Hiraeth

3 O homem entre dois mundos


O Reverendo Edwards fechou o pesado livro diante dele, após o término do sermão do dia.

A congregação o assistia atentamente, mulheres nos bancos a esquerda do púlpito, homens à direita. Uma inquietação percorria os semblantes dos fiéis, como se algo estivesse fora de lugar ali. E o reverendo devia saber que esse algo era ele mesmo.

Fazia dois anos que Seymour Edwards e a esposa, sra. Claramay Edwards, desembarcavam na península do Novo Mundo. Eram jovens adultos, casados recentemente e cristãos liberais por assim dizer. A onda do Renascimento havia tomado as terras da Rainha, afetando até a religião com suas ideias novas e inspiradoras. E Severin Proctor, que escutava o sermão junto aos outros homens, sabia que 'novo' e 'inspirador' eram palavras que não tinham muito lugar na colônia puritana de Crestfallen.

Desde o sotaque estrangeiro e a aparência — que causava comoção entre as moças recatadas da colônia — até o modo como seus sermões eram aplicados, o Reverendo Edwards destoava totalmente dos antigos pregadores, severos e grandiloquentes, que através de palavras faziam os fiéis se sentirem a um passo de caírem nas chamas do Inferno, que crepitavam logo abaixo de seus pés. O novo reverendo era calmo, seguro em suas palavras, usando-as apenas para lembrar ao povo de que eles não passavam de seres humanos, falhos desde Adão e Eva, mas que se redimiam sempre a cada boa ação que realizavam. Atos, não palavras, eram a chave para a salvação, segundo ele.

Severin sabia que os habitantes mais antigos tinham opiniões divididas a respeito do novo reverendo. A maioria preferia o terror e a severidade, que afligiam a alma e afastavam o pecado; outros seguiam os mais jovens, que escutavam o sermão com fé renovada e saíam do culto um pouco mais aliviados de seus sofrimentos. As crianças ficavam quietas, os mendigos à porta prestavam atenção. Era um estilo novo de pregar a Palavra, era diferente e isso com certeza não tinha sido bem recebido pelos chefes paroquianos da capital. Mas até então, dois anos já haviam se passado sem nenhum incidente. Naquele dia o sermão estava terminado, o que significava que os fiéis podiam trocar algumas palavras entre si e com o reverendo, antes de voltarem às suas vidas comuns.

— Vai aparecer outro lobisomem? — Uma vozinha indagou do lado masculino, logo atrás de Severin, fazendo-o suspirar pesado.

Que Deus o perdoasse, mas aquele Joseph era uma peste.

Tinha apenas oito anos e uma curiosidade aguçada para tudo ao redor, inclusive aquilo que era inconveniente. Severin havia explicado aos habitantes, logo na manhã em que encontraram as garotas e o homem atrás das montanhas, que os uivos ouvidos durante a noite não passaram de uma briga entre lobos selvagens, cujos restos haviam sido devorados por outros animais. Mas o maldito Joseph queria detalhes. Tinha enfiado na cabeça que um lobisomem havia atacado naquela noite, e a pior parte era negar e esconder a verdade ao garoto.

— Nay— ele voltou-se para trás, encarando os olhinhos afiados num rosto redondo, um tanto malnutrido, do garoto que o perscrutava como uma pequena fuinha. — Assim como não apareceu em nenhuma outra noite. De onde você tirou essas histórias de lobisomem afinal?

— A sra. Olween falou pra mim. Ela nunca mente.

— Olween, a louca — ele crispou os lábios. Olween era uma velha pedinte, cujo adjetivo indicava exatamente como era vista no vilarejo. — Pois bem. Procure novas provas, e volte a falar comigo quando tiver algo confiável para comprovar sua teoria.

— Pode deixar, 'seu' Proctor — o menino exclamou, num tom que sugeria menos animação e mais ameaça.

Na saída ele cumprimentou o reverendo e a esposa, de quem havia se tornado um bom amigo, e um guia para os novos residentes através daquela nova terra. Apesar de ser mais jovem que Seymour, Severin tinha um olhar mais imparcial sobre Crestfallen e seu povo, além de ser o patrulheiro das montanhas e o único a se aventurar para os lados de Hiraeth, um vilarejo de índios, ex-colonos, imigrantes e escravos livres — mistura que os puritanos não viam com bons olhos e da qual preferiam manter distância.

— O pequeno Joseph continua a lhe perturbar — observou Claramay sorrindo. Sua fronte bela e gentil era uma recompensa para qualquer mau bocado que alguém viesse a passar.

