Notas iniciais
Os parentescos de Íris na mitologia são bem curiosos: Ela tem irmãs harpias e seus pais são entidades marinhas. Para já lançar de antemão o contexto das harpias, elas foram perseguidas pelos Boréades, Zetes e Calais, e salvas por Íris. Achei melhor já dizer isso e logo será clara a razão.

Um gato preto caminhava pela praia, a leveza de seus passos mal deixando pegadas pela areia. O vento não era mais que uma brisa e beijava com suavidade seus pêlos longos, seu bigode. O local estaria inteiro deserto — uma paisagem acinzentada com areia, rochas e o mar em ressaca — se não fosse a presença de uma mulher, sentada a poucos metros de distância das espumas da maré. O rosto dela era sereno, pensativo. Encarava um ponto fixo adiante, mas o sol já havia partido há muito tempo e a lua aparecia por frestas entre as nuvens. Não havia nada no horizonte, por mais que ela continuasse encarando. Trajava um vestido leve de praia, abaixo de si havia um tecido de pálidas cores e adiante de seu pé direito, uma caneta prateada. Não parecia que algo pudesse abalar o olhar da deusa mensageira, porém ela sorriu de súbito e voltou o rosto para o felino ali perto.

— Eu havia esquecido de como sua forma de gato era grande, Morpheus. — Os olhos do felino reluziram em resposta. Ela logo rebateu o questionamento silencioso: — Reconheço um Perpétuo quando vejo um.

A figura seguiu ao seu lado e então cresceu até sua forma humana: roupas escuras, os cabelos pretos ainda ondulando com o vento. Sentou próximo da deusa, embora distante o suficiente para não encostar em seu manto colorido.

— Boa noite, Íris. Já faz um tempo.

— Nem me venha com olhares acusatórios. Bem lhe disse que estava trabalhando na mensagem.

Uma pausa.

— Não sabe preparar o conteúdo dela?

— Não. É mais como entregar. — Seu rosto virou para o mar de novo. — E onde a destinatária está.

A falta de luz não era um problema para Morpheus sorver os detalhes de Íris. A lua, que bem tentava se esconder nos céus, ainda emanava uma cor argêntea no mar e os olhos do Perpétuo captavam tudo. Reparou nas costas nuas dela, um ponto abaixo de seus cabelos lisos em que duas cicatrizes marcavam onde um par de asas deveria existir. Tocar no assunto não era sábio, embora todos os assuntos parecessem delicados com Íris. Ainda assim, o silêncio era ainda mais frágil. Morpheus foi o primeiro a quebrá-lo depois daquela pausa.

— Notei algo sobre como você fala do passado. Nunca é com saudosismo.

Íris olhou-o de soslaio, curiosa e um tanto relutante.

Você sente nostalgia?

— Eu não sei.

Pelos minutos seguintes, o mar respondeu por ambos àquela conversa quebradiça. O Rei dos Sonhos teve mais ímpeto do que razão para procurá-la, movido pela impaciência e um toque de preocupação. E embora não fosse uma surpresa encontrá-la à beira da praia, tal fato o intrigava. Assim como afirmara, Íris não soava saudosista do passado, por mais que estivesse… Morrendo. E lá estava ela, perto do oceano: seu pai era Taumante, a mãe Electra. Íris tivera asas em vida, mas seus pais pertenciam ao oceano.

Enfim, ela prosseguiu:

— Eu também não. — Suspirou. — E como poderia? Digo, era bom se sentir útil. Desejada e necessária, até. Mas até onde isso é só uma sensação? Eu executava minhas tarefas com êxito e rapidez, estava sempre ocupada. Às vezes, — Ela completou com uma ponta de hesitação. Deitou-se no tecido estendido na areia e esticou os braços, olhando o vazio infinito do céu. — Acho que perdi outras coisas para… Bom, talvez para nada agora. De qualquer modo, foram tempos bons, tempos horríveis, com mil coisas acontecendo e… Passou. E só nós sabemos de certas verdades.

— Alguns mortais te consideram casada com Zéfiro.

Ela riu e Morpheus quase sentiu sua expressão ficar mais amena.

— E mãe de Póthos, a representação do desejo por alguém ausente. Poético, imaginativo, doloroso. Ah, essa humanidade... Talvez eu devesse mesmo ter me casado com ele.

