspirar, a raiva retornando. — Você levou tudo isto pra perceber que tava errado?! Enquanto eu...
Não consegui terminar, trincando a mandíbula, balançando a cabeça.
Eu não consegui nem finalizar um raciocínio — eu estava com raiva de absolutamente tudo o que ele dissesse, de tudo o que ele fazia, inclusive dele tentar mudar alguma coisa. E eu estava com raiva por estar com raiva, por estar reagindo assim, por estar delatando o quanto ele me afetou e o quanto ainda me afeta.
— Eu não levei... Caleb, eu... Eu fui covarde.
Isso chamou minha atenção e eu vacilei, olhando para ele novamente pela primeira vez depois de desviar o olhar. Eu sabia o que aquilo significava, eu vi os papéis que foram rabiscados centenas de vezes.
Alex tinha uma expressão ainda mais miserável, os olhos avermelhados pelo choro, o rosto meio inchado — e que ódio que ele continuava lindo ainda quando chorava, o desgraçado. Ele parecia ainda mais culpado assim e frustrado também, a respiração falha, os olhos desfocados, como se tentasse encontrar as palavras. Deu um passo em frente, na minha direção, e eu pisquei antes de dar outro para trás na defensiva. Alex suspirou em resposta, mas parou onde estava, com aquele complexo cansado e conformado, como se me entendesse e concordasse com a minha reação.
— Eu nunca fui tão covarde na minha vida — continuou, exalando, a voz quebrada. — Não é que eu tenha levado um ano e meio pra descobrir, eu... Eu levei um ano pra admitir pra mim mesmo e desde janeiro, eu... eu sabia que eu tinha fodido com tudo, Caleb, eu só não sabia como consertar.
Desde janeiro?!, minha mente gritou.
Fiquei preso nesta declaração antes de processar o que viria em seguida, porque aquilo colocou muita coisa em perspectiva. Ele está dizendo que não não levou tudo isto de tempo para descobrir, mas para admitir para si mesmo, o que queria dizer que ele potencialmente sabia que estava errado o tempo inteiro. E então ele levou um ano para admitir, ou seja, um ano para ter certeza que estava errado, o que já poderia tê-lo colocado aqui na minha frente — desde janeiro. E ele levou até junho para aparecer porque...
Porque não sabia como?!, minha mente gritou novamente, a raiva retornando com força.
Além disto, em janeiro, eu...
Em janeiro, eu comecei a ficar com o Chris — em dezembro nos beijamos pela primeira vez, em janeiro começamos a ficar e em março eu o pedi em namoro. Esta concepção me fez travar um pouquinho, a raiva pausando, porque eu não soube como me sentir a respeito disto. Eu pisquei, o coração acelerando em aflição, tentando assimilar as outras coisas que estavam saindo da boca dele.
— E eu não quis... Porra, quando eu pensei em voltar, eu não quis aparecer aqui sem avisar, do nada, no seu aniversário, com um presente em mãos. Eu sabia que seria fodido demais e eu queria fazer diferente, mas não havia... Não havia maneira no mundo que eu pudesse fazer isto, Caleb, que fosse certa — dizia, quando eu finalmente foquei na sua linha de raciocínio, meus olhos reajustando porque ainda estavam nele mas eu não estava prestando atenção. — Seria fodido de qualquer forma, em qualquer dia, em qualquer lugar, porque eu fodi com tudo. Eu passei tempo demais pensando em como fazer isto da maneira certa, na hora certa, no lugar certo... E eu me dei por conta que, se eu continuasse planejando como fazer isto direito, eu não voltaria nunca — declarou, a voz tremendo, enquando eu sentia um nódulo se formar em minha garganta. — Depois que eu me decidi, eu ainda tive que me organizar para voltar para você inteiro e sem deixar nenhuma ponta solta atrás. E só então que eu pude... — impediu-se, contemplando-me por um momento, antes de um som fraco escapar de sua garganta. — E então aqui apareci eu, desgraçadamente — bufou, infeliz, ao abrir os braços —, no seu aniversário, com um presente em mãos. — E então, seus olhos tornaram-se angustiados e envergonhados quando admitiu: — E eu não pude avisar porque, sinceramente, Caleb, eu não sabia se eu teria coragem de bater na porta.
Relaxei as mãos quando percebi que eu ainda as tinha em punhos e as unhas curtas já estavam machucando a minha pele. Elas estavam tremendo, no entanto, quando olhei para elas, então eu as fechei outra vez. Quando voltei os olhos para o Alex, ele também tinha a atenção nas minhas mãos antes de erguer os olhos cautelosos para mim.
— Talvez não devesse ter batido.
Minha declaração raivosa saiu fraca demais, cansada quase, em um murmúrio rancoroso. Ainda assim, acho que meu olhar duro tenha transparecido o suficiente da gravidade do que eu dizia, porque os olhos dele pareceram um pouco mais marejados agora e um tanto mais quebrados. Eu não podia dizer o que ele estava pensando, mas ele demorou um tempo antes de falar outra vez, um tempo em que apenas nos encaramos.
— É o que teria preferido? — sussurrou, cheio de resignação.
