Hiraeth
1 Um sussurro para si mesma

Havia noites em que as estrelas coalhavam o céu. Na imensidão escura era possível ver o caminho dos Deuses, envolto numa névoa luminosa, e a lua até ficava pálida diante de tanto brilho ao seu redor.
Mas ainda brilhava. Mesmo nas noites dos Deuses, a lua jamais se apagaria.
Aquela noite não era uma delas. Da ravina, de chão batido e gramado ralo, ainda se via o céu estrelado, porém sua escuridão era profunda. Nessas noites, apenas a lua resplandecia vigorosa sobre a floresta.
Uma coruja piou ao longe, em meio às árvores. A moça ergueu o olhar, escutando o som. Ele se alteou por um momento antes de sumir na penumbra.
— Parece gente– murmurou. – Choro de gente.
— Parece– a garota ao pé da fogueira respondeu.
Com um galho longo ela remexia na madeira em brasas. A moça sentou ao seu lado. Pegou uma coberta junto às bagagens e jogou sobre os ombros da mais nova, e pegou uma para si. Era de juta macia e bem trançada, e aquecia o corpo rapidamente.
A garota estendeu a mão para um gancho de ferro sobre o fogo, de onde pendia uma chaleira de metal. Com um pano ela segurou a alça da panela, despejando um caldo espesso e de bom aroma dentro de pequenos vasos de argila, que a moça lhe estendeu. As duas então se puseram a beber em silêncio. Só se ouvia o crepitar das chamas, e o pio distante de algum pássaro noturno.
Havia outros sons também. Sons que elas podiam ouvir, como os passos furtivos dos predadores, filhos da floresta. Aquele som era o prenúncio da luta desesperada pela vida, e da morte violenta e inevitável.
Elas continuaram a tomar o caldo em silêncio.
O primeiro par de olhos luminosos brotou na escuridão, ameaçador como era de se esperar. Por trás dele, outros pares foram surgindo e, à medida que avançavam, o clarão da fogueira e da lua revelava suas formas altivas e robustas. Presas e garras à mostra, a premente sede de sangue. Tudo neles era um misto de cautela e voracidade. A muito custo, pareciam se conter para não pularem em cima das duas saborosas caças.
O fogo os mantinha em alerta, a princípio. Um deles se aproximou do calor das chamas, e então parou.
Um par de olhos amarelados e luminosos se fixou nos deles, exercendo uma repulsão quase magnética. O animal se viu forçado a recuar alguns passos, para junto de seus companheiros, visivelmente perturbado.
A garota de olhos azuis encarava-os sem medo. Seus lábios não sabiam o que era sorrir, o rosto jovem era uma máscara de fria e calma indiferença.
Então a moça falou. Algo que só eles, os lobos da floresta, poderiam entender.
“Se voltarem aqui, vou estraçalhar e queimar vocês.”
Os lobos eram soberanos da floresta, mas reconheciam o poder do homem. Não os atacariam se não estivessem em bom número, a presa parecesse indefesa e não houvesse nenhuma caça mais fácil à vista. Pois o homem manipulava os seres vivos e não vivos da floresta. Dominava o fogo, aquela criatura assustadora com a qual nenhum animal sabia lidar. O homem usava armas feitas da floresta e morava em casas feitas da floresta.
E agora, os lobos descobriam que aquela fêmea do homem também sabia a língua dos lobos. A língua que apenas eles conheciam e usavam. Mais que uma divindade, aquela humana era algo sagrado demais para sequer existir.
Acuados, desnorteados, eles se recolheram de volta às sombras.
E durante a noite, zelaram para que nenhum outro predador se aproximasse da Clareira da Deusa.
— Eles se impressionam fácil– a moça observou. – Bom pra nós.
— Sim– a garota esvaziou sua tigela, indiferente.
