Iridescente
5 Luzes
Notas iniciais
Obrigado a desenvolver a virtude da paciência no último século, o Rei dos Sonhos aguardava o contato de Íris. O intervalo entre o último encontro estendia-se por dias e, embora houvesse a amarga curiosidade de ver o fim, esse período foi propício para que algumas certezas afinal se solidificassem nos pensamentos de Morpheus. Se eram pérolas ou espinhos em sua mente, no entanto, ele não sabia afirmar. O fato é que as palavras de Lucienne revelavam-se precisas: a sua indisposição com aquela história era o simples e difícil luto.
Morpheus era apenas o anfitrião daquele desfecho.
Deveria cultivar maior serenidade para acompanhá-la neste processo, aliviando um pouco de seu sofrimento sem apressar ou alongar alguma coisa. Pensar nisso tornava os pedidos de Íris mais claros, bem como a postura dela diante da iminência do próprio epílogo. Ela estava se preparando. A despeito do fato de que não seria a Morte a buscar a deusa, ele lembrava-se da irmã com frequência, buscando sabedoria em como ela encarava o próprio trabalho. Não era fácil. Mas, mantendo tais pontos acesos em sua memória, era um pouco mais fácil. E com frequência, refletia sobre sua própria sina, suas perdas e como o Sonho sempre existiria, de uma forma ou de outra.
Enquanto isso, o mundo continuava a girar e, naquela noite, os sonhos e pesadelos festejavam.
Morpheus observou de uma janela de seu palácio a movimentação abaixo, com direito a ecos de música e criaturas aladas atravessando o horizonte. Alguém que estivesse sonhando poderia afirmar que aquilo tudo era um parque de diversões aceso e efervescente madrugada adentro, embora não fosse tão simples. Mais do que um parque, um circo ou um espetáculo, as celebrações sem motivo algum dentro do Sonhar eram um episódio curioso para os sonhos e pesadelos, já que Morpheus não cedia fácil aos caprichos deles e já tinha atendido um pedido anterior há pouco tempo.
Mas ele tinha que admitir a si próprio que gostou das luzes coloridas dos brinquedos e das barracas. A música distante chegava em lugares do vento e um som diferente vinha junto, fraco. Parecia a estática de uma atração eletrônica um tanto desgastada e por um instante ele hesitou, talvez imaginando a sensação de familiaridade que a brisa trouxera com as cores.
Suspirou fundo, supondo que estava sozinho. Não estava. Uma figura com cabeça de abóbora logo se pôs a falar da porta, sem cerimônias:
— Não vai a festa, senhor?
— Me contento em só observar, Mervyn.
— Tal qual o Grande Sandsby? Encarando a janela em busca de uma luz verde.
Ele não evitou um discreto sorriso com aquele trocadilho tolo. Antes de desviar seu olhar da janela para o zelador, Morpheus ponderou que não era exatamente uma luz verde que ele buscava, ainda que a cor de uma esmeralda fosse fascinante. No entanto, não foi esse tópico que decidiu questionar em voz alta.
— Lendo muito, Mervyn?
— Frequento bem a biblioteca. Uma hora não poderia conversar com Lucienne apenas sobre janelas precisando de limpeza ou o chão de manutenção.
— Oh, sim. Ela está lá embaixo, suponho, com Matthew.
— Não. Matthew está acompanhando uma mulher estranha. Eu poderia dizer que é uma fada igual a Nuala, se tivesse asas. Não parece sonho, pesadelo ou mortal.
Ele piscou, compreendendo imediatamente quem era.
— Bem… talvez eu devesse conferir a festa.
Acompanhou o zelador para fora do palácio, chegando logo ao foco do movimento, cor e som. Lá, Mervyn murmurou alguma reclamação sobre a possível sujeira que seria deixada pelos cidadãos do Sonhar, mas logo encontrou o rosto conhecido de Lucienne para poder depositar suas ladainhas. Morpheus logo ficou sozinho na multidão, seguindo seu instinto ao se deslocar entre barracas com palhaços terríveis e monstros dóceis. O som de estática permanecia abafado pela cacofonia do ambiente, por mais que fosse mais consistente aos ouvidos do Perpétuo. Enfim, a viu: No meio caminho, a deusa andava devagar com algodão doce na mão esquerda e uma ave negra no lado direito. Aproximou-se o suficiente para ser ouvido.
— Está cansando o ombro dela, Matthew.
— Chefe!
Íris virou-se após o grasnado animado do pássaro.
