Daylight
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Bella
Meu corpo inteiro vibrava, não de frio, mas de tudo o que eu estava sentindo e não conseguia organizar. Apoiei os cotovelos no colchão e me sentei, puxando o lençol até o peito para me cobrir.
— Não podemos — engoli em seco. — Não podemos simplesmente nos deixar levar assim.
Edward assentiu, como se já soubesse. Quando me cobri, ele entendeu o sinal e também se afastou um pouco, sentando quase beira da cama, ainda de frente para mim. Notei que a fivela do cinto estava aberta, mas não me lembrava exatamente de quando aquilo tinha acontecido.
— Você está certa. Não podemos.
— Então por que você não parou? — perguntei, quase num desafio.
Ele ergueu o rosto, os olhos encontrando os meus com uma honestidade brutal.
— Porque eu esperei muito tempo para poder te tocar de novo.
O impacto da frase me fez perder o fôlego.
Desci da cama, ainda com o lençol enrolado, e fiquei de pé diante dele. Edward levantou também e colocou as mãos na minha cintura, por cima do tecido.
— Nós precisamos conversar — eu disse, mesmo sem afastar as mãos. — Agora. Antes que isso vire outra coisa que a gente não consiga sustentar.
Ele fechou os olhos por um instante, encostando a testa na minha.
— Comece — pediu.
Respirei fundo.
— Se isso acontecer… — hesitei. — Se nós continuarmos nos aproximando, não é só sobre nós dois. E eu não posso fingir que não sei disso.
Edward abriu os olhos, passando o polegar pelo meu maxilar como se eu fosse frágil.
— Eu não quero que você finja nada — respondeu. — Só quero que você seja honesta comigo. Mesmo que doa.
Minhas mãos deslizaram pelos braços dele, um gesto automático, íntimo demais para quem dizia querer distância. Fechei os olhos por um instante, lutando contra a culpa que tentava se infiltrar, contra a voz que dizia que eu deveria parar.
— Fica comigo essa noite? — murmurei.
Edward soltou o ar como se tivesse prendido a respiração por anos. Quando me puxou para mais perto, nós apenas nos encaixamos. Meu rosto encontrou o espaço entre o pescoço e o ombro dele, e aquele cheiro — tão familiar que doeu — me fez fechar os olhos de novo.
Sem que eu conseguisse evitar, lágrimas escorreram e ensoparam a gola da camiseta dele.
Não era um choro barulhento, mas um desmoronar silencioso. Edward me apertou mais contra o peito, uma mão firme nas minhas costas, a outra no meu cabelo, e não disse nada. Não tentou consertar. Apenas ficou.
E, naquele gesto simples, algo em mim cedeu.
— Eu ainda amo você — confessei. — Mas eu não sei se é o suficiente para enfrentar tudo o que vem com isso.
Ele respirou fundo, como se aquelas palavras fossem tanto alívio quanto uma condenação.
— Amor nunca foi o problema entre nós, Bella — ele segurou minhas mãos, impedindo que eu me afastasse. — O problema sempre foi o medo.
Senti o peso da rejeição me cobrindo, como se fosse um cobertor pesado me sufocando em um dia de verão. Ele ia usar o medo como desculpa outra vez.
— E você tem medo agora? — perguntei.
Edward não respondeu de imediato e soltou minhas mãos apenas para passar os dedos pelo cabelo, inquieto.
— Tenho — admitiu. — Mas tenho mais medo de olhar para trás daqui a dez anos e perceber que perdi tudo de novo por causa desse medo.
As palavras dele se alojaram em mim como uma ferida aberta e o silêncio entre nós ainda era denso, mas diferente. Não era mais só o desejo nos guiando.
Aproximei-me e o beijei de novo, mas dessa vez sem pressa. Um beijo contido, consciente, carregado de tudo que ainda não sabíamos como resolver. Quando me afastei, mantive a testa encostada na dele.
— Isso muda tudo — sussurrei.
— Eu sei — ele respondeu. — Mas é necessário mudar.
Eu fechei os olhos, sentindo o peso daquela verdade. Ainda não havia resposta. Ainda não havia plano. Mas havia algo que eu não podia mais negar: nós não estávamos ali por acidente.
Edward apoiou a testa na minha e respirou fundo.
— Nós precisamos ser muito honestos daqui pra frente — ele disse, e eu não pude deixar de perceber a ironia naquelas palavras. Como ser honestos entre nós dois enquanto estivéssemos mentindo para o mundo todo?
