Hiraeth

2 Aqueles que mudam


A neblina flutuava por baixo da copa das árvores, mergulhando os troncos num mar de névoa leitosa. Acima dos galhos o céu clareava, perdendo o negro e ganhando tons escuros de azul.

Os cavalos chegavam a uma região da floresta onde os troncos cresciam muito juntos uns dos outros e a inclinação do terreno se acentuava , dificultando o acesso dos animais. Reyne Irving fez sinal para o companheiro, Severin Proctor, e ambos apearam junto a uma das árvores. Então Reyne tirou uma sacola de couro do ombro e jogou sobre a sela do seu cavalo. Deu um tapinha de leve no lombo dele.

— Tem forças pra subir, Tasunke? –indagou, apontado com o queixo para a trilha pela montanha.

O animal refugou e sacudiu a cabeça negra e luzidia. Deu as costas e trotou para trás de um grupo de árvores próximo dali.

Severin terminou de prender o seu cavalo à árvore e se pôs ao lado de Reyne, que observava adiante. Parecia um pouco desconfortável, Reyne notou. O rapaz limpou a garganta e cruzou os braços, tentando disfarçar a inquietude.

— Eu não me incomodo– disse, olhando para as árvores onde o cavalo havia se escondido. Por trás dela, sons altos de grunhidos e estalos ressoavam dolorosos.

— Sei que não– Reyne respondeu impassível, sem encará-lo. –Mas preferimos não fazer na frente de vocês. Não somos um espetáculo.

— Claro que não!– Severin descruzou os braços e voltou-se para ele, ansioso. –Nunca vi vocês desse modo.

Reyne o analisou por um momento. O rapaz tinha olhos simples, diretos e honestos. Estava constantemente tentando provar a Reyne que era uma pessoa confiável.

E ele tinha sua confiança. Mas preferia que Severin não soubesse.

— Vamos – uma voz possante ecoou do outro lado das árvores.

Era um homem de compleição alta e robusta, pele acobreada e longos cabelos negros. Usava calças e botas e um casaco de couro velho. A sacola que Reyne havia deixado com o cavalo estava em suas mãos agora.

— Devia ter trazido sua arma– Reyne comentou quando o homem se juntou a eles.

— Você tem arma– ele respondeu bruscamente. – E faro bom. E moleque que ajuda.

Severin encolheu os ombros. – Já sou de maior faz um tempo, senhor Tasunke.

— Bom pra você.

Ele seguiu na frente, a passos pesados. Reyne pegou uma espingarda e empurrou-a no peito de Severin. –Vamos andando, ajudante.

O jovem estalou a língua num ruído baixo e impaciente. Apanhou a arma e foi atrás dos homens, que já seguiam a trilha da montanha.

Alguns pássaros começavam a cantar . A neblina se dissipava, repousando em gotas sobre folhas e pedras. Reyne aspirou o ar profundamente e torceu o nariz. Havia algo errado naquele lugar.

Tasunke o encarava à espera. Severin, que vinha bem atrás, juntou-se a eles. Haviam acabado de cruzar o outro lado da montanha, e a floresta se estendia por alguns quilômetros abaixo deles, até alcançar as colinas ao longe.

— Alguma coisa– Reyne sussurrou. Colocou a espingarda a postos, e Severin fez o mesmo. Respirou outra vez, certificando-se do que era, e então baixou a arma.

— Guarde isso– disse ao jovem, que recolheu a espingarda. –É um dos nossos.

— Quem? –indagou Tasunke.

— Não sei. Eles cheiram parecido. Mas tenho quase certeza de que é Ceren.

O homem grande praguejou em sua voz estrondosa. Severin franziu o cenho, observando Reyne pressionar os dedos entre os lábios, soltando um agudo assovio.

— Ceren? – Severin olhou para Tasunke sem entender.

— Menina sabe que não se brinca longe de vila– ele resmungou. – Homem vê, pensa que é caça. Irmão meu morreu assim.

Um galope suave ressoou à medida que ela se aproximava. Era uma corça pequena, de pelagem escura e grandes olhos castanhos. Ao ver Reyne ela diminuiu a velocidade e baixou a cabeça, temerosa.

— Devia ter medo do seu pai, não de mim– ele ameaçou. – Volte já pra casa.

Ceren ergueu a cabeça e a moveu para trás. Olhou para os homens novamente, e então deu-lhes as costas, trotando devagar como se os aguardasse.

— Ela deve ter encontrado alguma coisa– Severin disse.

— Não era nem pra ela estar aqui fora–Reyne bufou. –Ainda mais depois dessa noite.