— Como sempre, sra. Edwards — Severin confessou-lhe. — Me pergunto se Deus me desafiará dando-me um filho como essa criança algum dia.

— Ora, é apenas uma criança — o reverendo apaziguou-o. — Deixe que cresça e veja o quão belo e complicado é o mundo, e logo ele se tornará a mais tolerável das pessoas.

— Espero que isso não demore muito... Bom, devo me despedir agora. Reverendo, sra Edwards, foi um prazer.

— Vai até aquele vilarejo hoje? — A mulher perguntou-o.

Severin suspirou muito fundo outra vez, e forçou um sorriso educado. A última coisa que queria era que aquele gentil casal soubesse mais que o necessário sobre Hiraeth.

— Apenas patrulhar a floresta, como de costume — explicou. — Talvez algum mercador daquelas bandas apareça na estrada, mas acho difícil nesse tempo chuvoso. Em todo caso, tenham um bom dia.

Ele cumprimentou o casal, pôs o chapéu e deixou a igreja. Era meio-dia e a população já se encaminhava aos seus afazeres diligentemente. Severin atravessou uma rua estreita e chegou à cocheira, onde selou seu cavalo e montou. Achou por bem vestir a pesada capa de chuva, e em seu bolso, pôs um pequeno livro que o reverendo havia lhe recomendado.

Ao sair do vilarejo ele avistou de longe o cemitério, onde uma figura negra permanecia cabisbaixa diante de uma lápide. Mesmo à distância sabia quem era. Eustace Callaway, o reverendo anterior a Seymour.

Seus ombros eram estreitos, toda sua constituição a de um homem frágil e doente, embora nenhuma enfermidade o afligisse. Talvez apenas a perda do pai, e a frustração por saber que era incapaz de seguir os passos do Reverendo Callaway — seu pai, grande orador e ferrenho seguidor da Palavra. Eustace era bastante inteligente e um cristão fervoroso, mas não tinha o dom da palavra para ajudá-lo a exercer a missão que o pai lhe deixara. A sombra do falecido o perseguia, fazendo daquela uma doença da alma, que transparecia nas feições magras e na solidão constante do pobre rapaz. Era provável que ele continuasse ali o resto da tarde, mesmo quando a chuva caísse. Severin quis ao menos acenar para ele quando o cavalo passou pelo cemitério, mas duvidava que seria visto de qualquer forma.



A residência dos Irving era a mais afastada de Hiraeth, até onde Severin tinha conhecimento.

Ele nunca soube o motivo. No começo imaginou que a localização facilitasse o trabalho de Reyne de patrulhar a floresta; mas como o homem quase nunca se encontrava em casa, a questão continuava em aberto. O irmão de Reyne, Todd, havia saído a viagem fazia uma semana, de modo que a casa se encontrava vazia.

Exceto por Severin e as garotas adormecidas.

Honovi, mãe de Ceren, tinha voltado para a aldeia horas atrás. Esteve tratando dos ferimentos da menina, arranhões e cortes leves, e os da moça, cujo corpo estava quase completamente recuperado. Ainda não havia completado dois dias desde que as encontraram, e os ossos quebrados da moça já tinham se regenerado completamente.

Assombroso, ele pensava consigo mesmo. Estava lendo numa cadeira de balanço, ao lado da cama da moça, e vez ou outra erguia os olhos por cima de seu livro para espiá-la. Que habilidade fascinante. Pelo que Honovi tinha lhe contado, uma das costelas da moça havia se partido e perfurado o pulmão, e o outro lado do seu corpo tinha sido aberto por garras. Ele não chegou a ver, mas lembrava das marcas de garras nos troncos da floresta. Devia ter sido horrível. Fosse uma humana normal, a moça deveria estar mais que morta àquela hora.

E no entanto, ela respirava. O lençol sobre seu peito subia e descia vagarosamente, uma expressão serena no rosto. Era uma criatura abençoada, Severin pensou. E a menina, que não tinha a mesma habilidade, ao menos não se feriu seriamente. Deus era muito justo.

Ele suspirou e prosseguiu com sua leitura. Ficaria mais algumas horas até que Honovi voltasse. Estavam se revezando na vigília, já que Reyne não era dado a passar tanto tempo dentro de casa. Pelo que Severin soube, a aldeia estava em polvorosa com a possibilidade de uma nova habitante. Mas apenas Honovi tinha permissão de vir à casa, já que estava responsável pela recuperação das duas. A agitação das visitas, especialmente das crianças, poderia perturbar as enfermas e até piorar seu estado. Severin achava a decisão bastante sensata.