— Ora, ele é só um pequenino! Lembra-me dos corvos de Apolo. E nossa conversa estava adorável, não? — Ela acariciou um ponto abaixo do bico de Matthew com o dedo indicador e, em resposta, ele movimentou de leve suas asas pretas. — Se eu retornasse, não me incomodaria de vir como uma ave.
Mas não um corvo.
Morpheus encarou melhor a postura frágil e de lume de diversas matizes de Íris. O que lhe vinha à mente eram libélulas, beija-flores; mas não se deixou levar longe pelos devaneios e ergueu o braço para que Matthew pulasse do ombro da deusa para si. Ela murmurou um “obrigada” discreto, concordando que sim, de fato estava pesado e o ombro oposto não tinha cicatrizado totalmente do ferimento causado pela harpia. Começaram a caminhar lado a lado.
— Devo admitir que dessa vez, sou eu que considero sua escolha de roupas curiosa, Íris.
— As notícias voam. Ouvi falar de uma festa, me vesti a caráter. — Ela sorriu sem graça, sendo uma figura deslocada do cenário informal com suas roupas tão características de outra Era, um peplos perolado. — Não esperava isso. — Indicou o ambiente ao redor com o palito do algodão doce. — E isso está bem melhor do que eu imaginava.
Matthew mexeu as asas de novo.
— Estávamos indo para a roda gigante!
— Voe e encontre uma rota mais fácil para nós, Matthew.
— Ah, puxa. — Morpheus estreitou o olhar para o corvo. Queria mais privacidade para conversar com Íris. — Digo, beleza, chefe!
Matthew alcançou voo rápido, já o Rei dos Sonhos não conseguiu chegar ao assunto principal diretamente, ou ao menos não naquele momento. Viera para completar seus três pedidos e desaparecer? Os dois continuavam a caminhar entre a multidão no Sonhar, em direção a roda gigante colorida e impossivelmente imensa adiante. Permaneceram em silêncio durante um tempo e Íris andava devagar, com certa dificuldade. Frágil.
— Talvez queira o caduceu de volta.
— Não se engane. Ele não me ajudaria agora.
— Pela magia, talvez não.
A deusa lhe lançou uma expressão azeda e divertida, não verdadeiramente contrariada pela constatação óbvia de que talvez precisasse de uma bengala. Ela jogou o palito de algodão doce na lixeira mais próxima e se apoiou depois em Morpheus, igual quando eles caminharam nas ondas e igual ele caminhava ocasionalmente com a Morte. Seguiram a rota indicada pelo corvo nos céus, evitando a multidão de sonhos e pesadelos nas barracas.
Chegaram sem demora na roda gigante com a ajuda de Matthew, que logo desceu para se divertir com os dois. E eles conseguiram conversar de coisas leves enquanto a cabine subia metros e metros do chão, o corvo e a deusa falando de fofocas nada importantes — e tão essenciais — de humanos. Quando a cabine iniciou sua jornada para o chão, Matthew partiu no horizonte entrecortado de luzes coloridas.
Sem encarar Íris, enfim Morpheus questionou:
— Veio pela última oferenda?
— Na verdade, não. — Ela suspirou. — Vim para pedir desculpas. O que você viu no mar foi desgastante e eu deveria ter lhe poupado disso. Coloquei um rádio para Ocípete. Acho que ela se sentirá menos sozinha… Bem, enquanto a bateria durar. E vim para agradecer.
O Rei dos Sonhos afinal voltou seu olhar para ela. Apreciava o agradecimento, o pedido de desculpas que também julgava desnecessário. Mas existia um tópico que ainda merecia mais esclarecimentos antes que… Antes que Íris se tornasse menos que uma memória, uma personagem em livros.
— No século passado. Por que tentou me libertar?
— A resposta para nosso talvez seja mais egoísta do que queira escutar. Eu era a copeira de Hera, diziam. A mensageira. — Ela deu de ombros, expirando longamente. — Talvez minha função não fosse a mais importante ou nem me comparassem a Hermes, mas eu tinha orgulho. Ainda tenho, eu acho. Ajudava as pessoas. E queria ajudá-lo também. Seria uma reviravolta interessante, não? Uma deusa decadente ajudando um Perpétuo. Um fim grandioso.
Ele assentiu, pesaroso.
— Foi notável quando… Eu fui aprisionado?
— Para quem lhe conhece, claro como o dia. Pessoas dormindo demais, sonhos e pesadelos soltos… Você não é do tipo que larga as coisas assim.
— Talvez eu não devesse estar no centro desta conversa. Mas agradeço suas respostas, Íris.
— Não há de quê. E o que existe de interessante para contar de mim? — Outro meio sorriso dela, parcamente iluminado pelas pequenas lâmpadas da roda gigante. — Sem novidades, ainda estou morrendo. Logo mais, não haverá nada.
