Made of Stone
76 EXTRA - Sobre amizades edificadas
Notas iniciais
Quando Ian acordou, sentiu que havia uma orquestra dentro de sua cabeça — ela retumbava tanto que seu sangue parecia bombear no mesmo ritmo de um tambor. Talvez o líquido em seu estômago também retumbasse no mesmo ritmo, a julgar pela maneira como parecia estar sacudindo em um liquificador feito uma de suas proteínas. Estar rodopiando em um liquificador pareceu apropriado visto que, mesmo deitado e de olhos fechados, o mundo ao seu redor girava.
Ian tinha certeza que, se ele se movesse um centímetro sequer, iria vomitar.
— Aposto que tá repensando suas escolhas de vida nesse exato momento, hein, maninho?
Ian abriu os olhos com a voz familiar e, apesar de ouvir “maninho”, não era uma voz feminina. Óbvio que não, pensou um segundo depois, Emma jamais o chamaria assim — o apelido carinhoso mais usado por sua irmã era “Bananão” mas quando estava mesmo furiosa era “Chorume” ou “Bafo do Capeta”.
Sua visão demorou a reajustar e sentiu uma dor aguda nas têmporas com a luz forte — não que precisasse enxergar para saber de quem vinha a voz, ele a reconheceria de qualquer maneira.
— Alex?
Sua voz estava tão rouca que parecia um fumante, então ele fez uma careta com o gosto que se espalhou por sua boca quando a usou pela primeira vez — certamente já havia vomitado.
Alex soltou um riso fraco pelo nariz. — Você se lembra de alguma coisa? — perguntou, soando divertido. — Pelo visto, o porre foi bem pior do que eu imaginava. Você tá na mesma posição que te deixei, se não fosse a respiração pesada de velho asmático eu pensaria que você afogou no próprio vômito e foi dessa pra uma melhor.
Ian nem tentou abrir os olhos novamente, mas obrigou os músculos tensos a moverem-se até que estivesse sentado. Ao menos, achou que estivesse, mas o liquidificador aparentemente aumentou de frequência e ele não saberia diferenciar chão de teto. Sentiu que iria vomitar mas lhe ocorreu que não haveria nada para vomitar se o gosto azedo em sua boca era alguma indicação.
Um grunhido sôfrego escapou dele.
Alex colocou um copo em sua mão e ele o bebeu inteiro de uma vez só — isso trouxe um riso fraco ao primo, e então ele ouviu o copo ser enchido novamente e entregue outra vez.
Quando Ian finalmente abriu os olhos e eles se ajustaram, percebeu que estava na sala de estar de casa, sentado no sofá, um travesseiro ao lado e uma coberta enrolada em sua cintura. Um balde limpo estava ao seu lado, mas ele também estava meio molhado, então era de se supôr que havia sido lavado há pouco.
E Alex estava na sua frente, sentado na pequena mesinha de vidro entre os quatro sofás, uma jarra de água pela metade ao seu lado junto do copo meio cheio. Haviam olheiras debaixo de seus olhos e ele parecia abatido, como se não houvesse dormido nada, mas as orbes escuras estavam ternas ao encará-lo. Ian pensou que ele parecia relativamente bem, melhor do que da última vez que o viu meses atrás, quando foi visitá-lo em MC com a família em um final de semana. Perguntou-se se ele já tinha a barba rala na última vez que o viu mas pensava que não.
Forçou a mente para relembrar o que havia acontecido, quando é que ele havia chegado e por que ele estava ali — mas ele tinha razão, o porre foi bem pior do que normalmente era. Disto ele se lembrava vagamente, de seguir bebendo mesmo depois de saber que estava bêbado — fez sentido na hora, pensou que se já estava borracho, não custava nada beber um pouco mais. E ao relembrar disto, veio uma das respostas à sua cabeça: era aniversário do Caleb, a festa havia sido ali, e muita gente apareceu.
Por dedução, era de se pensar que Alex estava ali por causa do aniversário do Caleb — afinal, era o Caleb — mas Ian honestamente não lembrava de mais nada depois da discussão com Grace. Tudo virou um borrão depois daquilo. E sobre o que havia sido a briga mesmo?
— Você veio — comentou, a voz ainda arrastada, e fez uma careta. — Você veio no aniversário dele.
O sorriso dele vacilou, mas então Alex soltou um riso amargo pelo nariz ao desviar o olhar. — É, e isso correu maravilhosamente — debochou.
— O que aconteceu?
Alex suspirou, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos unidas, retorcendo-as com os olhos nelas apesar de não parecer enxergá-las.
— Nada que eu não estivesse esperando — comentou, em um tom abatido. — E nada que eu não merecesse. — Soltou o ar pelo nariz. — Mas, bom, também nada diferente do que se deveria esperar de mim e do Caleb, exceto que... bom, agora ele me odeia e tem razão em odiar.
Ian piscou, tentando acompanhar o que estava ouvindo e Alex suspirou mais uma vez, endireitando a postura e esfregando o rosto com cansaço antes de dirigir um olhar curioso para o primo.
— Você não lembra de coisa alguma, né? — riu, e Ian torceu o nariz, a mão ainda pressionada no estômago como se isso o ajudasse a parar de revirar. — Você sequer lembra de eu ter vindo?
— Não — admitiu, com uma careta.
— Claro que não, você já estava bem torto a hora que cheguei. A hora que liguei, inclusive — acrescentou, estalando a língua.
— Você vai ficar aqui? — Ian perguntou, começando a raciocinar. — Você ficou aqui? Dormiu aqui?
Alex riu fracamente. — Sim, idiota — falou, dando um peteleco na sua testa que fez a cabeça inteira latejar. — Eu fiquei a madrugada inteira limpando a bagunça para os seus pais não te matarem — contou, estalando a língua. — A casa ficou imunda, Ian — contou, com uma careta. — Parte da panelinha ficou pra trás pra me ajudar, mas quando começou a amanhecer eu os obriguei a ir embora. Korn e Bex foram os últimos a irem.
— Amanhecer? — balbuciou, confuso. — Até que horas foi a festa?
O rosto do Alex despencou em culpa e ele desviou o olhar.
— Só até umas duas da manhã — murmurou, e então um sorriso ácido tomou conta de seus lábios. — Basicamente cerca de uma hora depois que eu cheguei, então talvez teria sido menos se eu não tivesse ficado um tempinho com vocês antes de encontrá-lo pra conversar. Eu basicamente arruinei a festa de aniversário do Caleb — riu, depreciativamente. — Bom, não é a primeira vez que eu arruino um aniversário dele, é?
Ian ficou sentido por ele, embora não soubesse o que ele queria dizer com “arruinar” o aniversário do Caleb, mas supôs que os dois imbecis acabaram brigando como sempre faziam.
— Alex...
Alex esfregou o rosto novamente até que avermelhasse e olhou para o teto. — Como é que pode? — perguntou para ninguém em específico, mas então focou os olhos no primo. — Eu não achei que eu fosse capaz de me sentir tão mal assim desde que fui embora. Quando eu tava em MC, tudo pareceu se alinhar aos poucos, como se o chão firmasse mais e mais debaixo dos meus pés. E eu vim pra cá, eu planejei tudo, com tanta... certeza, sabe? — perguntou, e Ian apenas piscou em resposta. — Eu sabia que podia dar tudo errado, que ele não me perdoaria ou que não deixaria de me odiar, eu sabia disso, Ian, mas... — Engoliu em seco. — Eu não achei que seria tão... fodido. Eu cheguei aqui com tanta certeza e, depois de ver a maneira tão... quebrada que ele me olhou, tão ferido e tão furioso, todas as certezas que eu tinha desapareceram.
Bufou, esticando as pernas para frente até que encostassem no sofá.
— É como se eu tivesse voltado no tempo, sabe? — murmurou, baixinho, uma careta desolada. — É como se eu fosse exatamente quem eu costumava ser, tão incerto e tão perdido, tão... incompetente. É como se eu não tivesse aprendido porra nenhuma em um ano e meio. Bastou que eu voltasse pra cá e eu senti como se eu tivesse regredido todo o progresso que eu tive — contemplou, engolindo em seco, os olhos distantes. — Quando decidi vir até aqui pra olhar nos olhos dele e implorar por perdão, eu tinha tanta certeza que eu podia dar o mundo a ele agora. E bastou uma conversa pra que eu sentisse, de novo — enfatizou, azedo —, como se eu não tivesse nada a oferecer. Bastou menos de uma hora — exalou, outro riso amargo —, frente a frente com ele, pra que eu me sentisse tão emocionalmente burro quanto eu era anos atrás. Sempre dizendo a coisa errada, sempre soltando-o quando eu deveria segurá-lo e sempre segurando-o quando eu deveria soltá-lo. Sempre sendo a causa...