Só percebi que sua imagem estava borrada quando mais lágrimas rolaram e então, irritado, eu as limpei com força, tentando manter meu queixo erguido e meus olhos obstinados. Eu não respondi, os lábios pressionados com força para que não tremessem, mas ele pareceu ter sua resposta ainda assim.
Alex assentiu, devagar, os olhos desfocando enquanto pensava sobre isto, os ombros caindo. Ele fungou uma vez, tentando se recompôr, e assentiu mais uma vez. — Tudo bem. Eu posso ajudar com isto. Quem não é bem-vindo sempre pode... sempre pode sair por onde entrou. — Ele focou os olhos em mim, engolindo em seco, com um sorriso que não chegou aos olhos, como se aquela também fosse uma piada ruim. Seus ombros se endireitaram, como se ele tentasse manter alguma postura firme. — Peço desculpas por ter arruinado sua festa, não foi minha intenção. Não se preocupe, eu vou embora assim que me despedir.
Aquilo fez borbulhar a minha raiva novamente.
Soltei um som pelo nariz, com escárnio, antes de dar um passo em frente, fervendo de ódio, e eu o encarei com tanto desprezo que esperei que ele houvesse sentido na pele. Não me passou desapercebida a lástima em sua voz quando falou sobre não ser bem-vindo e isto não me tocou da maneira como deveria. Ele não tinha o menor direito de reclamar de nada, absolutamente nada, e nem de sentir que não era bem-vindo aqui.
— Não seja ridículo — disparei, com mais raiva do que tristeza agora. — E tira essa expressão de coitado do rosto. — Alex piscou, arqueando uma sobrancelha. — É claro que você é bem-vindo, você é sempre bem-vindo, mesmo que não faça bom uso disto — cuspi, rancoroso. — Todos sentem muito a sua falta e todos ficaram muito felizes em te ver.
Alex abriu a boca, como se quisesse se defender, e eu vibrei com a ideia, porque eu queria que ele deixasse de lado essa fala mansa e controlada que não combinava nada com ele. No entanto, Alex fechou a boca logo em seguida, parecendo mudar de ideia e repensar o que diria. Ele ficou um tempo digerindo aquilo, perpassando os olhos por sobre mim como se me analisasse de verdade pela primeira vez desde que me viu.
— Menos você — murmurou, enfim, piscando algumas vezes. Havia uma seriedade em seu tom também, algo triste mas também receptivo. — Todos — reformulou, devagar e baixo —, menos você.
Foi bem ali que terminou o que restava da minha paciência.
— E o que você esperava?! — disparei, dando mais um passo em frente, ficando há dois palmos do seu rosto. — Sinceramente, Alex, que merda você esperava?! — perguntei, um pouco mais alto, tomado de desgosto, ao passo que eu o via engolir em seco. — Você não deveria estar feliz com isto?! — cuspi, sentindo o corpo tremer de ódio. — Quando você foi embora sem pensar duas vezes, você não pediu que eu seguisse com a minha vida?! Você não pediu que eu não olhasse para trás também, que eu não esperasse por você, que eu seguisse minha vida como se eu nunca tivesse te conhecido?! — gritei, tudo de uma vez, como um avalanche, e Alex pareceu fazer muito esforço para sustentar meu olhar, o seu marejando novamente. — Então qual é o problema? Qual é a porra do problema agora?! — berrei, querendo socar a expressão desolada e culpada e doída que tomava conta do seu rosto. — E o que você esperava, porra?! O que caralhos você espera de mim?!
Apesar de toda a dor que passou pelos buracos negros, ainda assim, Alex apenas assentiu, parecendo engolir sentimento de mágoa atrás de sentimento de culpa, uma e outra vez. Ele assentiu, dando-me nos nervos com a compreensão excessiva, apenas permissivo com o meu desabafo raivoso, o que me deixou com mais raiva ainda.
— Tem razão — murmurou, enfim, e eu enxerguei vermelho com isto.
— Se eu tenho razão, porra, então por que você tá aqui?! — gritei, sem me preocupar em controlar desta vez. — Se seria fodido aparecer de qualquer forma, então talvez fosse um sinal de que você não devia aparecer de forma alguma! — berrei, fazendo um gesto de descarte. — E se você quis voltar mesmo assim, eu não tenho porra nenhuma a ver com isto!
— Tem razão — repetiu Alex, parecendo desnorteado, ao assentir.
— Pare de dizer que eu tenho razão! — reclamei, abaixando a voz para um grunhido, desta vez, cerrando as mãos em punho. — Fala alguma coisa que preste, cacete!
Mas nós dois sabíamos que não havia nada que ele pudesse falar.
Ainda assim, a minha voz soou como um apelo, como se eu implorasse que houvesse algo que ele pudesse dizer que fizesse tudo ficar bem. Um apelo que Alex soubesse o que dizer — conhecesse palavras mágicas que revertessem esta bagunça cruel que tanto doía.
