Eu continuo caindo. Tanta coisa passou pela minha memória em tão pouco tempo, eu vejo agora uma escuridão que cobre as bordas da minha visão. A sensação é de um vazio enorme. A partir dali, toda minha vida haveria acabado. Blake Water, mais conhecido como Black, não existiria mais. Eu não teria mais escolhas, só o vazio. Porém, foi aí que eu me lembrei de algo que havia aprendido com Alonzo Agnelli.

Nada pode ser visto de só uma forma. Por sempre ver o mundo por somente meus olhos, eu me fechei cada vez mais para o exterior. Mas naquela vez em que Alonzo me salvou dos garotos que me espancavam, mesmo eu sendo um completo estranho para ele, foi a primeira vez em que eu desejei realmente ver pelos olhos de outra pessoa, entender alguém além de mim. Alonzo e eu não nos despedimos ali. Ele não me falou nada, quando eu pedi para ser seu amigo. Nada além de seu nome. Pouco a pouco, nós fomos nos tornando amigos. Eu não tinha para onde ir, nem mesmo uma casa. Alonzo tinha uma casa, mas de certa forma ele também não tinha para onde ir. Nós andávamos pelas ruas procurando encrenca, roubando comida e objetos que gostávamos. Em 2 anos, nós dois, duas crianças de 13 anos, já éramos conhecidos como “Ortros”, um cão de duas cabeças da mitologia grega. Éramos temidos e respeitados nas ruas sujas da Vala Velha, a parte mais antiga e menos favorecida da Metrópole. Quanto mais lutávamos, mais fortes ficávamos e mais inimigos fazíamos. Vieram primeiro em grupos pequenos, sem armas. Logo grupos grandes de até 20 pessoas de várias idades vinham nos desafiar ou vingar alguém. Era um ciclo sem fim, mas estava tudo bem. Nós tínhamos tudo sobre controle. No final, nós sempre vencíamos. E foi aí que “aquilo” aconteceu.

Eu e Alonzo geralmente descansávamos na ruela onde nos encontramos pela primeira vez. Era uma pequena ruela, estreita e fechada por duas paredes. As barras de ferro de dois anos antes ainda estavam lá. Havia duas entradas somente. Nós já fomos emboscados lá várias vezes, mas nunca desistimos daquele lugar. Não podíamos desistir.

Fim de tarde, ele estava sentado, encostado na parede enquanto que eu estava deitado de costas para o ar.

- Essa mancha de sangue... – Disse eu com uma voz entediada ao perceber uma mancha no chão.

- Ahn? É só mais uma mancha, Blake.

- É a mancha do sangue daquele garoto, lembra? Do dia em que nos conhecemos.

- Haha, você estava apanhando que nem uma garotinha...

- Ah cala a boca... Eu não ligava naquele tempo. – Disse me levantando e então estendendo a mão para ele se levantar – Além disso, você sabe que acabo com você em qualquer luta, é só pedir.

Ele segurou minha mão e eu o puxei para cima.

- Isso é o que vamos ver. – Respondeu com um sorriso. Porém seu sorriso estava para desaparecer e ser substituído por uma expressão de susto, quando uma voz veio do fim da ruela.

- Vocês dois! Fiquem parados.

Geralmente qualquer um que dissesse isso estaria pedindo pra perder todos os dentes, mas a pessoa no fim da ruela era um homem adulto usando um terno preto. Ele segurava na mão uma arma, a qual apontava na nossa direção com grande confiança.

- Dark Knights? – Disse Alonzo em tom de deboche, blefando. — Pensei que nosso assunto tivesse sido terminado quando eu quebrei os dentes da frente do seu chefe no mês passado.

- Não seja ridículo, pirralho. – Disse o homem, com a mesma confiança. – Não estou aqui pra brincar de bandidinho com você. Isto é assunto do governo, venha conosco se não quiser...

Antes que ele terminasse, Alonzo chutou uma barra de ferro que foi girando até a mão do homem, desarmando-o enquanto este gritava de dor.

Eu imediatamente aproveitei a deixa e antes que ele pudesse se quer se abaixar pra pegar a arma, eu já estava na frente dele. Desferi um soco no seu estômago, fazendo com que o homem se curvasse por reflexo, de forma que eu terminei com tudo ao dar uma cotovelada na nuca dele que o deixou inconsciente. Alonzo já corria na minha direção gritando.

- Ei! Você não matou ele, né? Eu acho que ele era um policial.