Sua voz vacilou e ele mordeu o lábio que tremeu com força, soando tão magoado quanto furioso, os olhos começando a marejar.
— ... do sofrimento dele.
Alex soltou o ar pela boca desta vez, e saiu trêmulo. Ele limpou com rapidez uma lágrima antes mesmo que caísse e balançou a cabeça de um lado ao outro, a mandíbula cerrada. Em seguida, esfregou o rosto outra vez, mantendo a mão na testa, o cotovelo apoiado no joelho, perdido em pensamentos certamente autodepreciativos.
Ian engoliu em seco, observando-o com um aperto no peito.
— Eu te abraçaria mas tenho certeza que minha camisa tá cheirando a vômito — disse ele, finalmente, e um riso fraco veio do primo.
Alex abaixou a mão e ergueu os olhos avermelhados para ele, um sorriso apologético em seu rosto.
— Desculpa, Ian — murmurou, soando cansado. — Você nem acordou direito e eu já tô te sobrecarregando. Eu só... — Suspirou. — Eu mantive minha boca fechada, sabe, ainda tava digerindo o que aconteceu e ainda tava muito chateado comigo mesmo pra ceder às tentativas de conversa da panelinha. E foram muitas tentativas — contou, um sorriso triste. — E eu acho que... deve ter ficado entalado.
Ian piscou, observando-o com cautela.
— Você voltou... pra tentar algo com ele? — perguntou, confuso, porque ele levou um ano e meio para se acostumar com a ideia de que Alex nunca mais voltaria.
Alex suspirou pesadamente, segurando seu olhar confuso com um misto de emoções que Ian não soube identificar. Havia convicção e indignação ali no meio, estava certo, mas ele próprio parecia estar estudando o que sentia.
— Eu voltei pra ele, sim — murmurou, enfim, baixo mas firme. — Eu não voltei pra “tentar algo com ele” — zombou, bufando —, eu voltei pra ser parte da vida dele outra vez, pra finalmente estabelecer algo sólido entre a gente — insistiu, mas a ideia pareceu frustrá-lo ao colocar para fora. Balançou a cabeça de um lado ao outro. — Eu levei quase cinco anos pra entender que o Caleb é meu melhor amigo porque ele é o amor da minha vida; quase cinco anos pra entender que uma coisa não anula a outra, pelo contrário, elas se complementam. A gente ficou se debatendo nesse relacionamento porque a gente seguia tentando escolher uma coisa ou outra, sendo que... isso não faz o menor sentido. Nós somos as duas coisas. Não se sente pela metade — estabeleceu, firme.
Ian arqueou as sobrancelhas, piscando algumas vezes para que a informação se firmasse nele também. Por um lado, ponderou como é que as certezas do primo vacilaram sendo que ele parecia bem certo do que dizia agora. Por outro lado, ele ficou preso nas palavras dele, sentindo-se um pouco mais tocado por elas do que deveria.
Nunca havia pensado sobre esses sentimentos dessa forma — como o próprio Alex havia relatado que costumava fazer, Ian também sempre separou as duas coisas: amor e amizade. Obviamente sabia que era possível que sentisse as duas coisas pela mesma pessoa, afinal, ele conhecia seus próprios sentimentos, mas assim como Alex costumava pensar, Ian sempre acreditou que teria que escolher uma coisa ou outra. Não era isto o que vinha fazendo com Grace há mais de um ano? Não havia escolhido a amizade?
E então Alex estava na sua frente dizendo todo o contrário.
Poderia ele estar certo? Seria possível que as duas coisas se complementam e que apenas estão completas quando unidas?
— Isso é algo que eu não... sabia meses atrás — continuou Alex, depois de uma pausa pensativa, e Ian tentou forçar-se a prestar atenção. — Eu ainda não havia... aprendido muita coisa. Eu não havia aprendido nem o básico do que é necessário pra... sei lá, pra ser um humano funcional? — ponderou, fazendo uma careta. — Então eu fiz o melhor que eu pude antes, e eu pude pouco — riu, novamente, sem achar graça, de uma maneira amarga. — E eu fodi com tudo. Mas não foi de propósito — insistiu, erguendo os olhos para Ian novamente, mais firme desta vez.
Ian assentiu minimamente, porque parecia importante para o primo que ele acreditasse nisto, mas apenas depois que ele assentiu, percebeu que a importância jazia toda na fé do Caleb e não dele.
— Eu achei que eu tava fazendo o certo, e eu... — Alex, então, pareceu ficar mais agitado ao pensar sobre isso, as mãos fechando em punhos. — Mas sequer importa? Não importa! — bufou, frustrado, antes que Ian sentisse que devia responder. — Não importa porque, na visão dele, isso não tem qualquer relevância. Na visão dele, eu o cortei da minha vida sem dar a ele qualquer escolha. Na vida dele, eu o abandonei. E ele tá errado? — perguntou, novamente sem esperar uma resposta. — Não tá — providenciou por conta própria. — E eu não posso nem dizer a ele que, se ele tivesse um pouquinho mais de coragem — apontou, aproximando o polegar do indicador —, apenas um pouco, ele não teria aceitado que eu escolhesse por ele. Não. Caleb não é o tipo de pessoa que aceita que as pessoas tomem escolhas por ele. Caleb não é o tipo de pessoa que aceita que façam o que queiram com ele. Se existe uma pessoa nesse mundo que saiba dizer “não”... essa pessoa é o Caleb. Então por que ele não disse? — perguntou, em seguida, engatando na própria frustração. — Ele simplesmente aceitou que eu tomasse escolhas por ele, e sabe por quê, Ian? Sabe? — perguntou, e Ian negou, sem saber como agir com o monólogo indignado. — Porque sempre foi a escolha mais segura para ele que me deixasse ir. Porque mesmo quando estava comigo, ele estava há dois passos da porta, sempre desejando fugir. Sempre — enfatizou, em um grunhido. — Mas eu não posso falar isso pra ele, posso? Eu não posso dizer a ele que, quando ele decidiu que eu tomasse decisões por ele, isso foi uma decisão dele também, posso? Não, Ian, eu não posso. Eu não posso porque mesmo que ele não tenha sido valente o suficiente para me impedir de cometer o maior erro da minha vida, quem cometeu foi eu. Eu é que fodi com tudo, eu é que o magoei, eu é que o deixei para trás. — Levantou-se, com um suspiro alto. — De que adianta confrontá-lo com o fato de que ele não tem coragem de me amar?
Ian ouviu tudo calado, os olhos acompanhando os movimentos frustrados do primo, um tanto surpreso por ouvi-lo desabafar desta forma. Mesmo depois de ficar sabendo do envolvimento dos dois, Alex nunca havia conversado com ele sobre o Caleb, não desta forma.
— Então sim, Ian, eu voltei para ele — concluiu, virando-se para encará-lo, então, com uma expressão zangada. Ian franziu o cenho, percebendo que Alex parecia direcionar a raiva a ele agora. — Mas talvez eu tivesse escolhido um momento e uma maneira mais apropriados se eu tivesse todas as informações, não é? — perguntou, baixo, perigoso. Ian franziu ainda mais o cenho, confuso. — Então será que você pode me dizer por que caralhos ninguém, absolutamente ninguém, achou importante me contar que ele tava namorando?!
Ian congelou, uma careta aprofundando-se em seu rosto, e Alex bufou, contornando a mesa ao colocar um pouco de distância entre eles, como se precisasse se movimentar para não surtar.
— Desculpa — pediu, murcho. — Acho que ninguém teve coragem...
— Eu falo com você toda semana, toda maldita semana! Os outros eu até entendo, mas você deveria ter me contado — grunhiu, chateado. — Você é meu primo, Ian, você é meu irmão!
Ian franziu o cenho, apertando os lábios.