— Íris…

O vento calou-o, trazendo mais do que o som da maré: uma canção. Íris sentou-se de novo sobre o tecido, as costas eretas e a pele eriçada. Suas feições eram desprovidas de qualquer expressão, concentrando-se em ouvir mais uma lufada do vento e da melodia. E quando isso ocorreu de novo, a deusa reconheceu a quem pertencia a voz.

— Ela está cantando. Não parece longe. — Levantou-se com pressa. Pegou a caneta com a qual ocasionalmente prendia o cabelo e a fez crescer, transformando o objeto até sua forma original: o caduceu de prata. Chamou pelo Perpétuo: — Morpheus, se estava ansioso por me ajudar com a segunda mensagem, sinto que agora é a hora.

— Pois bem.

Ele também ficou de pé, a areia não grudou em suas vestes. Após Íris colocar o tecido sobre os ombros, ela aproximou-se devagar: seu rosto era metade gratidão, metade solenidade. Afinal, mesmo um tanto mais próximos, ainda existiam formalidades para pedidos e ritos: Íris estava disposta a cumpri-las até o fim e Morpheus a admirou por isso.

— Eu, Íris, a mensageira dos deuses. — Ela começou, enquanto vento mexia seus cabelos de reflexos coloridos; enquanto areia levantava no ar e a aura de seu corpo cintilava fraco. — Invoco o Perpétuo, o Rei dos Sonhos, moldador de formas. Morpheus, o silencioso entre nós; Morpheus, paz do mundo, bálsamo da alma que afasta a angústia, aquele que traz alento aos membros depois de um difícil dia de labuta e renova as forças para os dias de amanhã: ajude-me a levar uma mensagem a quem tanto amo e quero bem; ajude-me a trazer o sono e sonhos felizes. Assim eu peço, em troca de meu caduceu.

— Aceito as formalidades, deusa. E fico ao teu auxílio.

— Aqui, meu caduceu. — Íris ofereceu o objeto e Morpheus de novo resistiu ao impulso de recusá-lo. Tratando-se de um rito, era impossível. Sendo ainda a única coisa que poderia fazer, de fato, por Íris, ele também não negaria. O bastão não era pesado; logo o Rei dos Sonhos abriu o seu casaco e colocou-o inteiro na fenda que mais parecia uma janela para o universo. — Oh. Que casaco útil.

Ele segurou a resposta espirituosa que pensou, fazendo alusão a crítica dela sobre a falta de cores sobre suas roupas. Não houve tempo, na verdade. Íris jogou o seu manto no mar, formando um caminho ondulante nas marés serenas. As cores serpenteavam com a espuma, mas a direção permanecia clara. Estendia-se metros e metros adiante na escuridão.

— Podemos caminhar sem pressa e sem obstáculos, mas a água ainda bate na canela. Queira me perdoar, Rei dos Sonhos, pois se eu tivesse maior poder, não teria esse incômodo. Aconselho tirar os sapatos.

A Morte poderia rir disso.

Esperava que sua irmã não soubesse. Sem saída, tirou os sapatos pretos. Segurava-os com a mão direita, com a esquerda aproveitou para apoiar-se em Íris — mas era ela quem se apoiava mais nele do que o contrário. Aos olhos de Morpheus, era nítido que estava cansada.

Caminharam pela areia, então chegaram nas ondas fracas. Andar sobre o manto colorido de Íris causava-lhe uma sensação estranha no solado dos pés, um tipo de cócegas suportável. Não era como caminhar sobre algo sólido, por mais que estivessem submersos só até as canelas. Pouco a pouco, encontraram ritmo naquele distinto caminho. E por um tempo, fizeram silêncio: Apenas o vento, o mar e a canção distinta sussurravam.

— Ainda estou pensando na sua questão. Sobre saudosismo, sobre falar do passado.

— Diga, Íris.

— Não sei se me faço ouvir como alguém pragmática demais. Ou falsamente com tudo resolvido no meu discurso. Mas sinto que… A minha perspectiva atual me coloca na posição de ver as coisas complicadas com serenidade, apesar de tudo. Se penso no passado? Sim. Gostaria de ter tomado outras decisões, talvez. Entretanto… Não há mais uma versão minha em que posso retornar. — Ela suspirou. — Não há onde retornar, na verdade.

