Lume Rubro
3 Capítulo 3 - 1676, Lion, O Canhão
Notas iniciais
Ainda era seu aniversário. A escuridão transpassava todos os cômodos. Filipe soluçava na camisa de Joan. O que eles podiam fazer? Só restava rezar.
A escuridão era ensurdecedora, e se não fosse pela respiração angustiada de todos, Joan e Catarina jurariam ter ficado surdos.
Flávia parecia em crise de nervos, coçava os braços, arrancando a pele e deixando arranhões vermelhos apareciam a cada passada de suas unhas através de sua cútis.
Daiana estava também em prantos, mas no colo de Catarina, que nem parecia ligar para ela.
O mais calmo dos seis era o pai. Ulisses suspirava calmamente de olhos fechados, a única coisa que o diferenciava de um morto era a barriga grande e gorda que subia e descia.
Joan observava Catarina, via sua hesitação e nervoso. Sabia que ela se jogaria em cima de qualquer um que invadisse a casa. Ele não ia deixar, ela era a mais velha, mas ainda era apenas sua irmã.
Catarina por outro lado, não conseguia fazer nada além de fitar a porta, com o sabre do pai na mão. Não que ela fosse uma exímia esgrimista, pelo contrário, nunca se quer participara de uma luta corpo a corpo, mas já viu tantas lutas no mercadão do porto, que conseguiria tentar alguma coisa. Seus olhos na porta negra e pouco visível daquela noite que estava coberta por uma névoa mais que forte. Ao menos, a casa estava mais escondida. Ela supunha.
O farol gritava pelos últimos marinheiros, e quando finalmente tudo parou, um suspiro de alívio percorreu toda família, que mais uma vez voltava a se mexer, um pouco menos unida.
Era muito cedo para comemorar.
— Shhh!!! — Berrou, praticamente, Joan, ouvindo um assovio longo ao longe. — O que é isso? — Mais uma vez o bloco se unira como uma massa única.
— Acho que são... — Catarina não terminou a frase, e a luz forte, seguido do estalo mais alto que ela jamais ouvira a interromperam. — Canhões... — Proferiu.
— Fiquem parados! E quietos!! — Mandou Joan, sem perceber o pleonasmo, entregando o pequeno Filipe para Daiana, que agora tentava ser forte.
— Você também! Quer se abaixar?! — Mandou a irmã.
— Eu vou lá. Tenho que ajudar os marinheiros! — Ele reclamou sua maturidade e virilidade.
— Vá pro inferno! — Xingou Catarina, sua mãe quase a repreendeu, mas estava nervosa demais para achar aquilo realmente errado. — Você cuida da sua família! Entendeu?! — Ela mandou, mais firme do que nunca, fazendo o irmão recuar e se agachar mais uma vez, abraçando a irmã menor. Ela era o fardo, não ele, o forte e provedor de alimento.
— Desculpa. — Ele olhou para baixo.
Os estrondos só pioravam, e agora gritos e balas rolavam ouvidos a dentro da família Bossuelt. As balas de canhão pareciam cada vez mais frequentes, e gritos de dominação cada vez mais altos.
Catarina se ergueu uma segunda vez. — Eu vou lá. — A irmã pausou vendo a porta remexer com outro estrondo de canhão.
— Não! — Gritou a velha Sra. Bossuelt talvez alto demais.
— Shhhh!! — A família inteira berrou em seu ouvido em uníssono. — Não ouse gritar. — Mandou Daiana.
— Cat. — Chamou a irmã uma segunda vez. — Fica bem. — Ordenou, assemelhando-se à loira.
— Desculpa por tudo. Espero que me entenda... — Ela hesitou na resposta. — algum dia.
A menor de cabelos cacheados e sardinhas concordou. Seus olhos verdes brilhavam na escuridão daquela noite, mas mesmo eles não conseguiam ver mais as costas da irmã mais velha, que escancarou a porta e saiu por ela com o sabre velho de seu pai.
A floresta densa e escura dificultava os passos, apesar de que a garota já conhecia de cor o caminho até o píer. E também, a fumaça e gritaria não dificultaram muito.
O farol número 3 estava em chamas, Sr. Guinner corria exasperado com sua lanterna em mãos. — Ah! Senhorita! Não. Não vá até lá. Vão leva-la, estão levando todas as mulheres.