— Por isto mesmo que eu não podia contar! — reclamou, em seguida piscando algumas vezes quando sentiu a cabeça rodopiar. — Você acha que foi fácil pra mim ver os dois se apaixonarem? — Alex estremeceu com as palavras, uma expressão de dor aguda no rosto, e Ian se encolheu minimamente. — Desculpe — murmurou, ao perceber. — Mas eu te incomodei por meses sobre isso, sobre o Caleb, e tudo o que você me dizia é que eu tinha que deixar quieto e que eu devia deixá-lo te esquecer.
Alex contorceu o rosto em uma careta, parecendo novamente cair em um redemoinho de autodepreciação, os olhos ainda doloridos à menção do Caleb ter se apaixonado por outro.
— Eu demorei mas fiz o que você pediu, eu o deixei seguir em frente. Só que eu também sabia que você não tinha seguido em frente, então como é que eu podia te contar? — Alex abriu a boca, mas Ian interrompeu: — Eu te conheço, Alex, você sequer saiu com alguém esse tempo todo?! — disparou, mas sabia a verdade, a julgar pela maneira como Alex vinha driblando essas perguntas há um ano e meio. A careta dele se aprofundou, e Ian soltou um bufo. — Pois é. Então como é que eu poderia simplesmente te contar que ele tava com o Topher?
Alex ficou quieto por um momento antes de voltar a se sentar, os ombros caídos, desistente. Uma ruga pareceu haver se instalado em seu cenho desde a primeira menção de Caleb ter se apaixonado por outro.
— Tudo bem — murmurou, cabisbaixo, mas uma expressão torturada agudizava em seu rosto. — Mas se eu soubesse que ele tava namorando, Ian... eu não sei se eu... — Suspirou, desviando o olhar para longe antes de concluir, baixinho: — Talvez eu não devesse ter vindo.
Ian se deixou cair para trás também, sentindo-se um lixo, em mais de um sentido, apoiando as costas grudentas no sofá. — Sinto muito, Alex — murmurou, de volta.
— Você acha que ele tá mesmo apaixonado por esse menino? — perguntou, tão baixo que Ian demorou a compreender as palavras balbuciadas. Alex não ergueu o olhar, focado nas mãos retorcidas em nervosismo.
Ian suspirou. — Não faço ideia — admitiu, baixinho também.
Alex ergueu os olhos, ponderando por um momento antes de perguntar outra vez: — Ele parece feliz?
Uma careta aprofundou-se no rosto de Ian novamente e ele desviou o olhar no mesmo instante. Apesar da resposta não ter vindo verbalizada, Alex pareceu compreendê-la ainda assim, e soltou um som baixo pelo nariz.
— Ah — murmurou, apenas. — Acho que isso diz o suficiente.
Ian voltou os olhos a ele rapidamente, um pouco angustiado.
Não poderia mentir para ele — Caleb estava muito melhor agora do que esteve o tempo inteiro desde que o Alex foi embora. Ele não parecia mais com uma alma penada e não havia maneira bonita de contar isso ao Alex, e também não havia maneira de que pudesse mentir para ele. Ainda assim, depois de tudo o que ele falou — e da certeza em sua voz, apesar dele relatar que sentiu o oposto disto ao encarar a fúria do Caleb —, Ian achava injusto que ele desistisse tão facilmente.
— Alex... Se tudo o que me disse é verdade, você poderia fazê-lo feliz também. Você falou essas coisas pra ele? — perguntou, e Alex suspirou, aparentando discordar. — Você falou como se sente?
Alex olhou para o Ian, desesperançoso, e deu de ombros.
— Eu disse que eu o amo muito e que eu sou apaixonado por ele. Eu disse que eu não tô só de passagem, que eu quero voltar pra vida dele. Eu disse que eu me arrependo e eu pedi desculpas de todas as maneiras que conheço. Eu ouvi o que ele tinha a falar e disse que ele tinha razão tantas vezes que a cabeça dele quase explodiu de raiva — riu, baixinho, mas o humor não chegou aos olhos. Deu de ombros outra vez. — Quero dizer, o que mais eu posso dizer?
A última pergunta saiu como um devaneio, os olhos desfocando por tempo suficiente para que Ian abrisse a boca para sugerir que mesmo que soasse repetido, que ele seguisse dizendo as mesmas coisas. Antes que pudesse, no entanto, Alex bufou ao focar os olhos nele outra vez.
— Mas quando eu planejei dizer todas essas coisas a ele, as escolhas dele deveriam ser apenas: voltar para mim ou não voltar para mim. Era muito simples. Eu não sabia que as escolhas que eu daria a ele significariam largar seu namorado ou permanecer com ele. — Fez uma careta, e Ian se encolheu. — Faz com que eu pareça um filho da puta, não é? Faz parecer que eu só voltei porque vi que ele seguiu em frente, não é? — Bufou outra vez. — Bruno me contou, nas palavras dele, que esse menino tava “todo olhinhos” para o Caleb — riu, fraco, as aspas com os dedos. — Mas eu não sabia que eles tinham ficado, muito menos que estavam namorando. Na verdade, isso nem cruzou pela minha cabeça — admitiu, sentindo-se um otário. — Eu sabia que não levaria muito tempo para que ele seguisse em frente de alguma forma, mas era uma ideia tão vaga. Eu devia ter, pelo menos, considerado a possibilidade dele já ter seguido em frente. Quero dizer, o Caleb é perfeito. É óbvio que era questão de tempo até que alguém o fisgasse.
Ian fez uma careta, inconscientemente relacionando isto à Grace.
Durante a conversa inteira, ele tentou focar apenas nos problemas do Alex, mas haviam muitos paralelos para que ele pudesse evitar. O mundo ainda girava, embora relativamente mais devagar agora, e ele sentia que estava fazendo esforço excessivo para manter a cabeça longe de Grace por tempo demais.
Não tinha como não relacionar as coisas, afinal, ele havia mesmo se apaixonado por sua melhor amiga. Ele também havia optado por manter sua amizade intacta ao invés de cometer o erro gravíssimo de vomitar seus sentimentos para ela. Se Ian fosse sincero, no entanto, os motivos para que ele tenha se esforçado tanto para mudar seu comportamento com a Grace não eram tão puros quanto se poderia pensar.
Na formatura, quando teve aquela conversa com o Alex, ele havia dito algo que não saiu de sua cabeça — algo sobre como agir feito um derrotado o transformava em um. Ian pensou, então, já que estava no fundo do poço — afinal, por meses vinha assistindo, de primeira mão, Grace se apaixonar por Dan até que isto culminasse no beijo público deles como uma declaração —, que deveria fazer o melhor da situação.
A ideia de perder Grace o assustava, e ele sentia que a vinha perdendo desde que o Dan se uniu a eles, por conta da intensidade das brigas. Decidiu que, já que nunca teria o seu amor, podia manter intacta sua amizade, pois era o único que os conectava então. Havia percebido, com a panelinha antiga, que os encontros deles não eram tão frequentes quanto gostariam devido à vida lá fora, a não ser com as amizades mais próximas, e que deveria manter Grace o mais próximo possível para que pudesse mantê-la consigo para além do colégio com uma frequência não tão dolorida. De sobra, pensou que deveria dar uma chance para o conselho do Alex de que ele deveria agir menos feito um bobão derrotado. Uma parte dele, no fundo, ponderava se, talvez assim, pudesse haver uma chance de que Grace olhasse para ele como mais do que uma amiga — talvez um dia. Também pensou que, se ele ficasse com outras garotas enquanto Grace estava em sua bolha com o Dan, talvez isto a fizesse perceber que ele podia ser mais do que o amigo irritante dela.
Não que tenha funcionado, pensou, azedo, consigo mesmo. Também, como poderia, se qualquer patética faísca que pudesse produzir para chamar sua atenção era ofuscada pela luz constante, em potência máxima, do Dan?
— Ele é um menino bom?
Ian piscou, demorando a compreender de quem possivelmente Alex poderia estar falando se ele conhecia o Dan. A compreensão recaiu um tanto tardia, mas podia culpar sua ressaca.
— Ele é um de nós — optou por responder, porque isso devia ser resposta o suficiente.
Alex soltou um som fraco pelo nariz. — É, tem razão, isso... — Ele engoliu em seco. — É incontestável, eu acho.