- Não se preocupe, ele vai acordar. Talvez ele acabe se matando por causa da dor de cabeça, mas vai acordar.

- Vamos ver... – Alonzo, como o habitual, começou a vasculhar os bolsos do homem desmaiado. Ele achou uma carteira e abriu procurando por alguma identificação. Porém assim que ele achou, seus olhos se arregalaram e ele engoliu seco.

- Nós temos... Blake, nós temos que sair daqui.

- Que foi? São só policiais, eles não tem poder nenhum a Vala Velha.

- Idiota! Ele não é um policial, ele é da...!

Antes que ele pudesse terminar. Vários homens de terno aparecem a nossa volta, todos armados, alguns com mais do que uma simples pistola. Estávamos cercados no fim da ruela. Por reflexo, nos viramos pro outro lado, porém já havia homens armados lá também. Era o fim, ou foi o que nós pensávamos. Um homem extremamente alto andava entre os demais. Ele usava um terno preto e uma máscara de gás que impossibilitava ver seu rosto. A única coisa visível sobre ele eram seus cabelos ruivos e picotados. Ele se aproximou lentamente, como quem tem total controle da situação, e com sua voz abafada pela máscara disse casualmente.

- Blake Water e Alonzo Agnelli? Faz tempo que procuro por vocês. É uma pena que os contatos do governo sejam tão limitados aqui na Vala Velha.

Eu segurei Alonzo assim que ele tentou avançar no homem ruivo, gritando palavras enquanto tentava se soltar.

- Desgraçado! Quem você pensa quer é?! Acha que pode apontar armas para nós?

O homem se manteve quieto por alguns segundos, sua expressão estava escondida atrás da máscara de gás.

- Nós somos a Organização. Você sabe muito bem quem somos nós, Alonzo Agnelli. Vocês serão levados até nosso Quartel General, onde eu lhe farei uma proposta. A vida ou morte de seu amigo dependerá de sua resposta...

E foi isso. Eles colocaram sacos em nossas cabeças e nos levaram. Eu não sei o que aconteceu com Alonzo, mas desde então nossas vidas ficaram bem mais simples. Ele voltou a morar na casa do seu pai e o governo me arrumou uma casa com uma certa professora que era protegida por eles graças a sua genialidade. Eu nunca perguntei a Alonzo que acordo ele fez. Quando saiu de lá, ele simplesmente me disse “Eles vão nos ajudar desde que paremos de causar problemas na Vala Velha, tudo ficará melhor agora, Blake.”

“Tudo ficará melhor agora”... Você mentiu, Alonzo.

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Tudo aconteceu rápido demais. Aya Tsuyameku caiu do telhado enquanto me pedia por ajuda. Eu corri até a grade do telhado, olhando para baixo. Fiquei paralisado, minhas pernas tremiam, meu coração batia tão rápido que eu podia ouvi-lo claramente. Porém o seu som foi abafado por um grande estrondo. Uma janela caiu reta e fincou no chão, junto com um pedaço da parede em que estava. Eu ignorei o fato de que seria impossível aquela parede ter sido simplesmente cortada pra fora, pois os acontecimentos a seguir me deixaram muito mais perplexo.

Alonzo saiu da janela de nossa sala, pulando no chão de forma apressada. Em seguida um homem alto e ruivo de jaleco pulou pelo buraco na parede, com Alida nas mãos. Tudo isso enquanto Aya se debatia no chão e uma rocha negra cobria seu corpo. Mas como eu disse, foi rápido demais.

Eu vi meu melhor amigo tirando uma arma da sua roupa, eu vi um infectado pelo Vírus do Apocalipse, infectado esse que era a garota que eu gostava, ser curado diante dos meus olhos. Eu observei enquanto Alonzo se escondia atrás do pedaço de parede. Eu vi o homem de jaleco colocando uma bala vermelha em sua arma e atirando contra a parede, fazendo-a explodir. Eu assisti tudo de longe, sem dar um pio sequer, enquanto ele levava Aya e Alida nos ombros. E eu não pude fazer nada. Eu só pude encarar o homem ruivo enquanto ele andava para longe com um tipo de gatilho na mão esquerda. Assim que ele apertou, eu ouvi vários barulhos de explosões pequenas e o prédio começou a desabar. Tentei me segurar na grade, mas como o resto do prédio aquilo também estava caindo. Não havia nada que eu pudesse fazer. Eu iria morrer ali. Estaria tudo terminado. A vida que Alonzo garantiu para mim, tudo estava indo abaixo junto com aquela construção...