— E dói?

— Dói. Dói sim. É agridoce.

Quietude.

— Sinto que não vamos entregar nenhuma mensagem romântica.

— Não. Mas não é mais simples que isso.

— E do que se trata?

Ela não respondeu imediatamente. Daquele ponto, não enxergavam mais a praia: o mundo era quase uma escuridão completa, impalpável nos céus e liquefeita abaixo. A canção estava mais próxima, mais bela e lamuriosa.

— Uma despedida.

Seguiram o caminho d'água até que a lua foi desvelada das nuvens de novo, por um breve instante. Adiante, silhuetas de rochas banhadas pelo mar. Adiante, a silhueta de uma criatura metade ave, metade mulher: Uma harpia. Estava cantando e poderia hipnotizar os mais incautos, mas a melodia não era para os ouvidos da deusa e do Perpétuo.

Morpheus diminuiu o passo, colocou os sapatos para dentro do casaco. Não podia dizer que surpreendia-se com a visão, no entanto tinha que admitir que não pensava há anos no fim de harpias e sereias; ambas na aurora da glória helênica muito semelhantes — diferenciavam-se pelas funções. E ainda assim, muito mudara desde então. Sereias não costumavam ter mais penas e ninguém questionava o destino de suas irmãs aladas.

As irmãs de Íris.

Acima das rochas e com o olhar vítreo, a harpia cantava. Íris acompanhava-a com estranha e triste devoção. Mesmo frágil, mesmo sentindo a aspereza das pedras, ela desenlaçou-se de Morpheus e escalou o rochedo com os pés molhados. Seus joelhos escorregaram no vestido e na umidade, mas seu movimento não tinha dúvidas, nem um pingo de hesitação.

— Íris.

Ela ignorou o chamado dele, o alerta. Morpheus sentia o cheiro acre de uma presa abatida há tempos no rochedo, viu a marcas ainda mais escuras na textura das pedras. Ali era um local que certamente a Morte havia visitado; Delírio e Desespero também.

— Ocípete. Ocípete, sou eu.

A canção ancestral sobre remos, águas incertas e súbita maré, cessou. A silhueta saiu aos poucos da escuridão, a postura cautelosa, penas eriçadas e garras fortes. Faltavam-lhe um punhado de plumas. E, ainda assim, era terrível, divina. E talvez fosse divina justamente por ser terrível assim.

— Íris? Íris! — O piado era afiado, destoante do tom melodioso de antes. O rosto feminino, agora iluminado, era belo mesmo torcido em fúria, em pânico. — Os Boréades, Zetes e Calais. Zetes e Calais! Eu voo, voo e voo! Mas eles chegam, sempre chegam. Íris! Eles são tão cruéis. Onde estava?

A harpia se aproximou, enorme. O tom de acusação pairava no ar e Íris não recuou, nem mesmo quando Ocípete repetiu a pergunta, nem mesmo quando ela ergueu uma das patas e lhe arranhou na altura do ombro esquerdo, fazendo seu sangue luzidio verter.

— Prometeu que eles nos deixariam. Prometeu! Aelo, Celeno, Podarge. Onde estão?

Mas não havia nenhuma outra harpia ali e Íris chorava, não pelo ferimento.

A compreensão aprofundou-se em Morpheus: o passado não acorrentava a deusa mensageira em saudosismo traiçoeiro porque ela entendia como era cair nos encantos de sofrer por aquilo que já tinha se esvaído há eras. Uma de suas irmã era o terrível exemplo: Ocípete chamava pelo nome das outras harpias como se não tivesse observado o tempo abatê-las; Ocípete repetia tragédias antigas como se algozes enterrados pudessem ainda alcançá-la.

— Eu estou aqui.

— Oh, Íris! Muitas delas foram para as águas. No lugar de asas, tem caudas e escamas. Gritei para elas acima d'água. Um tanto delas se foi. Outras ainda cantam. Diga para voltarem! Você pode fazer isso. Você deve. A noite precisa do canto. Da dor dos anseios e a força para resisti-los, maior ainda força para alcançá-los. E o dia precisa de gritos.

— Não consigo.