Ian o observou, ponderando se devia perguntar o que estava metralhando em sua cabeça esse tempo todo. — Alex, você voltou pra visitar porque queria fazer as pazes com o Caleb ou voltou... para a cidade?
Alex ergueu os olhos para ele, franzindo o cenho, e pensou por alguns momentos na resposta. Ian arqueou as sobrancelhas para isto: por que ele precisava pensar?
— Voltei pra visitar — decidiu, enfim, com uma careta.
Ian inclinou o rosto, confuso pela hesitação da resposta.
— Então por quê...?
Alex suspirou.
— Você tá lento demais pra essa conversa — interrompeu, batendo as mãos no joelho antes de impulsionar o corpo para cima. — Vamos, levanta, você terminou de vomitar tudo o que tinha nesse estômago faz umas seis horas. Depois foi só saliva porque não tinha mais nada pra sair de dentro do seu pobre estômago. Você precisa comer. Ah, e já aproveita e me fala o que tá rolando com você e a Grace, viu? — emendou, para o desgosto dele, logo que ele colocou o peso sobre os pés com uma careta. — Eu fui atualizado de algumas coisas enquanto você tava desmaiado no sofá. Por que brigaram ontem?
Ian percebeu que não foi tão difícil ficar em pé, mas ainda estava enjoado a ponto de achar difícil comer coisa que fosse. Enquanto seguia Alex até a cozinha, ponderou sobre a resposta mas não a encontrou.
— Eu... não lembro — admitiu, torcendo o nariz.
Sinceramente, estava tentando não pensar sobre isto para não entrar em pânico — que tivesse tido uma briga com Grace, como tinham antigamente, e que não lembrasse do conteúdo dela, era muito preocupante. Sentia o estômago revirar novamente só de tentar futricar nas memórias borradas do dia anterior.
— Nossa, esse é um ótimo começo — zombou, com um bufo. — Vou rezar que ela te perdoe, porque francamente... Foi algo sobre a loira? — perguntou, e Ian disparou um olhar ultrajado para ele. — Ah, é, também fui atualizado sobre isso. Aparentemente vocês andam brigando de novo por conta dessa garota. Eu me pergunto o porquê — cantarolou, balançando as sobrancelhas para cima e para baixo em sugestão.
Ian sentiu um aperto no peito — tanto porque queria que ele estivesse certo quanto pela impossibilidade dele estar.
— Não é isso — resmungou, desgostoso.
Alex já havia se dirigido para a bancada onde estava a cafeteira, mas a mesa central da cozinha já estava cheia com o café da tarde. Intocado, percebeu Ian, ao analisar a mesa e sentir o estômago dolorido roncar contra todo o juízo. Seus pais definitivamente já deveriam ter chegado em casa, mas também deviam ter saído e não haviam retornado ainda. Apesar do Alex ter limpado a casa, certamente não pôde limpar a embriaguez do primo, o que só podia significar que ele ouviria um sermão de qualquer forma.
— Ahã — murmurou Alex, debochado. — Você é tonto demais, Ian, só pode ter sido adotado.
Ian bufou, tomando mais um copo de água. — Uns três anos atrás a gente era a cara um do outro — apontou, com um meio sorriso. — Se eu sou adotado, você também é.
Alex fez uma careta estranha quando ouviu isso, parecendo tenso, mas depois deu de ombros. — Você nunca teve a minha cara, por favor — zombou, estalando a língua. — Bem que gostaria, né?
Ian bufou, estapeando seus cabelos. — Sai daí, tampinha.
Alex o olhou com indignação, uma sobrancelha arqueada.
— Eu tenho um metro e setenta e cinco, Ian, dificilmente que eu seria considerado baixinho — reclamou, revirando os olhos. — Não é minha culpa se vocês andam tomando fermento pelas manhãs. Você parece um poste e o Caleb tá da minha altura. Você viu?! Eu fiquei apavorado — comentou, mas não havia pavor algum em seu rosto —, nas fotos ele não parecia tão alto.
Ian soltou um som pelo nariz. — Se ele tá da sua altura, ele não é alto mesmo.
— Você quer apanhar?!
Quando eles começaram a se implicar no meio da cozinha, com soquinhos e petelecos, Ian quase sentiu que vomitaria de novo — mas Alex tinha razão, não deveria ter nada além de água em seu estômago agora. Ele reprimiu um sorriso ainda assim, depois de pedir trégua porque havia uma bateria soando em sua cabeça, havia sentido falta dele.
Um minuto depois, Alex arqueou uma sobrancelha. — O que sobra para a pobre da Grace então, com um metro e meio? — Ian resmungou baixinho, mas não ergueu o olhar. — Os opostos se atraem mesmo, hein? — cantarolou. — Mas será que você sequer conseguiria beijá-la?
— Claro que eu conse...! — Apenas depois de começar a falar, um toque de indignação na voz, que percebeu que caiu na armadilha, um sorriso largo e idiota no rosto do Alex. — Cala a boca, otário. Eu te odeio.
— Você não deveria ficar envergonhado, sabe? Pelo que fiquei sabendo, Grace não parece se importar nem um pouco — enfatizou, um sorriso besta — com sua altura nos últimos tempos.
— Não começa.
— Ora, mas não fui eu que comecei. Eu nem tava aqui — falou, fazendo-se de desentendido, e Ian suspirou. — Quem estava falando isso era a panelinha. Você sabe, aqueles que assistem de primeira mão as picuinhas de vocês.
— Não tem mais picuinhas, a gente tá bem. Ela só... — Suspirou, esfregando a margarina no pão. — Eu não sei qual é o problema dela. Não importa o que eu faça, ela parece me odiar de qualquer forma.
— Alguns chamariam isto de outra coisa, sabe, tudo menos “ódio”.
Ian lhe dirigiu um olhar azedo. — Vocês podem ser iludidos com o que quiserem na vida pessoal de vocês, mas não venham ser iludidos na minha!
Alex arqueou uma sobrancelha e Ian se remexeu no lugar quando o olhar analítico e julgador dele persistiu, até que, enfim, desviasse os olhos para a comida.
E então, ele soltou um bufo desacreditado.
— Tem que ser muito trouxa, Ian...
Ian fez uma careta, enfiando o pão na boca, e murmurou, com a boca cheia: — Concordo.
*
Quando Mason chegou na casa de Cristina, tudo estava silencioso.
Ainda assim, a mensagem que recebeu de Cristina de que queria vê-lo urgentemente era alarmante, bem como os olhos castanhos alargados de Catalina quando ela abriu a porta da frente para ele. Antes que ele subisse as escadas, Cata pediu que ele avisasse Cris de que ela foi na casa de um amigo e que voltaria à noite.
Com o coração disparado, ele entrou no quarto de Cristina, sem saber o que esperar.
Quase todas as luzes da casa estavam apagadas, com exceção da luz da sala no andar de baixo, cuja luminosidade chegava precariamente no andar superior. O quarto de sua namorada também estava escuro, iluminado apenas pelo alaranjado fraco do poste de luz, que entrava pela janela. Ele pôde ver a silhueta dela sentada na cadeira ao lado da janela, olhando para fora, outra luz alaranjada em sua mão: o cigarro aceso. Não, pensou Mason, inspirando ao caminhar até ela, não era um cigarro.
— O que houve? — sussurrou Mason, pigarreando em seguida quando percebeu, sem saber por que estava sussurrando apavorado.
Cristina não respondeu por um tempo, tragando mais uma vez, a fumaça visível apenas vagamente por conta da luminosidade que vinha da janela. Mason também não entendeu por que estavam no escuro mas não ousou acender a luz, terminando de caminhar lentamente até que estivesse sentado na cama dela.
— Cris? — insistiu, ansioso.
Cristina ainda olhava pela janela e, com os olhos acostumando aos poucos com o escuro, ele começava a distinguir um pouco seu rosto. Ela pigarreou e pareceu ajeitar a postura.
— Bobagem — resmungou, como se recém houvesse decidido que o motivo para chamá-lo com urgência não era motivo suficiente, como se o descarasse como apenas “bobagem”.
Sua voz soou estranha, no entanto, Mason percebeu. Ele levantou rapidamente, ainda preocupado, e ajoelhou-se diante dela, procurando por seus olhos ainda que mal os pudesse ver. — Cris... Você está bem?
— Bobagem — repetiu ela, outra vez, mais dura. Sua voz estava rouca.