— Eu já estava na planície havia dois dias. A caça era ruim naqueles lados, mas era ainda mais difícil topar com lobos ou raposas. Eu tinha acabado de me casar e minha mulher devia estar mais perigosa que alguma fera dos bosques, mas eu não tinha escolha a não ser deixar ela sozinha. Estávamos com fome. Toda a vila estava com fome.
O homem virou a caneca de cerveja. Tinha mãos trêmulas, embora seu semblante se mostrasse firme. Talvez aquela firmeza fosse apenas aparente.
— Então eu vi. A corça de pelos dourados. Era bonita, mas acima de tudo, tinha carne. Era uma caça, uma boa caça, aquilo que eu vinha esperando por dias. Nada de gansos ou faisões, nem mesmo um urso ameaçador. O animal mais parecido com alimento que eu pude encontrar foi aquela. E então, peguei a espingarda e me joguei atrás dela. A planície podia ser seu território, mas era meu também. Sabia pra onde levar o bicho. Sabia como encurralá-lo.
Uma velha que passava entre as mesas com a bandeja de canecas parou para ouvir. Então deixou uma última caneca numa mesa próxima e veio se juntar ao homem. Sentou ao lado dele, escutando atentamente.
— Eu disparei. E por Deus, eu juro que o animal não se moveu quando eu o acuei. Parecia só estar esperando. Havia algo naqueles olhos redondos e escuros que eu reconhecia de algum lugar, mas não pensei muito nisso. Naquele momento, só me interessava apanhar a caça e ir embora. E então...
A moça havia prendido a respiração, sem perceber. Ao seu lado a garota escutava, o queixo apoiado sobre a mão.
— A coisa começou a se transformar. Bem diante dos meus olhos... Vocês entendem isso? Ás vezes você vê uma coisa de longe e imagina ela de um jeito, mas quando vai se aproximando, percebe que era algo completamente diferente. Como um cipó numa árvore que parecia uma cobra. Ou uma marca na madeira parecendo o rosto de uma pessoa. Mas a corça foi diferente. Eu vi quando ela mudou. Enquanto descia a colina e chegava perto, eu via as patas encolhendo, o corpo diminuindo, a pelagem dourada desaparecendo. Eu vi aquela coisa se transformar na minha mulher. Caída no chão, nua, o tiro no coração jorrando sangue.
— Meu Deus– a moça sussurrou.
— Ela estava morta? –indagou a garota.
— Estava morrendo. Eu a apanhei nos braços, sem saber o que pensar. Atordoado. Quando olhei em seus olhos, me convenci de que aquilo não era um pesadelo. Os olhos eram os mesmos do corça. Tudo o que fui capaz de dizer foi “por quê?”. E tudo que ela conseguiu responder foi “eu não suportava mais”.
A garota se recostou na cadeira. –Então, ela morreu?
— Sim– o homem tomou um grande gole de cerveja. Parecia menos tenso, agora que terminava sua história. – Eu enterrei o corpo dela na floresta. Deixei pra trás a vila onde morávamos. Já se passaram vários anos desde então, mas até hoje não entendo o que aconteceu. Até hoje, sou assombrado por isso.
— Por culpa sua, claro – a velha tomou a palavra de repente, fazendo todos voltarem-se para ela. – Achou mesmo que sua mulher tinha uma resposta pronta pra lhe dar, nos últimos segundos de vida dela? E ainda mais, uma resposta a uma pergunta tão vaga. “Por que”... Por que o quê, homem? Por que ela se transformou? Por que ela deixou que você a matasse? Por que escondeu a verdade? É tão vago quanto responder ‘eu não suportava mais’. A fome? O casamento? A condição de meio-humana dela?
— Meio-humana? –A garota ergueu uma sobrancelha.
— É isso o que eles são. Ou pelo menos, como meu povo costumava chamar. Gente assim existe desde tempos antigos... Se você acredita mesmo nessas histórias.
— Eu vi com meus próprios olhos– o homem comentou amargo. –Não tenho do que duvidar. Se quiserem acreditar, ou não, é problema de vocês.
