Notas iniciais
Oi, gente! A falta de tempo me impediu de postar o capítulo antes, mas aí esta. Espero que gostem. Boa leitura!

— Mãe!

O grito estridente ecoou pelo recinto, me atingindo como se eu tivesse levado um segundo soco.

Fiquei paralisada, congelada na mesma posição que estava antes, a mão ainda em um aperto no coração da vampira, e apenas minha expressão facial se alterou totalmente. O choque a transformou em uma careta assustada de olhos arregalados.

— O que está acontecendo aqui?!

Aquela voz fina e infantil continha traços evidentes de medo, e aquilo transpassou meu peito como uma lâmina afiada, me tirando da paralisia. Girei o corpo rapidamente, e meus olhos encontraram a figura pequena e assustada de meu filho, que estava parado na porta, com uma das mãos ainda na maçaneta.

Minha boca se abriu e se fechou várias vezes, e minha mente trabalhou com força total, tentando encontrar palavras para me explicar ao garoto, ou até mesmo algo que pudesse dizer para tirar aquela expressão horrorizada de seu rosto. Mas por mais que eu tentasse, não encontrava sequer uma frase digna, nada que parecesse coerente e aceitável. Percebi que o que eu estava fazendo era simplesmente inaceitável. Horrendo. Cruel e monstruoso. Pelo menos para um garotinho de onze anos.

Ele me encarava de volta, o choque nunca deixando seu rostinho inocente. De inicio, pensei que ele estava esperando que eu respondesse sua pergunta, mas então percebi que, assim como eu, ele também não tinha palavras. Mas por uma razão totalmente diferente. Enquanto eu sentia a culpa e o remorso começarem lentamente a corroer meu peito, ele estava mudo de medo. Aquilo era o pior de tudo.

— Henry... — consegui finalmente sussurrar, minha voz como um fiapo rouco. Eu ainda não havia conseguido me mexer, continuava na mesma posição de antes, com o coração da vampira na mão. — O que faz aqui?

Os olhos do menino desceram de meu rosto para minha mão estendida à frente, e ele se encolheu. Meu próprio olhar deslizou para o coração que eu segurava, e senti meu rosto queimar de vergonha diante do meu filho. Abaixei a mão que segurava o órgão, mas ainda não tinha muita noção do que eu deveria fazer.

— Emma saiu com Mary Margaret e David — Henry finalmente respondeu à minha pergunta. — Ela ia me deixar na sua casa, mas você não estava lá, então ela pediu pra que eu ficasse com Ruby.

A menção do nome da loba me fez lembrar de que ela também estava no recinto. O garoto correu para dentro, indo direto para os braços da jovem que ainda continuava no lugar onde eu a havia visto antes, ao lado do reservado onde minha inimiga estivera sentada. Ela envolveu o corpo de Henry em um abraço protetor, seus longos cabelos negros e vermelhos cobrindo parcialmente o rosto dele até que ela fizesse um gesto com a cabeça para afastá-los para trás. Seus olhos encontraram os meus, sondando-me misteriosamente com uma expressão neutra que, estranhamente, fez com que eu me sentisse nua e exposta. Eu não deveria sentir vergonha de meus atos por ninguém mais além de meu filho, mas por alguma razão, não me senti confortável ao pensar que Ruby Lucas havia presenciado um ato de extrema maldade de minha parte.

Um silencio opressor imperou no ambiente naquele momento, e continuou assim por alguns longos e torturantes segundos em que apenas nos encaramos, enquanto Henry mantinha o rosto escondido no abraço da garota. Finalmente, me dei conta de que ainda segurava o coração da vampira, e que ela continuava presa na parede. Com um movimento brusco, me virei para ela, olhando para o seu rosto sem expressão alguma, e mergulhei outra vez minha mão em seu peito. Ela ofegou, mas eu logo puxei o braço, deixando seu coração no devido lugar. Afastei-me devagar, de costas, enquanto levantava a mão direita em um gesto vago para as raízes das plantas que haviam saído do papel de parede. Obedecendo-me, elas outra vez deslizaram lentamente, agora contornando o corpo, voltando para seus devidos lugares, até que a mulher estivesse livre. Ela cambaleou para frente, respirando fundo, e colocou as duas mãos sobre o local de onde eu havia retirado seu coração. Quase como se checasse se tudo estava no lugar, ela apalpou o peito, com o medo e a confusão claramente estampados em seu rosto.

Continuei caminhando para trás até sentir a parede da porta de saída em minhas costas. Voltei meus olhos para Henry, que havia virado a cabeça um pouco, apenas o suficiente para olhar para mim de esgueira, um olhar magoado. Meus olhos com certeza demonstravam a angústia que eu sentia ao imaginar a ideia que ele fazia sobre mim no momento, mas eu não tinha como expressar aquilo de outra forma.

