Iridescente

3 Aquele que viu o abismo


Notas iniciais
Esse capítulo não se encaixava muito nos outros, mas senti que era um momento interessante e não merecia ser excluído. Afinal, fanfics não tem que se preocupar com limites físicos ou comerciais de editoração XD E vamos de referência à epopeia de Gilgamesh.

Sha naqba īmuru

Enkidu

Que sonho vi esta noite!

Bramaram os céus, a terra rugiu,

No meio de ambos estava eu de pé,

Havia um moço, sombrio seu rosto

Morpheus considerava que não fosse pensar muito sobre o assunto quando estivesse ocupado com outras questões no Sonhar, o que se provou uma desilusão. Enquanto monitorava o que se passava com Sonhos e Pesadelos, um incômodo o espetava por debaixo de seus devaneios. Se fosse usar a comparação de Íris sobre pérolas, diria que não era um grão de areia, mas sim um espinho recoberto por camadas e camadas de pensamentos. E naquele instante, seus olhos alternavam entre a visão da enócoa acima de uma das mesas da Biblioteca e uma ampulheta ao lado, junto a pilha de livros que havia folheado por curiosidade em busca de dedicatórias.

Executando suas ocupações de bibliotecária, Lucienne chegou naquele ponto da Biblioteca do Sonhar e se deparou com Morpheus. Embora não compreendesse completamente as atitudes de seu mestre, ela lhe ofereceu um cumprimento afável.

— Pensei que estaria criando o seu novo Pesadelo. — Uma pausa. — Faz um tempo que não prossegue com suas criações.

— Eu errei em um Pesadelo antes… — Lembrou-a dos vários sorrisos vis do Coríntio. — É mais sensato seguir com calma agora. Não devo perder um único detalhe.

O que ele ansiava por lhe dizer era mais grave, quem sabe vergonhoso.

Não sei mais como terminar o Pesadelo.

Nem se quero, de fato, terminá-lo.

E nenhuma palavra semelhante saiu de seus lábios. O Rei dos Sonhos mal ousava admitir para si que encontrava-se oco, embora de um jeito diferente da vez que conversou com a Morte após recuperar seus itens e seu reino. Havia uma sensação fantasmagórica, muito presente e quase imperceptível.

Nada seria como antes.

Beirava ao ridículo: Morpheus estava mais poderoso do que nunca, mas sua firmeza não era a mesma. Ele não era o mesmo Morpheus cortante por coisas tão simples e, quem sabe, devesse. No entanto, estava ciente que manter o coração tão severo já não era uma alternativa simples ou fácil. Acontecimentos recentes somente provavam isso: clemência a John Dee, o encontro com Hob, a mudança de Gault, o auxílio a Calliope…

As certezas que há tantos milênios mantinham-no firme se esvaíam assim como a areia da ampulheta.

— Mestre Morpheus… Tenho notado certa retidão sua. Aconteceu algo de errado no Mundo Desperto? Algo com Íris?

— Não, pelo contrário. Tudo correu bem e o desfecho foi satisfatório. Recebi também a enócoa de Íris.

Apontou o jarro de prata.

— E, ainda assim…?

— Ainda assim, há algo indigesto. — Foi sua melhor tentativa de resumir, sem muito se explicar. E mesmo sem oferecer muito a bibliotecária, seu olhar buscava compreensão. — Lucienne, estou sendo patético?

— Por que alguém acharia isso do senhor?

— Um Perpétuo não saber bem o que deve ou não sentir sobre uma situação nada grandiosa. Não lhe soa uma bobagem?

— Talvez o senhor só esteja vivenciando luto.

O espinho que incomodava o fundo de sua mente desfez-se de todas as camadas que o impediam Morpheus de enxergá-lo com clareza. Luto. Não era uma experiência nova, mas era difícil dizer que a cada perda o peso tornava-se mais leve — mesmo para uma entidade imortal. Morpheus estava triste, era só isso. E agora, não existiam mais muralhas para conter os ataques dessa tristeza.

Íris estava morrendo, não importava o quão gentil, forte e competente tivesse sido em suas funções de deusa mensageira. E para uma deusa que desaparece, não é a morte quem busca. Só o fim.

— Faz sentido.

Lucienne sabia quando era hora de deixá-lo com as próprias reflexões e aquele era um destes momentos. Ela organizou alguns livros que haviam sido deixados por outros usuários da Biblioteca acima da mesa e, antes de finalmente partir, virou a ampulheta, fazendo a areia voltar a escorrer.

Os olhos de Morpheus reluziram.