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Acordei. Não sei pelo que gemi primeiro, pela dor de cabeça ou pelas demais dores no meu corpo. Olhei em volta, eu estava na minha cama. Várias partes do meu corpo estavam enfaixadas e aparentemente eu havia levado alguns pontos. As minhas memórias ainda estavam confusas enquanto eu olhava o quarto em volta.

Meu quarto era simples. Paredes brancas, um armário de duas portas, uma cama, um criado mudo e um abajur. A única janela do quarto estava aberta e a luz do fim da manhã, que na Metrópole não era muito forte, entrava por ela. Tentei me levantar, mas percebi que meu braço estava algemado no pé da cama por uma corrente longa, mas não longa o bastante para eu chegar até a porta. Eu só poderia contemplar a luz.

- A luz...? – Foi aí que eu notei. Era o fim da tarde quando as aulas terminaram. Eu teria passado ao menos uma noite inconsciente. Quem havia me levado lá? Quem teria me resgatado da escola? Foi aí que ela entrou.

- Então você acordou.

Desde o acordo secreto que Alonzo fez com a Organização, ele voltaria a viver na sua casa e eu iria passar a morar em um lar dado a mim pelo governo na zona nobre da cidade, onde eu estaria fora de perigo. Mais uma pessoa recebia cuidados do governo na mesma casa que eu, essa pessoa era...

- Lisa! Alguém me trouxe até aqui. Eu sei que é difícil de entender, mas você precisa me soltar de alguma forma, vá na cozinha e... Lisa? – Eu olhei para ela, mas ela desviou o olhar como quem se sentia culpado. Eu finalmente notei que não teria como eu ter passado a noite sem que Lisa soubesse, sem que ela estivesse envolvida.

- Não, não pode ser. Me diz que você não tem nada a ver com isso, Lisa! – Ela continuou quieta, eu comecei a me desesperar. – Lisa! Você é só uma criança, não é? Não tem como...!

- Cale-se, Blake Water. – Suas palavras foram bem diretas e duras, quando ela finalmente me olhou nos olhos. – Eu não sou só uma criança. Eu trabalho pra Organização, assim como Alonzo.

- Alon...?

- Isso mesmo – Ela me cortou novamente, porém dessa vez de forma mais gentil. – Me desculpe, Blake. Sua vida estaria em risco se nós contássemos. Minha idade real... É 23 anos. Eu estou presa neste corpo jovem. Eu não envelheço, pelo menos não tão rápido quanto humanos normais. 14 anos atrás a Organização me descobriu em estado terminal em um Hospital. Desde então seus cientistas tentam prolongar minha vida e em troca recolhem dados e amostras para tentar desenvolver um remédio da vida eterna. Eu nunca fiquei doente e nunca irei ficar, mas em compensação eu preciso dos remédios deles para permanecer viva.

Eu precisei de uns segundos para refletir. Era muita informação. Aquela pessoa com quem eu convivi todos os dias desde que entrei na Escola se mostrava ser algo totalmente diferente do que eu pensei. Mais importante que isso, meu melhor amigo...

- Alonzo. O que ele tem a ver com isso? Ele está...? – Falei com uma voz triste e perplexa.

- Alonzo está vivo, ele possui um corpo muito valioso pra Organização... Naquele dia em que vocês foram levados, ele fez um acordo. O acordo é que ele deveria ser voluntário para exames da Organização e então deveria se tornar um agente, passando a ser monitorado todos os dias. Se ele fugisse ou morresse, eles te matariam.

- Todos esses anos... Ele esteve agindo das sombras, só para não me perder. Só para que eu tivesse o direito de viver que ele alegou que eu tinha quando nós nos conhecemos. Lisa, se eu posso ajudar, me diga como.

Eu não estava brincando. Alonzo não era só meu amigo, ele era meu único amigo, meu salvador, meu irmão. Eu estava determinado a fazer qualquer coisa por ele.

- Só me diga o que eu preciso saber, Lisa.

- Esses olhos... – Disse, ela assustada – Entendo. – Sorriu por um instante, então continuou. — Você é como ele. Você tem a determinação para carregar a vida de outros nas costas se for preciso. Já que é assim, Blake, ouça com atenção.