Mason sentiu seu coração apertar. — Amor...
Antes que ele conseguisse dizer mais alguma coisa, Cristina largou o baseado de qualquer jeito no cinzeiro da janela e agarrou o rosto de Mason com ambas as mãos, fechando o espaço entre eles. Mason sequer teve tempo de reagir, soltando um suspiro surpreso, antes que não houvesse espaço algum entre os lábios esmagados.
Mason não era louco de negar uma exigência da namorada, ainda que súbita e um tanto fora de personagem, então não fez nenhum movimento para sair da prisão dos lábios dela. A casa poderia estar pegando fogo, se Cristina exigisse um beijo em meio às chamas, ele a beijaria com gosto. A questão era como daria a ela o que ela quer... e o que ela precisa, ao mesmo tempo.
Quando seus lábios começaram a mover por sobre os seus, exigentes e afoitos, tomando mais e mais, ele tentou acompanhá-la, mas sua mente ainda processava o que devia fazer a seguir.
Não podia ter sido uma simples briga dos pais, pensou ele, porque as brigas eram tão comuns e rotineiras que as duas filhas do casal sequer piscavam. Algo mais devia ter acontecido, afinal, até mesmo sua irmã parecia abalada quando deixou a casa para eles. Ela ainda era novinha, mas era tão consciente quanto Cristina era naquela idade, então talvez ainda tenha escolhido sair justamente para que sua irmã mais velha ficasse um pouco com ele.
Sem saber como reagir ou para onde ir, Mason tentou se levantar, mas Cristina ergueu-se junto dele, colando seus corpos também. Eles eram de altura semelhante, mas Mason havia ultrapassado um pouco a namorada, então teve que inclinar-se levemente para ela, suas mãos posicionando-se na cintura dela de forma automática. Uma das mãos frias de Cristina soltou seu rosto e deslizou pela cintura fina de Mason até poder agarrá-lo pelas costas, certificando-se de que ele não fugiria.
O beijo estava salgado, então ele soube que ela havia estado chorando, e a urgência abalada, a quase ferocidade, em que o beijava indicava que aquilo era qualquer coisa que não “bobagem”.
Não é como se eles nunca se beijassem — os beijos, inclusive, haviam se tornado mais frequente de poucos meses para cá. Antes disso, durante os três anos de namoro deles, eles mal se davam um selinho ou outro. Eles recém estavam se acostumando com os beijos mais aprofundados e as mãos mais atrevidas, então isso era... demais.
Algo estava muito errado.
Cristina resmungou nas primeiras tentativas dele de interromper o beijo, e Mason tinha que admitir que, quando ela mordeu seu lábio inferior e enfiou a mão por debaixo de sua camisa para arranhá-lo com descontentamento, ele ficou um pouco abalado. Um gemido sôfrego escapou de seus lábios, não apenas como forma de extravasar o que sentia quando ela o tratava tão rudemente — o que não deveria ser tão bom, certo? — mas também porque teria mesmo que interromper isso.
Mason conseguiu dizer o nome dela, a metade de um “por favor” e de um “pare”, dificultosamente, antes que ela finalmente parasse. E ela não o fez de maneira agradável.
— Cacete! — xingou, empurrando-o sem muita força, apenas o suficiente para que ele cambaleasse para trás. — Que merda! Que saco! Que inferno! Por que eu não posso ter ao menos uma coisa?! — gritou, aproximando-se o passo que o empurrou para trás para empurrá-lo outra vez.
Mason piscou, os olhos arregalados, ainda em choque. Seus lábios ainda estavam formigando, bem como a pele de suas costas, e quando lambeu os lábios, eles ainda estavam salgados e tinham gosto de erva.
— Uma coisa! — berrou, mas as barreiras começaram a fraquejar porque sua voz saiu trêmula e rouca e fraca. Foi de cem a zero muito rápido, como o despencar de um penhasco. — Alguém tem que fazer algo que eu queira, ao menos uma vez nessa vida! Por que eu não posso ter ao menos uma... Por que eu não... Eu odeio...!
Quando ela começou a travar nas palavras, levando as mãos aos cabelos como se para puxá-los em frustração, Mason moveu-se até ela com rapidez e segurou suas mãos ao abaixá-las. Cristina tentou resistiu inicialmente, xingando-o e tentando empurrá-lo outra vez, mas ele a puxou até que ela estivesse pressionada por completo contra ele. Ela se debateu, ainda assim, dentro do abraço, mas Mason havia circundado seu corpo com os braços para prendê-la ali e aguentou firme até que o corpo tenso desabasse.
O soluço que escapou assustou-o, mas ele continuou abraçando-a, ainda sem saber como agir. Na dúvida, aproveitou que o corpo macio desabou contra o seu e deu o passo restante para trás em direção à cama, levando-a junto até que estivessem sentados, ainda em um abraço.
Mason nunca a tinha visto chorar ou dar qualquer indício de choro desde que a conheceu — era a primeira vez que a via demonstrar qualquer indício de fragilidade. E era como se houvesse aberto uma porta trancada a sete chaves, realmente como o despencar de um penhasco, em queda livre. Sentiu-se muito apreensivo com isso, porque sentia que não tinha permissão de vê-la assim. Sentia que Cristina, em sã consciência, jamais permitiria que alguém a visse tão vulnerável e que se ela permitiu que isso acontecesse agora, era porque não conseguiu controlar-se — estava no limite e não teve escolha.
Ainda assustado com o que aconteceria a seguir, quando ela saísse desse estado, ele afagou suas costas e seus cabelos macios, apenas segurando-a enquanto ela chorava contra o seu pescoço. Ele murmurou algumas palavras, dizendo que estava tudo bem, que ele estava ali, e que tudo se resolveria. Depois dos soluços iniciais, Cristina pareceu se controlar como Mason pensou que ela faria, segurando o choro o suficiente para que saísse de maneira silenciosa. Ele suspirou pesadamente, sentindo-se angustiado pelo que quer que a fez acreditar que não deveria demonstrar como realmente se sente. Afinal, se ela transbordou dessa forma é porque passou tantos anos guardando tudo para si.
Mason começou a tagarelar assim que o silêncio se instaurou no quarto escuro, quando sentiu o corpo dela retesar contra o seu, provavelmente se dando por conta da fragilidade exposta — exatamente como Maze imaginou. Antes que ela se afastasse, ele começou a tagarelar nervosamente, listando os motivos pelos quais ela deveria confiar nele para contar o que havia acontecido. Quando ela não teve uma reação ele continoua, dizendo que estava tudo bem se ela não quisesse contar também, que ele só estava preocupado.
Assim que ele começou a listar os motivos pelos quais se preocupava com ela — que ela era importante para ele, que era a luz de sua vida, que queria vê-la sorrir sempre —, Cristina finalmente o interrompeu: — Eu finalmente disse a eles.
Mason calou-se no mesmo instante, as peças se encaixando, e percebeu que não era “bobagem” mesmo. Talvez fosse o nódulo na garganta que por mais tempo houvesse estado entalado nela — a ferida mais antiga e mais persistente, que nunca cicatrizava. Ele a apertou um pouco mais inconscientemente, surpreso que ela ainda estivesse com o rosto enfiado em seu pescoço molhado.
— Você disse a eles? — sussurrou, voltando a afagar suas costas, sem perceber que havia parado quando ela finalmente falou.
— Eu gritei — admitiu ela, e ele ficou ainda mais chocado. Se era difícil imaginá-la chorando, era ainda mais incompensável imaginá-la gritando... e com os pais, ainda por cima.
Cristina afastou-se dessa vez e, com os olhos acostumados com o escuro, ele pôde ver as lágrimas brilhando em seu rosto com o reflexo da luz de fora. Ela desviou o olhar, parecendo desconfortável, mas Mason segurou sua cintura um pouco mais firme para que ela não tentasse levantar.
— Eu perdi a compostura, deve ter sido um desequilíbrio químico — defendeu-se ela, limpando o rosto com rapidez.
Mason concordou com isso, assentindo no automático, certamente era um desequilíbrio químico, mas não era algo aleatório como ela fazia parecer. Ele a analisou por um momento, o coração apertado, um tanto fascinado que ela conseguisse ser ainda mais racional do que ele... e um tanto preocupado com isso também.
Cristina abaixou o olhar para o próprio colo, onde remexeu suas mãos.