— Lucienne. — Chamou-a de longe. — Onde fica a seção na biblioteca sobre Sonhos?

— É uma seção grande. Subindo dois lances da escadaria a esquerda, seguindo adiante mais meia dúzia de estantes. Procura alguma obra em especial? Algum autor?

— Não. Só quero… Folhear as coisas.

A bibliotecária sorriu e deixou-o na companhia de seus pensamentos. Morpheus, por sua vez, levantou e saiu dali com a enócoa em mãos, levando aqueles devaneios consigo enquanto subia inúmeros degraus. Chegar a seção certa não foi o problema, já que as instruções de Lucienne haviam sido sucintas e precisas. No entanto, era fato que a seção era imensa. Sem uma ideia muito fixa do que se procurar, tornava-se fácil perder-se entre as estantes.

Morpheus tocou o dorso dos livros com a mão livre enquanto caminhava.

Recolheu um livro de Andersen, no qual a entidade Ole Lukøje dava sonhos doces ou azedos às crianças. Curioso. Não podia ser mais diferente que Der Sandmann, de Hoffman. Ele continuou a retirar e folhear livros, voltando cada vez mais na memória. Até que pegou um em escrita cuneiforme e se sentou para analisar a obra com calma.

Não havia uma entidade de sonhos especificada na epopéia, mas os sonhos não deixavam de ser importantes — ou agourentos. Ele passou os olhos sobre cada verso, conferindo pontos de uma narrativa há muito tempo enterrada e, ainda assim, tão próxima: Aquele que o abismo viu.

Os sonhos de Gilgamesh.

Mãe, apareceram-me estrelas no céu

Como rochas de Ánu caiam sobre mim;

Prendi uma, era pesada para mim,

Tentava movê-la, não podia levanta-la.

Os pesadelos.

O sono que derrama sobre a gente nele caiu.

Na noite profunda, de sonhar terminou

Levantou-se e disse a seu amigo:

Amigo meu, não me chamaste, por que estou desperto?

Não me tocaste, por que estou angustiado?

Não me passou um deus, por que está acordado meu corpo?

Amigo meu, vi outro sonho,

E o sonho que vi, de todo atordoante.

Os versos que exaltavam tanto a força de Gilgamesh mudavam de tom após o pesadelo verdadeiro de Enkidu, seu amigo, parceiro, protegido e amado. Morpheus via dor nos episódios dos ritos funerários, a ingenuidade na interpretação dos sonhos que um e outro tinham ao cair no mais profundo sono. A epopéia havia sido escrita há tanto tempo que, para a humanidade, era tão impalpável quanto ilusões; uma mera fantasia submersa por milênios e pó. E, ainda assim, tão real. Gilgamesh buscou pela vida eterna, mas não era capaz sequer de controlar o temperamento ou vencer o sono. Mesmo dois terços divino, era mortal.

O peito de Morpheus sentia muitas daquelas dores, a sensação oca de ficar enquanto os outros partiam. Podia pensar em dúzias de nomes que lhe eram caros ao coração, o mais recente, Jessamy. O mais doloroso, Orfeu. No entanto, ele próprio não tinha a mínima perspectiva de afinal desvanecer.

Morpheus guardou a obra.

Não iria prosseguir com a criação de Sonhos ou Pesadelos, não agora. Saiu da biblioteca devagar, deixando os pensamentos marinarem sem tomar forma alguma. Não deixava de lembrar de deusa mensageira. Chegou até o salão principal de seu palácio. Não sabia se aquele seria o local definitivo do jarro, mas colocou-o acima de uma mesa alta, pequena e redonda próxima ao seu trono. Com um movimento de suas mãos, areia tornou-se uma flor de íris violeta, banhada pela luz colorida que descia dos vitrais.

Notas finais
Em uma das entrevistas com os atores de Sandman, Tom Sturridge menciona que o diferencial de Morpheus é que, muitas vezes, ele não é o protagonista, mas sim um anfitrião de histórias. Depois de ler Sandman, não pude deixar de concordar. E aí a história que estou escrevendo passou a fazer mais sentido. Morpheus está acompanhando o desfecho da história da Íris. Eu também li alguns materiais sobre morte e luto que fazem o contexto melhor, mas em resumo é também sobre o Morpheus lidar com a mortalidade do próximo e refletir sobre a própria. Recomendo a leitura de "Ele que o abismo viu: Epopeia de Gilgámesh", traduzido por Jacyntho Lins Brandão. Sinto que, entre tantas coisas, o tema da mortalidade é muito forte nessa obra.