Minhas mãos ainda estavam na camisa dele, os dedos marcando o tecido como se fosse uma boia de salvação.
— Eu não quero mais viver no modo sobrevivência — confessei — Não quero me esconder.
Ele abriu os olhos e me encarou com algo que parecia… esperança. Cautelosa, frágil, mas real.
— Podemos voltar para a sala? É difícil pensar direito com você assim — apontou para o lençol que eu ainda segurava junto ao corpo. — E estar com você em um quarto…
Eu ri, a primeira risada de verdade daquela noite, e me afastei para vestir a camiseta de volta.
Voltamos ao sofá da sala e Jake se acomodou por perto, em silêncio, atento demais para um cachorro que geralmente ficava relaxado. Do lado de fora, a cidade continuava indiferente. Dentro daquele apartamento, algo tinha se rompido e, ao mesmo tempo, se alinhado.
Eu sabia, com uma clareza quase cruel, que nada do que viesse depois seria simples. Mas também sabia que não havia mais espaço para fingir que aquela ligação entre nós era apenas passado.
Edward passou a mão pelo rosto, demorando mais do que o necessário.
— Isso aqui — ele disse, olhando em volta, mas sem realmente ver o apartamento. — Não é uma recaída, Bella. Eu preciso deixar isso claro.
Assenti, sentindo o peso da afirmação, e me preparando para o que vinha em seguida. Mas, nenhuma preparação foi o suficiente.
— Quando éramos mais jovens… — começou. — Usar alguma coisa era parte do ambiente. Festas, sets, noites longas. Nunca foi um problema, eu acho, era legal, todo mundo usava — fez uma pausa. — Agora é diferente.
Esperei. Não o apressei.
— Agora, toda vez que preciso silenciar o barulho da minha cabeça, recorro a alguma coisa — continuou.
Aquilo me atingiu de um jeito específico, porque eu sabia exatamente como era.
— Que tipo de coisa? — perguntei, com cuidado.
Ele assentiu, entendendo exatamente o tom.
— As mesmas coisas de sempre, claro, mas não só isso — respondeu. — E com mais frequência. Em doses que antes eu não precisava — ele me olhou de lado e o que vi naqueles olhos verdes fez meu coração sentir como se estivesse sendo torcido ao meio. Engoli em seco.
— Você já usava quando nos conhecemos — murmurei. — Mas não assim.
— Não — concordou. — Agora é uma espécie de muleta.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Tanya acompanha isso? — perguntei.
Ele soltou uma risada baixa, sem humor.
— Ela participa bem ativamente, se posso dizer assim. Hoje, por exemplo, ela queria transar e sabia exatamente o que me deixaria com vontade — respondeu, sem culpa alguma na voz. — Mas ela finge que não vê quando passa do limite. Desde que eu apareça bem em público, desde que cumpra o papel.
Aquilo não soou como uma acusação, soou mais como uma constatação cansada de alguém que reconhece o problema, mas não sabe o que fazer com isso. Eu, por outro lado, senti meu estômago balançar com a informação do que os dois tinham feito mais cedo e com a ideia de que estive a um passo de ir para a cama com ele.
— Hollywood ensina bem esse truque — murmurei. — Se funciona por fora, ninguém pergunta como está por dentro.
Edward me olhou com atenção.
— E você? — perguntou. — Onde você se anestesia?
A pergunta me pegou desprevenida, mas não fugi.
— Cigarros demais quando estou nervosa — respondi. — Acendo um baseado para desligar, para não pensar. Algumas garrafas de vinho a mais do que deveria — dei de ombros. — Não é destrutivo do jeito que o seu pode ser, mas também não é exatamente inocente.
Ele assentiu devagar.
— Faz sentido. Você sempre teve mais medo de perder o controle do que de sentir dor — observou.
— E você sempre teve medo de sentir qualquer coisa por muito tempo — devolvi, sem pensar muito.
Ele sorriu de canto. Um sorriso triste.
— Justo.
O silêncio voltou, mais pesado agora, enquanto ambos estávamos processando o que tínhamos dito. E então, algo me ocorreu e me trouxe uma fúria inesperada: se ele e Tanya usavam juntos, em casa, isso significava que faziam isso na presença da filha.
Tentei me acalmar, pensando que o Edward que eu conhecia jamais colocaria uma criança em risco, muito menos uma criança que ele sempre disse desejar tanto. Eles deviam ter várias babás, que a mantinham em segurança, e eu só não tinha visto nenhuma ainda, certo? Mas, ao mesmo tempo, aquele não era mais o Edward que eu conhecia.