— Eu disse a eles todo o mal que eles causam na gente, que eles são como uma doença na nossa família, e que estarem juntos não faz bem a ninguém. Eu disse que eles usavam a gente como desculpa para seguirem juntos apenas porque não sabem o que fazer com suas vidas medíocres quando não estão aos berros um com o outro. — Cristina contou tudo de uma vez, e Mason arregalou os olhos conforme ouvia, sua boca caindo. — Eu disse que são covardes porque eles têm medo de descobrir quem eles são sem tanto ódio e de destruir a família perfeita que eles criaram na mente ilusória deles. Eu disse que nenhuma de nós aguenta mais e que o amor que dizem sentir por nós não compensa o ódio que eles sentem um pelo outro.
Cristina limpou o rosto mais uma vez, claramente irritadiça, como se as lágrimas caindo de seus olhos fossem uma inconveniência desagradável e incompreensível. Mason, se possível, preocupações à parte, havia se apaixonado um pouco mais.
— Estou orgulhoso de você — sussurrou, realmente impressionado, e Cristina pareceu ainda mais desconfortável. — Desequilíbrio ou não, eles precisavam saber disso e você precisava falar.
Cristina pareceu perdida com o que sentia, sem saber o que fazer, então deixou o corpo cair de volta para o Mason, apoiando a testa no ombro dele. Surpreso, Mason ergueu as mãos trêmulas para acariciar seus cabelos lisos novamente, com medo de fazer algum movimento brusco que a afastasse.
Ainda assim, ele precisava saber: — O que eles disseram?
Cristina balançou a cabeça de um lado ao outro, ainda com a testa em seu ombro, e suspirou. — Adivinha — murmurou, rouca, cansada.
Mason fechou os olhos, pressentindo o que viria, e chutou: — Eles começaram a brigar de novo, um dizendo que a culpa é do outro pelo seu desequilíbrio químico.
Cristina assentiu, quietamente, desgastada. — Eu vou fazer dezoito anos e eu poderia sair daqui — sussurrou, em um fiapo de voz, quase como se fosse um segredo que ela não ousava dizer em voz alta. Um sonho que ela não ousava perseguir.
Eles nunca conversavam sobre isso, mas Mason a conhecia tão bem que conseguia compreender todas as facetas dessa história. Todos os lados de seu coração e todos os tormentos de sua alma, como se eles houvessem passado o tempo todo discutindo os assuntos que atormentam sua mente. E Cristina havia pedido que ele adivinhasse, é claro, porque sabia que ele a conhecia do avesso também. Eles eram perceptivos um com o outro, atentos aos detalhes, e haviam coisas que não precisavam ser ditas para que fossem reconhecidas.
— Mas você não vai — deduziu Mason, outra vez, baixando a voz também ao compartilharem o segredo não dito.
A respiração de Cristina falhou mais uma vez, tão leve que não fosse o silêncio sepultural da casa, ele não teria ouvido. Mas ela se acalmou sozinha outra vez antes de dizer: — Eu acho que eu deveria me sentir melhor sabendo que eu tenho uma escolha e que eu poderia sair daqui a qualquer momento... mas isso me faz sentir pior. Eu poderia me livrar desse inferno, a porta está bem ali, assim como o consentimento do governo de que eu abandone meus pais aos dezoito, mas... ainda assim, eu não poderia.
Mason assentiu, deixando beijos castos em seus cabelos. — Você não tem consentimento do governo para levar sua irmã com você.
Cristina negou. — Não, eu não tenho.
— Sinto muito — sussurrou, contra o seu ouvido, acariciando seus cabelos.
Cristina ergueu o rosto para inspirar o cheiro de Mason direto de seu pescoço e então expirou em um suspiro, abraçando-o de volta onde se sentiu vista, amada e segura pela primeira vez na vida. — Eu também.
*
Depois de sóbrio, Ian se lembrou de sua briga com Grace com perfeição... dispensável.
Tudo azedou quando Cindy apareceu no aniversário do Caleb, dentre outros colegas de classe indesejados pelos demais, apesar de não terem sido convidados por nenhum deles. A noite estava ótima, e Grace e ele sequer brigaram antes dela aparecer. Ian, obviamente, não iria ignorar a garota quando ela conversasse com ele, então é claro que teve sua atenção fisgada por alguns momentos.
Grace se fechou novamente, mas Ian foi um pouco insistente quando fez uma pergunta sobre bebidas a ela na cozinha e ela o ignorou como se ele nem estivesse lá. Foi então que ela explodiu, dizenod que era sua culpa que Cindy estivesse ali, e mesmo que ele tenha tentado se defender ao dizer que não a convidou, ela lançou um: — Tá namorando com ela agora?
Ian respondeu, de pronto, também irritado: — É claro que não! — Em seguida, torceu o nariz para ela. — Você devia saber. Tá ficando com o Dan faz mais de um ano e você não namoram, não é?
Grace irritou-se novamente com a menção do Dan, dizendo que não era a mesma coisa e que ele não deveria colocar Dan e Cindy em um mesmo patamar. Isso deixou Ian ainda mais furioso, é claro, e como ele já estava até desequilibrado com o álcool, quando tentou impedi-la de fazer uma saída teatral, os dois quase caíram. No cambalear desajeitado, acabou que Grace ficou prensada contra o balcão de cozinha, e Ian praticamente por cima dela, apoiando-se no mesmo balcão para não cair. O mundo não girava o suficiente para que ele não pudesse ser engolido pelas orbes castanhas de Grace, que o encaravam arregaladas pela proximidade, bem como não o impedia de focar a atenção nos seus lábios cheios entreabertos em surpresa.
Eles tiveram um momento ínfimo, foi o que pareceu, e Ian estava prestes a jogar tudo para o alto ao finalmente tomar a boca de Grace como sua, quando a voz aguda de Cindy interrompeu o momento.
Qualquer calor nos olhos de Grace esfriou instantaneamente, mas ela só se moveu para longe do Ian — sumindo de vista tão rápido que ele sequer processou — quando ele desviou os olhos dela para a garota loira na entrada da cozinha.
Era a primeira vez que ele realmente se irritava com a colega de classe, mas estava embriagado, confuso e lento demais para sequer demonstrar.
Grace tentou ignorá-lo depois para evitar brigas, Ian podia dá-la um pouco de crédito por isso, mas por outro lado... O que diabos?!
Enquanto repassava os acontecimentos em sua memória falha, surtava só de pensar que eles haviam quase se beijado. Não importa o quão trêmula e embaçada a memória fosse, aquele era o rosto perfeito de Grace há centímetros de distância do seu, seu corpo que estava grudado ao dele contra o balcão, e o silêncio sepultural vinha dela também ao passo que ela fazia tudo menos tentar se afastar.
Mesmo minutos após o acontecimento, ainda bêbado, ele tentava processar a informação. Seus olhos seguiam buscando por Grace, não importando que houvesse a loira considerada mais bonita do colégio ao seu lado, era o rosto de sua melhor amiga que ele procurava desvendar à distância, mesmo com o álcool nublando sua mente.
Foi aí que as coisas ficaram confusas, afinal, se ele havia ficado bêbado o suficiente para quase beijar Grace — e quase deu certo —, o que importava se ficasse um pouco mais? Talvez assim conseguisse declarar seu amor, o que lhe pareceu uma ótima ideia naquele momento, embora, ao relembrar quando sóbrio a ideia lhe desse calafrios envergonhados. Foi o que ele fez, não foi? Àquela altura da festa, ele já não lembrava de muito mais, mas tinha certeza que tentou cantar uma música romântica para Grace, e que não foi bem recebido. E tinha quase certeza que a cabeleira loira que bloqueava sua visão do rosto enfurecido de Grace pertencia à Cindy, então era bem provável que ela estivesse perto o suficiente para que parecesse que ele cantava para a loira.
Ou seja, as memórias recuperadas com a sobriedade eram lamentáveis.
Ian ponderou como poderia abordar Grace sobre o que aconteceu, mas quanto mais sóbrias as memórias ficavam, mais ridículo parecia. Pareceu que encararam a profundidade do olhar um do outro por horas apenas porque ele estava bêbado, e o suspiro dela provavelmente se deu porque seu corpo desajeitado e brutamontes esmagou-a contra o balcão. O calor em seu olhar era porque ele estava obviamente patético, e ela sentiu compaixão por ele ao analisar seu estado, porque ela o amava... como amigo. E seu olhar esfriou ao relembrar que seu amigo estava dando trela para uma pessoa que ela odeia.