A moça encarou-o indecisa. Parecia prestes a falar algo, quando a mais nova irrompeu.
— Eu acredito. Você não parece ser um homem em paz consigo mesmo. E acho que nunca vai ser.
Falou num tom neutro, quase entediado. Aquilo poderia ter soado como uma ofensa, se o homem já não tivesse conversado mais cedo com a garota, e não soubesse que aquele era seu tom habitual de falar.
— Também acho– disse por fim, esvaziando sua caneca. Levantou-se da mesa, anunciando que estava indo para casa.
— Obrigada por nos contar sua história– a moça disse.
Ele virou-se para as duas. – Obrigado por me ouvirem.
Ficaram observando enquanto ele apanhava o chapéu e o casaco, e deixava a taverna. A velha lançou-lhe um olhar de desdém.
— Qualquer dia desses, ele vai dar um tiro na própria cabeça. Me admira que ainda não tenha feito... Mas vocês viram o estado do homem. Ele está nas últimas.
A moça pareceu ligeiramente chocada com a constatação dela, mas a garota não reagiu. Em vez disso, debruçou-se sobre a mesa novamente, se aproximando da velha.
— E esses meio-humanos? Sabe mais alguma coisa deles?
— Ora, o que há pra se saber? São meio humanos, meio alguma outra coisa. Até hoje só ouvi falar de animais. Por sinal... – ela ergueu os olhos rodeados de rugas, num ar pensativo. – Lobisomens eram as criaturas mais comentadas, até pouco tempo atrás.
— Lobisomens? Mas esses não são monstros?
— E não são metade humanos também? Além do mais, você não viveu o mesmo tanto que eu, pirralha. Iria se admirar com os atos cometidos por seres que se dizem ‘humanos’...
Ela deu um risinho desdentado ao levantar da mesa e voltou ao trabalho.
Mais tarde, num dos quartos no andar de cima da taverna, a moça fitava a lua da janela. Seu rosto, ao contrário do da garota, era um constante espelho de suas próprias emoções. Sabia sorrir e chorar, mostrar preocupação ou curiosidade, emanar calma ou desespero.
Só não sabia esconder nada disso.
— A velha não sabe a diferença– a garota murmurou. Estava na outra cama, fazendo anotações num caderno, sob a luz de uma lamparina. – Se ela não sabe, o povo dela não deve saber muita coisa. Continuar aqui é inútil.
— O que vamos fazer? – a moça voltou-se para ela, sentando-se na cama.
— Seguir a pista do homem. A vila onde ele morava é ao norte daqui. Se um deles vivia naquela região, é provável que existam outros.
— E é provável que haja lobisomens.
Não só o seu rosto, mas sua voz também traía o medo que sentia. A garota fechou o caderno e apagou a lamparina.
— Melhor assim– disse num suspiro, acomodando-se na cama entre os lençóis. –Dois coelhos... Não é o que diz aquele ditado?
— É...
— Acha que pode dar conta?
— Claro.
A moça imitou a garota, fechando a janela antes de se acomodar para dormir. Na escuridão ela se encolheu, imagens terríveis da corça-mulher coberta de sangue passando por sua imaginação fértil.
— Queria que a mamãe estivesse aqui– murmurou.
Foi um sussurro para si mesma. Mas a garota não deixou de ouvir, deixando escapar um novo suspiro.
— Eu também.
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A estrada parecia não ter fim.
Já fazia tempo. A moça contava quatro anos, mas talvez fosse até mais. Seus cabelos estavam longos,indo além da cintura. Às vezes durante a caminhada ela olhava para trás. Imaginava quantas milhas havia percorrido, quanto tempo a separava de casa.
Florestas, bosques, tavernas em vilarejos desconhecidos. Aqueles eram seus lares, e quase nunca por mais de uma noite.