— Vocês fazem isso com a Emerald por perto? — perguntei, mas soou muito mais como uma acusação.
O nome da filha mudou tudo. O corpo dele ficou tenso imediatamente.
— Ela é o limite — disse, firme. — Sempre foi. Eu sei até onde posso ir.
— Mas limites também podem ser cruzados sem intenção, especialmente quando você está sob efeito de algo que não tem controle — respondi. — Como vocês podem ser tão irresponsáveis, Edward?
Ele fechou os olhos por um instante e apertou a ponte do nariz, em um gesto que eu reconhecia facilmente. Ele estava pensando, escolhendo as palavras. Respirei fundo, sentindo a responsabilidade daquela conversa.
— Eu não quero ser cúmplice de algo que machuque uma criança — falei, quando ele permaneceu em silêncio. — Não importa o que eu sinta por você.
Edward virou o rosto para mim, sério demais agora, e elevou a voz. Estávamos entrando em um terreno perigoso.
— Você insinuou que estou machucando a minha filha?
— Não disse que está, mas você precisa admitir que existe um risco. Até onde pude perceber, Emerald não tem babá. Onde ela estava enquanto você e a mãe se drogavam para foder igual dois animais? — devolvi, no mesmo tom.
Edward não respondeu imediatamente. O silêncio dele não foi defensivo, nem explosivo. Foi um silêncio que parecia carregar cálculos, memórias, justificativas que já tinham sido usadas tantas vezes que perderam a força.
— Ela estava dormindo — disse, por fim. — No quarto dela. Com a babá eletrônica ligada.
Aquilo não me tranquilizou nem um pouco.
— Sono não é uma barreira mágica que a protege de tudo — respondi, a voz mais baixa agora, mas não menos firme. — Não quando você mesmo acabou de dizer que perdeu parâmetros.
Ele assentiu lentamente, como quem reconhece um argumento que já vinha sendo repetido dentro da própria cabeça.
— Eu sei — disse. — Eu sei que existe risco, e odeio que você tenha razão.
Não havia sarcasmo ali, nem uma tentativa de me desacreditar. Só um cansaço profundo.
— Eu não estou dizendo que você é um pai negligente, até porque não convivo com vocês para saber disso — continuei, respirando fundo. — Estou dizendo que o fato de você amá-la com todo o seu ser não neutraliza o perigo. E achar que conhece o limite, quando claramente isso já foi ultrapassado, é exatamente como as coisas começam a sair do controle.
Edward se inclinou para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar perdido em algum ponto do chão.
— Você acha que eu não penso nisso todos os dias? — perguntou. — Cada vez que acordo no dia seguinte e vou checar se ela ainda está respirando — engoliu em seco. — Eu nunca chego perto dela alterado, se isso é o que te preocupa — balançou a cabeça. — Mas sei que não é garantia de nada.
O reconhecimento veio como uma constatação e Jake se mexeu perto do sofá, soltando um suspiro longo, como se também estivesse cansado daquela noite.
— Controle é uma palavra confortável — eu disse — Dá a sensação de que alguém está no comando. Mas segurança exige mais do que uma ideia, sabe?
Edward me encarou de novo, com os olhos cansados.
— É por isso que isso aqui não é uma recaída — repetiu. — Porque se fosse só isso eu podia fingir que não significava nada, mas você está me obrigando a olhar para coisas que eu vinha ignorando.
— Eu não quero te salvar — respondi, com cuidado para não ser mal interpretada. — Nem quero ser mais uma justificativa para quando você quiser fugir.
Ele assentiu de novo.
— Você não pode me salvar, Bella.
— Eu sei — respondi, quase num sussurro. — E talvez seja exatamente por isso que isso aqui seja diferente.
Ele levantou o olhar devagar, atento.
— Diferente como?
Demorei a responder. Não porque não soubesse, mas porque a resposta exigia uma honestidade que eu vinha evitando há anos.
— Porque, pela primeira vez, eu não estou tentando ser uma solução ou anestesia pra você — falei. — E você não está me pedindo isso. Estamos só… olhando para o que é. Sem fantasias.
Edward passou a língua pelos lábios, pensativo.
— Sempre que alguém tenta me salvar — disse. — Eu deixo. Mesmo sabendo que não vai funcionar. É confortável. Tira a responsabilidade das minhas mãos por um tempo.
Assenti. Aquilo também me contemplava.