Você deve! — Outro guincho, suas asas estendidas e movimentos bruscos. A harpia não cantava a esmo para atrair vítimas, Morpheus sabia disso: elas eram a personificação dos ventos da tempestade e puniam as pessoas. Ocípete era a mais veloz. E entre espasmos de ira e acusações, um brilho de lucidez. — Oh, Íris. Suas asas. Se foram. — Piou, e era um choro. — Já não me resta quase mais nada ou alguém. Não há mais justiça a se fazer. Nem a quem levá-la.

— Todos se foram. Eu sei. E você precisa descansar.

Assim como a lua entrecortada por nuvens no céu, a razão durou pouco. A harpia soltou mais pios altos, suas garras quase acertaram a deusa mensageira. Foi súbito, Morpheus quase não processou o que estava assistindo; mas Íris foi capaz de desviar. Naquele instante, ele notou que era provável que a deusa tentara falar com a harpia antes.

Mas diferente da irmã à sua frente, Ocípete jazia entre as dores e a glória do passado, entre a ausência e a indiferença do hoje.

Como? Íris? Íris!

O mundo que elas amavam estava em ruínas e Íris em lágrimas. Ela se virou para o Perpétuo, o rosto pálido e impotente:

— Morpheus, por favor.

Já tendo largado os sapatos pretos na água, ele pegou seu saco de areia e soprou rápido em direção a criatura, que em resposta guinchou e moveu-se de um lado para outro. Naqueles segundos que lentamente escorriam, era possível ouvir a voz baixa da deusa e suas palavras doces para irmã, quase num cântico.

— Boréades! Zetes e Calais. Jasão! Rei Fineus, Zeus! Aelo, Celeno, Podarge. — Recolheu as asas, a expressão tornou-se serena e sonolenta. Havia razão e ilusão simultaneamente em seus olhos e Ocípete agora estava quase doce, mais humana do que criatura. Aproximou-se da irmã, deitando o queixo em seu ombro bom. A deusa, por sua vez, sentou-se na pedra, aliviada por sentir o peso e a calmaria da harpia. — Íris. Oh, bela Íris. Você voltou.

Enfim, Ocípete adormeceu e Íris abraçava-a com delicadeza, quase como se acariciasse um pássaro frágil. Pedia para a irmã descansar, isso era tudo. Sua única mensagem para aquela ocasião era a súplica para a harpia ceder à serenidade do fim e sonhar com coisas doces. Não se veriam de novo.

— Eu te amo, Ocípete. Se cuide. Descanse.

A deusa encarou o Perpétuo, seu rosto firme apesar do ferimento no ombro e dos tornozelos sangrando contra a superfície áspera de pedra.

— Pode partir, Morpheus. Não lhe incomodarei por um tempo.

— Essa rocha lhe fere.

— Sim. E o que importa, se for só por mais um instante? Agradeço por fazê-la sonhar, Morpheus. Por me ajudar a fazê-la ouvir. Prometo não deixá-lo esperando muito.

Primeiro, ele deu um passo à frente, equilibrando-se descalço em uma das pedras menores. Em seguida, o manto colorido de Íris tremulou nas ondas do mar antes de flutuar até a deusa e a harpia, pousando sobre elas como se não existisse nada além do que aquele abraço. Íris tentou sorrir. Morpheus encarou-as antes de desvanecer para o Sonhar, refletindo sobre como pouca coisa existia, de fato, para as duas. Não parecia haver mais tempo algum.

Ele agradeceu por ser recebido apenas pelo silêncio em seu palácio e subiu as escadas até seu trono. Embora Lucienne tivesse apenas as palavras certas na boca; embora Matthew exibisse as melhores piadas ou Mervyn lhe oferecesse a dose certa de ironia, o que o Perpétuo precisava naquele instante era somente quietude. Antes de sentar-se, reduziu o caduceu ao tamanho de uma caneta e colocou-o ao lado do jarro de Íris.

Estava cansado.

E, para ele, havia a eternidade.

Notas finais
As harpias por si só são criaturas que acho fascinantes: elas tem semelhanças com as sereias (vamos lembrar que sereias metade peixe são construções mais recentes do que mulheres metade ave), mas tem funções diferentes. São punitivas. Aqui, sereias são continuidade das harpias e Ocípete está sozinha :( E agora? Falta só um pedido de Íris!