Perfeição. O que é perfeição? Por certo tempo devo admitir que pensava que perfeição fosse tudo que existe, existindo. O mundo, da forma que ele é, com todos os seus problemas, deveria ser perfeito. Eu demorei pra notar que essa minha visão de mundo conturbada não passava de uma maneira de fugir da realidade.

Meu irmão morreu aquele dia. A única ligação que eu tinha com este mundo era ele. Eu o vi partir, me deixar, eu não pude aceitar. Enquanto os portões e a barreira da Metrópole fechavam definitivamente, eu observava meu irmão sendo mandado para a morte. Eu não pude aceitar, eu não pude suportar. Sem qualquer ligação com este mundo, eu passei a odiá-lo.

E agora eu entendo. Foi para não ter de morrer, foi para conseguir suportar toda a dor, que eu inventei a perfeição. A perfeição é inexistente, algo que os humanos durante suas vidas passaram a buscar para ter algo o que buscar neste mundo fétido. Algo criado, superficial, ao qual eu me agarrei com tanta força só para ter onde me agarrar. Pelo menos até ver a cura, até ver que havia uma opção, mas que este mundo não me deixou usá-la.

Mas então eu deveria simplesmente esquecer? Simplesmente aceitar que este mundo é um lugar ruim e deixar para lá?

O que é que viver significa pra mim, afinal? Qual meu objetivo aqui? Por que eu existo?

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- 1 dia antes da Guerra, Alida Van Haley é raptada -

Eu acordo. Não me lembro de ter dormido ou mesmo desmaiado. Minha cabeça ainda estava doendo e minha visão desfocada. Tento descobrir onde estava, mas era tudo muito escuro. Somente pelo som e pela forma com que aquilo se movia eu pude identificar que era algum tipo de trem. O homem ruivo que havia me raptado estava lá, dormindo também do outro lado do que parecia um vagão de carga, no chão assim como eu. Ele se encolhia de frio no chão de metal, deitado com as costas numa caixa qualquer, se abraçando em si mesmo... De fato, aquele vagão era frio. Aquele homem que antes mais parecia algo tão mitológico como um deus, um demônio ou a verdade, agora era do meu ponto de vista tão palpável, tão humano. Ele provavelmente tinha seus próprios sonhos, suas próprias lutas, seus próprios motivos. Ele provavelmente também perdeu alguém. Não importava. Eu poderia fugir agora, mas não importava. Eu ainda não podia aceitar aquela realidade. Eu fechei meus olhos e continuei dormindo, pois na verdade não queria acordar. Foi só pouco antes de pegar no sono que eu notei que havia um cobertor por cima de mim me protegendo do frio.

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Era de manhã. Qualquer morador da Metrópole poderia dizer isso sem depender da claridade ou algo do tipo. Eu acordei em um quarto fechado, bem iluminado por algumas lâmpadas, sem janelas. Eu estava deitada em uma grande e confortável cama, o quarto em si era bem feminino, com espelhos, cômodas e um armário. Havia ainda um aparelho de ar condicionado ligado. Eu usava o mesmo uniforme da escola que estava usando quando tudo “aquilo” aconteceu. Andei até a porta, de certa forma eu não sentia qualquer dor ou tontura. Abri somente uma fresta da porta, porém assim que a luz entrou, eu imediatamente abri a porta por completo, pois não podia acreditar no que havia visto.

Eu deveria ter notado pelo quarto sem janelas, ou pelo “trem” de antes. Aquilo não era um trem, era uma via subterrânea. O que eu via a minha frente era inacreditável. Onde um criminoso poderia realmente se esconder? Afinal estávamos na Metrópole, uma cidade fechada sem saídas. Não, não mais. O melhor lugar para se esconder era bem abaixo do nariz de todos, literalmente. Estávamos embaixo da terra, num grande e enorme buraco.

O lugar era enorme, eu não sei quanto seria a profundidade, mas era inacreditável. Uma pequena cidade poderia ser construída ali, e de fato parece que foi construída. Eu estava em um tipo de sala oval cujas paredes eram quase totalmente de vidro, mostrando a caverna logo à frente. A sala também era enorme, com um grande sofá em seu centro que seguia o formato oval da sala. Ela havia sido construída na parede da caverna e parecia haver algum tipo de elevador que descia até mais afundo, além da porta do meu quarto e de outra porta que estava lá. Da enorme janela eu podia ver que havia caminhos, elevadores, espirais, construções. Prédios e casas. E acima de tudo, havia pessoas. Muitas pessoas. Elas andavam para lá e para cá, a maioria carregava armas, todas uniformizadas. Usavam roupas pretas com detalhes vermelhos e alguns “E”s estampados nos ombros dos uniformes. Pareciam soldados. Eram soldados, mas contra o que estavam lutando? Eu olhava tudo lá do alto. Uma voz familiar falou por trás de mim:

- Incrível, não é? Esse é meu exército.