Seguindo a trilha da corça, eles continuaram a descer a montanha. Ela se movia com destreza no terreno íngreme e irregular, enquanto os homens se apoiavam em pedras e raízes da encosta para não caírem. A névoa se condensava nos rostos aquecidos pelo esforço.

Reyne estava sempre examinando o ar ao seu redor com atenção. Era pouco provável que um caçador estivesse a espreita num lugar tão distante, mas havia uma criança com eles agora, e todo cuidado era pouco.

Seu faro identificou um odor novo no ar, e a expressão em seu rosto tornou-se sombria.

Sangue morto.

— Aconteceu luta aqui– Tasunke disse ao passarem por um trecho do caminho.

Havia galhos e arbustos retorcidos no chão, as folhas secas remexidas de forma estranha. Marcas de garras cortavam os troncos ao redor.

— Que bicho faz isso– Severin passou os dedos pela marca numa das árvores, assombrado. –Urso?

— Não tem cheiro de urso.

Reyne reparou no sangue que salpicava as folhas, nas pegadas impressas no solo úmido. Um animal grande e pesado, e outro menor, sobre quatro patas. Todos providos de garras.

— Vamos andando – Ele voltou-se para Ceren, que já ia bem à frente, e os companheiros o seguiram.

Chegaram a uma região pedregosa, onde as árvores eram mais escassas. Ceren pulou sobre uma formação rochosa e sumiu de vista. Os homens apoiaram-se nas pedras e desceram com cuidado.

— Santo Deus– Severin exclamou.

Sobre as folhas mortas, havia um homem morto.

Parecia ter se arrastado até as pedras antes de sucumbir. Lacerações abriam suas costas e membros, e uma mancha enegrecia as folhas e a terra ao seu redor. Estava dobrado sobre o próprio estômago, e partes de suas vísceras pendiam do corpo sem vida.

Ceren pateou o chão, chamando a atenção dos homens, e seguiu descendo pelo caminho.

— O que mais será que ela achou? –Severin sussurrou, trêmulo. A visão das vísceras expostas fazia as suas próprias se revirarem.

Quilômetros abaixo o terreno se tornou plano. O sol lutava para vencer as nuvens, e um dia cinzento ia despontando no horizonte. Mau sinal, pensou Reyne. O dia anterior foi limpo e ensolarado. Ele não era dado a superstições, mas às vezes tinha que admitir que não dava para ignorá-las.

Ceren os conduziu através do limiar da floresta, para a planície de onde ela despontava. Reyne não imaginava que ela houvesse caminhado até tão longe. Passando por várias colinas eles vislumbraram um córrego, e pouco mais adiante, um fio de fumaça erguendo-se fracamente de trás de alguns arbustos.

A corça galopou com urgência, e os homens a seguiram correndo. Atravessaram o córrego gelado, e Reyne percebeu uma nova trilha de sangue, indo da margem até os arbustos.

Ceren rodeava as cinzas da fogueira, observando nervosa as duas pessoas caídas sobre mantas ensanguentadas. Reyne e os outros se agacharam para examiná-las com cuidado.

— Estão vivas – disse Tasunke. – Mas por pouco.

Reyne ergueu a coberta da menor, aparentemente uma criança. Era uma menina, usando uma camisola fina e esfarrapada, o corpo cheio de ferimentos. Nada parecia grave, apesar do sangue. Sobre ela estava passado o braço da companheira, uma mulher mais velha, cuja coberta era a mais escurecida das duas. Sua tez era quase transparente de tão pálida, mas ela ainda respirava. Ele olhou para a corça, e então tirou o casaco que vestia, jogando-o por cima do lombo de Ceren.

— Vá mudar– disse. –Preciso que olhe os ferimentos dela.

Ela obedeceu e foi para trás dos arbustos. Momentos depois se ouviram estalos abafados. Reyne notou Severin apertar os olhos ao ouvir o ruído.

— Não muda – Tasunke murmurou, chamando a atenção dele.

O homem tinha a mão pequena e branca como cera sobre a sua, grande e acobreada. Reyne examinou demoradamente o dedo mínimo dela, depois o outro. Então assentiu em concordância.

Severin olhava para os dois, sem entender nada.

— A garota não é uma de nós– Reyne explicou. –Veja o mindinho da mulher.

Ele analisou o dedo por alguns segundos. Notou que, diferente dos outros dedos, aquele possuía uma unha mais forte e grossa, e ligeiramente curva. Uma garra.

— Todos vocês têm isso? –ele perguntou assombrado.

— Todos não– Tasunke lhe estendeu o próprio dedo. A unha era grossa também, só que arredondada e enegrecida. –Casco de cavalo.