A garota, por sua vez, tinha seus olhos muito azuis fixos no horizonte. Sempre à frente, nunca olhando para trás. Havia crescido muito rápido e agora estava até mais alta que a moça. Os cabelos, mais claros que os dela e ondulados, também já iam abaixo da cintura. Sempre à frente, e a moça a seguia.
A paisagem mudava constantemente. Apenas os cabelos louros e a mochila de mantimentos eram os mesmos. E a moça seguia a garota, porque era só o que havia a se fazer.
O sol brilhava sobre a campina, o calor acariciando o gramado e os arbustos. Ali perto um córrego cristalino dividia uma colina em duas. A garota e a moça pararam e montaram acampamento.
No campo aberto não se via animais, nem predadores nem caça. A garota ainda tinha um pouco de carne seca que conseguiram numa aldeia dias atrás. Ela foi buscar gravetos para uma fogueira, enquanto a moça ia pegar água no córrego.
Ao chegar à margem ela parou, os cantis de couro pendendo de suas mãos. Fazia tempos que não via algo tão bonito. O largo fio d’água corria num murmúrio calmo, o céu refletido na superfície. Era como um pequeno rio de ouro percorrendo o infinito. Ela sentou-se nas pedras e ficou um longo tempo admirando o córrego. Então, tirou as botas, ergueu a saia do vestido e mergulhou os pés na água.
O frio a fez estremecer e soltar um riso involuntário. Aos poucos ela se acostumou com a sensação; deixou os cantis na margem e levantou-se, atravessando a pequena corrente gelada, que lhe cobria quase até os joelhos.
— O que está fazendo aí? –a garota exclamou lá de cima. Tinha uma bacia numa das mãos, e não parecia muito bem humorada.
— Essa água é ótima– a moça lhe sorriu.
— Que bom. Encha os cantis e venha.
— Por que não entra?
— O quê? –a garota sibilou. Parecia ter ouvido um grande absurdo.
— Seus pés devem estar tão cansados quanto os meus. Entre na água um pouco.
Ela franziu as sobrancelhas, considerou a proposta teimosamente, mas afinal deixou a bacia de carne junto com os cantis. Tirou as botas e suspendeu o vestido, aproximando o pequeno pé da superfície.
— Cuidado, a água está...
Antes que a moça completasse a frase, a garota mergulhou o pé na água gelada. O susto a fez puxá-lo para trás. Ela perdeu o equilíbrio e caiu em cima das botas.
A moça não conteve um riso, mas se apressou em ajudá-la a se levantar. Depois daquilo, o humor da garota parecia ter piorado.
— Que coisa estúpida– resmungou, sacudindo a terra do vestido. –Vamos pegar a água e ir embora logo.
— Tão rabugenta– a moça cantarolou. Pegou um dos cantis e sentou-se na margem, os pés ainda dentro da água. –Ás vezes me pergunto quem é a mais velha aqui.
— Se idade quer dizer inteligência, você não é tão velha assim– ela replicou azedamente.
A moça apenas riu outra vez. Pôs a boca do cantil debaixo d’água, contra a correnteza, e esperou o recipiente encher.
Estava bem disposta. O sol brilhava como poucas vezes o fazia naquela região, o vento soprava nos morros verdes e a água era pura e boa. Mesmo a garota parecia estar bem, embora não demonstrasse. Ela não costumava revelar o que se passava em sua mente. Mas a moça a conhecia o bastante para saber.
No campo aberto, a noite estava tão inundada de estrelas que a lua havia se escondido, ofuscada. A pequena fogueira já ia pelo fim. Junto a um arbusto a garota estava deitada, a coberta de juta sobre o corpo, enquanto fazia suas anotações costumeiras. Perto dela, a moça apenas contemplava a noite, ouvindo os ruídos que vinham da mata logo adiante, depois do córrego.
Lembrava de ver o caminho dos Deuses quando ainda era menina. Imaginava se não poderia conhecê-lo algum dia, mas sua mãe tratou logo de desfazer suas ilusões. Andar pelo céu era algo que só podia fazer em sonhos, ou como sempre, em sua imaginação.