— Eu não... Não tem nada que eu possa dizer agora que você queira ouvir — acabou exalando, rendido, e eu apertei ainda mais minhas mãos para aguentar a raiva. — Eu não sei como consertar — sussurrou, balançando a cabeça, como se ele não pudesse ser mais sincero do que isto. Senti o coração apertar-se dolorosamente quando pude ver o tormento nas portas do seu olhar. — Eu nem sei se tem conserto. Porra, eu nem sei se eu deveria consertar ou se seria certo com você que eu tente. Mas eu... Eu já tomei uma decisão por você antes e eu não vou tomar de novo. Custou mas eu aprendi, Caleb — garantiu, quebrado, de forma que eu tive que me esforçar para não quebrar junto. — Eu sei que se passou muito tempo, mas eu não fiquei este tempo todo vegetando, eu... Eu cresci, Caleb, eu não sou mais o mesmo. Muita coisa aconteceu e eu... — Ele pareceu tão pequeno assim, com os ombros caídos e os olhos marejados. — Eu não vou mais decidir sozinho o que é o melhor para você, mas... se você decidir que não sou eu, então eu não vou lutar contra isso. Você tem todo o direito de me odiar e de me expulsar da sua vida, e eu jamais te culparia por isto.
Eu senti meu próprio queixo tremer, tentando entender qual era o sentido disto tudo, mas eu franzi os lábios com força para impedir qualquer tremor visível ao Alex. Eu não iria chorar de novo na frente dele, não iria mesmo, de jeito nenhum. Então eu pisquei algumas vezes, olhando para longe, tentando controlar minha respiração e meus batimentos doloridos, sem conseguir dizer nada por um tempo.
Aquilo deveria ter sido meu limite — a minha brecha. As minhas próximas palavras deveriam ser: “tem razão, eu te odeio, agora suma daqui”. Eu deveria tê-lo expulsado, sem demonstrar nenhum sentimento que me denunciasse ainda mais — eu me deixei afetar porque fui pego desprevenido com a súbita aparição dele mas, depois de tudo isto, não havia mais nada que pudesse me afetar. Não havia mais nada que restasse para discutir. Eu havia ouvido o que ele tinha a dizer, e ele havia ouvido o que eu tinha para dizer, nós dois choramos pateticamente e agora estava na hora de seguir os nossos caminhos separados.
Este era o momento para definir que ele estava certo: eu o odiava e queria expulsá-lo da minha vida.
Eu abri a boca para dizer isto mas, pelo contrário, saiu a pergunta que rodopiava na minha mente, como se algo de bom fosse sair disto: — Você se arrepende? — murmurei, fracamente, antes de focar os olhos na intensidade preta das suas orbes.
Suas sobrancelhas fizeram aquele arco entristecido. — É claro que eu me arrependo.
— Você se arrepende... do quê? — especifiquei, mais firme, ao franzir o cenho. Alex abriu a boca para responder, mas continuei: — Você se arrepende de ter ido ou de ter vindo agora? — Afinal, eram duas coisas completamente diferentes, com significados diferentes.
Alex hesitou, conflitado, antes de fechar os olhos.
Suponho que não foi uma pergunta justa, porque em momento nenhum ele disse que se arrependia de ter ido embora. O que ele disse foi que se arrependia de como ele havia deixado as coisas comigo, da maneira como cortou laços comigo.
Mas esta era a segunda vez na conversa que ele dava abertura para que eu simplesmente o expulsasse daqui, porque tudo o que bastaria era que eu pedisse, e isso me atiçou um ódio ainda maior do que por sua postura condescendente. Isto era enfurecedor. No meio de tudo, eu acabava em uma posição desgraçada de qualquer maneira: eu me fodi em todas as ocasiões, quando ele foi embora e quando ele decidiu voltar, enquanto ele ainda estava satisfeito com sua decisão de ir embora e ser livre longe daqui. E, no meio do arrependimento dele, no meio da sua dor, ele podia simplesmente aparecer aqui do nada para pedir desculpas e, quando eu não o perdoasse, ele poderia voltar a ser feliz longe de mim.
Eu o encurralei, mas nós dois sabíamos qual era a resposta para a minha pergunta.
Alex não se arrependia de haver ido embora, ele nunca se arrependeria disto, ele apenas se sentia culpado pelo que ele sabia que me fez passar. Por muito tempo, eu pensei que os pedidos impossíveis que ele havia feito significavam que ele não tinha ideia do quanto eram impossíveis, ou seja, do quanto eu iria sofrer independentemente de querer cumpri-los ou não, porque eu jamais conseguiria. E talvez ele realmente não soubesse disto no início, ele sempre pensou que tem tão pouco valor, que ele seria descartável desta forma. Mas depois de tudo o que ele falou era óbvio que, quer soubesse no início ou não, ele definitivamente deu-se por conta do quanto eu deveria estar sofrendo aqui — e não foi agora, um ano e meio depois. Ele sabe disto há um tempo, mas não foi importante o suficiente para fazê-lo voltar atrás — e eu não falo de voltar para HF, eu falo de voltar para a minha vida, mesmo estando longe.
E agora, da mesma forma que aconteceu no meu aniversário do ano passado, ele quebrava os pedidos que ele mesmo fez — veja se não é de dar ódio uma porra dessas — porque ele sentiu falta, por algum motivo aleatório, de estar na posição do meu pedestal novamente.
Um egoísta hipócrita do caralho, era isto o que ele era.