Eu olhei para trás discretamente. O homem havia saído do tal elevador, provavelmente eu estava sendo monitorada e ele veio assim que acordei. Ele era alto, tinha cabelos ruivos picotados caindo sobre a testa. Sua aparência mostrava que ele devia ter em torno de 30 anos de idade. Aquele era o homem que havia me raptado, mas por algum motivo, eu não o odiava. Eu não tinha ânimo para odiar ninguém naquele momento. Olhei novamente para a janela, todas aquelas pessoas tinham um objetivo.

- Todos eles estão lutando por você?

O homem rio enquanto se aproximava e parava do meu lado, também olhando pela janela.

- Por mim? Hahaha. Não seja ingênua – Disse ainda de forma descontraída. – Eu não sou tão burro para pensar que eles lutam por mim. Não. Cada uma dessas pessoas aí embaixo, embora trabalhem por uma causa em comum, tem seus próprios motivos. Cada um deles tem sua família, seu passado e seu futuro. Eu sou só mais uma forma deles alcançarem o que almejam.

“Então é assim que funciona”, foi o que eu pensei.

- Mas e eu? O que eu estou fazendo aqui?

O homem respirou e olhou para mim por um instante, então olhando novamente pela janela disse:

- Para que os esforços deles valam a pena, claro. Precisamos de algo que só você, a única herdeira dos Van Haley, pode oferecer.

- Eu sou uma refém, não sou?

- Exatamente. Precisamos que seu pai faça algo para nós, ou melhor, deixe de fazer. Por ser um dos diretores da Organização, ele é atualmente o único que pode fazer algo contra nosso plano.

- Desperdiçou seu tempo. Meu pai só se importava com o meu irmão, desde que ele morreu eu nunca sequer vi meu pai novamente. Ele só fica trancado naquela Torre, exatamente no centro da cidade.

- Isso é o que você pensa, senhorita Van Haley – Outra voz falava dessa vez, uma mais familiar. Ela saía da terceira porta que existia na sala. Sua pele era parda, seu cabelo era longo e preto, e ela possuía olhos verdades e cintilantes como os de um gato. Porém sem dúvida a característica mais marcante de sua aparência era seu tamanho diminutivo. Ana Luísa da Silva, a minha professora.

- Lisa? Então ele te raptou também...? – Eu estava surpresa. Eu entendo o que eles queriam comigo, mas raptar Lisa? Uma criança inocente?

- Não é bem assim. – Sua voz infantil parecia mais séria do que eu jamais havia ouvido. – Me desculpe Alida, há algumas coisas que eu preciso te contar.

Em seguida, eu fiquei sabendo de muita coisa. Lisa me contou que ela não só era uma adulta, como a imortalidade poderia estar nos seus genes. Ela me disse que a Organização a manteve viva durante todo esse tempo apesar das condições inconstantes da saúde dela. Mais importante, ela me disse como algumas pessoas estavam se transformando em states, que a Organização os estava destruindo por meio de Agentes Especiais. Mas a Organização sempre esteve controlando o Governo e todos dentro da Metrópole, por isso havia um grupo que gostaria de derrubá-la

- Então final quem é ele, Lisa? O que você está fazendo aqui? – Era possível ver agora alguma raiva e dúvida na minha voz. Lisa era uma das poucas pessoas que pareciam ser o que mostrava ser, eu sempre pensei que ela era uma inocente num mundo de culpados, mas parece que não.

- Acalme-se, Alida. Eu sei que isso parece difícil de entender, mas você terá de se adaptar.

- Não, ela está certa. –Disse o homem calmamente. – Não queremos que ela ofereça resistência, então é melhor fazê-la entender os nossos ideais.

- Seus ideais, Charlie. Seus ideais. Eu nunca disse que estava do seu lado, e nem estou. – Completou Lisa em advertência.

- Falem logo. – Disse eu sem paciência.

- Meu nome é Charlie, é assim que me chamam, esse é quem eu sou. Eu sou um cientista, tenho trabalhado para o Governo desde antes da existência da Organização. E desde sempre eu soube que a Organização era algo errado que não deveria ser implementado. Eles trabalham pelas sombras, ignoram a vontade de população e, acima de tudo, todos os Diretores deixaram a muito tempo de tentar encontrar uma solução para o nosso cárcere. A humanidade acabou, e eles sequer estão tentando trazê-la de volta.

- Tudo acaba um dia... – Digo ao lembrar de meu irmão.

- Sim, eu fiquei sabendo do seu irmão. – Diz Charlie, de forma que eu olho diretamente a ele e ouço o que ele tem a dizer – Eu sei exatamente o que ocorreu com ele. E deve ser muito mais fácil pra você viver dizendo para si mesma que ele iria morrer uma hora, que não havia nada que você pudesse fazer. Mas há algo que você deveria saber – Ele me segurou nos ombros e chegou tão perto de mim que eu podia sentir seu hálito, a verdade saiu de sua boca no momento seguinte. – As coisas só duram até quando as pessoas determinam. Se você tivesse lutado, se você se importasse, se você tivesse feito algo para impedir, ele ainda estaria aqui, ele ainda estaria vivo, e ele poderia ser curado, pois eu tenho a cura.