A garota virou o rosto para ela. A moça estava cantando. Era uma cantiga que ouvia seu pai tocar no violão de vez em quando. Triste e bonita. A voz da moça, grave e musical, se erguia melancólica sobre a noite. Logo a voz da garota a acompanhou, rouca e etérea, quase um eco mais ressonante.
Não havia ninguém por perto, mas se houvesse, decerto não seria capaz de esconder seu encantamento.
A moça deixou os últimos acordes morrerem entre os lábios, e então deitou-se de lado, os olhos fixos na fogueira.
— Sabe o que seria bom agora? –indagou.
— Um jantar decente– a garota respondeu, voltando ao caderno.
— Além disso... Um teto sobre nossas cabeças. Sinto falta disso.
— Temos isso às vezes.
— Estou falando de termos isso por um pouco mais de tempo. – Ela encarou a mais nova, hesitante. – Parar de viajar. Ficar em algum lugar por um tempo maior que uma noite.
A garota moveu apenas os olhos na direção dela. –Vamos parar quando for a hora de parar.
— Eu sei. Só queria que essa hora chegasse logo.
Ela não respondeu, e a moça ficou em silêncio. Olhou para o céu mais uma vez, pensando se o caminho do Deuses seria tão longo como aquele que elas percorriam.
Acordou no meio da noite, com o pé da garota empurrando de leve sua cabeça. Ela se ergueu sobre os cotovelos, esfregou os olhos. Na pouca claridade que as brasas da fogueira ofereciam, viu a garota de pé ao seu lado.
— Escute– sussurrou.
Não precisava ter falado. A moça acabara de ouvir. Um longo uivo, ecoando pelas campinas, carregado de ameaça. Uma criatura da noite estava caçando.
E as duas mulheres eram a caça.
— De onde vem? –a garota indagou.
— Espere– a moça murmurou, tentando conter o nervosismo.– A leste, vindo para cá. Vindo muito rápido.
— Quantos?
— Um só.
— Certo– a garota engoliu em seco. A moça podia ver o medo nos olhos dela. –Vamos nos afastar então. A mata depois do córrego. Ficamos a frente dele o máximo possível, até o sol nascer. Vai levar pelo menos duas horas.
— O que vamos fazer?
— Deixar tudo aqui. Temos que ir leves.
A moça se pôs de pé, a tempo de ver a garota tirar as botas e o vestido, ficando apenas com uma camisola fina. Olhou para a mais velha e então para si mesma, franzindo a testa. – Consegue me levar?
— Sim– a moça começou a se despir, atirando as roupas no chão. –Reev... Eu posso cuidar dele. Prometa que vai ficar afastada, e em segurança.
A garota crispou os lábios e assentiu. Fazia tempo que não era chamada por seu apelido de infância.
— Tudo bem, Gee– respondeu.
A moça lhe lançou um olhar preocupado, antes de dar um passo à frente. Fechou os olhos e suspirou fundo, o vento lhe arrepiando a pele desabrigada.
E então, a mesma pele nua e alva escureceu. Forrou-se de pelos longos, grossos e cinzentos. Os olhos castanhos brilharam num tom amarelo, as pupilas estreitaram-se. Ela caiu no chão, de quatro, seu tronco se retorcendo por dentro, diminuindo e moldando-se numa nova forma. Braços e pernas encurtaram-se, as articulações viraram do avesso, mãos e pés encolhendo e projetando longas garras.
Sua garganta emitia pequenos sons abafados de dor, até que sua voz não passasse de ganidos baixos e inumanos, saindo por entre seus dentes afiados.
Era uma perfeita loba, de porte grande e robusto e pelagem cinza escura. Assim que a transformação se deu por completo, a garota montou em suas costas e ela se pôs a correr. Saltaram pelo córrego, subiram a colina e atravessaram os campos. Quando cruzaram a mata, a loba cinzenta virou a cabeça para trás, seus olhos confirmando o que seus ouvidos já sabiam.