E agora que Alex viu que não seriam apenas flores esperando por ele, nesta visita passageira de ida e volta marcadas, depois de meses sem me dirigir uma palavra, ele se arrependia de haver aparecido em primeiro lugar. Por mais que eu quisesse muito esconder a dor que isto me causava, eu sei que estava estampada na minha cara, então ele pôde testemunhar de primeira mão tudo o que ele me fez passar. Mas não era isto o que ele queria encontrar aqui, era? Agora eu sabia que ele também se arrependia de não haver simplesmente ficado longe, como quis estar, e de haver cedido a esta vontade momentânea de estar perto de mim — uma vontade que nós dois sabíamos que iria passar novamente, como se nunca houvesse existido, assim como aconteceu pela desgraça de um ano e meio.
E eu queria ouvi-lo confessar mas, bom, nem esta cortesia ele dirigiu a mim.
— Eu não vou responder o que você gostaria que eu respondesse — optou por dizer, desnorteado com a pergunta, depois de haver fechado os olhos pelo que pareceu um milênio.
E talvez, só um pouquinho, aquilo tenha aumentado ainda mais a minha raiva, porque não era isto o que eu queria ouvir — eu queria ouvir a verdade, independentemente de que me doesse ou não, e ele não tinha o menor direito de tirar isto de mim.
— Cala a boca! — explodi, em um grito. — Pare de fingir que ainda me conhece! Você não sabe nada sobre o que eu gostaria ou não, você não poderia saber nada porque você simplesmente não estava aqui, porra! — grunhi, entredentes, os punhos cerrados novamente, vendo seus olhos tornarem-se angustiados. — Você acha que ainda me conhece, depois de um ano e meio, cacete, um ano e meio longe de você?! Você disse que não é mais a mesma pessoa, mas eu também não sou!
— Tem...
— Se você disser “tem razão” mais uma vez, eu juro por deus...
Alex pareceu muito preocupado por um momento, mas novamente instalou-se ali aquela mesma expressão complacente que se repetia, de aceitação, como se ele não pudesse concordar mais comigo se tentasse.
— Caleb... — Sua voz saiu como um apelo também, parecendo cansado. — Eu entendo o que quer dizer, eu realmente não devia te tratar como se eu te conhecesse tão bem depois de tanto tempo.
Ele suspirou, inclinando um pouco o rosto para o lado, os olhos com um brilho triste ao me analisar. Trinquei a mandíbula, odiando que o olhar vagueasse pelo meu rosto com ternura, como se acariciasse as mudanças que via, como se elas não fizessem tanta diferença assim para ele. Lutei contra a vontade de abraçar meu próprio corpo com os braços ou de fugir pela porta como eu gostaria.
Quando falou novamente, tinha um indício de sorriso nos lábios: — Eu sei que você mudou, eu posso ver. Você tá mais alto... Mais bonito... — Enrijeci com o elogio, ainda mais porque parecia tão sincero que eu queria morrer, mas então seu sorriso entristeceu quando apontou, cauteloso: — Mais inflexível... Não é algo ruim — garantiu, rapidamente, quando eu o fuzilei com o olhar —, significa que não tem jeito no mundo que você aceite menos do que merece. Isso é bom. E agora você também... gosta de festas surpresas — apontou outra mudança, e eu franzi os lábios. Algo na maneira como ele disse me fez pensar que ele havia descoberto, talvez pelos demais, que a ideia da festa havia sido do Chris, e ele confirmou minha teoria em seguida: — Tem um namorado.
— Não fale dele — disparei, antes que eu pudesse evitar, franzindo ainda mais o cenho. — Eu não vou falar com você sobre o meu namorado ou o meu relacionamento — enfatizei, um pouco de desespero, querendo mantê-los em polos opostos. — Isto não tem nada a ver com você, então fique fora disto.
Alex abriu um sorriso triste, os olhos ainda brilhando com ternura e afeto desmedíveis, e eu quis me encolher, apesar de toda a fúria. Ele me observou por um minuto, embora parecesse estar com a mente longe daqui, antes que sequer falasse coisa que fosse, e eu me remexi no lugar com desconforto.
Eu não sei por que nunca me passou pela cabeça esta possível conversa.
Durante todo o tempo em que estive com o Chris — meio ano se contar desde antes do namoro —, em momento algum me passou pela cabeça como seria se Alex pudesse me ver com ele. Por nenhum segundo eu me peguei imaginando o que ele pensaria, o que ele diria, o que estaria estampado nas orbes escuras se me visse nos braços de outro alguém. Acho que eu sequer considerei a possibilidade, de tão odiosa que ela parecia, e a concretização dela se fazia muito pior. Eu não identificava ciúmes nas suas palavras ou no seu olhar, era apenas um misto de tristeza e compreensão, e eu pensava que isto era ainda pior.
— Você realmente mudou — sussurrou, quase como se falasse consigo mesmo. Mas então os olhos firmaram nos meus e ele dirigiu-se a mim quando compartilhou: — Eu cheguei a pensar que eu nunca seria capaz de ouvir você falar algo como “meu namorado” ou “meu relacionamento”. Por muito tempo pensei que talvez você nunca se sentiria confortável pra isto. — Ele engoliu em seco quando franzi o cenho e forçou um sorriso. — Isso é bom. Fico feliz por você — mas soou como uma mentira descarada. — Ele deve ser um garoto incrível.
Minha raiva borbulhou.