— Eu sinto muito — murmurei apenas, olhando fixamente para ele, e enquanto estava saindo porta afora, meus olhos inconscientemente passaram pelo rosto da moça que o segurava. Contrário ao que eu queria sentir realmente, eu também sentia muito por ela ter visto meu pior lado, apenas no dia seguinte à ela ter salvado minha vida. Ela ainda não demonstrava qualquer tipo de reação quando eu finalmente desviei o olhar, correndo para o carro, fugindo, mas não conseguindo me esconder da vergonha e da humilhação.

Ruby:

Com os braços firmemente envoltos na forma pequena de Henry, assisti a saída abrupta de Regina completamente paralisada. A porta de vidro se fechou com força; e depois que o vidro parou de balançar, não se ouvia qualquer som a não ser o barulho da respiração irregular da vampira. Encarei o local por onde Regina havia fugido por um tempo que me pareceu longo, mas que poderiam ser apenas segundos. Eu não saberia dizer.

Finalmente, os barulhos da mulher tentando se recompor começaram a ser registrados na minha mente. Girei a cabeça, encontrando-a levemente encolhida, os joelhos dobrados com uma mão apoiada neles, enquanto ela tomava grandes golfadas de ar. Ela tinha a outra mão sobre o peito, e seus olhos estavam tão arregalados quanto na noite anterior – exceto que, dessa vez, a íris não estava negra de sede, mas sim completamente verde. A expressão no seu rosto era de completo choque.

— Você está bem...

— Estou ótima — Ela respondeu antes mesmo que eu pudesse terminar de falar. Mas contrariando o que afirmava, sua voz era estrangulada. Ela aos poucos foi ajeitando a postura, e sua respiração era cada vez mais controlada. Apesar disso, continuava com a mão no peito, os dedos crispados no local de onde momentos antes seu coração fora arrancado.

Senti Henry se mexer em meus braços. Ele também encarava a vampira. Seu rosto era uma máscara que eu não conseguia decifrar. Apenas a palidez denunciava o choque pelo qual ele também deveria estar passando. Ver essa expressão adulta demais no rosto inocente de criança foi algo surpreendentemente doloroso. Apertei um pouquinho o abraço.

— Então... — A voz interrompeu meus pensamentos, e eu voltei a atenção outra vez para sua dona. — Será que alguém nessa sala vai fazer o favor de me explicar o que foi que acabou de acontecer aqui?

Essa foi a pergunta, e seus olhos de repente se cravaram no meu rosto como se exigissem explicação unicamente de minha parte.

Eu suspirei. Soltei Henry e fiz com que girasse para ficar de frente comigo. Me abaixei em meus joelhos e segurei em seus ombros firmemente, mantendo o olhar diretamente no seu.

— Henry, acredito que Granny poderia muito bem usar uma ajudinha com as lasanhas lá na cozinha. Não quer fazer esse favor?

— Ruby — Ele me encarou, e antes mesmo de falar, eu me senti muito boba pelo que disse. Mas deixei que continuasse. — Eu não sou mais um bebê. Eu vi o que aconteceu. Você não precisa tentar me proteger.

Abri a boca, mas estava aflita demais, e não soube o que dizer. Mas eu tinha que tentar.

— Eu sei... Henry, eu sei, desculpa. Mas mesmo assim, não tenho como evitar... Eu preciso te proteger. Preciso tentar, pelo menos. Por favor, vá até a cozinha. Preciso conversar com a Srta. Picard a sós. Por favor — acrescentei mais uma vez, diante de seu olhar reprovador.

Ele estava pronto para relutar, é claro, mas também era uma criança compreensiva. Finalmente balançou a cabeça, se resignando. Ver seus olhos tristes baixando ao chão foi outra vez doloroso, mas eu dei algo que talvez possa ser definido como um sorriso de canto, bagunçando seus cabelos em um gesto carinhoso. Ele olhou para mim outra vez antes de correr para a cozinha, e eu fiquei a encarar a porta por onde ele entrou por mais algum tempo, o coração pesado dentro do peito.

Finalmente me levantei, ajeitando o avental por cima do shorts e alisando dobras inexistentes na mini blusa que vestia. Era apenas uma ocupação banal para as mãos e os olhos, quase como um tique nervoso que eu tive desde sempre, algo apenas para me ocupar e adiar o momento em que teria que enfrentar o olhar da vampira. Mas a energia negativa que emanava dela era grande demais para ser ignorada por muito tempo. Parecia até algo tangível. O pigarreio que ela deu em seguida também não foi nada discreto. Suspirei outra vez. Aquela criatura parecia ter o poder de provocar muitos dos meus suspiros – e isso nunca teve uma conotação tão ruim quanto nesse momento.