Grace também não agiu de maneira diferente com ele — não estava ignorando-o nem tratando-o mal. O clima ainda seguia estranho, mas a hostilidade era sutil demais, era quase como se ela se recusasse a entrar naquela discussão novamente. E, mais uma vez, ela estava com a atenção toda voltada para o Dan, como se ele fosse uma âncora.
Ian sentiu o antigo rancor voltar a renascer, mas o negócio com o Dan é que, por sua vez, ele andava mais e mais familiarizado com o Ian, o que tornava mais e mais difícil odiá-lo.
Na saída do colégio, quando Cindy acenou para ele do lado de fora do portão, enquanto ele ainda estava conversando do lado de dentro com os amigos, Dan o cutucou. Colocou uma das tranças para trás da orelha e afinou a voz: — Ian, será que você pode me emprestar seu casaco hoje? — perguntou, de costas para onde Cindy estava e de frente para o Ian, bloqueando sua visão dela ao mesmo tempo que fazia o “papel’ dela. Ele piscou algumas vezes teatralmente. — Eu tô com tanto frio que meus mamilos estão duros!
Os demais riram, e Ian agradeceu que Grace ainda não os tivesse alcançado ali. Ele tentou suprimir um sorriso na base do ódio mas não conseguiu, empurrando Dan para longe ao passo que ele se agachava rindo. — Sai fora.
Dan apertou sua bochecha e ele se esquivou outra vez, ranzinza.
Depois disso, tudo aconteceu rápido demais.
Cindy o chamou, seus amigos abafaram o riso para disfarçar e Ian caminhou, desanimadamente, até ela. Ela perguntou se Ian não iria na festa de aniversário do Patolino — vulgo Timothé —, o que era ridículo, porque ele nunca na vida teve uma conversa — que não tivesse a ver com o colégio, e ainda assim, algo passagerio — completa com o cara. Suas amigas deram risinhos também, dizendo que ele não precisava ser convidado porque todo mundo iria na festa dele, e que a Cindy insistia que ele fosse também. Ian ficou sem jeito, mas elas abraçaram a amiga e saíram correndo de onde o Patolino chamava com cara de poucos amigos para o casal que ficou para trás.
Se ele tinha qualquer dúvida de que não era convidado para o aniversário daquele garoto, não restava nenhuma agora. Cindy pareceu percebeu o que Ian estava pensando — provavelmente sua careta dizia o suficiente — e apressou-se em dizer para que ele não desse bola para o Patolino, que ele podia ir se quisesse.
Não dar bola?, Ian pensou, um pouco horrorizado. O aniversário é dele, se as vontades dele têm que ser levadas em consideração em algum momento na vida, é no aniversário dele!
Cindy, no entanto, aproveitou o momento de confusão de Ian para acrescentar, com um risinho: — Se não quiser ir, tudo bem. Na verdade, eu só queria uma desculpa pra falar com você.
Ian ficou tão chocado que gaguejou, esquecendo por completo sua inidgnação, soltando um riso nervoso. Ao menos ela é sincera, pensou, ainda que um tanto assustado com a situação toda.
Nas primeiras vezes que a Cindy demonstrou interesse nele, seu primeiro instinto era pensar que era uma piada de mau gosto. Ian só acreditava nela, nesta altura do campeonato, porque ela têm vindo atrás dele há meses já... e porque ele relutantemente acreditou que, para algumas garotas deste mundo, ele era atraente. Caso contrário, nenhuma teria ficado com ele. Mesmo assim, ele não poderia dizer que ficaria chocado se a Cindy o empurrasse do nada e o humilhasse diante de todos, com os amigos populares dela brotando do nada com câmeras para publicar na internet à la filmes americanos. Talvez isso até mesmo o trouxesse um senso de alívio, pela familiaridade com a situação, com a sensação de que “finalmente as coisas fazem sentido, tudo em seu devido lugar”.
No entanto, isso não aconteceu e, aparentemente, nem aconteceria, o que o deixava tenso o tempo todo, à espera de algo tenebroso.
— Você é tão fofo — riu ela, dando um tapinha em seu braço, quando ele tentou gaguejar alguma resposta sem nada sair. — Agora tá explicado por que você não tem namorada ainda, você é tão tímido! — brincou, aproximando-se mais dele, os olhos azuis o analisando com curiosidade. — Talvez seja por isso que eu tenha demorado tanto pra prestar atenção em você, porque... nossa, Ian, eu não sei como as outras garotas não percebem, mas você é um colírio para os olhos! Bom... melhor para mim — acrescentou, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha, as bochechas tingindo de vermelho.
Ian tossiu nervosamente, olhando ao redor em busca de auxílio, como se... como se algum de seus amigos — que ainda estavam agrupados, esgueirando olhares divertidos para ele, certamente fofocando entre si — fosse aparecer ao seu lado e protegê-lo das investidas de uma garota. Nossa, Ian, deixa de ser frouxo!, xingou-se mentalmente. Você precisa ser salvo de uma garota?!
— Eu não sei... falar com você — admitiu, o que fez a garota rir mais ainda, suas bochechas ainda mais vermelhas, provavelmente no mesmo estado das bochechas do Ian. No entanto, Cindy também tinha um brilho ainda mais intenso no olhar azulado, encarando-o como um espécime de arte. Ian não conseguia sequer sustentar o olhar dela. — Mas... valeu, eu acho. Eu não sou tudo isso não.
Cindy arqueou as sobrancelhas. — É claro que é! Você devia se dar um pouco de crédito. Quero dizer, não é todo mundo que tem um glow up assim!
Ian percebeu que o olhar dela também se desviou, ainda que rapidamente, para dentro do colégio, como se indicasse os outros alunos como comparação. Seus amigos eram os que estavam mais próximos do portão, então... a crítica, mesmo que não intencional ou direta, foi óbvia. Ele pigarreou, desconfortável, mas ela não pareceu perceber.
Sinceramente, ele não soube o que pensar sobre isso, então aquilo ficou preso em sua garganta sem que ele conseguisse engolir... embora também não soubesse o que fazer com isso.
— Você se dá... um pouco de crédito, né? — perguntou, e Ian franziu o cenho, confuso. Os olhos dela tornaram-se maliciosos, mas curiosos também, ao mesmo tempo. — Você nunca namorou?
Ian se remexeu, inquieto, negando. Não conseguiu responder verbalmente e nem sustentar o olhar dela por muito tempo, mas pelo pouco que viu, isso pareceu aumentar o nível de divertimento dela, a curiosidade deixada de lado.
— Mas beijar, ao menos... você já beijou, né?
— Claro que sim! — foi a resposta ofendida dele. Ian podia estar mesmo agindo feito um idiota que nunca beijou na vida, mas não era por falta de experiência, e sim por conta de quem era ela.
Depois que ele falou, deu-se por conta que, em outra conversa, Cindy já deu a entender que o viu ficando com outras pessoas nos rolês com os amigos na rua. Os olhos dela brilharam e Ian percebeu que caiu em uma armadilha quando ela o cutucou, teatralmente, e desviou o olhar, dizendo: — Hum. Não sei se eu acredito...
— É verdade — murmurou, sem jeito, quando percebeu onde isso iria levar.
Cindy mordeu o lábio inferior, sustentando seu olhar ao se aproximar tanto que ele pôde sentir o calor do corpo dela. — Eu acho que você vai ter que provar...
Ian não pensou realmente — a adrenalina corria por suas veias, seu coração já estava disparado pelo nervosismo durante a conversa inteira, e os lábios mordidos de uma garota bonita estavam há centímetros dele. Ele foi em frente e a beijou, tão autoconsciente do que estava acontecendo e de onde ele estava que ouviu uns assobios e comentários de alguns colegas de classe que passavam por ali. Sentiu-a colocar uma mão em seu peito e a outra apoiar-se na mochila em suas costas já que não havia espaço para abraçá-lo. Ele apenas apoiou as mãos trêmulas na cintura dela, sem saber o que mais fazer, e enquanto mostrava para ela que sabia beijar realmente, ele não conseguia deixar a consciência pesada relaxar.