Era a voz calma, triste e compreensiva que estava acendendo uma fúria inexplicável dentro de mim, desde o princípio, fazendo ferver minha raiva ao longo do tempo até que ela entrasse em ebulição. E estava entrando, eu podia sentir nas minhas veias que eu iria perder as estribeiras logo, a fúria alastrando-se feito um incêndio. Eu não aguentaria muito mais das palavras lúcidas em volume controlado vindos do Alex — o Alex, pelo amor de deus! —, como se ele fosse esta pessoa composta e coerente, enquanto eu era o único descontrolado e golpeado dentre nós. Especialmente dentro deste contexto, onde ele é que havia errado comigo — e erro parecia uma nomenclatura muito fraca para o fato de ter me cortado da sua vida — e seguia fazendo só o que lhe era conveniente enquanto “fodam-se os outros”.
Céus, ele ainda estava fazendo isto agora, neste exato momento, que inferno.
E o que caralhos ele quis dizer com aquilo?!
Ele havia mesmo dito que pensou que eu nunca me sentiria à vontade para assumir relacionamentos e sentimentos, porque na sua concepção, em algum momento pensou que eu não estive? E eu não sei por que eu deveria assumir relações ou sentimentos que nem mesmo ele assumia, ou pior, por que eu deveria sequer pensar em chamar alguém de namorado naquela época. Certamente ele não deveria estar falando dele mesmo, porque não é como se o que tivemos tivesse chegado a se concretizar como algo que fosse sequer real.
— Ele é — retruquei, seco, ao torcer o nariz. — E francamente, Alex, que merda você quis dizer com isto? — Bufei, sentindo a boca azedar antes de cuspir com o máximo de escárnio que consegui: — E se quer tanto saber, é muito fácil falar sobre o meu relacionamento com o meu namorado, resulta que não existe dificuldade nenhuma quando eles são reais.
Alex arqueou as sobrancelhas, piscando, antes que seu cenho franzisse.
Seu corpo enrijeceu, os olhos piscando como se tentassem assimilar o que eu havia querido dizer com aquilo, e pela primeira vez em toda a conversa eu não soube dizer o que ele estava pensando de tão sério que ficou. — Reais? — perguntou, imóvel e sério, com uma gravidade que me fez estremecer.
Eu não respondi, erguendo um pouco mais o queixo, desafiando-o a negar o que eu havia dito. E, quando ele finalmente demonstrou alguma coisa, foi frustração, quando balançou a cabeça de um lado ao outro. Ele deu um passo em frente e eu enrijeci, mas também havia um desafio no olhar dele — como se me desafiasse a me afastar —, e ele pareceu obstinado.
— Caleb — começou, sério —, eu sei que você me odeia agora mas isso não foi sempre assim. Se você não quer me perdoar, se não consegue me perdoar, tudo bem — falou, frisando os lábios, como se não estivesse tudo bem de jeito nenhum —, mas não finja por um segundo que o que a gente tinha não era real.
Eu senti meu corpo tremer de frustração também.
— “A gente”? — cuspi, com escárnio, e Alex franziu ainda mais a testa. — Não existe “a gente”, Alex, inclusive, nunca existiu — menti, porque eu me recusava a dar a ele este poder todo. Pude sentir que meu rosto contorcia em uma careta de desgosto quando vomitei, maldoso: — E não, aquilo não foi real. Você nem sabe o que é isto.
Alex fechou os olhos, a boca em uma linha fina, quando exalou. Tudo o que ele falou, no entanto, foi um pedido dolorido: — Caleb, não faça isto, por favor.
Lutei contra tudo em mim para não fraquejar ali mesmo, para não me curvar em remorso e para não morder a língua pelas mentiras amargas que ousei proferir. Uma parte de mim queria ajoelhar-se e pedir desculpas por haver profanado toda a nossa história com palavras de renúncia cruéis. Mas eu me recusava a fazer isto. Trinquei a mandíbula, tentando me manter firme, desejando até poder parar de respirar para ele não ouvir minha respiração falha, lutando contra tudo dentro de mim para não desabar ali mesmo.
— Eu só tô falando a verdade e se você não tem estômago pra ouvir, o problema é seu — descartei, mas minha voz tremia, perdendo a força. — E mesmo que você estivesse certo, eu já deveria ter esquecido, não é? — contornei, amargo. — Eu devia ter esquecido que um dia eu te conheci. Não foram estas as tuas palavras?!
Alex abriu os olhos, angustiado e aborrecido, negando com a cabeça.
— Não faça isto — pediu, outra vez, mais resoluto, procurando meus olhos com os seus. — Eu te amei a vida inteira, Caleb, eu sou apaixonado por você desde a primeira vez que eu te vi. Se esta vai ser a última vez que eu vou te ver, então por favor, o mínimo é reconhecer que foi real.
Por que isto conseguia fazer doer mais do que se ele me xingasse?
Meu corpo traiu a minha mente, porque começou a tremer com as palavras, respondendo à declaração como se quisesse desmoronar-se ao som dela. Eu tive que desviar o olhar para longe, pensando em maneiras de me proteger do perigo das suas palavras ternas, ainda que tristes, sempre ternas, mas não consegui pensar em nada. A dor aguda que veio com a sugestão de que esta seria a última vez que nos víamos atingiu bem no centro do meu peito e meu corpo não reagiu muito bem a ela, porque eu nunca reagia muito bem à dor.