A cada palavra que ele dizia, era como se uma lança tentasse sair do meu peito, perfurando tudo em seu caminho. Eu sentia ânsia, fiquei ofegante, meus olhos começaram a lacrimejar.

- Vo-você não sabe. Você não sabe de nada. – Eu não podia me mexer. Meu corpo tremia e tudo que eu queria era sumir, desaparecer dali e nunca mais voltar.

- Sei muito mais do que você pensa. E sei que você está tentando negar a realidade, mesmo agora. – Disse Charlie soltando meu ombro em seguida e andando na direção do Elevador. Ele arruma seu jaleco e entra pela porta. Ao entrar, se vira para mim com a porta do elevador ainda aberta – Pense sobre isso, Alida Van Haley. Ajude-nos a alcançar um mundo onde ninguém mais tenha que perder seus entes queridos por causa dos states. Um mundo onde você pode ter o controle.

A porta se fecha, o homem ruivo desaparece. Me deixando ali, enquanto lágrimas ainda caíam lentamente deslizando pelo meu rosto.

- Aqui. – Lisa estende seu braço, me entregando um pequeno pano no qual eu limpo o rosto.

Lisa me conduz até o sofá oval no centro da sala, no qual eu me sento, ainda sobre o impacto do que Charlie acabara de dizer. – Você não precisa ficar assim, não deveria acreditar nas asneiras que aquele idiota diz...

- Não. – Digo olhando pela janela novamente – Ele está certo. Uma hora ou outra eu vou ter que aceitar que meu irmão morreu na minha frente, e por menores que fossem as chances de ele sobreviver, eu jamais sequer tentei.

- E o que você vai fazer agora? – Diz Lisa, preocupada.

- Agora...? Eu não sei. Eu não quero... Não quero que ninguém mais sofra por causa dos states. O meu irmão morreu e eu não fiz nada para ajudá-lo, eu queria poder fazer algo.

- Está dizendo que vai se juntar a eles? Ajudar Charlie? Você sabe que eles também serão um governo. Não há provas de que Charlie vá ser melhor que a Organização, eu também não faço ideia de como ele poderia nos tirar de dentro da Metrópole. Ele fala que com o poder dos states nós podemos destruí-los, mas Charlie é um criminoso. Este é um mundo do qual você não poderá sair, Alida. Eu não posso te obrigar a nada, mas preferiria que você não fizesse isso.

- E eu tenho escolha? – Disse agora olhando pro teto, tentando buscar uma resposta. – Não havia mais lugar para mim no mundo anterior, de qualquer forma. Eu não posso voltar para meu dia a dia fútil e superficial. Se eu tenho a chance de fazer algo diferente, de mudar, é isso que eu vou perseguir. Me desculpe, Lisa.

- Está tudo bem – Disse Lisa sorrindo, e em seguida aquela pequena professora me abraçou com força. – Faça o que acha certo, Alida.

Lisa em seguida também se levantou e se direcionou até o elevador.

- Onde você vai agora, Lisa? Qual seu objetivo?

- Eu? Eu sou uma sobrevivente, é o que eu sempre fui. Não me importa quem vença a Guerra que está por vir, desde que eu ainda tenha meu lugar no mundo, estou satisfeita.

- Espere... Então por que você está aqui, pra início de conversa?

Lisa sorriu. Abriu-se um grande sorriso em seu rosto, do tipo que faz o inverno se tornar em primavera. Seu sorriso penetrou meu peito, como se minhas feridas estivessem sendo curadas. Subitamente, eu sabia o que deveria fazer.

- Bem, até mais, senhorita Van Haley. Eu preciso voltar para casa, Blake Water está lá sozinho e essa guerra pode começar a qualquer instante. A é, Aya Tsuyameko está naquele quarto de onde eu saí. Ela está dormindo, então por favor mantenha o silêncio.

Em seguida ela entrou no elevador, e enquanto a porta se fechava, ela não tirou os olhos de mim nem por um instante. A porta finalmente se fechou, e eu olhei para a janela novamente enquanto fala comigo mesma.

- Entendo, Lisa. Você fez tudo isso por nós. Seus alunos, seus amigos. Você esteve nos protegendo, não é? Quem diria que anjos da guarda fossem reais.

Naquele mesmo dia eu descobri que poderia haver um lugar para mim em um novo mundo. Lá fora, se eu lutasse e me esforçasse, um mundo onde eu poderia ajudar as pessoas, lutar por uma causa. Eu estava vazia quando acordei, e agora eu possuía um objetivo. Alida Van Haley, a mimada herdeira dos Van Haley, deixaria de ser isso para ser algo mais.

Eu ainda não sabia, claro, qual seria meu papel naquilo tudo. Eu ainda não entendia o que Charlie queria com a Guerra, ou como ele destruiria os states fora da barreira. Por enquanto estava bom. Naquela tarde, com a minha ajuda, foi iniciada a Guerra que iria mudar o destino do mundo para sempre.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.