— Então não há dor? Ressentimento?
Não respondeu, só lhe deu um olhar que dizia que sua educação não permitia que falasse de dores em voz alta. Então ele soube. Não era exatamente dor, não estava ressentida. Tratava-se de um sentimento mais óbvio.
Tristeza. Pelo que foi e o que não foi, pelo o que agora jamais seria.
— Disse que fiz amizade com a Morte. Queria que ela segurasse minha mão.
Havia uma outra questão entalada na garganta de Morpheus, uma que ele não conseguiu perguntar. Quem sabe porque era evidente demais, quem sabe porque era ainda mais difícil ouvir a confirmação.
Você está com medo?
Nada disse. Havia momentos em que as palavras eram necessárias, outros em que humor ácido trazia alívio, mas naquele instante só a quietude podia se manifestar.
Faltava pouco para a cabine da roda gigante completar seu giro. Enquanto desciam, ela se apoiou mais na beirada da cabine, encarando o Sonhar como quem entendia muito bem que não assistiria de novo semelhante espetáculo.
— Que lindo! Todas essas luzes! Eu havia esquecido como aqui era bonito. O lago…
Ela seguiu falando, mas a atenção do Perpétuo sobre ela era dúbia. Morpheus não podia fazer mais nada por ela, nada além do que ela pedisse. Por mais que isso já fosse um fato consolidado em seus pensamentos, não evitou se deixar afetar pela beleza agridoce da partida de Íris. E assim como tantos encerramentos de passeios de verão, uma chuva fina e repentina desceu sobre o parque no Sonhar, pegando todos de surpresa.
— Oh, não. Espero que seja só uma garoa.
— Não se preocupe. — Morpheus assegurou, na tentativa de também refrear seu emocional. — Vai passar.
Afinal, saíram da roda gigante e rumaram o mais rápido possível — dentro das condições físicas de Íris — até um gazebo, onde outras criaturas se abrigavam da chuva. Ficou apertado logo, com muito burburinho e uma variedade de risos e reclamações. Matthew não achou espaço para pousar e saiu voando de novo, não sem soltar um impropério alto. Foi obrigado a rodar mais três vezes no céu até ser confortável e conveniente empoleirar-se no ombro de Morpheus.
A festança se desvanecia e Íris também iria embora.
Ele não tinha o que dizer. O Rei dos Sonhos era eficiente em ilustrar mil ímpetos e símbolos em seu reino, mas mesmo Íris — que cuidava das palavras e debochava do tom formal de Morpheus — não parecia querer se estender em discursos ditos apenas para preencher o silêncio. A deusa agradou o ponto abaixo do bico de Matthew e ofereceu um sorriso vulnerável aos dois.
E era patético. Soava como se ela quisesse poupá-los do desconsolo de sua própria situação. Como quem queria enxergar o lado positivo, Íris afirmou:
— Ao menos entreguei duas mensagens minhas…Só minhas, sem artifícios de grandes coincidências. Agradeço. — Disse, sincera. Uma mensagem para juntar dois corações; outra para aquietar uma alma quase insone. — Foi um prazer ver todas essas luzes. E também te conhecer, Matthew. Até a última vez, Morpheus.
Depois que ela se foi, novamente sem anunciar seu retorno, a chuva engrossou no Sonhar e durou madrugada adentro. O parque, os brinquedos e barracas dissolveram-se em areia que escorreu rápido em direção ao lago, tornando-se parte dele.
Lucienne e Matthew entendiam que a chuva não era somente uma chuva. Até Mervyn compreendia tal fato, por mais que só comentasse no dia seguinte que afinal não sobrara tanta sujeira assim para limpar da festa.
Quando Morpheus direcionou-se naquela estranha praia onde criava novos Sonhos e Pesadelos, encontrou um deles pela metade. Era aquele Pesadelo que vinha adiando a conclusão há semanas, tanto por não ter espírito para lidar com suas criações quanto por manter a cautela de não errar mais uma vez. Ao vê-lo, não teve mais dúvidas: o desfez, tornando tudo aquilo areia de novo. Lembrava-se da primeira conversa com Íris, sobre ser mais fácil criar Sonhos ou Pesadelos. Se antes respondera que cada um tinha suas particularidades, depois notou que sua imaginação — quando para criar coisas para si — era mais imediata para Pesadelos e tragédias, não sonhos. Ainda assim, ainda que moldar tais criaturas oníricas fosse sua razão de existir, não poderia concluir sua criação naquele instante e nem num futuro muito próximo. Para a angústia que ele sentia, não havia forma.
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