Eu limpei o rosto com tanta raiva que senti a pele arder, e eu já não sabia se a raiva era destinada a ele ou a mim mesmo.
Tudo o que eu conseguia pensar é que, se esta era a última vez que nos víamos, seria por decisão dele e não minha, porque em toda a conversa, em nenhum momento eu pedi que ele fosse embora. Isto me garantia que eu tinha razão: ele já estava arrependido de vir, isto era difícil demais para ele — minha mente cuspiu a palavra —, aguentar as consequências do que ele causou. Alex era tão egoísta que ele só fazia o que era melhor para ele: estava ruim aqui, então ele se foi; sua consciência pesou por lá, então ele retornou; não encontrou perdão aqui, então está prestes a dar no pé outra vez. E ele ainda quer ditar como vai sair daqui: ouvindo o que gostaria de ouvir.
Ah, mas não vai mesmo.
— Eu não tenho que reconhecer nada só porque agora você decidiu por conta própria — cuspi, enfim, antes de olhar para ele outra vez, tremendo tanto que parecia frio. — E eu não tenho que te fazer sentir melhor sobre isto, porque se esta é a última vez que você vai me ver, Alex, a decisão foi sua — grunhi, a voz tremendo, e Alex franziu o cenho, piscando. — E a culpa é sua também. Se quer reconhecer algo, que seja isto — descartei, com um gesto vago da mão. — E não ouse se comparar com o Chris. Ele é meu primeiro namorado, cacete, então acho que isto diz o suficiente por si só — cuspi, olhando-o com desprezo. — Então se você não entendeu, eu vou repetir mais uma vez: “a gente” nunca existiu, o que sempre existiu foi “você” porque o único relacionamento que você tem é com você mesmo. Eu aprendi com o meu namorado o que é real e o que é verdadeiro, certamente não foi com você.
Alguma coisa no que eu falei deixou-o imóvel, como se o corpo tivesse congelado de uma maneira ruim, os olhos pousando em mim com firmeza. Ele pareceu conflitado, mas sua expressão oscilou apenas em sentimentos ruins, eu supus, porque a lucidez apologética que estava estampada em seu rosto desde o início havia diminuído um pouco, substituído pelo brilho desagradável no seu olhar.
Bom, eu pensei com crueldade, isto parece mais com ele.
Trinquei a mandíbula, erguendo um pouco o rosto para não me deixar intimidar pela mudança em seu olhar, e talvez isto tenha respondido a dúvida que ele parecia ter e a balança que estava em inércia junto do seu corpo finalmente pendeu para algum lado — e não foi um lado bom.
Alex engoliu em seco, e eu pensei que foi difícil de engolir, porque pareceu que ele estava lutando para não soltar nenhum comentário azedo também, como se estivesse lutando para voltar à sua postura de antes. Mas ele não conseguiu, porque, em seguida, Alex abriu um sorriso mínimo e pequeno, mas tão ácido quanto as minhas próprias palavras cuspidas. Ele fechou o espaço entre nós, o passo largo que faltava, e havia uma áurea especialmente ruim na maneira como ele sequer se apressou. As orbes escuras desceram para o meu pingente uma vez mais, e eu senti meu corpo enrijecer, mas então piorou quando ele pegou novamente o pingente entre seus dedos.
— Isso é mesmo real? — perguntou, amargo, ao estreitar levemente os olhos escuros antes de erguê-los a mim. Apertei meus lábios, vendo um brilho colérico nos buracos negros quando ele murmurou, sarcasmo vazando da voz: — Ou você apenas quer muito que seja?
Dei um tapa na sua mão no mesmo instante, arrancando-a do pingente do Chris, sentindo-me subitamente exposto e atacado. E talvez eu devesse me sentir mal pelo pensamento, mas não consegui: ora ora, aqui está o Alex que eu conheço. A pontada de dor em meu peito me deixou dividido entre a satisfação de haver arrancado o Alex verdadeiro de sua faceta fingida de bom moço e o arrependimento de haver feito exatamente isto.
Durante toda aquela conversa, eu estive irritado com a maneira como Alex parecia intocado pela minha fúria, pela minha frustração, pela minha retaliação. Ele parecia arrependido e entristecido, é claro, mas a maneira controlada com a qual se portava enquanto eu sentia meus nervos atiçados no mais puro descontrole era enfurecedora.
Ele foi tolerante com as minhas reações, ele foi coerente por parecer arrependido quando sabia que estava errado o tempo todo, e ele seguiu pedindo desculpas o tempo inteiro, sendo acessível ao oferecer estar de saída a qualquer momento. Faltava que se autodeclarasse a Madre Teresa de Calcutá, como um bom moço, entregue e rendido pelos seus crimes, ainda que a punição fosse absurdamente injusta. Ele estava agindo como um adulto muito sábio que lidava com a raiva abstrata de um adolescente sem causa — e eu realmente senti como se eu fosse, durante a discussão, porque o descontrole vinha todo de mim. Eu era o policial intolerante que apontava a arma para o criminoso desarmado, que se entregava por um crime banal como roubar maçã em uma feira, e aceitava a sentença de morte de bom grado.