— Então... — Ela começou, mas eu não a deixei continuar. Uma irritação muito grande começava a brotar dentro de mim. Talvez eu não conseguisse me controlar.

— O que quer que eu explique, vampira? Não tem nada para explicar aqui. Você já viu com os seus próprios olhos, teve sua própria experiência com Regina. Acho que não pode haver mal entendidos depois de toda essa cena.

— Quem é aquela mulher? — Ela perguntou, sua voz ficando inacreditavelmente ainda mais fina. Ela não parecia notar minha irritação. Pelo contrário, parecia ávida por informações. — O que ela é? E quem ela pensa que é?

— Ela é a prefeita. E a mulher mais poderosa que eu já conheci. Mas você não deveria estar surpresa. Acredito que ouviu tão bem quanto eu os avisos dela. Você não sabe a sorte que tem por ainda estar viva. A lista dos que sobreviveram à Evil Queen não é grande, pelo que eu sei.

Ela bufou, revirando os olhos, mas ignorou tudo o que eu disse. Bem – tudo, menos a última parte.

— Evil Queen? O que quer dizer com isso? Ela é um tipo de... rainha? Uma bruxa ou algo do tipo?

Eu não deveria ter dito isso. Não é a coisa mais inteligente sair por aí revelando nossas identidades a estranhos que apareciam misteriosamente na cidade. Mas, afinal, Regina não fora muito discreta mais cedo. E depois, aquele monte de pergunta me soava tão infantil, e estava me irritando. O que essa informação teria de perigosa, nessa altura dos fatos?

— Sim, ela é a rainha, e uma rainha que pratica magia negra das mais poderosas. Você teve sua amostra. Aqui, somos todos seus súditos, e nossa rainha não costuma ser misericordiosa.

— Eu não ligo para a misericórdia da sua rainha, queridinha — Ela parecia ter voltado ao seu modo “líder de torcida nojenta”, e eu me segurei muito para não revirar os olhos com o seu tom de voz. — Não estou pedindo por isso. Estou pedindo pra ela dar o melhor dela, se for capaz. Isso não acabou. Não sei que tipo de magia do mal foi essa que ela usou em mim, mas isso não vai ficar assim. Não vai mesmo.

— Você tem algum tipo de atraso mental? Ter o coração fora do peito em frente aos seus olhos não foi aviso suficiente pra você? — Minha voz estava levemente alterada. Sentia a ponta dos dedos formigando, e relembrar a cena de Regina jogando aquela criatura longe me fez ter vontade de ter poderes desse tipo. Ou, no mínimo, eu estava muito afim de dar um tapa bem dado naquele rosto cínico. — Você não tem chance aqui. Regina Mills vai acabar com a sua vida antes mesmo que você possa dar-se conta disso. Você pode ter visto a Regina vulnerável de ontem a noite, mas saiba que isso raramente acontece. Hoje você teve a prova da verdadeira Regina. Poupe seu esforço. Se está difícil resistir a esse impulso suicida, sente-se aqui e eu mesma chamo a prefeita pra terminar o que começou hoje mais cedo.

A mente rápida – apesar de distorcida – da vampira logo captou minhas palavras, e eu pude quase ouvir a dúvida se plantando ali. Outra vez eu acabei falando demais. Droga. Mas eu não daria sinais disso. Encarei-a enquanto ela me encarava de volta cheia de desconfiança, e a desafiei com o olhar a suspeitar de que eu era a loba da noite anterior.

Ela deu alguns passos lentos em minha direção. Sua aproximação chegou a mim como uma brisa gelada – como quando a gente aproxima os dedos de uma pedra de gelo recém tirada da geladeira. A criatura realmente parecia uma pedra de gelo – tanto por dentro quanto por fora. Ela parou a trinta centímetros de distância do meu rosto, os olhos estreitos estudando minhas feições. Não iria encontrar nada ali.

— Você ainda não viu nada, meu bem. Vá lamber os pés da sua rainha, cadelinha, se é só isso o que sabe fazer tão bem, mas saiba que em mim, ninguém manda. Passar bem.

Antes que o seu hálito gelado chegasse ao meu rosto, ela se foi – tão rápido que eu não consegui ver para onde nem para que lado. E mesmo após ter ido embora, sua presença ruim continuava pairando no local. Era arrepiante. Mas eu mal sentia. A raiva era grande e toldava minha visão, deixando tudo meio avermelhado.

Por que eu sentia que o desafio feito à Regina também era da minha conta? Eu não sabia dizer, e não conseguia interpretar essa sensação, mas eu não ignoraria. Eu não era acostumada a fugir do campo de batalha.

Notas finais
E aí, o que acharam? Comentem, por favor, galera! É muito importajnte pra mim saber se estão gostando ou não. Beijos! []