A gritaria e o choro continuavam ao longe.
— Sr. Guinner, — A menina encarou seu olhar pouco são. — Eu tenho que ajudar quem conseguir, vá até minha casa, apague a lanterna e fique com minha família. Pediu.
O velho a olhava, mas parecia um tanto emocionado. — Parece mesmo com a mãe... — Ele suspirou largando seu braço, apagando a lanterna e concordando com tudo que ela disse. — Vá. Vai garota!
Ela não entendeu bem o que ele quis dizer, mas deu de ombros e prosseguiu. O vestido velho e amarronzado parecia gasto, e sua bainha rasgava contra os espinhos das roseiras selvagens. A menina estava irritada, afinal, odiava os ingleses, e não se importava.
Chegou ao primeiro cais, cujo farol já não mais existia e o navio que lá estava de manhã, agora em chamas, não tinha mais as velas. Crianças corriam assustadas e Catarina não tinha certeza contra quem deveria lutar. Os velhos escondiam-se em suas lojas, e os poucos filhos mais velhos, cujo alguns reconhecia, pareciam lutar por suas vidas, ignorando o cheiro da pólvora e do álcool.
— Você!! — Uma voz grave e imponente chegou às costas da garota, que se virando, tentou passar o sabre, que se chocou com outro. — O que uma dama faz aqui?! — Perguntava um velho gordo e ruivo, que tinha as bochechas queimadas pelo sol.
— Eu vou! — Ela gritava enquanto batia sabre contra sabre. — Te... — Outro tilintar das armas de aço. — Matar! — Berrou, passando o sabre com força contra a pança do homem, espirrando sangue pelo chão, ele caiu de joelhos. A menina não conseguia acreditar, estava extremamente assustada, mas o que ela deveria fazer?! Tirou o sabre da mão do pirata, colocando-a em sua mão esquerda, saiu um pouco, andando de costas, ainda vendo o sangue que escorria pelo ladrilho que outrora fora cristalino como a água marinha da manhã.
— Criança! — Ouviu outra voz masculina. Era Peter.
— Olá Peter! — A garota estava histérica, mas feliz de ver um rosto de alguém que era bom. Era o único inglês do qual gostava.
— Por que está aqui?! — O jovem parecia preocupado com ela, segurando seu braço.
— Eu tenho que... — Da casa ao seu lado, saltou um outro senhor, dessa vez mais jovem, que fitou a garota com desejo, separando os jovens.
— Ora, ora... — Ele raspou o sabre contra as bochechas dela, fazendo-a recuar com o sangue escorrendo até o lábio.
— Cat! — Gritou Peter, cortando a jugular do homem que nem sequer terminou de falar.
— Obrigada. — A garota se resumiu.
— Volta pra casa! — Ele mandou.
A garota simplesmente o ignorou, correndo para perto do segundo farol, se Sra. Bonafuente estava lá, ela não sairia sem seu papagaio, e ela tinha que salvar pelo menos alguém. A bochecha ardia, e ela, já coberta de suor, não tinha bem certeza do que fazer.
Via os homens atirarem um contra os outros, espadas batiam e gruíam contra o luar, berros de dor e queimaduras eram constantes, o cheiro enjoativo do sangue com o sal do mar, do álcool com a pólvora eram horríveis, davam ânsia de vômito e uma saudade da sopa insossa que o irmão Joan fazia. A garota só queria salvar quem amava, e ver Peter, ao menos visivelmente ‘ok’, a deixava mais feliz.
Ao chegar no farol, esgueirando-se das brigas, dos cacos quebrados e do fogo, bom, de tudo, a garota notou-o vazio, agradecendo. Começava a descer as escadas de madeira, algumas partes já podres, quando o zunido de outro canhão disparado tomou sua atenção. Ela virou para a janela mais próxima, e antes que pudesse ter reação de terminar a descida, o farol fora atingido. O barulho das rochas se contorcendo contra o chumbo pesado e quente a fizeram se desequilibrar, ela ainda segurava os sabres, e não os soltaria. Ela havia caído, e a escada se quebrara em dois logo abaixo de onde estava, o lugar começava a desabar, e o luar se fez presente para a garota, que se chocava um segundo depois contra a água, gelada e escura. Seus pulmões não conseguiam sorver o ar, e o medo da água adentrar seu corpo a fizera inconsciente.
Fale com o autor