Lume Rubro
4 Capítulo 4 - 1676, Atlântico, próximo à França
Notas iniciais
O gosto de maresia irritava os lábios secos de Catarina, ela se sentia exausta, cada músculo do seu corpo doía, e cada pedaço de seu vestido, ensopado, parecia pesar trinta quilos.
Ela lambeu os lábios, ainda de olhos fechados. Que lugar duro, Joan se esqueceu de fechar as janelas de novo? Ela xingou, se virando. Por que a cama está tão dura?! Novamente, estava caindo no sono, quando o gralhar das garças assustou-a mais uma vez.
Ela levantou de onde estava e abriu os olhos, gritando:
— Mata logo o frango! — Reclamou. Mas no lugar de sua costumeira casa, o mar se estendeu por seus olhos.
Risos correram logo depois, devido à fala da garota.
— Desculpe. O que foi que disse? — Uma voz grave repetiu em suas costas.
— Ei. Garota. Grita não. Ainda é cedo. — Falou outra.
A menina virou-se. Estava em cima de três caixotes, e não resistiu a um grito que irrompeu de sua garganta. Ela se remexeu no desespero, sentindo o fim do navio. Era tarde demais, ela caiu na água, mais uma vez.
— Porcaria. — Mordeu o lábio um dos seis jovens, no caso, um que não prestava atenção e se encontrava no mastro. — Will? Me substitua aqui, por favor? — Indagou o jovem, correndo pelo convés e pulando próximo de onde a jovem caíra.
— Que azar. Por que ele insiste em salvá-la? — Perguntou Ian.
— Sentimento de cavalheirismo. — Respondeu Timmy.
Darin havia saído do mar gelado fazia apenas cinco horas, estava tão bom enquanto ela dormia. Por que ela não continuou lá? Quietinha?! Se perguntava Darin, enquanto nadava irritado. Ele agarrou a garota por debaixo do braço. O navio agora à deriva, esperava pelos dois que voltavam rapidamente, mas um pouco mancos devido ao peso extra.
— Porcaria! — Tossia o jovem, que subia por uma corda jogada por Nathan. — Você pode, por favor, não voltar para o mar?!
— Tá falando comigo? — Cat encarou o jovem de cabo a rabo. Reclamando mentalmente com ele.
— Sim! — Ele mordeu o lábio e arregalou os olhos. Parecendo querer xingar, mas buscando se controlar.
— Olha... — Interrompeu um jovem de cabelos ruivos, seus olhos eram esverdeados. Muito bonitos. — Parece que Darin está se controlando.
— Cala a boa, Will! — Xingou novamente o jovem que salvou Catarina. Ele tinha o cabelo mais ou menos nos ombros, eram levemente ondulados, de um negro tão escuro que assustava, seus olhos, por outro lado, eram verdes, tão verdes quanto o mar do Caribe, ao menos, o olho visível era esverdeado.
— Ok. Ok. Parem os dois. — Foi o capitão, Sean, quem gritou. — Vocês querem por favor olhar para a garota?! — Ele apontou para Catarina.
Ela estava catatônica, olhando o mar, com as duas mãos sobre a beirada, olhando para o além. Ela queria pular, queria simplesmente morrer no mar. Há quantos dias estava ali? Quantos mais ficaria? E sua família? E seus amigos? E Peter?! Até mesmo aquele asno manco de seu noivo, o que ia acontecer?! Ela se virou, observou todos que estavam a bordo.
Quanto preconceito. Mas era de se esperar, só havia homens. Homens. H.O.M.E.N.S... Negou com a cabeça revirando os olhos. Não era à toa que ninguém queria que ela fosse lutar contra os piratas. Agora, ela entendia o porquê. Mas o que havia acontecido naquele dia? Apesar de encará-los irritada, estava tentando se lembrar da noite no cais. O que havia acontecido?
— Bom. Senhorita? — Começou Sean. — Sou Sean. O capitão. Bem-vinda ao Lume Rubro.
— Eai! — Falou um dos garotos. O mais magro, mas também, um dos mais altos. — Sou Timmy, cuido dos mapas e das velas, algumas... — Sorriu o jovem coçando a região da nuca.
— Tá nervoso, é? — A garota arqueou as sobrancelhas. Ela estava realmente irritada.
O jovem, parecendo agora irado com sua fala, tocou a mão na espada. — O que quer dizer?! É claro que não! — Resmungou um pouco mais baixo de forma que ninguém ouvisse.
Um jovem de botas, com a pele mais bronzeada que os outros chegou mais perto de Catarina, fazendo com que toda atenção fosse a ele. Seus cabelos e olhos tudo do mesmo tom eram preocupantes, castanhos, da mesma cor da madeira que cobria o convés.