Quando Ceren saiu dos arbustos, a primeira coisa que Severin fez foi reparar na mão dela. Havia uma unha negra em seu dedo mínimo também – um casco de corça.

— Achei as duas ainda agora– a menina se aproximou do grupo, encolhida dentro do casaco de Reyne, onde caberiam mais duas dela. Os cabelos curtos eram escuros como o pelo da corça. –Ia avisar você quando me chamou.

— E o que você faz tão longe de casa? –Reyne indagou.

— Ouvi uma coisa estranha e vim ver o que era – ela respondeu displicente. Ergueu a coberta e examinou o corpo da mulher. –A moça tá nua.

— Por isso mandei você olhar. Como estão os ferimentos?

— Bem feios. Tem muito sangue. E acho que o braço dela quebrou, não devia ficar virado desse jeito. Ah, quebrou sim, tem um ossinho pra fora...

Severin olhou para Reyne e Tasunke. Não sabia como fariam para tratar aquelas mulheres, ou mesmo se conseguiriam.

Afinal, Tasunke levantou-se.

— Onde vai? –Reyne exclamou.

O homem seguia na direção do córrego – Morto na montanha. Enterrar.

Ele bufou impaciente. Deixou Severin e Ceren cuidando das duas e foi até o companheiro.

— O que é isso? –indagou, numa voz baixa e furiosa. – Sacrifício aos seus deuses? Algum tipo de proteção pra vila? Só não me diga que vai enterrar o homem porque ele não merece ser comido pelos animais.

— Mancha na montanha– ele sacudia a cabeça morena, irredutível. – Tem que enterrar.

— Tasunke, você sabe o que ele é. – Reyne falou com veemência. –Sabe o que ele fez.

— Homem é como nós. Homem só não conseguiu terminar caminho.

Ele respirou fundo. Então puxou Tasunke pelo braço.

— Não vamos perder tempo. Eu cavo uma cova, você faz uma maca pra transportar a mulher.

O homem olhou desconfiado para ele. –Isso não agrada Tasunke.

— Ora vamos– Reyne bufou. – Você nem pode cavar. O que vai usar, os cascos? Deixe isso comigo. Pode checar o túmulo se quiser depois, mas não esqueça que tem duas pessoas morrendo ali, agora mesmo.

O olhar de Tasunke se estreitou. – Reyne sabe... Menina não é como nós.

— É, eu sei– ele suspirou, apreensivo. –Nos preocupamos com isso quando chegarmos na aldeia.

A cova parecia funda o bastante. Reyne cavou no sopé da montanha, onde a terra era macia. Escalou o monte de areia para fora do buraco, sacudindo a terra de seu pelo alaranjado de raposa.

Só faltava colocar o morto lá dentro.

Ele respirou fundo e começou a mudar – as articulações voltando-se na direção contrária, a cauda encolhendo até sumir, o rosto comprido arredondando-se, orelhas descendo para as têmporas. As garras sumiram, e apenas um remanescente delas marcava o seu dedo mínimo.

Não lhe admirava que Severin não soubesse daquela pequena característica. Era o primeiro humano em séculos que descobria o segredo da vila, e todos faziam questão de deixá-lo no escuro o máximo que pudessem. Não por não confiarem no rapaz, mas porque o povo dele era bastante perigoso.

Depois que assumiu sua forma humana, Reyne vestiu-se e foi ao arbusto onde havia depositado o cadáver. Agora que o via de frente, percebia o quão violento tinha sido o combate. Agradeceu por Severin não ter visto todos os ferimentos do homem, ou o pobre coitado estaria vomitando até agora. Ele respirou fundo, apanhou o cadáver nos braços e o depositou na vala. Antes de cobri-lo com terra, ele observou seu aspecto por um momento.

O rosto dele era de um homem normal, embora ligeiramente peludo demais. Havia muita barba e quase não se via onde terminavam as sobrancelhas e começava o cabelo. De resto, era apenas um homem comum, enrugado e franzino.

Exceto por suas mãos peludas, cujos dez dedos terminavam em garras.

Notas finais
Obrigada às leitoras que estão ao menos acompanhando a história. Quanto a você que leu até aqui, meu muito obrigada também! Mas sabe, deixar review seria um win-win para nós dois. Você exercita sua capacidade de expressar sua opinião (sério, nem que seja com um 'amei, continua!') e eu recebo o feedback que preciso pra saber se está tudo bem continuar escrevendo como estou. Certo, estamos combinados? Uma review para ao menos mostrar que você existe já vai fazer meu dia, garanto :) Beijas e té maisinho :****