Aos poucos a luz da tarde fria morreu no céu. A chuva prometida não caíra, mas uma brisa enregelante entrava pela janela. Ele fechou-a e foi buscar uma lamparina para iluminar o recinto, e ao voltar, deparou com um vulto se erguendo da cama junto à cadeira.

A moça havia despertado.

Ele engoliu em seco. Não estava preparado para aquilo. Sabia, é claro, que alguma das duas acordaria em algum momento, mas não esperava que fosse justo em seu turno.

Honovi poderia cuidar melhor daquela situação. Mesmo Reyne, com toda sua rispidez, estava mais apto que ele. Mas era aquela sua realidade agora.

Em vez de se espreguiçar, bocejar ou esfregar os olhos, como geralmente alguém faria ao acordar de um longo sono, a primeira coisa que a moça fez foi buscar algo ao seu redor na penumbra, tateando pelo lençol até alcançar a cama próxima. Sua mão tocou o rosto da garota e seu peito, junto ao coração. Confirmando que a menor estava bem, deixou escapar um suspirou baixo. E então, seus olhos encontraram os de Severin.

— Tudo bem — ele ergueu a lamparina e a outra mão, mostrando não estar armado. — Vocês estão seguras... Não precisa ter medo.

Era apenas modo de dizer. Ela não tinha medo, disso Severin sabia. Quem deixou uma criatura no estado em que ele viu, não se intimidaria com um rapaz franzino como ele.

Os olhos dela eram redondos e atentos, perscrutando-o sem hostilidade, mas com bastante desconfiança. Ele decidiu tomar coragem e entrar no quarto. Pôs a lamparina sobre o criado-mudo e se dirigiu à cadeira, sob os olhos da moça.

— Sente-se melhor? — indagou num tom cordial. — Estava muito machucada quando a encontramos.

Ela então ergueu o braço diante do rosto, examinando as marcas que iam desaparecendo. Difícil acreditar que havia uma fratura exposta ali até poucas horas atrás. Seus dedos tocaram o lado do corpo e subiram para a garganta, e ela emitiu um grunhido rouco que terminou numa tosse. Severin apressou-se em lhe buscar um copo d'água.

— Bem- ela murmurou depois de beber vários goles. A voz saía estrangulada, mas ia se estabilizando aos poucos. — Estou bem.

— Que bom — o rapaz sorriu. — Fico mais tranquilo. Meu nome é Severin... Como você se chama?

Ela lhe entregou o copo e recostou-se na cama, parecendo cansada. — Georgiana.

— Georgiana — ele murmurou. Era um nome agradável aos seus ouvidos. — Deve estar confusa de acordar num lugar estranho, com uma pessoa estranha. Mas dou a minha palavra de que não estou aqui para lhe fazer nenhum tipo de mal.

Georgiana estreitou o olhar em sua direção por um momento. Então seus olhos relaxaram, abrindo-se grandes e escuros. Sob a luz da lamparina Severin conseguia divisar o rosto dela, circular e delicado. Sua expressão desconfiada esvaneceu, dando lugar a uma mais acolhedora. Por algum motivo Georgiana havia lhe julgado como alguém digno de confiança, e ele deveria fazer valer sua dignidade. Ela assentiu com a cabeça, permitindo que ele continuasse a falar.

— Estamos na orla de Hiraeth, um vilarejo a quilômetros daqui. Eu venho da vila de Crestfallen, que fica do lado oposto de Hiraeth, por trás das montanhas e junto ao litoral. Noites atrás, ouvimos

uivos e rugidos que não pareciam humanos nem de animais, vindos da floresta que cerca as montanhas. Eu e alguns companheiros de Hiraeth fomos investigar no dia seguinte e encontramos vocês, feridas... E um homem morto.

A moça estremeceu. Parecia agitada de repente, ansiosa com o que Severin poderia saber a respeito daquela história. — Como estava o homem, quando o encontraram?

— Eu não vi direito. — Imagens rápidas das entranhas despejando-se sobre as folhas mortas percorreram sua mente. — Mas lembro que era um homem bem peludo. E que tinha garras em seus dedos.

Georgiana abriu a boca e parou, sem saber o que dizer.

Severin imaginou que, caso ele não soubesse da natureza do homem, ela teria uma longa e inacreditável história a lhe contar.

— Era um lobisomem, certo? — Ele indagou.

Ela pressionou os lábios e assentiu, menos ansiosa. Severin percebeu que podia acalmá-la se mostrasse o quanto sabia do mundo dela.