Enquanto a beijava, chegou à conclusão de que não havia escolhido isso — ele não pensou se realmente queria, ele apenas fez o que pensou que deveria. Não é nem que ele quisesse rejeitar Cindy, é que sequer ocorreu que ele poderia... se quisesse. Não lhe ocorreu sequer cogitar em rejeitá-la, isso jamais havia sido uma opção, afinal, essa era a garota considerada mais bonita do colégio. Pareceu algo automático... para que pensar duas vezes?
Mas foi tudo tão teatral.
Se eles queriam ficar, não podiam ter marcado uma saída em algum lugar? Eles tinham que se beijar em frente ao colégio todo? Por que lhe ocorreu que essa era uma boa ideia ou uma ideia sequer aceitável? E por que ele apenas agiu sem pensar ao invés de sugerir outro lugar? Bom, era algo tão bobo — um beijo, e todo mundo se beijava —, então por que ele tinha que filosofar sobre isso, para começo de conversa? Por que seria um problema beijar, mesmo que fosse em frente ao colégio, a ponto dele sequer prestar atenção no beijo em si?
Sua mente esteve ali, rodopiando em perguntas sem respostas e ele não soube por quanto tempo a beijou.
Talvez ele não se dê crédito o suficiente, Ian pensou, talvez ele estivesse em surto mental enquanto beijava a garota que metade da classe queria beijar porque achava que não a merecia. Ou talvez fosse culpa, por causa da Grace, pelo que ele sente por ela e pelo que essa garota representa para ela.
Mas foi apenas ali, em meio a todo o caos mental, que ele se deu por conta que era um misto desagradável de tudo e um pouco mais. E que independentemente do motivo, ele não queria estar ali. Então por que estava?
Alex já puxou sua orelha algumas vezes devido à baixa autoestima, mas a verdade é que não era apenas isso. Não nesse caso. Não era à toa que ele havia ficado com várias mulheres diferentes sem hesitar e que o nervosismo se instalava especificadamente com essa garota em si. Não era porque ele tinha sentimentos por ela, nem tampouco porque era a mais bonita que ele havia ficado — aliás, ele nem concordava com isso, havia ficado com mulheres mais bonitas sim —, era por causa do que ela representava. Ele foi ensinado a vida inteira que devia ter interesse por garotas como essa, e que garotas como essa jamais teriam interesse nele, garotas como essa acabavam com garotos como o Timothé. Ele foi ensinado que garotas como a Grace jamais estariam no mesmo patamar de beleza que garotas como a Cindy e que garotos que escolhem garotas como a Grace apenas o fazem porque também não estão no mesmo patamar de beleza que garotos como o Timothé.
Sim, pensou, ele tem baixa autoestima. A questão é que a Cindy é o motivo de sua baixa autoestima para começo de conversa — o motivo dele duvidar que possa ser bonito, ou interessante, ou suficiente. Não a Cindy em específico, como pessoa — embora sim, ela estivesse incluída aí —, mas pessoas como ela e seu grupo de amigos.
Ian lembrava vividamente de quando entrou no colégio, seis anos atrás, e foi instantaneamente apelidado de “girafa” pelo grupinho de Cindy. Não era apenas porque ele era alto, naquela época ele nem era tão alto assim, era porque ele era esguio e desajeitado. Todos riram dele por quase um ano todo antes que esquecessem disto e partissem para a próxima fonte de entretenimento. Naquela época, Bruce começou a pegar ainda mais no pé do Mason, e ele virou o ponto central do nosso grupo para o bullying — quando todos caçoavam de uma pessoa específica, as pessoas começavam a normalizar coçoá-la também.
Ian também lembrava de cinco anos atrás, na aula de biologia, quando o professor falava sobre os hormônios adolescentes e as mudanças corporais, com o intuito de dizer que era normal as mudanças de voz e a acne, o Patolino interviu dizendo que não podiam “normalizar” a falta de higiene das pessoas. Cindy contribuiu dizendo que ele tinha razão, que algumas pessoas nem “tentavam”, como se acne fosse uma questão de higiene pessoal. Ela estava fazendo alusão a alguns alunos específicos — que se encolheram nas próprias cadeiras, querendo sumir, e com razão —, e dentro da discussão onde Patolino começou a listar nomes, ele listou o de Ian também. “Não é, Ian?”, ele falou em alto e bom som, assim como falou o mesmo para mais uns quatro colegas diferentes. Na época, Ian ficou indignado porque achou injusto que ele fosse listado só porque seu queixo estava inflamado naquela semana, e que um colega que estava sempre marcado de espinhas não havia sido listado em seu lugar, provavelmente esquecido por eles. Hoje Ian já conseguia ver que esse nunca havia sido o problema, afinal, e que seria injusto de qualquer forma. O professor o mandou para a diretoria, mas o estrago já estava feito, Patolino foi rindo o percurso todo, fazendo gracinhas pela janela quando retornou.
Também houve outro acontecimento, que Ian catalogou como sendo “mesma época” mas podia muito bem ter sido apenas três anos atrás, quando ouviu um colega caçoar de Cindy ao apontar para Ian e dizer: “Olha lá seu namorado chegando”. Os demais gargalharam e Cindy torceu o nariz, dizendo: “Que nojo”. Naquela mesma época, um papel com uma lista de “meninos menos beijáveis da sala” rolou de mão em mão até que a professora intervisse para acabar com as risadinhas, e Ian era o terceiro da lista. A explicação ao lado, obviamente com outra letra já que foi o grupinho todo que escreveu, dizia que Ian tinha “cara de quem baba beijando”. Maze ficou em terceiro lugar e a explicação não era bem uma explicação, dizia apenas: “vai morrer virgem”. Caleb era tão quieto e esquecido em sala de aula que sequer lembraram dele para colocá-lo lá. Mas Ian havia ficado tão envergonhado que inventou uma doença para não ir na aula no outro dia.
Cindy estava em todos esses momentos, rindo e fazendo graça, e ele se questionou se ela sequer lembrava de alguma dessas vezes. Enquanto a beijava, diante de todo o colégio, Ian ponderou se ela realmente havia esquecido de tudo ou se ela apenas havia fingido esquecer. Talvez ela realmente não lembrasse — talvez tenham sido comentários insignificantes para ela, momentos passageiros que a mente nem guarda, tamanha a desimportância, não importa o quanto tenha impactado as pessoas à sua volta.
Ele se afastou, sentindo um pouco de náusea, e Cindy piscou lentamente, o rosto relaxado e os olhos antreabertos ainda brilhando em satisfação. Talvez fosse o que Ian devia estar fazendo: estar tomado de satisfação por ter virado o jogo, igual acontece nos filmes, mas tudo o que sentiu foi um vazio existencial.
A verdade é que não importava — não importava se ela lembrava, se ela havia esquecido, se ela seguia sendo uma pessoa ruim ou se havia evoluído, nada disso importava. A maior questão era que Ian não queria estar ali.
Ele vinha ouvindo o que Grace falava sobre o peso dele ficar com a Cindy — sobre garotas como ela no geral —, mas ele não tinha realmente entendido até este momento. Em parte porque passou o tempo todo desacreditado, esperando a piada de mau gosto, mas em parte também porque pensava que, independentemente do que ela havia feito no passado, ficar com ela só poderia ser algo bom.
Sem querer, ele acabou reproduzindo o que foi sempre ensinado, sem pensar duas vezes — aquilo que machucava não apenas à garota que Grace era, crescendo oprimida por bullying constante, mas o que tanto machucou o próprio Ian também. Sem querer, ele acabou se machucando no processo — era isso o sentimento de aperto no peito, não era? — ao invalidar por completo seu próprio direito de escolha.
Cindy o encarava com expectativa. Ele sequer podia culpá-la.
Em nenhum momento ele pensou se realmente queria beijá-la, ele sequer tomou uma decisão, pelo contrário, ele se privou da decisão e se deixou levar pela decisão dela. Ian apenas não percebeu que, ao não tomar uma decisão... ele estava tomando uma decisão. E foi a decisão errada, obviamente, moldada por outra pessoa.
Como se não bastasse, quando Ian ergueu os olhos e viu que seus amigos não estavam mais ali, também viu as silhuetas de Grace ao lado de Dan, já pequenas pela distância, virando a esquina antes de desaparecer.
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