Lisa me soltou e em seguida me explicou tudo do início. Algumas coisas foram difíceis de aceitar, porém eu não podia discutir. Pessoas estavam sendo infectadas pelos states mesmo dentro da Metrópole, e a Organização se esforçava para manter tudo em segredo enquanto exterminava-os. Outro grupo foi se formando após descobrirem uma cura para a doença, que poderia retornar um state recém formado a sua forma humana. Esses curados mantinham habilidades e características especiais do states, de forma que no submundo foi sendo criado um grupo chamado Evolución. Alonzo era mantido em monitoramento porque seu corpo possuía a matéria prima da cura.

- Na verdade, tecnicamente, só uma gota do sangue de Alonzo já seria suficiente para curar um state permanentemente, sem deixar qualquer característica do state na pessoa.

- Então por que eles precisaram modificar a cura se ela já era perfeita?

- Entenda, Blake. Há alguém por trás de tudo isso. Alguém que está controlando a Organização sem que o governo saiba, alguém que criou a Evolución. Essa pessoa não queria uma cura real, tudo que está acontecendo agora é por causa dessa pessoa. Essa pessoa criou a Evolución com o propósito de fazer uma guerra e dominar a Metrópole. Seu objetivo é nos tirar daqui. Criar uma nova raça de humanos states e tentar explorar o mundo fora da Metrópole, derrubar a prisão que o Governo controla.

- Mas Lisa... Isso não é bom? Se tudo que você disse é verdade, a Organização e o Governo estão comandando uma ditadura há muitos anos. A existência dos states é só a ponta da lança, quantas coisas mais eles escondem, quantas outras pessoas eles controlam fingindo dar liberdade?

- Blake, ouça o que eu vou te dizer e ouça bem: A Evolución vai matar quem estiver no seu caminho para controlar a Metrópole. Assim que essa guerra terminar, todos esses ideais irão sumir e estaremos sob outra ditadura, uma bem mais direta. O governo tem que cair, mas não por meio do sangue de inocentes.

Eu fui até a janela e olhei para fora. Uma leve brisa, o que já era muito para a Metrópole, batia no meu rosto.

- Eu não entendo. Por que não nos prenderam? Por que deram a Alonzo uma chance de viver se podiam simplesmente obrigá-lo a se tornar uma cobaia?

- Sobre isso... O Alonzo tem que fazer tudo por vontade própria. A cura do Alonzo não está em seu sangue.

- O que? – Virei para ela, sem entender.

- Alonzo possui a imunidade como muitas outras pessoas, por isso ele tem o potencial para se curar mesmo após se tornar um state. Porém essa falada imunidade não é uma cura, é só um potencial. Ainda assim, seria necessária uma cura para salvar um infectado, e este precisaria também possuir a imunidade.

- Você não pode estar supondo que...

- Isso mesmo. As pessoas que possuem imunidade são as mesmas que acabam sendo infectadas. Afinal, você só pode ser curado se estiver doente.

- Ridículo! Significa que a Evolución vai jogar fora a vida de todos os que não podem ser infectados?

- Não. Blake, o líder da Evolución pode infectar quem ele quiser. Seu objetivo é tomar controle da Metrópole e infectar todos dentro dela, mesmo os que não querem ser infectados.

- Como ele pode ter tanto poder?

- Ele pode fazer isso porque ele criou o vírus. Blake, o homem que está controlando a Evolución e a Organização é o motivo do Apocalipse ter acontecido no passado.

Eu não pude reagir. Eu provavelmente não saberia como, mesmo se pudesse, mas não tive tempo pra reagir. Uma bala acertou a parede perto da janela, quase me acertando. Eu me abaixei imediatamente e Lisa correu na direção da janela abaixada, dando uma olhada discreta para saber se tinha alguém lá. Ela então suspirou.

- Foi só uma bala perdida.

- Bala perdida? Aqui?! Como isso é possível, estamos na zona nobre.

- Eu sabia que uma hora a guerra ia chegar aqui também.

- Guerra? Que diabos você está falando?!

- Eu te contei, não contei Blake? A Evolución planejava começar uma guerra contra o governo e a Organização. Eu não tenho tempo pra explicar agora, mas Alida Van Haley era a última peça do quebra-cabeça. Fazem três dias que você está dormindo, três dias que Alida foi raptada. Desde a tarde de ontem a Guerra começou.

Me virei para a janela para contemplar aquela visão inacreditavelmente terrível. Os sons dos tiros e explosões agora estavam mais próximos e claros do que nunca. A guerra começou... Se eu não tivesse ficado parado, Alida não teria sido raptada e a guerra não teria iniciado. Era minha culpa e eu precisava corrigir meus erros. Chegava a hora de lutar.