Mesmo que fosse ainda tão pouco.

— Você o derrotou sozinha? Quando se transformam eles ficam bem grandes, pelo que ouvi falar.

— Eles não se transformam- Georgiana informou. — Ficam naquele estado sempre. Só voltam ao normal quando morrem.

— Mesmo...? O povo de Hiraeth me disse que alguns deles podem ser como vocês. Sabe... Podem se transformar quando querem. Só que eles não completam a transformação e permanecem como monstros, enquanto em Hiraeth os habitantes mudam para animais completos.

Ela arquejou. — Em Hiraeth... Eles mudam...?

— Sim — o rapaz sorriu. — Hiraeth é uma aldeia de transmorfos. É como chamam tecnicamente as pessoas como você. Lá eles só referem a si mesmos como 'pessoas que mudam'.

— Todos eles?

— Sim... Não é a toa que eles não me permitem ficar lá por muito tempo. Você vê, sou um humano comum. A orla do vilarejo ainda faz parte do território, então em breve eu terei de partir para não causar problemas...

Olhou para a enferma ao lado de Georgiana. — Aliás, a menina terá que fazer o mesmo, assim que acordar. Você a estava protegendo do lobisomem, certo?

— Ela é minha irmã — Georgiana olhou para o rosto da garota. Havia aflição em sua voz. — Como assim, ela deve partir?

— O povo de Hiraeth acredita que este território é sagrado. Lobisomens não podem atacá-los aqui. Mas para isso, apenas transmorfos devem permanecer neste local. Humanos não ficam aqui por mais que dois ou três dias, e essa é a conta que sua irmã já esteve... — Severin parou, confuso. — Você disse, sua irmã?

Georgiana assentiu e acariciou o pequeno rosto adormecido, sem parecer prestar muita atenção em Severin.

— Quer dizer, irmã adotiva, certo?- perguntou Severin. — Pelo que sei, transmorfos não geram filhos humanos. Eles sequer podem ter filhos se o animal para o qual eles... Mudam... Forem de espécies diferentes.

Uma luz se acendeu no rosto de Georgiana quando ela o encarou.

Aguda, atenta, instintiva.

— Ela é adotada. Mas ainda é minha irmã.

Seu tom seco, estranho numa voz tão melodiosa, pegou Severin de surpresa. Mas ele logo se recompôs. Era culpa sua, não devia ter se referido a um laço familiar com termos tão frios e técnicos. Além do mais, era óbvio que a garota, se fosse parente da moça, era adotada.

Era só uma menina humana afinal.

— Me desculpe — ele murmurou.

Havia mais a se dizer e ele sabia, ma as palavras tropeçavam umas nas outras antes que ele conseguisse expulsá-las. Tinha o péssimo hábito de corar e perder a fala quando sentia ter cometido um erro para com alguém, e aquela atitude era inaceitável diante de uma dama.

Ainda mais, diante de uma dama loba que podia rasgá-lo em tiras se assim o desejasse.

Mas aquele não era o desejo de Georgiana, Severin sentiu ao olhar de esguelha para a moça. Havia algo de maternal em seu pequeno sorriso , algo de quente e tranquilizador em sua voz.

— Tudo bem- disse.

E assim o rapaz percebeu que tudo, definitivamente tudo estava bem.

Notas finais
A você que leu, muito obrigada! Por favor deixe um comentário com sua opinião sobre a história ou qualquer coisa que queira dizer a respeito dela, desde já agradeço. Na época em que a história se passa, era comum as pessoas nas colônias dizerem 'aye' e 'nay' em vez de yes ou no. Eu podia ter simplesmente deixado o 'sim' e o 'não', mas assim como nas fanfics vemos honoríficos japoneses (-chan, -san), resolvi deixar desse jeito pra transmitir um pouco da atmosfera da época e do local. E pra quem reconheceu o carinha no banner, aye, é o Hugh Dancy! Escrevi o personagem de Severin Proctor pensando nele. Tem uma espécie de doçura no olhar dele que eu gosto muito, sem falar no resto... Enfim, fangirlismos à parte, espero que tenham gostado da escalação dele. Outros personagens foram feitos baseados em atores, vou mostrá-los um a um no decorrer da história. Enfim, é isso. O próximo não vai demorar muito a sair. Mas comentários aumentam minha criatividade e velocidade de escrita, falando sério! Colaborem e deixem reviews, acompanhem, favoritem, me apoiem como puderem. Beijas e té maisinho :*