Até ele deslizar nesse personagem ridículo que criou, com seu olhar afiado e as palavras azedas em sarcasmo.
Alex era o mais fodido de nós, não havia maneira do mundo que ele me convencesse de que ele havia ascendido aos céus com seu conhecimento da vida em um ano e meio de liberdade. Não havia liberdade nem terapia nem medicamento no mundo que tivesse causado uma mudança de personalidade nele, Alex seguia sendo o Alex, e ele não era a imagem dessa pessoa emocionalmente intelectual, sábia e lúcida que ele queria vender. Aquilo era uma personagem, uma personagem que agora estava fazendo um papel contrário do que ele havia feito, consistentemente, pela porra de um ano e meio.
E no meu aniversário, ainda por cima, tem que ser muito filho da puta.
E talvez eu estivesse meio alterado de ódio descompensado, mas eu larguei o foda-se quando comecei a enxergar vermelho.
— Você não saberia o que é real se fosse esfregado na sua cara — declarei, cruel. — Você nunca teve nada real em nenhum aspecto da porra da sua vida fodida.
Eu percebi que peguei pesado quando sua expressão mudou subitamente, os olhos piscaram para longe qualquer sentimento azedo que ali se acomodava e trouxeram mágoa para eles. Ele deu um passo para trás, os olhos abrindo um pouco ao processar minhas palavras ao mesmo tempo que varriam meu rosto por algum sinal de que eu talvez não houvesse querido dizer o que ele estava pensando.
Mas eu realmente não queria?
Eu nem poderia argumentar que eu estava falando de relacionamentos amorosos apenas, devido à escolha de palavras, porque, se fosse honesto comigo mesmo, eu quis dizer exatamente o que eu disse. Eu apenas quis machucá-lo e depois de me analisar em busca de uma resposta, ele pareceu perceber que era isto mesmo. Eu não havia pensado no desgraçado do Dean quando havia dito aquilo, eu havia pensado na sua família e em todas as partes quebradas da sua vida. Talvez fosse isto o que o olhar quebrado significava ao passo que me encarava de volta no meio da minha hesitação.
Eu o havia atingido, mas não era essa a intenção? O objetivo não era lavar aquela cara de sabe-tudo e de sente-muito do seu rosto? Não era atiçar seu lado mais cruel ao acessar seu lado mais dolorido que eu queria? Eu não queria vê-lo ter um gostinho do que eu senti esse tempo todo para que ele entendesse que não existem desculpas para isto?
Ainda assim, um limite havia sido cruzado, porque eu fui injusto.
Eu não queria admitir para mim mesmo, mas o entendimento estava bem ali, na beirada da minha mente, de que mesmo quando ele satirizou minha relação com o Chris um momento atrás, ele não havia dito nada cruel, não realmente. E durante todo o tempo, ele pediu desculpas e ele ofereceu sair pela porta a qualquer momento que eu pedisse — eu odiei cada segundo, mas ele foi justo em todos eles.
E eu, bom, eu dei a entender que a relação que tivemos, amizade ou amor, independentemente, não havia sido real ou verdadeira ou importante. Era uma mentira descarada, e Alex provavelmente sabia disto, mas era minha maneira de lidar com a dor: jamais admitir que tivemos algo concreto, e deixar Alex saber disto também era uma maneira de me defender. Mas eu também dei a entender que nada em sua vida era real, principalmente suas relações familiares, descartando como irreais também as relações que ele mantinha com suas demais famílias de coração. Sua relação com os pais, com sua irmã falecida, com seus amigos cujos laços estavam fragilizados devido à distância.
Todo o ódio que borbulhava em mim desvaneceu quando eu vi os olhos pretos e feridos marejarem outra vez, o lábio inferior tremendo antes que ele o mordesse com tanta força que doeu em mim. Algo em meu peito pareceu sangrar com a visão disto.
Eu cheguei a abrir a boca para pedir desculpas, mas um sussurro cortou o silêncio quando Alex desviou os olhos marejados para longe: — Talvez.
Alex pigarreou, desconfortável, sem ousar olhar para mim outra vez, e eu soube que ele estava tentando afastar as lágrimas quando piscou os cílios repetidamente. Meu coração apertou e apertou até espremer-se dentro de mim em um pequeno amontoado pulsante, e meus olhos começaram a marejar também antes que eu pudesse evitar, arrependimento enroscando-se em todo meu corpo como se fosse um polvo.
Alex apressou-se em falar, os olhos escuros mal parando por meio segundo nos meus antes de desviar outra vez para longe, forçando um elevar dos lábios que mais pareceu uma careta: — Eu já tomei muito do seu tempo. — Então, a voz diminuiu para um fiapo fraco e dolorido quando disse: — Eu vou parar de pedir de desculpas por ter vindo e eu só vou ir, tá bom?
Mais uma vez, eu abri a boca, mas nada saiu.
Alex não olhou para mim uma segunda vez, ele apenas engoliu em seco e pôs-se a caminhar, passando por mim em direção à porta às minhas costas, o movimento brusco trazendo seu cheiro inebriante para mim. Eu fechei os olhos, sentindo meu nariz pinicar, meus olhos arderem, o autocontrole cedendo aos poucos, quando fiquei estancado demais pelo medo para sequer tentar para impedi-lo.