— Eu sou Nathan. — O jovem sorriu, sentando-se no convés, como se não tivesse nada melhor para fazer. — Eu cozinho. — Falou simplesmente, arqueando uma das sobrancelhas castanhas.
— Ian. — Levantou a mão um jovem forte, cabelo quase raspado, escuro, que usava uma bandana no pulso como se precisasse cobrir alguma coisa. Não falou muito mais, só deu de ombros e desceu para o porão.
O ruivo que se encontrava no mastro, já estava de volta ao seu posto, perto da garota, segurando sua luneta. — Sou Will. — Ele bateu continência para ela, dando uma piscadela. — E ele lá em cima. Liga não. Ele gosta de você, só não gosta de falar com pessoas novas, tipo um gato. Ele é o Darin. — O jovem para o qual a conversa se dirigia fitou a todos irritado, com os olhos pequenos, reerguendo a cabeça ao mar logo depois, como se não se importasse.
Observou a tudo, a garota de cabelos loiros, fitando o céu azul que logo se confundia com o mar. Olhou cada um dos jovens, que ainda meio que observavam-na, esperando o que ela diria a seguir.
Ela abriu a boca e levantou o dedo indicador direito. Abaixou e fechou o maxilar, repetiu o movimento, tentando acalmar-se. — Por que... eu estou aqui? — Perguntou por fim, limitando-se a se pôr de pé na frente dos jovens, que pareceram surpresos.
Todos agora a observavam. — Que falta de educação. — Ian que agora se encontrava com uma faca resmungou. — Qual seu nome, guria? — Perguntou ele.
A menina arqueou as sobrancelhas. — POR QUE TENHO QUE RESPONDER ISSO?! — Ela berrou. — Eu estou aqui sem saber, como ou porquê. E vocês querem meu nome?!... — Reclamou.
— Quer que a gente te chame de ‘psiu’? — Chiou Sean, rindo-se. O inglês deles era irritante e ela não gostava de não falar francês.
Mordeu o lábio, pensando no que responder. Abriu a boca e hesitou um pouco. — Eu sou Catarina. — Disse por fim.
— Cat! — Falou Will, que chegou perto dela e bagunçou seus cabelos loiros. Ela instintivamente foi para trás e ajeitou as madeixas apressadamente. Seu cabelo estava duro devido à água salina, não era como se fosse melhorar muito o que já estava horrendo.
— Realmente, um belo bichinho de estimação. — Riu-se Darin, com um sorriso ríspido na face. Falando baixo para poucos deles escutarem. Pena que ela escutou.
— O quê? — Ela chiou observando-os desdenhosa.
Agora falando mais alto. — Cat, é gato em inglês. — Respondeu o jovem que ainda a observava de forma grosseira, falando em francês, como se fosse superior.
— Eu falo sua língua. — Respondeu em inglês. — Babaca. — Em francês. — Mas não sou bicho de estimação.
— E eu se estivesse na sua situação, não xingaria ou reclamaria de nada.
Os dois se observavam como se fossem se agafanhar. Por que ele teria lhe ajudado se não gostava dela? Bom, nem se conheciam mas a relação não estava sendo nada positiva.
— Ei! Não se encarem tanto, vão se apaixonar. — Riu-se Sean, entrando entre os dois, que logo se desvencilharam, de olhar... porque já estavam fisicamente longes. — Garota, olha, brincadeiras à parte... Ninguém aqui fica sem trabalhar. Nem você. — Ele apontou para a jovem.
— Eu não queria estar aqui. — Chiou.
— Então, jogue-se. Prometo que não vou te ajudar de novo. — O garoto de olhos verdes voltou a reclamar, como se não conseguisse ficar quieto. Segundo todos, não era ele o quieto da equipe? Por que então não parava de matracar?!
— Darin. Você é sempre o menos problemático. O que houve? — Reclamou Ian.
— Nada. — O jovem insistiu, encarando a garota por mais alguns instantes.
Voltou a falar Sean, o Capitão. — Se quiser não parar na prancha. Vai ter que trabalhar. O que quer fazer? — Ele perguntou.
— Eu não sei fazer nada. — A garota deu de ombros. — Mas posso cozinhar ou limpar, serve? — Ela arqueou as sobrancelhas fitando Nathan que arqueou a mesma sobrancelha de antes.
— Por mim tudo bem, é até bom ter ajuda contra esses glutões! — Ele riu.
Ao menos alguém ali parecia sensato, tirando que seu inglês era tão ruim quando ao de um escocês, não se via maiores dificuldades de relacionamento. Pensava Catarina arqueando as sobrancelhas.
Ela se pôs de pé, observando os jovens armados e belos até os dentes. Qual era o problema daquele navio? E por que nada tinham a ver com o resto das pessoas que ela vira no cais na outra noite? Aquela situação ficava cada vez mais estranha.
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