O lobisomem acabava de alcançar os arbustos onde, instantes atrás, elas tinham dormido.
Diferente delas, o lobisomem não parecia completamente um animal. Era uma criatura grotesca, mista de humano e fera, resultando numa besta selvagem. Corria em saltos, com mãos e pés sobre o chão, mas podia andar como um homem. Todo o seu corpo era híbrido das duas espécies: membros musculosos que terminavam em grandes mãos e pés, com longas garras dotadas de um poder assassino admirável. Mesmo sua cabeça ainda lembrava a de um humano, embora possuísse um focinho longo e, logo abaixo, fileiras de dentes mais aterradores que os de um lobo comum.
Era aquela criatura, de força descomunal e ardente sede de sangue, que se dirigia para as matas. Vinha no encalço da loba, que mesmo a alguns quilômetros de distância, podia sentir seu odor e sua presença nefasta.
A loba percorreu um extenso trecho da floresta, desviando dos troncos de árvores e mergulhando dentro de arbustos e espinheiros. A garota não tinha pelagem para proteger seus braços e pernas e estava toda arranhada e cortada, mas mal sentia os galhos lhe açoitando o corpo. A adrenalina gelava o sangue em suas veias, o cabelo louro voava às suas costas. E a loba corria mata adentro, desesperada.
Elas alcançaram uma parte do terreno onde ele se tornava íngreme. Folhas mortas tornavam o solo escorregadio, e uma sombra se projetava mais a frente. Estavam subindo uma montanha.
A loba parou e a garota desceu de suas costas. Ficaram em silêncio, tentando ouvir sinais da criatura. Naquela região os animais noturnos eram mais barulhentos, o que dificultava o intento delas. A loba então apontou com a cabeça para uma árvore alta próxima dali, e a garota entendeu.
Tinha que se proteger.
— Não faça nada de precipitado– pediu num sussurro. A loba pareceu lhe pedir a mesma coisa com o olhar. A menina suspirou fundo e escalou a árvore.
Havia chegado ao topo em um par de segundos, quando ouviu as passadas rápidas e pesadas da fera. A loba já estava a postos, os pelos eriçados, narinas dilatadas, presas à mostra. Quando a coisa surgiu entre as árvores ela não esperou antes de pular sobre ela. Já tinha lutado com diversas daquelas criaturas para saber que um segundo de hesitação podia significar sua morte. Seus músculos tensionados saltaram como molas, e num rugido furioso ela cravou seus dentes no pescoço do lobisomem.
A garota ouvia os uivos roucos de dor, o resfolegar dos lutadores, galhos partindo-se enquanto eles se separavam e se chocavam em fúria, com presas e garras. Era impossível ver algo no breu da noite, mas os barulhos eram violentos o bastante para lhe informar quem estava levando a melhor. A loba, implacável, não hesitava em ferir o monstro a cada vez que pulava sobre ele, rasgando pedaços de sua carne num som úmido e aterrador. Mas ela respirava cada vez mais pesadamente. Estava cansada. A criatura era maior e mais forte, por mais desajeitada que fosse.
Um golpe mais pesado e um ganido agudo de dor, e a garota sabia que a loba estava em perigo. Ouviu-a recuar e começar a correr para longe, pelo caminho que elas tinham usado para chegar ali. Não podia fazer isso, pensou. Se o lobisomem fosse o perseguidor e ela estivesse gravemente ferida, estava acabado para ela. Do alto da árvore, ouvindo os dois se afastarem para cada vez mais longe, ela se debateu em agonia.
Era diferente da moça. Uma criança frágil e sem nada especial que pudesse usar para se defender. Como poderia ajudá-la?
Não posso deixá-la morrer.
É a minha irmã.
Ela tomou sua decisão, e desceu da árvore.
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