Ainda assim, depois que ouvi a porta ser aberta, eu também senti que ele havia parado no batente, sem realmente sair, e senti minha nuca formigar com seu olhar. Meus olhos abriram repentinamente quando ouvi o murmúrio desolado chegar aos meus ouvidos: — Não foi tão impossível quanto você pensou que seria, não é?
E quando ele se foi, a porta fechando atrás dele, eu desabei até o chão.
Subitamente, recaiu sobre mim que ele estava indo embora uma segunda vez e que por uma segunda vez, eu havia deixado. Não importava se ele iria embora hoje ou amanhã ou na semana que vem, ele deixou explícito que era apenas uma visita à sua mãe. E, apesar de eu estar mortificado de tanto rancor, ainda assim eu sentia meu coração latejar com a ideia de vê-lo partir uma vez mais.
Eu amo o Alex, eu amo tanto que dói, um ano e meio não mudou isto.
E eu queria me dar ao luxo de apenas aproveitar a sua companhia, sentir todas as coisas bonitas que coloriam o meu peito, principalmente o alívio de tê-lo de volta, mesmo que apenas por uns minutos, matando a saudade que havia azedado meu coração por tanto tempo. Eu queria poder apenas ignorar todo o contexto, todas as circunstâncias, todos os porquês, para abraçá-lo, sentar de frente para ele e ouvir sobre as suas aventuras dos últimos meses. Eu queria poder perguntar se ele havia encontrado tudo o que buscou, se ele se sentia livre como gostaria, se ele estava feliz. Eu queria pular a janela e segui-lo para dentro da noite, caminhar pelas ruas esburacadas do meu bairro, sentar no nosso banco de pedra, e apenas ouvi-lo. Eu ouviria o som da sua voz, seus risos, sua cantoria, suas histórias, por horas a fio, eu ouviria sem reclamar por um segundo. Eu gostaria de poder tomá-lo em braços, deixar um beijo terno em sua testa e murmurar que a única coisa que me manteve inteiro por um ano e meio foi a ideia amável de que ele havia finalmente encontrado a felicidade quando se libertou.
Solucei, abraçando meus joelhos, a imagem se desfazendo diante da minha visão turva que encarava a realidade do cômodo vazio, a maleta preta jazendo em cima da mesa.
Eu não poderia me dar ao luxo de ignorar a realidade, porque todo o contexto, todas as circunstâncias, todos os porquês, importavam. Alex me machucou tão profundamente que não havia como ignorar nada disto, ele arrancou algo de mim quando colocou um fim na nossa relação, fosse ela qual fosse, algo que não tinha reparo.
Mesmo que eu quisesse, eu não poderia simplesmente ignorar tudo o que aconteceu e tudo o que havia se quebrado, apenas para poder aproveitar sua companhia quando ele resolvesse dar o ar da graça. E se ele estava planejando visitar com frequência, fingir que seus pedidos nunca aconteceram e que sua exclusão da minha vida foi imaginação minha, então talvez eu devesse. Talvez fosse mais fácil assim, perdoar e deixar estar, fingir que a dor não me sufocou por mais de um ano, aceitar que éramos apenas conhecidos agora — agora que ele decidiu que, durante suas visitas, ao menos isto, poderíamos ser — e fingir que éramos bons amigos durante finais de semana em que ele aparecesse, se é que ele apareceria. Ou, quem sabe, eu poderia fazer isto da maneira difícil: desaparecer quando ele estivesse aqui, guardar rancor até que eu nem mais suportasse sua presença, deixar que meus amigos aproveitassem sua companhia rara quando fosse necessário. Mas eu definitivamente não poderia perdoar e esquecer, simplesmente abraçar seu retorno com um par de desculpas banais por haver me dispensado como se eu não fosse nada.
Eu definitivamente não poderia voltar a ser quem eu era antes, voltar a amá-lo da maneira como eu amava antes, voltar a perdoá-lo da maneira como eu perdoava antes, voltar a tratá-lo como se fosse a pessoa mais importante da minha vida, como eu tratava antes.
Havendo mudado, evoluído, crescido, aprendido, independentemente, para mim nada disto queria dizer que Alex era confiável agora. Por um acaso, algum dia ele foi confiável? Eu pensava que não, só que em algum dia do passado, ele também ainda não havia quebrado meu coração, então eu fazia vista grossa para sua instabilidade. Eu deixava que ele fizesse o que quisesse comigo, porque eu não sabia que ele era capaz de ferir tanto, mas agora esta não era mais uma possibilidade.
Eu havia mudado também, pensei, encolhendo-me um pouco mais.
Então, eu não vou conseguir deixar que ele me machuque de novo. E eu precisaria deixar se quisesse perdoá-lo e voltar ao que éramos antes — o que não é possível mas, se eu quisesse tentar, eu teria que deixar em aberto a possibilidade de ser ferido. As defesas baixas abririam brechas para ataque, e eu precisaria delas baixas o suficiente para que ele passasse, caso quisesse tentar tê-lo de volta em minha vida.
A capacidade de ser ferido vem junto do pacote de permitir amar.
Isto não era uma opção, não mais, nunca mais.
Fale com o autor