— E eu sempre aceitei carregar responsabilidades que não eram minhas — acrescentei. — Porque parecia mais fácil do que encarar as minhas próprias escolhas.
Foi aí que o silêncio mudou de textura. Não era mais carregado de tensão ou desejo, mas de algo mais cru e íntimo: reconhecimento. Como se, finalmente, estivéssemos falando do mesmo lugar.
Edward encostou as costas no sofá, exausto.
— Talvez seja por isso que isso não pareça uma recaída — disse. — Não tem fuga aqui. Só… lucidez. E é desconfortável pra caralho.
E então a conversa seguiu, naturalmente, para o que vinha sendo evitado há tempo demais.
— Para onde vamos depois daqui, Bella?
A pergunta não tinha cobrança, nem expectativa. Era mais um pedido de orientação num terreno que nenhum dos dois reconhecia mais.
Demorei a responder. Não porque estivesse calculando a melhor saída, mas porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não queria mentir para tornar a resposta mais suportável.
— Não sei — admiti. — E acho que essa é a única coisa realmente honesta que posso te dar agora.
Edward assentiu devagar, como se já esperasse isso.
— Parte de mim queria que você dissesse que “vamos resolver” — confessou. — Mas sei que essas frases costumam ser atalhos para continuar do mesmo jeito.
— Eu não quero mais atalhos, Edward — respondi, e me aproximei um pouco dele, sentindo falta do contato que tivemos no início da noite. — Passei tempo demais pegando caminhos que pareciam mais curtos e só me deixaram mais cansada.
Ele respirou fundo, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Eu também. Só não sei ainda como andar sem eles.
O céu do lado de fora já estava claro o suficiente para denunciar o fim da noite. A cidade acordava aos poucos, como se nada tivesse acontecido dentro daquele apartamento. Como se o mundo não tivesse se deslocado alguns centímetros do eixo.
— Talvez o “depois daqui” não seja um lugar — eu disse. — Mas um estado. Sem fingir que está tudo sob controle só porque ainda está funcionando.
Edward ergueu o olhar para mim e um silêncio se instalou, menos pesado, mas mais definitivo. Não havia mais tensão física entre nós. O desejo ainda existia, claro, mas estava sendo contido por algo maior: a consciência de que qualquer toque agora carregaria consequências que nenhum dos dois estava pronto para sustentar.
— Você percebe que, depois dessa conversa, nada volta a ser exatamente como antes? — ele perguntou.
— Claro que sim — respondi. — E estou disposta a encarar isso.
Jake se levantou novamente, se espreguiçou e foi até a porta, como se avisasse que a noite tinha oficialmente acabado. O mundo exigia retomada. Responsabilidades. Papéis.
Edward desviou o olhar para o espaço ao redor. Pequeno, neutro demais para alguém que realmente morasse ali. Um lugar construído para não deixar rastros.
— Ninguém sabe daqui, mesmo? — perguntou.
— Ninguém — confirmei. — Foi a condição para ele existir.
Ele assentiu, entendendo mais do que eu tinha dito. Aquilo não era só sobre privacidade. Edward se levantou, passou a mão pelo rosto, os dedos demorando um pouco mais do que o necessário sobre os olhos.
— Eu preciso ir — disse. — A Emmie acorda cedo. E… — ele fez uma pausa breve — A Tanya vai perceber que passei a noite fora.
Não havia acusação na forma como ele falou o nome dela. Só constatação.
— Eu também preciso voltar — respondi. — Receber o tratamento de silêncio da Irina não é exatamente o que eu queria para hoje, mas vamos lá encarar nossas consequências.
O espaço entre nós pareceu se ajustar a essa realidade compartilhada. Duas vidas paralelas, sólidas demais para serem ignoradas, frágeis demais para serem tratadas como obstáculos abstratos.
Ficamos ali por um instante longo demais para ser casual, curto demais para ser indulgente. Olhando um para o outro como quem memoriza.
— Eu queria te beijar, mas acho que isso vai contra tudo que falamos, né? — ele riu, tentando quebrar o gelo.
— É melhor não — concordei.
Edward pegou a jaqueta, abriu a porta, parou por um segundo, me lançou um último olhar — cansado, lúcido, perigosamente presente — e saiu.
Fechei a porta atrás dele e o apartamento voltou ao silêncio que sempre teve. Seguro. Anônimo. Temporário.
Eu sabia que aquela história precisava, deveria, terminar ali.
Mas isso não significava que eu queria que terminasse.
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